como sobreviver submerso.

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Ao lado do centro

No União de Facto, Bernardo Pires de Lima escreveu após o debate televisivo entre José Sócrates e Paulo Portas que, num país normal, aquele teria sido o debate entre os líderes dos dois maiores partidos. É verdade. As diferenças ideológicas entre o PSD e o PS são ténues. Ao longo de décadas, os portugueses pareceram gostar disso e nem o CDS se atreveu a apresentar ideias muito diferentes (houve até uma altura em que o CDS se assumiu como o partido da "equidistância", um conceito absurdo quando se olha para o beco estreito que são as diferenças entre PSD e PS). Nestas eleições, os partidos fora do que Paulo Portas gosta de chamar “o centrão” usaram uma estratégia diferente. A crise financeira animou uma esquerda já antes bastante ideológica: o Bloco e o Partido Comunista não se coibiram de falar em nacionalizações e em taxar tudo e mais alguma coisa (não sei se inventámos a máquina do tempo e recuámos umas décadas, se a máquina do teletransporte e fazemos agora parte da América Latina). Mas também o CDS arriscou discutir assuntos como o papel do Estado em sectores como a educação e a saúde, as prioridades nas prestações sociais, a colocação de portagens nas SCUTs ou a política de impostos. Ao mesmo tempo, Bloco e CDS assumiram, na pose e no discurso, uma ambição cada vez maior. É verdade que, como Pacheco Pereira dizia há semanas num debate na RTP-N, todos os partidos querem os votos todos mas, num país conformista, anestesiado e avesso ao risco, costumava ter-se a sensação de que os dois maiores tinham mais de 70% dos eleitores presos num redil. No domingo passado descobriu-se que menos de 66% lá permanecem. Sendo improvável que o país caminhe da depressão para a felicidade antes que se verifique a necessidade de novas eleições, tenderão PSD e PS a reforçar componentes ideológicas (assumindo que o albergue espanhol em que se tornaram o permite), deslizando o primeiro para a direita e o segundo para a esquerda (como o PS fez nos últimos meses e em especial durante a campanha, num esforço desesperado e instrumental para esvaziar o BE), ou continuarão a procurar agradar a gregos e troianos, correndo o risco de verem os partidos mais pequenos aumentarem pelo voto dos que, por crescente desilusão, se forem deixando convencer da necessidade de políticas mais definidas? É claro que o crescimento do CDS e do BE vai também depender do que cada um fizer nos próximos tempos. E aqui a posição do BE é mais fácil. Não tem deputados para formar maioria com o PS e está livre para prosseguir o seu caminho de contestação e capitalização do descontentamento. Contudo, baseia-se numa ideologia que pode ser facilmente desmontada como irrealista e catastrófica para a economia (Portugal, talvez por estar tão longe dos países que ficaram do lado errado da "Cortina de Ferro", é o único país da Europa Ocidental onde quase 20% dos eleitores ainda acreditam no comunismo), e disputa votantes com um partido que sabe excepcionalmente bem fingir-se mais de esquerda ou mais de direita, consoante as conveniências. Já o CDS tem um delicado balanço pela frente. Por um lado, não deve adoptar a mesma estratégia destrutiva (muitos dos que votaram nele não o entenderiam); por outro, não pode de forma alguma transmitir a sensação de que está a ceder perante o PS (muito mais votantes se sentiriam traídos). Tem ainda que levar em conta o posicionamento do PSD depois da previsível mudança de liderança mas dificilmente o PSD se permitirá "assustar" os eleitores do centro virando demasiado à direita (o PSD está obrigado a um balanço ainda mais difícil e só a máquina partidária, a força autárquica, o "clubismo" de alguns eleitores e o voto "útil" lhe garantem resultados pelo menos honrosos). Para o CDS ter esperanças de continuar a crescer necessita de munir-se de muita paciência (não costumava ser o ponto forte de Paulo Portas), fazer uma oposição firme mas bem fundamentada e explicar todas as posições que tomar. E aguardar que, à medida que a situação do país se agravar (é duro ter de escrever isto mas não creio que, mesmo com o final da crise internacional e com os megalómanos projectos de obras públicas, a situação económica vá melhorar nos próximos tempos), mais e mais pessoas comecem a não aceitar respostas em meias tintas e, apesar de todas as fidelidades que o peso do Estado e da resignação consegue comprar, ponderem outros sentidos de voto que não no PS ou no PSD. A incapacidade que ambos têm revelado para reformar o Estado em vez de se servirem dele pode começar finalmente a custar-lhes caro. Em especial ao PSD, empenhado na sua ideologia esquizofrénica de tentar a quadratura do círculo (ou achavam que o título do programa do Pacheco Pereira tinha sido escolhido apenas por ser uma expressão bonita?).



publicado por José António Abreu às 13:00
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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
O futuro próximo

Vai ser muito interessante ver se Sócrates conseguirá passar de “animal feroz” a “negociador”. As medidas “panfletárias” passarão naturalmente com o apoio do BE e da CDU mas tudo o que é substancial para o crescimento do país terá que ser negociado à direita. O PSD é uma incógnita (Pacheco Pereira apressou-se ontem a dizer – mal – que o PS não pode contar com os sociais-democratas mas a verdade é que tanto ele como Manuela Ferreira Leite serão irrelevantes dentro de algumas semanas) e, no CDS, Paulo Portas correrá um sério risco de alienar os quase seiscentos mil eleitores que confiaram no CDS (e parece que isto não era descabido) se viabilizar medidas do governo sem contrapartidas claras (que Sócrates não vai querer conceder para não abrir guerras internas com quem no PS possui fortes anticorpos ao CDS – notem-se as declarações de Ana Gomes ontem à noite – e por não ter interesse em ver o partido puxado para a direita, abrindo espaço para o crescimento do BE e do PC). Com o receio de eleições antes do final normal da legislatura, teremos provavelmente governação adiada em muitas áreas. Exactamente o oposto do que um país em dificuldades necessita.

 

Cavaco Silva saltou de pára-quedas para o centro de uma guerra e não é certo de que esteja sequer armado.



publicado por José António Abreu às 08:34
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Domingo, 27 de Setembro de 2009
Passado e futuro

PS - 36,11%; PSD - 27,24%; APU (ex-CDU) - 18,07%; CDS - 12,56%.

