como sobreviver submerso.

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015
Baixando o nível
Nos tempos modernos, a Grécia nunca foi rica. Portugal também não e mesmo Espanha e Itália nunca conseguiram os níveis médios de rendimento e bem-estar de países como a Alemanha, a Áustria ou a Holanda. Os países do Sul (como, de resto, os seus 'discípulos' da América Latina) nunca perceberam as vantagens de manter contas públicas equilibradas. O exemplo português é elucidativo. Nos últimos séculos, os dois únicos períodos prolongados de crescimento deveram-se à acção de dois déspotas com preocupações de equilíbrio orçamental: o Marquês de Pombal e António de Oliveira Salazar. (O rendimento médio em Portugal era de cerca de 30% do rendimento médio europeu quando Salazar chegou ao poder e, apesar das medidas iniciais de austeridade, da guerra colonial e da filosofia de favorecimento de meia dúzia de grupos económicos, subira para mais de 50% no final do regime.) No Sul, a solução para os problemas passou invariavelmente pela desvalorização da moeda e subsequente inflação. Tome-se como exemplo o ano de 1981 (escolhido por ser o primeiro disponível para todos estes países nos Outlooks do FMI). A inflação nos sete países referidos foi de 21,2% (Portugal), 24,4 % (Grécia), 14,5% (Espanha), 19,5% (Itália), 6,3% (Alemanha), 6,8% (Áustria e Holanda). A separação de águas é demasiado notória para ser irrelevante (neste link podem ser comparados outros anos; a tendência mantém-se).

O euro fez com que, num primeiro momento, todos ganhassem: os países do Norte ficaram ainda mais competitivos e os países do Sul acederam a taxas de juro bastante mais favoráveis do que as suas economias recomendavam. Isto levou-os primeiro a níveis insensatos de investimento improdutivo e de endividamento e, depois, à inevitabilidade de corrigir abruptamente a trajectória (a austeridade é um efeito, não uma causa). Discute-se agora se é desejável atenuar – na verdade, eliminar – essa trajectória, perdoando dívidas e acabando com a austeridade. Para que tal suceda, será necessário assumir uma política em tudo contrária àquela que permitiu o enriquecimento dos países do Centro e Norte da Europa e em quase tudo idêntica à que nunca permitiu o enriquecimento dos países do Sul: aceitar os desequilíbrios em vez de os corrigir, emitir moeda, transferir fundos do Norte para o Sul (assumindo que é constitucionalmente possível). E o pior é que, permanecendo os países do Sul reticentes à aplicação de reformas que os possam tornar mais competitivos, nada permite considerar esta situação como temporária. Ou seja: quando o Syriza promete o fim da austeridade e o reforço das políticas públicas, está a fazê-lo às custas dos contribuintes alemães e holandeses e austríacos (e também portugueses e espanhóis e italianos mas estes têm razões para acreditar poderem sair beneficiados do processo) e nem sequer lhes permite a esperança de que dentro de poucos anos a economia grega consiga auto-sustentar-se. No fundo, a Grécia admite oficialmente desejar ser uma espécie de desempregado da Europa, recebendo o correspondente – e, tudo o indica, eterno – subsídio. Obviamente, caso tenha sucesso, outros lhe seguirão o exemplo.

De um inconsciente António Costa a uma bem consciente Marine Le Pen, muita gente ficou satisfeita com a vitória do Syriza. A curto prazo, ceder ao essencial das exigências de Tsipras e seus correligionários poderá permitir a sensação de que tudo melhora. A longo prazo, é um suicídio para a Europa.



publicado por José António Abreu às 13:28
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015
Quantitative (Un)Easing

Os analistas já estão, contudo, a tentar antecipar o nível de eficácia que esta medida, a confirma-se, terá. Alberto Gallo, economista do Royal Bank of Scotland, diz que “por si só, o programa Q.E. terá um impacto limitado”. “Produzirá um efeito através das exportações e da desvalorização da divisa mas não tanto através do efeito-riqueza ou do ponto de vista do investimento/consumo ou, ainda, da expansão do crédito”.

O próprio Mario Draghi, presidente do BCE, já reconheceu que a política monetária, por mais medidas que a instituição tome, não conseguirá, sozinha, acelerar a recuperação económica na zona euro. Em entrevista recente, Draghi disse que “são necessários mais progressos estruturais importantes – mercados de trabalho mais flexíveis, menos burocracia, impostos mais baixos”. O jornalista do Handelsblatt perguntou: “Pode ser um pouco mais específico, Sr. Presidente? Que países da zona euro precisam de fazer mais esforços?”. “Todos, respondeu.

De um artigo no Observador, sobre o programa de compra de dívida pública por parte do BCE.

 

Já se percebeu que vários países apenas implementarão reformas significativas quando forçados a isso. Ao aliviar a pressão, não apenas o quantitative easing falhará como terá efeitos contraproducentes. A Europa poderia perder os anéis mas salvar os dedos. Fechando os olhos à realidade (a conjuntura económica e demográfica das décadas pós-Segunda Guerra Mundial já não existe) e recusando ajustar o modelo de organização pública então criado (serviços, prestações sociais, burocracia, estruturas políticas) às disponibilidades do presente, acabará perdendo também alguns dedos.

 

P.S.: Neste contexto, que António Costa (com entusiástico apoio de Rui Rio) tenha decidido voltar a propor a implantação de mais um nível político-administrativo em Portugal só pode constituir prova de insanidade.



publicado por José António Abreu às 10:58
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Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2015
Submissão e luta

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O novo livro de Michel Houellebecq, Soumission (tradução de «Islão») acabou de chegar às livrarias mas é discutido pela intelligentsia francesa há várias semanas. Nele, com o apoio de PSF e UMP, o candidato de um imaginário partido muçulmano (a Fraternidade Muçulmana) derrota Marine Le Pen na segunda volta das eleições presidenciais de 2022 e começa a implementar um regime patriarcal baseado na religião que (porque as mulheres são empurradas de volta às tarefas domésticas) até faz diminuir a taxa de desemprego. Houellebecq defende a plausibilidade do aparecimento de um partido assim com o facto da maioria dos muçulmanos (já cerca de 10% da população francesa) não se identificarem com os existentes: os valores tradicionais do Islamismo afastam-nos da esquerda enquanto a política económica e de imigração os afastam da direita.

Houellebecq é um polemista formidável, que admite desprezar o Islamismo (despreza um pouco menos o Cristianismo e o Judaísmo apenas porque atribui valor literário à bíblia) mas também é alguém que toca frequentemente em assuntos que mereciam discussão menos entrincheirada do que a permitida pela força castradora do politicamente correcto. No livro anterior, apresentava uma França – e uma Europa – dependente do turismo, museu a céu aberto completamente irrelevante na cena mundial - uma visão que se vem tornando cada vez menos irrealista. Para além de temas habituais na ficção literária (as desilusões associadas ao processo de envelhecimento, por exemplo), é possível encontrar nas suas obras, bem como em algumas das suas entrevistas, uma preocupação (à primeira vista curiosa, em alguém que parece acreditar em tão pouco) com a barbárie a que a progressiva substituição de valores partilhados e intangíveis pela apatia, pelo individualismo e pelo medo de ficar mal visto pode conduzir a sociedade europeia. De resto, é esta perda de valores que justifica outro tema recorrente do francês: o carácter cada vez mais utópico das relações amorosas duradouras, baseadas em monogamia sexual, que tradicionalmente estruturavam a sociedade. Num toque irónico, o cenário apresentado em Soumission, de progressiva conversão ao Islamismo da sociedade francesa (sendo que a conversão - ou, mais propriamente, a resignação – de ateus e agnósticos parece fácil de conseguir porque os movem valores práticos, materiais), resolve essa questão, pelo menos a um nível superficial.

