como sobreviver submerso.

Domingo, 1 de Março de 2015
Já se sabe: os alemães não têm sentido de humor



publicado por José António Abreu às 08:49
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015
Arrogância e bons sinais

É provável que Schäuble repita hoje com Varoufakis a demonstração de falta de respeito que teve há um par de anos com Vítor Gaspar, não se levantando da cadeira de rodas para o cumprimentar. Mas Varoufakis até deverá ler no acto um bom sinal, após deixar abundantemente claro durante a campanha eleitoral grega considerar ter os alemães manietados.



publicado por José António Abreu às 10:05
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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014
O declínio francês

Aviso prévio: No texto que se segue não será abordada a vida amorosa de qualquer presidente francês, por muito normal que seja este e anormal que seja aquela. Em contrapartida, o texto inclui muitas percentagens.

 

Durante séculos, o Portugal que se imaginava culto ambicionava ser francês. França era o exemplo e a inspiração. Hoje somos bastante mais influenciados pelo universo anglo-saxónico mas a velha ligação ainda tem consequências. Já mencionei isto no blogue um par de vezes mas repito-o: num debate das últimas eleições presidenciais francesas, Hollande referia a cada cinco minutos como a França perdera terreno para a Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe: «Mas a Alemanha fez há dez anos aquilo que o senhor ainda recusa que se faça em França.» Bingo. Nem por isso Sarkozy venceu as eleições. E, como seria de esperar, desde a eleição de Hollande a França continuou basicamente a fazer o oposto do que a Alemanha fez há mais de uma dúzia de anos (e do que os países nórdicos fizeram há cerca de uma vintena). Os resultados? Comecemos por um número curioso. Se olharmos apenas para o PIB, pouco mudou. Em 2001, o PIB francês representava 73,6% do PIB alemão. Em 2012 (último ano do qual existem estatísticas razoavelmente definitivas), mantinha-se nos 73,1% (com uma ligeira vantagem de oito décimas para o lado da Alemanha, ambos cresceram cerca de 12% nesses onze anos). Por trás do crescimento quase igual, há no entanto diferenças enormes na evolução da competitividade das duas economias. Tome-se o sector automóvel como exemplo. Em 2001, a Renault tinha acabado de comprar uma posição maioritária na Nissan e o grupo PSA começava a multiplicar gamas. Actualmente, a Renault compensa prejuízos com os lucros da Nissan (e da Dacia) e a PSA procura desesperadamente convencer o grupo chinês Dongfeng de que seria um cônjuge útil e leal. Em 2001, na Alemanha que ainda suportava os custos da reunificação e começava a reformar as leis laborais e o sistema de segurança social, BMW e Daimler iam-se apercebendo de que teriam de abandonar a ideia de tornar lucrativas Rover e Chrysler, respectivamente. Hoje, as marcas alemãs dominam a Europa e o objectivo do grupo VAG de atingir o número um mundial em 2018 parece não apenas realista como inevitável. Mas talvez seja preferível que nos concentremos nas estatísticas. Em 2001, a partir de uma população representando 72,0% da população alemã, as exportações francesas de bens e serviços representavam 61,1% das exportações alemãs. Em 2012, tendo a população – que aumentou em França e diminuiu ligeiramente na Alemanha – passado para os 77,4% da população alemã, limitavam-se a 46,8% (se excluirmos os serviços, a evolução é ainda mais reveladora: de 56,6% para 40,4%). No que a volume de exportações diz respeito, Hollande poderá até reclamar um prémio (e, se quiser ser justo, partilhá-lo com o antecessor) pela anedota fonética de ter visto a França ser ultrapassada pela Holanda, um país com 26,4% da população francesa. (Por habitante, a Holanda consegue a proeza de exportar mais do dobro da Alemanha: 47,1 versus 20,4 mil dólares, quedando-se a França pelos 12,3 – e Portugal pelos 7,8.) Sem surpresas, a taxa de desemprego acompanhou estes números. Em 2001, era de 8,2% em França e de 7,9% na Alemanha; em 2012, subira para 10,3% em França e descera para 5,5% na Alemanha. Tudo isto – será conveniente relembrar – quando, em percentagem, o PIB francês subiu sensivelmente o mesmo que o alemão (ou que o holandês) nos onze anos desde o fim do euro. Ou seja, a economia francesa, antes ligeiramente menos competitiva do que a alemã, fechou-se sobre si mesma, derivou para sectores não exportadores e em grande medida apoiou-se no Estado (percentualmente, a despesa pública francesa é a mais elevada da zona Euro; entre 2001 e 2012, subiu de 51,7 para 56,7% do PIB enquanto a alemã desceu de 47,6 para 44,7%). No fundo, salvaguardando a diferença de escala, que a torna too big to fail (escrever isto em inglês é provocação suplementar), a França tem exactamente o mesmo tipo de problemas e a mesma mentalidade vigente que Portugal. Permanecer agarrado à ideia da defesa do Estado Social, em vez de o defender efectiva e realisticamente, dá nisto. E as velhas influências demoram a morrer.

Notas

1. Encontra-se implícito mas, de modo a que não restem dúvidas, acrescente-se que dificilmente se poderá culpar o euro pela totalidade dos problemas franceses. As situações de partida não eram assim tão diferentes.

2. Nas exportações, o problema de Portugal nem foi de ter registado uma queda – no período 2001-2012 desceram de 5,0% para 4,9% das alemãs – mas de serem demasiado baixas logo à partida e não ter conseguido fazê-las subir pelo menos ao ritmo da Holanda.

3. Dos quatro países constantes dos gráficos, França e Portugal foram os únicos que nunca apresentaram receitas superiores às despesas durante os vinte e dois anos considerados e foram também os que mais fizeram crescer a diferença entre umas e outras na sequência da crise de 2008 (ver gráfico abaixo).