Quando? Em 25 de Abril de 1983. Somem-se os votos da CDU com os do BE e as diferenças são quase irrelevantes. Em 1983 tínhamos saído da ditadura há nove anos e do PREC há cerca de sete. Em 2009, ambos já ocorreram há mais de trinta.

 

Os próximos tempos vão ser interessantes (como será Sócrates a governar sem maioria absoluta? como evoluirão as relações entre Belém e São Bento? como se comportarão os partidos da oposição com capacidade para viabilizar medidas do governo?) mas provavelmente maus para o país. A verdade é que já estamos habituados à segunda parte.



publicado por José António Abreu às 22:15
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Sábado, 26 de Setembro de 2009
Um minuto para a meia-noite

#$%/&#§£$#@!!! Acabo de ter conhecimento de um facto capaz de destruir a campanha do Partido Socialista e já não tenho tempo para o expor antes de se atingir a meia-noite e começar o período de reflexão.

 

Talvez se for rápido: o Partido Socialista é



publicado por José António Abreu às 00:00
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Estico o dedo e digo: concordo com ele

Estava capaz de plagiar o Pedro Mexia. Mas se calhar basta a hiperligação (até porque acho espectacular ter uma hiperligação – "hiper" como em bué da grande e forte pra caraças ao Pedro Mexia, de quem descobri recentemente saber um poema de cor, o que aumenta o número total para quatro).



publicado por José António Abreu às 23:43
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Traição

O livro recebeu essas homenagens sem que ninguém previsse a tempestade que iria rebentar alguns meses mais tarde, quando o Senhor do Irão, o Íman Khomeiny, condenou Rushdie à morte por blasfémia […].

Isto aconteceu antes de o romance poder ser traduzido. Por toda a parte, fora do mundo anglo-saxónico, o escândalo precedeu, portanto, o livro. Em França a imprensa publicou imediatamente extractos do romance ainda inédito a fim de dar a conhecer as razões do veredicto. Comportamento absolutamente normal, mas mortal para um romance. Apresentando-a exclusivamente por meio das passagens incriminadas, transformou-se, desde o início, uma obra de arte em simples corpo de delito.
  
Os excertos não são apenas mortais para um romance. São sempre uma distorção e, com frequência, mortais para a mensagem completa. Os excertos de Os Versículos Satânicos só fazem sentido quando enquadrados no todo que é o livro. Mas excertos de acontecimentos políticos e sociais são também perigosos. Estamos no final de uma campanha eleitoral em que se discutiram exaustivamente indícios, intenções, posturas, frases avulsas. Houve um momento, no início deste mês – na altura dos debates televisivos – em que pareceu que se podia ir além disso. Ilusões. Como dirigentes desportivos e políticos autoritários sabem bem, a cacofonia tem vantagens. Arregimenta almas excitáveis e destroça tentativas de análise mais profunda. Vivemos no mundo dos soundbites. Decidimos em função deles e nem desejamos mais. Pessoas que tentam aprofundar assuntos são chatas ou presunçosas. Achamos suficiente ler as manchetes dos jornais gratuitos ou assistir à abertura dos noticiários televisivos. E os meios de comunicação (os jornais, as rádios, as televisões mas também as famosas agências) percebem-no e não nos dão mais do que isso. Convém-lhes assim, de resto: debates e investigações sérios exigem tempo, meios e jornalistas preparados. O livro do Kundera de onde a citação acima foi extraída chama-se Os Testamentos Traídos (*). Ao aceitar a cacofonia e a discussão do que é parcial e/ou acessório, a herança que traímos chama-se democracia.
 

(*) Edições Asa, tradução de Miguel Serras Pereira



publicado por José António Abreu às 13:39
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Só pode ser má vontade

O governo andou meses a garantir que a decisão de construir o novo aeroporto de Lisboa na Ota tinha uma fundamentação inatacável. Depois apareceu um estudo da CIP no qual se mostrava, com recurso a pouco mais do que uma fotografia de satélite e uma máquina de calcular, que Alcochete era melhor opção. O que é que nos leva a pensar que o governo pode não ter razão acerca do TGV, da terceira ponte ou dos mil novos quilómetros de auto-estradas?



publicado por José António Abreu às 08:39
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Correcção

Eu também não percebo a questão da "asfixia democrática". O caso Charrua, as perseguições a sindicatos ou a manifestantes, os processos judiciais contra jornais e comentadores mais ou menos humoristas, os ataques à TVI e a suspensão do Jornal de Sexta-Feira, a tentativa de passar legislação para domar a comunicação social, a preferência por certos grupos empresariais em detrimento de outros... Realmente não há "asfixia democrática" em Portugal. O que há é asfixia não-democrática.



publicado por José António Abreu às 08:30
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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Perfil rápido: Francisco Louçã

Louçã é um enigma por trás de uma evidência. Como ele faz questão de mostrar apenas a evidência (com uma ou outra excepção controlada, como o recente artigo do Público sobre a sua excelente biblioteca), ficar-me-ei por ela. Louçã é o homem perfeito. Alto, magro, inteligente, bom orador, aparentemente liberal (nos costumes, sosseguem os fãs), com uma carreira académica brilhante, é portador de uma enorme série de opiniões que, no instante em que lhe saem da boca, se transmutam em dogmas. Pode possuir 6000 livros (ah, os exageros da propriedade privada) mas, sendo quem é, lê-os não para aprender coisas novas mas para confirmar ideias. Como sucede com Jerónimo e – pelo menos no discurso – com Sócrates, elas não estão expostas à mudança (apenas a direita – esse campo ideológico extremista – parece aceitar que alterações de contexto podem originar mudanças de opinião). Na verdade, Sócrates é Primeiro-Ministro e Louçã apenas líder de um pequeno partido mas, exceptuando esse detalhe, Louçã é tudo o que Sócrates gostaria de ser.



publicado por José António Abreu às 17:55
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Perfil rápido: Jerónimo de Sousa

