Entendamo-nos: a confirmar-se que Cavaco Silva esteve por trás da notícia do Público sobre a suposta vigilância da presidência por parte do governo, ele fica muito mal na fotografia. Se tinha suspeitas, Cavaco devia ter confrontado o governo ou tomado outras acções que considerasse necessárias (incluindo, no limite, demitir o governo), não usar jornais para passar mensagens para a opinião pública.
Talvez a única solução sensata seja correr com Sócrates agora e com Cavaco em 2011. O problema é que, nos dias que correm, sensatez e política parecem inconciliáveis.
Os estudantes estão de regresso à cidade. Esta foto tem três ou quatro anos, pelo que muitos dos rapazes e raparigas que nela têm orelhas de burro estarão agora vestidos de preto, arvorando-se em seres superiores.
(Como se deve ter percebido, não gosto da praxe. Não gosto de nada que implique ou subentenda exercício autoritário de poder e humilhação. Acho até que a praxe dá, logo na juventude, um 'cheirinho' das relações de força e humilhação que ainda empestam a sociedade portuguesa. Ainda assim, estas brincadeiras feitas em público junto ao Douro parecem-me relativamente inócuas.)
No mês passado, numa entrevista ao Diário Económico, José Gil dizia: “Tenho horror ao kitsch, tanto que me fascina, o que é suspeito.” Compreendo-o. Penso que toda a gente o compreende. Tantas coisas nos desagradam, nos irritam mesmo, mas quase nos enfeitiçam. Há tempos, confessei que detesto ‘correntes’. A verdade é que cultivo uma longa lista de ódios de estimação: música pimba, astrologia, automóveis kitados, mais programas televisivos do que seria sensato mencionar num post que se pretende não muito longo, comportamentos arrogantes, especialmente quando apoiados na ignorância mais absoluta, conversas sobre o estado do tempo, rock sinfónico, filmes do Michael Bay, discursos do mais-ou-menos-licenciado José Sócrates, explicações repetidas de algo que percebi à primeira e que nem sequer me interessa, perdigotos, cirurgias plásticas para remover rugas, aumentar mamas ou fabricar bundinhas brasileiras, a voz do Rod Stewart, do cantor dos Scorpions e dos manos Gibbs (mas pergunto-me por que estou a separar a voz do resto da música desta gente, que também abomino), doces fritos, roupa fashion kitsch à la Ronaldo (já para não mencionar o penteado), “prontos” e “é assim”, automobilistas que passam com o semáforo vermelho ou só param em cima das passadeiras, karaoke, foguetes (especialmente os que apenas fazem barulho; para que raio servem?), vinagre, humor escatológico ou revisteiro, papéis e pontas de cigarro atirados das janelas dos carros, erros flagrantes de português assumidos com pesporrência, a linguagem que os 'jovens' usam na net ou nas mensagens sms, o prazer com que muitas pessoas parecem não querer aprender coisas novas, o uso de fato e gravata com trinta e cinco graus de temperatura à sombra, telemóveis com músicas irritantes atendidos aos berros em locais inconvenientes, cuspidelas para o chão, a moda dos SUVs, o fanatismo, o jornalismo pela rama, a exigência de ‘respeitinho’. E mais outros tantos. Também detesto declarações humildes de José Saramago mas esse é um ódio que raramente tenho oportunidade de exercitar.
Procuro tratar com cuidado os meus ódios de estimação. Afinal, num efeito similar ao que o kitsch exerce em José Gil, eles fascinam-me. Mantenho-os num cantinho confortável do cérebro e pontapeio-os quando os pensamentos me passam por perto.
Viciamos os nossos corpos em pequenas doses de prazer: o café, o tabaco, as bebidas alcoólicas, a comida, o sexo, mas também a conversa, as viagens, o cinema, a leitura, a música. Somos já abundantemente avisados acerca dos riscos para a saúde de algumas das primeiras. Progressivamente, obrigam-nos até a abdicar delas. Em breve, dir-nos-ão que é mais saudável mantermo-nos em silêncio e na ignorância.
