A naturalidade com que, de forma inteiramente justificada, se acusa hoje um Primeiro-Ministro de mentir diz imenso sobre o Primeiro-Ministro em questão (de tal modo que há muito deixou de valer a pena ouvir o que ele diz) mas também sobre o estado do país. Os malefícios desse Primeiro-Ministro – Sócrates, José Sócrates – vão muito para além das áreas da política e da economia. Com inestimável ajuda dos seus apaniguados, ele reforçou (em alguns casos, talvez tenha mesmo feito renascer) todos aqueles defeitos que sempre tantos apontaram aos portugueses: a chico-espertice, o facciosismo acéfalo, a incapacidade para distinguir o essencial do acessório e cumprir objectivos, a recusa em assumir responsabilidades, a fuga às regras sempre que elas não convêm e as queixas estridentes quando são os outros a fazê-lo, a propensão para distorcer os dados, como se dessa forma se conseguisse alterar a realidade, o encanto parolo com a «modernidade», os sonhos megalómanos que tentam compensar um mal disfarçado complexo de inferioridade, a singeleza com que se encara o favorecimento de «amigos», a tendência para o autoritarismo e para o desprezo pelo outro, expresso abertamente apenas quando este tem menos poder. A bem dizer, Sócrates tornou-os oficiais.

É impressionante ver como os portugueses só temem o cataclismo absoluto e encaram qualquer adiamento deste (ei, afinal vamos receber mais setenta e oito mil milhões de euros e parece que o plano da «troika» não é assim tão duro) como autorização para manter o statu quo. Os portugueses são hoje como aquelas pessoas que preferem viver de subsídios sociais a arranjar um emprego.
Pergunta
A crise da meia-idade é real?
Resposta
Claro que sim. Mas:
1. Não atinge apenas os homens;
2. Não é verdade que se caracterize por estes passarem a olhar mais para raparigas novas; os homens passam a olhar (ainda) mais para todas as mulheres;
3. Ir atrás das mais novas é apenas bom senso no meio da loucura.
'Scanerizada' a partir de negativo não muito bem exposto, esta já tem mais de uma dúzia de anos. O que significa que a rapariga é agora uma mulher e o cão, provavelmente, já morreu. Mas cada um construirá a história que bem entender.
Mas a época de abundância em que o ouro corria em Lisboa durou sessenta anos: de meados do século XV ao começo do século XVI. Nessa altura acreditou-se que chegariam nos barcos tesouros sem fim, escravos, ouro, especiarias, tecidos, a cidade floresceu, encheu-se de ostentação e luxo, tornou-se cosmopolita. A ela acorriam representantes dos grandes banqueiros e dos grandes comerciantes da Europa e agentes secretos de outros países, também em busca de riqueza fácil, que procuravam informações sobre as rotas e os produtos.
Mas a péssima gestão e os gastos excessivos levaram o país à beira do colapso. D. João II e D. Manuel I, em reinados sem guerras e de abundância extrema, deixaram dívidas.
Outros europeus entraram em competição connosco no comércio e ganharam. Não soubemos gerir nem organizar-nos, soubemos envaidecer-nos e esbanjar.
A Feitoria da Flandres por exemplo acabou por ser fechado, e em 1549 o país perdeu o crédito em Antuérpia, hipotecando os lucros das exportações dos anos seguintes. Em pouco tempo o valor dos juros duplicou.
Havia fome em Lisboa e era a Flandres que se iam comprar cereais, com juros altíssimos, mas mesmo assim o pão faltava. Vendiam-se padrões de juros, adiavam-se pagamentos e pediam-se cada vez mais empréstimos. Vivíamos muito acima das nossas posses, e em lugar de produzir riqueza íamos a outros lados procurá-la feita. Foi assim que fizemos com África e a Índia.
E o mesmo sucedeu depois, noutro período de aparente abundância igualmente malbaratada, com o açúcar, o ouro e as pedras preciosas do Brasil, nos séculos XVII e XVIII. O país vivia numa contínua fuga para a frente.
