Agora que começa a época de praia, uma foto tirada ao entardecer duma tarde de Junho de 2004, na praia de Lavadores.
Apenas sei de cor três poemas: um de Fernando Pessoa, um de Miguel Torga, um de W. B. Yeats. Tenho na memória versos de mais uns quantos mas só por sorte conseguiria declamar os poemas a que pertencem do início ao fim sem erros crassos ou bloqueios fatais. Decorei estes três há tantos anos que esqueci a razão por que a minha memória os reteve. Lembro-me apenas de os ler muitas vezes. Talvez me tenha apercebido que quase os sabia de cor e tivesse insistido até que isso fosse verdade. Habitualmente, de nada me serve sabê-los. Hoje em dia não andamos pelas ruas ou pelos gabinetes a declamar poesia e a maioria de nós não é convidada para programas de TV onde, qual Odete Santos declamando Gedeão, tenhamos hipótese de espantar o mundo com os nossos conhecimentos. Espantar ou embaraçar, porque, nos dias que correm, demonstrar cultura de forma gratuita é frequentemente um embaraço. Na maior parte do tempo nem sequer me lembro que os sei de cor. No entanto, há um par de anos descobri que saber três poemas – ou apenas um, desde que o certo – ainda pode ser útil.
Já é tarde. Tivesse eu menos vinte anos, faria um esforço para decorar mais alguns poemas…
Até há poucos anos julgava-se que nem primatas nem mamíferos tropicais estivavam. É sabido que muitos cochilam nos momentos de calor intenso mas normalmente conseguem sair da letargia ao entardecer ou durante dias mais frescos. Espanhóis e alentejanos são exemplos típicos mas creio que todos temos familiares com este comportamento, em grau mais ou menos desenvolvido. Em 2004, as coisas mudaram. Descobriu-se que um pequeno lémure de Madagáscar dorme sete meses por ano com temperaturas exteriores elevadas. Agora, em 2009, pode-se juntar-lhe o “animal feroz”, em estivação de 7 de Junho de 2009 até uma data ainda indefinida nos finais de Setembro ou princípios de Outubro.
Soube pelo i que que José Eduardo Moniz está a ponderar candidatar-se à presidência do Benfica. Sendo a notícia original do Expresso que, tal como a SIC, é parte do grupo Impresa, imagina-se a satisfação expectante com que foi recebida a informação. Mas, independentemente de considerações paralelas, a hipótese tem alguma lógica. Afinal, nada melhor que o cargo ser ocupado pelo maior especialista nacional em novelas. E o Benfica sempre tem um canal de televisão para José Eduardo e Manuela continuarem a brincar aos jornalistas de vez em quando.
«Informação completa é essencial nestes tempos de crise», disse o administrador. «Quero relatórios diários.»
«Informação completa é essencial nestes tempos de crise. Quero relatórios duas vezes por dia.»
Se outro mérito não tivesse (e, nesta altura do campeonato, provavelmente não tem), a moção de censura ao governo apresentada pelo CDS e discutida hoje à tarde no parlamento permitirá ver se Sócrates vai mesmo tentar adoptar uma postura de humildade e diálogo nos próximos três meses. O problema – para quem deseja a mudança – é Sócrates ser o escorpião da conhecida fábula em que o sapo aceita ajudar o escorpião a atravessar o rio, depois de este lhe explicar que não o pode ferrar sem morrer afogado mas, a meio da travessia, espeta mesmo o ferrão no batráquio, originando a morte de ambos – porque os instintos dele são mais fortes que quaisquer considerações racionais. Será interessante ver se Sócrates consegue domar a sua natureza bélica. Duvido. Mesmo com um curso rápido de anger management ministrado pelos muitos consultores do PS, os instintos do escorpião tenderão a vir ao de cima.
Como se constata pelo frenesi mediático dos últimos dias, a verdadeira religião em Portugal é o futebol. Uma religião que admite discussões apaixonadas e um par de profetas que poucos imaginariam poderem submeter-se a uma mesma lógica. Repare-se nos seus nomes: Cristiano e Mourinho. Dizem-me que já existiram momentos de tensão entre ambos mas, ainda que seja verdade, constituem um extraordinário exemplo para Vaticano e Meca. O deus da bola (€) une-os, o povo idolatra-os de igual modo e nem comentários críticos de aspirantes esforçados mas não iluminados lhes abalam o estatuto.