De entre os líderes dos cinco principais partidos, Jerónimo de Sousa é o único que não é atacado pelo que é. Ninguém o apelida de arrogante, nem de autoritário, nem de iluminado. E, todavia, num paradoxo que podia dar uma tese, está à frente de um partido que ainda vê Estaline com bonomia, que apoia forças guerrilheiras para as quais o rapto de civis é uma actividade legítima, que tem gente que encara a Coreia do Norte como uma democracia. É verdade que, embora ainda rosnem de vez em quando, os lobos comunistas estão hoje envelhecidos e surgem frequentemente como cordeiros. Olhe-se para Honório Novo ou para António Filipe. Jerónimo (o único líder que tratamos pelo primeiro nome) parece simpático, humilde, sincero e compassivo. Poderá até ser tudo isso. Mas a simpatia não faz subir o PIB e as políticas do PC fá-lo-iam descer.



publicado por José António Abreu às 13:13
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Perfil rápido: Paulo Portas

Paulo Portas podia salvar sozinho de um incêndio num lar de idosos todos os residentes, o cão, o gato, o peixinho de aquário e a carne de vaca guardada na arca frigorífica que ainda assim teria pessoas a criticá-lo e a acusá-lo de demagogia. A mente frenética e o entusiasmo com que tenta passar as ideias são totalmente inadequados a um país de gente que não gosta de processar muita informação de cada vez. É demasiado autoconsciente, não por sentir que as coisas lhe estão a sair mal como sucede, por exemplo, a muitos formadores inexperientes, mas porque o seu cérebro não consegue relaxar e se encontra sempre dois segundos adiantado em relação ao que está a dizer. Quando fala ouve-se a falar, quando está na televisão procura ver que câmara está a gravar, quando diz uma piada sorri antes de todos os restantes, quando tem o que considera uma boa ideia entusiasma-se antes do tempo. O resultado é um discurso e uma pose que parecem encenados (e são, mas quase sempre no momento). A tragédia de Portas é que a suas qualidades são também os seus defeitos.

 

Claro que salvar a carne de vaca poderia mesmo ser considerado demagogia.



publicado por José António Abreu às 08:42
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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
Perfil rápido: Manuela Ferreira Leite

Manuela Ferreira Leite até pode ser a tal professora tradicional que já foi acusada de ser. Mas é uma daquelas professoras que sempre se preocupou verdadeiramente com os alunos, a ponto de, por vezes, ter confundido preocupação com rispidez. E é hoje uma professora reformada. Muito mais solta, e disponível para sorrir de vez em quando.



publicado por José António Abreu às 22:20
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Perfil rápido: José Sócrates

Sócrates não tem capacidade de auto-ironia e isso diz quase tudo sobre ele. Em parte, talvez seja assim por saber que o trajecto que usou para chegar onde está se encontra pejado de opções criticáveis. A assinatura de projectos alheios, o carreirismo político, a licenciatura facilitada, as falhas culturais. Como a melhor defesa é o ataque (um lugar comum não necessariamente verdadeiro mas quase com força de lei neste país), blinda dúvidas e avança certezas. A certeza de que é perfeito («estou muito satisfeito comigo mesmo») e de que o passado não interessa. Aliás, nem o presente lhe interessa muito. O que lhe interessa verdadeiramente são as visões que tem do futuro. A cultura foi substituída por um deslumbramento com as novas tecnologias (Cavaco, também não exactamente conhecido pelo nível cultural, apostara nas infraestruturas). Sócrates é um Rastignac que fez tudo o que era preciso fazer para chegar ao topo mas evita pensar nisso. Está – pensará ele – onde devia estar. Na intimidade, com as defesas em baixo, é capaz de ser um tipo “porreiro”. Mas líderes assim são perigosos.



publicado por José António Abreu às 18:53
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Terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Sócrates agora, Cavaco mais tarde

Entendamo-nos: a confirmar-se que Cavaco Silva esteve por trás da notícia do Público sobre a suposta vigilância da presidência por parte do governo, ele fica muito mal na fotografia. Se tinha suspeitas, Cavaco devia ter confrontado o governo ou tomado outras acções que considerasse necessárias (incluindo, no limite, demitir o governo), não usar jornais para passar mensagens para a opinião pública.

 
Mas entendamo-nos também noutro ponto: por enquanto, a questão é outra e chama-se “legislativas”. É a acção do governo Sócrates que está em avaliação. De Cavaco, tratar-se-á em 2011. E Sócrates e o PS não merecem a vitória. Pela arrogância, pelas perseguições (sim, existe “asfixia democrática” em Portugal e não são necessários microfones no palácio de Belém para o comprovar), pela governação nestes quatro anos e meio, pelo desvario projectado para o futuro.
 

Talvez a única solução sensata seja correr com Sócrates agora e com Cavaco em 2011. O problema é que, nos dias que correm, sensatez e política parecem inconciliáveis.



publicado por José António Abreu às 19:11
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Domingo, 20 de Setembro de 2009
As empresas que gostam dos planos de investimento do governo

Numa entrevista incluída no i de ontem (não a descobri no site do jornal), António Borges explicou de forma cristalina a razão por que certas empresas apoiam a estratégia de investimentos do governo e os resultados que daí advirão. Uma grande fatia (Borges disse metade) da economia nacional (energia, telecomunicações, banca, seguros, distribuição) tem um mercado protegido, sem concorrência externa (nestes sectores, é irrelevante que os chineses ou quaisquer outros tenham custos de produção mais baixos). A estas empresas agrada que o Estado invista tanto quanto possível. Para as restantes (as exportadoras), que o Estado gaste em estradas, num novo aeroporto ou no TGV é quase irrelevante. Os produtos que fabricam não ficam mais competitivos no exterior por causa disso. Para estas empresas seria muito mais importante uma intervenção ao nível dos factores com impacto no preço dos produtos (custo do crédito, da energia, dos combustíveis, das responsabilidades fiscais, etc.). Ainda por cima, o crescimento das empresas protegidas está limitado pelo mercado interno. Resultado? A economia estagna e precisa cada vez mais da intervenção do Estado. Que se endivida cada vez mais e cobra cada vez mais impostos, hipotecando a margem de manobra futura e (no que é uma outra espécie de 'asfixia democrática') asfixiando a economia.

