Uma voltinha pelo Museu do Louvre permite rapidamente constatar três coisas: a Vénus de Milo, que tem cara de rapaz, parece cansada e só não afasta as pessoas que se acumulam à sua frente por falta de braços; a instalação/performance na sala da Mona Lisa, em que uma multidão tira fotos ao (e em frente ao) enigmático (e cansado e resignado) sorriso, fazendo questão de ignorar ostensivamente todos os restantes quadros na sala (um apontamento de arte contemporânea pelo qual Serralves trocaria de bom grado todas as obras envolvendo garrafas ou pedaços de madeira que já teve em exibição), funciona bem; as estátuas clássicas gregas têm pénis pequenos. Os dois primeiros pontos são específicos do Louvre, o terceiro não, e, por incrível que possa parecer, muita gente já reparou nele. Procurei explicações na net. Como seria de esperar, encontrei para todos os gostos. Há quem diga que era para não chocar o espectador; há quem assegure que era para os homens não se sentirem como hoje em dia alguns se sentem ao verem as monumentais obras de arte exibidas em certos canais codificados de televisão; há quem avente a possibilidade dos modelos estarem com frio enquanto posavam, uma vez que não existiam sistemas eficazes de aquecimento; há quem sugira que, sendo os gregos à época um bocado gays, pénis pequenos eram menos assustadores para neófitos (parece-me bem que é não conhecer os gays...). A explicação que me pareceu mais fundamentada defende que os gregos tinham um ideal de beleza masculina em que pénis demasiado grandes (tal como pénis circuncidados) não se enquadravam. Gostavam de corpos atléticos, com torsos e pernas musculados, não perturbados por excrescências volumosas. Não tinham qualquer problema em relação à nudez e o facto de aceitarem ser reproduzidos com pequenas partes pendentes pode até ser visto como um sinal de
maturidade intelectual: no fim de contas, a Grécia ou, mais precisamente, a Atenas Clássica é a primeira sociedade onde a cultura não só é apreciada como estimulada. Tanto que, depois de espreitar os tais canais codificados ou de ver algumas páginas de publicidade a boxers, sou forçado a pensar que regredimos. A tendência actual, na representação ou sugestão do órgão sexual masculino como noutras áreas, é para privilegiar o tamanho, ainda que em detrimento da qualidade: já me queixei antes da popularidade das gigantescas mamas de silicone mas também estão na moda estaturas elevadas, olhos gigantes e lábios grossos. Mas há mais: as mulheres preferem homens com mãos grandes e, desde a eleição de Obama, até orelhas-de-abano parecem estar in (circulam rumores de que José Rodrigues dos Santos não tem já qualquer dúvida de que é um símbolo sexual). Mesmo os automóveis (a tradicional extensão do pénis) têm vindo a ficar maiores: comparem um Clio da primeira geração com um actual ou, mais flagrante ainda, um Mini clássico com um dos que a BMW agora produz. Regredimos também noutra área: enquanto a nudez era vista de modo natural na Grécia de há dois mil e quinhentos anos, é encarada com reservas por muita gente hoje em dia, um pouco por todo o mundo. Independentemente do tamanho dos pénis.
Desconheço o que pensam os gregos actuais da representação do pénis nas suas estátuas. Não sei se sentem algum embaraço e se têm constantemente que provar que os seus antepassados exageravam. Seja como for, de nós, portugueses, os gregos não devem temer bocas foleiras. Depois da selecção grega nos ter derrotado duas vezes no europeu de futebol de 2004, a última das quais na final, nós sabemos que eles podem não ter pénis grandes mas: a) têm certamente tomates; e b) a expressão "o tamanho não interessa" deve estar certa porque nos doeu a valer.
(Fotos tiradas no Louvre e no Jardim das Tulherias em Maio de 2009.)
Arrancam hoje as candidaturas ao ensino superior. Há mais 1100 vagas que no ano passado e mais 5000 que há cinco anos. Ouvi o Primeiro-Ministro referi-lo com orgulho no noticiário da TSF. Disse algo do género: "Esta é a melhor prova da evolução do país." Não é. Não é sequer necessariamente um factor positivo. Os governos de Cavaco Silva são hoje criticados por terem apostado mais na quantidade de vagas disponíveis nas universidades que na qualidade dos cursos nelas ministrados. Cavaco já reconheceu algum exagero, justificando a opção com a baixa percentagem de alunos que na altura atingia a universidade e com a necessidade de agir rapidamente. Hoje a situação é diferente. Há milhares de licenciados à procura de emprego ou com empregos que nada têm a ver com o curso tirado. Tivemos tempo para aprender com os erros do passado. Nas obras públicas não o fizemos. Tê-lo-emos feito no ensino superior?
