como sobreviver submerso.
Quarta-feira, 24 de Julho de 2013
Um tipo (que escreve em blogues)
Um tipo coloca no blogue colectivo onde escreve um post que, directamente ou por derivações inesperadas, gera debate aceso na caixa de comentários. Um tipo afadiga-se a tentar responder aos comentários: recolhe e compila dados para suportar as afirmações que fez, alinhava respostas longas que, ainda assim, parecem ficar sempre aquém do objectivo. Um tipo fica cansado e, para piorar as coisas, a azáfama impede-o de congeminar novos posts, quanto mais de os elaborar. Afinal, o dia é composto por um número limitado de horas, algumas têm que ser dedicadas à actividade denominada emprego, menos entusiasmante do que espicaçar concidadãos num blogue mas mais importante para a prosaica questão da sobrevivência diária, um par de outras a deslocações e refeições (e um tipo gosta de comer) e ainda há que responder à necessidade fisiológica de dormir (e um tipo também gosta de dormir sendo que, ao contrário do professor Marcelo, precisa de sete ou – de preferência – oito horas diárias para carburar razoavelmente). Para mais, um tipo gostaria igualmente de reservar algum tempo para ler, ouvir música e ver coisas na televisão (filmes, episódios de séries, óperas, o Federer a tentar vencer os efeitos da idade e a Julia Goerges a tentar dominar a inércia das mamas). Um tipo pergunta-se: e agora? Será melhor fazer uma pausa? É que um tipo até podia entrar nos sites dos jornais, onde sem dificuldade encontraria assunto para mais um post curto, no estilo alfinetada ou desabafo. Podia analisar a entrada no governo do homem da Super Bock, que deixou dry o homem do Canadá, renegado desde o início por empresários do regime e respectivas associações, habituados uns e outras a possuírem controlo quase total sobre o ministério da Economia. Podia ir ver que privilégio absurdo reivindicam hoje os funcionários das empresas públicas de transportes. Podia gozar com a dupla Semedo & Martins, Olhares e Sorrisos Tristes, SA. Podia tentar perceber (e certamente falhar, como Pedro Lino fez anteontem no Económico) o sentido de algumas propostas de António José Seguro. Podia questionar se a expressão mais usada actualmente pelo Partido Comunista, «pacto de agressão», não deveria ser ‘acordificada’ à força (como anda a acontecer aos ‘contatos’ e aos ‘fatos’) e tornar-se «pato de agressão» (caso em que seria conveniente alterá-la para «patos agredidos», com os portugueses – ou, de forma a excluir banqueiros e administradores de várias empresas ex-públicas, o «povo português» – no lugar dos patos). Mas e se, publicado o texto, volta a gerar-se uma polémica na caixa de comentários, obrigando um tipo a afadigar-se novamente em pesquisas e alinhavamento de respostas, do que resultaria, para além de nova subida do nível de stress, pouco tempo para pensar e alinhavar posts sobre assuntos mais interessantes, tais como a Nova Vaga do cinema checo na década de sessenta do século passado, as três mil e quinhentas páginas que o escritor norueguês Karl Ove Knausgaard publicou em pouco mais de dois anos versando os acontecimentos dos seus (dele, Knausgaard) quarenta anos de vida, ou as diferenças (expressas através de fotografias) entre parapeitos de janelas de vários países europeus? Dilemas, dilemas. Um tipo acaba por decidir tirar pelo menos umas horas de pausa e decidir mais tarde. O blogue passará bem sem ele. Um tipo só é importante na própria cabeça.


publicado por José António Abreu às 12:48
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2 comentários:
De redonda a 1 de Agosto de 2013 às 03:42
Também poderia escrever o post e não responder aos comentários...


De Olinda a 9 de Agosto de 2013 às 16:17
deixar de escrever é que não, vá, tu consegues tempo para tudo. :-)


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