4. Certas más-línguas poderiam apontar como factor-chave na diferença de capacidade de reforma entre França e Alemanha o facto de, em 2001 como hoje, a fatia da população dependente do Estado (ver despesa pública em relação ao PIB) ser maior em França. Acrescentariam (as tais más-línguas) que os privados protestam menos, têm sindicatos mais disponíveis para estabelecer compromissos e dificilmente conseguem paralisar o país em que vivem.

5. Hollande promete agora aumentar a competitividade da economia francesa através de um alívio da carga fiscal recaindo sobre as empresas, a ser compensado por cortes de cinquenta mil milhões de euros na despesa pública. Veremos se a medida avança. Prova da falta de juízo que grassa em França (e da importância excessiva das aparências que grassa um pouco por todo o lado) é a intenção de criar uma comissão pública para avaliar se as empresas não estão a abusar da benesse.

6. Como os dados das exportações de vários países revelam e ainda que se desconte o efeito da valorização do euro, o tremendo pessimismo que muitos europeus mostram perante os resultados da globalização é exagerado. Sendo difícil, pode continuar-se competitivo pagando salários altos (mesmo em sectores onde tal pareceria improvável; exemplo: mais de 20% das exportações dinamarquesas de bens vêm do sector agro-pecuário). Já o peso do Estado (e, por conseguinte, das prestações sociais pagas por este) não pode continuar a subir ao ritmo a que subiu nas últimas décadas, até por pressões demográficas que apenas uma gigantesca dose de imaginação permitirá atribuir aos chineses ou ao sistema financeiro.

Fontes: Organização Mundial do Comércio para os dados relativos às exportações, Fundo Monetário Internacional (World Economic Outlook Database, Outubro de 2013) para os restantes.

 

(Clicar nas imagens - e depois uma segunda vez - para aceder a versões maiores. O ano de 1991 foi escolhido para permitir obter um retrato da situação na época imediatamente após a reunificação alemã. A Base do FMI não inclui os dados da despesa e da dívida da Holanda para os anos anteriores a 1995.)



publicado por José António Abreu às 10:29
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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013
Problemas de consciência

A vitória do SPD nas negociações alemãs para a formação de uma coligação governamental não é tanto uma vitória sobre Merkel e a CDU (embora, após uma derrota clara nas urnas, também o seja – e não particularmente democrática) como uma vitória sobre o SPD de Schröder que, há pouco mais de uma década, numa altura em que a Alemanha se esforçava por 'encaixar' os custos combinados da reunificação e da globalização, iniciou as reformas que permitiram o relativo bem-estar actual. Apesar desta pequena ironia, a posição do SPD compreende-se. A esquerda preocupa-se bastante mais com o que deve ser – e, mais ainda, como o que devia ser – do que com o que pode ser (embora frequentemente apresente consequências negativas, a utopia não deixa de constituir um dos seus encantos). Daqui resulta a tendência para privilegiar o papel do Estado, sobrecarregar a economia com taxas e impostos e recusar concessões no campo dos «direitos adquiridos», ainda que fazê-lo coloque em risco direitos similares em processo de constituição (noutro ponto a favor da esquerda, admita-se que, no momento em que ficar evidente não ser possível ressarci-los, berrará ainda mais alto). Quando, chegadas as épocas de crise (e chegarão sempre, em qualquer tipo de sistema político ou económico), se torna necessário aplicar uma dose de pragmatismo, os partidos de esquerda apanhados no poder experimentam graves problemas de identidade. E assim, logo que a economia o permite, a reacção instintiva dos seus políticos é atacar ferozmente quaisquer indícios de concessões feitas à lógica da direita, ainda que dessas concessões tenham saído excelentes resultados (como claramente saíram no caso alemão). Vistas as coisas por este prisma, não é sequer difícil entender a sanha com que alguns veneráveis socialistas lusitanos atacam as medidas de contenção orçamental e todos os reais e imaginados defensores destas. É uma sanha que pretende apagar o facto de, em tempos – e com excelentes resultados –, terem «metido o socialismo na gaveta».



publicado por José António Abreu às 08:42
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Quinta-feira, 7 de Março de 2013
Quando dá jeito, a vontade do povo é coisa indescritivelmente bonita

No domingo passado distraí-me e acabei assistindo aos comentários do Professor Marcelo na TVI (*). A dada altura, ele explicou-nos (a nós, telespectadores, e a uma embevecida Judite de Sousa) que os resultados das eleições italianas, parecendo originar um problema de difícil resolução, revelar-se-ão afinal muito positivos, na medida em que obrigarão Angela Merkel a prestar atenção às reivindicações dos países do Sul. Segundo o Professor Marcelo, os alemães não ligam peva (o termo é meu mas o sentido é dele) à Grécia, nem a Portugal, nem sequer à Espanha, mas respeitam a Itália e sabem que esta lhes pode causar um montão de problemas bicudos (a expressão é minha mas o sentido é dele). Minutos depois, escalpelizando já o tema da alteração das condições dos empréstimos europeus a Portugal e à Irlanda, o Professor Marcelo anunciou que, obviamente, os prazos serão alargados e a curva de pagamentos suavizada mas que não se pode avançar demasiado depressa por necessidade de desenhar formas que, disfarçando a cedência dos governos dos países credores, evitem alienar os seus cidadãos e permitam as aprovações parlamentares necessárias. Referiu explicitamente a Alemanha e o jogo de cintura a que Angela Merkel, em pleno ano de eleições, se vê forçada.

Sendo que o Professor Marcelo – desculpe lá, Professor; almas gémeas na paixão pelo ténis, eu até gosto de si – não fez mais do que expressar o que muitos pensam, tudo isto é bonito e de uma coerência inatacável. Ora recapitulemos. Em Itália, castigam-se os políticos por terem ignorado a vontade popular; em Portugal, onde acusações idênticas aos políticos nacionais são às dúzias por hora, aplaude-se – diz-se que é a democracia a funcionar e, num glorioso corolário, exige-se que o governo alemão aprenda a lição e altere o rumo, ainda que contra a vontade dos cidadãos alemães. Em simultâneo, na Alemanha o governo parece utilizar subterfúgios para executar políticas que não corresponderão à vontade popular; em Portugal, com reservas porque continua a dar jeito ter a quem apontar o dedo, aplaude-se – diz-se que já não era sem tempo e exige-se mais. Convenhamos: a começar no PM que sonha ser PR, gostamos da democracia quando ela se molda às nossas tendências para a realpolitik.

