como sobreviver submerso.
Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
Vida e morte

Uma das opiniões colocadas no site britânico da Amazon ao livro Araki Gold (é melhor não usarem o link anterior em ambiente laboral e de forma nenhuma usem este, que inclui um vídeo de uma exposição com imagens sexualmente explícitas) mostra desagrado pela série de fotos dedicadas a bondage, uma fantasia muito japonesa (não quer dizer que não se faça noutras partes do mundo) e bastante polémica pelo papel a que parece submeter as mulheres. Lembrei-me várias vezes do comentário e das fotos de Araki enquanto lia “Hotel Íris”, de Yoko Ogawa, uma autora publicada agora pela primeira vez por cá. Mari é uma jovem de dezassete anos que perdeu o pai em criança e ajuda a mãe – ríspida, controladora, que arranja meticulosamente o cabelo de Mari todas as manhãs e lhe gaba tanto a beleza perante estranhos que Mari se acha na realidade pouco atraente – a cuidar do pequeno hotel de família situado numa daquelas cidades costeiras que, no Japão como em Portugal, só estão verdadeiramente vivas durante o Verão. Ora o livro é precisamente sobre a vida e, especialmente, sobre a morte (não o são todos?), e por isso tudo começa no início do Verão e termina quando ele se extingue. No hotel, Mari – que narra a história – assiste à fuga de uma mulher de um quarto, gritando acusações de perversão ao homem que lá se encontra. Este, com cerca de sessenta anos, fascina Mari pela compostura (ao contrário da mulher, está totalmente vestido, não transpira e não parece embaraçado) e pela firmeza. Profere apenas duas palavras que parecem a Mari ressoar “sangue-frio, majestade e convicção”. Duas semanas mais tarde, Mari vê-o na povoação e segue-o. Ele apercebe-se da sua presença e interpela-a. Está assustado e não parece o homem dominador da noite no hotel. Perceberemos que a sua capacidade para dominar se limita aos quartos de hotel que ocasionalmente frequenta ou à sua casa situada na pequena ilha perto da costa. Em público, é apenas um viúvo que se dedica a traduções de russo para japonês, solitário, obsessivo e desamparado (por vezes agressivo). Como todas as outras personagens, Mari exceptuada, nunca será identificado por um nome, permanecendo “o tradutor”. A relação que se estabelece entre ele e Mari é simultaneamente terna (quando na povoação) e extremamente violenta (quando a sós). Na casa da ilha, ele amarra-a, espanca-a, obriga-a a actos humilhantes. Ela aceita tudo porque “não sei bem se aquilo que o tradutor fez ao meu corpo é normal ou não. Também não sei como hei-de saber.” Ele mantém-se vestido e aparentemente nunca a penetra com o pénis. Apesar de se questionar sobre a normalidade do que ele lhe faz e sobre a morte da mulher dele (terá sido acidental ou tê-la-á ele morto em jogos similares aos que pratica com ela?), Mari permite tudo e inventa subterfúgios para voltar a encontrar-se com ele. Para isso, tem ela própria que aprender a capacidade de dominar, iniciando um jogo de chantagem com a empregada de limpeza do hotel que descobriu que ela se encontra com alguém. Mari tem armas para a obrigar ao silêncio porque todas as personagens usam formas para escapar à vida mortiça da cidade e a da empregada é roubar objectos que pertencem a Mari. (A mãe participa em sessões de dança.) Tudo isto é contado no estilo límpido e sereno que parece apanágio de tantos escritores japoneses. Que parece apanágio dos japoneses, tout court. Com uma melancolia que também se encontra frequentemente nos olhos das mulheres das tais fotos de Araki (que disse uma vez considerar que Tóquio tem os habitantes mais infelizes do mundo). É esse estilo que torna o livro fácil de ler apesar de toda a violência, explícita e implícita. Ogawa mantém um controlo quase perfeito (também ela) sobre o que inclui e o que deixa à imaginação do leitor que impede o livro de cair na gratuidade. Refira-se que Hotel Íris é o género de obra que ganha em ter sido escrito por uma mulher. Por muito que os bons escritores consigam delinear personagens do sexo oposto ao deles – e conseguem – ter sido uma mulher a escrevê-lo e ser outra a narrá-lo aumenta a ambiguidade. Torna mais difícil lê-lo como simples fantasia masculina. Se fosse apenas isso dificilmente teria aquela cena em que Mari força o tradutor a andar de carrossel – porque Mari é, afinal, uma criança em processo de maturação – e os papéis se invertem. Nem talvez aquela explicação para a morte da mulher dele. Hotel Íris não é para todos os gostos mas é um pequeno livro provocante e bem escrito. Com um final lógico, não exactamente inesperado, mas que permite pela última vez a pergunta sobre quem ganhou e quem perdeu em todo o processo. Uma coisa é certa: Mari não mais voltará a ter que suportar a mãe atando-lhe o cabelo todas as manhãs.

 

Hotel Íris, de Yoko Ogawa. EdiçãoQuetzal.Tradução (do francês) de Filipe Jarro.

