como sobreviver submerso.
Sábado, 20 de Junho de 2009
Imagens recolhidas pelas ruas: 7

Agora que começa a época de praia, uma foto tirada ao entardecer duma tarde de Junho de 2004, na praia de Lavadores.



publicado por José António Abreu às 17:24
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
Cyrano, gatos e sedução de raparigas

Apenas sei de cor três poemas: um de Fernando Pessoa, um de Miguel Torga, um de W. B. Yeats. Tenho na memória versos de mais uns quantos mas só por sorte conseguiria declamar os poemas a que pertencem do início ao fim sem erros crassos ou bloqueios fatais. Decorei estes três há tantos anos que esqueci a razão por que a minha memória os reteve. Lembro-me apenas de os ler muitas vezes. Talvez me tenha apercebido que quase os sabia de cor e tivesse insistido até que isso fosse verdade. Habitualmente, de nada me serve sabê-los. Hoje em dia não andamos pelas ruas ou pelos gabinetes a declamar poesia e a maioria de nós não é convidada para programas de TV onde, qual Odete Santos declamando Gedeão, tenhamos hipótese de espantar o mundo com os nossos conhecimentos. Espantar ou embaraçar, porque, nos dias que correm, demonstrar cultura de forma gratuita é frequentemente um embaraço. Na maior parte do tempo nem sequer me lembro que os sei de cor. No entanto, há um par de anos descobri que saber três poemas – ou apenas um, desde que o certo – ainda pode ser útil.

 
Foi num daqueles cursos de formação que demoram semanas. Éramos menos de uma dezena de formandos, quase todos com pouco mais de vinte anos. Raramente sinto que tenho a idade que o BI me dá (agora quarenta, na altura trinta e sete ou trinta e oito) mas, quando a companhia são jovens acabados de sair da universidade, ligeiramente assustados com as poucas hipóteses de emprego mas ainda expectantes e quase sem cinismo, é difícil evitar sentir que se está noutra fase da vida. Uma das raparigas presentes era daquelas miúdas sensíveis e desengonçadas que parecem pouco à vontade com a realidade e com o próprio corpo. Os sorrisos começavam e acabavam-lhe abruptamente, os movimentos de mãos e braços nem sempre pareciam coordenados, as demonstrações de espanto, alegria ou tristeza surgiam em mini-explosões mal controladas. Era vegetariana e adorava animais. Gatos, acima de quaisquer outros. Uma tarde, após um intervalo em que os gatos dela haviam sido mais uma vez tema de conversa, escrevi numa folha de papel:
 
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama
 
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gente
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes
 
És feliz porque és assim
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim
Conheço-me e não sou eu.
 
Fernando Pessoa
 
Entreguei-lhe a folha. Leu o poema com uma expressão de espanto crescente. Quando acabou olhou para mim e perguntou: «De onde é que tiraste isto?» Sorri. Apontei para a cabeça. A admiração dela era tão genuína que quase desatei a rir. Como não gosto de parecer o que não sou, disse-lhe: «Só sei mais dois. Calhou este ser sobre gatos.» Não sei se ela acreditou ou se pensou que eu estava apenas a tentar ser modesto. Em qualquer dos casos, acho que me olhou de outra forma durante todo o resto do curso.
 
A crer em peças famosas, houve tempos em que a poesia era essencial para conquistar o coração feminino. Hoje ninguém parece atribuir-lhe essa capacidade. Eu nunca o fizera. Mas, no instante em que vi a reacção da minha jovem colega de formação, nasceram-me dúvidas. Passei a questionar-me se não manterá afinal resquícios desse antigo poder.
 

Já é tarde. Tivesse eu menos vinte anos, faria um esforço para decorar mais alguns poemas…



publicado por José António Abreu às 12:47
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Dorminhocos de Verão

Até há poucos anos julgava-se que nem primatas nem mamíferos tropicais estivavam. É sabido que muitos cochilam nos momentos de calor intenso mas normalmente conseguem sair da letargia ao entardecer ou durante dias mais frescos. Espanhóis e alentejanos são exemplos típicos mas creio que todos temos familiares com este comportamento, em grau mais ou menos desenvolvido. Em 2004, as coisas mudaram. Descobriu-se que um pequeno lémure de Madagáscar dorme sete meses por ano com temperaturas exteriores elevadas. Agora, em 2009, pode-se juntar-lhe o “animal feroz”, em estivação de 7 de Junho de 2009 até uma data ainda indefinida nos finais de Setembro ou princípios de Outubro.



publicado por José António Abreu às 08:37
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Antes e depois de 7 de Junho de 2009

 

  

 

Aviso: o animal feroz pode regressar no Outono.



publicado por José António Abreu às 12:49
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Finalmente, um especialista para o Benfica

Soube pelo i que que José Eduardo Moniz está a ponderar candidatar-se à presidência do Benfica. Sendo a notícia original do Expresso que, tal como a SIC, é parte do grupo Impresa, imagina-se a satisfação expectante com que foi recebida a informação. Mas, independentemente de considerações paralelas, a hipótese tem alguma lógica. Afinal, nada melhor que o cargo ser ocupado pelo maior especialista nacional em novelas. E o Benfica sempre tem um canal de televisão para José Eduardo e Manuela continuarem a brincar aos jornalistas de vez em quando.



publicado por José António Abreu às 18:27
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Os Gestores e a Crise: 8

«Informação completa é essencial nestes tempos de crise», disse o administrador. «Quero relatórios diários.»

O director comercial hesitou uma fracção de segundo e depois disse: «Com certeza.» Seguiu para o gabinete. Chamou o adjunto. Disse-lhe: «Quero relatórios duas vezes por dia.»
Após um instante de silêncio, parecendo pesar as palavras, o adjunto disse: «Isso vai custar tempo. O pessoal já anda apertado. Se calhar era preferível usarem o tempo que vão gastar a recolher e a enviar os dados duas vezes por dia a vender produtos.»

«Informação completa é essencial nestes tempos de crise. Quero relatórios duas vezes por dia.»



publicado por José António Abreu às 18:00
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O escorpião e a gestão da ira

Se outro mérito não tivesse (e, nesta altura do campeonato, provavelmente não tem), a moção de censura ao governo apresentada pelo CDS e discutida hoje à tarde no parlamento permitirá ver se Sócrates vai mesmo tentar adoptar uma postura de humildade e diálogo nos próximos três meses. O problema – para quem deseja a mudança – é Sócrates ser o escorpião da conhecida fábula em que o sapo aceita ajudar o escorpião a atravessar o rio, depois de este lhe explicar que não o pode ferrar sem morrer afogado mas, a meio da travessia, espeta mesmo o ferrão no batráquio, originando a morte de ambos – porque os instintos dele são mais fortes que quaisquer considerações racionais. Será interessante ver se Sócrates consegue domar a sua natureza bélica. Duvido. Mesmo com um curso rápido de anger management ministrado pelos muitos consultores do PS, os instintos do escorpião tenderão a vir ao de cima.



publicado por José António Abreu às 09:02
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Terça-feira, 16 de Junho de 2009
Os futebolistas assinalados e uma Paris muito navegada...

