como sobreviver submerso.
Quarta-feira, 11 de Maio de 2011
Oficiais

naturalidade com que, de forma inteiramente justificada, se acusa hoje um Primeiro-Ministro de mentir diz imenso sobre o Primeiro-Ministro em questão (de tal modo que há muito deixou de valer a pena ouvir o que ele diz) mas também sobre o estado do país. Os malefícios desse Primeiro-Ministro – Sócrates, José Sócrates – vão muito para além das áreas da política e da economia. Com inestimável ajuda dos seus apaniguados, ele reforçou (em alguns casos, talvez tenha mesmo feito renascer) todos aqueles defeitos que sempre tantos apontaram aos portugueses: a chico-espertice, o facciosismo acéfalo, a incapacidade para distinguir o essencial do acessório e cumprir objectivos, a recusa em assumir responsabilidades, a fuga às regras sempre que elas não convêm e as queixas estridentes quando são os outros a fazê-lo, a propensão para distorcer os dados, como se dessa forma se conseguisse alterar a realidade, o encanto parolo com a «modernidade», os sonhos megalómanos que tentam compensar um mal disfarçado complexo de inferioridade, a singeleza com que se encara o favorecimento de «amigos», a tendência para o autoritarismo e para o desprezo pelo outro, expresso abertamente apenas quando este tem menos poder. A bem dizer, Sócrates tornou-os oficiais.



publicado por José António Abreu às 23:11
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Imagens recolhidas pelas ruas: 46
Porto, circa 1998.


publicado por José António Abreu às 08:42
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Terça-feira, 10 de Maio de 2011
O que as sondagens mostram

É impressionante ver como os portugueses só temem o cataclismo absoluto e encaram qualquer adiamento deste (ei, afinal vamos receber mais setenta e oito mil milhões de euros e parece que o plano da «troika» não é assim tão duro) como autorização para manter o statu quo. Os portugueses são hoje como aquelas pessoas que preferem viver de subsídios sociais a arranjar um emprego.



publicado por José António Abreu às 13:08
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Coisas aparentemente irrelevantes
Uma ninharia: governo enganou tribunal de contas.

 

Sim, eles são todos iguais: porque estão as empresas endividadas.
Evolução da dívida das empresas em função do PIB. Gráfico adquirido a custo zero no Desmitos. Para juntar a estes.


publicado por José António Abreu às 13:02
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Meia-idade (evidências com remate provocatório)

Pergunta

A crise da meia-idade é real?

 

Resposta

Claro que sim. Mas:

1. Não atinge apenas os homens;

2. Não é verdade que se caracterize por estes passarem a olhar mais para raparigas novas; os homens passam a olhar (ainda) mais para todas as mulheres;

3. Ir atrás das mais novas é apenas bom senso no meio da loucura.



publicado por José António Abreu às 08:37
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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
Perfeição
Caro José Sócrates: numa tocante demonstração de humildade, em especial porque nem se justificaria, da última vez admitiste um erro, lembras-te? Que tinhas apostado pouco na cultura. Juro que tenho estado atento mas até agora não te ouvi dizer nada de parecido. Significa isso que neste ano e meio foi mesmo tudo perfeito?


publicado por José António Abreu às 08:38
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Domingo, 8 de Maio de 2011
Cães e gatos pela cidade: 18

'Scanerizada' a partir de negativo não muito bem exposto, esta já tem mais de uma dúzia de anos. O que significa que a rapariga é agora uma mulher e o cão, provavelmente, já morreu. Mas cada um construirá a história que bem entender.



publicado por José António Abreu às 21:47
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Parece que há 120 anos a situação era parecida; mas há 500 era tão diferente...

Mas a época de abundância em que o ouro corria em Lisboa durou sessenta anos: de meados do século XV ao começo do século XVI. Nessa altura acreditou-se que chegariam nos barcos tesouros sem fim, escravos, ouro, especiarias, tecidos, a cidade floresceu, encheu-se de ostentação e luxo, tornou-se cosmopolita. A ela acorriam representantes dos grandes banqueiros e dos grandes comerciantes da Europa e agentes secretos de outros países, também em busca de riqueza fácil, que procuravam informações sobre as rotas e os produtos.