 

(*) Pergunto-me sempre se ele teria atingido níveis de fama e respeito similares com um primeiro nome mais comum (tipo António, Carlos ou João) ou fora de moda e, por isso mesmo, ligeiramente incongruente (tipo Anacleto, Barnabé ou Frutuoso). Imagine-se Judite de Sousa dizendo: «É altura do comentário semanal do Professor Anacleto. Boa noite, Professor Anacleto. Que livros nos traz esta semana?»



publicado por José António Abreu às 13:40
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Domingo, 11 de Novembro de 2012
Die Frau mit langem Schatten
Nos primeiros anos da existência do euro (e com isto quero dizer desde a segunda metade da década de noventa, mesmo antes de ele circular sob a forma de notas e moedas), a Alemanha viu o investimento deslocar-se para Sul (bem como para Leste, mas deixemos isso para outra oportunidade), área geográfica onde os níveis de rentabilidade eram muito superiores e o risco (conforme famosas declarações de Vítor Constâncio) parecia igual. Ainda às voltas com os custos da reunificação, vendo o investimento escapar, confrontada com uma evolução demográfica assustadora e com um comércio onde a China ameaçava dar cartas, a Alemanha implementou reformas – não radicais mas significativas. Por exemplo, reviu a lei laboral e das prestações de desemprego (as famosas leis Hartz, com destaque para a Hartz IV) e alterou o sistema de segurança social, introduzindo, para além de mudanças nas fórmulas de cálculo, um sistema complementar privado e um aumento progressivo da idade da reforma para os 67 anos. Entretanto, os países do sul aplicavam o influxo de capitais em imobiliário, consumo e dívida pública. Quando a crise financeira de 2008 levou primeiro os países europeus a agravar o frenesim despesista e, logo a seguir, expôs o esquema de Ponzi a que se dedicavam há anos (e que muitos ainda hoje desejam prolongar), a Alemanha, não passando ao lado da crise (desde logo por causa dos bancos mas também porque, apesar das reformas, a economia alemã tinha – e tem – falhas), transformou-se num refúgio, vendo regressar os capitais e passando a financiar-se a juros pouco acima de zero. Naturalmente, transformou-se também no mau da fita.

 

Angela Merkel, que nos visita amanhã, foi quase irrelevante no meio de tudo isto. Em 2009 e 2010 deixou que Sócrates, Zapatero, Papandreou e Berlusconi utilizassem notas de euro como se fossem produtos descartáveis (mas, ei, a Alemanha não pode mandar nos restantes, certo?) e, depois, fez o que qualquer outro líder alemão teria feito. Para a Alemanha, como para a Finlândia, para a Holanda ou para a Áustria, era crucial que o euro permanecesse uma moeda forte (foi com base em moeda forte que enriqueceram) e isso implicava garantir que os países em dificuldades aplicavam um travão ao investimento não produtivo e faziam as reformas eternamente adiadas. Ter-se-ia dispensado a faceta punitiva, que hoje se revela prejudicial, mas mesmo essa deve ser compreendida: para um alemão, descobrir que a Grécia tinha aldrabado as contas para aceder ao euro; que vários países haviam aproveitado as taxas de juro reduzidas a que o euro lhes dera acesso para gastar desalmadamente; que, ao contrário do que sucedera na Alemanha, não haviam levado a cabo quaisquer reformas de fundo; para um alemão, como para qualquer pessoa de qualquer outra nacionalidade se colocada perante idêntico cenário, a vontade de aplicar um castigo surgiu instintivamente – e compreensivelmente.

 

Hoje, Merkel está presa entre uma União Europeia que ameaça colapsar e uma política que, a prazo, poderá arrastar a Alemanha para os eternos ciclos de desvalorização-inflação em que os países do Sul são exímios (e nos quais, depois da traumática experiência da década de vinte do século passado, os alemães juraram nunca mais cair). Dentro do euro, Merkel apenas dispõe de três vias: forçar uma austeridade a todo o custo que se revelará contraproducente mesmo para a própria Alemanha, amenizar a austeridade à medida (mas apenas à medida) que forem sendo implementadas reformas de fundo nos países em dificuldades (coisa que está a acontecer muito devagar, se é que está a acontecer de todo), ou aceitar pagar a conta, esquecendo a lição de Weimar. Sendo que, antes de mais, Merkel responde aos alemães, os quais não desejam o bailout e a julgarão dentro de menos de um ano. Aliás, para quem anda por aí a clamar que um governo eleito há dezassete meses perdeu legitimidade por já não reflectir a opinião popular, a política do governo alemão, alinhada com a vontade popular, devia merecer apreço. Pelo contrário, parece ser tão ou mais ofensiva.

 

Mas talvez a parte mais interessante e delicada do problema seja simbólica e não económica. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A Mulher sem Sombra), do alemão Richard Strauss, a personagem principal é uma imperatriz presa entre dois mundos, o humano e o dos espíritos, denunciada como não totalmente humana pela falta de sombra. Merkel (que aprecia ópera mas, segundo creio – no que parece ser um pré-requisito para qualquer líder alemão –, prefere Wagner a Strauss) está também presa entre dois mundos (o da responsabilidade orçamental com uma moeda forte e o do laxismo com uma moeda fraca) mas carrega, pelo contrário, uma sombra demasiado longa: a sombra das duas guerras mundiais e das atrocidades do nazismo. Foi para a diminuir que a Alemanha prescindiu do marco e ligou o seu futuro ao de países cronicamente irresponsáveis (poucos alemães, incluindo políticos, desejavam a mudança*), é talvez em parte para a diminuir que se esforça por permanecer no euro. Tudo em vão. A sombra do passado continua a recair sobre os alemães (e continuará durante décadas, sempre que algo correr mal na Europa), tornando-os um pouco menos que humanos. Como provavelmente amanhã muitos cartazes não deixarão de mostrar.

