como sobreviver submerso.

Que estes são tempos de efemeridade mostra-o o facto de eu estar a referi-lo num blogue. Tudo parece fugaz, mesmo as paixões. Podia arranjar muitos exemplos mas vou ficar pela música e pelo concerto dos U2 de há quase duas semanas. Não cheguei a fazer uma verdadeira crítica ao espectáculo e este post também não o vai ser. Quem desejar ler sobre o que os U2 fazem nesta digressão pode dirigir-se aqui e dizer que vai da minha parte. Ou permanecer calado. Resulta igualmente bem.
Tenho quarenta anos e digo-o também para evitar pensar que, na realidade, estou a dois meses de ter quarenta e um. A maioria das noventa mil pessoas que assistiram ao concerto no Estádio Olímpico de Berlim estava na mesma faixa etária que eu. É talvez inevitável. O período áureo dos U2 foi a segunda metade da década de oitenta e, para seu crédito e surpresa de muitos, os primeiros anos da de noventa, na sequência de um álbum (Achtung Baby) absolutamente magnífico, com genes – nem de propósito – Berlinenses. (Também por isso tive vontade de os ver em Berlim; a outra possibilidade era, claro, Dublin.) Desde então é de bom-tom arrumar-se o quarteto irlandês na prateleira dos has-been, a mesma onde se encontram, com mais ou menos pó em cima (não era para ter segundos sentidos mas se calhar nem ficam mal), Rolling Stones, REM, Depeche Mode, David Bowie ou Bruce Springsteen. É um pouco injusto. Os U2 – ao contrário dos Stones, por exemplo – procuram genuinamente continuar a fazer música relevante. O último álbum, No Line on the Horizon, é uma tentativa, parcialmente falhada como admiti aqui, mas “parcialmente falhada” significa também parcialmente conseguida, de introduzir novas sonoridades e texturas na música que fazem. O esforço foi reconhecido por alguns críticos mas há uma renitência para ir além do elogio mitigado que em certos casos não passa de pose. Muitos críticos têm também quarenta anos mas não querem parecê-lo. Tentam consegui-lo incensando bandas de teenagers borbulhentos (por vezes bem; afinal já coloquei neste blogue vídeos de gente como os Animal Collective ou Micachu and the Shapes) e adoptando um tom blasé quando perante bandas com mais de dez anos de vida. E, vá-se lá saber porquê, exigem inovação a gente como os U2 mas aceitam a constância de génios como Bob Dylan ou Tom Waits.
Mas os críticos são tão importantes como uma formiga recém-nascida no caminho de um elefante adulto. Mais importante é a questão dos jovens actuais. Não falo dos teenagers de catorze ou quinze anos porque esses não contam para o campeonato: como é natural na idade deles, ouvem trampa do calibre dos Tokio Hotel. Refiro-me aos jovens um bocadinho menos jovens. Aos universitários, por exemplo. Consomem toneladas de música. Muito mais do que eu consumia quando tinha a mesma idade: a net disponibiliza-a a custo zero e os leitores de MP3 tornaram o seu armazenamento e transporte uma brincadeira de crianças. Contudo, poucos parecem disponíveis para prestar atenção a obras feitas por gente com mais do dobro da idade deles. Ainda são capazes de ter algum respeito pelo que essas pessoas fizeram há vinte, trinta ou quarenta anos mas nem pensar em ouvir o que fazem agora ou – gasp – irem vê-las ao vivo. Para esses, os U2 são um quarteto irrelevante de velhos alquebrados. Gajos que até foram bons nos anos oitenta mas que agora se arrastam, sem voz e sem chama. Meus caros, comparem com espírito aberto o último álbum dos U2 com o último álbum dos The Killers (e escolho-os porque Brandon Flowers bem gostaria de ser Bono) e admitam que é assim a modos que onze a zero. E mesmo que Hot Fuss tivesse doze temas (tem onze, como No Line on the Horizon) bastaria aos U2 acrescentarem três minutos de silêncio no final do disco para impedirem os The Killers de marcar qualquer ponto. (Sim, é um exagero, mas ligeiro.) Contudo, o maior problema nem é os jovens preferirem cópias (muitas bandas recentes soam a outras, dos anos setenta ou oitenta)aos originais. É não chegarem verdadeiramente a estabelecer relações firmes com qualquer banda. A oferta é tanta que nenhuma paixão dura muito tempo. Com a possível excepção dos Coldplay, poucas bandas ficaram verdadeiramente famosas na última década. The White Stripes, The Strokes, Arcade Fire, The Killers, The National, TV on the Radio, Franz Ferdinand, Bloc Party, Artic Monkeys – excelentes bandas (todas, num momento ou noutro, incensadas como se fossem o futuro da música pop/rock) mas longe de conseguirem atingir um estatuto planetário. Porque ninguém está disponível para lhes prestar atenção durante vários anos ou para aceitar álbuns que não soem tão inovadores quanto o primeiro. E cá chegamos novamente à frenética exigência de novidade e à sua inevitável consequência: o carácter efémero de tudo. O que é que isto tem de mal? Talvez nada. Querer coisas novas é bom. Mas deixem-me explicar porque continuo fã dos U2 e talvez surja material para reflexão. Sou fã por duas razões. Primeiro, porque eles também arriscam. Já referi o esforço que fizeram em No Line on the Horizon. Mas que outra banda começaria um concerto com quatro canções do álbum mais recente? Que outra banda pegaria no tema que nesse álbum mais soa a música pensada para ser tocada ao vivo (I’ll go crazy if I don’t go crazy tonight) e a apresentaria em concerto com roupagens de música de dança, num ritmo tribal longe da sua sonoridade habitual? Resposta: nenhuma. Eles tentam acompanhar estes tempos de efemeridade. E falham porque muitos recusam ouvi-los mas também são bem sucedidos porque continuam a fazer boa música. A segunda razão por que sou fã dos U2 (e de muitas outras bandas e cantores já longe da adolescência) é a óbvia: eles fizeram a música que me acompanhou ao longo da vida. Mas apenas porque fiz questão de não os abandonar ao primeiro álbum menos conseguido. Terão, daqui a vinte anos, os jovens de hoje bandas que lhes dêem este balanço entre memória e surpresa? Só se não as deixarem cair ao segundo ou terceiro álbum.
Isto vai demasiado longo e, de qualquer modo, tenho que parar. Amanhã vou prestar homenagem a outro guerreiro. A uma das vozes da América dos últimos 40 anos. Não vai ser necessário avião. O Boss estará mesmo aqui ao lado, em Valladolid. A palavra-chave, como no caso dos U2, é respeito. Como cantava Aretha: R-E-S-P-E-C-T.