São profetas dos dias de hoje, que praguejam e insultam mas também mostram generosidade. Que estão à vontade nos humildes locais onde nasceram ou entrando nos recantos mais in de Paris. É por isso compreensível que os canais televisivos tenham repetidamente aberto os noticiários com longas reportagens sobre a transferência de Cristiano para o Real Madrid e os seus divertimentos californianos, relegando notícias como os tumultos no Irão (onde?) para segundo plano. Entre os dois, Cristiano e Mourinho representam tudo o que os portugueses anseiam ser. Aliás, melhor mesmo que existirem os dois, era eles se f…undirem. O ente resultante da fusão brilharia com uma luz própria tão forte que ninguém poderia olhá-lo de frente e seria merecedor imediato de uma nova versão d’Os Lusíadas. Talvez até da Bíblia.
O novo vídeo do álbum Merryweather Post Pavillion, dos Animal Collective. Ainda um dos melhores - se não o melhor - disco pop do ano. Foi lançado em Janeiro, quando chovia e fazia frio, mas já então estas roupas de Verão pareciam irresistíveis.
Uma questão que qualquer pessoa – crente ou não – se coloca algumas vezes durante a vida é a clássica: se Deus é bom e omnipotente, por que permite tantas desgraças e actos maldosos? Conheço a teoria do livre arbítrio mas, mesmo assumindo que Deus nos liberta para o bem e para o mal e fica a assistir impávido e sereno a violações, assassinatos e outros actos pouco simpáticos, apenas nos punindo depois da morte, isso não explica os desastres naturais. Sendo todo-poderoso, é Ele que os causa? Ou, mais uma vez, apenas assiste, nada fazendo por não querer ou não poder? Das duas uma: ou Deus é sádico ou afinal é impotente. Nenhuma das hipóteses me parece lisonjeira ou passível de fácil aceitação por parte da Igreja.
Uma das minhas recordações mais antigas é estar num talude baixo sobre uma estrada que então era em terra e hoje se encontra asfaltada, mesmo por cima da povoação de Folques, na zona de Arganil. Os meus pais encontravam-se junto a mim mas o que se me gravou na memória foi um pequeno carro azul saindo em derrapagem de uma curva por entre uma nuvem de pó. Disparou na nossa direcção, passou quase por baixo de nós e continuou a descer a encosta dançando de curva em curva. O carro era uma berlineta Alpine Renault A110. Tornou-se instantaneamente no meu veículo preferido e nem carros de marcas mais famosas, como um Porsche que passou depois, lhe conseguiram roubar o lugar.
Este ano ganhou a Peugeot, conseguindo finalmente derrotar a Audi, grande vencedora dos últimos anos. Foi pena Pedro Lamy, que tinha carro e companheiros para lutar pela vitória, ter sido abalroado nas boxes logo no início. Mas faz parte. A contingência, as histórias de sorte e de azar, a alegria e a tristeza, a energia e o cansaço – tudo isso é Le Mans.
Fotos pedidas emprestadas aqui.
O post sobre o Partido Pirata sueco e a pirataria em geral motivou uma troca de comentários com alguns visitantes, muito em especial com um membro do Partido Pirata português (por enquanto um movimento, no futuro eventualmente um verdadeiro partido político). Como é costume nestas discussões, chega-se a um ponto em que a discussão parece bloqueada, porque a visão dos assuntos (e do mundo) é tão diferente que torna difícil estabelecer consensos. Isto é uma espécie de resumo do meu ponto de vista – obviamente, parcial.
Post Scriptum: os comentários continuam a ser bem-vindos mas, como é natural, visões diferentes tenderão sempre a gerar opiniões diferentes, pelo que apenas responderei àquilo que considerar não ter ainda deixado explícito (e eventualmente com algum atraso, uma vez que estou no interior centro do país, nem sempre junto do computador e, mesmo quando isso sucede, com um acesso móvel à net mais lento que um caracol preguiçoso).
Como quase nada neste governo é por acaso, o calendário de arranque das grandes obras públicas deve ter sido planeado cuidadosamente para coincidir com o período pré-eleitoral. Para azar de Sócrates e do PS, o revés nas eleições europeias permitiu que as críticas do PSD e as reservas de Cavaco ganhassem uma nova visibilidade – e credibilidade. Para o PS, a questão não é de legitimidade ou de convicção. Como de costume, é de marketing político. Preferirá o eleitorado a habitual imagem de teimosia (os leitores socialistas podem substituir por firmeza) ou uma posição mais cordata, capaz de mostrar ao povo que Sócrates, afinal, é um rapaz sensato que percebeu o sinal de domingo passado?