 

Nota: este post nasceu das respostas de António Borges mas permiti-me elaborar um pouco sobre elas (até porque já não tenho comigo o jornal para o poder citar). Quaisquer erros ou imprecisões são da minha responsabilidade.



publicado por José António Abreu às 22:06
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
O optimismo de José Sócrates

Ainda será optimismo, Cristina? A partir de certa altura, a via estreita-se e só se pode garantir, tentando mostrar cada vez mais convicção, que o que se disse antes era mesmo verdade e que, apesar das notórias dificuldades actuais, tudo correrá bem no futuro. É um exercício onde o autismo e a fé se misturam. Há milhares de exemplos na história, na literatura, no cinema. Neville Chamberlain insistindo que Hitler não queria a guerra. Salazar recusando-se a ver que a independência das colónias era inevitável. Ou – e creio que todos temos um sorriso de comiseração quando nos lembramos dele – o Ministro da Informação iraquiano garantindo que o Iraque estava a ganhar a guerra enquanto os tanques norte-americanos cercavam Bagdade. O que podia ele dizer? O que pode José Sócrates dizer? Afinal, após uma longa legislatura de quatro anos e meio à frente de um governo com maioria absoluta no Parlamento, em que beneficiou de uma oposição estraçalhada e, até há cerca de um ano, de um presidente cooperante, o que pode ele dizer senão que o que foi feito foi bem feito e que a felicidade está ao virar da esquina? Apesar de um sistema judicial de rastos, um sistema educativo em guerra, uma economia endividada e pouco flexível, um nível de impostos acima do razoável para um país com os rendimentos de Portugal, que pode ele dizer senão que fez o melhor que pôde e que o futuro demonstrará que teve sempre razão? A estratégia de Sócrates é uma espécie de reposição das declarações de alguns ministros durante os últimos anos, segundo as quais já tínhamos saído ou já estávamos a sair da crise, que a realidade depressa provou não serem mais que wishful thinking. Isso não serviu para que Sócrates aprendesse que a realidade não se molda à sua vontade. E, não o tendo aprendido, só lhe resta acelerar o ritmo das promessas, recusar qualquer hipótese de que possa estar errado e classificar as críticas como posições retrógradas. Sócrates garante agora que tudo ficará bem em breve, com muito investimento público em coisas como o TGV e mais mil e tal quilómetros de auto-estradas, apoios a empresas em dificuldades (seleccionadas pelo Estado, claro, porque é o Estado que sabe sempre o que é melhor para todos), mais projectos com tecnologia de 'ponta' (quiçá como o “Magalhães”), mais energias renováveis, mais contratos com – surpresa – as mesmas grandes empresas de sempre. O que é preciso – diz-nos ele – é rechaçar as dúvidas, manter a estratégia e continuar a atirar dinheiro para a fogueira. Provavelmente, acredita no que diz (o melhor e mais perigoso burlão é sempre aquele que crê no negócio que propõe). Mas (e sei que a Cristina também se questiona) como podem tantos portugueses ainda acreditar?



publicado por José António Abreu às 13:32
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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
Gato Fedorento, Sócrates e Ferreira Leite: preliminares e pequenos orgasmos

As mini-entrevistas do Gato Fedorente a José Sócrates e Manuela Ferreira Leite foram tão ou mais reveladoras que os debates das últimas semanas. Comecemos por Ferreira Leite. Para surpresa de muitos, ela mostrou ter sentido de humor. Mostrou também que, independentemente do ambiente e do género de questões que lhe são colocadas, age sempre de forma espontânea. Mais importante, percebeu que a forma correcta de encarar o programa não era tentar usá-lo para fazer pequenos discursos eleitoralistas sempre que as perguntas de Ricardo Araújo Pereira lho permitissem. Respondeu a RAP no mesmo tom de ironia que este usava nas perguntas, sem pretender ser pedagógica e quase parecendo não estar preocupada com as consequências eleitorais das respostas. A conversa de Ferreira Leite com RAP aproximou-se daquelas conversas plenas de provocações e duplos sentidos que, no fundo, são jogos de sedução mesmo quando não acabam na cama (há até alturas em que, existindo a possibilidade de isso suceder, se prefere adiar o momento, mesmo arriscando a sua concretização, para continuar a degustar a conversa). E tanto assim foi que ela não se coibiu de reflectir perguntas para RAP, invertendo-lhes a lógica, num puro jogo de – perdoem-me a repetição do termo – provocação. Já Sócrates não está para preliminares. A conversa é um meio, não um fim. Sócrates deseja passar à acção. As entrevistas – os preliminares – são uma chatice tão grande quanto a burocracia europeia ou a resistência dos irlandeses à perfeição do tratado de Lisboa. Na entrevista com RAP usou a táctica do costume: pensou longa e clinicamente na abordagem a usar, aplicou-a numa prestação digna de um razoável actor de épicos teatrais ou de um engatatão de meia tigela (usando frases como “deixe-me dizer-lhe que você está elegantíssimo”, “prometi aos meus filhos que ia ser bonzinho” ou “os meus filhos bem me avisaram”, o que prova que lê – ou talvez Silva Pereira o faça por ele – aquelas revistas onde se informa que homens disponíveis com filhos ou animais são especialmente atraentes), e, sem disposição para conversar pelo puro prazer de conversar, passou tão depressa quanto conseguiu ao que realmente lhe interessava: fazer mini-discursos 'comicieiros' (os seus pequenos orgasmos). Perguntou com frequência “Esta não foi má, pois não?” ou algo do género, revelando o macho demasiado autoconsciente que já sabíamos que vive dentro dele. Não me surpreenderia que Sócrates tivesse saído do programa a pensar, qual Zezé Camarinha nos seus tempos áureos, que não há quem lhe consiga resistir, totalmente alheado do facto de que, na realidade, muita gente o acha insuportável e pouca gente sente verdadeira atracção por ele. Já Manuela Ferreira Leite, sem a mesma prosápia, acabou por mostrar-se uma senhora com quem a gente não se importaria de conversar durante umas horas, trocando piadas sobre os penteados do Pacheco Pereira, as palavrinhas amorosas entre Aníbal e Maria Cavaco Silva, ou as mil e uma declarações aparentemente inócuas capazes de ultrajar a esquerda.