Mas a péssima gestão e os gastos excessivos levaram o país à beira do colapso. D. João II e D. Manuel I, em reinados sem guerras e de abundância extrema, deixaram dívidas.

Outros europeus entraram em competição connosco no comércio e ganharam. Não soubemos gerir nem organizar-nos, soubemos envaidecer-nos e esbanjar.

A Feitoria da Flandres por exemplo acabou por ser fechado, e em 1549 o país perdeu o crédito em Antuérpia, hipotecando os lucros das exportações dos anos seguintes. Em pouco tempo o valor dos juros duplicou.

Havia fome em Lisboa e era a Flandres que se iam comprar cereais, com juros altíssimos, mas mesmo assim o pão faltava. Vendiam-se padrões de juros, adiavam-se pagamentos e pediam-se cada vez mais empréstimos. Vivíamos muito acima das nossas posses, e em lugar de produzir riqueza íamos a outros lados procurá-la feita. Foi assim que fizemos com África e a Índia.

E o mesmo sucedeu depois, noutro período de aparente abundância igualmente malbaratada, com o açúcar, o ouro e as pedras preciosas do Brasil, nos séculos XVII e XVIII. O país vivia numa contínua fuga para a frente.

Em 1557 Garcia de Resende apontava a falta de bons governos – esse mal acompanhou-nos cronicamente, embora não tivesse de ser assim.

Íamos procurar o longe, descurando o que ficava perto. O país despovoava-se, não havia braços nem vontade para cultivas nem pescar e era demasiado caro o esforço contínuo da guerra, porque a expansão se fazia pelas armas. A «glória de mandar» desfez-se rapidamente em vaidade e espuma. O Velho do Restelo foi sempre criticado e mal visto, e ninguém aproveitou uma única palavra do que ele disse.  

Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses.  

Edição Sextante.



publicado por José António Abreu às 21:44
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Sábado, 7 de Maio de 2011
Any time will do



publicado por José António Abreu às 00:14
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2011
Quatro

Há quatro vias para tentar minimizar o medo da morte sem passar pela religião: a inconsciência, que, sendo a única verdadeiramente eficaz, sem recurso a drogas nunca resiste à entrada na quinta ou sexta década de vida; a luta contra os indícios de envelhecimento, que rapidamente se torna patética; o recurso à violência, como desafio e exorcismo; e a melancolia, como método de aprendizagem. É demasiado cedo para pensar nisto, eu sei, mas às vezes não o consigo evitar. A médio e longo prazo, apenas duas destas formas me parecem constituir opções viáveis para mim. De momento, por entre breves períodos de inconsciência, vou-me agarrando à melancolia.


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publicado por José António Abreu às 08:40
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Das formas e cores: 7


publicado por José António Abreu às 08:15
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2011
Da flexibilidade do cérebro masculino

Um par de mamas femininas enfiado numa blusa apertada, ameaçando fazer-lhe saltar os botões, é tremendamente excitante. Um par de mamas femininas mais imaginado do que visto no interior de uma blusa larga, apenas ocasional e fugazmente delineado no tecido, também. 


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publicado por José António Abreu às 17:04
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Notas sobre o resgate
1. Não afastando totalmente a ameaça de virmos a ter de renegociar a dívida, até por esta ir continuar a aumentar nos próximos anos e ainda não se conhecer a taxa de juro a pagar pelo empréstimo (mas mesmo que seja relativamente baixa – isto é, até aos 4% – a possibilidade de termos de renegociar permanecerá bem real), o acordo não é mau. Tem pontos duros, claro, como se sabia que teria, mas parece globalmente sensato. Que Sócrates ande por aí a dizer o mesmo de um acordo que de socialista terá pouco mais do que os aumentos de impostos apenas mostra novamente que Sócrates não é socialista; é o que lhe for conveniente ser em cada instante. Seja como for, tenha os pontos positivos e negativos que tiver, este acordo é apenas uma oportunidade. Uma última oportunidade cujo resultado depende do que acontecer a seguir. Se Sócrates e o PS vencerem as eleições de 5 de Junho e FMI/BCE/Comissão Europeia não tiverem muito, mas mesmo muito (quão muito? Assim muuuuuuuuuuuuuuuuuuuito!) cuidado em verificar a implementação de todas, mas mesmo todas as medidas, pode não passar de um balão de oxigénio para se fingir que está tudo bem durante mais uns tempos. O que daria origem a um estoiro ainda mais vistoso num futuro próximo.
 