Como seria de esperar, Houellebecq tem estado debaixo de fogo da Esquerda desde que o tema do livro foi anunciado. E, contudo, numa época em que alemães protestam contra o aumento do número de muçulmanos e em que Paris limpa das ruas o sangue derramado por atentados em nome do Islão, chegou mesmo a altura de debater estas questões. Altura de assumir que estamos perante um choque de civilizações (em muitos apectos, entre a barbárie e a civilização ou entre a Idade Média e a Modernidade) e não apenas de efeitos da pobreza ou de complexos de inferioridade, como frequentemente se afadigam a explicar certas mentes oportunistas, mais preocupadas em justificar as acções daqueles que combatem os valores que afirmam defender do que em defendê-los efectivamente. Altura de procurar mitigar o risco, sem cair no tipo de medidas que configurariam capitulação. Acima de tudo, altura de afastar a apatia e de reforçar os valores que definem aquilo que a Europa aprendeu a representar nas últimas sete décadas – os mesmos valores que, adicionados a um nível de bem-estar económico ainda muito superior à média, a continuam a fazer atractiva para milhares de imigrantes: tolerância e liberdade. É imperativo descobrir a forma de, com eles, se possível através deles, combater todos os que praticam a intolerância e advogam a submissão. As manifestações de ontem foram um bom indício. Não bastam, porém. Mais importante é garantir diariamente o direito à crítica, à irreverência, ao mau-gosto. Não tergiversar e chamar a atenção de todos os que costumam fazê-lo, incluindo muitos líderes das comunidades islâmicas: um cartoon nunca justifica violência, uma opinião, por insultuosa que seja, nunca justifica ameaças e atentados. Quando Houellebecq afirmou que o Islamismo era a religião mais estúpida, foi processado por grupos de muçulmanos franceses. Seja. Os tribunais também existem para isso. E para decidir – como decidiram – que a opinião é livre.

Acima de tudo, é preciso demonstrar que a mesma liberdade individual que terá desempenhado um papel no desvanecimento dos tais valores intangíveis (ninguém é condenado à fogueira por recusar Deus, as mulheres podem ser independentes, etc., etc.) é, em si mesma, suficientemente forte e agregadora. Deixar claro que, com ou sem atentados, fazemos questão de viver normalmente num certo estilo de sociedade. Embora – convém referi-lo – não haja insulto superior a esse.

 

Nota: Ainda não li Soumission mas apenas vários textos sobre ele.



publicado por José António Abreu às 23:44
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Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014
Paraísos de crescimento económico e justiça social

Argentina is once again at the centre of an emerging-market crisis. This one can be blamed on the incompetence of the president, Cristina Fernández, but she is merely the latest in a succession of economically illiterate populists, stretching back to Juan and Eva (Evita) Perón, and before. The Chilean and Uruguayans, the locals Argentines used to look down on, are now richer. Children from both those countries – and Brazil and Mexico too – do better in international education tests.

[…]

On Europe’s southern fringe, both government and business have avoided reality with Argentine disdain. Italy’s petulant demand that rating agencies should take into account its “cultural wealth”, instead of looking too closely at its dodgy government finances, sounded like Ms. Fernández. The European Union protects Spain or Greece from spiralling off into autarky. But what if the euro zone broke up?

The Economist, número saído hoje.

 

Nada que assuste os populistas de esquerda, tão activos como os de direita mas com muito melhor imprensa. Das duas, uma: como a Sra. Fernández e, um pouco mais a norte, o Sr. Maduro, não vêem os riscos ou estão mesmo convencidos (e iludidos) de que será possível forçar parte da Europa a cobrir-lhes a demagogia.

 

(Para que conste, no final de 2012 escrevi: Em 2013 continuará a discutir-se por cá a relação custo/benefício do euro. Na Argentina continuará a discutir-se a relação custo/benefício da inflação.)



publicado por José António Abreu às 15:03
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Segunda-feira, 12 de Agosto de 2013
Quando salvar os bancos é coisa boa
Existe há muito em Portugal a tendência para considerar que o dinheiro do Estado é inesgotável e que este apenas o recusa por maldade. Da exigência de cada vez mais serviços públicos (com consequente aumento de custos) à solicitação de apoios sempre que algo corre mal (cheias, incêndios, granizo, dificuldades financeiras de empresas públicas e privadas), os exemplos abundam. Ao tornar visível que o dinheiro do Estado sai do bolso dos contribuintes, a crise  abalou ligeiramente esta mentalidade mas não a eliminou. Longe disso. Ainda recentemente (um exemplo entre muitos possíveis) o bastonário da ordem dos médicos admitia que a situação financeira do Serviço Nacional de Saúde é preocupante mas acrescentava de imediato que tal não revela a existência de um problema no SNS, antes de um problema no país. Como se o país fosse uma realidade inteiramente separada das suas componentes. Como se fosse possível resolver problemas sem mexer na área em que eles ocorrem. Como se, aplicada a todos os sectores, tão brilhante conclusão não levasse a um (de resto, tradicional) completo imobilismo (em nada de específico se toca porque o problema não é específico), do qual resulta o irritante problema de saber quem no fim paga as contas (algo que não pareceu preocupar o bastonário porque, evidentemente, ele continua a acreditar que o dinheiro só não surge por má vontade). E a maioria das pessoas terá ouvido o bastonário e concordado se não com a interpretação altamente dissociativa que ele produziu pelo menos com a mensagem mais perceptível de que é preciso arranjar dinheiro para injectar no SNS.

Existe, todavia, uma área em que os portugueses parecem hoje incomodar-se a sério com a utilização de dinheiros públicos: o auxílio aos bancos. Aumentar impostos ou cortar salários e pensões para salvar os bancos? Inaceitável. Na verdade, nem tanto. Como se vê pelas reacções às soluções adoptadas em Espanha (o auxílio aos bancos não conta para o défice) e em Chipre (onde os maiores depositantes foram atingidos), bem como a várias notícias relacionadas com a união bancária, não é a ajuda aos bancos que incomoda os portugueses. Tendo mais ou menos percebido que o dinheiro público nacional lhes sai dos bolsos, os portugueses apenas passaram a desejar que outro dinheiro público resolva os problemas. O dinheiro público europeu, que, evidentemente, só não é inesgotável por má vontade de alguns povos (ou melhor: dos governantes de alguns povos). Com esse dinheiro, e entre muitas outras coisas, salvar os bancos não tem mal nenhum.



publicado por José António Abreu às 18:07
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Terça-feira, 16 de Julho de 2013
Será praga?

República Checa, 2013. O presidente, Miloš Zeman, foi eleito em Março. No mês passado, o primeiro-ministro Petr Nečas (em checo deve soar melhor), líder de uma coligação de três partidos de centro-direita, demitiu-se, acusado de corrupção (para conseguir fazer passar uma lei, terá pedido a três deputados que abandonassem o parlamento em troca de lugares na administração pública). A coligação propôs o nome de Miroslava Němcová para o substituir. O presidente recusou. Na passada quarta-feira (o dia em que, a milhares de quilómetros de distância, Cavaco Silva resolveu salvar Portugal), nomeou Jiří Rusmok, seu velho colaborador (há cerca de uma década foi ministro das finanças quando Zeman era primeiro-ministro), para o cargo. Rusmok é de centro-esquerda. O seu governo está legalmente obrigado a vencer uma moção de confiança que terá de ser votada nos trinta dias subsequentes à nomeação. Se a perder, o mais certo é a coligação propor novamente ao presidente o nome de Miroslava Němcová. E Zeman vetá-lo mais uma vez. Após uma segunda moção de confiança derrotada, o presidente será forçado a aceitar o nome indicado pelo parlamento. Mas Zeman pode adiar a segunda nomeação (e, por conseguinte, a segunda votação) tanto tempo quanto desejar, fazendo com que Rusmok governe durante meses, eventualmente (parece ser esse o plano) até às eleições previstas para a Primavera de 2014.

Trata-se apenas de mais um indício, a juntar à questão húngara, ao crescimento de partidos cuja única ideologia é a contestação, e até às declarações de um ou outro sindicalista português com bigode à Estaline, de que os ventos de desrespeito pelo sistema parlamentar (e, por conseguinte, democrático) se espalham pela Europa. A menos que prefiramos adoptar uma perspectiva benigna e perguntar que estirpe de vírus anda por aí a atacar presidentes europeus (O Vírus das Quartas-Feiras dava o título de um filme, não dava?), levando-os a congeminar soluções de governo que vão contra a vontade dos seus parlamentos.