Em 1557 Garcia de Resende apontava a falta de bons governos – esse mal acompanhou-nos cronicamente, embora não tivesse de ser assim.
Íamos procurar o longe, descurando o que ficava perto. O país despovoava-se, não havia braços nem vontade para cultivas nem pescar e era demasiado caro o esforço contínuo da guerra, porque a expansão se fazia pelas armas. A «glória de mandar» desfez-se rapidamente em vaidade e espuma. O Velho do Restelo foi sempre criticado e mal visto, e ninguém aproveitou uma única palavra do que ele disse.
Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses.
Edição Sextante.
Há quatro vias para tentar minimizar o medo da morte sem passar pela religião: a inconsciência, que, sendo a única verdadeiramente eficaz, sem recurso a drogas nunca resiste à entrada na quinta ou sexta década de vida; a luta contra os indícios de envelhecimento, que rapidamente se torna patética; o recurso à violência, como desafio e exorcismo; e a melancolia, como método de aprendizagem. É demasiado cedo para pensar nisto, eu sei, mas às vezes não o consigo evitar. A médio e longo prazo, apenas duas destas formas me parecem constituir opções viáveis para mim. De momento, por entre breves períodos de inconsciência, vou-me agarrando à melancolia.
Um par de mamas femininas enfiado numa blusa apertada, ameaçando fazer-lhe saltar os botões, é tremendamente excitante. Um par de mamas femininas mais imaginado do que visto no interior de uma blusa larga, apenas ocasional e fugazmente delineado no tecido, também.
Ó meus filhos: por que insistis em andar por aí em blogues, caixas de comentários de jornais online, áreas de cafézinho das mais variadas empresas, táxis e tascas típicas a comparar as medidas do plano de resgate (sejam elas exactamente quais forem) com as do PEC IV? O PEC IV garantia-nos o empréstimo de 78 mil milhões de euros? Não? Bem me parecia. Ide então em paz e evitai as conclusões apressadas (e os montículos de bosta de cão espalhados pelos passeios que, quando pisados, são causa de muita obscenidade verbal).
Uma mama entrevista por um decote gera invariavelmente um frémito de excitação – ainda que a mama em questão já seja conhecida há anos.
Para quem tem 1,98m (um dos comentadores da RTP fazia questão de o designar por «a torre de Tandil» a cada cinco minutos) Del Potro move-se extraordinariamente bem. Depois de um ano parado por lesão, parece estar a aproximar-se da melhor forma. Óptimo. Só espero que não calhe no quarto do quadro do Federer em Roland Garros.
Acontece invariavelmente: a final é às três da tarde mas às quatro ainda entra gente (este ano algumas pessoas devem ter visto menos de um quarto de hora de jogo). Nos camarotes, então, o panorama aquando do início do encontro é sempre desolador, com mais de dois terços por ocupar. Suponho que será de bom-tom entrar tarde. Afinal, para muita gente com lugar de camarote mais importante do que apreciar o ténis é ser visto. De tal modo que nem há pejo em fazer os jogadores esperar enquanto calmamente se distribuem apertos de mão e beijinhos a caminho dos lugares. As nossas elites são o espelho do país: preocupadas acima de tudo com as aparências, cultivam um snobismo pacóvio e não mostram qualquer respeito por regras e horários. De cada vez que entro no Court Central do Jamor e constato a enorme área dedicada a camarotes (enfim, João Lagos terá de rentabilizar o evento) tenho vontade de me tornar ainda mais marxista do que já sou. Que é como quem diz, acrescentar o culto pelo Karl ao culto pelo Groucho.
A verdade é que, VIP ou plebeu, o público justificava um estudo sociológico. Apenas um exemplo, do ano passado: atrás de mim nas bancadas, apontando para dois sacos a abarrotar, impante de orgulho, dizia um homem para a pessoa do lado: «Tudo somado, levo umas cinquenta bolas, vinte chapéus e praí trinta t-shirts!» Suponho que se pode ver a questão como existindo quem saiba rentabilizar o preço do bilhete. Em tempo de crise, é capaz de não ser mal pensado.
