como sobreviver submerso.
Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014
Eu, Gene Kelly, ou como se fica mais são com o avanço da idade.

Por estes dias quase toda a gente anda com auriculares enfiados nos ouvidos. Até eu, de vez em quando. É bom ter música na cabeça. Mas, como naquelas brincadeiras antigas em que se imaginava ser cowboy ou índio, um pedaço de terreno baldio era uma pradaria e se disparava contra colegas de rua ou de escola com espingardas de plástico (entretanto banidas porque estamos todos muito mais pacíficos) ou pedaços de madeira fazendo as vezes de espingardas de plástico, em vez de escolher ser cowboy ou índio no menu da consola de jogos, ver a pradaria no ecrã e disparar contra inimigos sentados noutros sofás olhando para outros televisores (se bem que, em vez de cowboy ou índio, é mais soldado ou alien, que cowboys e especialmente índios são aparições raras nos jogos de vídeo, por estarem pouco de acordo com os mesmos critérios que levaram à abolição da espingarda de plástico), muitas vezes é mais interessante cantarolar o que não se ouve. Ou – tentemos ser exactos – o que se ouve mas não de fora para dentro. Enquanto estudante universitário em Coimbra, descendo sob chuva da alta da cidade para a estação de autocarros, saco de roupa ao ombro, guarda-chuva tão frequentemente fechado como aberto, por défice de chuva digna do termo, excesso de vento ou consciente insensatez, cantarolei muitas vezes Singin’ in the Rain, esboçando mesmo uns passos de dança em raras ocasiões. (Claro que isto foi antes de Kubrick estragar tudo: apanhei uma reposição de A Laranja Mecânica no Gil Vicente ou no São Teotónio, já não sei ao certo, e em vez da imagem de Gene Kelly, feliz da vida, chapinhando nas poças da rua passou a surgir na minha cabeça a de Malcolm McDowell, feliz da vida, pontapeando o cônjuge da senhora que violaria logo a seguir.) Felizmente tal sucedia nas noites de sexta-feira, com as ruas quase desertas, porque, como é fácil de perceber, cantar o que quer que seja sem auriculares nos ouvidos poderia à época e pode ainda hoje ser classificado como loucura. Caso em que o avanço da idade me tornou inegavelmente mais são porque hoje já quase não canto ao calcorrear passeios. Muito menos sem auriculares nos ouvidos. Ou(,) só de longe a longe, As Time Goes By.



publicado por José António Abreu às 22:43
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