 

Foto (obtida através do site do The Economist): capa da revista checa Respekt, retratando o presidente Zeman como um imperador romano.


publicado por José António Abreu às 08:44
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Terça-feira, 2 de Abril de 2013
Salvando os bancos
Por que motivo, em comparação com o que aconteceu nos Estados Unidos, tão poucos bancos encerraram na Europa desde o início da crise financeira? Devem os bancos europeus continuar a ser salvos com dinheiro dos contribuintes ou deve a solução encontrada para Chipre ser alargada a outros países? Este artigo, na edição online em inglês da Der Spiegel, ajuda a perceber que não há respostas fáceis.


publicado por José António Abreu às 13:40
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Terça-feira, 19 de Março de 2013
Do respeito pelos depósitos bancários

Não gosto do plano anunciado para resolver a crise bancária no Chipre. Não gosto por motivos emocionais (é lixado ter poupanças no banco e, sem ter feito nada para isso, vê-las sofrer um corte substancial) e não gosto por motivos de lógica (poupa os accionistas mais do que deveria poupar; reacende, nos países em dificuldades, as dúvidas sobre a conveniência de ter dinheiro no banco; coloca o euro sob pressão). Mas percebo que, olhado por outro prisma, faz sentido: vai-se buscar dinheiro ao único local onde ele verdadeiramente existe (num país com um PIB minúsculo em comparação com os activos bancários, qualquer outra solução está longe de ser evidente). O que não percebo é a reacção de desagrado dos que ovacionaram a decisão da Islândia de fazer recair a falência dos seus bancos sobre os depositantes estrangeiros. Será por, neste caso, os depositantes locais estarem abrangidos, donde se concluiria que ser estrangeiro – ou, pelo menos, investidor estrangeiro – é coisa maligna e que essas mesmas pessoas estariam disponíveis para apoiar um plano segundo o qual os bancos cipriotas fossem nacionalizados (de forma a castigar os capitalistas pérfidos – eu prefiro chamar-lhes, e aos gestores que puseram à frente dos bancos, mais míopes do que Mister Magoo mas sei estar em minoria – que andaram a comprar os títulos que o governo grego insistia em vender) e apenas os depósitos dos estrangeiros fossem taxados? Ou merecer-lhes-ão os russos mais consideração do que mereceram ingleses e holandeses?



publicado por José António Abreu às 12:53
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Segunda-feira, 18 de Março de 2013
Uma cronologia e uma pergunta de algibeira

1. Parte da dívida pública grega é perdoada;

2. Bancos cipriotas encaixam perdas monumentais com perdão da dívida grega;

3. Contribuintes europeus e depositantes dos bancos cipriotas são chamados a salvar bancos cipriotas.

Continuamos apaixonados pela ideia de renegociar as dívidas públicas?



publicado por José António Abreu às 17:48
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013
Notas sobre o orçamento da (des)União

1. Tem o seu interesse que, vinte e sete anos e incontáveis projectos de investimento depois, permaneçamos à espera de «fundos» da União Europeia e encaremos qualquer corte não apenas como uma desilusão mas como uma tremenda injustiça. Quando ela existiu desde o início, durante quantas décadas se pode reclamar solidariedade?

 

2. Evidentemente, torna-se forçoso reconhecer que, desde a adesão, vários governos portugueses aceitaram reduções de produção em troca de dinheiro comunitário. Foi um erro que devia ter-nos aberto os olhos para a evidência de que, a prazo, injecções de dinheiro público raramente compensam cortes – forçados ou não – na capacidade produtiva (maioritariamente privada).

 

3. Não abriu. No caso em apreço, inúmeras vozes clamam pelo desvio de mais recursos dos bolsos dos contribuintes para o orçamento comunitário e, através deste, para os governos em dificuldades. Por cá, até se compreende. Seriam outros contribuintes a pagar a factura.

 

4. Pelo menos até as políticas de «incentivo ao crescimento» falharem outra vez e se descobrir – com genuína surpresa e indizível horror – que estava criado mais um monstro insaciável. Na verdade, é possível que já esteja.

 

5. Existem razões válidas para se desejar um orçamento comunitário mais elevado. Todas aquelas que decorrem de uma vontade genuína para aumentar a união política. Mas esta não pode significar apenas um acréscimo de verbas no orçamento. Tem – para quem a defenda – de significar também a transferência efectiva de poderes do nível nacional para o nível europeu, com a consequente redução de cargos políticos e de verbas orçamentais a nível nacional. O que exige cidadãos europeus disponíveis para verem as políticas fiscais, de investimento, de emprego, de educação, de saúde, etc, serem decididas a partir de Bruxelas. Sem eleições, isto é impensável. Com eleições, provavelmente também mas trata-se de um cenário com o qual nem vale a pena perder tempo: as probabilidades de, a curto/médio prazo, elas virem a existir são menores do que as de apanhar David Cameron cantando La Marseillaise com o punho cerrado e a voz embargada de emoção (e daí, talvez não seja assim tão improvável: eu faço-o durante o Casablanca).

 

6. No fundo, tendo em conta as limitações do xadrez actual, é simples. Quem acreditar que, na situação de défices e dívidas em que quase todos os países europeus se encontram mergulhados, uma correcção é inevitável e que os governos – incluindo o arremedo sediado em Bruxelas – devem conter gastos porque a aplicação dos recursos que teriam de retirar da economia privada (ou inventar através do BCE – mas, ei, todos detestamos especulação, certo?) não geraria efeitos suficientes e duradouros, só pode apoiar um aumento das verbas orçamentais na perspectiva enunciada no ponto 3 (a curto prazo, para alguns países, entre os quais Portugal, seria positivo, uma vez que a conta seria paga alhures). Quem acreditar que o aumento das transferências de dinheiro dos bolsos dos cidadãos dos países «contribuintes líquidos» para os governos dos países que, décadas de fundos mal utilizados pelas costas, ainda clamam por auxílio pode não apenas resolver a crise em que estes se encontram mergulhados mas ser conseguido sem perguntar a esses mesmos cidadãos sobre a sua disponibilidade para realizar o esforço, defenderá um orçamento comunitário reforçado. Muito mais reforçado. Cada vez mais reforçado.



publicado por José António Abreu às 23:32
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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012
Euro e Itália

Já que no post anterior mencionei um artigo da Prospect, aproveito e aconselho quem ainda tiver ilusões sobre as consequências de uma saída do euro a ler no site da revista este artigo de Wolfgang Munchau, publicado a 25 de Abril, onde elas são explicadas de forma bastante clara – sendo que uma delas (ah, a ironia da data de publicação) é a absoluta necessidade de ignorar Constituições e suspender a democracia. Mas talvez os parágrafos mais actuais sejam os seguintes:

The only country that could conceivably exit unilaterally, and still breathe afterwards, is Italy, which has a primary surplus. It could afford to default on its foreign debt and still function. But it would be an incredibly violent act against the rest of the eurozone, triggering a potential collapse of the financial system, especially given German and French exposures.
There is no way that Mario Monti, Italian prime minister and a former European commissioner, would take such a step. He could have threatened to do so when Merkel imposed an austerity regime on everybody. But he did not. He could have extracted eurobonds as a quid pro quo for accepting a German-style fiscal regime.
Só que Monti já era. Avance ou não Berlusconi – no primeiro caso, é uma certeza –, a situação ameaça ficar interessante.


publicado por José António Abreu às 20:19
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Domingo, 11 de Novembro de 2012
Die Frau mit langem Schatten
Nos primeiros anos da existência do euro (e com isto quero dizer desde a segunda metade da década de noventa, mesmo antes de ele circular sob a forma de notas e moedas), a Alemanha viu o investimento deslocar-se para Sul (bem como para Leste, mas deixemos isso para outra oportunidade), área geográfica onde os níveis de rentabilidade eram muito superiores e o risco (conforme famosas declarações de Vítor Constâncio) parecia igual. Ainda às voltas com os custos da reunificação, vendo o investimento escapar, confrontada com uma evolução demográfica assustadora e com um comércio onde a China ameaçava dar cartas, a Alemanha implementou reformas – não radicais mas significativas. Por exemplo, reviu a lei laboral e das prestações de desemprego (as famosas leis Hartz, com destaque para a Hartz IV) e alterou o sistema de segurança social, introduzindo, para além de mudanças nas fórmulas de cálculo, um sistema complementar privado e um aumento progressivo da idade da reforma para os 67 anos. Entretanto, os países do sul aplicavam o influxo de capitais em imobiliário, consumo e dívida pública. Quando a crise financeira de 2008 levou primeiro os países europeus a agravar o frenesim despesista e, logo a seguir, expôs o esquema de Ponzi a que se dedicavam há anos (e que muitos ainda hoje desejam prolongar), a Alemanha, não passando ao lado da crise (desde logo por causa dos bancos mas também porque, apesar das reformas, a economia alemã tinha – e tem – falhas), transformou-se num refúgio, vendo regressar os capitais e passando a financiar-se a juros pouco acima de zero. Naturalmente, transformou-se também no mau da fita.

