como sobreviver submerso.
Não lhes tirem os telemóveis. Prendam-nos!
Como será óbvio não tenho o mínimo prazer em começar este post da forma que o vou fazer (porque preferiria evitar sensações de saudosismos sem sentido e porque, apesar de ocasionalmente me sentir com muito mais, sei que hoje em dia quatro décadas até parecem ser a idade da moda), mas, a propósito da notícia de um aluno condenado em tribunal a pagar uma multa a um professor que insultou, vou ter que o fazer. Vamos lá então:
Eu ainda sou tempo em que se respeitavam os professores. Podia não se gostar deles – e não gostei de muitos. Podia fazer-se-lhes a vida negra – não parando de conversar nas aulas ou estando permanentemente distraído. (Ou com actos ainda mais refinados: recordo com um sorriso uma altura em que acabei rapidamente um teste de geografia e peguei no livro de Rex Stout – da mítica colecção Vampiro – que andava a ler, para irritação da professora, que estranhava eu já ter acabado e desejava que verificasse bem as respostas que dera; não sei se ela tinha razão ou se fez de forma a tê-la – ah, os ódiozinhos que nunca se esquecem – mas a nota não foi brilhante.) Podiam-se até planear maldades tremendas nos intervalos das aulas mas, ainda assim, os professores eram respeitados. Nunca se pensaria em insultá-los. Nunca se pensaria em lutar com um para evitar que nos tirasse um qualquer objecto (o tal livro do Rex Stout, por exemplo). Até porque se temiam as consequências – ser mandado sair da sala era um castigo vergonhoso, ser alvo de um processo disciplinar algo assustador. As minhas recordações podem não representar toda a realidade mas creio que correspondem a um panorama global que actualmente parece diferente.
Claro que agora a comunicação social reporta e amplifica todos os casos. Claro que agora muitas vezes se recorre à SIC ou à TVI ainda antes de fazer queixa na escola. Ainda assim, que um professor entenda recorrer ao sistema judicial por causa da relação com um dos seus alunos é-me tão estranho quanto o membro de um casal processar o outro por este não se dar bem com a sogra. De qualquer forma, talvez tenha um efeito pedagógico. Não sobre os alunos mas sobre os pais. Perceberem que podem ter que pagar 800 euros por causa das atitudes do filhinho talvez os faça pensar e dedicar finalmente algum tempo à educação dos rebentos. Mas duvido. Há uma ideia de direitos absolutos instalada na sociedade (que vem do facto de parecer, como escrevi
aqui, que os outros fazem o que querem e nós é que estamos sempre a ter que cumprir regras). E de desresponsabilização absoluta dos próprios actos (porque, mesmo que tenhamos falhado, os actos alheios desculpam os nossos).
Precupa-me um pouco estarmos a misturar dois dos sistemas mais ineficientes da sociedade portuguesa (justiça e educação). Ainda assim, há outra nota positiva a extraír da notícia: é possível que os tribunais portugueses estejam a descobrir uma área onde podem finalmente parecer competentes. Dediquem-se às escolas, caros magistrados, advogados e juízes. Sempre evitam os casos complexos (até também aqui um aluno entrar na escola com uma Glock e começar a disparar a torto e a direito) e podem ajudar a que a próxima geração seja pelo menos tão boa quanto a actual (que é a minha). Diabos... Acho que estamos perdidos...