(Se calhar, é.)
Numa entrevista incluída no i de ontem (não a descobri no site do jornal), António Borges explicou de forma cristalina a razão por que certas empresas apoiam a estratégia de investimentos do governo e os resultados que daí advirão. Uma grande fatia (Borges disse metade) da economia nacional (energia, telecomunicações, banca, seguros, distribuição) tem um mercado protegido, sem concorrência externa (nestes sectores, é irrelevante que os chineses ou quaisquer outros tenham custos de produção mais baixos). A estas empresas agrada que o Estado invista tanto quanto possível. Para as restantes (as exportadoras), que o Estado gaste em estradas, num novo aeroporto ou no TGV é quase irrelevante. Os produtos que fabricam não ficam mais competitivos no exterior por causa disso. Para estas empresas seria muito mais importante uma intervenção ao nível dos factores com impacto no preço dos produtos (custo do crédito, da energia, dos combustíveis, das responsabilidades fiscais, etc.). Ainda por cima, o crescimento das empresas protegidas está limitado pelo mercado interno. Resultado? A economia estagna e precisa cada vez mais da intervenção do Estado. Que se endivida cada vez mais e cobra cada vez mais impostos, hipotecando a margem de manobra futura e (no que é uma outra espécie de 'asfixia democrática') asfixiando a economia.
Nota: este post nasceu das respostas de António Borges mas permiti-me elaborar um pouco sobre elas (até porque já não tenho comigo o jornal para o poder citar). Quaisquer erros ou imprecisões são da minha responsabilidade.
Pode arranjar-se uma montanha de justificações aparentemente inatacáveis, enunciadas em voz ressoando a ultraje ou escritas em estilo de homilia, mas as coincidências assustam. Não é preciso dizer mais do que isto. Ou talvez apenas que, a seguir, será o Sol. Porque só resta ele.
Ainda será optimismo, Cristina? A partir de certa altura, a via estreita-se e só se pode garantir, tentando mostrar cada vez mais convicção, que o que se disse antes era mesmo verdade e que, apesar das notórias dificuldades actuais, tudo correrá bem no futuro. É um exercício onde o autismo e a fé se misturam. Há milhares de exemplos na história, na literatura, no cinema. Neville Chamberlain insistindo que Hitler não queria a guerra. Salazar recusando-se a ver que a independência das colónias era inevitável. Ou – e creio que todos temos um sorriso de comiseração quando nos lembramos dele – o Ministro da Informação iraquiano garantindo que o Iraque estava a ganhar a guerra enquanto os tanques norte-americanos cercavam Bagdade. O que podia ele dizer? O que pode José Sócrates dizer? Afinal, após uma longa legislatura de quatro anos e meio à frente de um governo com maioria absoluta no Parlamento, em que beneficiou de uma oposição estraçalhada e, até há cerca de um ano, de um presidente cooperante, o que pode ele dizer senão que o que foi feito foi bem feito e que a felicidade está ao virar da esquina? Apesar de um sistema judicial de rastos, um sistema educativo em guerra, uma economia endividada e pouco flexível, um nível de impostos acima do razoável para um país com os rendimentos de Portugal, que pode ele dizer senão que fez o melhor que pôde e que o futuro demonstrará que teve sempre razão? A estratégia de Sócrates é uma espécie de reposição das declarações de alguns ministros durante os últimos anos, segundo as quais já tínhamos saído ou já estávamos a sair da crise, que a realidade depressa provou não serem mais que wishful thinking. Isso não serviu para que Sócrates aprendesse que a realidade não se molda à sua vontade. E, não o tendo aprendido, só lhe resta acelerar o ritmo das promessas, recusar qualquer hipótese de que possa estar errado e classificar as críticas como posições retrógradas. Sócrates garante agora que tudo ficará bem em breve, com muito investimento público em coisas como o TGV e mais mil e tal quilómetros de auto-estradas, apoios a empresas em dificuldades (seleccionadas pelo Estado, claro, porque é o Estado que sabe sempre o que é melhor para todos), mais projectos com tecnologia de 'ponta' (quiçá como o “Magalhães”), mais energias renováveis, mais contratos com – surpresa – as mesmas grandes empresas de sempre. O que é preciso – diz-nos ele – é rechaçar as dúvidas, manter a estratégia e continuar a atirar dinheiro para a fogueira. Provavelmente, acredita no que diz (o melhor e mais perigoso burlão é sempre aquele que crê no negócio que propõe). Mas (e sei que a Cristina também se questiona) como podem tantos portugueses ainda acreditar?
