como sobreviver submerso.
Sábado, 25 de Dezembro de 2010
Conto de Natal

Era de prever. Levava-a fisgada, claro. Logo que a sentaram ao colo do Pai Natal, na praça do Centro Comercial, olhou para cima, para a imensa barba branca, e franziu ligeiramente os olhos, numa expressão que o pai conhecia bem: usava-a sempre que um plano dava certo. O Pai Natal fez-lhe uma pergunta mas, em vez de responder, ela estendeu a mão, agarrou a barba e puxou com força. A barba afastou-se cerca de dez centímetros da cara do Pai Natal. Ela sorriu em triunfo. As crianças que aguardavam vez gritaram. O Pai Natal sobressaltou-se e quase a deixou cair. Isto fez com que ela largasse a barba que, pelo efeito do elástico, embateu com força na cara espantada do Pai Natal. Ele soltou um grito estranhamente agudo e tê-la-ia deixado cair dos joelhos se o pai não a estivesse já a agarrar. Quando a levou dali, ela não parava de dizer: «Não é verdadeira. É falsa. O Pai Natal é falso.»

Soube há pouco da história, durante o almoço de Natal. Fui ter com ela. Sentei-a no sofá a meu lado. «Tenho que contar-te um segredo.» E disse-lhe:

«Foi no ano passado. Estava tudo pronto no Pólo Norte: os presentes embrulhados e metidos no saco; o trenó com patins novos e a revisão dos cinco milhões de quilómetros efectuada; as renas bem alimentadas, bem penteadas e em excelente forma física: tinham andado a ser treinadas durante meses, fazendo provas de força contra ursos polares e voando até mais de um quilómetro de altura por várias vezes; as coordenadas GPS (é uma maneira de se encontrarem os sítios) de todas as casas onde residem crianças cristãs, crianças que, mesmo não sendo cristãs foram muito bonzinhas durante o ano ou podem vir a ser cristãs no futuro (o aumento do número de casamentos entre pessoas de diferentes religiões dificultou muito o trabalho de selecção do Pai Natal nos últimos anos) e crianças que, apesar de se terem portado mal, são familiares dos principais financiadores do Pai Natal, introduzidas no sistema de navegação do trenó, com a rota definida de modo a aproveitar os ventos e a evitar as tempestades. Tudo pronto, apesar das dificuldades encontradas durante o ano anterior.»

«Dificudades?»

«Sim. Muitas dificuldades. Tudo começou com os problemas de financiamento – quer dizer, era muito difícil arranjar dinheiro para fabricar os brinquedos. As empresas que costumavam dar dinheiro à empresa do Pai Natal, e embora os seus chefes tenham pedido muitas desculpas, tinham cortado nas doações. O aumento do preço dos combustíveis tinha levado a uma enorme subida da factura de energia, que é uma das fatias maiores dos custos de operar a partir do Pólo Norte. Tornou-se difícil pedir dinheiro emprestado aos bancos porque os spreads (sabes o que são spreads? Não importa, é uma coisa má que os adultos têm de suportar quando pedem dinheiro emprestado) eram cada vez mais elevados. A situação agravou-se ainda mais quando duas das três agências internacionais de notação (não posso evitar as palavras difíceis, querida, mas vais ver que no fim percebes) tinham baixado o rating da empresa de fabrico e distribuição de brinquedos do Pai Natal, por considerarem que uma empresa com problemas de localização e que não cobrava dinheiro pelos produtos que fazia estava especialmente mal preparada para enfrentar a crise. Em Março, o Pai Natal foi forçado ao despedimento colectivo de dois terços dos duendes, que ficaram muito zangados até porque não há mais empresas no Pólo Norte nem sistemas de segurança social.»

«Então o Pai Natal é mau?»

«Não, as pessoas às vezes têm que fazer coisas que parecem más mas é por um bom motivo. Se ele não fizesse isso todos ficariam no desemprego e os meninos do mundo inteiro não recebiam os presentes de Natal.»

«Ah.»

«Em Abril, o fabrico dos brinquedos foi transferido para a China, no que se revelou um terrível pesadelo logístico. O sistema de qualidade da empresa do Pai Natal obriga a que nenhum brinquedo para crianças com menos de três anos – tu já tens mais, não já? Já és uma menina crescida –, nenhum brinquedo, dizia eu, pode ter peças que possam ser engolidas e as tintas usadas em todos os brinquedos não podem fazer mal à saúde e, se possível, até devem ser gostosas e, assim, de modo a garantir a qualidade da produção, os duendes restantes eram forçados a muitas viagens à China, onde alguns desapareceram, não se sabe se por terem-se apaixonado por meninas orientais, acontecimento muito comum devido – é o que se pensa – a serem da mesma altura, se por terem sido mortos e servidos como pratos afrodisíacos em restaurantes de Pequim.»