Como se constata pelo frenesi mediático dos últimos dias, a verdadeira religião em Portugal é o futebol. Uma religião que admite discussões apaixonadas e um par de profetas que poucos imaginariam poderem submeter-se a uma mesma lógica. Repare-se nos seus nomes: Cristiano e Mourinho. Dizem-me que já existiram momentos de tensão entre ambos mas, ainda que seja verdade, constituem um extraordinário exemplo para Vaticano e Meca. O deus da bola (€) une-os, o povo idolatra-os de igual modo e nem comentários críticos de aspirantes esforçados mas não iluminados lhes abalam o estatuto.

 

São profetas dos dias de hoje, que praguejam e insultam mas também mostram generosidade. Que estão à vontade nos humildes locais onde nasceram ou entrando nos recantos mais in de Paris. É por isso compreensível que os canais televisivos tenham repetidamente aberto os noticiários com longas reportagens sobre a transferência de Cristiano para o Real Madrid e os seus divertimentos californianos, relegando notícias como os tumultos no Irão (onde?) para segundo plano. Entre os dois, Cristiano e Mourinho representam tudo o que os portugueses anseiam ser. Aliás, melhor mesmo que existirem os dois, era eles se f…undirem. O ente resultante da fusão brilharia com uma luz própria tão forte que ninguém poderia olhá-lo de frente e seria merecedor imediato de uma nova versão d’Os Lusíadas. Talvez até da Bíblia.



publicado por José António Abreu às 08:33
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
Roupas de Verão

 

 

O novo vídeo do álbum Merryweather Post Pavillion, dos Animal Collective. Ainda um dos melhores - se não o melhor - disco pop do ano. Foi lançado em Janeiro, quando chovia e fazia frio, mas já então estas roupas de Verão pareciam irresistíveis.



publicado por José António Abreu às 21:43
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Regresso necessário a uma religião esquecida

Uma questão que qualquer pessoa – crente ou não – se coloca algumas vezes durante a vida é a clássica: se Deus é bom e omnipotente, por que permite tantas desgraças e actos maldosos? Conheço a teoria do livre arbítrio mas, mesmo assumindo que Deus nos liberta para o bem e para o mal e fica a assistir impávido e sereno a violações, assassinatos e outros actos pouco simpáticos, apenas nos punindo depois da morte, isso não explica os desastres naturais. Sendo todo-poderoso, é Ele que os causa? Ou, mais uma vez, apenas assiste, nada fazendo por não querer ou não poder? Das duas uma: ou Deus é sádico ou afinal é impotente. Nenhuma das hipóteses me parece lisonjeira ou passível de fácil aceitação por parte da Igreja.

 
Grande parte do problema advém do facto do deus do Cristianismo (que, relembre-se, é o mesmo do Judaísmo e do Islamismo) ser apresentado como um gajo sem falhas. Os bons velhos deuses gregos ou romanos (chamemos-lhes clássicos, para facilitar) tinham todas as qualidades e defeitos dos humanos que os veneravam: mentiam, enganavam, lutavam entre si, arranjavam formas ardilosas de ir para a cama com outros deuses ou com mortais particularmente atraentes. Um humano sabia que quando o mar estava revolto ou quando ocorria um tremor de terra, Poseidon tinha algo a ver com o assunto. Por outro lado, quando se apaixonava também sabia quem responsabilizar (Afrodite ou o seu filho Eros, mais tarde identificado como Cupido pelos romanos). As coisas eram fáceis e lógicas. E deuses assim até são simpáticos. Pode-se perfeitamente xingar um deus assim. Experimentem lá dizer que Deus – o deus cristão, judaico e islâmico – é um sacana sem coração por causar terramotos com milhares de mortos ou nos impingir o Sócrates (o mais-ou-menos licenciado em engenharia, não o filósofo grego). Mesmo um ateu sente um arrepiozinho pela heresia.
 
O nosso (como quem diz) Deus é normalmente apresentado como o velhote da Coca-Cola (corpulento, de longas barbas), só que com uma fatiota branca que lhe disfarça a barriga. O Islão proíbe representações visuais mas, ainda assim, os crentes islâmicos do sexo masculino devem ser influenciados por elas, uma vez que acham importante usar barba e vestimentas no mesmo estilo. Nas últimas décadas, as feministas têm protestado contra esta representação. Algumas garantem mesmo que Deus é uma mulher. Talvez. Isso poderia explicar os desastres naturais como sendo vulgares acidentes: o painel de comando na sala de Deus deve ser complexo e provavelmente pouco parecido com o de uma máquina de lavar roupa. Também aqui, e apesar do conceito do politicamente correcto ainda não existir na Atenas de há dois mil e quinhentos anos, os deuses clássicos eram mais igualitários. Zeus, o manda-chuva (não é metáfora, uma vez que era o deus dos céus, da trovoada e dos relâmpagos) era do sexo masculino mas existiam inúmeras deusas poderosas, algumas desempenhando cargos de prestígio não habitualmente associados ao sexo feminino (p. ex., Artemisa, deusa da caça e das florestas, que guardava ciosamente a sua virgindade - outra condição pouco comum nas mulheres actuais -, e Atenas, entre outras coisas deusa da inteligência e da razão).
 
Os deuses clássicos também se prestam bem a actualizações. Veja-se a que os romanos fizeram quando conquistaram a Grécia. Actualmente, no seguimento das tendências político-tecnológicas, poderiam escolher-se nomes mais cibernéticos. Acrescentar um ponto a Zeus faz logo uma grande diferença, desde que seja colocado no sítio certo (Z.eus é claramente melhor que Zeu.s; obviamente, os Americanos tentariam impor Ze.us e a comissão europeia faria um esforço para nos convencer de que o ideal seria usarem-se dois pontos: Z.eu.s). O monte Olimpo poderia ser substituído pelo Monte Google e, para além dos deuses mais tradicionais (guerra, oceanos, céu, caça, amor, inteligência, etc.) poderiam arranjar-se divindades adaptadas a problemas actuais. Proponho desde já o deus do trânsito ou o deus das novelas da TVI. Para os que estão a achar tudo isto ridículo, lembro que ainda hoje muita gente venera deuses gregos. Vejam-se os adolescentes capazes de tudo pela deusa Nike (da vitória) ou os cinquentões endinheirados subjugados ao deus Hermes (do comércio, dos viajantes, do voo e, como se pode constatar pelo preço das gravatas, dos ladrões).
 