 


* Circunstância que deveria pelo menos abalar as teorias da conspiração segundo as quais a Alemanha procura mais uma vez conquistar a Europa, desta feita sem recurso à força militar.



publicado por José António Abreu às 23:12
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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012
Ra(n)ting

Parte 1

Sobre a lógica da decisão da Moody's
 

1. A decisão da Moody’s de colocar a dívida alemã (juntamente com a holandesa e luxemburguesa) sob vigilância, com perspectiva negativa, não é surpreendente, apenas lógica. A dívida pública alemã encontra-se acima dos 80% e, de uma forma ou de outra (isto é, quer o euro sobreviva, quer não), a Alemanha enfrentará sérias dificuldades nos próximos tempos.

 

2. Tal como a situação se apresenta (países em dificuldades sem capacidade para implementar verdadeiras reformas – e não apenas aumentos de impostos e cortes de salários – e clima pouco propício a ajuda incondicional nos países ainda em situação razoável), não há razão para estar optimista. Se o euro se dividir em duas ou mais moedas, a valorização da nova moeda alemã e o colapso dos mercados nos países do Sul farão com que a economia alemã tenha uma contracção significativa. Apesar de a nova moeda tornar a dívida mais barata, a diminuição de receitas e o aumento de despesas (com subsídios de desemprego, por exemplo) agravará o défice. O que agravará a dívida. Etc.

 

3. Mas ainda que, mal saídos do esforço (longe de consensual) da reunificação, os alemães ficassem subitamente dispostos a apoiar sem reservas os países do Sul, dificilmente a Alemanha teria capacidade para salvar Espanha e Itália.

3.1. Bom, mas talvez não fosse preciso dinheiro real, talvez bastassem garantias de que os alemães estavam dispostos a isso para que os investidores voltassem a acorrer aos leilões de dívida pública dos países do Sul, baixando o nível das taxas de juro. A Alemanha (e os outros países recalcitrantes) apenas teriam, por exemplo, de fazer do BCE um lender of last resort. Pois, talvez chegasse. Ou talvez não. Por um lado, pedir emprestado a dois ou três por cento ainda seria aumentar a dívida acima do crescimento económico previsível nos próximos tempos. Por outro, para funcionar, qualquer garantia precisa de ser credível. E os mercados costumam fazer o teste.

3.2. Se/quando os investidores não acorressem em massa, o BCE teria então de começar a imprimir montes de dinheiro fresco, emprestando-o baratinho aos países em dificuldades. O resultado prático disso seria fazer crescer o esquema de Ponzi em que a economia europeia está transformada (se companhia na desgraça serve de consolo a alguém, várias outras estão em situação parecida). Não há, nos países europeus em dificuldades, forma de extrair crescimento sustentável desse dinheiro: apoiar sectores que cresceram artificialmente (como a construção e o imobiliário) através de incentivos à construção ou à compra de imóveis seria deitar o dinheiro fora; teimar no investimento público quando o nível de infra-estruturas já é excelente, não seria muito melhor (parece, aliás, que Hollande, esse Messias da Europa, começa a percebê-lo – mas felizmente conhece outros métodos infalíveis para vencer a crise, como proibir empresas privadas com prejuízos de despedir trabalhadores); aproveitar o dinheiro para manter satisfeitos os funcionários de sectores públicos pesados e ineficientes geraria apenas o que tem gerado: dívida pública e sectores públicos ainda mais pesados, ineficientes – e difíceis de reformar. Etc., etc., etc. Entretanto, o nível de consumo recuperaria alguma coisa, com efeito positivo na receita pública mas efeito negativo na balança comercial dos países que costumam tê-la precisamente assim: negativa (por exemplo, Portugal, Espanha e França; cliquem no nome do país e depois no indicador balance of trade). E teríamos ainda os riscos de inflação que, mais cedo ou mais tarde, haviam de passar a realidade, levando à perda do poder de compra de todos os cidadãos da zona euro. É verdade que as exportações para fora da zona euro ficariam mais competitivas, o que provavelmente faria a economia alemã sobreaquecer, tornando real o maior pesadelo dos ministros das finanças por lá (na verdade, a cotação actual do euro até já é demasiado baixa para a economia alemã actual). Mas, no fundo, tanta conversa é desnecessária: todos sabemos que os esquemas de Ponzi têm um final desagradável – e tanto mais desagradável quanto mais tempo duram.

 

Parte 2

Sobre outros pontos relacionados com as agências de rating

 

1. As agências de rating seriam irrelevantes se os Estados não estivessem tão dependentes de dinheiro emprestado. Mas que governo faz contas enquanto o rating permanece Triplo A?

 

2. Como ficou evidente na questão do subprime, a verdadeira falha das agências é demorarem demasiado tempo a baixar os ratings. Mas que as acusemos de algo num caso e queiramos o contrário no outro é apenas natural: agora somos accionistas.

 

3. Há quem defenda a criação de novas agências e quem defenda regulação das actuais. Nada tenho contra a primeira hipótese, excepto se estivermos a falar de usar dinheiro público: uma agência ligada a um governo ou a um bloco económico terá tanta credibilidade como uma declaração de Durão Barroso ou Jean-Claude Juncker. Será mais dinheiro deitado fora. A questão da regulação passa por saber quem regularia e com base em que critérios. Mas convém estar ciente de que, se estes fossem objectivos (o défice, a dívida, as perspectivas de crescimento económico, ...), os ratings dos países europeus seriam neste momento… mais ou menos os mesmos. Em alguns casos, piores.