2. E afinal, se o plano é bom, por que é que Sócrates recusou pedir o auxílio externo mais cedo? E quanto é que isso nos custou em juros, stress (sim, stress), perda de produtividade (contabilizem lá o tempo desperdiçado nas conversas sobre o assunto em pleno horário laboral) e medidas ineficazes ou mal implementadas?
 
3. Pelos vistos até uma equipa liderada por uma entidade a que Sócrates andou durante meses a colar o rótulo de papão é mais benigna nos objectivos de redução do défice do que o governo liderado por Sócrates. Claro que, desde a revisão do valor do défice de 2010 para 8,6% primeiro e para 9,1% depois, os objectivos do governo também já tinham deixado de fazer sentido para qualquer pessoa com noções elementares de matemática (resultados preliminares do Censos 2011 apontam para trezentas e vinte e oito a residir no Continente e uma – subsistindo neste caso dúvidas quanto ao correcto preenchimento do impresso – nas regiões autónomas).
 
4. Os encargos com as parcerias público-privadas (aqueles elementos que o chato do Catroga se fartou de pedir) são tão claros e encontram-se tão disponíveis que vai ter de se efectuar uma auditoria para os determinar;
 
5. António Borges. Tão discreto que nem parece português.
 
6. € 78 000 000 000,00 (Bah, não são assim tantos zeros...)
 
7. E, já agora, sete mil e oitocentos euros por refém é um valor perfeitamente razoável para um resgate. Só eu valho pelo menos mais cinquenta euros. Ouviram, finlandeses?


publicado por José António Abreu às 00:09
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011
Aleluia, o PEC IV era mesmo a salvação e Sócrates o seu mensageiro...

Ó meus filhos: por que insistis em andar por aí em blogues, caixas de comentários de jornais online, áreas de cafézinho das mais variadas empresas, táxis e tascas típicas a comparar as medidas do plano de resgate (sejam elas exactamente quais forem) com as do PEC IV? O PEC IV garantia-nos o empréstimo de 78 mil milhões de euros? Não? Bem me parecia. Ide então em paz e evitai as conclusões apressadas (e os montículos de bosta de cão espalhados pelos passeios que, quando pisados, são causa de muita obscenidade verbal).



publicado por José António Abreu às 12:53
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Alucinação
Reservo quaisquer comentários acerca do acordo para a concessão da ajuda financeira para depois do anúncio de todas as medidas por parte de uma fonte credível. Até porque ontem tive imensas dificuldades em concentrar-me no que Sócrates dizia. O que estava o Droopy a fazer ao lado dele?


