como sobreviver submerso.

Sábado, 16 de Fevereiro de 2013
O valor dos segredos

É o que ninguém sabe acerca de ti que te permite conheceres-te a ti mesmo.

Don DeLillo, Ponto Ómega.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.



publicado por José António Abreu às 15:26
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
Dois sítios

Para a maior parte das pessoas, o mundo só tem dois sítios: o sítio onde elas vivem e a televisão.

Don DeLillo, Ruído Branco.

Edição Sextante, tradução de Rui Wahnon.

 

O livro é dos anos 80. Agora devíamos acrescentar a internet, claro.

 



publicado por José António Abreu às 18:47
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011
Crispados

Ela olhava-me, avaliando-me às claras. Perguntei a mim mesmo o que estaria ela a ver. Senti que lhe devia algumas explicações acerca dos anos decorridos entretanto. Sentia aquele vago pavor que experimentamos quando alguém nos examina atentamente depois de uma longa separação e nos faz pensar que cometemos um pecadilho ao atingirmos este ponto das nossas vidas tão diferentes e tão crispados. Estranhos aos nossos próprios olhos, compreendem. Alcançarmos esta fase de tal maneira indefesos ante os nossos próprios ardis que permitimos que a verdade nos fosse escamoteada.

Don DeLillo, Submundo.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.



publicado por José António Abreu às 17:01
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
Comoção

Às vezes vejo coisas tão comoventes que sei que não me devo demorar a contemplá-las. É ver e partir. Se ficamos demasiado tempo, exaurimos a comoção sem palavras. Sentir o frémito da paixão e confiar no que assim nos toca e partir.

Don DeLillo, Submundo.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.

 

Como, quando perante um prato delicioso, evitar comer demasiado. Assumir – mais, procurar – uma ligeira insatisfação. Manter o desejo. Nada fácil. Exactamente o oposto daquilo que, num mundo de gratificações máximas e imediatas, pensamos ambicionar. Num mundo em que fazemos questão de esgotar todas as sensações tão depressa quanto nos for possível, ficar aquém da experiência total é inconcebível. E manter o silêncio, algo de impensável. Precisamos de discutir, analisar, comparar, explicar tudo. Não há subtileza num mundo assim. Mas há frustração.



publicado por José António Abreu às 08:26
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Domingo, 27 de Março de 2011
Entusiasmo

Quantos começos antes de nos apercebermos das mentiras em que assenta o nosso entusiasmo?  

Don DeLillo, Ponto Ómega. 

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.

 

Antes? E depois? Mesmo quando já estamos conscientes das mentiras, continuamos a jogar o jogo. A necessitar de entusiasmo – e de começos. Temos de o fazer. É isso a vida. Insistência. Fingimento em cima de mentiras.



publicado por José António Abreu às 14:00
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Domingo, 13 de Março de 2011
Sexo

«Não o devemos fazer às claras, é o que tu estás a dizer. Mas isso é porque ainda continuas a ser o mesmo romântico que, provavelmente, eras aos vinte anos. O sexo já deixou de ser uma coisa assim tão secreta. O sexo foi desvendado. Sabes o que o sexo significa para a maioria das pessoas?»

Baixou a mão e pousou-a sobre a minha, e moveu a pélvis ligeiramente, roçando-se contra a minha palma.

«O sexo é aquilo a que temos acesso. Para algumas pessoas, para a maioria, é a coisa mais importante a que têm acesso sem terem nascido ricas nem inteligentes, e sem precisarem de roubar. Eis uma coisa que a vida nos pode oferecer e que é igual ou até melhor ao que os outros possuem, e que não temos de andar seis anos na universidade para alcançarmos. E não é uma religião nem é uma ciência, mas podemos explorá-lo e aprender coisas novas acerca de nós mesmos.»

Don DeLillo, Submundo.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.



publicado por José António Abreu às 15:57
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Segunda-feira, 7 de Março de 2011
Emprego e fingimento

Eu notava como as pessoas fingiam que eram executivos, quando, na realidade, detinham mesmo cargos executivos. Será que eu próprio também o fazia? Mantemos uma distância flutuante entre nós próprios e o nosso emprego. Há um espaço constrangido, uma consciência da encenação cerimoniosa que é uma espécie de pânico suspenso, e talvez o revelemos num gesto forçado ou no pigarrear ritual. Qualquer coisa saída da infância sibila neste espaço, uma percepção dos jogos e das personalidades ainda incompletas, mas não é que estejamos a fingir ser alguém que não somos. Estamos a fingir que somos exactamente quem somos. Eis o que é mais curioso.

Don DeLillo, Submundo.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.



publicado por José António Abreu às 13:01
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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
11.09

Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e estatelavam-se, algumas, confusas e desajeitadas, com destroços a tombarem à sua volta, e havia pessoas a abrigarem-se debaixo dos automóveis.

O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal.

[…]

O mundo era também isto, figuras humanas em janelas trezentos metros acima do chão, a lançarem-se no vazio, e o cheiro nauseabundo do combustível a arder, e o ar rasgado pelas sirenes insistentes. O ruído estava em toda a parte para onde as pessoas corriam, o som estratificado a acumular-se em volta delas, e ele afastava-se e ao mesmo tempo mergulhava no seu seio.

 

O Homem em Queda, de Don DeLillo

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria

Foto retirada daqui.



publicado por José António Abreu às 19:36
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