 

4. E daí talvez eu esteja enganado. Talvez outras agências que não as três do costume possam ser mais fiáveis. Relembre-se o que a chinesa Dagong (existirão mecanismos de controlo estatal na China?) fez aos ratings europeus há já dois anos.

 

5. Em teoria, desejamos independência e objectividade; na prática, clamamos por controlo governamental de tudo e de todos. As agências podem parecer servir interesses especulativos e até funcionar mal – mas seria melhor um sistema em que os endividados se auto-avaliassem? E veja-se o caso do BCE. A independência e os objectivos do BCE destinam-se a manter condições estáveis, conhecidas por todos. Para o BCE, não é nem deve ser relevante se existem diferenças de rendimento entre países da zona euro. Essa é uma questão para os governos, que devem enfrentá-la com os instrumentos de que dispõem (subindo ou baixando impostos, aumentando ou diminuindo o peso do Estado, criando ou eliminando mecanismos de protecção social, etc.). E, no entanto, o BCE é criticado diariamente por não ajudar a resolver as dificuldades de alguns países (sendo que, de formas ínvias, até o tem vindo a tentar fazer). Percebe-se: acusar o BCE (ou a chanceler Merkel) é mais fácil para os políticos. Esconde-lhes as incapacidades. E como toda a gente está mais do que disposta a pensar mal dos banqueiros... Ou seja: na verdade, não desejamos mecanismos independentes, para as agências de rating ou para o que quer que seja. Desejamos que nos façam a vontade, em função do que, em cada momento e numa perspectiva de curto prazo, nos parece ser o caminho mais fácil.



publicado por José António Abreu às 18:26
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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Compreender a Alemanha e, já agora, que solução para a Grécia escolheriam?
No A Douta Ignorância, Priscila Rêgo elaborou um conjunto de posts a que chamou Compreender a Alemanha. Vale a pena lê-los. E também vale a pena fazer o teste So, what would your plan for Greece be?, a que cheguei através de outro post da Priscila. Na primeira tentativa, eu, que no fundo sou um pessimista (não acredito que a Grécia possa ficar no euro) cheio de boa vontade (escolhi mantê-la no euro), acabei no ponto 19. Ou seja, sensivelmente na via em que nos encontramos. Por um lado (e quem leu os meus posts ao longo dos últimos meses percebê-lo-á), tem lógica. Por outro, rai's partam. Só que as tentativas seguintes não deram resultados muito melhores. Experimentem vocês. Mas procurem não irritar Maynard.


publicado por José António Abreu às 07:49
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
O peixe

Ontem à noite assisti no noticiário da SIC a uma peça versando as declarações em que Angela Merkel deu as auto-estradas e túneis da Madeira como exemplo de má aplicação dos fundos estruturais. Falou ela, depois foi transmitida a posição de Alberto João Jardim (em voz-off, que ele limitou-se a emitir um comunicado apelidando Merkel de ignorante e garantindo que teria feito ainda mais obras se não lhe tivessem cortado o dinheiro), a seguir apareceu o vice-presidente do governo regional declarando, num momento de inebriante inspiração, que a Europa é que precisa de ver a luz ao fundo do túnel, depois surgiu Guilherme Silva dizendo esperar que as declarações de Merkel até façam os alemães ter vontade de conhecer a Madeira e finalmente o líder do CDS-Madeira reconheceu que Merkel tinha razão no que dizia mas criticou-a por dizê-lo. Ah, e ainda houve imagens de Carlos César, dos Açores, que se terá solidarizado com Jardim. Esqueçam a nacionalidade das criaturas por um instante: qual(is) merece(m) um mínimo de consideração?

 

Podemos lamentar-nos, irritar-nos, mostrarmo-nos ofendidos. Podemos apelidar os alemães de metediços, arrogantes e prepotentes. Podemos clamar que somos um Estado independente há quase mil anos. A Grécia pode até reclamar ser o berço da civilização ocidental. Isso não altera a realidade: fomos, e em muitos casos ainda somos, mal governados. E, em grande medida, fomos mal governados porque escolhemos ser mal governados. Jardim foi reeleito em Outubro passado. Sócrates foi reeleito em Setembro de 2009, quando os sinais de alarme já eram claros. Acham estranho que os alemães duvidem de nós? Eles até podem estar dispostos a fornecer-nos a cana de pesca – mas sabem que primeiro têm de nos ensinar a pescar. O problema é nós não querermos aprender. Somos crescidos, sabemos tudo, passámos há muito a fase dos conselhos e das imposições. E, no fundo, também não queremos a cana: queremos o peixe.



publicado por José António Abreu às 13:34
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Do salto para a piscina a chanceler alemã, passando por "We All Live in a Yellow Submarine"
Angela Merkel, no Domadora de Camaleões. Seja-se apoiante ou opositor, convém conhecê-la.


publicado por José António Abreu às 22:55
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
De Berlim, com assombro
Vale a pena ler, no Domadora de Camaleões, dois textos escritos a partir do ponto de vista de uma portuguesa na Alemanha: este e este. Um excerto (mas vale a pena ler o resto): Surpreendo-me por isso a quantidade de especialistas encartados em matéria “merkeliana” que vejo nos jornais europeus e nos portugueses, em particular. Assombro-me com os editorais exaltados, que se presumem de uma objectividade que não tem e que se limitam a sobrevoar os assuntos à luz dos preconceitos de quem os escreve. Prolifera nalguma opinião publicada um preocupante anti-germanismo alimentado de ressentimentos, tocando nalguns casos a infâmia.


publicado por José António Abreu às 16:51
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Da diferença entre interesse e obrigação

A Alemanha está a fazer tudo mal. Os alemães estão a humilhar os gregos e far-nos-ão o mesmo. Não estamos numa fase de atribuição de culpas mas de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:

 

1. De modo a proteger a sua economia de solavancos violentos (por os seus bancos terem andado a emprestar dinheiro a quem não sabia usá-lo), um contribuinte alemão pode ter interesse em enviar dinheiro para a Grécia – mas não tem obrigação de o fazer. Não contraiu as dívidas dos gregos (nem as nossas).