Para terminar, e como profeta desta nova velha religião, agradeço que me passem a tratar por j.aa. Juntem-se a mim. Vamos ser maiores que a Cientologia.
 
Zeus. Isto NÃO é um cartoon.
 


publicado por José António Abreu às 08:26
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Domingo, 14 de Junho de 2009
De noite, a 320 km/h, numa estrada pública

Uma das minhas recordações mais antigas é estar num talude baixo sobre uma estrada que então era em terra e hoje se encontra asfaltada, mesmo por cima da povoação de Folques, na zona de Arganil. Os meus pais encontravam-se junto a mim mas o que se me gravou na memória foi um pequeno carro azul saindo em derrapagem de uma curva por entre uma nuvem de pó. Disparou na nossa direcção, passou quase por baixo de nós e continuou a descer a encosta dançando de curva em curva. O carro era uma berlineta Alpine Renault A110. Tornou-se instantaneamente no meu veículo preferido e nem carros de marcas mais famosas, como um Porsche que passou depois, lhe conseguiram roubar o lugar.

 
Vem isto a propósito da minha paixão pelo automobilismo. As 24 horas de Le Mans terminaram há pouco. Passei pelo menos meia dúzia de horas com o televisor sintonizado nos canais Eurosport, que as acompanharam em permanência. São talvez a última prova automobilística com verdadeira alma, agora que o Dakar a perdeu e que os ralis são provas assépticas que fogem à noite e ao factor resistência. É hoje impossível imaginar um rali com um troço de 56 km, feito às sete da manhã em pleno mês de Março, como o Arganil dos anos oitenta. Ou com as características de um Safari. Como em quase tudo o resto, estamos hoje mais civilizados, bem comportados, lógicos – e aborrecidos. Se calhar J. G. Ballard tinha razão na entrevista que mencionei aqui: não devíamos tentar civilizar demasiado o desporto, sob risco de este perder a função de escape de tensões e frustrações.
 
Apesar da relevância mediática não ter comparação com a da monótona Fórmula 1, Le Mans mantém as características básicas que tornaram a prova especial: exige-se talento, inteligência, capacidade de sofrimento, um veículo rápido e fiável, trabalho de equipa, sorte. Há outras provas de 24 horas que exigem o mesmo, mas nenhuma tem a história de Le Mans. Mesmo a instalação das duas chicanes na mítica recta das Hunaudières (pelas tão politicamente correctas razões de segurança) não conseguiram estragar a pista e as impressionantes velocidades que se atingem (longe dos 405 km/h que ficaram como recorde mas, ainda assim, bem acima dos 300).
 

Este ano ganhou a Peugeot, conseguindo finalmente derrotar a Audi, grande vencedora dos últimos anos. Foi pena Pedro Lamy, que tinha carro e companheiros para lutar pela vitória, ter sido abalroado nas boxes logo no início. Mas faz parte. A contingência, as histórias de sorte e de azar, a alegria e a tristeza, a energia e o cansaço – tudo isso é Le Mans.

 

  

Fotos pedidas emprestadas aqui.



publicado por José António Abreu às 14:47
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Sábado, 13 de Junho de 2009
Ainda a pirataria...

O post sobre o Partido Pirata sueco e a pirataria em geral motivou uma troca de comentários com alguns visitantes, muito em especial com um membro do Partido Pirata português (por enquanto um movimento, no futuro eventualmente um verdadeiro partido político). Como é costume nestas discussões, chega-se a um ponto em que a discussão parece bloqueada, porque a visão dos assuntos (e do mundo) é tão diferente que torna difícil estabelecer consensos. Isto é uma espécie de resumo do meu ponto de vista – obviamente, parcial.

 
1.
A questão dos direitos de autor é uma questão legal mas é, acima de tudo, uma questão ética. Quem cria algo merece ser compensado por cada utilizador e não apenas pelos primeiros (no limite, o primeiro). Cabe aos autores decidir se prescindem dos direitos. Dizem-nos que objectos que podem ser copiados (ou seja, onde o dono não perde o original) não devem estar sujeitos às mesmas regras que objectos materiais (onde o proprietário ficaria sem ele se eu lho tirasse). A semântica é sem dúvida uma ferramenta poderosa. Porque há-de um escultor (que cria um objectos não-copiáveis) ser diferente de um músico (que cria bens passíveis de cópia)? Dir-me-ão talvez que no futuro também poderá vir a ser possível copiar as esculturas e a situação passará a ser idêntica. Mas por que tem hoje o escultor mais direitos?
 
2.
O volume de lucro dos artistas é irrelevante e citá-lo (valha a verdade que ninguém, aqui, o fez mas é um argumento habitual) só pode ser demagogia ou inveja. Até porque, por cada banda (ou escritor, fotógrafo, artista plástico) milionária há milhares de pequenas bandas que não o são.
 
3.
O argumento de que as editoras (ou, em termos mais genéricos, os intermediários) ganham demasiado é também frequentemente falso e é sempre uma desculpa. A gravação e lançamento de uma obra de música clássica exige recursos enormes e o mercado é exíguo. As editoras de jazz certamente não ganham rios de dinheiro. As editoras de livros, especialmente as que apostam em obras de qualidade, também não. Mas eu sei – não é da responsabilidade dos “piratas” preocuparem-se com isso. Eles apenas querem que tudo esteja disponível quase sem custos para o consumidor. Suponho que estejam disponíveis para financiar gravações das sinfonias de Beethoven. Ou talvez achem que já existem versões suficientes no mercado.
 
