como sobreviver submerso.
Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010
23:59:59

Às 23:59:59 do dia 31 de Dezembro todos os relógios pararam na Nova Zelândia, Fiji, Kiribati e outras ilhas do Pacífico. As pessoas, que já levantavam os braços para festejar a passagem do ano, ficaram imóveis nas ruas, nos restaurantes e nas casas, sem saber o que fazer. Exactamente duas horas mais tarde aconteceu o mesmo em Sydney e noutras cidades da costa Leste australiana. Depois foi a vez das cidades da Austrália central e do Japão. Cinco horas após o início do fenómeno, os relógios pararam em Perth, em Hong Kong, em Xangai, em Pequim. Entretanto, já os governos estavam reunidos e as forças militares em alerta máximo. Quando, outras cinco horas decorridas (dez desde o momento em que os primeiros relógios haviam parado), os ponteiros se aproximaram da meia-noite em Moscovo, São Petersburgo, Bagdade e Nairobi, as pessoas continuavam a sair para as ruas mas já mantinham uma atitude de expectativa. O salto das 23:59:58 para as 23:59:59 foi o último que os ponteiros dos segundos efectuaram. O mesmo se passou sessenta minutos depois em Helsínquia, Bucareste, Jerusalém, Damasco, Cairo, Maputo, Pretória. Nas cidades e aldeias, as pessoas continuavam a sair para as ruas mas faziam-no agora por curiosidade e medo, para estarem juntas de outras quando os relógios parassem, e não já para festejarem a passagem do ano. Especialistas avançavam teorias nas rádios e televisões. Questões climáticas, excesso de magnetismo, uma arma desconhecida. As comunicações dependentes de sistemas de contagem do tempo bloqueavam. Deixava de se conseguir telefonar ou navegar na internet. Enquanto, com a inexorabilidade de um relógio em perfeito funcionamento, o tempo deixava de ser contado na Europa e em África, muitos olhos voltavam-se, desconfiados, para os Estados Unidos. O presidente americano fez uma declaração ao país e ao mundo garantindo que o seu país nada tinha a ver com o assunto. Por todo o lado, cientistas verificavam os mecanismos dos principais relógios, faziam medições de tudo aquilo em que conseguiam pensar (da intensidade do campo magnético, dos níveis de radioactividade, do grau de vibração da superfície terrestre) e vigiavam o cosmos, pois era opinião de muita gente que um tal acontecimento só podia ter origem no espaço: a Terra, afirmavam vozes apocalípticas um pouco por todo o planeta, estava prestes a ser atacada. Questionavam-se os fabricantes de relógios mas estes não tinham respostas: a Suíça era um país em estado de choque. Começando por cidades como o Rio de Janeiro, Brasília e Montevideu, também no continente americano os relógios foram deixando de funcionar às 23:59:59. Buenos Aires, Recife, Salvador. Manaus, La Paz, Halifax. Toronto, Nova Iorque, Quito. Manágua, Cidade do México, Minneapolis. A última região do continente a ser afectada foi o Alaska, com os relógios em Anchorage parando exactamente vinte e duas horas após o mesmo ter sucedido aos relógios de Auckland. Uma hora mais tarde encravaram os últimos relógios ainda funcionais do planeta, em arquipélagos do Pacífico como a Polinésia Francesa e Samoa. Começou então um período em que não era possível medir o tempo pelos meios habituais pois todos os relógios, independentemente do tipo de mecanismo que os fazia operar (mecânico, de quartzo, atómico, de água) haviam deixado de funcionar. Passou-se algum tempo que, pela primeira vez em séculos, não foi dividido em horas, minutos e segundos. A noite caíra de novo na Nova Zelândia onde, com excepção das crianças, ainda ninguém pregara olho. As pessoas já não estavam nas ruas mas reunidas em casa ou em bares, defronte de televisores. Discutia-se o que poderia estar por trás do acontecimento mas também muitos outros assuntos: dever-se-ia ir trabalhar no dia seguinte? Como acordar na altura certa? De que forma seriam garantidos os horários? Como marcar reuniões? E então, de repente, sem aviso nem espalhafato, os relógios recomeçaram a funcionar. Clique. Clique. Passaram para as 00:00:00 e depois para as 00:00:01 e depois para as 00:00:02 e não mais pararam. As pessoas entreolharam-se e muitas voltaram a sair para a rua e ergueram os olhos para o céu. Tudo parecia normal: a noite estava limpa, com o firmamento coberto de estrelas e a lua a brilhar. Progressivamente, com as mesmas diferenças horárias que se tinham verificado ao pararem, os relógios voltaram a trabalhar em todos os pontos da Terra. Na televisão, especialistas não se sabe bem em que assunto diziam que os relógios haviam estado parados exactamente vinte e quatro horas. Por razões que se desconhecem, nesse ano o tempo recusou comemorar a passagem do ano e saltou por cima do dia 1 de Janeiro. Ninguém sabe se acontecerá novamente.

 

À partida, nada indica que seja hoje. Mas às 23:59:59, milhares de milhões de pessoas irão suster a respiração e apenas exalarão quando os ponteiros dos relógios saltarem para a meia-noite.



publicado por José António Abreu às 00:00
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3 comentários:
De Sun Iou Miou a 31 de Dezembro de 2010 às 20:38
Vou-me lembrar de dar corda ao relógio da sala que ainda para e depois de ler isto apanha um raio dum susto. :)

Que não pare o tempo, mas será bom pararmos nós a pensar nele.


De José António Abreu a 1 de Janeiro de 2011 às 14:46
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Espero que tenha corrido tudo bem... Bom ano.


De Sun Iou Miou a 1 de Janeiro de 2011 às 18:56
Não sei se tudo, mas pelo menos o tempo correu bem, não parou ainda (o relógio também não).

Bom ano, claro. :)


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