 

2. O governo alemão responde aos alemães. Se estes não quiserem ajudar, ele não pode ajudar. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Merkel se mete nos assuntos «internos» de países «soberanos»? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?

 

3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ajuda, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber solidariedade. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita ajuda, não geram impulsos de solidariedade. A solidariedade não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.

 

4. Forçar a Alemanha (e os outros países do Norte) a pagar as dívidas dos países do Sul por causa do risco para os seus bancos (e para o Euro) parece-se mais com chantagem do que com solidariedade. Ninguém pode surpreender-se com as resistências. Nem que, mais cedo ou mais tarde, o chantageado compreenda que não vale a pena continuar a pagar porque terá de o fazer mais uma e outra e ainda outra vez; que perceba que mais vale aceitar as consequências de assumir o problema (o artigo do Bild, mencionado pelo Rui Rocha, é claramente um indício de que podemos estar perto de isso acontecer). E mesmo que vá pagando, se um dia o motivo que permite a chantagem deixar de existir (por exemplo, se a dívida grega detida pelos bancos alemães já não os colocar em risco), a vítima de chantagem sentirá um enorme prazer em vingar-se. União Europeia? Pois sim.

 

5. Comparar a situação actual com os desejos revanchistas e expansionistas de Hitler é absurdo. Hoje, o desejo dos alemães é serem deixados em paz. Eles que, por enquanto, através de inovação tecnológica e contenção salarial, conseguiram manter-se competitivos no mundo globalizado. Que culpa têm das incompetências alheias?


publicado por José António Abreu às 08:44
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Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
Deutschland uber alles? Nah, só queremos o dinheiro.

Da esquerda à direita lamenta-se a inexistência de líderes «fortes» na Europa. Acusa-se Merkel de afundar o «projecto europeu». Defendem-se os eurobonds e a desvalorização do euro. Acho piada (o meu humor é com frequência negro). Ponto um: em tempo de paz, os grandes líderes são quase sempre aqueles que têm a sorte de estar no poder quando a economia cresce e os eleitorados andam satisfeitos (terem memória de uma guerra recente também ajuda). Merkel é fraca? Pelo contrário, é tão forte que resiste tenazmente às nossas pretensões. Mais importante: estamos mesmo convencidos de que Delors, Mitterrand ou Kohl (não vale a pena recuar mais; a realidade dos anos cinquenta e sessenta era tão diferente que é como se fosse outro planeta) fariam melhor nas actuais circunstâncias? Provavelmente estamos: somos sebastiânicos, sempre à espera de líderes providenciais, e preferimos imaginar mundos alternativos perfeitos a enfrentar a realidade. Afinal, foram Delors, Mitterrand e Kohl que puseram tudo isto em marcha ao delinearem o Tratado de Maastricht. Mas – ponto dois – se entre nós o anseio por líderes com capacidades sobre-humanas é antigo, também a tendência para desvalorizar a moeda está longe de ser recente. Desvalorizar é a via de quem não sabe ou consegue mais. Momentaneamente útil, permanece uma ilusão caso não sejam criadas condições para a tornar desnecessária no futuro (mas, lá está, preferimos ilusões). Se, por si, a desvalorização resolvesse alguma coisa seríamos há muito um país rico. Os alemães sabem-no, vacinados que ficaram com a hiperinflação do início da década de vinte do século passado. E a verdade é que, mesmo antes da introdução do euro, saíam-se bastante bem. Irrelevâncias, todavia. Nós é que estamos certos. Queremos ainda obrigá-los, através dos eurobonds, a garantir o nosso nível de despesa (ah, desculpem: ponto três). Em troca, prometemos continuar a comprar carros alemães (e, caramba, como eu desejo uma Leica M9). Ao aceitar o euro, a Alemanha aceitou várias novas reunificações mas não assegurou o poder de definir as regras. Erro crasso. Fê-lo porque ninguém aceitaria que fosse de outra forma e porque não queria o trabalho, os custos e a responsabilidade de organizar a Europa. (É irónico mas, desta feita, com quase toda a Europa disponível para ser conquistada, a Alemanha não deseja conquistar a Europa.) Porém, os desejos germânicos também esbarram na realidade e Merkel só tem duas hipóteses: pagar e pagar e pagar e voltar a pagar e pagar mais um pouco ou, percebendo que nunca nos conseguirá disciplinar, deixar falir os países que tiverem de falir, aceitando as consequências para o euro, para a União Europeia e para a própria Alemanha. Será suficientemente forte para isto? Se não for e decidir caucionar o endividamento dos países periféricos, precisa obviamente de garantir que eles controlam as contas públicas e implementam as reformas necessárias para subirem os níveis de produtividade. Tem de impor uma união fiscal e política e preparar-se para governar efectivamente toda a Europa, impondo as políticas que os governos grego e português e italiano e espanhol não conseguem implementar eficazmente. Não seria bonito de ver mas está amplamente demonstrado que, deixados a nós mesmos, somos incapazes de resolver o problema. É verdade que, com líderes «fortes», eurobonds, desvalorização do euro e demais paliativos que se venham a engendrar, durante uns tempos talvez não precisássemos. Mas a prazo nem a Alemanha seria competitiva (como, ainda assim, pode vir a não ser). Que importa? É mais fácil nivelar por baixo. Exigimos da Alemanha que siga os nossos padrões e, como qualquer rufia cheio de razão, encaramos mal manifestações de resistência. Compreende-se: os desmancha-prazeres são do mais irritante que existe. Anda lá, Angela, oferece-me a Leica.



publicado por José António Abreu às 17:18
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Incómodos e esquecimentos