Segundo o i, há suspeitas de que o ministério das Obras Públicas pode ter descurado o interesse público na cedência dos direitos de exploração do Terminal de Contentores de Alcântara à Liscont. Mário Lino já negou, Jorge Coelho deve fazê-lo de seguida. Afinal, ele até afirmou esta semana que a Mota-Engil anda a ser prejudicada pelas decisões governamentais...
À partida, a escolha de Elisa Ferreira para candidata à Câmara Municipal do Porto nem era má. Portuense, com imagem de seriedade, de independência de espírito (que os portuenses apreciam), e de alguma competência executória (vá-se lá saber porquê, e com excepção do actual que ninguém conhece, os Ministros do Ambiente tendem a ficar com boa imagem), Elisa também não é vista como demasiado intelectual, o que, para os prosaicos portuenses, só podia ser positivo.
Acabo de ver num noticiário televisivo (já não sei se da SIC-N se da RTP-N) uma longa reportagem sobre o estado de conservação de várias pontes na zona da barragem da Aguieira. Aparentemente, necessitam de urgentes obras de reparação. Numa altura em que se vão construir mais 1200 km de auto-estradas, um gigantesco aeroporto e duas caríssimas linhas de TGV, o que existe vai-se degradando. Se o investimento público é necessário, não seria preferível reparar e melhorar o que já existe? Claro que não e todos sabemos porquê: a mentalidade nacional premeia quem "faz obra", não quem cuida da existente.
A foto tem uma hora e meia e é um cliché. Mas olho para ela, comparo-a com outras tiradas ao longo de mais de uma década e não vejo que o pôr-do-sol na Afurada seja mais ou menos bonito consoante o partido que nos governa. Demagogia? Talvez. Ainda assim, apeteceu-me referi-lo.
Pode ser uma injustiça colocar as coisas nos termos em que o vou fazer no final deste post. António Costa sempre me pareceu um homem razoavelmente ponderado, longe do estilo histérico-acéfalo de outros socialistas durante estes quatro anos e meio de poder absoluto do PS. Ainda assim, as críticas recentes ao governo, reiteradas (por palavras e silêncios) na entrevista de hoje ao jornal i, surgem como tardias e oportunísticas. Enquanto Sócrates pareceu imbatível, tudo era perfeito ou, pelo menos, todas as queixas eram caladas. Só me ocorre dizer que o navio socialista dá sinais de meter água e que os primeiros tripulantes começam a tentar abandoná-lo.
Os Depeche Mode cancelaram o concerto de amanhã no Estádio do Bessa, integrado no Festival Super Bock Super Rock, para o qual tenho bilhete. Desde que soube, este tema não me sai da cabeça.
O Procurador da República alerta para a redução de liberdades individuais em nome da segurança. O aviso poderá ser visto como algo exagerado, uma vez que, de acordo com um estudo da Privacy International, uma entidade independente, Portugal tem um nível de protecção da privacidade "enfraquecido" mas mantém salvaguardas razoáveis, uma situação que, não sendo brilhante, é melhor que a de muitos outros países da UE (e em especial do Reino Unido, classificado ao nível de países como os Estados Unidos, a Rússia e a China). É curioso notar como, na Europa, muitos países que passaram recentemente por sistemas ditatoriais tendem (por enquanto) a apresentar um melhor nível de salvaguardas. (Há excepções notórias, como a Espanha).
Mas, apesar do ranking (referente a 2007) ainda não nos posicionar muito mal, o aviso de Pinto Monteiro tem razão de ser por (como diria o Eng. Ângelo Correia) três ordens de razão: a tendência é também por cá para o Estado aumentar as formas de intrusão na esfera privada dos cidadãos; as salvaguardas existem na lei mas, porque o nosso sistema judicial é mau, nem sempre na prática; e é antes da situação atingir níveis verdadeiramente preocupantes que os principais intervenientes no sistema devem falar.