4.
Muitos dos defeitos apontados ao sistema de patentes são reais (na minha opinião, especialmente porque o sistema dá frequentemente azo a registo abusivo de ideias menores e/ou que não têm verdadeira inovação). Ainda assim, propor a sua abolição sem sugerir alternativas nos vários campos em que o sistema dá garantias de retorno dos investimentos parece-me um tiro no escuro. A excepção, no que à apresentação de alternativas diz respeito, é a investigação farmacêutica, em que o Partido Pirata sueco propõe o financiamento público total, com o argumento de que não é assim tanto dinheiro (cerca de 15% da facturação das empresas farmacêuticas) e que isso permitiria reduzir o preço dos medicamentos, garantindo poupanças nas comparticipações estatais. Basicamente, as empresas passariam a ser fabricantes de genéricos desenvolvidos com fundos públicos. A ideia tem mérito suficiente para merecer ser discutida mas, numa época em que os Estados têm graves problemas orçamentais, é dúbio que se pudessem aplicar os fundos necessários, muito em especial em países que já hoje têm dificuldades em financiar a investigação pública - como Portugal. Uma mudança destas seria também uma oportunidade de ouro para empresas de outros blocos económicos ganharem um avanço quase irrecuperável. Como algumas ideias anti-globalização, esta é uma alteração que, para ter hipóteses de resultar, precisaria de um acordo global, na prática impossível de conseguir. Ou estarão à espera de uma revolução mundial simultânea? E ainda fica por explicar como se financiariam todas as outras áreas de investigação. Também com fundos públicos? Duvido que as empresas europeias se mantivessem durante muito tempo no topo da tecnologia, com péssimos resultados para a competitividade e o emprego na Europa. A eliminação das patentes também não é a única forma de fazer chegar medicamentos mais baratos a África, um dos argumentos mais utilizados pelos "piratas". Bens alimentares não têm patente e não é por isso que a fome está erradicada do continente africano. A questão é de vontade política.
 
5.
O Partido Pirata recusa apresentar um modelo de sociedade. O que vier a acontecer, aconteceu. Poderá ser uma espécie de anarquia? Poderá ser a nacionalização de toda a actividade económica com conteúdo criativo? Parece que os membros não sabem. Sabemos que o Estado terá que existir e que terá de ser forte, uma vez que irá financiar grande parte da actividade económica. Quando até bens físicos puderem ser copiados a preço razoável, suponho que terá de ser o Estado a fornecer o molde para tudo, uma vez que nenhuma empresa privada arriscará os fundos necessários para conceber um produto de que apenas fabricará, no limite, um exemplar. A verdade é que, para garantir a igualdade no acesso à cultura (objectivo descrito por um dos membros do partido português), todas as pessoas teriam que ter condições idênticas. Para o conseguir, e apesar de me dizerem que não é isso que se preconiza, tudo teria que ser comum – isto é, público. O corolário das ideias do Partido Pirata é uma sociedade em que o Estado financiaria e geriria tudo, fornecendo aos cidadãos rendimentos absolutamente iguais, de forma a garantir a igualdade, permitindo-lhes talvez depois que os aplicassem como entendessem, de forma a garantir a liberdade que o partido também afirma defender. Utopias deste tipo existem há muito mas as tentativas de implementação deram sempre péssimos resultados.
 
6.
O sistema actual tem falhas. Com certeza. Todos o sabemos. Nenhum modelo atingirá alguma vez a perfeição. Ainda assim, a evolução (tecnológica, de conhecimento, social, política, cultural) do último século não tem comparação no resto da História. Pretender destruí-lo sem uma alternativa muito bem pensada a todos os níveis parece-me imprudente e irresponsável.
 

Post Scriptum: os comentários continuam a ser bem-vindos mas, como é natural, visões diferentes tenderão sempre a gerar opiniões diferentes, pelo que apenas responderei àquilo que considerar não ter ainda deixado explícito (e eventualmente com algum atraso, uma vez que estou no interior centro do país, nem sempre junto do computador e, mesmo quando isso sucede, com um acesso móvel à net mais lento que um caracol preguiçoso).



publicado por José António Abreu às 13:12
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009
Acelerar ou travar?

Como quase nada neste governo é por acaso, o calendário de arranque das grandes obras públicas deve ter sido planeado cuidadosamente para coincidir com o período pré-eleitoral. Para azar de Sócrates e do PS, o revés nas eleições europeias permitiu que as críticas do PSD e as reservas de Cavaco ganhassem uma nova visibilidade – e credibilidade. Para o PS, a questão não é de legitimidade ou de convicção. Como de costume, é de marketing político. Preferirá o eleitorado a habitual imagem de teimosia (os leitores socialistas podem substituir por firmeza) ou uma posição mais cordata, capaz de mostrar ao povo que Sócrates, afinal, é um rapaz sensato que percebeu o sinal de domingo passado?

 
Como elemento adicional de análise, Cavaco tem uma palavra a dizer sobre o calendário do TGV (mas não das auto-estradas). Ninguém sabe qual a posição do presidente. Mas poderá Sócrates arriscar um confronto com Cavaco mesmo antes das eleições?
 

Aceitam-se apostas. A minha é que Sócrates avançará com a construção das auto-estradas, para preservar a imagem de determinação, mas não arriscará o confronto com Cavaco e deixará arrastar o processo do TGV até depois das eleições.



publicado por José António Abreu às 17:26
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
Good Ship Venus

Na sequência do post anterior e porque o meu cérebro tem a irritante mania de fazer associações que apenas ele entende, não resisto a deixar aqui uma versão de "Good Ship Venus", provavelmente o mais desbocado tema de piratas alguma vez composto. É cantada por Loudon Wainwright III e pode ser encontrado em Rogue’s Gallery, uma excelente compilação de canções de piratas cantadas por gente como Bono, Nick Cave, Sting, Bryan Ferry e Lou Reed, e produzida por Johnny Depp (o capitão Jack Sparrow) e Gore Verbinski (o realizador da série de filmes Piratas das Caraíbas). Acompanhem a letra com atenção mas não junto a crianças que percebam inglês. Quando a música terminar, por volta dos 3’13’’, podem ir fazer outra coisa porque não acontece mais nada.

 

 



publicado por José António Abreu às 17:27
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O partido pirata e os ladrões

The Pirate Party wants to fundamentally reform copyright law, get rid of the patent system, and ensure that citizens' rights to privacy are respected. With this agenda, and only this, we are making a bid for representation in the European and Swedish parliaments.

 

Com as linhas gerais apresentadas acima, o partido pirata sueco conseguiu 7,13% dos votos nas eleições europeias de domingo passado e elegeu um deputado. Por cá, li comentários de várias pessoas (por exemplo, no site da revista Blitz), garantindo que, existisse um partido similar em Portugal, votariam nele. Bom, talvez venham a ter oportunidade de o fazer, uma vez que parece que existe ou está em vias de existir. Isso não impede que, no meio de uma crise global (ou mesmo fora dela), achar que o motivo certo para conceder o voto a um determinado partido é este defender a total eliminação de patentes e a quase total eliminação dos direitos de autor, seja uma incrível demonstração de falta de contacto com a realidade. Os “piratas” não defendem um sistema político ou social específico, não têm uma visão da economia, não propõem soluções para os problemas dos sistemas de saúde, educação ou justiça, não se preocupam com a sustentabilidade da segurança social. Como eles próprios admitem (releiam a citação), o programa é apenas reformar os direitos de autor (abolindo-os ou, nos casos de utilização comercial, limitando-os a cinco anos), eliminar o sistema de patentes (propõem que o estado financie a investigação farmacêutica) e garantir o direito à privacidade (hurra!). Isto foi suficiente para que 225 915 suecos lhes dessem o voto. Por mais que tente evitá-lo, a palavra “idiotas” não pára de rodopiar dentro da minha cabeça.