Incomodam-nos imenso as críticas vindas de fora. É como se os nossos defeitos apenas se tornassem graves quando um estrangeiro os aponta (ia escrever «visíveis» em vez de «graves» mas nós conseguimos vê-los, recusamos é admitir a sua gravidade e, mais ainda, fazer algo para os corrigir). Incomodam-nos imenso as tiradas de Angela Merkel, por exemplo. Assustam-nos, também, porque sentimos estar nas mãos dela e de outros que pensam como ela; gente fria, sem a nossa tendência para adiar a aplicação de medidas difíceis. Acusamo-los então de demagogia, de não nos conhecerem, de terem visões erradas de como somos e dos esforços que já fazemos. Esquecemos (ou fingimos esquecer) que, em grande medida, esses esforços resultam de más políticas nossas, de conluio entre o nosso governo e meia dúzia de grupos económicos (o caso que Luís M. Jorge refere aqui é apenas o último de uma longa série), da nossa incapacidade para fazer contas e interpretar correctamente os resultados obtidos. Esquecemos também que, independentemente do que vier a acontecer, há mudanças que temos de implementar, com Merkel ou, mais ainda, sem ela. E esquecemos que, sendo certo que na semana passada, por exemplo, Merkel exagerou, ao sugerir que se cortassem dias de férias e subisse a idade da reforma em Portugal, retórica para eleitor ouvir não é exclusivo dela nem dos alemães. Afinal, temos por aí um candidato a Primeiro-Ministro, homem sobejamente conhecido por falhar objectivos, líder de um dos partidos mais bem colocados para ganhar as eleições, declarando não ter de fazer exactamente o que se comprometeu a fazer, mesmo quando o seu ainda Ministro das Finanças e «amigo para sempre» diz o contrário. Algo que deve tranquilizar imenso a Sra. Merkel, os restantes alemães e todos os outros que desconfiam de nós. Seria bom que ao menos nos lembrássemos de que as notícias viajam em ambos os sentidos.



publicado por José António Abreu às 21:00
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
Três hipóteses: a quase-inevitável, a que preferiríamos, a destinada ao fracasso

Angela Merkel só tem três hipóteses: assumir o fim do euro e da UE, pelo menos nos moldes em que a conhecemos, pagar a irresponsabilidade alheia sem tugir nem mugir (uma e outra vez), ou pagar a irresponsabilidade alheia depois de garantir que esta fica razoavelmente controlada. São as condições para que a terceira hipótese seja possível que ela anda a tentar construir. Fá-lo com propostas imperfeitas e, evidentemente, por interesse próprio mas, em vez de atacá-la, devíamos agradecer-lhe o esforço. Inglório, note-se: ela não nos conhece.



publicado por José António Abreu às 21:23
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011
O frágil plano da Angela
Merkel parece querer passar à acção mas os problemas são inúmeros. Esqueçamos desde logo as questões de soberania porque, repetindo-me, pedintes como nós não se podem dar ao luxo de ter pruridos. Merkel terá primeiro de convencer os alemães de que é do interesse deles ajudar os países em dificuldades (o que é verdade, mas não tanto como algumas almas gostam de apregoar por cá). Para tal, é evidente que quaisquer discrepâncias nos sistemas de apoios sociais a favor dos países em crise terão de desaparecer (hallo, idade da reforma aos sessenta e sete). Depois, terá de ir mais longe e aceitar (e, mais uma vez, fazer os seus próprios eleitores aceitar) que, para a ajuda ser eficaz, a Alemanha tem de perder alguma da vantagem competitiva actual (ou seja, tem de ajudar-nos a crescer através das exportações). Por fim, precisa de garantir que qualquer apoio financeiro não volta a ser desperdiçado nas especialidades portuguesas, gregas e espanholas (que os problemas da Irlanda são outros) da engorda do Estado, dos subsídios inúteis e das obras de fachada. Será este ponto que faz Merkel desejar liderar directamente o processo em vez de aceitar ser a Comissão Europeia a fazê-lo (sorry, José Manuel Barroso, du bist zu weich*). É que – e Merkel sabe-o bem – de pessoas como Sócrates e Teixeira dos Santos já só se pode esperar algum rigor depois de mortos. E tal apenas ocorrerá por se tratar de um processo fisiológico, totalmente alheio à vontade deles.
 
* O Google garante que isto quer dizer que ele é demasiado mole.


publicado por José António Abreu às 08:39
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Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Parábola a trezentos e cinquenta quilómetros por hora

 

Peço desculpa por ainda não estar a pensar em futebol. No passado fim-de-semana disputaram-se as 24 Horas de Le Mans. A luta pela vitória travou-se entre a Peugeot e a Audi. Os Peugeots (quatro à partida) eram mais rápidos dois a três segundos por volta. Dominaram facilmente os treinos e as primeiras horas da corrida. Os Audis pareciam preparar-se para uma humilhação, tanto mais que os Peugeots não davam sinais de abrandar o ritmo. Mas então o Peugeot pilotado por Pedro Lamy teve um problema estranho (quebra de suspensão com danos na coque de fibra de carbono) e desistiu. Os três Peugeots restantes mantiveram o ritmo fortíssimo, e os Audis continuaram a parecer destinados ao insucesso. Mas depois um segundo Peugeot desistiu, por quebra de motor. E a seguir um terceiro. E finalmente o quarto. E a Audi venceu as 24 Horas de Le Mans, colocando três carros nos três primeiros lugares.

 

Sim, é a história da Lebre e da Tartaruga (embora sejam uma lebre que se recusou a descansar e uma tartaruga que atinge mais de trezentos e cinquenta quilómetros por hora). Todavia, a moral não é que devagar se vai ao longe. A moral obtém-se reparando na estratégia alemã: conceber a viatura com as melhores características globais para o fim a que se destinava (correr numa prova de resistência), acreditar nela e, apesar de a certa altura a concorrência parecer estar a sair-se muito melhor, manter o plano. Por oposição, qual a estratégia dos franceses da Peugeot? Acreditar que a velocidade era o mais importante. Querer andar sempre a fundo. Ignorar os riscos, mesmo após a ocorrência das primeiras falhas.