publicado por José António Abreu às 08:35
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Terça-feira, 3 de Maio de 2011
Democracia e intervenção externa
A circunstância do pedido de auxílio financeiro ter sido feito (e estar a ser negociado) por um governo de gestão em período pré-eleitoral traz muitos inconvenientes. Mas tem pelo menos um ponto positivo. É que, apesar da intervenção não nos ser imposta, ocorrendo a pedido do governo português (eleito democraticamente embora, é um facto, em grande medida através do poder da mentira), há quem acuse a acção do Fundo de Resgate de falta de respeito pela democracia, ao preparar-se para exigir medidas «ideológicas» não validadas pelo voto. Daniel Oliveira fala mesmo de «golpe de estado dos assaltantes», o que não deixa de ter uma certa piada, ao introduzir no conceito de assaltantes quem é convidado e traz dinheiro. Ora bem, sendo certo que uma discrepância entre as políticas anunciadas e as implementadas nunca seria motivo para grandes comoções neste país (não estamos já habituados?), a verdade é que, ao irem conhecer as condições para a ajuda antes das eleições, os portugueses terão no dia 5 de Junho todos os dados para validar ou invalidar democraticamente a intervenção externa. Quem considerar que ela não é necessária ou que, sendo necessária, há melhores soluções disponíveis votará no Bloco de Esquerda ou no Partido Comunista. Quem achar que, mesmo não afastando a possibilidade de reestruturação da dívida no futuro, ela é infelizmente necessária, votará PS, PSD ou CDS. Sendo que também aqui há uma distinção importante a fazer: quem entender que, para cumprir o programa traçado e relançar o crescimento económico, as políticas e os métodos dos últimos anos dão as melhores garantias, votará PS; quem pensar o contrário, votará PSD ou CDS.
 
O que há de pouco democrático em tudo isto?


publicado por José António Abreu às 13:31
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Facto básico sobre a mente masculina

Uma mama entrevista por um decote gera invariavelmente um frémito de excitação – ainda que a mama em questão já seja conhecida há anos.



publicado por José António Abreu às 08:36
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Segunda-feira, 2 de Maio de 2011
Notas sobre o Estoril Open num ano em que nem lá pus os pés
O Estoril Open merecia um Court Central permanente, com cobertura amovível, capaz de proporcionar um nível de conforto mínimo aos espectadores não suficientemente afortunados para terem acesso aos camarotes e, mais importante ainda, que permitisse a realização de alguns encontros mesmo quando chove (o que ocorre pelo menos um par de dias por edição). João Lagos clama por ele há anos. Em 2008 conseguiu até que Federer se referisse ao assunto no discurso de vitória (se há coisa que os portugueses detestam é não terem condições à altura de estrelas estrangeiras). Apesar disso, e disto, desconfio que não o vai conseguir tão cedo. Mais: espero-o. Por muito que goste de ténis, há coisas mais importantes. Manter em pé os vários estádios inactivos que se construíram para o Euro 2004, por exemplo.
 
Na final deste ano, entre Juan Martin del Potro e Fernando Verdasco, torci pelo primeiro. A razão? É-me impossível torcer por alguém com um penteado como o do Verdasco.

 

Para quem tem 1,98m (um dos comentadores da RTP fazia questão de o designar por «a torre de Tandil» a cada cinco minutos) Del Potro move-se extraordinariamente bem. Depois de um ano parado por lesão, parece estar a aproximar-se da melhor forma. Óptimo. Só espero que não calhe no quarto do quadro do Federer em Roland Garros.

 

Acontece invariavelmente: a final é às três da tarde mas às quatro ainda entra gente (este ano algumas pessoas devem ter visto menos de um quarto de hora de jogo). Nos camarotes, então, o panorama aquando do início do encontro é sempre desolador, com mais de dois terços por ocupar. Suponho que será de bom-tom entrar tarde. Afinal, para muita gente com lugar de camarote mais importante do que apreciar o ténis é ser visto. De tal modo que nem há pejo em fazer os jogadores esperar enquanto calmamente se distribuem apertos de mão e beijinhos a caminho dos lugares. As nossas elites são o espelho do país: preocupadas acima de tudo com as aparências, cultivam um snobismo pacóvio e não mostram qualquer respeito por regras e horários. De cada vez que entro no Court Central do Jamor e constato a enorme área dedicada a camarotes (enfim, João Lagos terá de rentabilizar o evento) tenho vontade de me tornar ainda mais marxista do que já sou. Que é como quem diz, acrescentar o culto pelo Karl ao culto pelo Groucho.