Pinto Monteiro centra a questão na segurança. Como penso já ter deixado pelo menos implícito aqui e aqui, julgo que a tendência para a imposição (por parte dos governos) e aceitação (por parte do público) destas medidas vai para além das questões da segurança. Estas são sem dúvida importantes e a maior parte das pessoas, vendo notícias consecutivas sobre assaltos violentos ou baleamento de polícias (o terrorismo perdeu parte da carga ameaçadora que, pelo menos em alguns países, chegou a ter), tende a aceitar o aumento de medidas de segurança 'intrusivas', convencidas de que nunca serão afectadas por elas. Mas penso que a questão vai mais longe. Para além da sensação de insegurança, uma outra, de injustiça, tem vindo a impregnar a sociedade portuguesa (e admito que outras). A injustiça (parte real, parte percepção) de sentir que se é cada vez mais pressionado enquanto outros passam incólumes por todas as dificuldades. Afinal, o emprego só parece estar em risco para alguns. As reformas de certas pessoas permanecem obscenamente elevadas enquanto as da maioria caem. Os lucros de algumas empresas continuam astronómicos e os seus gestores e accionistas ganham milhões de euros por ano enquanto a maioria tem problemas para pagar o empréstimo da casa. Uma imensidão de pessoas recebe subsídios para nada fazer enquanto os restantes têm que trabalhar. Esta percepção (que, sendo justa, injusta ou apenas simplista, existe) cria um desejo de vingança sobre os que são vistos como privilegiados (não apenas os ricos mas todos os que parecem não fazer o suficiente para justificar aquilo que têm). Na opção de mentalidade expressa pela velha história dos dois jardineiros que vêem passar o patrão num Roll-Royce, dizendo um para si mesmo que ainda um dia há-de acabar com aqueles privilégios e o outro que ainda um dia há-de ter um carro como aquele, estamos claramente ao lado do primeiro porque já desistimos de ter esperanças que o nosso mérito (que nos parece inegável) seja convenientemente recompensado. Vigie-se e fiscalize-se toda a gente, pois então. No que nos diz respeito, é irrelevante: afinal, já somos controlados ao chegar e ao sair do emprego, já temos o acesso à internet monitorizado (ou bloqueado) pela empresa em que trabalhamos, já estamos sob vigilância nos shoppings, já nos sentimos sob vigilância nas estradas. Mais: já estamos, indefesos, expostos a todos os abusos das autoridades. E, no fim de contas, nada fizemos de mal. Se a redução das liberdades individuais levar a que possam ser apanhados os verdadeiros criminosos, óptimo. Claro que depois de os apanhar torna-se necessário puni-los. E aqui nasce a segunda parte do problema: o Estado, através do sistema judicial, não consegue fazê-lo. Diz-nos então que precisa de mais meios de vigilância para arranjar melhores provas e nós, cada vez mais desesperados e mesmo acreditando cada vez menos na possibilidade das coisas mudarem, aceitamos.
A solução? Uma economia a crescer para reduzir as tensões sociais. Políticas sociais cirúrgicas e justas. Um sistema judicial a funcionar. Toda a gente conhece a solução. A questão é como lá chegar.
Esta notícia do i sobre o "I Salão Erótico Medieval" que parece estar a decorrer desde hoje em Vila Nova de Gaia levanta (é uma forma de expressão) tantas questões que nem sei por onde começar.
Pelo conceito, talvez. "Na época medieval existia uma forte componente erótica", assegura o organizador. “As senhoras da nobreza demoravam quatro horas para se vestir e precisavam da ajuda de aias para colocar os corpetes para evidenciar os seios.” Está-se sempre a aprender. O tempo que as mulheres levam a arranjar-se, que para uns é um pesadelo, para outros é uma fonte de erotismo. Mas será que os organizadores esperam enchentes desejosas de ver mulheres vestindo-se? Nos filmes (a minha única fonte de informação sobre o assunto) os shows eróticos têm normalmente mulheres despindo-se. Lutas na lama protagonizadas por bailarinas exóticas, saltimbancos que recriam contos eróticos e striptease a cavalo são alguns dos espectáculos a que vai ser possível assistir. Ah, OK, assim já faz– striptease a cavalo?!
Não consigo imaginar a coisa sem quedas potencialmente perigosas. Enfim, há ainda a acrobata erótica Sónia Baby, uma outra estrela chamada Lesly Kiss, um museu de tortura medieval (hmmm, as possibilidades da roda, ainda por cima com uma acrobata por perto), lutas de varapaus (penso que não é uma forma de expressão) e cuspidores de fogo. Tudo isto decorre onde? No Cais de Gaia? Na praça em frente ao El Corte Inglés? Não. No parque de estacionamento do restaurante erótico The Lingerie. O guia Michelin tem tantas falhas...