Aceitam-se apostas. A minha é que Sócrates avançará com a construção das auto-estradas, para preservar a imagem de determinação, mas não arriscará o confronto com Cavaco e deixará arrastar o processo do TGV até depois das eleições.
Na sequência do post anterior e porque o meu cérebro tem a irritante mania de fazer associações que apenas ele entende, não resisto a deixar aqui uma versão de "Good Ship Venus", provavelmente o mais desbocado tema de piratas alguma vez composto. É cantada por Loudon Wainwright III e pode ser encontrado em Rogue’s Gallery, uma excelente compilação de canções de piratas cantadas por gente como Bono, Nick Cave, Sting, Bryan Ferry e Lou Reed, e produzida por Johnny Depp (o capitão Jack Sparrow) e Gore Verbinski (o realizador da série de filmes Piratas das Caraíbas). Acompanhem a letra com atenção mas não junto a crianças que percebam inglês. Quando a música terminar, por volta dos 3’13’’, podem ir fazer outra coisa porque não acontece mais nada.
The Pirate Party wants to fundamentally reform copyright law, get rid of the patent system, and ensure that citizens' rights to privacy are respected. With this agenda, and only this, we are making a bid for representation in the European and Swedish parliaments.
Com as linhas gerais apresentadas acima, o partido pirata sueco conseguiu 7,13% dos votos nas eleições europeias de domingo passado e elegeu um deputado. Por cá, li comentários de várias pessoas (por exemplo, no site da revista Blitz), garantindo que, existisse um partido similar em Portugal, votariam nele. Bom, talvez venham a ter oportunidade de o fazer, uma vez que parece que existe ou está em vias de existir. Isso não impede que, no meio de uma crise global (ou mesmo fora dela), achar que o motivo certo para conceder o voto a um determinado partido é este defender a total eliminação de patentes e a quase total eliminação dos direitos de autor, seja uma incrível demonstração de falta de contacto com a realidade. Os “piratas” não defendem um sistema político ou social específico, não têm uma visão da economia, não propõem soluções para os problemas dos sistemas de saúde, educação ou justiça, não se preocupam com a sustentabilidade da segurança social. Como eles próprios admitem (releiam a citação), o programa é apenas reformar os direitos de autor (abolindo-os ou, nos casos de utilização comercial, limitando-os a cinco anos), eliminar o sistema de patentes (propõem que o estado financie a investigação farmacêutica) e garantir o direito à privacidade (hurra!). Isto foi suficiente para que 225 915 suecos lhes dessem o voto. Por mais que tente evitá-lo, a palavra “idiotas” não pára de rodopiar dentro da minha cabeça.
A propósito do 10 de Junho, o i de hoje traz um artigo interessante sobre Camões. Segundo defendem alguns professores universitários, Camões desprezava o povo português, bem como Vasco da Gama, e nunca pretendeu que Os Lusíadas fossem expressão da "alma portuguesa". Não surpreende: muitos dos nossos melhores escritores nunca pareceram particularmente enlevados com o país que lhes coube em sorte. É, aliás, por isso que são grandes: com desprezo, resignação ou ternura, mostram-nos como somos. Desde sempre, até hoje.
De qualquer modo, excepto por razões académicas, a questão não é importante. Citando George Orwell (anteontem comemoraram-se os 60 anos da publicação original de 1984), myths which are believed in tend to become true. Mesmo que não gostasse de nós, Camões foi um génio. Viva Os Lusíadas! Viva Portugal!
Nove pontos! O meu cérebro é masculino por muito, muito pouco. Pelo menos estão explicados alguns pensamentos estranhos e uma ou outra atitude incompreensível.
Façam o teste (o link é para o i, que foi onde vi a notícia; depois vos reenviarão para o outro lado do Atlântico).
«Tenho as minhas forças e tenho as minhas fraquezas. Sei que há coisas que faço bem e coisas que não faço tão bem. Aprendi que devemos estar sempre a aprender.»
Gordon Brown, primeiro-ministro britânico.
