como sobreviver submerso.

Terça-feira, 14 de Junho de 2016
Obama e o atentado de Orlando

A resposta timorata de Barack Obama ao atentado terrorista de Orlando, evitando relacioná-lo com o Islamismo radical e parecendo atribui-lo exclusivamente à perturbação de uma única pessoa, parece demonstrar que ele ainda não entendeu ser componente essencial do modus operandi do Daesh no Ocidente (e em particular nos Estados Unidos, geograficamente distante dos países onde tem presença militar) o uso de indivíduos perturbados a cujas vidas confere sentido. Ainda que tal não seja verdade e os cuidados de linguagem procurem apenas - por razões tácticas e/ou de convicção - evitar a ideia de que existe uma guerra de civilizações, há momentos em que, não apenas por respeito às vítimas e aos seus familiares, mas também por necessidade de garantir aos cidadãos que se está consciente do grau e das características da ameaça, a ambiguidade é um erro. Estranhamente, Hollande percebeu-o. Obama, não. Donald Trump já está a capitalizar.



publicado por José António Abreu às 15:01
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2015
Pois é, as boas acções são mais fáceis com o dinheiro dos outros
Obama manobrou para que os países da Zona Euro perdoassem dívida e enviassem mais dinheiro para a Grécia mas recusa-se a ajudar Porto Rico, que acaba de entrar em incumprimento.


publicado por José António Abreu às 11:00
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
Fugas e perfis
As fugas podem trazer problemas ao governo americano, é verdade. Há líderes árabes que prefeririam continuar a passar por inimigos dos americanos enquanto os incitam a atacar o Irão e há governantes europeus com egos inversamente proporcionais à sua estatura física (cof, Sarkozy, cof, Putin) que não devem ter gostado de se ver retratados da forma como o foram. Mas sejamos honestos: onde é que estão as surpresas em tudo isto? Certamente que não no facto de os americanos procurarem obter o máximo de informações sobre toda a gente, incluindo aliados. Certamente que também não na constatação de que a animosidade entre países do Médio Oriente é pelo menos tão grande quanto entre alguns destes e as nações do «Ocidente» (só almas incapazes de maus pensamentos e muito, muito distraídas podem ainda defender o contrário). Para quem se encontra minimamente a par do modo como, ao longo de décadas, os serviços secretos (americanos e não só) conseguiram de forma espectacularmente brilhante permitir a fuga de informação classificada e acrescentar poucas ou nenhumas novidades relevantes e verdadeiras àquilo que já se sabia (i.e., conseguiram obter informações verdadeiras mas que não eram relevantes e informações relevantes que não eram verdadeiras* mas raramente ambas as coisas em simultâneo), a surpresa também não residirá no facto das informações agora reveladas terem vindo a público nem no de serem tão inesperadas quanto a ocorrência de gripes no Inverno. Assim de repente, a única verdadeira e pequenina surpresa talvez esteja mesmo na circunstância dos perfis, apesar de banais, parecerem acertar em cheio. E, para alguns, no facto da administração do «salvador» e «diferente» Obama não ser afinal assim tão diferente. Nem ele, pelo menos até ver, ser salvador de coisa alguma.
 
* Um exemplo: a existência de armas de destruição maciça no Iraque.


publicado por José António Abreu às 13:25
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Sábado, 20 de Novembro de 2010
Presidentes americanos

Via Obama subir as escadas do Air Force One ainda de noite e depois descê-las, já de dia, e pensava que há pelo menos uma coisa de que gosto nos presidentes americanos: por muito encenados que sejam os seus gestos e muitas camadas de protecção os separem do cidadão comum, mantêm sempre uma aparência de falta de presunção, de acessibilidade, que os políticos portugueses (e não apenas os políticos mas todas as pessoas com algum poder, real ou imaginado) bem podiam copiar.



publicado por José António Abreu às 00:14
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
Guerra e Paz
Obama explicou a necessidade da guerra ao receber o Prémio Nobel da Paz. Meteu lá pelo meio Luther King e Mandela e frases destinadas a suavizar a mensagem mas ela não deixou de ficar clara: os Estados Unidos querem a paz mas não hesitarão em fazer a guerra para a conseguir, se a isso forem obrigados. Pela primeira vez, admirei a coragem e frontalidade do homem (há outros aspectos que eu já admirava). Divertido é ver como alguns dos seus apoiantes mais à esquerda (Mário Soares, por exemplo) assobiam para o lado e continuam a assegurar que ele é um símbolo da paz – daquela que não admite a guerra em qualquer circunstância – e que até o envio de mais 30 000 militares para o Afeganistão (uma medida de eficácia dúbia mas cujo sucesso seria fundamental para todos nós) é uma espécie de passo à frente que prepara uma corrida para trás. O discurso de hoje não foi no estilo daqueles que o tornaram famoso. Não empolgou, não criou ilusões. Foi sensato e realista. Foi, apesar de algum excesso de retórica (uma marca que ele parece não conseguir evitar), excelente.


publicado por José António Abreu às 22:18
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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Nobel da Paz, take 2

