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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
Da diferença entre interesse e obrigação

A Alemanha está a fazer tudo mal. Os alemães estão a humilhar os gregos e far-nos-ão o mesmo. Não estamos numa fase de atribuição de culpas mas de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:

 

1. De modo a proteger a sua economia de solavancos violentos (por os seus bancos terem andado a emprestar dinheiro a quem não sabia usá-lo), um contribuinte alemão pode ter interesse em enviar dinheiro para a Grécia – mas não tem obrigação de o fazer. Não contraiu as dívidas dos gregos (nem as nossas).

 

2. O governo alemão responde aos alemães. Se estes não quiserem ajudar, ele não pode ajudar. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Merkel se mete nos assuntos «internos» de países «soberanos»? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?

 

3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ajuda, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber solidariedade. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita ajuda, não geram impulsos de solidariedade. A solidariedade não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.

 

4. Forçar a Alemanha (e os outros países do Norte) a pagar as dívidas dos países do Sul por causa do risco para os seus bancos (e para o Euro) parece-se mais com chantagem do que com solidariedade. Ninguém pode surpreender-se com as resistências. Nem que, mais cedo ou mais tarde, o chantageado compreenda que não vale a pena continuar a pagar porque terá de o fazer mais uma e outra e ainda outra vez; que perceba que mais vale aceitar as consequências de assumir o problema (o artigo do Bild, mencionado pelo Rui Rocha, é claramente um indício de que podemos estar perto de isso acontecer). E mesmo que vá pagando, se um dia o motivo que permite a chantagem deixar de existir (por exemplo, se a dívida grega detida pelos bancos alemães já não os colocar em risco), a vítima de chantagem sentirá um enorme prazer em vingar-se. União Europeia? Pois sim.

 

5. Comparar a situação actual com os desejos revanchistas e expansionistas de Hitler é absurdo. Hoje, o desejo dos alemães é serem deixados em paz. Eles que, por enquanto, através de inovação tecnológica e contenção salarial, conseguiram manter-se competitivos no mundo globalizado. Que culpa têm das incompetências alheias?


publicado por José António Abreu às 08:44
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4 comentários:
De Miguel a 4 de Novembro de 2011 às 21:20
JAA, a mim o que me parece absolutamente lógico é que a Alemanha não queira abandonar o projecto europeu. O interesse é, evidentemente, dos mais fortes. A questão é que o projecto europeu - este projecto europeu - tem funcionado do ponto de vista comercial, mas não funciona do ponto de vista político nem, sobretudo, cultural. Ora, quando os naturais problemas financeiros, que são parte integrante de qualquer crescimento económico, surgem, é ao sistema político que cabe resolver, e à cultura que cabe absorver. Se a cultura não preparou a política, dá-se o que está a suceder, que é o cair do pano sobre anos e anos de um castelo de cartas disfarçado de projecto europeu. Este projecto europeu, construído sobre uma manta de retalhos cultural e política que constitui a nossa Europa. Este projecto europeu, que não soube criar um sistema financeiro que admitisse as brutais assimetrias culturais e políticas - e, por conseguinte, económicas - entre Estados.


De José António Abreu a 7 de Novembro de 2011 às 11:19
Miguel: concordo que há pontos mal preparados e que as questões culturais têm um papel. Desde o início, sabia-se que o euro só funcionaria se as contas públicas fossem mantidas equilibradas. Isso é algo de que as pessoas nos países do Sul não se convencem. Se nós tivéssemos mantido o défice em torno de zero (considerado o crescimento económico) e a dívida pública abaixo dos 60% preconizados pelos tratados, a nossa situação seria hoje muito diferente. É claro que teríamos tido aumentos salariais mais baixos, que o Estado não poderia ter investido tanto em obras públicas, etc., etc. Se tivéssemos controlado as contas públicas e ao mesmo tempo introduzido as alterações de fundo que ainda estão por fazer (justiça, segurança social - era só copiar o modelo sueco -, lei do arrendamento, diminuição de burocracias, etc.), mantendo um nível de impostos razoavelmente competitivo, poderíamos ter hoje uma situação diferente. Os países do Norte fizeram o que lhes competia - aproveitaram a oportunidade. Nós, que antes e durante o euro, até tínhamos algumas vantagens (desde logo, os salários mais baixos), desperdiçámos a nossa, aceitando o que não devíamos ter aceitado (dinheiro em troca da diminuição da produção agrícola e da frota de pescas, por exemplo) e usando os subsídios de forma improdutiva (também graças ao elevado nível de corrupção - cá estão algumas diferenças culturais). Antes do euro, sempre que tínhamos problemas, desvalorizávamos o escudo e as pessoas perdiam poder de compra quase sem o perceberem - é por isso que nunca chegámos a ser ricos. Agora, a coisa nota-se mais - os cortes são evidentes. Pela minha parte, acho que devemos analisar todas as opções - cumprir o acordo, tentar renegociá-lo, violá-lo, sair do euro - mas não vale a pena culpar a Alemanha por erros nossos. Vale é a pena mostrar-lhes que é do interesse geral que o sistema não estoire (e, logo, que é do interesse deles financiarem a nossa recuperação a juros simpáticos e sem exigências demasiado recessivas) e convencê-los de que estamos a introduzir mecanismos que impedirão novas derivas. As manobras políticas na Grécia não ajudam nada a tornar isto possível. E, se não conseguirmos, a saída do euro é inevitável.


De Miguel a 7 de Novembro de 2011 às 11:29
Referes as concessões que fizemos relativamente às quotas de mercado do sector primário. Eu tenho para mim , e duvido que alguém me consiga fazer mudar de ideias, que essa foi uma das únicas razões pelas quais países como Portugal foram admitidos no Projecto. Para serem consumidores. Depois, se acrescer tudo o que mencionaste, nomeadamente a nossa impressionante falta de cultura (a todos os níveis), é inevitável que cheguemos aonde chegámos.
Soluções? Epá, para mim só há uma de duas: ou o Projecto Europeu faz um reset, admite que há países mais fracos, e altera todas as bases, ou é cada um por si. Assim, é morrer devagarinho.


De José António Abreu a 7 de Novembro de 2011 às 19:20
Não penso que essa tenha sido uma das únicas razões mas é óbvio que eles defenderam os seus interesses e nós não. Quanto à situação actual, estou de acordo que só há duas vias: integração política, com orçamento comum, pelo menos em parte, e decisões tomadas em Berlim (mas duvido que seja possível - os alemães ainda se lembram bem dos custos da reunificação) ou colapso do euro, com a nossa saída e dos restantes países do Sul.


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