Foto retiradadaqui.



publicado por José António Abreu às 08:45
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Ainda o 31 do 31

Só mais uma questão: se eles não tivessem ido devolver a bandeira, teria a PJ feito alguma coisa?



publicado por José António Abreu às 21:53
link do post | comentar | favorito

Prisão preventiva, já

A PJ levou para interrogatório os dois elementos do 31 da Armada que foram devolver a bandeira da autarquia. Na sequência de um caso desta gravidade (passeio por cidade com escadote, subida a varanda pública, troca de bandeira alfacinha por bandeira de Vila Viçosa*, imitação não autorizada de Darth Vader, admissão de acto ilícito**, alteração das condições de limpeza da bandeira retirada antes da sua devolução) espera-se que ambos permaneçam em prisão preventiva, partilhando a cela deixada vaga por Oliveira e Costa. Já agora, que a PJ aproveite para lhes dar um daqueles banhos de agulheta que se vêem nos filmes. Eles até parecem rapazes limpinhos mas há oportunidades a não perder.

 

* É favor tomar isto em sentido figurado (de qualquer forma, têm ambas azul).

** Especialmente grave por poder abrir precedente.



publicado por José António Abreu às 21:23
link do post | comentar | favorito

Mamã Clijsters

A minha jogadora de ténis preferida, por razões que talvez eu um dia explique, é Elena Dementieva. Mas estou a ver o encontro de Svetlana Kuznetsova com a regressada Kim Clijsters e não consigo deixar de lembrar que foi Clijsters quem mais gostei de ver jogar nos WTA Championships de 2006, em Madrid (a foto foi tirada lá). Perdeu numa excelente meia-final em três sets com Amélie Mauresmo mas foi um prazer ver-lhe a garra, a concentração, a vontade de não desperdiçar tempo (é das jogadoras que menos demora entre serviços). Lembro-me que, na fase de grupos, venceu em cerca de 45 minutos um encontro com a mesma Kuznetsova que defronta hoje. (Após o qual estive prestes a apanhar a bola autografada que bateu na direcção dos belgas que estavam junto a mim, mas faltou-me um bocadinho assim  ainda me raspou nos dedos e o ressalto não me favoreceu). Retirou-se meses depois, casou, foi mãe há um ano e pouco e decidiu agora regressar (como eu já referira aqui), não se sabe se para ficar muito, se pouco tempo (tem apenas 26 anos).

 

O encontro está no terceiro set, depois de Clijsters ganhar o primeiro e Kuznetsova o segundo. Nunca seria fácil, claro. Kuznetsova venceu Roland Garros este ano e está numa das melhores formas de sempre. Clijsters está a jogar o primeiro torneio após decidir regressar. Mas a combatividade continua lá e a forma física também (parece mesmo ter emagrecido). E, agora que é mamã, até se sente à vontade para dizer a um par de miúdos nas bancadas "be seated, ok? Thank you" naquele tom que qualquer criança sabe significar "eu estou bem disposta mas daqui a pouco as coisas mudam e vocês ficam sem televisão, computador e consola de jogos até amanhã".

 

Triplo match point. Ganhou. É um prazer tê-la de volta.

 

(Naturalmente, os miúdos sentaram-se.)



publicado por José António Abreu às 21:12
link do post | comentar | favorito

Com um croata pendurado ao pescoço

Croatas e franceses. Parece que a culpa pode ser repartida entre croatas e franceses. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), os soldados croatas usavam lenços atados em torno do pescoço. Os franceses – permitam-me um termo ‘contemporâneo’: panisgas! – acharam piada e começaram a copiá-los. Resultado: o pedaço de tecido que me aperta o pescoço e cai inerte sobre o meu estômago. Delicioso de usar com trinta e tal graus de temperatura. Na rua, em dias como hoje, com a cravate (de croate e hvrati, “croata” em francês e em croata, respectivamente) e o casaco, sinto-me numa espécie de sauna portátil.

 

(OK, esteticamente até não tenho muito contra a gravata mas, mesmo sabendo que há quem defenda a aparência composta que um fato e uma gravata conferem aos homens, que tal instituir-se um Verão casual?)

Imagem acrescentada após pedido deixado pela Margarida na caixa de comentários.

Mais informação sobre as gravatas aqui, incluindo um daqueles recordes do Guiness que até podia ser português (envolve uma gravata com 808 metros de comprimento).



publicado por José António Abreu às 13:37
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Com o Douro por cenário: 1

Para evitaracusaçõesde não cumprir promessas, vou tentar que o Douro esteja sempre à vista. Mas parece-me que, nesta foto, poucas pessoas – pelo menos, poucos homens – repararão nele.



publicado por José António Abreu às 19:29
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Dez milhões de beneficiários

Os últimos cartazes do CDS têm recebido críticas ferozes. Porquê? Porque há certas verdades que não se exprimem, pelos vistos. Entenda-se: eu também preferiria que nenhum partido sentisse necessidade de chamar a atenção para estes assuntos. E, de um ponto de vista eleitoral, não sei se os cartazes beneficiam o CDS. Mas as questões colocadas são relevantes. Tomemos como exemplo a pergunta “É justo dar rendimento mínimo a quem não quer trabalhar?”. Como é que cada um de nós responde à pergunta? Dir-me-ão que o populismo está precisamente na pergunta empurrar para a resposta “não” quando a resposta exige matizes (quais?). Ou que é injusto ou presunçoso afirmar que há quem não queira trabalhar (mas não preferíamos quase todos não ter que o fazer?). Dir-me-ão ainda que a pergunta traz à superfície as emoções mais primárias das pessoas (a ser verdade, por que será?).