«Eu quero garantir aos portugueses que estes resultados em nada diminuem a determinação do PS para estar à altura das suas responsabilidades na governação do nosso país.» «Esta noite noite dá-nos apenas mais vontade, mais ânimo, e mais energia, para encararmos com determinação, as tarefas, que o partido socialista, tem pela frente.»
José Sócrates, primeiro-ministro português.
Nota: as vírgulas na segunda frase de Sócrates não são engano. Pede-se, aliás, que a frase seja lida fazendo pausas em cada uma delas.
Uma discreta notícia no site do jornal Público informa-nos que, de acordo com um estudo realizado em Nova Orleães, os gordos estão mais sujeitos a terem doenças cardiovasculares que os magros mas também lhes resistem melhor. Já não é apenas em caso de fome generalizada (evidentemente, os magros morreriam primeiro) que os gordos têm vantagem. No meio da histeria comunicacional e legislativa que procura desenfreadamente impor-nos padrões de comportamento e aparência, é divertido ver como a ciência é complexa e contraditória. Ou, se calhar e contra todas as expectativas, Deus tem sentido de humor.
No post anterior adiantei uma explicação para os resultados das eleições europeias terem dado vantagem aos partidos de direita, mesmo em países onde se encontram no poder. Lendo o que se tem escrito na net, tudo indica que é uma explicação demasiado optimista, se não totalmente ingénua.
De facto, a verdade parece ser que os partidos de direita ganharam por questões de nacionalismo, racismo e xenofobia. (Já quando a esquerda ganha, é por todas as razões certas.) Para além do atestado de menoridade que se passa aos eleitores, esta visão perpetua um mito que, por esta altura, devia ser apenas estudado em cursos de história política. Em termos que até um miúdo de três anos entenderia: esquerda - bom; direita - mau.
É verdade que alguns partidos europeus de direita têm defendido políticas mais restritivas em matéria de imigração e que Sarkozy tem feito campanha contra a integração da Turquia na UE. Até ver, nada disso é ilegítimo, como não o foi a oposição tonitruante da esquerda, assustada com o canalizador polaco, à directiva Bolkestein. Deixando de lado Berlusconi, que é um caso muito especial, alguém defende que a UMP de Sarkozy, a CDU de Merkel ou o partido conservador de Cameron são partidos de extrema-direita? E mesmo o PP espanhol, onde podem subsistir alguns tiques do Franquismo, já governou durante vários sem que tivesse ocorrido uma catástrofe política ou social (não fosse o atentado em Atocha, talvez ainda estivesse no poder).
Preocupante é sim o crescimento dos partidos de extrema-direita (por cá, o PND já conseguiu treze mil votos e na Holanda, um país com eleitores presumivelmente esclarecidos, a extrema-direita chegou aos 17%) e de extrema-esquerda (em Portugal, o PC e o Bloco atingiram mais de 21% e gozam da complacência geral). Esta fuga para os extremos é preocupante pelo que em si representa (ler post anterior) e porque os partidos moderados, de direita e de esquerda, podem tender a extremar posições (assumindo políticas securitárias à direita e políticas económicas e sociais suicidas à esquerda), numa tentativa de não deixar fugir votos para os extremos. Cabe-nos a todos, independentemente de nos considerarmos de direita ou de esquerda (e, felizmente, poucas pessoas são hoje ideologicamente "puras"), exigir que isso não aconteça. Mas convém não misturar tudo no mesmo saco.
As eleições de ontem parecem apresentar resultados razoavelmente consistentes a nível europeu: reforço dos partidos nos extremos do espectro político, tanto à direita como à esquerda, e mais forte penalização de partidos suportando governos de esquerda que de direita. O que justifica isto no meio de uma crise financeira, económica e social?
Resta saber se os partidos de direita têm efectivamente respostas à altura e se as conseguem aplicar no clima actual, com uma esquerda vociferante, uma extrema-direita a erguer a cabeça e uma comunicação social maioritariamente adversa. Se não forem capazes de o fazer, ou se as soluções falharem, depressa perderão muitos destes votos. Talvez para os extremos.
A SIC está há mais de quinze minutos a pedir a elementos dos vários partidos que comentem uma sondagem que só não é irrelevante como disse António Barreto, chamando a atenção para o facto das circunstâncias terem mudado, porque é benéfica para o PS. Claro que este ganha a distância significativa do PSD e - surpresa - o CDS cai abruptamente. Isto é pior jornalismo que o da muito criticada Manuela Moura Guedes.