publicado por José António Abreu às 21:18
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Domingo, 13 de Setembro de 2009
O derby

A SIC publicitou o debate entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates como se fosse um jogo de futebol decisivo para o campeonato. Com repórteres junto aos 'hotéis' onde as equipas se 'concentravam', pormenores sobre as actividades dos jogadores durante a tarde e as características do equipamento a usar (obrigado pela informação, tão útil aos daltónicos, de que a gravata de Sócrates era "azul petróleo"), transmissão em directo da chegada ao 'estádio' (infelizmente não havia claques e também ninguém atirou pedras aos 'autocarros' – onde é que andam os rapazes e raparigas do Jamais e do Simplex quando são precisos?). Tal encenação só pode ter sido para desmentir o Pacheco Pereira que se farta de dizer que neste país se presta mais atenção ao futebol que à política.

 

Quanto ao debate propriamente dito, apetece-me fazer uns comentários mas, ao mesmo tempo, não. Bom, duas notas breves:

Primeira: não me pareceu tanto um debate político quanto uma discussão entre duas pessoas casadas há muitos anos: "És uma velha rezingona"; "E tu és um teimoso e só fazes o que queres"; "Não tens ideias novas, vives no passado e estás sempre a mudar de opinião"; "E tu gostas é de gastar dinheiro que não temos"; "Queres dar cabo do que eu construí"; "Nunca fizeste nada de jeito que não tivesse sido começado por mim"; "Até há pouco tempo dizias que eu era bom em muitas coisas"; "Ó filho, tu nem na cama eras–"; bom, já perceberam a ideia.

Segunda: houve, apesar de tudo, um claro vencedor ou, melhor, uma clara vencedora. Sim, ela mesmo: alguém sabe qual é o partido da Clara de Sousa e onde me posso filiar?



publicado por José António Abreu às 00:56
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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Expondo os flancos

O grande problema da indefinição ideológica de Manuela Ferreira Leite e do PSD, preocupados que estão em não assustar os votantes mais à direita com propostas de esquerda e os votantes mais à esquerda com propostas de direita, é que abre espaço em ambos os lados do espectro para que outros possam surgir como mais atractivos para quem prefere clareza. Paulo Portas percebeu-o e mostrou, no debate que acabou há pouco, quão grave isso pode ser para o PSD.

 

(Isto partindo do princípio que a ideologia e as propostas concretas ainda significam alguma coisa neste país.)



publicado por José António Abreu às 22:17
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
A visão do Bloco de Esquerda

No debate de ontem entre José Sócrates e Francisco Louçã discutiu-se novamente política. Aleluia. O fim dos benefícios fiscais, defendido pelo Bloco de Esquerda, faz toda a lógica dentro do sistema político-social defendido pelo Bloco. Se o Estado fornecer tudo ‘gratuitamente’ e não aceitar o papel de concorrência e complementaridade que a iniciativa privada pode desempenhar, os benefícios fiscais são desnecessários. É uma visão soviética da realidade. Um sistema em que não há alternativa a um Estado pesado e programático que lentamente (e estou a ser simpático) resvala para a complacência, para a injustiça e para a insustentabilidade. Um sistema em que os cidadãos não têm margem para iniciativa e se acomodam à mediocridade. Sócrates teve o mérito de puxar a ponta do fio que mostra como os rapazes e as raparigas do Bloco, apresentados tantas vezes como modernos e cheios de estilo, têm na realidade ideias antigas e ultrapassadas. Já ter ficado preso na questão do “ataque à classe média” que representaria o fim dos benefícios e não desmontar essa ideia de sociedade é um indício da tendência que Sócrates tem para se agarrar ao soundbyte (ninguém o faz melhor que ele) e da crença (não só dele) de que, na nossa sociedade, discutir convenientemente os assuntos aborrece os eleitores.

 

Já agora, outro momento esclarecedor ocorreu quando Judite de Sousa, em desespero, guinchou: «Mas afinal quem é que está aqui a mentir?» Quando aquela que é reputada como uma das melhores jornalistas televisivas portuguesas (na verdade, não se sabe bem porquê) é incapaz de perceber a diferença entre mentira e visões distintas da sociedade, algo vai realmente muito mal.



publicado por José António Abreu às 08:38
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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
Asfixia, concorrência e nacionalizações

A declaração de Manuela Ferreira Leite de que não há asfixia democrática na Madeira é lamentável. Há coisas em que, por inabilidade ou obstinação, Ferreira Leite faz exactamente o oposto do que devia fazer. O facto do PS ter vindo a fazer mais ou menos o mesmo nos últimos anos não serve de desculpa.

 

Finalmente viu-se alguém a falar abertamente dos benefícios da concorrência nas mais variadas áreas da economia. No debate de hoje na SIC, entre Paulo Portas e Jerónimo Louçã, Portas colocou a tónica no ponto certo. Na maior parte das vezes, a questão não é se as empresas ou os serviços são públicos ou privados. É assegurar que existe concorrência. É a concorrência que força a necessidade de melhorar produtos, serviços e preços. E isto aplica-se em todos os sectores.

 

Portas também esteve bem noutra área, onde ontem Manuela Ferreira Leite não conseguira ter réplica adequada para a retórica tonitruante de Francisco Louçã: a das nacionalizações. Teriam custos gigantescos em indemnizações, em retracção do investimento estrangeiro e na redução de lucros decorrente das empresas passarem a ser geridas com finalidades mais políticas que económicas. À esquerda continua a acreditar-se no dirigismo estatal. Provavelmente até ainda se acredita em planos quinquenais.



publicado por José António Abreu às 21:42
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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
We Try Harder