 

A verdade é que, VIP ou plebeu, o público justificava um estudo sociológico. Apenas um exemplo, do ano passado: atrás de mim nas bancadas, apontando para dois sacos a abarrotar, impante de orgulho, dizia um homem para a pessoa do lado: «Tudo somado, levo umas cinquenta bolas, vinte chapéus e praí trinta t-shirts!» Suponho que se pode ver a questão como existindo quem saiba rentabilizar o preço do bilhete. Em tempo de crise, é capaz de não ser mal pensado.

Sacos de brindes. Iupiiiii.


publicado por José António Abreu às 23:20
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A vida através do visível ou sem plano B

O dinheiro, quase todo a crédito, tornou-se-nos essencial para erigir barreiras tapando o vazio que é a nossa vida. Através de carros, roupa, telemóveis, LCDs, tratamentos de beleza e férias em praias brasileiras inventámos uma vida cheia, dinâmica, significativa. A crise, o FMI, a Merkel e os finlandeses vêm colocar a nu as fragilidades deste plano. E o pior é que, viciados no visível, não temos outro.



publicado por José António Abreu às 08:28
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A caminho do futuro: 7


publicado por José António Abreu às 08:26
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Domingo, 1 de Maio de 2011
Perder a opção de morrer (dia da mãe: 3)

Nunca usei outro perfume a não ser o que foi criado para mim a pedido de Guillaume nessa viagem a Paris. Substituiu o Bounce, fala por mim e recorda-me de que existo. Uma das minhas companheiras de apartamento passou vários anos a estudar teologia, arqueologia e astronomia, para perceber quem foi o nosso criador, quem somos, por que motivo existimos. Todas as noites, chegava a casa não com respostas mas com novas questões. Eu nunca me questionei sobre coisa alguma a não ser sobre o momento em que poderia morrer. Deveria ter escolhido esse momento antes da chegada dos meus filhos, pois desde então perdi a opção de morrer. O cheiro acre dos seus cabelos ao sol, o cheiro a transpiração nas suas costas à noite ao acordarem depois de um pesadelo, o cheiro poeirento das suas mãos quando voltam da escola obrigaram-me e obrigam-me a viver, a ficar deslumbrada com a sombra das suas pestanas, comovida com um floco de neve, transtornada com uma lágrima nas suas faces. Os meus filhos deram-me o poder exclusivo de soprar numa ferida para tirar a dor, de perceber palavras não pronunciadas, de ser dona da verdade universal, de ser uma fada. Uma fada apaixonada pelos seus cheiros.

Kim Thúy, Ru.

Edição Alfaguara, tradução de Paula Centeno.



publicado por José António Abreu às 15:31
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As expectativas de mães e filhos (dia da mãe: 2)

 

As expectativas das mães.

 

"Are there many unhappy boys in your school, Richard?"

"I don't know. Maybe."

"Do the boys miss their parents?"

"Sure."

"I hope you're friends with them. Don't ignore them."

She had the sunny, myopic belief, like all mothers, that her son was popular and had the power to "make friends" with anyone.

Joyce Carol Oates, Expensive People.

 

"Acho que o Dinis vai ser o sucessor do tio. Quando o Ronaldo nasceu, a minha mãe disse logo que ele ia ser jogador, e eu vou arriscar dizer o mesmo com o meu filho."

Kátia Aveiro (mais conhecida como irmã de Cristiano Ronaldo), à revista Vidas, do Correio da Manhã, em 2010.

 

Joyce Carol Oates e Kátia Aveiro para arranque de um post. Enfim, suponho que mais cedo ou mais tarde alguém havia de o tentar. Vamos lá então. A «solarenga» e «miópica» crença maternal de que os filhos são pequenos génios, apreciados por todos os que com eles contactam, será quase sempre benigna, ainda que a possibilidade de que as crianças a interiorizem e tenham dificuldades em perceber por que motivo outras pessoas – colegas, professores, familiares menos próximos – não a partilham seja real. Normalmente, a ilusão maternal é mais desejo do que imposição (a paternal será com frequência uma mistura menos simpática) mas, ainda assim, por vezes a expectativa é tal que, quando começam a ter noção dela, os filhos reagem mal. Apesar de saberem que as mães só desejam o seu bem (casos extremos exceptuados), não é fácil lidar com a pressão. Saberá Dinis, o filho da irmã de Ronaldo, aceitar os desejos da mãe? E o que sentirá se não tiver jeito para o futebol? Ou saberá Kátia domar sonhos e ilusões e aceitar que Dinis não terá de ser um jogador do calibre de Ronaldo para ser o filho que desejou? É provável que sim, que ela o consiga fazer. Mas talvez Dinis tivesse uma vida um pouco mais fácil se a mãe não andasse a anunciar o que espera dele. Evitaria a eventual sensação de falhanço; a frustração de perceber que as suas incapacidades haviam forçado a mãe a baixar as expectativas.
 
