como sobreviver submerso.
Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Violência e morte
A morte paira nas obras de Nick Cave. Em The Proposition, filme de 2005 cujo guião escreveu, passado na imensidão de uma Austrália onde se procurava construir um país com base numa população de criminosos (e aborígenes dispensáveis), ela pode surgir a qualquer momento e, ao contrário do que sucede nos típicos blockbusters de Hollywood, tombar sobre qualquer personagem. Porque em The Proposition não há heróis. No início do filme, Charlie Burns, interpretado por Guy Pearce, é colocado perante uma escolha: procurar e matar Arthur, simultaneamente o criminoso mais procurado da região e o seu irmão mais velho, ou ver Mike, o irmão mais novo, ser enforcado. A pessoa que lhe faz a proposta é o Capitão Stanley, um homem amargurado, casado com uma mulher que só por inconsciência ou amor cego (outra forma de inconsciência) alguém podia arrastar para um inferno assim (e só pelas mesmas razões podia aceitar ser arrastada para lá). Talvez por ela, o Capitão Stanley está decidido a civilizar aquela terra – mas para isso necessita de eliminar Arthur Burns. Só que Arthur (uma interpretação portentosa de Danny Huston, filho do falecido realizador John Huston) é a encarnação do mal. De um mal consciente e filosófico. Roger Ebert comparou-o ao juiz Holden do livro Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy (edição portuguesa da Relógio d’Água). É uma comparação adequada. O juiz Holden matava e escalpava sem vacilações, passeava-se nu pela noite do deserto de Sonora, tinha sexo com crianças e fazia discursos crípticos em torno de fogueiras. A personagem que Cave engendrou em The Proposition é similar. É alguém para para quem o mal é uma opção assumida por fazer tanto sentido quanto o bem. Não: por fazer mais sentido do que o bem, uma vez que o bem é apenas a aceitação da impotência. (Outra personagem de McCarthy que lhe pode ser comparada é o mais recente e conhecido Anton Chigurh, de Este País Não É Para Velhos.) No final do filme, sucede o que tem de suceder. A morte (e, por vezes, a civilização) é mais forte do que a maldade. Mas a morte é encarada com resignação e até apaziguamento. Porque, para Cave (ou, pelo menos, para as personagens que cria), a morte constitui um objectivo. Se a maldade (como o sexo) é uma forma de desafio, é também um instrumento útil para a atingir rapidamente.

 

 

(Nota: este é o terceiro post da "Operação Bunny Munro". O primeiro. O segundo.)


publicado por José António Abreu às 19:35
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