 

Angela Merkel, que nos visita amanhã, foi quase irrelevante no meio de tudo isto. Em 2009 e 2010 deixou que Sócrates, Zapatero, Papandreou e Berlusconi utilizassem notas de euro como se fossem produtos descartáveis (mas, ei, a Alemanha não pode mandar nos restantes, certo?) e, depois, fez o que qualquer outro líder alemão teria feito. Para a Alemanha, como para a Finlândia, para a Holanda ou para a Áustria, era crucial que o euro permanecesse uma moeda forte (foi com base em moeda forte que enriqueceram) e isso implicava garantir que os países em dificuldades aplicavam um travão ao investimento não produtivo e faziam as reformas eternamente adiadas. Ter-se-ia dispensado a faceta punitiva, que hoje se revela prejudicial, mas mesmo essa deve ser compreendida: para um alemão, descobrir que a Grécia tinha aldrabado as contas para aceder ao euro; que vários países haviam aproveitado as taxas de juro reduzidas a que o euro lhes dera acesso para gastar desalmadamente; que, ao contrário do que sucedera na Alemanha, não haviam levado a cabo quaisquer reformas de fundo; para um alemão, como para qualquer pessoa de qualquer outra nacionalidade se colocada perante idêntico cenário, a vontade de aplicar um castigo surgiu instintivamente – e compreensivelmente.

 

Hoje, Merkel está presa entre uma União Europeia que ameaça colapsar e uma política que, a prazo, poderá arrastar a Alemanha para os eternos ciclos de desvalorização-inflação em que os países do Sul são exímios (e nos quais, depois da traumática experiência da década de vinte do século passado, os alemães juraram nunca mais cair). Dentro do euro, Merkel apenas dispõe de três vias: forçar uma austeridade a todo o custo que se revelará contraproducente mesmo para a própria Alemanha, amenizar a austeridade à medida (mas apenas à medida) que forem sendo implementadas reformas de fundo nos países em dificuldades (coisa que está a acontecer muito devagar, se é que está a acontecer de todo), ou aceitar pagar a conta, esquecendo a lição de Weimar. Sendo que, antes de mais, Merkel responde aos alemães, os quais não desejam o bailout e a julgarão dentro de menos de um ano. Aliás, para quem anda por aí a clamar que um governo eleito há dezassete meses perdeu legitimidade por já não reflectir a opinião popular, a política do governo alemão, alinhada com a vontade popular, devia merecer apreço. Pelo contrário, parece ser tão ou mais ofensiva.

 

Mas talvez a parte mais interessante e delicada do problema seja simbólica e não económica. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A Mulher sem Sombra), do alemão Richard Strauss, a personagem principal é uma imperatriz presa entre dois mundos, o humano e o dos espíritos, denunciada como não totalmente humana pela falta de sombra. Merkel (que aprecia ópera mas, segundo creio – no que parece ser um pré-requisito para qualquer líder alemão –, prefere Wagner a Strauss) está também presa entre dois mundos (o da responsabilidade orçamental com uma moeda forte e o do laxismo com uma moeda fraca) mas carrega, pelo contrário, uma sombra demasiado longa: a sombra das duas guerras mundiais e das atrocidades do nazismo. Foi para a diminuir que a Alemanha prescindiu do marco e ligou o seu futuro ao de países cronicamente irresponsáveis (poucos alemães, incluindo políticos, desejavam a mudança*), é talvez em parte para a diminuir que se esforça por permanecer no euro. Tudo em vão. A sombra do passado continua a recair sobre os alemães (e continuará durante décadas, sempre que algo correr mal na Europa), tornando-os um pouco menos que humanos. Como provavelmente amanhã muitos cartazes não deixarão de mostrar.

 


* Circunstância que deveria pelo menos abalar as teorias da conspiração segundo as quais a Alemanha procura mais uma vez conquistar a Europa, desta feita sem recurso à força militar.



publicado por José António Abreu às 23:12
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Terça-feira, 2 de Outubro de 2012
Ponto de situação e desistência
1. Defendi alterações na TSU desde o início do programa de ajustamento. Gostaria que tivessem sido anunciadas após o Verão de 2011 e implementadas em 2012. Agora, parece que a TSU ficará como está e que o esforço de correcção orçamental será assegurado apenas através dos impostos. Ou seja: perdem-se o factor de estímulo das exportações e o corte da despesa pública correspondente aos 5,75% do valor dos salários dos funcionários públicos e volta-se a um trajecto sem imaginação que, como sucedeu nos últimos anos, também fará retrair a economia. Vitória? De Pirro, quase certamente.
 
2. Defendi que o esforço de correcção orçamental devia incidir mais sobre o sector público do que o privado, por razões de – pasme-se – equidade (quando as suas empresas se encontram em dificuldades, os funcionários do sector privado não vão buscar salário aos do sector público) e, acima de tudo, porque é o sector privado que nos pode tirar da crise (o sector público desempenha muitas funções importantes mas não exporta). Graças à Constituição que temos, também este ponto parece prestes a cair. Ainda bem? Lamento mas não. Ponto a ponto, estamos a tornar a recuperação mais difícil.

 

3. Qualquer país que, tendo um nível de vida abaixo da média de uma dada zona, pretenda ganhar terreno aos mais ricos tem de apresentar condições atractivas em tantos ramos quantos lhe for possível, em vez de se limitar a queixar-se da injustiça do desnível. No último debate entre Sarkozy e Hollande, este repetia que na última década a França apresentou níveis de crescimento inferiores à Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe que a Alemanha fez há dez anos aquilo que os socialistas franceses ainda recusam hoje. O pequeno francês hiperactivo tinha toda a razão. E a situação torna-se mais grave quando, em vez de França, estamos perante Portugal, Espanha, Grécia ou Itália. Repare-se no que sucede por cá: exigimos salários e pensões similares aos da Europa do Norte mas recusamos a legislação laboral dinamarquesa, a idade de reforma alemã, o sistema de segurança social sueco. Em contrapartida, temos um Estado quase tão grande e um nível de impostos quase tão alto como os desses países. E somos muito piores no nível de corrupção, na burocracia, no sistema de Justiça. Nestas condições, só é possível recuperar ou, até, manter o nível de vida se os cidadãos dos países mais ricos aceitarem subsidiar-nos. Para sempre.

 

4. Evidentemente, não aceitarão. Nem seria lógico que o fizessem. Na situação deles, nós também não o faríamos. Atente-se no modo como os portugueses do continente reagiram ao buraco orçamental madeirense. Ou na forma como na Catalunha se exige que todos os impostos cobrados na região lá sejam aplicados. Ou até na maneira como os italianos do norte olham para os seus conterrâneos do sul. A que propósito hão-de finlandeses e alemães aceitar enviar-nos dinheiro? Obviamente, só o farão enquanto ganharem com isso (por exemplo, através de captação de fluxos de capitais – os quais, acrescente-se, só vieram para cá devido ao euro) ou, pelo menos, não perderem. Mas, do lado deles e do nosso, durante quanto tempo poderá a situação prolongar-se?