As expectativas dos filhos.
  
In that day I became a Minor Character. I slipped out of focus. It's difficult for you readers to understand my becoming a Minor Character because 1) you can't imagine anyone except yourself being Major, hence my becoming Minor should be no great shock; 2) you don't believe a genuine Minor Character should exhibit so much anguish, pain, tedium. It's ridiculous, like a vehement pamphlet put out by an organization of white laboratory mice.
Anyway I, Richard Everett, became a Minor Character. This is the opposite of schizophrenia and yet closely related, according to Dr. Saskatoon; there is no splitting of the ego in two or three but a curious case of disappearance, like a snake swallowing itself or a pocket pulled out when there's no pocket there to be pulled out.
Joyce Carol Oates, Expensive People.
 
As expectativas funcionam nos dois sentidos. Porém, enquanto os filhos fazem disparar as dos pais mas não podem ser responsabilizados por isso, os pais moldam as dos filhos e têm que assumir responsabilidade por muito daquilo em que eles acreditam. Richard, o miúdo do livro, sente que a mãe deixou de lhe prestar a atenção devida. Pior: sente que nunca foi o centro da vida dela mas apenas um Minor Character. Não importa verdadeiramente se tem razão: as crianças ainda não sabem contemporizar. Richard assassina a mãe. (Como Oates escreveu no posfácio incluído numa reedição do livro, o que são os assassinatos senão confissões de impotência?) A maior expectativa que uma mãe cria num filho é a de nunca o abandonar ou preterir, consiga ele atingir o estatudo de maior futebolista do mundo ou falhe todos os objectivos a que se propôs. A maior tarefa dela, manter-se à altura enquanto o faz perceber que recusar-lhe algo ou ter outros interesses não equivale a já não gostar dele. No fundo, garantir-lhe a hipótese de ser criança e ensiná-lo a ser adulto. Vencendo medos e hesitações, quase todas as mães cumprem a tarefa. Estão por isso de parabéns, hoje ou em qualquer outro dia do ano.


publicado por José António Abreu às 15:30
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Deixar de amar (dia da mãe: 1)

Quando eu era mais jovem via a tia Dois prostar-se diante de Buda, diante de Cristo, diante do próprio filho para lhe suplicar que não desaparecesse durante meses, que não voltasse para ela ao fim desses meses de ausência escoltado por homens que lhe encostavam uma faca ao pescoço. Antes de eu ser mãe, não entendia como é que ela, uma mulher de negócios lutadora, de olhar vivo, de língua afiada, podia acreditar nas histórias e nas falsas promessas do seu filho viciado no jogo. Na minha recente visita a Saigão, ela disse-me que devia ter sido uma grande criminosa na sua vida anterior para ser obrigada, nesta vida, a acreditar nas intrujices do seu próprio filho. Ela queria deixar de amar. Estava cansada de amar.

Porque fui mãe, também lhe menti ao omitir a noite em que o seu filho pegou na minha mão de criança e a pôs à volta do seu sexo de jovem adulto, e a noite em que se introduziu no mosquiteiro da tia Sete, aquela que é deficiente, indefesa. Calei-me para que a tia Dois, envelhecida, esgotada, não morresse por ter amado.

Kim Thúy, Ru.

Edição Alfaguara, tradução de Paula Centeno.



publicado por José António Abreu às 15:30
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