 
Apesar da defesa do fim dos direitos de autor não equivaler à defesa ou realização de downloads ilegais, tanto o nome como o programa do partido pirata (que fala do acesso à cultura como se os direitos de autor fossem o único obstáculo a que as pessoas leiam mais ou ouçam mais música), como também os comentários que se lêem pela net, deixam subentendido que legalizar os downloads é uma das principais motivações. Acho irónico – e ridículo – que muitos rapazes e raparigas (alguns com quarenta ou cinquenta anos) recusem dar 10 ou 15 euros por um álbum de música (em suporte físico ou por download), que tem certamente uma margem de lucro mas cujo conteúdo exigiu o trabalho e a inspiração de muita gente (compositores, letristas, intérpretes, técnicos de som, designers, etc.), o uso de estúdios e de equipamento dispendioso (vão ver quanto custa uma guitarra eléctrica), para além de estar sujeito a impostos, mas estejam perfeitamente disponíveis para dar os mesmos 15 euros por uma t-shirt de má qualidade, fabricada na China, vendida à porta da sala de espectáculos onde a banda a quem roubaram a música dá um concerto. Não é por acaso que estatísticas mostram que muitos artistas estão a ganhar mais vendendo merchandising que discos. E também não é por acaso que o preço dos bilhetes para espectáculos ao vivo subiu acentuadamente na última década. O facto de Madonna (logo seguida por outros) ter deixado a editora tradicional que lhe lançou a maioria dos álbuns por uma empresa que tem como principal actividade a organização de espectáculos diz muito. Se os discos não dão dinheiro, é preciso ganhá-lo por outras vias. Claro que quem não é famoso pode ter dificuldade em encher as salas. E que o preço elevado dos ingressos suscita longas sequências de queixumes entre o desânimo e a raiva aos mesmos comentadores que, no site da Blitz, tanto se entusiasmaram com as ideias do partido pirata. Azar, meus caros. Um almoço nunca é de graça.
 
P.S. Muito a propósito, o Público tem um artigo sobre pirataria. Como se pode constatar por alguns argumentos (no texto e nos comentários), hoje em dia a ética é que é uma batata.


publicado por José António Abreu às 16:49
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Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
O que Camões pensava de nós

A propósito do 10 de Junho, o i de hoje traz um artigo interessante sobre Camões. Segundo defendem alguns professores universitários, Camões desprezava o povo português, bem como Vasco da Gama, e nunca pretendeu que Os Lusíadas fossem expressão da "alma portuguesa". Não surpreende: muitos dos nossos melhores escritores nunca pareceram particularmente enlevados com o país que lhes coube em sorte. É, aliás, por isso que são grandes: com desprezo, resignação ou ternura, mostram-nos como somos. Desde sempre, até hoje.

 

De qualquer modo, excepto por razões académicas, a questão não é importante. Citando George Orwell (anteontem comemoraram-se os 60 anos da publicação original de 1984), myths which are believed in tend to become true. Mesmo que não gostasse de nós, Camões foi um génio. Viva Os Lusíadas! Viva Portugal!



publicado por José António Abreu às 20:31
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Imagens recolhidas pelas ruas: 6

Cidade da Praia, Cabo Verde, Novembro de 2007.



publicado por José António Abreu às 14:33
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Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Masculino, à justa

Nove pontos! O meu cérebro é masculino por muito, muito pouco. Pelo menos estão explicados alguns pensamentos estranhos e uma ou outra atitude incompreensível.

 

Façam o teste (o link é para o i, que foi onde vi a notícia; depois vos reenviarão para o outro lado do Atlântico).



publicado por José António Abreu às 22:07
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Análise comparativa.

«Tenho as minhas forças e tenho as minhas fraquezas. Sei que há coisas que faço bem e coisas que não faço tão bem. Aprendi que devemos estar sempre a aprender.»

Gordon Brown, primeiro-ministro britânico.
 

«Eu quero garantir aos portugueses que estes resultados em nada diminuem a determinação do PS para estar à altura das suas responsabilidades na governação do nosso país.» «Esta noite noite dá-nos apenas mais vontade, mais ânimo, e mais energia, para encararmos com determinação, as tarefas, que o partido socialista, tem pela frente.»

José Sócrates, primeiro-ministro português.

 

Nota: as vírgulas na segunda frase de Sócrates não são engano. Pede-se, aliás, que a frase seja lida fazendo pausas em cada uma delas.



publicado por José António Abreu às 19:43
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Primeiro a gordura faz mal mas depois faz bem.

Uma discreta notícia no site do jornal Público informa-nos que, de acordo com um estudo realizado em Nova Orleães, os gordos estão mais sujeitos a terem doenças cardiovasculares que os magros mas também lhes resistem melhor. Já não é apenas em caso de fome generalizada (evidentemente, os magros morreriam primeiro) que os gordos têm vantagem. No meio da histeria comunicacional e legislativa que procura desenfreadamente impor-nos padrões de comportamento e aparência, é divertido ver como a ciência é complexa e contraditória. Ou, se calhar e contra todas as expectativas, Deus tem sentido de humor.



publicado por José António Abreu às 13:42
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A verdadeira explicação.

No post anterior adiantei uma explicação para os resultados das eleições europeias terem dado vantagem aos partidos de direita, mesmo em países onde se encontram no poder. Lendo o que se tem escrito na net, tudo indica que é uma explicação demasiado optimista, se não totalmente ingénua.

 

De facto, a verdade parece ser que os partidos de direita ganharam por questões de nacionalismo, racismo e xenofobia. (Já quando a esquerda ganha, é por todas as razões certas.) Para além do atestado de menoridade que se passa aos eleitores, esta visão perpetua um mito que, por esta altura, devia ser apenas estudado em cursos de história política. Em termos que até um miúdo de três anos entenderia: esquerda - bom; direita - mau.