No Clubbing da Casa da Música de 3 de Outubro. Na Aula Magna no dia 5.
Tenho tendência para acrescentar sílabas às palavras que escrevo. No post sobre as gaivotas da Berlenga escrevi “ensurdecedia” e passei longos segundos estranhando que o Word sublinhasse o termo com uma ziguezagueante linha vermelha. Acontece-me com frequência, não percebo porquê. Desejarei inconscientemente prolongar o tempo de escrita? Deixar-me-ei entusiasmar com o sapateado que os meus dedos fazem em cima do teclado? Pretenderei usar palavras eruditas, sendo incapaz de o fazer de outro modo que não “complexificando” as existentes?
Como de costume, a melhor explicação pode ser a mais simples: faço-o provavelmente pela mesma dislexia que me leva a ponderar se uma troca de olhares com uma mulher desconhecida (na rua, no café, no autocarro) significa algo mais que o cruzamento acidental do olhar de duas pessoas que têm de olhar para algum lado; pura tendência para ignorar os constrangimentos da realidade, recusar o que é simples, e entrar no reino do delírio.
As mini-entrevistas do Gato Fedorente a José Sócrates e Manuela Ferreira Leite foram tão ou mais reveladoras que os debates das últimas semanas. Comecemos por Ferreira Leite. Para surpresa de muitos, ela mostrou ter sentido de humor. Mostrou também que, independentemente do ambiente e do género de questões que lhe são colocadas, age sempre de forma espontânea. Mais importante, percebeu que a forma correcta de encarar o programa não era tentar usá-lo para fazer pequenos discursos eleitoralistas sempre que as perguntas de Ricardo Araújo Pereira lho permitissem. Respondeu a RAP no mesmo tom de ironia que este usava nas perguntas, sem pretender ser pedagógica e quase parecendo não estar preocupada com as consequências eleitorais das respostas. A conversa de Ferreira Leite com RAP aproximou-se daquelas conversas plenas de provocações e duplos sentidos que, no fundo, são jogos de sedução mesmo quando não acabam na cama (há até alturas em que, existindo a possibilidade de isso suceder, se prefere adiar o momento, mesmo arriscando a sua concretização, para continuar a degustar a conversa). E tanto assim foi que ela não se coibiu de reflectir perguntas para RAP, invertendo-lhes a lógica, num puro jogo de – perdoem-me a repetição do termo – provocação. Já Sócrates não está para preliminares. A conversa é um meio, não um fim. Sócrates deseja passar à acção. As entrevistas – os preliminares – são uma chatice tão grande quanto a burocracia europeia ou a resistência dos irlandeses à perfeição do tratado de Lisboa. Na entrevista com RAP usou a táctica do costume: pensou longa e clinicamente na abordagem a usar, aplicou-a numa prestação digna de um razoável actor de épicos teatrais ou de um engatatão de meia tigela (usando frases como “deixe-me dizer-lhe que você está elegantíssimo”, “prometi aos meus filhos que ia ser bonzinho” ou “os meus filhos bem me avisaram”, o que prova que lê – ou talvez Silva Pereira o faça por ele – aquelas revistas onde se informa que homens disponíveis com filhos ou animais são especialmente atraentes), e, sem disposição para conversar pelo puro prazer de conversar, passou tão depressa quanto conseguiu ao que realmente lhe interessava: fazer mini-discursos 'comicieiros' (os seus pequenos orgasmos). Perguntou com frequência “Esta não foi má, pois não?” ou algo do género, revelando o macho demasiado autoconsciente que já sabíamos que vive dentro dele. Não me surpreenderia que Sócrates tivesse saído do programa a pensar, qual Zezé Camarinha nos seus tempos áureos, que não há quem lhe consiga resistir, totalmente alheado do facto de que, na realidade, muita gente o acha insuportável e pouca gente sente verdadeira atracção por ele. Já Manuela Ferreira Leite, sem a mesma prosápia, acabou por mostrar-se uma senhora com quem a gente não se importaria de conversar durante umas horas, trocando piadas sobre os penteados do Pacheco Pereira, as palavrinhas amorosas entre Aníbal e Maria Cavaco Silva, ou as mil e uma declarações aparentemente inócuas capazes de ultrajar a esquerda.