 
Sim, seria menos agressivo usar uma frase do tipo “rendimento mínimo para quem verdadeiramente dele necessita”. Mas a questão não desaparece com frases mais redondas ou silêncios envergonhados. Há indubitavelmente abusos no usufruto de vários subsídios. Reconhecê-lo não transforma ninguém em discípulo de Mussolini ou de Hitler. Calar o assunto só aumenta as tais emoções “primárias” que as pessoas recalcam por pudor. E, a médio prazo, isso é mais perigoso que discuti-lo abertamente. Creio que o CDS não pede o fim do rendimento mínimo. E, independentemente da posição do CDS, poucas pessoas o pedirão. O que se pede é mais cuidado na sua atribuição e fiscalização. E é especialmente oportuno abordar o assunto em período pré-eleitoral porque nestes meses, em muitos pontos do país, as indicações transmitidas aos técnicos de acção social são para aprovar todos os pedidos que entrem. De tal forma que não me surpreenderia se o aumento constante dos encargos com o rendimento mínimo estivesse relacionado não apenas com a crise mas também com este facilitismo pré-eleitoral.
 

Por que não pode discutir-se estes assuntos? Devia poder-se. Sem que fossem automaticamente disparadas acusações de insensibilidade social ou populismo ou outros termos carregados de tanto ou tão pouco significado quanto as motivações por trás do seu uso. E deviam discutir-se também formas alternativas de encarar a questão (como, por exemplo, esta). Que dificilmente a esquerda implementará. Porque a esquerda se encontra paralisada entre a visão do bom selvagem e o horror a qualquer indício de populismo direitista (obviamente, o populismo esquerdista é diferente, tanto que raramente se lhe chama populismo). Mas talvez não seja apenas o pudor do politicamente correcto que refreia a vontade de reforma por parte da esquerda. Talvez também seja a velha ambição de fazer tudo depender do Estado. Na verdade, a esquerda só ficará satisfeita quando aos setecentos mil funcionários públicos, ao meio milhão de desempregados, aos quase quatrocentos mil beneficiários do rendimento social de inserção e aos dois milhões e oitocentos mil pensionistas juntar os restantes portugueses na dependência total do Estado. Entre a fúria controladora do PS e os desejos de nacionalizações do Bloco e do PC, já estivemos mais longe.



publicado por José António Abreu às 19:13
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
Prioridades trocadas

Este blogue tem apenas quatro meses e uns dias. Olhando para a coluna das tags verifico que, antes de este post ser publicado, há já vinte e um com a tag “Sócrates” mas apenas sete com a tag “mulheres” e onze com a tag “sexo”. Há qualquer coisa tremendamente errada comigo.



publicado por José António Abreu às 20:06
link do post | comentar | favorito

Nenhuma opinião excepto a oficial

Ele há coisas com piada: enquanto vários jornais e televisões ponderam ignorar a directiva da ERC (Entidade para o Respeitinho na Comunicação?) que tenta proibir os órgãos de comunicação social de manterem comentadores que sejam candidatos às eleições, o Jornal de Notícias, o primeiro jornal a anunciar ir cumpri-la, publica, a um mês e meio das eleições legislativas, um artigo de opinião (?) da autoria de José Sócrates. A rebeldia do Norte já teve melhores dias, carago.



publicado por José António Abreu às 19:58
link do post | comentar | favorito

Imagens recolhidas pelas ruas: 12

Desta vez não terá sido recolhida na rua. Antes da porta da rua. O "depósito das velas" situado junto à Torre dos Clérigos está fechado há muitos meses. Costumava ser assim.



publicado por José António Abreu às 13:13
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Esvaimento

A gente sabe que não concorda politicamente com as pessoas. É um dado assente, já não passível de grande discussão. Não se tem a mesma visão dos problemas e, especialmente, das formas de os resolver. Tudo bem. É democracia. Lêem-se ainda assim as suas opiniões (nos jornais, nos blogues, onde quer que seja) porque deve ter-se consciência de que o mundo não se cinge à nossa lógica e porque, de vez em quando, surgem questões em que nunca pensáramos e que nos fazem reavaliar alguns pontos que dávamos por garantidos. Convém saber que as nossas soluções não são perfeitas (nenhuma o é). Por si só, a discordância não implica menos respeito. Mas quando o que se lê revela apenas facciosismo e cegueira, o respeito esvai-se. Confesso que pensara ser possível alguém fazer a comparação. Pegar num acto assumido e sem danos pessoais ou patrimoniais e equipará-lo a uma acção destruidora e violenta. Mas ainda tive esperança de que, a acontecer, tal comparação não subisse da fossa em que tão frequentemente se transformam as caixas de comentários dos blogues. Enganei-me duplamente. O post é nauseabundo, a caixa de comentários bastante arejada.



publicado por José António Abreu às 13:01
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
O medo da imaginação

Cristina Mendes Ribeiro escrevia há dias no Estado Sentido sobre os mitos com que se assustavam as crianças nas serras do interior do Portugal e o medo que elas sentiam quando estavam sozinhas na cama. Tenho para mim que esse medo extravasa o universo infantil. De noite, numa casa isolada em Trás-os-Montes ou nas Beiras, com o vento assobiando na chaminé e fazendo chocalhar as janelas nos caixilhos, até um adulto é capaz de sentir esse temor instintivo, a seres ameaçadores e apenas parcialmente humanos. Seres para além da vida e da compreensão.