Sejamos honestos: mesquinhas considerações puritanas à parte, são de louvar iniciativas que, nesta época de crise, tentam levantar (é uma forma de expressão) a moral às pessoas. É também de louvar o esforço dos organizadores para atrair o público feminino, através de redução de preços e da garantia, dada pelo organizador, que "Portugal tem os melhores strippers masculinos da Europa". E ainda dizemos mal do país. Se calhar, para além de artistas da bola, podíamos exportar... outro género de artistas. Já agora, como é que isso é avaliado e quem avalia? “Participamos regularmente em campeonatos de strip dance e somos bons, realmente." Ah.
Como nota final, é da mais elementar justiça salientar a vitalidade cultural de Gaia sob a presidência de Luís Filipe Menezes, por oposição ao imobilismo do Porto. Engole esta (é uma forma de expressão), Rui Rio.
P.S.: a foto que o i escolheu para ilustrar a notícia também é fantástica. É tão artsy que podia estar pendurada nas paredes alvas de Serralves. Nada tem de medieval ou de particularmente badalhoco – e admitam: uma notícia como esta merecia imagens badalhocas.
Os jornais Metro e Meia Hora de hoje trazem em destaque na primeira página um novo filme – “A Proposta” – protagonizado pela simpática mas cinefilamente descartável Sandra Bullock (gosto de ti na mesma, miúda). Podia discutir-se a relevância jornalística do assunto mas, como qualquer pessoa com um neurónio em razoável estado de funcionamento já percebeu que as primeiras páginas dos jornais gratuitos nada têm a ver com critérios jornalísticos, não vale a pena ir por aí. O Pacheco Pereira que o faça no seu novo programa. A mim prendeu-me o olhar a enorme foto na primeira página do Metro que mostra uma Sandra Bullock de joelhos no passeio perante um homem ligeiramente curvado. Para as sensibilidades feministas não ficarem já eriçadas, esclareça-se que Bullock tem afixada na face visível (a esquerda; e, como nunca me apercebi que a simpática texana fosse aparentada com o Two-face das histórias do Batman, a direita deve apresentar as mesmas condições), uma expressão que indica ter plena consciência da figura que faz mas, ainda assim, estar divertida. Uma expressão a modos que “ó pra mim a fazer de rapariga tolamente apaixonada”. Sem ter lido uma linha sobre o filme, aposto que é uma obra-prima da dimensão de um While You Were Sleeping, também com Bullock, ou de um Serendipity, com essoutra adorável rapariga, estrela de tantas obras-primas quanto os prémios Nobel que Lobo Antunes já ganhou (mas ambos merecem muito mais), Kate Beckinsale. (É verdade que Serendipity tem o John Cusack, o que transforma automaticamente qualquer filme numa obra-prima ou, se incluir também a Joan Cusack – como o Grosse Point Blank –, numa obra-irmã). Ainda assim, como o(a) leitor(a) – sim, acorde, estou a falar consigo – certamente já percebeu, tudo isto serve apenas de introdução para o verdadeiro assunto deste post. E esse assunto (reúnam as senhoras, por favor) é sapatos. Na foto, Sandra calça um par de sapatos pretos de salto muito, mas muito alto. (Nesta época de preocupações com a saúde tem uma certa piada que as mulheres se estejam nas tintas para a saúde da sua – delas – coluna vertebral mas, como homem, nada tenho contra um belo par de pernas encavalitado num par de sapatos de salto muito, mas muito alto.) Como Sandra está de joelhos, os saltos ficam espetados no ar num ângulo de aproximadamente trinta graus com a horizontal (lá por estar a falar de sapatos não vou deixar de ser homem), criando duas armas brancas (que, no caso, são pretas) que deviam estar na lista das armas proibidas. Mais importante, as belas biqueiras pretas envernizadas roçam no pavimento, sendo impossível que tenham terminado a cena incólumes. Ora, num filme direccionado ao público feminino (e a homens sensíveis como eu), este parece-me um erro de proporções bíblicas. Espero bem que, no genérico final, surja a indicação de que nenhum sapato foi maltratado durante a rodagem do filme e que, nas entrevistas ao Mário Augusto, a realizadora (Anne Fletcher, que nada me diz) explique que Sandra estava descalça e que os sapatos foram acrescentados digitalmente depois de rodada a cena. E, agora que a imagino fazendo a cena sem sapatos, não resisto também a imaginar que toda a roupa foi acrescentada à posteriori (até porque entretanto descobri isto, onde Sandra refere cenas de nudez e explica a forma correcta de fazer um filme), o que permitiria poupar imenso em guarda-roupa e abre um novo leque de interpretações para uma cena de um filme chamado “A Proposta” onde uma mulher atraente se encontra de joelhos defronte de um homem em pé, com uma expressão (pelo menos na face visível) de menina transgressora. As feministas e os sapatos que se lixem.