Parece que, sem alguma vez o ter visitado, Shakespeare usou o castelo de Kronborg, situado em Helsingor, povoação do norte da Zelândia, a cerca de 50 km de Copenhaga, como inspiração para Elsinore, o castelo de Hamlet. Em Abril de 2007 e na falta de um príncipe, este rapaz de aspecto pouco dinamarquês (e, quiçá, pouco principesco) teve de servir. Em vez de uma caveira, uma garrafa de cerveja. Que me tenha apercebido, ainda não bebera o suficiente para entrar em solilóquios.
Um das formas de verificar que uma relação, de amor mas também de amizade, ainda está viva: ter imediatamente vontade, ao ser informado de algo divertido, inesperado ou incongruente, de partilhar a informação com a pessoa em questão, mesmo sabendo que o assunto lhe interessa pouco. A desilusão: perceber que ainda temos vontade de lhe dizer mas que, mesmo sendo nós a fazê-lo, o assunto lhe interessa pouco. O princípio do fim: ainda pensar em dizer-lhe mas chegar à conclusão de que não vale a pena fazê-lo porque o assunto não lhe interessa.
A Paris do anúncio televisivo à nova carrinha Renault Mégane é, na realidade, Lisboa. O palácio da Ajuda fazendo as vezes de um dos palácios parisienses, uma das ruas da baixa substituindo a rue Mouffetard, identificável pelo miúdo da foto de Cartier Bresson, que ufanamente a percorre com as garrafas nos braços. Não sei quantas pessoas o reconhecerão mas são detalhes assim que, de vez em quando, me fazem gostar de publicidade.
Foto retirada daqui.
A SIC publicitou o debate entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates como se fosse um jogo de futebol decisivo para o campeonato. Com repórteres junto aos 'hotéis' onde as equipas se 'concentravam', pormenores sobre as actividades dos jogadores durante a tarde e as características do equipamento a usar (obrigado pela informação, tão útil aos daltónicos, de que a gravata de Sócrates era "azul petróleo"), transmissão em directo da chegada ao 'estádio' (infelizmente não havia claques e também ninguém atirou pedras aos 'autocarros' – onde é que andam os rapazes e raparigas do Jamais e do Simplex quando são precisos?). Tal encenação só pode ter sido para desmentir o Pacheco Pereira que se farta de dizer que neste país se presta mais atenção ao futebol que à política.
Quanto ao debate propriamente dito, apetece-me fazer uns comentários mas, ao mesmo tempo, não. Bom, duas notas breves:
Primeira: não me pareceu tanto um debate político quanto uma discussão entre duas pessoas casadas há muitos anos: "És uma velha rezingona"; "E tu és um teimoso e só fazes o que queres"; "Não tens ideias novas, vives no passado e estás sempre a mudar de opinião"; "E tu gostas é de gastar dinheiro que não temos"; "Queres dar cabo do que eu construí"; "Nunca fizeste nada de jeito que não tivesse sido começado por mim"; "Até há pouco tempo dizias que eu era bom em muitas coisas"; "Ó filho, tu nem na cama eras–"; bom, já perceberam a ideia.