O dinheiro, quase todo a crédito, tornou-se-nos essencial para erigir barreiras tapando o vazio que é a nossa vida. Através de carros, roupa, telemóveis, LCDs, tratamentos de beleza e férias em praias brasileiras inventámos uma vida cheia, dinâmica, significativa. A crise, o FMI, a Merkel e os finlandeses vêm colocar a nu as fragilidades deste plano. E o pior é que, viciados no visível, não temos outro.
Nunca usei outro perfume a não ser o que foi criado para mim a pedido de Guillaume nessa viagem a Paris. Substituiu o Bounce, fala por mim e recorda-me de que existo. Uma das minhas companheiras de apartamento passou vários anos a estudar teologia, arqueologia e astronomia, para perceber quem foi o nosso criador, quem somos, por que motivo existimos. Todas as noites, chegava a casa não com respostas mas com novas questões. Eu nunca me questionei sobre coisa alguma a não ser sobre o momento em que poderia morrer. Deveria ter escolhido esse momento antes da chegada dos meus filhos, pois desde então perdi a opção de morrer. O cheiro acre dos seus cabelos ao sol, o cheiro a transpiração nas suas costas à noite ao acordarem depois de um pesadelo, o cheiro poeirento das suas mãos quando voltam da escola obrigaram-me e obrigam-me a viver, a ficar deslumbrada com a sombra das suas pestanas, comovida com um floco de neve, transtornada com uma lágrima nas suas faces. Os meus filhos deram-me o poder exclusivo de soprar numa ferida para tirar a dor, de perceber palavras não pronunciadas, de ser dona da verdade universal, de ser uma fada. Uma fada apaixonada pelos seus cheiros.
Kim Thúy, Ru.
Edição Alfaguara, tradução de Paula Centeno.
As expectativas das mães.
"Are there many unhappy boys in your school, Richard?"
"I don't know. Maybe."
"Do the boys miss their parents?"
"Sure."
"I hope you're friends with them. Don't ignore them."
She had the sunny, myopic belief, like all mothers, that her son was popular and had the power to "make friends" with anyone.
Joyce Carol Oates, Expensive People.
"Acho que o Dinis vai ser o sucessor do tio. Quando o Ronaldo nasceu, a minha mãe disse logo que ele ia ser jogador, e eu vou arriscar dizer o mesmo com o meu filho."
Kátia Aveiro (mais conhecida como irmã de Cristiano Ronaldo), à revista Vidas, do Correio da Manhã, em 2010.
Quando eu era mais jovem via a tia Dois prostar-se diante de Buda, diante de Cristo, diante do próprio filho para lhe suplicar que não desaparecesse durante meses, que não voltasse para ela ao fim desses meses de ausência escoltado por homens que lhe encostavam uma faca ao pescoço. Antes de eu ser mãe, não entendia como é que ela, uma mulher de negócios lutadora, de olhar vivo, de língua afiada, podia acreditar nas histórias e nas falsas promessas do seu filho viciado no jogo. Na minha recente visita a Saigão, ela disse-me que devia ter sido uma grande criminosa na sua vida anterior para ser obrigada, nesta vida, a acreditar nas intrujices do seu próprio filho. Ela queria deixar de amar. Estava cansada de amar.
Porque fui mãe, também lhe menti ao omitir a noite em que o seu filho pegou na minha mão de criança e a pôs à volta do seu sexo de jovem adulto, e a noite em que se introduziu no mosquiteiro da tia Sete, aquela que é deficiente, indefesa. Calei-me para que a tia Dois, envelhecida, esgotada, não morresse por ter amado.
Kim Thúy, Ru.
Edição Alfaguara, tradução de Paula Centeno.
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