 

Filhos da mãe dos alemães, não é? Mas não nos preocupemos; vai tudo correr bem.

 

P.S.: Para que conste, nunca possuí um Audi. Mais: por causa de Lamy, porque prefiro protótipos fechados, e porque tenho uma costela anti-elitista que se manifesta das formas mais estranhas, até estava a torcer pela Peugeot.

 

(Foto retirada daqui.)


publicado por José António Abreu às 08:35
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Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
Interesses
Neste post, Daniel Oliveira chega à conclusão de que o que move a Alemanha da Sra. Merkel é a defesa dos seus interesses, e deixa subentendido que não é mais do que obrigação dos alemães arranjarem-nos dinheiro que nos evite a bancarrota, porque com isso estão a salvar os seus bancos. (É uma espécie de chantagem em que nós os obrigamos a pagarem-nos o que lhes devemos; já agora, deixem-me acrescentar que os alemães estão a caminho de se tornarem novamente nos ogres da Europa, desta feita apenas porque poupam e produzem demais.) Ora eu, que se fosse alemão estaria muito pouco satisfeito por ter de emprestar dinheiro a quem o gasta mal e pode bem não mo devolver, acho que um dos pontos mais positivos do capitalismo é precisamente tornar claro que o motivo por que se fazem as coisas é sempre o interesse. Governos, empresas, indivíduos – todos se movem em função do que consideram ser os seus interesses. A avaliação pode estar errada e conduzir a péssimos resultados, mas a motivação não passa a ser diferente por isso. Por alguma razão o capitalismo tem sobrevivido a todos os ataques, revelando-se como o sistema capaz de gerar mais riqueza, ainda que nem sempre bem distribuída. É, pura e simplesmente, o modelo económico mais parecido com a natureza humana (a esquerda, idealista e dogmática, abomina a ideia). Claro que isto faz com que seja atreito a excessos (a ganância humana parece infinita) e a visões de curto prazo. E é aqui que o Estado tem um papel fundamental, no estabelecimento de regras claras, de entidades reguladoras fortes, e de um sistema de justiça eficaz – tudo coisas que não temos por cá (reconheça-se que algumas também falharam noutros países).

 

Mas basta de análises ideológicas. Estabelecida a premissa de que a Alemanha, como qualquer outro país, actua em função dos seus interesses, a pergunta mais interessante que podemos colocar-nos não é, assim, qual a sua motivação para, eventualmente, nos salvar da bancarrota, mas se é do nosso interesse criar as condições para não precisarmos de ser salvos da bancarrota. E a resposta é muito simples: depende. Se acreditarmos que nos continuará a ser possível gerar situações em que a Alemanha ou qualquer outro país tenha interesse em ajudar-nos, e não nos incomodar sermos vistos como esbanjadores e caloteiros, a resposta é, evidentemente, «não». Se, por outro lado, acreditarmos que um dia destes a Alemanha é capaz de chegar à conclusão de que os custos da ajuda ultrapassam os benefícios, ou que (e quem diz a Alemanha, diz o FMI) nos pode impor contrapartidas tão ou mais duras do que as medidas que teríamos de implementar para corrigir a situação, ou – improvável, eu sei – nos sentirmos mal na condição de pedintes, então a resposta é «sim». Neste caso, precisaremos de aplicar a receita que já toda a gente conhece: diminuir gastos e peso do Estado (só pode crescer – se assim for decidido – quando a economia o permitir, nunca antes), cancelar obras públicas que não tenham impacto nas exportações ou na redução dos custos de produção, reformar sistemas de justiça e de educação, baixar custos para as empresas exportadoras, etc. Não é uma receita fácil e não será indolor. Não há sequer garantias de sucesso, em grande medida porque a concorrência é enorme: para além dos países que já nos levam avanço, os que se defrontam com problemas similares aos nossos vão seguir a mesma receita. (Teria sido tão mais fácil e eficaz fazer as coisas há dez ou quinze anos…) Ainda assim, eu sei qual a minha escolha. Suspeito é de que continuo em minoria.



publicado por José António Abreu às 21:53
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Sexta-feira, 30 de Abril de 2010
Nem precisam de transferir o dinheiro...

Apesar de todas as declarações em contrário, não desejamos criar condições para termos uma economia que possa competir com a alemã. O que nós queremos é continuar a comprar produtos alemães – e que a Alemanha os pague.



publicado por José António Abreu às 20:52
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Quarta-feira, 24 de Março de 2010
Alemanha versus Grécia

 

Hegel is arguing that the reality is merely an a priori adjunct of non-naturalistic ethics. Kant, via the categorical imperative, is holding that ontologically it exists only in the imagination. And Marx is claiming it was offside...

 

Desconfio que são os gregos quem hoje recusa a realidade, os alemães a tomar posse da bola, e que o vencedor é outro, e por goleada. Quanto ao fora-de-jogo, Marx tinha razão.



publicado por José António Abreu às 13:06
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
A esmola alemã
Aproveitando um dia em que falar da Alemanha e dos Alemães é inevitável talvez seja bom recordar que, há já mais de vinte anos (desde antes da queda do muro), os alemães (entre outros) nos suportam a incompetência, o desperdício e a corrupção. Até quando? E teremos o descaramento de nos sentirmos injustiçados quando eles fecharem a torneira?
 
(Por causa do euro talvez não nos deixem cair mas apenas empobrecer lentamente.)


publicado por José António Abreu às 19:06
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Linha de metro

Na sequência deste post, tenho para já a dizer que a linha do metropolitano que leva ao Estádio Olímpico de Berlim, onde o concerto se realizou no passado sábado, é a U2. Povos com esta capacidade de antevisão e planeamento têm que ser respeitados.



publicado por José António Abreu às 13:43
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