 

Nas cidades também há medo. Mas é um medo denso, doentio, que não tem nada de maior que a vida. É o medo de assaltos, de violências várias, de agressões verbais. É o medo de outras pessoas.
 
Antes o medo da imaginação desenfreada.

tags: , ,

publicado por José António Abreu às 22:06
link do post | comentar | favorito

Alexandra

O31 da Armadaresolveuhastear a bandeira monárquica na Câmara Municipal de Lisboa. Não vou comentar o acto (e daí até vou: pelo menos não destruíram nenhuma plantação) nem a finalidade do acto (ok, só uma observação, curtinha: é indubitável que D. Duarte teria sobre Cavaco a vantagem de possuir uma voz forte e bela) mas isto demonstra claramente a cada vez maior capacidade interventiva da blogosfera no mundo a (pelo menos) três dimensões. Claro que constatá-lo gera um problema para quem, como eu, começou um blogue na esperança de que tudo pudesse ser feito sem colocar o nariz fora da porta de casa.

 

Antes de publicar este post (e garanto que só o faço porque desejo sinceramente ter a fotografia abaixo no blogue), gostaria de deixar uma pergunta aos monárquicos: se reimplantássemos a Monarquia, podíamos ter uma princesa assim?

 



publicado por José António Abreu às 19:45
link do post | comentar | favorito

Eu é que sou o presidente da junta

Duas facções de aspirantes a candidatos pelo PS à junta de Freguesia da Sé, no Porto, andaram à pancada. Como seria de esperar, todos dizem que foram elementos da outra facção a começar. Nestas coisas (como, se calhar, noutras) tenho uma opinião muito pouco politicamente correcta: só se perderam as que acertaram ao lado.

 

Ninguém verdadeiramente se surpreende com estas coisas. João Gonçalves, por exemplo, admite, com algum conhecimento de causa, que comportamentos deste tipo são frequentes. Tenho pena de que não sejam ainda mais frequentes. E, acima de tudo, mais noticiados. Talvez assim se começasse a pensar seriamente em reduzir o número de juntas de freguesia. Mas provavelmente não. Os portugueses parecem gostar de energúmenos. Com ou sem gravata.



publicado por José António Abreu às 19:40
link do post | comentar | favorito

Os Gestores e a Crise: 11

«Os consultores precisam de mais dados», disse o administrador.

«Enviámos tudo o que tínhamos», disse o director comercial.
«É insuficiente. Como eu pensava, o nosso sistema de informação tem falhas graves. Ponha gente a tratar do assunto.»
«Não temos pessoal disponível.»
«Tire-os de outras coisas.»
«Por que não são os consultores a recolher os dados? Assim já não havia dúvidas quanto ao que realmente pretendem. E afinal para alguma coisa estão a ser tão bem pagos…»

O administrador estava excepcionalmente bem disposto e limitou-se a suspirar. «Não seja assim. Não os contratámos para que fizessem o nosso trabalho. Há coisas que devemos ser nós a fazer. Porque a empresa é nossa, meu caro. Nunca esqueça isso. Nós é que somos importantes. Eles apenas nos devem dizer o que devemos fazer depois de nós lhes dizermos o que estamos a fazer. Nada mais.»



publicado por José António Abreu às 18:52
link do post | comentar | favorito

Domingo, 9 de Agosto de 2009
A criança

Passei o dia de ontem pensando no que poderia dizer acerca de Raul Solnado. A característica dele que me parece mais interessante – e que talvez suscite muito do carinho que granjeou – era a sua forma relutante de fazer humor. Relutante não no sentido de o fazer contrariado mas no da criança (e já muitas pessoas mencionaram o termo ‘criança’ ao se lhe referirem) que avalia o efeito que as suas piadas tiveram, maravilhado pela reacção mas um pouco céptico por tê-la conseguido tão facilmente. Pense-se nos mais conhecidos sketches dele e ver-se-á grande parte da típica ingenuidade infantil. E a frase “façam o favor de ser felizes” tem ou não implícito o “vá lá, façam-me a vontade” com que uma criança pede um brinquedo? Em Solnado, o cepticismo era doce e o cinismo inexistente. Via-o ontem contracenar com Bruno Nogueira no programa que a RTP apresentou depois do telejornal e reforçava essa impressão. Nogueira, como de costume, fazia de gajo esperto mas presunçoso (papel que desempenha na perfeição); Solnado, até quando lhe chamava “cabrão”, fazia-o num tom que deixava subentendido “olha-me este marmanjo” e não “olha-me este filho da puta”. Mesmo quando desempenhava papéis dramáticos (e confesso as minhas falhas porque recordo poucos), a nota dominante era um desamparo infantil e não verdadeira raiva ou maldade. Relembre-se o magnífico Elias de A Balada da Praia dos Cães. O mundo à sua volta era violento e ilógico e ele enfrentava-o com uma resignação muito adulta mas também com uma incompreensão e uma mágoa muito infantis. Como se realmente não percebesse por que carga de água as pessoas não só não queriam ser felizes como até se esforçavam por ser infelizes. A lógica dos adultos é com frequência triste, Raul.

