como sobreviver submerso.
É um dos pontos negativos desta altura do ano. O frio não me incomoda por aí além.
Até gosto. Mas o meu nível de leitura diminui. Culpo a roupa de Inverno, especialmente a feminina. E não apenas devido aos casacos grossos. Mesmo por baixo deles, as camisolas de Inverno, quase sempre de malha, não têm que ler. É verdade que a literatura, hmmmm, digamos peitoral, tende a ser
light. Ainda assim,
encontro-lhe frequentemente uma relevância significativa. Duas dúzias de t-shirts equivalem praticamente a dois meses de Twitter. Ou a um livro pequeno do Gonçalo M. Tavares. E depois há o outro sentido de «relevância» que, como se diria numa canção a puxar para o pimba, também tem a sua importância. Epigramas, aforismos ou frases enigmáticas flutuando delicadamente sobre determinadas partes do corpo são uma provocação irresistível. Um estímulo à capacidade de ler depressa e de esguelha. Uma forma de manter os neurónios ocupados e um nível mínimo de adrenalina no sangue. No Inverno, como seria de esperar, sinto-lhe a falta. Ando pelas ruas sem saber onde pousar o olhar. Já tentei ler painéis publicitários mas não gosto. Falta-lhes calor humano. Restam-me
as pontas de nariz enregeladas que, mesmo não possuindo texto, são como pequenas
short stories visuais. Haverá consequências positivas desta redução de material de leitura: o risco de atravessar inadvertidamente uma rua com o semáforo vermelho deve ficar mais baixo. Ler menos terá no mínimo esse efeito positivo. E, enfim, suponho que posso tentar compensar a falta de leitura de peito reforçando a leitura daquelas coisas antiquadas – e, tanto nas formas tradicionais como nas novas e cibernéticas encarnações, desesperadamente lisas – chamadas livros. Mas não será a mesma coisa. Ler blusas é como uma dose de vitaminas que só existe num determinado alimento. É como a vitamina D, que apenas se obtém com abundância no Verão, ao sol. Deve até ser por isto que tantas pessoas olham para mim e comentam que ando anémico. Têm razão: ando com tão pouca energia que nem no blogue tenho escrito. Tudo bate certo, agora que penso no assunto. Mas preciso de reagir. Hei-de ir a uma farmácia ver se há suplementos para suprir esta deficiência. Ou talvez experimente ler outro livro do Gonçalo M. Tavares.