Segunda: houve, apesar de tudo, um claro vencedor – ou, melhor, uma clara vencedora. Sim, ela mesmo: alguém sabe qual é o partido da Clara de Sousa e onde me posso filiar?
A reunião estava a terminar. O administrador apresentara em detalhe o plano de reestruturação proposto pela empresa de consultoria. Calou-se finalmente e perguntou se alguém desejava fazer comentários. Por momentos, pareceu que ninguém iria falar. Então, o director que falara antes disse: «Se vamos descentralizar algumas operações e a maioria dos processos de decisão, depois de termos feito o oposto há três anos, não seria mais lógico aguentarmos dois ou três anos e evitarmos os custos da centralização que teremos de fazer nessa altura?»
Todos os directores riram abertamente.
Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e estatelavam-se, algumas, confusas e desajeitadas, com destroços a tombarem à sua volta, e havia pessoas a abrigarem-se debaixo dos automóveis.
O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal.
[…]
O mundo era também isto, figuras humanas em janelas trezentos metros acima do chão, a lançarem-se no vazio, e o cheiro nauseabundo do combustível a arder, e o ar rasgado pelas sirenes insistentes. O ruído estava em toda a parte para onde as pessoas corriam, o som estratificado a acumular-se em volta delas, e ele afastava-se e ao mesmo tempo mergulhava no seu seio.
O Homem em Queda, de Don DeLillo
Edição Sextante, tradução de Paulo Faria
Foto retirada daqui.
O grande problema da indefinição ideológica de Manuela Ferreira Leite e do PSD, preocupados que estão em não assustar os votantes mais à direita com propostas de esquerda e os votantes mais à esquerda com propostas de direita, é que abre espaço em ambos os lados do espectro para que outros possam surgir como mais atractivos para quem prefere clareza. Paulo Portas percebeu-o e mostrou, no debate que acabou há pouco, quão grave isso pode ser para o PSD.
(Isto partindo do princípio que a ideologia e as propostas concretas ainda significam alguma coisa neste país.)
O Movimento de Defesa dos Jardins do Palácio de Cristal tem a correr uma petição para exigir um referendo local sobre o polémico projecto de requalificação. Não a posso assinar por estar recenseado em Gaia. Os portuenses podem fazê-lo aqui (ou na rua de Santa Catarina nos dias e horas indicados no link).
De resto, as águas permanecem límpidas, a subida do Forte de S. João Baptista até ao farol, exigente, e o próprio Forte continua a parecer-me digno de um filme de piratas.
Do último álbum, “I´m Going Away”. Música menos caleidoscópica do que lhes era habitual. O vídeo nasceu na sequência de um concurso radiofónico da WYNC (rádio pública de Nova Iorque).
No debate de ontem entre José Sócrates e Francisco Louçã discutiu-se novamente política. Aleluia. O fim dos benefícios fiscais, defendido pelo Bloco de Esquerda, faz toda a lógica dentro do sistema político-social defendido pelo Bloco. Se o Estado fornecer tudo ‘gratuitamente’ e não aceitar o papel de concorrência e complementaridade que a iniciativa privada pode desempenhar, os benefícios fiscais são desnecessários. É uma visão soviética da realidade. Um sistema em que não há alternativa a um Estado pesado e programático que lentamente (e estou a ser simpático) resvala para a complacência, para a injustiça e para a insustentabilidade. Um sistema em que os cidadãos não têm margem para iniciativa e se acomodam à mediocridade. Sócrates teve o mérito de puxar a ponta do fio que mostra como os rapazes e as raparigas do Bloco, apresentados tantas vezes como modernos e cheios de estilo, têm na realidade ideias antigas e ultrapassadas. Já ter ficado preso na questão do “ataque à classe média” que representaria o fim dos benefícios e não desmontar essa ideia de sociedade é um indício da tendência que Sócrates tem para se agarrar ao soundbyte (ninguém o faz melhor que ele) e da crença (não só dele) de que, na nossa sociedade, discutir convenientemente os assuntos aborrece os eleitores.