Muitas lojas têm cartões de cliente que dão descontos. A Fnac usava até há pouco tempo um sistema que permitia, consoante a acumulação do valor das compras, comprar bens com 6% de desconto num dia à escolha. Como os livros já tinham 10% de desconto (perderam-nos entretanto e isso é capaz de merecer outro post), o desconto total era de 10% + 6%. Ou, como me disseram na caixa um par de vezes, 16%. Lamento, mas não. Neste particular campo da matemática, 10 + 6 não são 16. Os 6% são aplicados sobre o valor de onde já foram retirados os 10%, ou seja, sobre 90%. E 0,06x90=5,4. O desconto total é de 15,4 %.
Estes rapazes e raparigas são vítimas das bem documentadas dificuldades dos portugueses com a matemática, evidentes mais uma vez esta semana com a saída dos resultados dos exames do 12º ano. Desconfio, contudo, que quem define as regras até percebe do assunto. Por alguma razão, na matemática dos descontos o valor real é sempre inferior àquele em que nos tentam fazer acreditar.
Avisaram-me que escrevo demasiados posts demasiado longos. Explicaram-me que não devo ultrapassar os dois parágrafos – e não muito compridos. Acima disso, as pessoas assustam-se com a quantidade de letras e nem sequer começam a ler, o que, obviamente, elimina qualquer possibilidade de se interessarem pelo brilhantismo do conteúdo (não estou certo de que a pessoa que me alertou tenha usado o termo “brilhantismo” mas julgo que o sentido era mais ou menos esse). Disseram-me até que, se tiver mesmo que escrever posts longos, os divida em dois ou três e publique de seguida, com um numerozito a seguir ao título indicando a ordem de leitura. Repliquei que escrevo o que me apetece, da forma que me apetece, e que se ninguém mais quiser ler, paciência. Que partir os posts aos bocados me parecia uma cedência à vacuidade actual; uma solução própria do nosso governo, especialista em fatiar projectos numa infinidade de anúncios. Enfim – aqueles argumentos típicos do pseudo-artista defendendo a sua integridade. Ninguém disse ao Tolstoi para condensar o “Guerra e Paz” em apenas duzentas páginas de texto em tamanho 12 e tretas do género.
Parágrafo três: alguém aqui chegou?
A ministra da Educação culpa a comunicação social pela descida nos resultados dos exames de matemática. Diz ela que a comunicação social transmitiu uma imagem de facilidade e que, por isso, os estudantes não estudaram, levantando-se a dúvida ontológica (se isto fosse um exame, eu explicava o que quer dizer) de saber se estudantes que não estudam podem ainda ser considerados estudantes. Eu acho que não. Chamem-lhes outra coisa qualquer e excluam-nos das estatísticas. Os resultados melhorariam de imediato e a ministra poderia novamente sorrir e dizer que tudo se deve ao excelente trabalho do ministério. Quanto à comunicação social, e por muito que defendamos métodos pedagógicos avançados, devia levar dez reguadas (posso sugerir o seu representante?) e ser mandada para o canto, de onde apenas poderia sair depois de 27 de Setembro.
Maria Filomena Mónica deu uma entrevista ao jornal i. Fala de Eça, ataca os catedráticos Queirosianos, refere problemas com a família, faz autocrítica, diz que está cansada de ter raiva, menciona "essas coisas da carne", chama “rapaz da província” a Sócrates. Concorde-se ou não com as suas opiniões, Filomena Mónica é das poucas personalidades portuguesas com verdadeira coragem para dizer o que pensa. Acerca do país, dos portugueses, dela própria. Haverá mais meia dúzia, e talvez seja significativo que nelas se incluam dois dos homens fundamentais na vida de Filomena Mónica: Vasco Pulido Valente e António Barreto. Tão inteligentes e desassombrados quanto ela (leia-se a entrevista de Pulido Valente na revista Ler deste mês para comprovar). Lembram-me, totalmente a despropósito (ou com o simples a-propósito de marcarem uma época e de representarem uma Lisboa cosmopolita e não acomodada – e sim, eu sei que Barreto nasceu no Porto), entidades como o Bloomsbury Group. No futuro, talvez fosse de lhes arranjar uma designação: o “grupo do Gambrinus” podia servir mas não estou certo de que todos o frequentem.