 

É verdade que alguns partidos europeus de direita têm defendido políticas mais restritivas em matéria de imigração e que Sarkozy tem feito campanha contra a integração da Turquia na UE. Até ver, nada disso é ilegítimo, como não o foi a oposição tonitruante da esquerda, assustada com o canalizador polaco, à directiva Bolkestein. Deixando de lado Berlusconi, que é um caso muito especial, alguém defende que a UMP de Sarkozy, a CDU de Merkel ou o partido conservador de Cameron são partidos de extrema-direita? E mesmo o PP espanhol, onde podem subsistir alguns tiques do Franquismo, já governou durante vários sem que tivesse ocorrido uma catástrofe política ou social (não fosse o atentado em Atocha, talvez ainda estivesse no poder).

 

Preocupante é sim o crescimento dos partidos de extrema-direita (por cá, o PND já conseguiu treze mil votos e na Holanda, um país com eleitores presumivelmente esclarecidos, a extrema-direita chegou aos 17%) e de extrema-esquerda (em Portugal, o PC e o Bloco atingiram mais de 21% e gozam da complacência geral). Esta fuga para os extremos é preocupante pelo que em si representa (ler post anterior) e porque os partidos moderados, de direita e de esquerda, podem tender a extremar posições (assumindo políticas securitárias à direita e políticas económicas e sociais suicidas à esquerda), numa tentativa de não deixar fugir votos para os extremos. Cabe-nos a todos, independentemente de nos considerarmos de direita ou de esquerda (e, felizmente, poucas pessoas são hoje ideologicamente "puras"), exigir que isso não aconteça. Mas convém não misturar tudo no mesmo saco.



publicado por José António Abreu às 08:21
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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
Os extremos da ilusão e o centro do pragmatismo.

As eleições de ontem parecem apresentar resultados razoavelmente consistentes a nível europeu: reforço dos partidos nos extremos do espectro político, tanto à direita como à esquerda, e mais forte penalização de partidos suportando governos de esquerda que de direita. O que justifica isto no meio de uma crise financeira, económica e social?

 
Tenho para mim que há três tipos de eleitores: os militantes, os que se recusam a aceitar a realidade e os pragmáticos. Os primeiros não contam para esta análise porque não mudam facilmente o sentido de voto (ou fazem-no apenas quando mudam de camisola). Analisar os outros dois grupos é mais interessante.
 
Parte da população – em Portugal como noutros países, à direita como à esquerda – não entende a existência de momentos de dificuldade. Quando eles chegam, recusa a realidade e refugia-se nos extremos do espectro político. Os partidos de extrema-direita garantem que é tudo uma questão de autoridade, de proibir a entrada de emigrantes que nos vêm roubar os empregos, de voltar a certos valores morais. Os de extrema-esquerda garantem que a culpa é dos ricos e que se pode combater eficazmente a crise combatendo-os a eles. Jogam também com questões menores mas publicitariamente eficazes – os chamados “temas fracturantes” – que lhes conferem uma imagem de modernidade cool e escondem a realidade dos anquilosados modelos governativos, económicos e sociais em que baseiam as suas ideologias. De um lado e do outro do espectro político cresce-se eleitoralmente.
 
Depois há uma mole de gente que (ainda?) sabe que tem que ser pragmática. E que, nestas eleições, deu vantagem aos partidos de direita. Porquê? Talvez porque sinta que estes também o são. Por muitas promessas impossíveis de cumprir que façam, tendem a esconder menos a realidade. Assumem que, tendo o mundo mudado, é preciso mudar algumas coisas. Correr riscos. Estes votantes podem estar irritados com os banqueiros mas sabem que não é com discursos grandiloquentes e hipócritas contra o capital que se resolve a situação (até porque a culpa não foi só dos banqueiros). Podem não gostar de sentir que os sistemas de protecção social estão sob pressão mas preferem soluções que garantam um mínimo que soluções insustentáveis a prazo. Podem apreciar muito do que o estado providencia mas sabem que os estados estão gordos e acomodados. São votantes que preferem o realismo de um Sarkozy dizendo-lhes que a solução passa por trabalhar mais ou, contra todas as expectativas, de uma Ferreira Leite afirmando que não há dinheiro para investimentos faraónicos sem retorno garantido.
 

Resta saber se os partidos de direita têm efectivamente respostas à altura e se as conseguem aplicar no clima actual, com uma esquerda vociferante, uma extrema-direita a erguer a cabeça e uma comunicação social maioritariamente adversa. Se não forem capazes de o fazer, ou se as soluções falharem, depressa perderão muitos destes votos. Talvez para os extremos.



publicado por José António Abreu às 10:45
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Domingo, 7 de Junho de 2009
A falta de vergonha da SIC.

A SIC está há mais de quinze minutos a pedir a elementos dos vários partidos que comentem uma sondagem que só não é irrelevante como disse António Barreto, chamando a atenção para o facto das circunstâncias terem mudado, porque é benéfica para o PS. Claro que este ganha a distância significativa do PSD e - surpresa - o CDS cai abruptamente. Isto é pior jornalismo que o da muito criticada Manuela Moura Guedes.



publicado por José António Abreu às 23:09
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Coisas que parecem em noite de eleições europeias.

Parece que nem a presença de Sócrates na campanha ajudou Vital.

 

Parece que a estrategiazinha descarada de Vital e Sócrates para ligar o PSD ao BPN fez ricochete.

 

Parece que, segundo Sócrates, estes resultados nada têm a ver com as legislativas. Parece que, em 2004, o PS tinha outra opinião.

 

Parece que realmente os comícios não são necessários.

 

Parece que o CDS continua a existir, contra todas as empresas de sondagens.
 

Parece que o PSD ganhou, contra todas as empresas de sondagens.

 

Parece que as empresas de sondagens consultam mais pessoas de esquerda que de direita; se calhar há mais gente de esquerda com telefone fixo.

 

Parece que a CDU está a ter dificuldades em engolir um aumento de votos.

 

Parece que o BE já se acha perto de ganhar à geral.

 

Parece que Paulo Portas está tão emocionado por os eleitores lhe terem dado mais quatro meses de vida suspensa como o Federer estava esta tarde depois de ganhar Roland Garros.

 

Parece que a crise internacional não é igualmente má para todos os governos.

 

Parece que, apesar das sondagens terem provado não valer grande coisa, é essencial apresentar uma referente às legislativas ainda durante a noite das europeias.

 

Parece que estas noites estão a acabar cada vez mais cedo.



publicado por José António Abreu às 22:24
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Já se pode deixar de culpar a praia.