 

Foto pedida emprestada ao Senhor Palomar.



publicado por José António Abreu às 14:57
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sábado, 8 de Agosto de 2009
Benjamin Button

Estar no interior do país com uma ligação móvel à net que demora quinze segundos a carregar um ecrã branco é uma experiência que se deve saborear. A sério. Como quando o trânsito se arrasta sem parecer sair do sítio. Não são situações para ficar exasperado. São situações para esboçar um ligeiro sorriso e para visualizar a Carrie-Ann Moss (as senhoras podem visualizar o Keanu Reeves, se preferirem) suspensa no ar, braços e pernas flectidos, enquanto uma câmara rodopia à sua volta. Ou para nos imaginarmos no lugar da câmara sobrevoando as tais filas de trânsito parado. São momentos de transcendência. De ioga do quotidiano, sem necessidade de fazer o pino. E são também experiências físicas. Físicas no sentido de Newton e, especialmente, de Einstein. Se fosse tudo ainda um pouco mais lento (apenas mais um bocadinho), o tempo recuaria. Olho para o ecrã do computador onde há mais de dois minutos devia ter surgido a página de blogues do Sapo e sinto-me prestes a rejuvenescer.



publicado por José António Abreu às 13:10
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
A arte em polígonos
Em fila indiana, um grupo de cavaleiros entra num castelo. Num dos cavalos seguem duas pessoas: o adulto que o conduz e uma criança com um capacete de onde sai um par de cornos. Nenhum dos adultos tem cornos. O grupo desce até uma enorme sala, que tem a toda a volta duas filas sobrepostas do que parecem ser sarcófagos em pedra. O rapaz – Ico – é metido num dos sarcófagos da fila superior. O sarcófago é fechado. Os cavaleiros saem. Ico tenta abrir o caixão mas rapidamente percebe que nunca o conseguirá. Decorre algum tempo (é difícil dizer quanto) até que, na sequência de um tremor de terra, o contentor onde Ico se encontra tomba no pavimento e se quebra. O miúdo sai. Inicia a exploração do castelo. Rapidamente descobre uma rapariga encarcerada numa gaiola. Liberta-a. Ela – mais ou menos da idade dele mas um pouco mais alta, magra, frágil, de pele extraordinariamente clara – não fala a mesma língua. Conseguem apenas trocar os nomes: ela chama-se Yorda. Seguem juntos mas não antes de Yorda lhe tentar explicar qualquer coisa. Se Ico não percebe o que ela lhe diz, depressa percebe que ela é especial: tem um qualquer poder mágico que lhe permite abrir certas portas e é perseguida por entes sombrios, que surgem do pavimento e tentam levá-la com eles. Ico luta com as criaturas com as armas que tem à mão: primeiro apenas um pau, mais tarde uma espada. As lutas são básicas e pouco coordenadas. Realistas, de certa forma. Na tentativa de sair do castelo, Ico e Yorda têm que resolver enigmas. Muitas portas estão fechadas, muitas pontes destruídas, muitos locais parecem inacessíveis. Ico escala postes, balança na ponta de cordas e amarinha por paredes, na tentativa de abrir portões, descer pontes, accionar mecanismos. Com frequência, Yorda não consegue acompanhá-lo. Aguarda que ele desbloqueie a passagem. Mas Ico tem que ser rápido porque as sombras aproveitam os momentos em que Yorda está sozinha para a atacar. Em certas passagens, Ico e Yorda têm que saltar. Ico, apesar de mais baixo, consegue saltar mais longe. Por isso, salta primeiro e fica pronto para ajudar Yorda. Às vezes, quando o espaço parece demasiado longo, ela hesita. Em algumas dessas ocasiões acaba mesmo por falhar o salto, apenas sobrevivendo porque Ico lhe agarra a mão no último instante. Em muitos momentos, aliás, Ico e Yorda seguem de mãos dadas. Basta a Ico estender-lhe a mão e ela agarra-a imediatamente. Tudo isto acontece num mundo visualmente estonteante, com a luz do sol perfurando vitrais e ramagens de árvores e as pequenas áreas de jardim fazendo contraponto aos blocos de pedra das paredes do castelo. Os sons dominantes são os chilreios dos pássaros e o silvar do vento. Após horas de peripécias, Ico e Yorda chegam finalmente à ponte que permite sair do castelo. Nessa altura, algo acontece. Algo que os separa. Ico volta atrás. Percebe, sem que alguém lho explique, por que existem tantos sarcófagos. Percebe que destino lhe estava reservado se o seu não tivesse caído. Encontra a responsável pela perseguição a Yorda. Luta com ela. Vence mas sofre ferimentos: os cornos na sua cabeça partem-se. Reencontra Yorda. Percebe que as coisas não são tão lineares quanto esperava. Percebe a que se devia a melancolia que sempre se parecera desprender dela. Intui muito do que ela lhe fora tentando dizer na sua língua incompreensível. É devolvido ao mundo exterior, onde já não deve ter problemas de enquadramento, agora que também ele é um rapaz “normal”.
 

 

Em 2002, a Sony lançou um jogo para a PS2 chamado Ico. Existem outros casos, da simplicidade de um Pac-man à complexidade de um Fallout 3, passando pela experiência sensorial de um Rez ou pela criação de mundos alternativos perfeitos como num Bioshock. Mas, para mim, Ico foi crucial. Depois de Ico nunca mais duvidei que os jogos de vídeo pudessem ser obras de arte.