 

5. E isto traz-me ao ponto mais duro. Suspeito há muito que não existem condições para o euro resistir. Cheguei a ser taxativo sobre o assunto mas, talvez ingenuamente, mantive uma ligeira esperança de que fosse possível fazer os povos do Sul perceberem que não há riqueza com moeda fraca e desvalorizações constantes. De que fosse possível fazê-los perceber a inevitabilidade dos cortes e das reformas como via para uma economia de crescimento sustentado. Não é. Nem em Portugal nem nos outros países em dificuldades. Aos governos falta coragem para implementarem verdadeiras reformas, aos cidadãos sobram ilusões de que é possível manter o nível de vida atingido com dinheiro emprestado. Mais: prolongar a agonia afigura-se cada vez mais um erro: o castelo tem demasiadas cartas e há demasiadas mãos a mexer-lhe. Cairá.

 

6. Saiamos do euro. Suportemos dois ou três anos duríssimos e depois, porque não sabemos fazer de outro modo, voltemos ao nosso ritmo tradicional de desvalorização e inflação. Continuaremos pobres mas de uma forma a que já estamos habituados. E nas ocasiões em que tivermos de chamar o FMI (como em 1978, como em 1983), não perderemos tempo apontando o dedo a outros.



publicado por José António Abreu às 11:34
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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012
Matizes de democracia

Não se estranhando em Cavaco Silva, eterno opositor dos referendos, ou em António José Seguro, de quem não recordo qualquer posição sobre o assunto (mas, com excepção da voz sacerdotal, admito ter dificuldade em recordar o que quer que seja que lhe diga respeito, por vezes até a própria aparência física), é curioso como tantas pessoas que, ao longo dos anos, acusaram (bem, na minha opinião) o processo de integração europeia de falta de democracia por, sempre que possível, fugir ao escrutínio popular, estão agora não apenas dispostas a aceitar mas exigindo que o BCE, um organismo liderado por burocratas não eleitos (do calibre de um Vítor Constâncio, no less), tente resolver problemas de origem política à revelia da opinião que parece imperar em vários países.



publicado por José António Abreu às 08:35
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012
Egoísmos e lições inúteis vindas do frio

As causas.

Bancos subprovisionados e, em boa medida devido à existência de incentivos fiscais, concedendo demasiado crédito (a taxa de crescimento atingiu quase 50% em 1988); boom no sector imobiliário; queda nas exportações (em parte resultado da desintegração da União Soviética, em parte de uma moeda excessivamente forte); resistência à implementação de reformas.

 

Os efeitos.

Em 1991, o PIB caiu 6,5% e, entre 1991 e 1993, mais de 10%. Cortes na despesa (dos sectores privado e público) fizeram subir a taxa de desemprego para quase 18%. Os bancos foram salvos pelo governo, o que representou um custo fiscal líquido (isto é, já consideradas as receitas da venda das participações) de 5,3% (em relação ao PIB de 1997). O crédito tornou-se muito mais difícil (em dois anos consecutivos, a queda no montante concedido foi na ordem dos 10%) e, no final da década, após as reprivatizações, o sistema bancário encontrava-se substancialmente alterado: os bancos de poupança haviam desaparecido, dois grandes bancos comerciais tinham-se unido e sessenta por cento das instituições financeiras eram controladas por capital estrangeiro.

 

O local.

A Finlândia, essa terra de gente egoísta que não quer ajudar a pagar as nossas dívidas. De gente que se meteu no buraco sozinha e se extraiu dele sem o nosso dinheiro (o qual, nem se questiona, teríamos tido todo o prazer em emprestar). Que – quão estranho! – parece ter aprendido com os erros.

 

A aprendizagem.

Em 2008, ano do início da crise do subprime, a Finlândia tinha um excedente orçamental de 5,3%. Em 2009, ainda tinha um excedente de 4,3%. Em 2010 e 2011, quando o défice português rondava os 10% (após décadas sem passar para o lado positivo da escala), teve défices de 2,5%. Este ano, deverá apresentar um défice de 0,5%.

Em 2009, a Finlândia tinha uma dívida pública de 33,9% do PIB, a qual subiu para 43,5% em 2010 e para 48,4% em 2011, prevendo-se que fique este ano por valores similares. A nossa era de 71,6% em 2009, de 83,1% em 2010 e aproxima-se alegremente dos 110%.

(Antes que alguém mencione a Nokia, refira-se que, embora o crescimento da empresa tenha ajudado a Finlândia a sair da crise, vão longe os tempos em que ela representava 4% do PIB; hoje não chega a 1%.)

 

Os egoísmos.

Depois de passarem por estas dificuldades (relembre-se: eles sabem o que é uma taxa de desemprego de 18% e uma queda no PIB de 6,5%), tendo compreendido (pelo menos até ver) os benefícios da disciplina orçamental (Portugal encontra-se sob intervenção externa pela terceira vez em pouco mais de três décadas mas muitos portugueses, incluindo quase todos os políticos, continuam a recusá-los), estando conscientes de um grave problema de envelhecimento da população, o qual vai exigir recursos significativos a curto/médio prazo, é assim tão estranho que aos finlandeses não agrade a hipótese de terem de pagar os défices dos países do Sul? Claro que sim. Para gregos, portugueses, espanhóis, italianos, tudo isto é irrelevante. Importa apenas o curto prazo; a circunstância de existirem países com alguma margem orçamental e países à beira da falência onde se deseja evitar a austeridade. Fala-se, pois, em egoísmo – dos primeiros. Por exemplo, fala em egoísmo o Presidente da República Portuguesa, no meio de um apelo ao BCE para que ignore as opiniões dos recalcitrantes e avance para decisões por maioria. Tão fácil, dispor do dinheiro alheio. Mas talvez Cavaco venha a obter mais do que deseja. Talvez um destes dias constate, e todos nós com ele, que a maioria pró-intervenção no BCE se transformou em unanimidade. Acontecerá logo após a Finlândia, a Alemanha, a Holanda, a Áustria, o Luxemburgo – enfim, os «minoritários» – abandonarem o euro. O que, no fundo, constituirá um alívio: quem gosta da companhia de egoístas?

 

(Dados retirados daqui e daqui.)


publicado por José António Abreu às 13:42
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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012
Ra(n)ting

Parte 1

Sobre a lógica da decisão da Moody's
 

1. A decisão da Moody’s de colocar a dívida alemã (juntamente com a holandesa e luxemburguesa) sob vigilância, com perspectiva negativa, não é surpreendente, apenas lógica. A dívida pública alemã encontra-se acima dos 80% e, de uma forma ou de outra (isto é, quer o euro sobreviva, quer não), a Alemanha enfrentará sérias dificuldades nos próximos tempos.

 

2. Tal como a situação se apresenta (países em dificuldades sem capacidade para implementar verdadeiras reformas – e não apenas aumentos de impostos e cortes de salários – e clima pouco propício a ajuda incondicional nos países ainda em situação razoável), não há razão para estar optimista. Se o euro se dividir em duas ou mais moedas, a valorização da nova moeda alemã e o colapso dos mercados nos países do Sul farão com que a economia alemã tenha uma contracção significativa. Apesar de a nova moeda tornar a dívida mais barata, a diminuição de receitas e o aumento de despesas (com subsídios de desemprego, por exemplo) agravará o défice. O que agravará a dívida. Etc.

 

3. Mas ainda que, mal saídos do esforço (longe de consensual) da reunificação, os alemães ficassem subitamente dispostos a apoiar sem reservas os países do Sul, dificilmente a Alemanha teria capacidade para salvar Espanha e Itália.

3.1. Bom, mas talvez não fosse preciso dinheiro real, talvez bastassem garantias de que os alemães estavam dispostos a isso para que os investidores voltassem a acorrer aos leilões de dívida pública dos países do Sul, baixando o nível das taxas de juro. A Alemanha (e os outros países recalcitrantes) apenas teriam, por exemplo, de fazer do BCE um lender of last resort. Pois, talvez chegasse. Ou talvez não. Por um lado, pedir emprestado a dois ou três por cento ainda seria aumentar a dívida acima do crescimento económico previsível nos próximos tempos. Por outro, para funcionar, qualquer garantia precisa de ser credível. E os mercados costumam fazer o teste.