Já agora, outro momento esclarecedor ocorreu quando Judite de Sousa, em desespero, guinchou: «Mas afinal quem é que está aqui a mentir?» Quando aquela que é reputada como uma das melhores jornalistas televisivas portuguesas (na verdade, não se sabe bem porquê) é incapaz de perceber a diferença entre mentira e visões distintas da sociedade, algo vai realmente muito mal.
A Prospect deste mês traz um artigo sobre a investigação de drogas capazes de modificar as capacidades do ser humano. Não só capacidades físicas (na linha dos esteróides e outros produtos para desportistas e body-builders) mas também mentais: drogas que nos ajudarão a esquecer acontecimentos traumáticos, que nos tornarão mais inteligentes, mais fiéis ou nos modificarão os critérios morais. Os medicamentos que prometem melhorar a memória são antigos mas os cientistas garantem que, no futuro, serão muito mais eficazes. E então, ouço perguntar, isso não é bom? Claro que sim. Não gostaria eu de me lembrar de todos os livros que li como se tivesse acabado de os ler? E não será óptimo para os pais saberem que têm à disposição um meio fácil para melhorar as capacidades dos rebentos? Como poderão, aliás, os pais recusar ministrar essas drogas aos filhos se fazê-lo lhes deixaria os filhos em desvantagem perante outras crianças com pais de espírito mais progressista? Mais complicado ainda: como assegurar a igualdade de acesso a essas drogas? Deverá o Estado fornecê-las gratuitamente nas escolas? Afinal, os Estados terão interesse em assegurar que os seus estudantes não saem menos bem preparados do sistema escolar que os estudantes dos países vizinhos. E as empresas – poderão as empresas exigir aos funcionários que os tomem, de forma a que sejam mais produtivos? Ainda assim, estes serão provavelmente os medicamentos que menos questões levantarão. Veja-se o que diz a Prospect a respeito dos que prometem aumentar o grau de fidelidade: In a 2008 paper Anders Sandberg and Julian Savulescu of Oxford’s Uehiro Centre for Practical Ethics somewhat clinically divide erotic love into three parts. After lust (seeking sexual union with any appropriate partner), comes attraction (choosing and preferring a partner), followed by attachment (staying together). Each stage is associated with a brain system that can be modulated by chemical stimuli, for example, lust by testosterone, and attachment by entactogens. If we want to encourage long-term relationships—and the empirical evidence is that they lead to health and happiness (anotem, Zezés Camarinhas deste mundo)—then must we conclude, as Sandberg and Savulescu do, that “we should use our growing knowledge of the neuroscience of love to enhance the quality of love by biological manipulation”? Not necessarily. O optimismo do articulista roça a candura mas, estando a droga disponível, é-nos assim tão difícil imaginar pessoas pedindo aos parceiros para a tomarem ou oferecendo-se para fazê-lo como prova de amor? E depois há as drogas que alteram a nossa disposição para o bem e para o mal: when subjects are given the hormone oxytocin they are more likely to hand over a larger share of their money, exhibiting greater trust that the other person will treat them fairly. Boosting oxytocin levels is not a high-tech procedure; the hormone can be delivered by nasal spray. Trust is central to our personal and business relationships, and altering trust levels could alter society in a profound way. Enhancement is not identical to improvement. Pumping oxytocin through the air-conditioning could be used for less noble purposes: companies manipulating their consumers, politicians their voters, or predatory men their dates. Noto, ligeiramente divertido, que o autor parece assumir que as mulheres não precisam de ajudas químicas para manipular os parceiros (o que é muito provavelmente verdade) mas o que me incomoda é mesmo pensar que estamos a avançar para um admirável mundo novo em que o ser humano se emaranhará cada vez mais nos efeitos da sua fantástica criatividade. Que o levarão a conseguir debelar os efeitos de doenças degenerativas mas também lhe colocarão cada vez mais dilemas de ordem moral. Não tenho ilusões: dentro de algumas décadas, muitos seres humanos serão produtos de engenharia genética. Talvez as crianças possam ter realmente os olhos da mãe, o nariz do pai e o jeito para o futebol do Cristiano Ronaldo. E, com a ajuda de um comprimido, talvez todos possamos garantir a veracidade da declaração “amo-te”.