Cavaco Silva passou a estar sob fogo. As declarações acerca do acto do ex-Ministro Manuel Pinho geraram todo um manancial de críticas (p. ex., aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) a que Tiago Moreira Ramalho responde (bem) aqui. Mas este foi pouco mais que um fait-divers. Na realidade, as críticas ao presidente, vindas por vezes (como abordei aqui), do topo da intelligentsia do Partido Socialista, têm aumentado em número e em tom. Parte delas nascerá do desespero dos socialistas, sentindo-se prestes a perder as eleições legislativas e tendo já quase garantidamente deixado esfumar a hipótese de nova maioria absoluta. Ainda assim, quem critica Cavaco devia lembrar-se que, mesmo com uma Constituição altamente limitadora dos seus poderes, o presidente não é um espectador mas um actor político com opiniões. Que, como se verá, todos os presidentes anteriores fizeram questão de expressar com frequência.
(Fotos retiradas do site da Presidência da República.)
Uma pequena notícia no jornal i informava que Domingos Névoa, administrador da Bragaparques, apresentou uma queixa contra José Sá Fernandes por este, durante o processo por tentativa de corrupção no qual Névoa foi condenado, lhe ter chamado “bandido”. O vereador lisboeta foi constituído arguido e arrisca pena até dois anos e multa não inferior a 120 dias. Arrisca também, porque Névoa entende ter sofrido graves danos morais (nos dois dias seguintes à declaração de Sá Fernandes, nem foi trabalhar de tão perturbado que estava), ter que pagar uma indemnização de vinte e cinco mil euros. Se bem me lembro, Névoa foi condenado em cerca de cinco mil euros; se ganhar, não subsistem dúvidas: neste país, mesmo quando as coisas lhes correm mal, a corrupção é um negócio altamente lucrativo para os corruptores.
Cristiano Ronaldo deu uma longa entrevista ao jornal espanhol Marca e, como seria de esperar, os canais de televisão portugueses noticiaram abundantemente tão importante acontecimento. Foi realçado o facto de ele ser um rapaz de palavra, visto ter prometido à referida publicação, no ano passado, que teriam direito à primeira entrevista dele como jogador do Real Madrid, caso chegasse alguma vez a sê-lo. Ainda assim, o que me chamou a atenção – sacaninha como sou – foi a resposta, num daqueles questionários Proustianos que tão giros às vezes se revelam, que o livro preferido de Cristiano Ronaldo é a fotobiografia de Cristiano Ronaldo. Percebe-se: é um livro simpático, que se lê bem e tem um herói com que qualquer pessoa se identifica facilmente – mesmo uma super-estrela como Cristiano Ronaldo. Reparei também que, ao ser instado a escolher uma cidade, optou por Madrid, mas aí a gente percebe: a competição com Kaká não vai ser fácil e o tio Alberto João chatear-se-ia mais se ele respondesse “Lisboa”.
Elisa Ferreira garante que lutará contra todas as sondagens, sejam negativas ou sim, e que levará a sua candidatura à Câmara Municipal do Porto até ao fim: como se sabe, Estrasburgo. Diz ainda que os responsáveis do PS lhe dão "apoio suficiente". Supõe-se que já não a cumprimentam com dois beijos mas ainda lhe apertam a mão.
Alguém devia amordaçar Vasco Pulido Valente e obrigá-lo a comunicar exclusivamente por escrito. E não escrevo isto por desejar o mal de VPV. Pelo contrário: seria para o bem dele. (Ok, admito que também para o nosso). Existem pessoas que provavelmente não terão grandes dotes para a escrita mas que nos encantam com a sua voz ou com as suas capacidades de oratória. Cantores líricos, actores, alguns políticos. Depois há uma grande massa que se desenrasca em ambas as áreas mas não deslumbra em qualquer delas. Eu, provavelmente você. Por fim, existem as que deviam exprimir-se sempre por escrito e nunca falarem com finalidades diferentes que cumprimentar, agradecer, pedir refeições em restaurantes e dizer ao médico onde lhes dói. E não, não estou a condescender porque, no caso de VPV, acho que nem isso devia acontecer: no Gambrinus já lhe conhecem as preferências. Não é que estas pessoas não consigam falar. Com boa vontade, pode dizer-se que conseguem. Mas ler o que escrevem é uma experiência tão mais gratificante que ouvi-los que era preferível fazerem um voto de silêncio.
