como sobreviver submerso.
Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012
Cemitério de posts

Acontece-me frequentemente andar com pouco tempo para escrever textos para o blogue. Se há ocasiões em que isso se conjuga com fases em que também não tenho grande vontade de o fazer, na maioria delas vou – infelizmente – tentando contornar a situação: leio uma notícia que me apetece comentar ou tenho uma ideia para um post (ou para uma série de posts: planeio três séries há meses mas nem uma me atrevi ainda a começar) e, zás, alinhavo meia dúzia de linhas. Mas, por falta de tempo, o texto fica inacabado e/ou com pormenores exigindo verificação (há por aí gente – tão irritante! – que sabe mais do que eu) e/ou à espera de links e /ou a precisar de uma boa revisão que elimine repetições vocabulares (de ideias é inevitável), excesso de adjectivos e de advérbios de modo (sou indubitavelmente especialista supremo em ambas as categorias), aliterações (senhor, como me saem sem sacrifício!) e até falhas na lógica (consigo contradizer-me várias vezes numa única frase, o que, sendo algo que me incomoda, é também algo de que me orgulho porque quase todas as versões são defensáveis e muitas vezes em simultâneo). Vou pegando no rascunho do post ao longo de vários dias, alguns minutos de cada vez, ouvindo o tiquetaque do tempo a passar e da oportunidade a esvair-se, até decidir que já não vale a pena: o assunto tornou-se tão semana passada... toda a gente o esqueceu. E, deste modo, esforço inglório a esforço inglório, o pequeno disco rígido externo que trago na pasta vai ficando cheio de posts inacabados ou, pelo menos, não publicados. Nados-mortos, no fundo. O que transforma o meu disco rígido (isto não é uma metáfora) numa espécie de cemitério de textos com deficiências: inacabados, incoerentes, constituídos por partes que não encaixam bem. E também de alguns que parecem normalzinhos e perfeitamente viáveis (têm todas as frases indispensáveis, todas as virgulazinhas, até um toque de personalidade) mas eu, que os concebi (assumo inteira responsabilidade mas, caramba, não é fácil evitar gerá-los quando o único método contraceptivo disponível é a abstinência), deixei morrer. Contudo, nisto uma mente caótica e ligeiramente macabra como a minha (o que faz com que, afinal, «disco rígido» também possa constituir uma metáfora) até seria capaz de encontrar piada: ooooooh, ando com uma data (e «data» é o termo) de cadáveres na pasta. O pior é que às vezes me ponho a relê-los e lhes encontro imenso potencial. E então sinto vergonha. Penso que fui injusto. Como pude deixar morrer aqueles textos? E depois perco todos os resquícios de bom senso, releio alguns dos posts que publiquei, acho-os péssimos e transformo-me num ser maldoso: olho para os posts sobreviventes e, qual pai de dois filhos gritando para um deles após ter perdido o outro num acidente: tu é que devias ter morrido, não o teu irmão!, acuso-os de não chegarem sequer aos calcanhares dos que se perderam pelo caminho. Atitude reprovável, eu sei, mas que não consigo evitar. De resto, hão-de convir que tenho motivos para reagir assim. Reparem neste texto. Este mesmo, cuja leitura estão prestes a terminar (parabéns pelo estoicismo). Por que raio conseguiu ser publicado?


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publicado por José António Abreu às 12:14
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6 comentários:
De redonda a 14 de Dezembro de 2012 às 16:44
Eu gostei deste texto, ainda bem que conseguiu ser publicado. Que tal arranjar um outro blog para os outros todos?


De José António Abreu a 14 de Dezembro de 2012 às 23:09
Ainda mais um quanto já nem consigo dar resposta aos dois que tenho? (Apesar de ter para aí quinze contos começados, o "Amor e Morte em Pequenas Doses" está moribundo...)

Mas é verdade que podia ter uma certa piada. Posts incompletos. Ideias incoerentes. Opiniões irreflectidas. Que tal o título "Post Interruptus"? Ou "Post Mortem"? Ou talvez - parece-me mais claro - "Posts Restantes"?


De redonda a 15 de Dezembro de 2012 às 17:19
:)) Gostei dos títulos todos, para o novo blog (embora me pareça que para fazer justiça aos posts que estão a aguardar ansiosamente para serem publicados e lidos, seria melhor ainda um título grandioso e sem referência aos outros em relação aos quais já foram preteridos).


De numadeletra a 14 de Dezembro de 2012 às 22:27
E vão duas... também gostei!

Por mim podem ser todos publicados num post ou em quantos convier. Deixá-los a morrer (sim, porque mortos não estão), é que não!!


De José António Abreu a 14 de Dezembro de 2012 às 23:15
Bom, ok, mortos não estarão - mas alguns encontram-se tão desactualizados como o típico bigode português. Ou o peito peludo.
(Aliás, com excepção do cabelo, quase toda a pilosidade está fora de mora:
http://escafandro.blogs.sapo.pt/255364.html)
:-)


De numadeletra a 16 de Dezembro de 2012 às 21:38
Ah! Ah! Ah!


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