Apesar de ter dezenas de livros amontoados nas estantes à espera da minha atenção, estou a ler o programa eleitoral do CDS (internem-me, por favor). A primeira coisa que se me oferece dizer é que Paulo Portas conseguia ser mais conciso quando escrevia crónicas n'O Independente. Não sei quem lançou a ideia de que o documento tem duzentas páginas mas só pode ter sido uma daquelas pessoas que arredondam sempre para baixo. No meu computador, o ficheiro PDF descarregado daqui apresenta-se com duzentas e sessenta e uma páginas (é verdade que com texto menos denso que noutros programas) em estilo, digamos, amador (sugiro  a política dá cabo dos bons princípios com uma velocidade estonteante que digam que foi por causa da contenção de custos, mesmo que não tenha sido). No que respeita ao conteúdo, há coisas interessantes (por exemplo, maior clareza que o PSD nas questões ligadas à concorrência entre sectores público e privado, intenção de obrigar o Estado a cumprir os mesmos prazos que os privados têm que cumprir na sua relação com o Estado, simplificação fiscal e bonificação para famílias com vários filhos) mas também pontos em que se assobia para o lado (golden shares, comunicação social) e outros em que, como é tradicional em todos os partidos, as intenções rapidamente seriam trucidadas pela realidade (especialmente, e apesar de se sugerir uma ou outra forma de desviar fundos de áreas consideradas menos importantes para outras classificadas como fulcrais apoio social, redução de impostos, etc. , quando se verificasse que faltava dinheiro). Ainda assim, não é um mau programa. Ficaria bastante melhor com uma cura de emagrecimento, tem ainda muitas áreas em que houve receio de ser claro, mas bate o do PSD aos pontos. Duvidoso é que o trabalho leve a resultados eleitorais significativos. Além de mim, só os rapazes e raparigas do Rua Direita se devem ter dado ao trabalho de o ler. E, que me tenha apercebido, na comunicação social o impacto foi reduzido. Não consigo deixar de pensar que o CDS tem o mesmo problema da Avis na luta com a Hertz. Que tal espalharem pelas ruas uns cartazes com uma foto de Portas, Caeiro, Ribeiro e Castro et al e o slogan "We Try Harder"?



publicado por José António Abreu às 19:49
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Sábado, 29 de Agosto de 2009
Neblina eleitoral

Claro que não houve coragem. O programa do PSD tem potencial mas vale mais pelo que pode ser que pelo que é. Pelas declarações de menos Estado ou de um Estado sujeito a níveis de exigência superiores e a mais concorrência que pela explicitação das formas de atingir esses objectivos. Talvez convenha assim. Para não assustar os eleitores, essa raça que todos julgam – quiçá com razão – extremamente espantadiça. Ou para não inviabilizar um possível, e parece que tão desejado por alguns, bloco central. Mas, para quem prefere soluções claras, para quem preferia ter por cá, como sucede em quase todos os países desenvolvidos, dois partidos fortes com filosofias claramente distintas, é uma pequena desilusão.

 
Resta o CDS. Terá Paulo Portas a coragem de assumir um programa com mais uva e menos parra? As repetidas referências ao bloco central podem ser uma oportunidade para o CDS (tal como para os partidos à esquerda do PS). Mas, para conquistar os votantes descontentes com o cinzentismo dos partidos do centro, o CDS teria que correr riscos e mostrar que as suas propostas são diferentes. Há espaço para ser diferente (ou, pelo menos, mais claro que o PSD) em muitas áreas. Na educação, propondo real autonomia das escolas (incluindo capacidade para contratar e avaliar os professores), concorrência entre elas, reforço da autoridades dos professores e do nível de exigência colocado aos alunos. Na saúde, defendendo a concorrência directa do SNS com o sector privado (vi, nos noticiários da hora de almoço, Sócrates atacar a ideia como se a concorrência fosse negativa e não uma forma de forçar o sistema público a agilizar-se). No sistema fiscal (simplificação, simplificação, simplificação), na economia (fim das golden shares, privatização dos portos, dos aeroportos, da TAP, da RTP1), na justiça, na administração pública, etc, etc.
 
Há espaço. Haverá coragem? E – confesso que, por mais tempo que vá passando neste rectângulo placidamente deprimido, não consigo percebê-lo – traria a clareza bons resultados eleitorais? A primeira questão é respondida amanhã. Temo que a segunda ainda não seja respondida nestas eleições.

 



publicado por José António Abreu às 16:40
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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
Antes das políticas

As políticas específicas e sectoriais são importantes? São muito importantes. Votaria eu neste PS mesmo que acreditasse (não acredito) serem as políticas (económica, social, educativa, etc.) que defende melhores que as da oposição à sua direita? Não. Acima de tudo, prezo a liberdade. A mesma que é reclamada por todos, incluindo pelos apoiantes deste governo. A mesma que o PS e o Primeiro-Ministro, através da tentativa de colagem da imagem de Ferreira Leite a Salazar e da criação de monstros papões variados (tão bem glosados neste texto de Francisco José Viegas) insinuam estar em risco se o PSD ganhar as eleições. Mas estamos a falar do PS e do Primeiro-Ministro que perseguiram ou permitiram a perseguição a pessoas por contarem anedotas, por escreverem artigos de opinião, por prepararem manifestações, por noticiarem o que era claramente notícia. Estamos a falar do PS e do Primeiro-Ministro que exigem aos outros responsabilidade e sentido do dever mas se especializaram em anúncios de fachada, em relatórios inventados, em conúbios suspeitos e em fugir às questões incómodas através dos ataques mais desabridos. Estamos a falar do Primeiro-Ministro que obteve uma licenciatura em condições que deveriam envergonhar qualquer um mas nunca teve a humildade (será que conhece o termo?) para reconhecer que as coisas não se deviam ter passado assim e, pelo contrário, perseguiu quem trouxe o assunto para a luz do dia. Estamos a falar do Primeiro-Ministro que, em poucos anos, gerou um tal clima de asfixia no país que um homem de esquerda como António Barreto se viu forçado a escrever, há já ano e meio, não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu governo. O Primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas.(*)

 
Sim, podemos discutir políticas específicas e sectoriais. Fá-lo-ei certamente várias vezes durante as próximas semanas. Mas, para ser sincero, José Sócrates e o PS conseguiram tornar esse debate irrelevante.
 