Por ser simpatizante do Sporting e, mais importante, pouco apreciador do universo futebolístico, tinha prometido a mim mesmo não fazer comentários sobre as eleições do Benfica. Mas, aqui sentado com a televisão a mostrar-me debates onde Benfiquistas evitam criticar as manobras sujas que caracterizaram a marcação das eleições ou a necessidade de um dos candidatos votar com escolta policial, resultados eleitorais de república das bananas, vaias aos derrotados e à comunicação social, entradas triunfais do inesperadíssimo vencedor, um discurso (cuja transmissão em directo obriga à interrupção de um debate sobre o estado da Nação na SIC Notícias) em que o presidente da vetusta e heróica agremiação parece não ir chamar “garotões” aos derrotados, acusando-os apenas de falta de dignidade, tenho que admitir que o Benfica é de facto o único clube verdadeiramente representativo dos portugueses. Dos mesmos que elegem Alberto João Jardim, Fátima Felgueiras ou Valentim Loureiro. Dos mesmos que cospem ou atiram lixo para o chão. Dos mesmos que ziguezagueiam por entre o trânsito e queimam os semáforos vermelhos. Acredito agora que o Benfica tenha os famosos seis milhões de adeptos. Talvez até sete, talvez até oito. Parabéns ao Benfica. Parabéns a Portugal.
Depois de colocar os Wraygunn em pausa, Paulo Furtado, aka Legendary Tigerman, está de volta, envolvido com uma data de mulheres. O álbum, Femina, parece ter sido adiado para Setembro mas o primeiro single, com Asia Argento, já está disponível.
O ex-ministro Manuel Pinho foi ainda ontem à SIC Notícias dizer que está arrependido do gesto que fez durante o debate do estado da Nação. Acredito que esteja, mais pelas consequências que sofreu que por tê-lo feito (Pinho tratou imediatamente de acrescentar que foi provocado, como se isso transferisse a culpa para Bernardino Soares, o apreciador da democracia Norte-Coreana). Tendo que sofrer as consequências, estou até convencido que ele também está arrependido de não ter feito um gesto ainda mais forte (sim, aquele em que se estende um único dedo e se recolhem os restantes). Seja como for, na entrevista Pinho declarou, com ar de vítima do “sistema”, que não entende a política actual, por esta nada ter a ver com o país real, onde vivem as pessoas "normais". Veja-se bem que ainda recentemente estivera num distrito “fortemente PSD: Leiria” e fora muito bem recebido pelos empresários locais, com quem tinha sido possível discutir apoios e outras formas de auxílio. Esta gente não tem mesmo noção da realidade. Alguém esperaria que, num país em que tudo depende do Estado, os empresários de Leiria – simpatizantes do PSD ou não –, recebessem mal quem lhes levava dinheiro? Com – permitam-me citar uma frase do último livro de Vasco Pulido Valente – “o atávico oportunismo da miséria portuguesa”? Meu caro ex-ministro, para eles o senhor era nada mais que um porquinho mealheiro. Ou, neste caso, um tourinho mealheiro.
Pela primeira vez um debate sobre o Estado da Nação serviu verdadeiramente para a nação perceber alguma coisa sobre o seu estado ou, pelo menos, sobre o estado dos seus representantes. O acto de Manuel Pinho é apenas o corolário dos repetidos actos de autismo e de arrogância deste governo, cheio de pessoas medíocres que se multiplicam pelos diversos níveis do Estado, chefiado por um político inculto e mais que medíocre, apenas preocupado com a forma como as coisas parecem e não como elas são (as histórias da sua licenciatura e dos seus projectos, para além das repetidas encenações do governo, mostram-no à saciedade) e incapaz de aceitar a crítica. Os consultores de Obama devem estar a perguntar onde diabo vieram parar.