3.2. Se/quando os investidores não acorressem em massa, o BCE teria então de começar a imprimir montes de dinheiro fresco, emprestando-o baratinho aos países em dificuldades. O resultado prático disso seria fazer crescer o esquema de Ponzi em que a economia europeia está transformada (se companhia na desgraça serve de consolo a alguém, várias outras estão em situação parecida). Não há, nos países europeus em dificuldades, forma de extrair crescimento sustentável desse dinheiro: apoiar sectores que cresceram artificialmente (como a construção e o imobiliário) através de incentivos à construção ou à compra de imóveis seria deitar o dinheiro fora; teimar no investimento público quando o nível de infra-estruturas já é excelente, não seria muito melhor (parece, aliás, que Hollande, esse Messias da Europa, começa a percebê-lo – mas felizmente conhece outros métodos infalíveis para vencer a crise, como proibir empresas privadas com prejuízos de despedir trabalhadores); aproveitar o dinheiro para manter satisfeitos os funcionários de sectores públicos pesados e ineficientes geraria apenas o que tem gerado: dívida pública e sectores públicos ainda mais pesados, ineficientes – e difíceis de reformar. Etc., etc., etc. Entretanto, o nível de consumo recuperaria alguma coisa, com efeito positivo na receita pública mas efeito negativo na balança comercial dos países que costumam tê-la precisamente assim: negativa (por exemplo, Portugal, Espanha e França; cliquem no nome do país e depois no indicador balance of trade). E teríamos ainda os riscos de inflação que, mais cedo ou mais tarde, haviam de passar a realidade, levando à perda do poder de compra de todos os cidadãos da zona euro. É verdade que as exportações para fora da zona euro ficariam mais competitivas, o que provavelmente faria a economia alemã sobreaquecer, tornando real o maior pesadelo dos ministros das finanças por lá (na verdade, a cotação actual do euro até já é demasiado baixa para a economia alemã actual). Mas, no fundo, tanta conversa é desnecessária: todos sabemos que os esquemas de Ponzi têm um final desagradável – e tanto mais desagradável quanto mais tempo duram.

 

Parte 2

Sobre outros pontos relacionados com as agências de rating

 

1. As agências de rating seriam irrelevantes se os Estados não estivessem tão dependentes de dinheiro emprestado. Mas que governo faz contas enquanto o rating permanece Triplo A?

 

2. Como ficou evidente na questão do subprime, a verdadeira falha das agências é demorarem demasiado tempo a baixar os ratings. Mas que as acusemos de algo num caso e queiramos o contrário no outro é apenas natural: agora somos accionistas.

 

3. Há quem defenda a criação de novas agências e quem defenda regulação das actuais. Nada tenho contra a primeira hipótese, excepto se estivermos a falar de usar dinheiro público: uma agência ligada a um governo ou a um bloco económico terá tanta credibilidade como uma declaração de Durão Barroso ou Jean-Claude Juncker. Será mais dinheiro deitado fora. A questão da regulação passa por saber quem regularia e com base em que critérios. Mas convém estar ciente de que, se estes fossem objectivos (o défice, a dívida, as perspectivas de crescimento económico, ...), os ratings dos países europeus seriam neste momento… mais ou menos os mesmos. Em alguns casos, piores.

 

4. E daí talvez eu esteja enganado. Talvez outras agências que não as três do costume possam ser mais fiáveis. Relembre-se o que a chinesa Dagong (existirão mecanismos de controlo estatal na China?) fez aos ratings europeus há já dois anos.

 

5. Em teoria, desejamos independência e objectividade; na prática, clamamos por controlo governamental de tudo e de todos. As agências podem parecer servir interesses especulativos e até funcionar mal – mas seria melhor um sistema em que os endividados se auto-avaliassem? E veja-se o caso do BCE. A independência e os objectivos do BCE destinam-se a manter condições estáveis, conhecidas por todos. Para o BCE, não é nem deve ser relevante se existem diferenças de rendimento entre países da zona euro. Essa é uma questão para os governos, que devem enfrentá-la com os instrumentos de que dispõem (subindo ou baixando impostos, aumentando ou diminuindo o peso do Estado, criando ou eliminando mecanismos de protecção social, etc.). E, no entanto, o BCE é criticado diariamente por não ajudar a resolver as dificuldades de alguns países (sendo que, de formas ínvias, até o tem vindo a tentar fazer). Percebe-se: acusar o BCE (ou a chanceler Merkel) é mais fácil para os políticos. Esconde-lhes as incapacidades. E como toda a gente está mais do que disposta a pensar mal dos banqueiros... Ou seja: na verdade, não desejamos mecanismos independentes, para as agências de rating ou para o que quer que seja. Desejamos que nos façam a vontade, em função do que, em cada momento e numa perspectiva de curto prazo, nos parece ser o caminho mais fácil.



publicado por José António Abreu às 18:26
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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012
Cosa Nostra
Será mais perigoso para mim chamar Sicília portuguesa à Madeira ou Madeira italiana à Sicília?


publicado por José António Abreu às 09:59
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Terça-feira, 12 de Junho de 2012
Esta inércia incapacitante...

Sinto-me o garagista do velho anúncio da Dyane. Os acontecimentos passam-me ao lado «e eu a vê-los passar». Para ser franco, quase nem tenho visto os noticiários. Praga fez-me perder a vontade de acompanhar a histeria do quotidiano – e mais ainda de perder tempo a escrever sobre ela. Também, o que raio se tem passado?

 

António Borges – e, como por cá nunca ninguém pode ter (muito menos emitir) opiniões sem autorização do chefe, Passos Coelho – é crucificado por dizer o óbvio: no ponto a que chegámos, sem desvalorização fiscal ou níveis de crescimento económico inatingíveis (mesmo que houvesse algum dinheiro para os famigerados «estímulos»), a única forma de ajustamento é através da redução de salários ou, mais genericamente, do poder de compra. O processo até já começou há vários anos mas, perante realidades desagradáveis, continuamos a preferir o silêncio – ou declarações de circunstância. Nada de novo, portanto.

 

Em Espanha, a propósito de realidades desagradáveis (a iminência do colapso financeiro), a preocupação do governo é passar a imagem de que, ainda que os bancos espanhóis precisem de ajuda, o governo espanhol não precisa de ajuda. Com ligeiríssimas nuances ao nível do enredo, já vimos este filme. Nada de novo, portanto.

 

Em Portugal, num comício de apoio a um partido candidato às eleições na Grécia, Francisco Louçã atribui a culpa de todos os problemas do mundo à Alemanha. À primeira vista, nada de novo. Ainda assim, fico um bocadinho banzado por ele culpar a Alemanha pelas dificuldades da banca espanhola. Terá sido a compra desenfreada de casas de férias em Maiorca e Ibiza por parte de cidadãos alemães a causa da bolha imobiliária? Não fosse esta inércia incapacitante, pesquisaria o assunto.

 

No primeiro jogo do Europeu de futebol, a equipa portuguesa, repleta de craques quase tão à vontade a domar uma Adidas Tango como as centenas de cavalos de um Lamborghini Aventador ou de um Bentley Continental GT, só começa a jogar depois de estar a perder. Nada de novo, portanto. Por muito que me custe, devo até admitir que o futebol representa bem o país.