(*) Crónica no jornal Público de 6 de Janeiro de 2008, disponível aqui.


publicado por José António Abreu às 17:41
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Domingo, 23 de Agosto de 2009
Sim, já chegámos à Madeira

A RTP-N está há mais de meia hora a dar o discurso de José Sócrates num comício na Madeira. Houve uma curta interrupção para seguir o segundo salto de Naide Gomes nos Mundiais de Atletismo mas rapidamente voltaram para o glorioso e esbelto patrão.

 

E, para não se dizer que estou a esconder propositadamente a relevância noticiosa destes trinta e tal minutos, informo que o salto foi nulo.



publicado por José António Abreu às 15:45
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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Dez milhões de beneficiários

Os últimos cartazes do CDS têm recebido críticas ferozes. Porquê? Porque há certas verdades que não se exprimem, pelos vistos. Entenda-se: eu também preferiria que nenhum partido sentisse necessidade de chamar a atenção para estes assuntos. E, de um ponto de vista eleitoral, não sei se os cartazes beneficiam o CDS. Mas as questões colocadas são relevantes. Tomemos como exemplo a pergunta “É justo dar rendimento mínimo a quem não quer trabalhar?”. Como é que cada um de nós responde à pergunta? Dir-me-ão que o populismo está precisamente na pergunta empurrar para a resposta “não” quando a resposta exige matizes (quais?). Ou que é injusto ou presunçoso afirmar que há quem não queira trabalhar (mas não preferíamos quase todos não ter que o fazer?). Dir-me-ão ainda que a pergunta traz à superfície as emoções mais primárias das pessoas (a ser verdade, por que será?).

 
Sim, seria menos agressivo usar uma frase do tipo “rendimento mínimo para quem verdadeiramente dele necessita”. Mas a questão não desaparece com frases mais redondas ou silêncios envergonhados. Há indubitavelmente abusos no usufruto de vários subsídios. Reconhecê-lo não transforma ninguém em discípulo de Mussolini ou de Hitler. Calar o assunto só aumenta as tais emoções “primárias” que as pessoas recalcam por pudor. E, a médio prazo, isso é mais perigoso que discuti-lo abertamente. Creio que o CDS não pede o fim do rendimento mínimo. E, independentemente da posição do CDS, poucas pessoas o pedirão. O que se pede é mais cuidado na sua atribuição e fiscalização. E é especialmente oportuno abordar o assunto em período pré-eleitoral porque nestes meses, em muitos pontos do país, as indicações transmitidas aos técnicos de acção social são para aprovar todos os pedidos que entrem. De tal forma que não me surpreenderia se o aumento constante dos encargos com o rendimento mínimo estivesse relacionado não apenas com a crise mas também com este facilitismo pré-eleitoral.
 

Por que não pode discutir-se estes assuntos? Devia poder-se. Sem que fossem automaticamente disparadas acusações de insensibilidade social ou populismo ou outros termos carregados de tanto ou tão pouco significado quanto as motivações por trás do seu uso. E deviam discutir-se também formas alternativas de encarar a questão (como, por exemplo, esta). Que dificilmente a esquerda implementará. Porque a esquerda se encontra paralisada entre a visão do bom selvagem e o horror a qualquer indício de populismo direitista (obviamente, o populismo esquerdista é diferente, tanto que raramente se lhe chama populismo). Mas talvez não seja apenas o pudor do politicamente correcto que refreia a vontade de reforma por parte da esquerda. Talvez também seja a velha ambição de fazer tudo depender do Estado. Na verdade, a esquerda só ficará satisfeita quando aos setecentos mil funcionários públicos, ao meio milhão de desempregados, aos quase quatrocentos mil beneficiários do rendimento social de inserção e aos dois milhões e oitocentos mil pensionistas juntar os restantes portugueses na dependência total do Estado. Entre a fúria controladora do PS e os desejos de nacionalizações do Bloco e do PC, já estivemos mais longe.



publicado por José António Abreu às 19:13
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
Trio de ataque

Creio que já se pode fazer um balanço. De entre os três recém-nascidos blogues de apoio a partidos políticos (da esquerda para a direita: Simplex, de apoio ao PS; Jamais, de apoio ao PSD; e Rua Direita, de apoio ao CDS), o mais interessante tem sido o Rua Direita. Enquanto os participantes do Simplex e do Jamais fazem marcação cerrada uns ao outros, esquecendo com frequência o debate de ideias em favor de questiúnculas menores, os participantes do Rua Direita têm (com inevitáveis excepções) discutido temas concretos, com um grau de profundidade e de rigor muito apreciáveis (ver, por exemplo, este debate sobre as políticas de impostos). E têm ainda outro ponto a favor: Inês Teotónio Pereira demonstra que, como afirma no perfil, não faz bem apenas filhos e arrasa a concorrência em bocas de humor subtil. É verdade que Rodrigo Moita de Deus parece continuar a preferir colocá-las no 31 da Armada mas quem não comparece, toda a gente o sabe, perde o jogo. Quanto ao Simplex, salvam-no as laranjas de João Coisas.

 

Adenda: ainda a respeito da Inês, o blogue pessoal dela (ou talvez seja mais dos filhos), A Um Metro do Chão, vale a pena para quem gostar daquelas pérolas da ingenuidade e do engenho infantis subtilmente comentadas por uma mamã inteligente com capacidade de auto-irrisão.



publicado por José António Abreu às 18:11
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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009
Listas

As listas de candidatos a deputados do PSD são uma desilusão. Não por existir pouca renovação (que, dependendo do modo como se virem as coisas, até há) porque esta não deve ser um objectivo mas um meio: significa pouco se, por exemplo, for conseguida através da captação de nomes panfletários como Inês de Medeiros ou Miguel Vale de Almeida (por muita consideração que ambos me mereçam, o convite para as listas do PS não se deveu a Sócrates acreditar piamente na qualidade política deles) mas poderia significar muito se revelasse verdadeira vontade de delinear políticas alternativas ao “centrão” amorfo e umbiguista que nos governa há décadas. Talvez fosse esperar demasiado. Em primeiro lugar, as estruturas locais dos partidos regem-se mais por critérios de interesses pessoais que pelo interesse nacional. Depois, Manuela Ferreira Leite é Cavaquista e deixou-o bem claro ao escolher certos nomes. (Até me parece que Cavaco aprendeu com os erros do passado mas não estou certo de que todos os cavaquistas o tenham feito.) Por fim, no nosso sistema e mentalidade, os deputados acabam – infelizmente – por ser pouco importantes, uma vez que raramente fogem ao guião partidário ou governamental. Em quase todas as circunstâncias, poderiam ser substituídos (com vantagem orçamental) por direitos de voto que os líderes exerceriam aquando das votações. De resto, todos sabemos que, seja qual for o partido que ganhe as eleições, terá que formar a quase totalidade do governo fora do parlamento. Mas é pena que assim seja. É pena que o parlamento não seja o lugar onde estão os portugueses mais capazes. E é pena que o PSD não tenha aproveitado para incluir nas listas gente menos comprometida com o passado e com mais visão de futuro.