Pelos elevados valores da abstenção nas eleições europeias (e também nas outras). Espero que possamos passar a culpar apenas quem efectivamente tem culpa: os políticos que desmotivam qualquer votante e os eleitores que acham mais importantes eleições para a presidência do clube de futebol da sua preferência que eleições para o parlamento europeu.



publicado por José António Abreu às 19:23
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Federer

No futebol é mais fácil. É, aliás, fácil demais. O frenesi mediático e a histeria dos adeptos garante a muitos futebolistas a condição de heróis muito antes de terem conseguido algo de verdadeiramente excepcional. Noutros desportos, com escrutínio menos público mas mais exigente, as coisas são diferentes. É também mais difícil para um desportista que não jogue futebol transcender o universo dos que apreciam o desporto que pratica e tornar-se um ícone global. Roger Federer conseguiu-o há anos. Mas, para muitos apreciadores de ténis, faltava-lhe vencer Roland Garros. Já não falta.
 
A forma como Federer jogou nesta quinzena foi fantástica, mesmo – ou especialmente – quando não jogou bem. Em nenhum momento isso terá sido tão evidente como na sexta-feira, na meia-final contra Juan Martin Del Potro. Del Potro (um futuro campeão) foi mais forte durante cerca de três sets. Ganhou o primeiro e o terceiro, perdeu o segundo no tie break. Ao longo destes três sets Federer pareceu quase subjugado, falhando muito e, mesmo quando não falhava, com um jogo inócuo para o argentino. Mas foi fazendo algo que se revelou crucial: obrigou Del Potro a correr. Fê-lo correr de um lado para o outro e, acima de tudo, fê-lo correr para a frente e para trás, com bolas longas, bolas curtas e drop shots. No quarto set Del Potro começou a ceder. Começou a ser mais lento, a colocar menos primeiros serviços, a falhar mais. E Federer venceu. Hoje, na final, não deu hipóteses a Robin Soderling, que actuara em estado de graça frente a Nadal, Ferrer ou Gonzalez. Tremeu um pouco no final do encontro mas dominou sempre. Em grande medida, isso sucedeu porque o estilo de jogo de Soderling “encaixa” melhor no seu que o de outros jogadores. E também porque os factores psicológicos que intervêm quando defronta Nadal – mesmo que Federer os negue – não tinham razão de ser. Mas não foi apenas isso. Numa prova de inteligência, Federer ajustou alguns pormenores do seu jogo. Passou a usar mais o drop shot (já o fizera há três semanas em Madrid, onde venceu Nadal na final). Procurou os seus próprios pontos fortes e não se deixar cair no estilo de jogo do adversário (ele que chegou a ser conhecido por gostar de derrotar os adversários jogando no estilo deles). E, acima de tudo, nos momentos em que as coisas não lhe corriam bem, foi inteligente – e suficientemente humilde – para aguentar estoicamente, cansar o adversário e desferir o ataque no momento certo (fê-lo contra Del Potro mas, dias antes, havia-o feito contra Tommy Haas). Todos os grandes desportistas têm que possuir boas capacidades técnicas. As lendas vão um pouco mais longe porque sabem que por vezes é aí que conseguem a diferença, em especial quando já não estão no máximo da forma física.
 

Teria sido interessante vê-lo defrontar Nadal. Creio que poderia ter ganho. Mas, nunca fiando (os tais factores psicológicos...), foi melhor assim. Porque esta vitória é uma coroação merecida e é também fundamental para garantir grandes espectáculos nos próximos tempos.

 

(Como de costume, a foto é do Estoril Open do ano passado.)



publicado por José António Abreu às 18:11
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Sábado, 6 de Junho de 2009
Cumprindo o dever de reflectir.

1.

Dia de reflexão antes das eleições europeias. A primeira reacção de qualquer mortal normal é estranhar a ideia. Mas, reflectindo, talvez se descortine alguma lógica. Nos tempos actuais, fala-se muito mas pensa-se pouco. E, tal como se preocupa em criar legislação para que nos seja mais difícil fumar ou comer pão com muito sal, o estado entende que, pelo menos nestes dias, devemos pensar. Por enquanto, é uma indicação. Um dia que nos oferecem para que o façamos. Mas, da mesma forma que se pondera tornar o voto obrigatório, não é de excluir que, no fututo, pensar possa vir a ser uma obrigação legal.

 

2.

Fartei-me de procurar no site da Comissão Nacional de Eleições e nos das empresas de sondagens mas não encontrei quaisquer dados sobre a percentagem de pessoas que efectivamente reflecte neste dia. É pena. Alguém devia encomendar um estudo. Que, aliás, se poderia estender a outras épocas. Um barómetro mensal, por exemplo.

 

3.

Diz-se que a praia pode afastar muitos eleitores das urnas, reforçando a abstenção. Por aqui, o tempo está apenas razoável. Ainda assim, pergunto-me quantos eleitores a preferirão - ou aos centros comerciais - ao dever cívico de reflectir.



publicado por José António Abreu às 12:29
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Viagens em lista de espera. 2: Tasmânia.

Foto de Harf Zimmermann, pedida emprestada aqui.

 

A Austrália atrai-me. Há uns tempos, o falecido José Megre declarou que não gostara do deserto australiano. Forçara-se a passar lá umas semanas só para poder dizer que não gostara, foi como ele pôs as coisas. Fiquei um pouco descoroçoado mas nem por isso deixei de sentir vontade de lá ir. Pela imensidão, pelos cangurus, pelos koalas, pelos kookaburras, pelo Ned Kelly (de quem, através do livro de Peter Carey, fiquei com uma imagem de um bandido não totalmente mau e um pouco trapalhão, conjugação que me é simpática) e todos os outros criminosos que fizeram o país, pelo Nick Cave, pelas raparigas ligeiramente kitsch que se tornam estrelas planetárias e conseguem deixar de ser kitsch pelo caminho (Nicole Kidman, Naomi Watts, Kylie Minogue), pela maneira de ser dos Australianos (easygoing mas com tomates; sempre me fascinaram relatos envolvendo o exército Australiano durante a Segunda Guerra Mundial), enfim, como de costume, por uma imensidão de factores objectivos, subjectivos e mistos (politicamente correcto oblige).

 
Mas, na imensidão da Austrália, ou, na realidade, perto da imensidão da Austrália, perdida a duzentos e tal quilómetros a Sul, encontra-se uma região que me fascina ainda mais que o resto do continente: a Tasmânia. Se calhar por ser tão pequena (comparativamente; sempre é a vigésima sexta maior ilha do planeta), se calhar por estar a sul do resto do país, o que torna estranho alguém ter decidido ir viver para lá dispondo de tanto terreno disponível mais a norte (mesmo que os mapas mostrem uma realidade diferente, a Austrália já parece tão a sul), se calhar pela promessa de paisagens exóticas: leio que 37% da área é ocupada por reservas naturais e que se lhe referem como “a ilha da inspiração”. Bom, talvez, mas não estou a par de muitas odes à Tasmânia na poesia mundial, nem sequer de terem passado por lá escritores, artistas plásticos ou cineastas famosos. Exactamente o que é que ela inspirou para merecer o epíteto?
 
