como sobreviver submerso.
Quinta-feira, 9 de Maio de 2013
Como desperdiçar clientes em tempo de crise (2)
Um estudo da GfK indica que em 2012 se vendeu menos um milhão de livros em Portugal do que no ano anterior. Dificilmente alguém ficará surpreendido. Embora a crise force muita gente a permanecer mais tempo em casa, os livros estão caros, têm forte concorrência (telemóvel, cinema, TV por cabo, internet) e, não obstante as ilusões de quem gosta deles, dificilmente podem ser considerados bens de primeira necessidade. No que me diz respeito, tenho a sorte de ainda não ter sido forçado a comprar menos. Nem por isso editoras, gráficas e livrarias portuguesas mantiveram o nível de rendimentos que tradicionalmente obtinham comigo. Uma contagem rápida e aproximada (não anoto datas de compra) permitiu-me determinar que, desde o início de 2011, adquiri cerca de cento e setenta (há ainda os do kindle mas estes foram quase todos gratuitos ou a menos de cinco dólares). Dos cento e setenta, as editoras e livrarias portugueses venderam-me pouco mais de quarenta, metade dos quais em saldo. Numa inversão de hábitos (até 2011 fizera questão de privilegiar as edições nacionais), comprei os restantes em edição estrangeira, através da internet (quase todos na Amazon britânica). Porquê? Obviamente, por causa do acordo ortográfico. Não comprei nem – já o afirmei várias vezes – faço tenções de comprar nos próximos anos um único livro cuja edição lhe siga as regras. Who cares?, perguntarão alguns. (Peço desculpa pelo uso do inglês mas os hábitos vão-se instalando.) Pois, talvez seja irrelevante. Sou apenas um cliente. Perder um cliente e uma centena de vendas em dois anos e meio é capaz de não ser grave, mesmo em tempos de crise. A não ser que a crise não explique uma parte relevante do tal milhão de exemplares vendidos a menos. Se existirem mais novecentas e noventa e nove pessoas como eu, a crise não pode ser responsabilizada por várias dezenas de milhares dessas vendas perdidas. E bastará que, em resultado do acordo, vinte mil pessoas tenham comprado menos dez livros cada uma em 2012 para que a crise apenas represente uma quebra de oitocentos mil exemplares. Quem pode ter a certeza? Não eu – mas continua a parecer-me má ideia alienar clientes em época de crise económica.
 
Enfim, signifique a implementação do acordo uma quebra de quarenta ou cinquenta exemplares por ano (os que eu compro a menos) ou de várias centenas de milhares, uma coisa posso acrescentar – e muitos não gostarão das linhas que se seguem mas a intensidade da minha opinião é clara desde há bastante tempo: notícias sobre editoras em dificuldades apenas me causarão pesar se as atingidas estiverem entre as poucas que continuam a resistir; notícias sobre livrarias forçadas ao encerramento levar-me-ão (ou levam-me, porque já são uma realidade) a encolher os ombros. A forma como quase todo o mundo editorial português foi cúmplice desta reforma de mangas-de-alpaca, renegada ou adiada em todos os países de língua portuguesa excepto aquele onde ela nasceu, torna certas consequências merecidas. Ou, no mínimo, a encarar com a falta de boa vontade inevitável nos escorraçados.
 

Demasiado duro? Está bem, acabo com uma nota positiva: para além de ser bastante melhor ler as obras no original (e uma tradução para inglês não é necessariamente pior do que uma tradução para português), a implementação do acordo permitiu-me melhorar a leitura do francês e descobrir que consigo ler espanhol. Pelo que se calhar até devia estar agradecido a quem mo impôs. Obrigadinho. Ou melhor: thanks; merci; gracias.

 

Adenda

Obviamente, irei comprar este livro – e ainda hoje. Parabéns, Pedro.

Como desperdiçar clientes em tempo de crise (1).


publicado por José António Abreu às 13:40
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