 

Enfim: vale a pena perder tempo a escrever sobre tais assuntos? Nah. Pelo que me parece que ainda não vai ser hoje.



publicado por José António Abreu às 13:01
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
Braço de ferro

Faltam 30 dias para a Grécia ser governada pelo Bloco de Esquerda. Seguir-se-á um divertido braço de ferro (encontrando-me invulgarmente bem disposto, resolvi não lhe chamar chantagem). Se a Grécia o perder e anunciar a suspensão do pagamento da dívida, o estoiro será imediato e já bastante bonito. Se a Grécia o «ganhar», obrigando os europeus que mantêm algum dinheiro nos bolsos a suportarem-lhe os défices, a austeridade passará imediatamente de moda em toda esta nossa bela Europa. O que acabará por conduzir, num futuro não demasiado longínquo, a um estoiro ainda mais bonito. Não sei que vos diga: entre os dois cenários, mon coeur balance (nas últimas semanas, tudo o que tem a ver com a França parece ter ficado na moda).



publicado por José António Abreu às 20:57
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Eurobonds

Ou como esvaziar os mealheiros que ainda têm algumas moedas.



publicado por José António Abreu às 13:43
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Domingo, 6 de Maio de 2012
Dúvida

Vai Hollande fazer o contrário do que prometeu em campanha ou, contra todas as esperanças dos optimistas, estamos mesmo f*****s?



publicado por José António Abreu às 23:23
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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
O objectivo ignorado por quase todos e o cenário tão desejado por muitos

Proibir o Banco Central Europeu de financiar directamente os Estados tinha um objectivo: obrigá-los a, como qualquer empresa ou cidadão, fazer contas. Impedir a irresponsabilidade – ou aceitar as consequências. Não resultou. Pelo contrário: endividámo-nos na mesma, a juros mais elevados. Agora muitos recusam admitir o erro. Falam em «ditadura da dívida». Não deixa de ter piada. A dívida nasceu de actos livres. É como se uma família, ao descobrir não ter afinal dinheiro para pagar as prestações da casa, do carro, do colégio dos filhos, do acesso à net e à SportTv, dos iPhones e iPads e iOutrasCoisas acusasse os bancos e a escola e a Zon e a Worten de lhe extorquirem dinheiro indevidamente – e exigisse o pagamento aos vizinhos. Há apenas um ponto em que quem assim fala tem alguma razão: a lógica do sistema fez com que os bancos achassem que podiam ganhar muito dinheiro sem risco – os Estados pagariam sempre. Mas não foram os bancos que lançaram emissão de dívida pública atrás de emissão de dívida pública. Foram os Estados. Os governos, em nome de todos os cidadãos – mesmo daqueles que se opunham ao aumento do endividamento. A solução, agora? Parece que há três (mais as suas combinações): corrigir, cortando severamente nos gastos; convencer os países em melhor situação a assumirem parte das dívidas dos restantes enquanto tal lhes for possível (eurobonds); conseguir que o BCE faça agora o que se procurou evitar que fizesse antes: financiar a irresponsabilidade (algo que, no fundo, já está a fazer, ao emprestar aos bancos para estes continuarem a comprar dívida pública). Cortar gastos não é user friendly, já o sabemos. Arranjar quem nos pague as contas poderia não durar muito – pouca gente gosta de andar a pagar contas alheias, ainda por cima tendo que se endividar para o fazer (a certa altura, pode mesmo acabar-se-lhe o crédito). E, quanto à hipótese de colocar o BCE a imprimir notas frescas e a emprestá-las aos governos a juros simpáticos, convém começar por reconhecer que a desvalorização do euro que previsivelmente se seguiria não ajudaria por aí além a nossa competitividade: apesar de se verificar uma saudável tendência para a diversificação de mercados, setenta por cento das exportações portuguesas ainda vão para a zona euro; uma subida da inflação (um euro mais fraco representaria custos acrescidos em todos os bens e materiais importados) faria diminuir o poder de compra de todos os cidadãos dos países do euro, prejudicando, pelo menos a curto prazo, a fatia maioritária das nossas exportações. Se a inflação não lhes destruísse o crescimento (grande «se»), talvez os países fortemente exportadores – como a Alemanha – ganhassem. Nós, na melhor das hipóteses, apenas mais tarde. Ou antes: nós ganharíamos, de imediato, de outra forma. A do costume: com dinheiro barato a entrar, poderíamos voltar a alargar o cinto durante uns tempos. Semanas, meses, um par de anos. Contudo, até as pessoas que acreditam que a inflação não dispararia (é curioso verificar como a evolução da inflação se tornou numa questão de fé) têm de reconhecer que o BCE não poderia continuar indefinidamente a "salvar" os países em dificuldades orçamentais. Pelo que a pergunta crucial é: acreditamos mesmo (lá continuamos nas questões de fé) que, com o dinheiro do BCE (ou com os eurobonds), conseguiríamos crescer o suficiente para compensar os efeitos negativos das políticas públicas «expansionistas»? A juros ligeiramente mais elevados, é certo, essa foi a via que tentámos em 2008 e 2009 (e escrevo «ligeiramente» porque, até à Primavera de 2010, o diferencial entre a nossa taxa de juro e a alemã manteve-se quase sempre abaixo dos 100 pontos base – ver aqui, no gráfico 7, página 18 –, ou seja, não muito acima da taxa a que seriam transaccionados os eurobonds e cerca de dois por cento acima da taxa directora actual do BCE). Por outras palavras: essa foi a via que nos trouxe onde estamos. Mas talvez sejamos afinal um povo de permanentes optimistas. E, se a coisa corresse mal (precisamos sempre de arranjar uma consolação, não é?), ao menos teríamos a certeza de ver a Alemanha naufragar ao nosso lado.



publicado por José António Abreu às 13:10
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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Compreender a Alemanha e, já agora, que solução para a Grécia escolheriam?
No A Douta Ignorância, Priscila Rêgo elaborou um conjunto de posts a que chamou Compreender a Alemanha. Vale a pena lê-los. E também vale a pena fazer o teste So, what would your plan for Greece be?, a que cheguei através de outro post da Priscila. Na primeira tentativa, eu, que no fundo sou um pessimista (não acredito que a Grécia possa ficar no euro) cheio de boa vontade (escolhi mantê-la no euro), acabei no ponto 19. Ou seja, sensivelmente na via em que nos encontramos. Por um lado (e quem leu os meus posts ao longo dos últimos meses percebê-lo-á), tem lógica. Por outro, rai's partam. Só que as tentativas seguintes não deram resultados muito melhores. Experimentem vocês. Mas procurem não irritar Maynard.


publicado por José António Abreu às 07:49
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
MMXII

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Vai ser o ano em que o euro pode acabar, pelo menos em alguns países. Vai ser o ano em que a economia europeia pode entrar em colapso. Vai ser o ano em que o «projecto europeu» pode sofrer um abrupto desvio de percurso. O ano em que ódios e nacionalismos podem regressar em força. O ano em que a contestação social se pode transformar em revolta. O ano em que, já abertamente, se vão culpar outros por falhas próprias.

 

Em Portugal, temos muitas decisões a tomar. A mais importante é decidir se queremos continuar a prosseguir o esforço de consolidação dentro do euro, se o preferimos fazer fora dele (e, eventualmente, da União Europeia). É uma questão que se colocará insistentemente. Seja qual for a nossa decisão, sejam quais forem as consequências, não vale a pena culpar outros pelos nossos actos. Ninguém nos obrigou a aderir à União Europeia. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro à taxa cambial a que aderimos (o orgulho que foi, lembram-se?). Ninguém nos obrigou a gastar os fundos comunitários (2% do PIB por ano) em projectos sem retorno. Ninguém nos obrigou a escolher a via da irresponsabilidade orçamental (sim, outros o fizeram: problema deles). Ninguém nos obrigou a ignorar os múltiplos avisos (passaram há dias dez anos sobre o dia em que um Primeiro-Ministro socialista falou no «pântano»; não apenas o ignorámos como crucificámos o Primeiro-Ministro seguinte por utilizar a expressão «tanga»). Ninguém nos obrigou a, em 2008/2009, injectar fundos públicos na economia como se tivéssemos uma dívida pública de 20% e viéssemos de anos de excedentes orçamentais (antes que alguém fale no BPN, foi um erro mas também uma gota de água). Ninguém nos obrigou a tentar criar regimes de protecção social tão fortes como os dos mais ricos países europeus, em metade do tempo que eles demoraram a fazê-lo e perante uma demografia totalmente diferente (mais: perante sinais de que eles também já não os conseguiam suportar). Ninguém nos obrigou a nada. Chegámos a esta situação por opções nossas. E vamos sair dela, melhor ou pior, com opções nossas. Com ou sem troika. Dentro ou fora do euro. Numa Europa politicamente mais unida ou mais separada. Os outros (a Grécia, a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos) farão o que entenderem – não podemos controlar isso. Nem deveríamos poder, ainda que tal nos permitisse escolher a via menos dolorosa para nós – eles, que também cometeram erros e também correm riscos, têm direito às suas opções. Resta-nos alertá-los para as consequências e defender os nossos interesses. Escolher, a cada momento, o que entendermos ser melhor para nós. Ou, infelizmente, menos mau. Sem ilusões (ainda não estamos fartos delas?) mas também sem decisões precipitadas.