Tudo indica que Barack Obama é um homem sensato e bem intencionado. Ambos os factores são positivos mas não decisivos para que venha a ser um grande presidente americano. É ainda cedo para avaliar a presidência de Obama. E é também demasiado cedo para que ele receba o Nobel da Paz . O comité diz que a presidência de Obama permitiu avançar na direcção de um mundo sem armas nucleares e dar um novo impulso às questões ambientais. O primeiro ponto é um exagero (o tratado com a Rússia é positivo mas está longe de permitir pensar num mundo sem armas nucleares e, para mais, é puramente instrumental*) enquanto o segundo está por consolidar. Elogia ainda a forma como ele conseguiu alterar o clima político internacional. É um facto que o «clima» se alterou mas isso deveu-se mais à saída de Bush do que à entrada de Obama. E, por si só, o «clima» é pouco importante: todas as situações verdadeiramente problemáticas subsistem, com Afeganistão, Irão e Coreia do Norte no topo da lista. O comité Nobel pretenderá talvez dar um sinal aos líderes desses países, dizer-lhes: «Negoceiem porque estão sozinhos; este homem tem o apoio do Mundo.» É uma estratégia arriscada. Imagine-se que Obama dá ordens para intensificar os combates no Afeganistão, aceita incursões de forças americanas no Paquistão, fecha os olhos a ataques israelitas a reactores nucleares iranianos. (Já para não mencionar uma possível reacção a um novo atentado em solo americano.) Como reagirá o comité Nobel? Continuará a apoiá-lo ou dirá «Ooooops, parece que nos enganámos»? Ou esperará que, tendo recebido o Nobel, ele hesite em estilhaçar a imagem de grande conciliador e nunca assuma posições polémicas? Seria preciso muita sorte para um presidente americano, numa época tão complexa como a actual, passar um mandato inteiro sem enfrentar decisões difíceis e impopulares. E seria péssimo que as evitasse por questões de imagem. Há ainda a questão não resolvida de Guantánamo e sinais preocupantes como a recusa em receber o Dalai Lama.

 

Obama até poderá vir a merecer o prémio Nobel. Aliás, esperemos que sim. Mas, por enquanto, é cedo.

 

*Na medida em que permite a ambos os países poupar dinheiro e a Obama surgir perante o Irão e outros países com ambições nucleares como o grande «pacifista».



publicado por José António Abreu às 15:03
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O poder dos discursos

Nobel da Paz atribuído a Barack Obama. Uau. Duplo uau. Se ontem os louros de Estocolmo tinham passado a ideia de que os nórdicos detestam os americanos, hoje os louros de Oslo provam que há um americano que eles adoram. Exactamente o que é que ele fez para merecer o prémio? Who cares

 

Definitivamente, yes he can. E se não puder, quem é que alguma vez poderá?



publicado por José António Abreu às 10:40
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Obama: vamos ser amigos?

O discurso de Obama na universidade do Cairo é, como de costume, excelente. Mas é também um portento de compromissos. Vamos por partes.

 

Quase toda a gente estava farta de George W. Bush e de quem o rodeava. Eu incluo-me nesse vasto grupo. Obama surgiu como a alternativa simpática, culta, carismática, conciliadora. Elevou - propositada ou inadvertidamente - a  fasquia para um nível impossível de saltar. No discurso de tomada de posse deixou claro que era necessário baixá-la. Apesar disso, ainda é visto como o potencial salvador do mundo (mais na Europa que nos Estados Unidos).

 

Tendo definido uma estratégia de charme (ou, se quiserem, de cenoura e pau, com muito mais cenoura que pau), tem tentado fazer a quadratura do círculo: convencer todos da sua boa vontade (que existe), da sua disposição para dialogar (que é real), da sua abertura para aceitar soluções que não as defendidas tradicionalmente pelos EUA - que não pode ser genuína porque há certos princípios que Obama (e outros, como os líderes dos países da UE) não pode deixar de defender. Um exemplo: no Cairo, ele mencionou os problemas no acesso das mulheres à educação em países islâmicos nos seguintes termos: "não acredito que uma mulher que use véu não seja igual, mas acredito que uma mulher a quem é negada educação não é igual". É uma formulação inteligente mas é também quase acrítica e totalmente inconsequente. Por enquanto, neste como em muitos outros assuntos, ele pode ainda dar tempo ao tempo. Mas, mais tarde ou mais cedo, se não se verificarem - como é provável que não se venham a verificar - evoluções positivas nas questões mais importantes (p. ex., Palestina, Irão e Paquistão) terá que tomar posições mais claras. De acordo com a The Economist, o primeiro-ministro israelita, aquando da visita a Washington, tentou arrancar-lhe um prazo para uma decisão acerca da estratégia a adoptar na questão iraniana. Obama terá sido evasivo, acabando por declarar que no final do ano já deverá ter uma ideia acerca do que é possível conseguir junto do regime iraniano. Talvez na mesma altura já saiba como abordar a questão da Palestina. Ou as ameaças (que, na realidade, parecem mais ridículas que perigosas) da Coreia do Norte. Ou a situação no Paquistão. Ou as questões dos direitos humanos em vários pontos do globo (cuidadosamente contornadas no discurso do Cairo). Ou como lidar com a Rússia. A estratégia de cordialidade, com oferta de amizade a todos os antigos inimigos, necessita de muito tempo e funcionaria melhor se os países visados tivessem uma opinião pública que fosse verdadeiramente importante (e, como quase todos aprendemos na escola, raramente se transforma o rufia da turma num gajo porreiro cortejando-o no recreio). Pergunto-me se estaremos tão satisfeitos daqui a um ano ou ano e meio se nada evoluir ou, pior, se as coisas se agravarem no Paquistão, ocorrer um novo atentado grave na Europa ou nos Estados Unidos, ou Israel atacar reactores no Irão. E se ele (terá coragem?) mudar de estratégia, quais serão as reacções? Todos sabemos quão rapidamente o amor se tranforma em ódio...

 

Para já, merece o benefício da dúvida. E é um excepcional orador, o que, para quem gosta tanto de palavras como eu, é uma qualidade assinalável, em especial quando em Portugal estamos sujeitos a Sócrates (por mais que ele tente colar-se ao estilo Obama) e a Ferreira Leite.



publicado por José António Abreu às 18:09
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