como sobreviver submerso.

Quarta-feira, 22 de Julho de 2009
Parque pago

Considero o parque da cidade do Porto um pequeno milagre. Escrevi-o aqui. Quando saiu da Câmara, Nuno Cardoso legou a Rui Rio uma situação armadilhada. Por um lado, Rio encontrou direitos de construção numa das frentes do parque cedidos a privados. (A cedência foi assinada por Cardoso nos últimos dias do mandato, o que levanta a eterna questão "onde é que já vimos este filme?") Por outro, Rio prometera durante a campanha não deixar construir no parque. Cumpriu a promessa e, em troca, obteve uma longuíssima batalha jurídica, com custos ainda não totalmente contabilizados. Hoje, Elisa Ferreira atacou-o pela opção feita. Na minha opinião, é um erro e um acto de descaramento. Os portuenses sabem que quem criou a situação foi o PS de Elisa (e deixemo-nos dos eufemismos da "independência" da candidatura; uma senhora que se fez eleger para o Parlamento Europeu e é candidata à presidência da segunda mais importante Câmara do país, sempre pelo mesmo partido e com tanta gente possuidora de cartão de mão estendida, é do menos independente que pode haver). Sabem também que Rio pode ter um estilo rebarbativo que nem sempre o leva aos melhores resultados da forma mais rápida possível mas é honesto e está a procurar cumprir a palavra. Mais importante, visitam o parque da cidade e percebem que defendê-lo é um dever colectivo. Mesmo que algumas críticas de Elisa possam ser, pelo menos em parte, verdadeiras, tudo empalidece perante estes factos. E afinal, que solução preconiza Elisa? Permitir a construção? Que o afirme claramente. Deve assegurar pelo menos os votos dos promotores imobiliários e dos construtores civis.



publicado por José António Abreu às 18:46
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Domingo, 12 de Julho de 2009
A independência de Elisa e a inteligência do PS

À partida, a escolha de Elisa Ferreira para candidata à Câmara Municipal do Porto nem era má. Portuense, com imagem de seriedade, de independência de espírito (que os portuenses apreciam), e de alguma competência executória (vá-se lá saber porquê, e com excepção do actual que ninguém conhece, os Ministros do Ambiente tendem a ficar com boa imagem), Elisa também não é vista como demasiado intelectual, o que, para os prosaicos portuenses, só podia ser positivo.

 
Estas características eram adequadas para combater um Rui Rio aparentemente impoluto (nem o PS nem outras “forças” da cidade alguma vez conseguiram descobrir uma brecha na sua imagem de honestidade) mas que continua a manter fortes opositores nos sectores culturais e futebolísticos da cidade, que tem tiques de autoritarismo (que os portuenses, como os portugueses, parecem apreciar) e cujo segundo mandato foi parco em resultados visíveis.
 
O lançamento da candidatura foi feito com pompa e circunstância e incluiu um José Sócrates laudatório (ele que abomina Elisa desde os tempos em que foi secretário de Estado dela) e um Carlos Magno (essa reserva da moral jornalística nacional) armado a estratega. Foi quase o único momento em que tudo pareceu correr bem. A famosa declaração “o dinheiro é do PS” acabou cedo com a imagem de seriedade. Elisa, que reclama agora insistentemente o seu estatuto de “independente”, mostrou aí quão independente – pelo menos de espírito – é.
 
Depois chegou a questão da acumulação das candidaturas ao parlamento europeu e à Câmara. Vou escrevê-lo a bold para memória futura, uma vez que, mesmo após tantas provas de que os resultados são maus, o erro continua a ser cometido: os portuenses não suportam sentir-se a segunda escolha. Não gostam que quem lhes pede o voto o faça tão convictamente que tenha tratado de proteger a retaguarda com um cargo principescamente remunerado. Nem que quem lhes pede o voto os abandone à primeira oferta de um cargo melhor. Fernando Gomes aprendeu-o há anos, o PS parece que ainda não.
 