Caminho na quase escuridão das arcadas da Ribeira quando vejo um miúdo em contraluz e de costas para mim saltar para uma bola. Falha a intercepção. A bola passa-lhe por cima, cai nas pedras da calçada e rebola até parar contra a parede, meia dúzia de metros à minha frente. Avanço. Com um chuto devolvo-a ao guarda-redes. Ele pontapeia-a para o largo, para outro miúdo que se encontra perto das primeiras mesas. Depois prepara-se para tentar novamente a defesa. Ergo a máquina e tiro um par de fotos enquanto a bola vem pelo ar. Apercebo-me que a velocidade de obturação é demasiado baixa para que fiquem nítidas. Baixo a máquina e lanço novamente a bola para o primeiro miúdo, que voltou a não conseguir defender. Este chuta para o outro, que a pára sem dificuldade. Recua e prepara-se para rematar de novo. Reparo que veste calções num tom de verde parecido com o das cadeiras que se encontram amontoadas junto à parede da direita. Ergo a máquina. Ele hesita. Uma expressão de resolução surge-lhe na face. Grita-me: «Senhor, cuidado com a máquina.» Não me mexo. Ele grita de novo. Gesticulo para que esteja à vontade. A expressão dele endurece. Recua mais um passo e depois avança para a bola e pontapeia-a com força. A bola descreve um arco, passa por cima do guarda-redes cujo salto foi mais uma vez tardio, e vem na minha direcção. Tiro uma única fotografia e baixo a máquina à pressa. A bola cai mesmo à minha frente. Sem dificuldade, paro-a debaixo do pé direito. A expressão do rematador passa a espanto. Eu também estou surpreendido mas tento manter-me impassível. Devolvo a bola pela terceira vez mas agora sigo atrás dela. Não vou arriscar outro chuto. Quando passo pelo miúdo, ele olha-me com respeito. Reprimo a vontade de sorrir e sigo em direcção à beira-rio.
(Mais tarde, admito que provavelmente ele também teve medo de se meter em sarilhos e chutou com menos força do que planeara inicialmente. Mesmo assim foi uma bela recepção.)
Na questão da venda da rede fixa à PT, Manuela Ferreira Leite deveria ter apenas declarado que fez o que entendeu dever fazer, considerando as circunstâncias que já por várias vezes explicou: a necessidade de manter o défice abaixo dos 3% e a inexistência – à época – de folga temporal para o reduzir por outras vias. Poderia ter acrescentado que a decisão política até vinha do governo Guterres – mas depois de assumir o acto.
Ainda assim, o caso permite-me lembrar Sócrates e o PS em 2004 e inícios de 2005. Nessa altura eles bramavam que o que se passara durante os governos do engenheiro Guterres era irrelevante. A crise devia ser totalmente atribuída aos governos PSD/CDS. Sócrates afirmou dezenas de vezes, no seu estilo onde apenas Ana Lourenço consegue introduzir a dúvida e a humildade, que a direita culpava Guterres para esconder o seu próprio fracasso. Hoje é o PS que tenta desenterrar o passado; que, no fundo, continua a esforçar-se por demonstrar que os governos PSD/CDS foram maus. Bom, meus caros, isso não é novidade para ninguém. Mas deixem que vos diga duas coisas: o governo de Durão Barroso ocorreu durante um período de quebra económica a nível europeu e teve a oposição da comunicação social e do Presidente da República, enquanto o vosso desfrutou nos primeiros anos de alguma retoma económica e teve durante muito tempo uma comunicação social e um Presidente cooperantes; e, parafraseando-vos, o que se deve discutir em 2009 são as vossas políticas. São elas que falharam. E, por muitas trapalhadas que os governos PSD/CDS tenham feito, nenhum deles atingiu o vosso nível de arrogância e de assalto ao poder.
Os homens são diferentes das mulheres. Este é um post para homens que as mulheres não entenderão e só acharão interessante por confirmar a ideia que têm de nós.
Haverá algum homem que na adolescência não tenha calculado mentalmente os quadrados de dois?
Os socialistas não andam a gostar das declarações de Cavaco Silva. Bom, na realidade os socialistas não andam a gostar de uma data de coisas hoje em dia. Esta é só mais uma. Mas há um pequeno pormenor quando se trata de Cavaco: a maioria das pessoas que o elegeu fê-lo por esperar que ele pudesse moderar os excessos do governo. Eu sei que há aquela velha treta do "presidente de todos os portugueses" mas ninguém votou em Cavaco para este tratar dos jardins do Palácio de Belém. Se está preocupado, Cavaco deve falar. Provavelmente não o fez nos primeiros anos de mandato porque, como muitas outras pessoas (que votaram ou não nele, que votaram ou não no PS), ainda alimentou esperanças de que Sócrates fizesse o que era necessário fazer. Entretanto tornou-se óbvio que isso não sucederá. Pior: todos os vícios do PS (e, de certa forma, dos sistemas partidário e empresarial português) vieram à tona. Cavaco deve assistir em silêncio?
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