 

 

 



publicado por José António Abreu às 17:55
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
A água de Coimbra

 

 

Era a Blitz ou o Público que o dizia há tempos. A água de Coimbra deve ter qualquer coisa (que eu, apesar de lá ter estudado uns anos, não apanhei de certeza, visto continuar a apresentar capacidades rítmicas absolutamente lamentáveis) que leva tanta gente (Legendary Tiger Man, Wraygunn, Sean Riley and the Slowriders, D3Ö, Bunnyranch) a fazer música com uma sonoridade tão  bom, tão americana. Para os defensores da pureza bacteriológica das artes nacionais (música, em Coimbra, suponho que tivesse que ser fado) isto pode ser uma heresia. Que se lixem. Isto é rock and roll.


publicado por José António Abreu às 21:53
link do post | comentar | favorito

Trio de ataque

Creio que já se pode fazer um balanço. De entre os três recém-nascidos blogues de apoio a partidos políticos (da esquerda para a direita: Simplex, de apoio ao PS; Jamais, de apoio ao PSD; e Rua Direita, de apoio ao CDS), o mais interessante tem sido o Rua Direita. Enquanto os participantes do Simplex e do Jamais fazem marcação cerrada uns ao outros, esquecendo com frequência o debate de ideias em favor de questiúnculas menores, os participantes do Rua Direita têm (com inevitáveis excepções) discutido temas concretos, com um grau de profundidade e de rigor muito apreciáveis (ver, por exemplo, este debate sobre as políticas de impostos). E têm ainda outro ponto a favor: Inês Teotónio Pereira demonstra que, como afirma no perfil, não faz bem apenas filhos e arrasa a concorrência em bocas de humor subtil. É verdade que Rodrigo Moita de Deus parece continuar a preferir colocá-las no 31 da Armada mas quem não comparece, toda a gente o sabe, perde o jogo. Quanto ao Simplex, salvam-no as laranjas de João Coisas.

 

Adenda: ainda a respeito da Inês, o blogue pessoal dela (ou talvez seja mais dos filhos), A Um Metro do Chão, vale a pena para quem gostar daquelas pérolas da ingenuidade e do engenho infantis subtilmente comentadas por uma mamã inteligente com capacidade de auto-irrisão.



publicado por José António Abreu às 18:11
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009
Em Agosto, o frio

Berlim levou-me a reler O Espião que Saiu do Frio, de John Le Carré, do qual a D. Quixote lançou recentemente uma nova edição. Tinha-o lido pela primeira vez há vinte e tal anos, numa adolescência em que devorava histórias policiais e de espionagem. Na altura, e em comparação com livros de Frederick Forsyth, de Ken Follett ou de Robert Ludlum, achei-o muito parado, com uma claustrofobia estranha e ligeiramente repulsiva. A claustrofobia continua lá, a repulsão transmutou-se em fascínio, mas a estranheza decorre agora da circunstância de aquele ser um mundo que não parece ter acabado apenas há vinte anos. É um mundo a preto e branco, como Martin Ritt percebeu quando adaptou o livro ao cinema, ameaçador, uma espécie de Transilvânia política, que encaixa mal na Berlim estival e luminosa onde fui ver os U2. Já o notara e escrevera mas depois de reler o livro tudo se torna ainda mais forte, mesmo quando (apercebo-me na releitura) a maioria do livro não se passa em Berlim (mas o muro e a lógica distorcida que ele reforçou estão sempre presentes). Como imaginar Alec Leamas (um qualquer Alec Leamas real) assistindo à tentativa de fuga de Riemeck (um qualquer Riemeck real) num Ceckpoint Charlie nocturno e desolado? No mesmo Ceckpoint Charlie dos turistas, das fotos nos taipais, do sol? Ou o final, perfeito, sombrio, inevitável, agora que restam apenas pedaços do muro cobertos por horrorosos graffti tornados arte?

 

Em O Espião que Saiu do Frio, Le Carré ainda não atingira o ponto mais elevado dos seus dotes de escritor mas apenas um adolescente inconsciente poderia preferir O Quarto Protocolo ou Triple (histórias cheias de suspense mas sem alma, quais blockbusters de Hollywood) a O Espião que Saiu do Frio. Porque este, sendo ficção, ajuda a relembrar uma era com a estranheza e o horror que se impõem, agora que já poucos indícios físicos restam dela. Há outros casos, claro. Outros livros (a trilogia A Gente de Smiley, do mesmo Le Carré, por exemplo) e vários filmes (veja-se o recente A Vida dos Outros). Apesar de um par de diálogos mais filosóficos sobre as diferenças e semelhanças entre estados totalitários e democráticos quando o jogo é por natureza sujo, O Espião que Saiu do Frio não pretende ser mais que uma história de espionagem e tem uma trama até pouco plausível. Mas recorda bem as lógicas distorcidas (as tais que obrigam todos os intervenientes a sujar as mãos) que se implantam em momentos de tensão política. Como Le Carré escreve no prefácio: o muro era puro teatro, e também um perfeito símbolo da monstruosidade de uma ideologia enlouquecida. Esquecemo-nos com demasiada facilidade do terror.

