como sobreviver submerso.

Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
A vagina de Avril Lavigne

Por vezes, quando confrontadas com comportamentos agressivamente sexuais, as mulheres olham para amigos e parceiros e ponderam se, por baixo da capa polida que os faz apreciá-los, eles também serão assim. Bunny Munro (o nome já diz tudo), do livro A Morte de Bunny Munro, de Nick Cave, é um homem “assim”. Um compêndio de genes politicamente incorrectos. O tipo de homem que usa uma “camisa azul de fantasia com uns desenhos que parecem bolinhas mas que, na realidade, vendo de perto, são moedas romanas antigas que têm, vendo ainda de mais perto, várias imagens de casais a copular”. Alguém que não consegue deixar de olhar para uma mulher sem analisar o seu potencial sexual. Sem analisar apenas o seu potencial sexual. Há, logo no início do livro, um capítulo magnífico em que Bunny, ao volante do seu Fiat Punto amarelo, aprecia o “burlesco delicioso do Verão”: raparigas e mulheres regressando da praia, fazendo exercício, namorando, saindo do emprego, todas excitantes, todas com mamas e pernas e rabos e sexos.
 
Bunny é casado. O facto de perseguir todas as mulheres que vê não significa que não ame a mulher. Por seu turno, Libby, a mulher, não aguenta mais. Está no título do livro que Bunny morre, restando saber se literal, se figurativamente; depressa ficamos a saber que o pai de Bunny está a morrer com cancro; e a mulher de Bunny suicida-se antes da página quarenta. O livro pode mergulhar com frequência num registo quase burlesco mas Cave não deseja criar ilusões no leitor. As ilusões ficam para Bunny. O suicídio da mulher – tão obviamente cansada das infidelidades dele – é recebido com uma incompreensão teimosa. Como se não tivesse passado de um acto egoísta e malévolo, que faz Bunny recorrer à única via que conhece para evitar pensar seriamente nos assuntos: o sexo. Fazer sexo e pensar em sexo. O corpo de Libby acaba de ser levado pelas autoridades mas já um confuso Bunny, na varanda, observando as vizinhas aglomeradas em frente ao prédio, deixa a atenção focar-se no modo como o monte-de-vénus de uma rapariga a quem costuma mandar 'bocas' se nota sob a mini-saia que veste. Para Bunny, a simples ideia do sexo feminino é um porto de abrigo. Em momentos de confusão ou desespero visualiza vaginas, em especial vaginas de estrelas do cinema ou da música, que funcionam como faróis de serenidade e plenitude. (A vagina favorita de Bunny é a de Avril Lavigne e Cave pede desculpa a Lavigne – e a Kylie Minogue, cujos calções dourados e canção Spinning Around são refúgios de optimismo para a mente de Bunny – no final do livro).
 
Bunny tem um filho, Bunny Júnior, que, depois da morte da mulher, tenta impingir à sogra. Esta recusa porque “quando olho para ele, só o vejo a si”. A acusação é injusta; aos nove anos, Bunny Júnior está na idade em que a sexualidade ainda é um conceito estranho nos outros e pouco evidente nele próprio. A morte da mãe deixa-o mais confuso do que triste. Agarra-se a uma pequena enciclopédia que ela lhe comprara, numa tentativa de ordenar o mundo através da obtenção de informação (saltita, por exemplo, de “Merlin”, que era filho de um íncubo, para “íncubo”, que é um “espírito malévolo que pratica o coito com as mulheres quando estão a dormir”, para “coito”, que “uau, olha para isto”). Como quase todos os miúdos dessa idade, acredita ter o melhor pai do mundo e, a princípio, os actos extravagantes dele só lhe reforçam a convicção.
 
Mais ou menos em desespero, mais ou menos iluminado por uma lufada de optimismo, Bunny decide enfiar-se com o filho no Punto e iniciar um périplo pelo sul de Inglaterra, desempenhando o seu trabalho: vender produtos de beleza porta-a-porta a mulheres que estão quase sempre sozinhas em casa, cansadas, desiludidas e – pelo menos aparentemente – disponíveis. A televisão vai dando conta de um assassino em massa que parece dirigir-se para Sul, uma betoneira castanha com a inscrição “Gajo Macho” cruza-se repetidamente com o Punto, pai e filho começam a ter visões de Libby, Bunny Júnior começa a interrogar-se se não deveria estar na escola e o optimismo – eufemismo para inconsciência – de Bunny é testado numa série de eventos infelizes, chocantes e dolorosos mas também frequentemente hilariantes (num sentido similar ao de ver o Coyote explodir ou ser esmagado por um pedregulho ao perseguir o Road Runner), que deixam o leitor entre o sentimento de achar que é muito bem feito porque Bunny é um cretino e o de pena porque ele é apenas um pobre diabo quase inimputável. A verdade é que ninguém – nem mesmo Bunny – consegue iludir a realidade de modo permanente.
 
E, para responder à pergunta inicial: sim, todos os homens são «assim», variando apenas o grau de discrição com que o são.
 
Vagina, vagina.

 

A Morte de Bunny Munro, de Nick Cave.

Editora Objectiva, tradução de José Couto Nogueira.

 

(Este é o quarto e último post da "Operação Bunny Munro. O primeiro. O segundo. O terceiro.)


publicado por José António Abreu às 17:39
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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Beleza e morte
 
They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day
 
From the first day I saw her I knew she was the one
As she stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
They grew down the river, all bloody and wild
 
When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped the tears that ran down my face
 
CHORUS
 
On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, 'Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?'
 
On the second day he came with a single rose
Said: 'Will you give me your loss and your sorrow?'
I nodded my head, as I lied on the bed
He said, 'If I show you the roses will you follow?'
 
CHORUS
 
On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he stood smiling above me with a rock in his fist
 
On the last day I took her where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wind light as a thief
As I kissed her goodbye, I said, 'All beauty must die'
And lent down and planted a rose between her teeth
 
CHORUS
 

A beleza (particularmente a feminina) e a morte são omnipresentes na obra de Nick Cave. Apreciar a beleza é doloroso. E ela é demasiado frágil para suportar convivências. Mais vale extingui-la.

 

Que este tema, do álbum Murder Ballads, talvez o mais conhecido de Cave, seja tão claro a este respeito e seja também um dueto com Kylie Minogue é uma coincidência particularmente feliz atendendo às referências que Cave faz a Minogue (com um pedido de desculpas no final) em A Morte de Bunny Munro. Onde Bunny não mata mulheres atraentes mas as consome. Cá voltaremos.

 

(Este é o segundo post da "Operação Bunny Munro". O primeiro.)



publicado por José António Abreu às 08:35
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Argumento suplementar

Ainda há pouco tempo, Poodle falou a Bunny sobre um engatatão de Portsdale que passou de macho a merdas depois de assistir a um espectáculo de Céline Dion. Simplesmente deixou de conseguir levantar o coiso. Contou a Poodle que era como tentar meter um canário morto numa fenda do multibanco. Por fim, acabou por pendurar as chuteiras e tornou-se jardineiro em Walberswick.

 

Nick Cave, in A Morte de Bunny Munro

Edição Alfaguara, tradução de José Couto Nogueira

 

(Nota: este é o primeiro post da "Operação Bunny Munro".)



publicado por José António Abreu às 13:10
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