Parece que nem a presença de Sócrates na campanha ajudou Vital.
Parece que a estrategiazinha descarada de Vital e Sócrates para ligar o PSD ao BPN fez ricochete.
Parece que, segundo Sócrates, estes resultados nada têm a ver com as legislativas. Parece que, em 2004, o PS tinha outra opinião.
Parece que realmente os comícios não são necessários.
Parece que o CDS continua a existir, contra todas as empresas de sondagens.
Parece que o PSD ganhou, contra todas as empresas de sondagens.
Parece que as empresas de sondagens consultam mais pessoas de esquerda que de direita; se calhar há mais gente de esquerda com telefone fixo.
Parece que a CDU está a ter dificuldades em engolir um aumento de votos.
Parece que o BE já se acha perto de ganhar à geral.
Parece que Paulo Portas está tão emocionado por os eleitores lhe terem dado mais quatro meses de vida suspensa como o Federer estava esta tarde depois de ganhar Roland Garros.
Parece que a crise internacional não é igualmente má para todos os governos.
Parece que, apesar das sondagens terem provado não valer grande coisa, é essencial apresentar uma referente às legislativas ainda durante a noite das europeias.
Parece que estas noites estão a acabar cada vez mais cedo.
Pelos elevados valores da abstenção nas eleições europeias (e também nas outras). Espero que possamos passar a culpar apenas quem efectivamente tem culpa: os políticos que desmotivam qualquer votante e os eleitores que acham mais importantes eleições para a presidência do clube de futebol da sua preferência que eleições para o parlamento europeu.
Teria sido interessante vê-lo defrontar Nadal. Creio que poderia ter ganho. Mas, nunca fiando (os tais factores psicológicos...), foi melhor assim. Porque esta vitória é uma coroação merecida e é também fundamental para garantir grandes espectáculos nos próximos tempos.
(Como de costume, a foto é do Estoril Open do ano passado.)
1.
Dia de reflexão antes das eleições europeias. A primeira reacção de qualquer mortal normal é estranhar a ideia. Mas, reflectindo, talvez se descortine alguma lógica. Nos tempos actuais, fala-se muito mas pensa-se pouco. E, tal como se preocupa em criar legislação para que nos seja mais difícil fumar ou comer pão com muito sal, o estado entende que, pelo menos nestes dias, devemos pensar. Por enquanto, é uma indicação. Um dia que nos oferecem para que o façamos. Mas, da mesma forma que se pondera tornar o voto obrigatório, não é de excluir que, no fututo, pensar possa vir a ser uma obrigação legal.
2.
Fartei-me de procurar no site da Comissão Nacional de Eleições e nos das empresas de sondagens mas não encontrei quaisquer dados sobre a percentagem de pessoas que efectivamente reflecte neste dia. É pena. Alguém devia encomendar um estudo. Que, aliás, se poderia estender a outras épocas. Um barómetro mensal, por exemplo.
3.
Diz-se que a praia pode afastar muitos eleitores das urnas, reforçando a abstenção. Por aqui, o tempo está apenas razoável. Ainda assim, pergunto-me quantos eleitores a preferirão - ou aos centros comerciais - ao dever cívico de reflectir.
Foto de Harf Zimmermann, pedida emprestada aqui.
A Austrália atrai-me. Há uns tempos, o falecido José Megre declarou que não gostara do deserto australiano. Forçara-se a passar lá umas semanas só para poder dizer que não gostara, foi como ele pôs as coisas. Fiquei um pouco descoroçoado mas nem por isso deixei de sentir vontade de lá ir. Pela imensidão, pelos cangurus, pelos koalas, pelos kookaburras, pelo Ned Kelly (de quem, através do livro de Peter Carey, fiquei com uma imagem de um bandido não totalmente mau e um pouco trapalhão, conjugação que me é simpática) e todos os outros criminosos que fizeram o país, pelo Nick Cave, pelas raparigas ligeiramente kitsch que se tornam estrelas planetárias e conseguem deixar de ser kitsch pelo caminho (Nicole Kidman, Naomi Watts, Kylie Minogue), pela maneira de ser dos Australianos (easygoing mas com tomates; sempre me fascinaram relatos envolvendo o exército Australiano durante a Segunda Guerra Mundial), enfim, como de costume, por uma imensidão de factores objectivos, subjectivos e mistos (politicamente correcto oblige).