 



publicado por José António Abreu às 21:56
link do post | comentar | favorito

Listas

As listas de candidatos a deputados do PSD são uma desilusão. Não por existir pouca renovação (que, dependendo do modo como se virem as coisas, até há) porque esta não deve ser um objectivo mas um meio: significa pouco se, por exemplo, for conseguida através da captação de nomes panfletários como Inês de Medeiros ou Miguel Vale de Almeida (por muita consideração que ambos me mereçam, o convite para as listas do PS não se deveu a Sócrates acreditar piamente na qualidade política deles) mas poderia significar muito se revelasse verdadeira vontade de delinear políticas alternativas ao “centrão” amorfo e umbiguista que nos governa há décadas. Talvez fosse esperar demasiado. Em primeiro lugar, as estruturas locais dos partidos regem-se mais por critérios de interesses pessoais que pelo interesse nacional. Depois, Manuela Ferreira Leite é Cavaquista e deixou-o bem claro ao escolher certos nomes. (Até me parece que Cavaco aprendeu com os erros do passado mas não estou certo de que todos os cavaquistas o tenham feito.) Por fim, no nosso sistema e mentalidade, os deputados acabam – infelizmente – por ser pouco importantes, uma vez que raramente fogem ao guião partidário ou governamental. Em quase todas as circunstâncias, poderiam ser substituídos (com vantagem orçamental) por direitos de voto que os líderes exerceriam aquando das votações. De resto, todos sabemos que, seja qual for o partido que ganhe as eleições, terá que formar a quase totalidade do governo fora do parlamento. Mas é pena que assim seja. É pena que o parlamento não seja o lugar onde estão os portugueses mais capazes. E é pena que o PSD não tenha aproveitado para incluir nas listas gente menos comprometida com o passado e com mais visão de futuro.

 

Há depois os lamentáveis casos dos arguidos António Preto e Helena Lopes da Costa, que – nunca pensei escrevê-lo – fazem incidir outra luz sobre a coragem de Marques Mendes. Há Maria José Nogueira Pinto, que respeito mas não entendo como pôde aceitar fazer parte das listas do PSD numa altura em que apoia uma candidatura autárquica contra o PSD. E há finalmente Passos Coelho. A decisão de o deixar de fora não me incomoda. Passos Coelho foi opositor de Manuela Ferreira Leite quando ambos concorreram à liderança do partido. Perdeu. E a partir daí continuou a ser opositor dela mas – e é somente aqui que reside o problema – fazendo uma oposição traiçoeira e hipócrita. Aparecendo sorridente ao lado de Ferreira Leite antes de disparar declarações farisaicas perante as câmaras televisivas. Ferreira Leite limitou-se a recusar ser tão hipócrita quanto ele.



publicado por José António Abreu às 20:55
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 4 de Agosto de 2009
A importância da embalagem

Na Fnac, uma senhora dizia para outra: «Só compro livros que tenham capas bonitas.»



publicado por José António Abreu às 20:47
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Indissociáveis?

Enquanto procurava informações sobre a praça de Portugalete, em Valladolid, dei com a vila de Portugalete, situada perto de Bilbao, e fiquei a saber que o apelido Salazar também marcou a sua história. Coincidências cósmicas, uma vez que que a origem do nome da vila nada parece ter a ver com Portugal. (A hipótese mais credível aponta para uma junção do romano Portus com o termo em euskera Ugalete, sendo que o resultado é mais um pleonasmo translinguístico, visto que ambas as palavras significam "porto").

 

Nota competamente acessória, irrelevante e, como diriam os Gato Fedorento, parva: um dos antepassados dos Salazar que se instalaram em Portugalete era conhecido por "Braço de Ferro" e teve 120 filhos; pergunto-me se foi nele que a SIC se inspirou para o Salazar firme mas engatatão da mini-série televisiva.



publicado por José António Abreu às 18:48
link do post | comentar | favorito

Imagens recolhidas pelas ruas: 11



publicado por José António Abreu às 09:03
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Culpado mas inocente; em suma: português e político

«Não se provou um único crime contra mim», diz Isaltino de Morais depois do tribunal o ter condenado a sete anos de prisão por ter considerado provados quatro crimes cometidos por ele. Ainda assim, é muito capaz de ter razão. Pode-se sempre alegar que os crimes foram cometidos a favor dele e não contra.

 

«É óbvio que a política está de um lado e a justiça está do outro», disse ainda para justificar a sua permanência na corrida autárquica. Alguém se atreve a contestar tal declaração? Este homem é de uma perspicácia absolutamente ofuscante. Merece a liberdade mais absoluta e a reeleição fácil.



publicado por José António Abreu às 18:56
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Pleonasmo translinguístico

Os espanhóis de Puebla de Sanabria, povoação muito merecedora de uma visita situada mesmo junto ao cantinho superior direito de Portugal (perto de Rio de Onor e do Parque Natural de Montesinho), chamaram "Rua" à rua principal que sai da inevitável e florida Plaza Mayor. Ou seja, calle Rua (ou talvez calle de la  Rua). Acho simpático. Pergunto-me se teremos em Portugal alguma rua da Calle.