Elisa Ferreira nunca se livraria deste estigma mas a recente decisão socialista (correcta mas tardia e oportunista) de impedir a acumulação de candidaturas à Assembleia da República e a órgãos autárquicos veio tornar as coisas ainda mais difíceis para ela, ao chamar de novo a atenção para a sua duplicidade (e para a de Ana Gomes). Saíram também as primeiras sondagens, catastróficas. A concelhia do Porto do PS apressou-se a instá-la a desistir, numa demonstração de falta de unidade interna que – nunca aprendem – só piora as coisas. Admitamos que Elisa abandonava. A três meses das eleições, quem iria o PS buscar para contrapor a Rio? Segundo o JN (jornal que ataca Rio há anos e onde Elisa escreve uma coluna propagandística aos domingos), dois nomes encontravam-se em cima da mesa da concelhia: Manuel Pizarro, actual Secretário de Estado da Saúde, e Nuno Cardoso. O primeiro é quase desconhecido e, sensatamente, terá recusado de imediato. O segundo é um desastre ambulante, ligado à polémica autorização de construção nos terrenos do parque da cidade e à confusão (evitemos termos demasiado fortes) em torno das permutas de terrenos com o FCP antes da construção do novo estádio, recentemente condenado por favorecer o Boavista enquanto era Presidente da Câmara. Revelador da capacidade de renovação e de preocupação com a comunidade que floresce nas estruturas partidárias locais, não?
 
O melhor que o PS tem a fazer – e parece que Sócrates o entendeu – é aguentar estoicamente. As eleições estão perdidas. Aprendam com os erros, se tiverem capacidade para o fazer, e tentem fazer melhor da próxima vez. Se calhar não era má ideia correr com as pessoas que mandam na concelhia. Mas isto é só uma sugestão e provavelmente nada fácil de pôr em prática.
 
Adenda (segunda-feira, 13 de Julho): Sócrates dá raspanete à concelhia. Aleluia!


publicado por José António Abreu às 15:59
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Domingo, 5 de Julho de 2009
De Braga a Estrasburgo, passando por Madrid: notas de fim-de-semana

Uma pequena notícia no jornal i informava que Domingos Névoa, administrador da Bragaparques, apresentou uma queixa contra José Sá Fernandes por este, durante o processo por tentativa de corrupção no qual Névoa foi condenado, lhe ter chamado “bandido”. O vereador lisboeta foi constituído arguido e arrisca pena até dois anos e multa não inferior a 120 dias. Arrisca também, porque Névoa entende ter sofrido graves danos morais (nos dois dias seguintes à declaração de Sá Fernandes, nem foi trabalhar de tão perturbado que estava), ter que pagar uma indemnização de vinte e cinco mil euros. Se bem me lembro, Névoa foi condenado em cerca de cinco mil euros; se ganhar, não subsistem dúvidas: neste país, mesmo quando as coisas lhes correm mal, a corrupção é um negócio altamente lucrativo para os corruptores.

 

Cristiano Ronaldo deu uma longa entrevista ao jornal espanhol Marca e, como seria de esperar, os canais de televisão portugueses noticiaram abundantemente tão importante acontecimento. Foi realçado o facto de ele ser um rapaz de palavra, visto ter prometido à referida publicação, no ano passado, que teriam direito à primeira entrevista dele como jogador do Real Madrid, caso chegasse alguma vez a sê-lo. Ainda assim, o que me chamou a atenção – sacaninha como sou – foi a resposta, num daqueles questionários Proustianos que tão giros às vezes se revelam, que o livro preferido de Cristiano Ronaldo é a fotobiografia de Cristiano Ronaldo. Percebe-se: é um livro simpático, que se lê bem e tem um herói com que qualquer pessoa se identifica facilmente – mesmo uma super-estrela como Cristiano Ronaldo. Reparei também que, ao ser instado a escolher uma cidade, optou por Madrid, mas aí a gente percebe: a competição com Kaká não vai ser fácil e o tio Alberto João chatear-se-ia mais se ele respondesse “Lisboa”.

 

Elisa Ferreira garante que lutará contra todas as sondagens, sejam negativas ou sim, e que levará a sua candidatura à Câmara Municipal do Porto até ao fim: como se sabe, Estrasburgo. Diz ainda que os responsáveis do PS lhe dão "apoio suficiente". Supõe-se que já não a cumprimentam com dois beijos mas ainda lhe apertam a mão.



publicado por José António Abreu às 00:40
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