(Agora vou voltar para o jogo que tenho em pausa na Xbox 360, onde estou numa fase interessantíssima. O meu avatar já está mais forte que o incrível Hulk, consegue lançar bolas de fogo com as mãos e faltam-lhe apenas alguns créditos para poder adquirir a capacidade de controlar mentalmente os adversários.)
Imagem retirada daqui, onde há mais alguma informação sobre as smart drugs.
A declaração de Manuela Ferreira Leite de que não há asfixia democrática na Madeira é lamentável. Há coisas em que, por inabilidade ou obstinação, Ferreira Leite faz exactamente o oposto do que devia fazer. O facto do PS ter vindo a fazer mais ou menos o mesmo nos últimos anos não serve de desculpa.
Finalmente viu-se alguém a falar abertamente dos benefícios da concorrência nas mais variadas áreas da economia. No debate de hoje na SIC, entre Paulo Portas e Jerónimo Louçã, Portas colocou a tónica no ponto certo. Na maior parte das vezes, a questão não é se as empresas ou os serviços são públicos ou privados. É assegurar que existe concorrência. É a concorrência que força a necessidade de melhorar produtos, serviços e preços. E isto aplica-se em todos os sectores.
Portas também esteve bem noutra área, onde ontem Manuela Ferreira Leite não conseguira ter réplica adequada para a retórica tonitruante de Francisco Louçã: a das nacionalizações. Teriam custos gigantescos em indemnizações, em retracção do investimento estrangeiro e na redução de lucros decorrente das empresas passarem a ser geridas com finalidades mais políticas que económicas. À esquerda continua a acreditar-se no dirigismo estatal. Provavelmente até ainda se acredita em planos quinquenais.
Somos pessimistas e gostamos de nos denegrir. Veja-se o sistema judicial. Acusamo-lo de não funcionar. Dizemos que as leis não são cumpridas. Será verdade em relação a algumas, não o é em relação a outras. Há leis que cumprimos tão bem – ou mesmo muito melhor – quanto os mais desenvolvidos países europeus. Estas são as de que me lembrei em cerca de trinta segundos:
- Lei do menor esforço.
Desta vez é mais pelos caminhos. Ilha da Berlenga, ontem à tarde. A viagem de barco até lá continua divertida.
No filme “Things We Lost in the Fire”, Audrey Burke (interpretada por Halle Berry) recorda o falecido marido dizendo “I miss the silliness”. Talvez por força de ilusões teatrais, literárias ou cinematográficas, associamos com frequência o amor à paixão, à transcendência, à angústia. Como a Tereza do Kundera, temos tendência a vê-lo como algo pesado. É menos imediata a associação a momentos de riso e inconsequência. Mas – como, no fundo, todos sabemos – muitos dos momentos mais marcantes de uma relação (sexo à parte, ou nem isso), provavelmente os mais importantes para que ela permaneça coesa, são os que, analisados friamente, parecem apenas ridículos. São aqueles que não se contam ou apenas se contam a bons amigos. São aqueles cuja lembrança força um sorriso, mesmo que o momento não o aconselhe. São, como dizia a destroçada Audrey (sorrindo apesar do desespero, ao recordar-lhes a leveza), os momentos de tontice.
Segundo consigo perceber do que a maioria dos apoiantes do PS têm escrito:
pessoais
Amor e Morte em Pequenas Doses
blogues
O MacGuffin (Contra a Corrente)
blogues sobre livros
blogues sobre fotografia
blogues sobre música
blogues de repórteres
leituras
cinema
fotografia
música
jogos de vídeo
automóveis
desporto
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