como sobreviver submerso.
Terça-feira, 16 de Abril de 2013
Estatísticas e televisão
No Delito de Opinião, Patrícia Reis aconselhou a série televisiva House of Cards. Ainda não vi qualquer episódio mas acredito que seja uma boa série: afinal, inspira-se noutra, excelente, que a BBC produziu há cerca de vinte anos, tem Kevin Spacey, que vale quase sempre a pena, e David Fincher, que raramente falha. Ainda assim, suscita-me reservas. Num artigo surgido na Salon em Fevereiro, explicava-se como ela nasceu. A Netflix é um serviço de fornecimento de conteúdos televisivos, por cabo e internet (um pouco como o videoclube dos operadores portugueses), que também produz conteúdo próprio. Parece ter como modelo e alvo a HBO, o que, reconheça-se, é apontar ao sítio certo. Os seus canais de distribuição permitem-lhe recolher estatísticas detalhadas do que os espectadores consomem (evitei propositadamente o verbo “ver”) e da forma como o consomem. Nada de novo, dir-se-á: estudos de mercado e focus groups são realidades antigas. Correcto. Mas a Netflix obtém muito mais do que é possível obter através desses processos que em breve serão arcaicos: obtém o que as pessoas vêem, a que horas o vêem (por exemplo, nos EUA os espectadores do cabo gostam de ver séries aos sábados à tarde, em pacotes de vários episódios), em que cenas desistem, fazem pausa ou primem o botão de avanço rápido, que cenas revêem, que actores as mantêm a assistir, e por aí fora.
 
Recorrendo ao artigo da Salon (mantive os links no texto): The scope of the data collected by Netflix from its 29 million streaming video subscribers is staggering. Every search you make, every positive or negative rating you give to what you just watched, is piped in along with ratings data from third-party providers like Nielsen. Location data, device data, social media references, bookmarks. Every time a viewer logs on he or she needs to be authenticated. Every movie or TV show also has its own associated licensing data. The logistics involved with handling every bit of information generated by Netflix viewers — and making sense of it — are pure geek wizardry.
Netflix doesn’t just know that you are more likely to be watching a thriller on Saturday night than on Monday afternoon, but it also knows what you are more likely to be watching on your tablet as compared to your phone or laptop; or what people in a particular ZIP code like to watch on their tablets on a Sunday afternoon. Netflix even tracks how many people start tuning out when the credits start to roll.
 

E depois, claro, quando os números recolhidos formam uma tendência, a Netflix sabe o que fazer:

For almost a year, Netflix executives have told us that their detailed knowledge of Netflix subscriber viewing preferences clinched their decision to license a remake of the popular and critically well regarded 1990 BBC miniseries. Netflix’s data indicated that the same subscribers who loved the original BBC production also gobbled down movies starring Kevin Spacey or directed by David Fincher. Therefore, concluded Netflix executives, a remake of the BBC drama with Spacey and Fincher attached was a no-brainer, to the point that the company committed $100 million for two 13-episode seasons.

 

Bem-vindos pois à versão moderna de House of Cards. Mas qual o problema, se de tudo isto resultou uma excelente série? O problema é a tendência para se formar um círculo vicioso, em que cada vez mais é fornecido às pessoas aquilo de que elas já gostam, sendo escritores, realizadores, actores, editores, etc, obrigados a trabalhar de acordo com guias bem estabelecidos. Onde fica a criatividade de quem faz e os prazeres inesperados de quem vê? Onde fica o risco de quem produz e o alargar de horizontes de quem assiste? Não sei. De qualquer modo, sejamos francos: há uma parte da população que há muito (talvez desde sempre) recusa qualquer esforço no consumo de televisão, alimentando-se de novelas, todas iguais, todas recheadas de clichés, de concursos e de talk shows básicos. Nesse sentido, que as estatísticas da Netflix a tenham conduzido a House of Cards, a Spacey e a Fincher até pode ser considerado um sinal positivo do nível de exigência médio dos espectadores dos serviços de TV por subscrição. E em muitas séries da HBO também existem, de forma nada inocente, temas recorrentes: a nudez, a violência. Mas nada disto elimina completamente o risco de uniformização excessiva, de formatação. E depois há outros riscos: desde logo, o de manipulação – e não somente por parte de canais televisivos:

The Obama campaign used the same kind of number crunching to target voters with more accuracy than any political campaign had ever accomplished before. Online advertisers are also gathering vast amounts of detailed information about us from our smartphones, our Facebook likes and our Google searches.

[…]

The companies that figure out how to generate intelligence from that data will know more about us than we know ourselves, and will be able to craft techniques that push us toward where they want us to go, rather than where we would go by ourselves if left to our own devices. I’m guessing this will be good for Netflix’s bottom line, but at what point do we go from being happy subscribers, to mindless puppets?

 
É um receio antigo e talvez infundado. É possível que não sejamos mais iludidos e condicionados no futuro próximo do que já hoje somos. Mas apetece-me terminar com um rumor sobre a nova consola XBox, a lançar no final do ano: que será um media hub com o dispositivo Kinect integrado, o qual permitirá analisar as acções dos utilizadores ao ponto de poder colocar a emissão em pausa se eles desviarem os olhos do ecrã. O admirável mundo novo chegou e é fascinante.

 

P.S.: Os possíveis riscos do excesso de tecnologia e de mediatização da sociedade são abordados de forma excelente na série Black Mirror, do Channel 4 britânico. Esta cena pertence ao segundo episódio da primeira série, 15 million merits (que pode ser visto aqui).


publicado por José António Abreu às 13:40
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1 comentário:
De CeC a 16 de Abril de 2013 às 17:06
Procurei email, mas não tendo encontrado parece-me mais adequado por aqui. Jaa, conheces um fórum que é o MV group?

Per se, uma excelente alternativa à televisão.


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