A ilha foi descoberta em 1642 por Abel Tasman, que lhe deu o nome de Terra de Van Diemen, em homenagem ao governador holandês das Índias Ocidentais. Mais tarde, já na posse dos britânicos, serviu como colónia penal para condenados por crimes graves (foram enviados para lá mais de dez mil, a maioria durante a primeira metade do século XIX). Os U2 referem-se-lhe no tema “Van Diemen’s Land”, do álbum Rattle and Hum. Em 1856, o nome foi alterado para Tasmânia. Acho qualquer dos dois suficientemente evocativo. Um ponto negro na história da ilha (como no resto da Austrália) é o genocídio dos Aborígenes (o último aborígene "puro" terá morrido em 1876). Como é óbvio, este não é um ponto de atracção, a não ser pelo facto de provar que, mesmo partindo de um bando de condenados sem escrúpulos, se pode criar um país moderno e eticamente evoluído.
 
A ilha é (num dos casos, foi) lar de dois dos animais que povoam o meu imaginário: o tigre e o diabo da tasmânia. O primeiro encontra-se extinto há quase um século mas, por alguma esconsa razão, fascina-me desde a infância (lembro-me de ver uma imagem num livro e de ficar a pensar que devia ser um animal terrível; afinal era tigre e vivia num sítio estranho, cujo nome me soava ligeiramente ameaçador). O segundo atrai-me porque, caramba, deram-lhe o nome de diabo, que ainda é pior que tigre, é pequenote mas tem maxilares capazes de aplicar mais força que os de qualquer outro mamífero e aparecia nos desenhos animados do Bugs Bunny. Parece que nos últimos anos a população de diabos diminuiu por causa de um tumor que lhes ataca a boca; mas quando diabo (no pun intended) é que se descobre uma cura para o cancro?
 

De resto, pouco mais sei acerca do sítio. Só que se demora uma quantidade absurda de horas a lá chegar. Eu não gosto particularmente de andar de avião e, mais importante, não tenho tempo disponível. O que é capaz de ser bom. Porque assim posso pronunciar a palavra Tasmânia de vez em quando (creio que não o faço em voz alta mas os olhares de estranheza que às vezes me lançam de alguma coisa serão) e saborear quase tudo o que realmente me fascina. 

 

O verdadeiro diabo:

  

O diabo da Warner Brothers:

  

Van Diemen's Land:

  



publicado por José António Abreu às 08:43
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Blographo.

Excelente, o novo blogue do Público com imagens dos fotógrafos do jornal. Muitas estão comentadas pelos autores, o que, para quem gosta do processo de construção da imagem (onde sorte, técnica e capacidade de antevisão se misturam), é um motivo extra para visitar o blogue.



publicado por José António Abreu às 22:12
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Obama: vamos ser amigos?

O discurso de Obama na universidade do Cairo é, como de costume, excelente. Mas é também um portento de compromissos. Vamos por partes.

 

Quase toda a gente estava farta de George W. Bush e de quem o rodeava. Eu incluo-me nesse vasto grupo. Obama surgiu como a alternativa simpática, culta, carismática, conciliadora. Elevou - propositada ou inadvertidamente - a  fasquia para um nível impossível de saltar. No discurso de tomada de posse deixou claro que era necessário baixá-la. Apesar disso, ainda é visto como o potencial salvador do mundo (mais na Europa que nos Estados Unidos).

 

Tendo definido uma estratégia de charme (ou, se quiserem, de cenoura e pau, com muito mais cenoura que pau), tem tentado fazer a quadratura do círculo: convencer todos da sua boa vontade (que existe), da sua disposição para dialogar (que é real), da sua abertura para aceitar soluções que não as defendidas tradicionalmente pelos EUA - que não pode ser genuína porque há certos princípios que Obama (e outros, como os líderes dos países da UE) não pode deixar de defender. Um exemplo: no Cairo, ele mencionou os problemas no acesso das mulheres à educação em países islâmicos nos seguintes termos: "não acredito que uma mulher que use véu não seja igual, mas acredito que uma mulher a quem é negada educação não é igual". É uma formulação inteligente mas é também quase acrítica e totalmente inconsequente. Por enquanto, neste como em muitos outros assuntos, ele pode ainda dar tempo ao tempo. Mas, mais tarde ou mais cedo, se não se verificarem - como é provável que não se venham a verificar - evoluções positivas nas questões mais importantes (p. ex., Palestina, Irão e Paquistão) terá que tomar posições mais claras. De acordo com a The Economist, o primeiro-ministro israelita, aquando da visita a Washington, tentou arrancar-lhe um prazo para uma decisão acerca da estratégia a adoptar na questão iraniana. Obama terá sido evasivo, acabando por declarar que no final do ano já deverá ter uma ideia acerca do que é possível conseguir junto do regime iraniano. Talvez na mesma altura já saiba como abordar a questão da Palestina. Ou as ameaças (que, na realidade, parecem mais ridículas que perigosas) da Coreia do Norte. Ou a situação no Paquistão. Ou as questões dos direitos humanos em vários pontos do globo (cuidadosamente contornadas no discurso do Cairo). Ou como lidar com a Rússia. A estratégia de cordialidade, com oferta de amizade a todos os antigos inimigos, necessita de muito tempo e funcionaria melhor se os países visados tivessem uma opinião pública que fosse verdadeiramente importante (e, como quase todos aprendemos na escola, raramente se transforma o rufia da turma num gajo porreiro cortejando-o no recreio). Pergunto-me se estaremos tão satisfeitos daqui a um ano ou ano e meio se nada evoluir ou, pior, se as coisas se agravarem no Paquistão, ocorrer um novo atentado grave na Europa ou nos Estados Unidos, ou Israel atacar reactores no Irão. E se ele (terá coragem?) mudar de estratégia, quais serão as reacções? Todos sabemos quão rapidamente o amor se tranforma em ódio...

 

Para já, merece o benefício da dúvida. E é um excepcional orador, o que, para quem gosta tanto de palavras como eu, é uma qualidade assinalável, em especial quando em Portugal estamos sujeitos a Sócrates (por mais que ele tente colar-se ao estilo Obama) e a Ferreira Leite.



publicado por José António Abreu às 18:09
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