 

Que 2012  vai ser um ano difícil é uma evidência e, por muito que o tenhamos tentado no passado, não vale a pena negar evidências. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Saibamos – nós e os restantes europeus – usá-lo bem.



publicado por José António Abreu às 13:00
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
A força e a estupidez
Por duas vezes durante o século XX os alemães usaram a força. Da primeira vez, para além de inveja dos impérios alheios, tinham medo da Rússia e jogaram na antecipação. Da segunda tinham sede de vingança e um psicopata na chefia do governo. Mas quem usa a força e perde fica mal visto (ganhando, é raro). Agora os alemães têm grande parte da Europa subjugada. Não porque tenham usado a força. Não por impulsos expansionistas. Não por serem liderados por um psicopata (embora haja quem esteja perto de o afirmar). Os alemães têm grande parte da Europa subjugada porque fizeram algo mais do que suficiente perante países como os do Sul: mantiveram um módico de inteligência e determinação. Souberam fazer contas, potenciar (ou – e já não é pouco – evitar prejudicar) as exportações numa economia globalizada, manter-se dentro de limites não escandalosos de défice e de dívida (pelo menos, não escandalosos para uma economia com o potencial de recuperação da deles e que teve de pagar a reunificação)*. Deve ser por isso que tantos alemães ainda não perceberam qual foi o seu erro, porque são acusados de insensibilidade e de destruírem o «projecto europeu», eles que até tiveram dos menores aumentos salariais na Europa nos últimos quinze anos. E deve ser por isso que nos dói tanto. Eles subjugaram-nos (desta feita quase sem o desejarem) usando a nossa estupidez. Seria mais fácil de encaixar se tivessem usado a força.

 

Evidentemente, a ironia é que nem com todas as suas cautelas eles vão escapar incólumes. Ou pagam (mais salvaguarda, menos salvaguarda que qualquer Sócrates versão 2.0 ou Zapatero versão 2.0 ou Berlusconi versão 2.0 ignorará olimpicamente), aceitando desse modo submeter-se à lógica de sempre dos países do Sul (prioridades erradas, indisciplina orçamental, desvalorização, inflação), ou, por incrível que pareça, serão vistos como o país que, pela terceira vez em cem anos, destruiu a Europa. E isto mostra que talvez não tenham sido afinal assim tão inteligentes. Já dizia a minha avó, morta e enterrada sem uma dívida ainda nem se falava do euro: devemos dar-nos bem com toda a gente mas é preciso saber quem se mete em casa. Eis o vosso erro, alemães.

 


* Tem algum interesse (bom, eu acho) constatar como, na sequência da crise do subprime, Merkel, essa megera incompetente, conseguiu manter o défice em valores similares aos que Schröder tinha autorizado, sem subprime, antes de ela chegar ao poder (os socialistas, os socialistas...). Já agora, comparar com os nossos dados (segundo creio, o termo técnico é «descalabro completo»).


publicado por José António Abreu às 23:07
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
De Berlim, com assombro
Vale a pena ler, no Domadora de Camaleões, dois textos escritos a partir do ponto de vista de uma portuguesa na Alemanha: este e este. Um excerto (mas vale a pena ler o resto): Surpreendo-me por isso a quantidade de especialistas encartados em matéria “merkeliana” que vejo nos jornais europeus e nos portugueses, em particular. Assombro-me com os editorais exaltados, que se presumem de uma objectividade que não tem e que se limitam a sobrevoar os assuntos à luz dos preconceitos de quem os escreve. Prolifera nalguma opinião publicada um preocupante anti-germanismo alimentado de ressentimentos, tocando nalguns casos a infâmia.


publicado por José António Abreu às 16:51
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Da diferença entre interesse e obrigação

A Alemanha está a fazer tudo mal. Os alemães estão a humilhar os gregos e far-nos-ão o mesmo. Não estamos numa fase de atribuição de culpas mas de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:

 

1. De modo a proteger a sua economia de solavancos violentos (por os seus bancos terem andado a emprestar dinheiro a quem não sabia usá-lo), um contribuinte alemão pode ter interesse em enviar dinheiro para a Grécia – mas não tem obrigação de o fazer. Não contraiu as dívidas dos gregos (nem as nossas).

 

2. O governo alemão responde aos alemães. Se estes não quiserem ajudar, ele não pode ajudar. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Merkel se mete nos assuntos «internos» de países «soberanos»? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?

 

3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ajuda, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber solidariedade. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita ajuda, não geram impulsos de solidariedade. A solidariedade não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.

 

4. Forçar a Alemanha (e os outros países do Norte) a pagar as dívidas dos países do Sul por causa do risco para os seus bancos (e para o Euro) parece-se mais com chantagem do que com solidariedade. Ninguém pode surpreender-se com as resistências. Nem que, mais cedo ou mais tarde, o chantageado compreenda que não vale a pena continuar a pagar porque terá de o fazer mais uma e outra e ainda outra vez; que perceba que mais vale aceitar as consequências de assumir o problema (o artigo do Bild, mencionado pelo Rui Rocha, é claramente um indício de que podemos estar perto de isso acontecer). E mesmo que vá pagando, se um dia o motivo que permite a chantagem deixar de existir (por exemplo, se a dívida grega detida pelos bancos alemães já não os colocar em risco), a vítima de chantagem sentirá um enorme prazer em vingar-se. União Europeia? Pois sim.

 

5. Comparar a situação actual com os desejos revanchistas e expansionistas de Hitler é absurdo. Hoje, o desejo dos alemães é serem deixados em paz. Eles que, por enquanto, através de inovação tecnológica e contenção salarial, conseguiram manter-se competitivos no mundo globalizado. Que culpa têm das incompetências alheias?


publicado por José António Abreu às 08:44
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
Os grandes líderes

Kohl, com Delors e Mitterrand, criou o euro, anexando-lhe um conjunto de exigências que muitos consideraram ser insuficientes. Schröder permitiu que vários países, entre os quais a própria Alemanha, violassem essas exigências. Merkel é a má da fita.



publicado por José António Abreu às 13:03
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
A lógica dos eurobonds aplicada ao consumidor médio

Adquiri um montão de coisas no Continente e na Worten, recorrendo a créditos que fui pagando com novos créditos. Durante uns tempos correu tudo bem mas agora ninguém – bancos, empresas de crédito rápido, familiares, amigos – aceita emprestar-me mais dinheiro. Cheguei a preocupar-me mas já descobri a solução: enviei uma mensagem de correio electrónico para a Sonae propondo que solicitemos crédito em conjunto. Ainda não responderam mas não podem recusar – afinal, quem é que lucrou com as minhas compras?



publicado por José António Abreu às 13:59
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
Eurojunk

Podendo ter contribuído para deixar os mercados novamente em convulsão, o aviso da Standard & Poors de que os eurobonds receberiam a notação da dívida menos bem cotada de entre todos os países participantes não merece ataques mas agradecimentos. Devia ser um lembrete precioso de que, no limite, qualquer união vale apenas o que vale o seu elo mais fraco. Mas nunca é agradável estragarem-nos as ilusões. Sem uma união política efectiva (e alguém acha possível haver uma união política, ainda que os portugueses estejam mais do que dispostos a trocar soberania por dinheiro?), o euro, tal como existe, está condenado. Resta saber quem irá desligar a máquina e declarar o óbito.



publicado por José António Abreu às 12:59
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