De resto, pouco mais sei acerca do sítio. Só que se demora uma quantidade absurda de horas a lá chegar. Eu não gosto particularmente de andar de avião e, mais importante, não tenho tempo disponível. O que é capaz de ser bom. Porque assim posso pronunciar a palavra Tasmânia de vez em quando (creio que não o faço em voz alta mas os olhares de estranheza que às vezes me lançam de alguma coisa serão) e saborear quase tudo o que realmente me fascina.
O verdadeiro diabo:
O diabo da Warner Brothers:
Van Diemen's Land:
Excelente, o novo blogue do Público com imagens dos fotógrafos do jornal. Muitas estão comentadas pelos autores, o que, para quem gosta do processo de construção da imagem (onde sorte, técnica e capacidade de antevisão se misturam), é um motivo extra para visitar o blogue.
O discurso de Obama na universidade do Cairo é, como de costume, excelente. Mas é também um portento de compromissos. Vamos por partes.
Quase toda a gente estava farta de George W. Bush e de quem o rodeava. Eu incluo-me nesse vasto grupo. Obama surgiu como a alternativa simpática, culta, carismática, conciliadora. Elevou - propositada ou inadvertidamente - a fasquia para um nível impossível de saltar. No discurso de tomada de posse deixou claro que era necessário baixá-la. Apesar disso, ainda é visto como o potencial salvador do mundo (mais na Europa que nos Estados Unidos).
Tendo definido uma estratégia de charme (ou, se quiserem, de cenoura e pau, com muito mais cenoura que pau), tem tentado fazer a quadratura do círculo: convencer todos da sua boa vontade (que existe), da sua disposição para dialogar (que é real), da sua abertura para aceitar soluções que não as defendidas tradicionalmente pelos EUA - que não pode ser genuína porque há certos princípios que Obama (e outros, como os líderes dos países da UE) não pode deixar de defender. Um exemplo: no Cairo, ele mencionou os problemas no acesso das mulheres à educação em países islâmicos nos seguintes termos: "não acredito que uma mulher que use véu não seja igual, mas acredito que uma mulher a quem é negada educação não é igual". É uma formulação inteligente mas é também quase acrítica e totalmente inconsequente. Por enquanto, neste como em muitos outros assuntos, ele pode ainda dar tempo ao tempo. Mas, mais tarde ou mais cedo, se não se verificarem - como é provável que não se venham a verificar - evoluções positivas nas questões mais importantes (p. ex., Palestina, Irão e Paquistão) terá que tomar posições mais claras. De acordo com a The Economist, o primeiro-ministro israelita, aquando da visita a Washington, tentou arrancar-lhe um prazo para uma decisão acerca da estratégia a adoptar na questão iraniana. Obama terá sido evasivo, acabando por declarar que no final do ano já deverá ter uma ideia acerca do que é possível conseguir junto do regime iraniano. Talvez na mesma altura já saiba como abordar a questão da Palestina. Ou as ameaças (que, na realidade, parecem mais ridículas que perigosas) da Coreia do Norte. Ou a situação no Paquistão. Ou as questões dos direitos humanos em vários pontos do globo (cuidadosamente contornadas no discurso do Cairo). Ou como lidar com a Rússia. A estratégia de cordialidade, com oferta de amizade a todos os antigos inimigos, necessita de muito tempo e funcionaria melhor se os países visados tivessem uma opinião pública que fosse verdadeiramente importante (e, como quase todos aprendemos na escola, raramente se transforma o rufia da turma num gajo porreiro cortejando-o no recreio). Pergunto-me se estaremos tão satisfeitos daqui a um ano ou ano e meio se nada evoluir ou, pior, se as coisas se agravarem no Paquistão, ocorrer um novo atentado grave na Europa ou nos Estados Unidos, ou Israel atacar reactores no Irão. E se ele (terá coragem?) mudar de estratégia, quais serão as reacções? Todos sabemos quão rapidamente o amor se tranforma em ódio...
Para já, merece o benefício da dúvida. E é um excepcional orador, o que, para quem gosta tanto de palavras como eu, é uma qualidade assinalável, em especial quando em Portugal estamos sujeitos a Sócrates (por mais que ele tente colar-se ao estilo Obama) e a Ferreira Leite.
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