«O que é afrosídiacos?»

«É a mesma coisa que ‘muito bom’. São pratos que dão um grande prazer durante muito tempo.»

«Como chocolate?»

«Exactamente. Como chocolate.»

«Ah. Mas então os chineses comem duendes?»

«Não se tem a certeza.»

«São maus?»

«Os chineses?»

«Sim.»

«Não. Quer dizer, mais ou menos. Mas podes estar descansada que eles não comem criancinhas. Isso era mais os russos. Acho eu.»

«Ahn?»

«Nada, esquece. Vou continuar a história, está bem?»

«Está.»

«O desaparecimento de tantos duendes deixou ainda mais trabalho para os restantes. Alguns exigiram subsídios de deslocação, que o Pai Natal foi obrigado a recusar porque as despesas com viagens tinham quadruplicado em relação aos anos anteriores e ele estava a tentar poupar para outra coisa: desde que tivera de dispensar o pessoal doméstico, a Mãe Natal exigia uma série de electrodomésticos para lhe facilitar a vida em casa e ameaçava passar a dormir noutro quarto, que era uma coisa que o Pai Natal não queria porque depois a rena Rodolfo ia querer dormir com o Pai Natal e o Pai Natal sabia que ela ressonava.»

«Como o papá?»

«Er, sim, provavelmente.»

«A mãe também diz que vai dormir para outro quarto.»

«Er, ok. Vamos continuar, está bem?»

«Está.»

«As despesas com viagens tinham então aumentado imenso, até porque não há companhias de aviação low cost (são as que fazem preços mais baratos) a operar no Pólo Norte. O único ponto positivo era que, com as milhas acumuladas, o Pai Natal esperava poder oferecer à Mãe Natal uma viagem de sonho às Maldivas (que são umas ilhas com praias bonitas) depois do Natal. A situação estava neste ponto quando os brinquedos chegaram da China e o Pai Natal teve mais uma péssima surpresa: o papel em que vinham embrulhados tinha a imagem de pequenos Confúcios, que é como se fosse um Deus chinês, em vez de Meninos Jesus. Foi preciso desembrulhar todas as prendas e voltar a embrulhá-las com um papel mais adequado: como já era Novembro e não havia dinheiro, usou-se papel de patrocinadores, lojas como a Toys ‘r’ Us e a Worten ou empresas como a Coca-Cola, que sempre manteve uma excelente relação com o Pai Natal. Para que tudo estivesse pronto a tempo, foi preciso readmitir parte dos duendes despedidos. Fizeram-se contratos com a duração de apenas um mês mas foi preciso pagar-lhes um valor muito elevado, quase o triplo do que eles ganhavam antes.»

«Bem feito.»

«Exacto. Chama-se a isto ‘economia de mercado’. Em meados de Dezembro chegou a última crise: a Mãe Natal, ainda sem os electrodomésticos que desejava, recusou-se a preparar a roupa vermelha e branca do Pai Natal. ‘Não a vou lavar à mão e secar à lareira’, disse. O Pai Natal contactou novamente as tais lojas de patrocinadores mas havia tempestades fortes nos céus da Europa e da América do Norte e era muito difícil fazer os electrodomésticos chegar ao Pólo Norte. Tentou convencer as renas a irem buscá-los mas elas recusaram. Se o tempo estava mau para os aviões, argumentaram, imagine-se o esforço que seria para elas. A menos, claro, que o Pai Natal pagasse a deslocação. Por uma questão de princípio, o Pai Natal recusou. Finalmente conseguiu que, por um preço quase tão elevado quanto o que as renas pediam, lhe enviassem por trenó puxado por cães (que são animais que trabalham por pouco dinheiro, desde que sejam levados a pensar que estão a divertir-se) uma máquina de lavar e outra de secar roupa de uma fábrica da Electrolux, perto de Estocolmo (que é uma cidade da Suécia, não muito longe do Pólo Norte). A Mãe Natal não ficou totalmente satisfeita (queria também uma máquina de lavar louça, um microondas e um ferro de engomar com caldeira) mas acabou por ceder e tratou da roupa do Pai Natal.»

«Ele não podia tratar dela sozinho?»

«Boa pergunta. E tens razão: ele devia saber fazer essas coisas. Mas o Pai Natal é velhote e nunca lhas ensinaram.»

«Mas podia aprender.»

