como sobreviver submerso.
Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
A força e a estupidez
Por duas vezes durante o século XX os alemães usaram a força. Da primeira vez, para além de inveja dos impérios alheios, tinham medo da Rússia e jogaram na antecipação. Da segunda tinham sede de vingança e um psicopata na chefia do governo. Mas quem usa a força e perde fica mal visto (ganhando, é raro). Agora os alemães têm grande parte da Europa subjugada. Não porque tenham usado a força. Não por impulsos expansionistas. Não por serem liderados por um psicopata (embora haja quem esteja perto de o afirmar). Os alemães têm grande parte da Europa subjugada porque fizeram algo mais do que suficiente perante países como os do Sul: mantiveram um módico de inteligência e determinação. Souberam fazer contas, potenciar (ou – e já não é pouco – evitar prejudicar) as exportações numa economia globalizada, manter-se dentro de limites não escandalosos de défice e de dívida (pelo menos, não escandalosos para uma economia com o potencial de recuperação da deles e que teve de pagar a reunificação)*. Deve ser por isso que tantos alemães ainda não perceberam qual foi o seu erro, porque são acusados de insensibilidade e de destruírem o «projecto europeu», eles que até tiveram dos menores aumentos salariais na Europa nos últimos quinze anos. E deve ser por isso que nos dói tanto. Eles subjugaram-nos (desta feita quase sem o desejarem) usando a nossa estupidez. Seria mais fácil de encaixar se tivessem usado a força.

 

Evidentemente, a ironia é que nem com todas as suas cautelas eles vão escapar incólumes. Ou pagam (mais salvaguarda, menos salvaguarda que qualquer Sócrates versão 2.0 ou Zapatero versão 2.0 ou Berlusconi versão 2.0 ignorará olimpicamente), aceitando desse modo submeter-se à lógica de sempre dos países do Sul (prioridades erradas, indisciplina orçamental, desvalorização, inflação), ou, por incrível que pareça, serão vistos como o país que, pela terceira vez em cem anos, destruiu a Europa. E isto mostra que talvez não tenham sido afinal assim tão inteligentes. Já dizia a minha avó, morta e enterrada sem uma dívida ainda nem se falava do euro: devemos dar-nos bem com toda a gente mas é preciso saber quem se mete em casa. Eis o vosso erro, alemães.

 


* Tem algum interesse (bom, eu acho) constatar como, na sequência da crise do subprime, Merkel, essa megera incompetente, conseguiu manter o défice em valores similares aos que Schröder tinha autorizado, sem subprime, antes de ela chegar ao poder (os socialistas, os socialistas...). Já agora, comparar com os nossos dados (segundo creio, o termo técnico é «descalabro completo»).


publicado por José António Abreu às 23:07
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4 comentários:
De Luís Vintém a 14 de Dezembro de 2011 às 00:33
Caro jaa,
pode chamar-lhe erro, e sem ironia. Os alemães desrespeitaram o Pacto de Estabilidade que obrigava todos os países a aumentar os salários 2% acima da produtividade para manter a moeda estável.
Fizeram-no em 1998, num pacto nacional que envolveu partidos da esquerda à direita, sindicatos e patrões. Fizeram-no sem nenhuma intenção de desequilibrar a balança comercial a seu favor, mas apenas para combater o desemprego. A estratégia consistiu em reduzir os horários de trabalho e os salários, o que teve uma influência indirecta nos preços dos produtos.
Enquanto que a França e os países nórdicos respeitaram o pacto, aumentando os salários exactamente em 2% acima da produtividade, os países do sul desrespeitaram ligeiramente a regra, aumentando mais de 2%, mas com um desvio de 1,5% em media (eram os tempos da convergência nominal).
Quem mais desrespeitou a regra foi a Alemanha com um desvio de mais de 2%, mas de sentido inverso, causando deflação.

Há outras razões para a divergência entre o sul e o norte, demasiadas para me alongar aqui sobre elas.
Aconselho esta conferência de Ricardo Paes Mamede: http :/ www.justicatv.com index.php?p ?p=1074

Acho que pode ser um antídoto para a auto-comiseração e o sentimento de culpa.
Os meus cumprimentos.
LV  


De José António Abreu a 14 de Dezembro de 2011 às 08:40
Luís: aumentar os salários acima do aumento da produtividade, ainda por cima numa fase de globalização da economia, é um bocadinho abstruso, não? Para a Alemanha (que o percebeu) e ainda mais para nós. Já agora, alguma vez seria possível um pacto do género que refere em Portugal?

Quanto à conferência:
- As nossas fragilidades eram conhecidas;
- Ninguém nos obrigou a entrar na UE ou no euro e poderíamos ter desvalorizado o escudo antes de entrar no euro (ainda assim, o equlíbrio orçamental continuaria a ser indispensável);
- O aumento do peso do Estado foi erro nosso;
- Os investimentos foram erro nosso;
- As políticas pró-cíclicas foram erro nosso;
- A falta de agilização do sistema de Justiça, do sistema de arrendamento, dos sistemas de licenciamento, etc., foi erro nosso;
- Etc, etc.
Caramba, entraram anualmente em Protugal fundos (com grande parte de comparticipação alemã) correspondentes a 2% do PIB e nós conseguimos crescer menos de 0,5%?

Como Ricardo Paes Mamede refere, os alemães nem sempre tiveram a imagem de eficiência que hoje têm. Nós também podemos mudar. Mas acho que precisamos de reconhecer os erros e não os endossar para os outros. (Lembra-me os acidentes de trânsito, em que poucos portugueses alguma vez assumem responsabilidade pelo ocorrido.) A verdade é que a nossa estratégia de desvalorizar e gerar inflação também nunca nos fez enriquecer. Um dia destes podíamos experimentar o rigor (em economia aberta, que do rigor salazarento não tenho saudades)..


De Helena a 15 de Dezembro de 2011 às 22:56
Parecem-me essenciais neste post duas afirmações: aceitar os erros e não os endossar para outros e o desejo sincero de mudar. Esses sao princípios básicos de qualquer terapia. E Portugal precisa de uma de choque.

Estou a escrever de um telemóvel por isso não me vou alargar.


De José António Abreu a 17 de Dezembro de 2011 às 13:08
No fundo, até conseguimos aceitar ter cometidos alguns erros, Helena. O maior problema está no "sincero".


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