publicado por José António Abreu às 18:49
link do post | comentar | favorito

Filhinhos dos papás

A renovação não é necessariamente uma coisa boa. Mas é uma oportunidade. Manuela Ferreira Leite está a ultimar as listas de candidatos a deputados. Resta saber se vai ter coragem para decidir sem medo de afrontar alguns caciques locais. É triste constatar que o que devia ser uma vantagem (as estruturas locais reflectirem melhor os interesses das populações onde se inserem) é afinal uma perversão. Ou alguém acredita que os filhos dos autarcas de Barcelos, Gaia e Coimbra são mesmo os melhores cidadãos simpatizantes do PSD que essas regiões têm para oferecer ao país? Aliás, as coisas andam de tal modo perversas que, mesmo que fossem, ninguém acreditaria.



publicado por José António Abreu às 14:15
link do post | comentar | favorito

Notas de viagem

Fico sempre com a sensação de que o ritmo nas auto-estradas espanholas é pelo menos 10 km/h mais lento que nas portuguesas. Nós abrandamos ao entrar em Espanha; os espanhóis aceleram quando entram em Portugal.

 
Muitas zonas de serviço espanholas obrigam a passar por povoações. É menos prático para o viajante que as nossas áreas bem formatadas e completamente isoladas do resto do país mas desconfio que o comércio dessas povoações agradece.
 
Claro que a solução espanhola só funciona em auto-estradas sem portagens. E a esse respeito: nos cento e sessenta quilómetros de auto-estrada entre o Porto e a fronteira de Vila Verde da Raia pagam-se oito euros e qualquer coisa de portagens; nos quase trezentos quilómetros de auto-estrada entre Verín e Valladolid pagam-se zero euros de portagens. (Ouço alguém dizer que a nossa solução é mais justa? O conceito do utilizador-pagador? Com certeza. Eu até concordo com ele. Aliás, deve ser por isso que o nosso IVA é mais reduzido, os nossos automóveis mais baratos e todos os espanhóis que vivem perto da fronteira vêm abastecer os veículos em Portugal.)
 
Precisamente na fronteira de Vila Verde da Raia, tanto no sábado como no domingo, havia imensa polícia do lado português (no sábado mandavam mesmo parar alguns veículos que entravam em Portugal) e nenhuma no lado espanhol. Podia ser uma alegoria para o facto de terem sido sempre eles a tentar invadir-nos e não o contrário mas devia ser apenas por causa dos imigrantes.
 
Ao passar junto a Tordesilhas não consegui evitar pensar em como, há cinco séculos, nós e os espanhóis estávamos tão seguros da nossa importância no mundo. Agora, excluindo arroubos momentâneos, nós achamos que somos insignificantes; eles continuam a considerar-se o centro do universo.
 
O estádio do Real Valladolid seria indigno de um quase falido clube português de média dimensão. É até incrível pensar que foi inaugurado em 1982 e que lá se disputaram partidas do mundial de futebol desse ano. O facto suscita-me duas notas: estamos todos tão mais exigentes hoje em dia e pelo menos em certas coisas fundamentais evoluímos mais que os espanhóis.
 
Valladolid tem fama de ser a cidade espanhola onde melhor se fala o castelhano. Não sei o que os Valladolidenses acharam do castelhano de Bruce Springsteen mas a mim pareceu-me bastante razoável. Tanto que o teria percebido melhor se falasse em inglês.


publicado por José António Abreu às 13:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Domingo, 2 de Agosto de 2009
Reentrando discretamente

Se eu tivesse um décimo da incrível energia do senhor com quase sessenta anos que se encontra no centro do palco, capaz de dar concertos de três horas em que nem para os encores há verdadeiras pausas, ficaria por aqui a ver o que se passou desde que saí. Mas eu diabos levem as pouco equalitárias leis da biologia preciso de dormir. E, fraco como sou, nem sequer consigo deixar de gostar de o fazer.



publicado por José António Abreu às 23:19
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

dentro do escafandro.
pesquisar
 
Janeiro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


à tona

Speaker do parlamento bri...

Imagens recolhidas pelas ...

Com o Douro por cenário: ...

Paisagens bucólicas: 105

Momentos com significado

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Paisagens bucólicas: 104

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Paisagens bucólicas: 103

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Das formas e cores: 48

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Das formas e cores: 47

Imagens recolhidas pelas ...

Das formas e cores: 46

Imagens recolhidas pelas ...

Cães e gatos pela cidade:...

Paisagens bucólicas: 102

Como Douro por cenário: 8...

Paisagens bucólicas: 101

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Paisagens bucólicas: 100

Imagens recolhidas pelas ...

30 comentários
22 comentários
reservas de oxigénio
Clique na imagem, leia, assine e divulgue
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!
tags

actualidade

antónio costa

blogues

cães e gatos

cinema

crise

das formas e cores

desporto

diário semifictício

divagações

douro

economia

eleições

empresas

europa

ficção

fotografia

fotos

governo

grécia

homens

humor

imagens pelas ruas

literatura

livros

metafísica do ciberespaço

mulheres

música

música recente

notícias

paisagens bucólicas

política

porto

portugal

ps

sócrates

televisão

viagens

vida

vídeos

todas as tags

favoritos

(2) Personagens de Romanc...

O avençado mental

Uma cripta em Praga

Escada rolante, elevador,...

Bisontes

Furgoneta

Trovoadas

A minha paixão por uma se...

Amor e malas de senhora

O orgasmo lírico

condutas submersas
Fazer olhinhos
subscrever feeds