«Talvez ainda aprenda. Vamos continuar, está bem? Estava, pois, tudo pronto na tarde do dia vinte e quatro. Foi então que o Pai Natal decidiu ir arranjar a barba e o cabelo, para estar bonito na noite mais importante do ano. Sentou-se na cadeira do barbeiro da pequena aldeia do Pólo Norte e, como costumava fazer, adormeceu de imediato. Nessa altura os duendes despedidos, há muito decididos a vingarem-se, invadiram a barbearia, arrastaram o barbeiro para a sala dos fundos e ataram-no com restos do fio de embrulho. Depois subiram para cadeiras e raparam o cabelo e a barba ao Pai Natal.»

«Então os duendes são maus?»

«Não. Às vezes as pessoas que têm pouco poder têm de defender os seus interesses e mostrar que não gostaram do que lhes fizeram. E eles não aleijaram o Pai Natal; apenas lhe cortaram a barba e o cabelo. Quando acordou e se viu ao espelho, o Pai Natal apanhou um grande susto e quase teve um ataque cardíaco (que era uma coisa que ele sabia poder acontecer-lhe, porque o médico lhe dizia há anos para comer menos e emagrecer). Saiu da barbearia a gritar e, enterrando as pernas na neve, observado por todos os habitantes da aldeia que se riam às gargalhadas, correu para casa. 'Está tudo perdido', lamentou-se. 'Não é possível que o Pai Natal não tenha barba nem cabelo. O que vou fazer?' A Mãe Natal não se alarmou. Foi buscar duas esfregonas de limpar o chão (uma nova, a outra já um pouco usada) e construiu uma cabeleira e uma barba falsas. Colou-as à cabeça do Pai Natal com fita adesiva e disse-lhe: 'Pronto, servem muito bem e até te dão um aspecto mais moderno.' O Pai Natal não ficou totalmente convencido mas nada podia fazer. Duas horas depois saiu para a sua volta da noite de Natal e desde então, enquanto o seu próprio cabelo e barba não voltam a crescer (vão ser precisos muitos anos), usa barba e cabeleira postiças. É por isso que elas se soltam quando alguém as puxa. Mas isso não significa que não se esteja perante o verdadeiro Pai Natal. E também já percebes por que é que ele fica envergonhado quando alguém faz o que tu fizeste.»

Os olhos dela estavam agora brilhantes. Receei que chorasse. Sorri-lhe.

«Mas tu não voltas a fazê-lo, não é? E vais ser especialmente boazinha para ele, quando o vires, não é?»

Fez que sim com a cabeça.

«Óptimo. E também há boas notícias, pequenina, sabes? Para agradecer à Mãe Natal, o Pai Natal ofereceu-lhe a melhor máquina de secar roupa, o melhor microondas e o melhor ferro de engomar com caldeira que encontrou. E hoje estão os dois a caminho das férias nas Maldivas.»

Depois de uma ligeira hesitação, sorriu. Achei melhor ficar por ali e devolvi-a aos pais. 



publicado por José António Abreu às 16:45
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5 comentários:
De Sílvia a 25 de Dezembro de 2010 às 18:18

Tem jeito para restaurar confianças perdidas.
Voltar a acreditar no Pai Natal não é fácil...
E este pequeno pormenor reforça a verosimilhança: " [...] enquanto o seu próprio cabelo e barba não voltam a crescer (vão ser precisos muitos anos) [...]".

(Não tem um conto para gente crescida?)


De José António Abreu a 26 de Dezembro de 2010 às 19:12
Não, não tenho. Mas também não quero ter: longe de mim desejar que as pessoas crescidas acreditassem em algo como o Pai Natal por causa de uma história que eu inventasse. Para tentar fazer-nos acreditar em coisas improváveis, já nos basta José Sócrates...


De Sílvvia a 26 de Dezembro de 2010 às 19:35
Tenta, mas não consegue.
De qualquer modo, foi um comentário em jeito de brincadeira. Credos e convicções cada um tem as suas.


De José António Abreu a 27 de Dezembro de 2010 às 10:08
Precisamente. E se há coisa que os adultos fazem bem é arranjar argumentos para justificar, pelo menos perante eles mesmos, as crenças que decidem abraçar...


De Sílvia a 27 de Dezembro de 2010 às 15:08
Pois... adultos, adultos. Cabe a nós permitir que dentro de nós continue uma criança também, que ri e chora ingenuamente, que acredita sem justificar, que olha e vê o que realmente importa, que se baloiça alegremente.
E depois ser adulto não é algo tão desagradável: muitas contruções, muitas normas, muitas obrigações, mas sobretudo liberdade de autodeterminação, capacidade de crítica, decisão livre e consciente. E também muitos prazeres e muitas alegrias, ou só as crianças se alegram com o arco-íris no céu ou com o bugs bunny a dançar...?

(penso que me alonguei...e me dispersei, mas a conexão existe)


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