 

Há depois os lamentáveis casos dos arguidos António Preto e Helena Lopes da Costa, que – nunca pensei escrevê-lo – fazem incidir outra luz sobre a coragem de Marques Mendes. Há Maria José Nogueira Pinto, que respeito mas não entendo como pôde aceitar fazer parte das listas do PSD numa altura em que apoia uma candidatura autárquica contra o PSD. E há finalmente Passos Coelho. A decisão de o deixar de fora não me incomoda. Passos Coelho foi opositor de Manuela Ferreira Leite quando ambos concorreram à liderança do partido. Perdeu. E a partir daí continuou a ser opositor dela mas – e é somente aqui que reside o problema – fazendo uma oposição traiçoeira e hipócrita. Aparecendo sorridente ao lado de Ferreira Leite antes de disparar declarações farisaicas perante as câmaras televisivas. Ferreira Leite limitou-se a recusar ser tão hipócrita quanto ele.



publicado por José António Abreu às 20:55
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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Filhinhos dos papás

A renovação não é necessariamente uma coisa boa. Mas é uma oportunidade. Manuela Ferreira Leite está a ultimar as listas de candidatos a deputados. Resta saber se vai ter coragem para decidir sem medo de afrontar alguns caciques locais. É triste constatar que o que devia ser uma vantagem (as estruturas locais reflectirem melhor os interesses das populações onde se inserem) é afinal uma perversão. Ou alguém acredita que os filhos dos autarcas de Barcelos, Gaia e Coimbra são mesmo os melhores cidadãos simpatizantes do PSD que essas regiões têm para oferecer ao país? Aliás, as coisas andam de tal modo perversas que, mesmo que fossem, ninguém acreditaria.



publicado por José António Abreu às 14:15
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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009
Prontos para um programa eleitoral honesto?

A estratégia actual do Partido Socialista para lidar com os partidos à sua direita é clara: classificá-los como económica e socialmente retrógrados, encostá-los ao “papão” do neoliberalismo e acusá-los de não possuírem ideias para o futuro. Para fazer passar a primeira parte da mensagem não há pejo em usar a táctica que o PS criticava ao PSD e ao CDS em 2005 quando estes partidos chamavam a atenção para os governos Guterres (agora mencionam-se os de Durão Barroso e Santana Lopes) e em utilizar o mesmo discurso visionário sustentado no vazio mais absoluto (pode substituir-se por “convicções”) que Sócrates já empregava há dez anos quando se referia ao Euro 2004 (ver aqui). A questão do “neoliberalismo” é um chavão oco: nunca houve liberalismo em Portugal, quanto mais neoliberalismo, e ainda há dois anos o próprio PS poderia ser acusado do que o termo parece significar por cá. Já o PS actual é, como sabemos, “social”. A última parte é mais insidiosa e adquire actualmente forma no clamor pela apresentação de um programa eleitoral por parte do PSD. (O PS é nisto ecoado por alguns comentadores presumivelmente de direita.) O que leva os socialistas a exigir o programa é o mesmo que faz os sociais-democratas hesitar: em ambos os partidos se pensa que os portugueses não têm coragem para encarar a realidade. Mas isto tem consequências distintas para PS e PSD. O PS não está manietado nem por esse medo nem pela própria realidade. Distribui dinheiro (é o governo que o faz mas, como Elisa Ferreira nos disse há meses, “o dinheiro é do PS”) e promete o que bem entende. Fá-lo impunemente porque Sócrates pode empolar ou mesmo mentir – já todos sabemos que o faz. A “política de verdade” do PSD, sendo a muitos níveis uma aposta correctíssima, apresenta uma fragilidade: quem se coloca na posição de dizer a verdade não pode empolar ou mentir. Mas dizer a verdade toda (o que pode ser – e provavelmente será, considerando o endividamento e a vertiginosa derrapagem actual das contas públicas – necessário fazer depois das eleições) pode assustar. Até hoje, os eleitores sempre demonstraram preferir declarações grandiloquentes (exemplo de 2005: “150 000 novos empregos”) a banhos de realidade. É isto inevitável? Lembro-me de em 2007 assistir a um debate entre Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal. Royal – elegante, polida, radiosa – usou a táctica habitual da esquerda: acusou Sarkozy de querer acabar com os direitos sociais, de querer forçar os trabalhadores a trabalhar mais, de querer introduzir uma qualquer espécie de liberalismo. Sarkozy, para minha surpresa, foi claro em muitos pontos: assumiu que defendia o regresso à semana de 35 horas, assumiu que eram necessárias mudanças e que estas teriam custos. Ao mesmo tempo, fez Royal parecer vazia, sem ideias concretas. Como todos sabemos, apesar da vantagem ter sido pequena, Sarkozy ganhou as eleições. Seria possível Manuela Ferreira Leite fazê-lo em Portugal? Pessoas como Medina Carreira acham que sim. Que os portugueses estão preparados para um discurso de verdade e rigor. Gostaria de pensar o mesmo. O PSD poderia então apresentar um programa eleitoral inteiramente honesto. Mas, quando a extrema-esquerda acabou de obter mais de vinte por cento dos votos nas eleições europeias, sou forçado a duvidar.

 

Adenda: a respeito da aversão ao risco dos portugueses é favor ler este post n'O Insurgente, onde Bruno Alves avança uma excelente teoria sobre o assunto.



publicado por José António Abreu às 19:52
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