como sobreviver submerso.
Diz a juíza. Uma violação só é violação se existir um «plus» de violência. Expresso em olhos negros, faces cortadas ou braços partidos, presumo. Ou em olhos negros, faces cortadas
e olhos partidos. Quanto mais lesões, melhor. Porque, não sei se estão a ver, a inexistência de marcas bem visíveis permitirá sempre a dúvida: será que a agarrou pelos cabelos (o que poderia – poderia, atenção, que sem marcas nada é certo – constituir o tal «plus») ou apenas pela cabeça (caso em que talvez estivesse apenas a olhá-la nos olhos, tentando desajeitadamente declarar a paixão que o assolava)? Não se esqueça, portanto: se for violada(o) e quiser justiça, trate de ficar com lesões físicas. E, ainda assim, não elimina o risco de a nossa Justiça (devia levar aspas, não devia?) entender que uns cortes e umas nódoas negras não são prova de violência, uma vez que podem ter resultado de brincadeiras sexuais alternativas realizadas de mútuo acordo. (Ei, para
mim são alternativas.) Bolas, isto não é fácil. Esperem, acho já sei: embora mulheres grávidas, como a do caso em apreço, talvez possam apenas abortar, o melhor é morrer. Em princípio eliminam-se as dúvidas sobre as questões do consentimento e da violência e evita-se a vergonha da exposição em tribunal – e também se evita expor os portugueses com um módico de vergonha na cara à vergonha de constatarem mais uma vez não existir Justiça (sem aspas) no país em que vivem.
Caro jaa,
A justiça sem aspas vai estando mais ou menos bem, digo eu. O que esta justiça não merece, definitivamente e na minha opinião, é a letra maiúscula.
É pequenina demais. Tacanha, mesmo.
Bem visto, Maria. Eu usei a maiscúla para separar a justiça (comum, do dia a dia) do sistema de justiça. Mas admito que gera um efeito de incongruência. O que - e estou a pensar nisto à medida que escrevo - talvez não seja inteiramente negativo, desde que quem leia perceba a incongruência (como - convém sempre elogiar comentadores não agressivos - foi o seu caso).
A incongruência não é sua, jaa . É da justiça, a quem falta Justiça.
Obrigada pelo seu elogio. E não se preocupe, eu sou uma rapariga pacífica e nada agressiva!
A incongruência não é sua, jaa . É da justiça, a quem falta Justiça.
Obrigada pelo seu elogio. E não se preocupe, eu sou uma rapariga pacífica e nada agressiva!
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