como sobreviver submerso.
Quarta-feira, 3 de Março de 2010
A procura incerta do livro certo
Fnac do GaiaShopping, há cerca de hora e meia. Ouço atrás de mim: «… é para ele oferecer ao pai.» «E que género de livros é que o pai gosta de ler?» Rodo. A senhora terá sessenta e poucos anos, tem um miúdo de seis ou sete ao lado, e um livro de Ken Follett na mão. A funcionária da Fnac é nova, com cabelo encaracolado. (É também bastante mais do que razoavelmente atraente, se pensarmos bem no assunto.)
 
A senhora hesita. Acaba por dizer, num lamento: «Ele gosta de ler tudo.» Baixa os olhos para o rapaz. «Não é?» O miúdo assente energicamente com a cabeça. A funcionária da Fnac faz mais algumas perguntas mas consegue apenas a idade do homem («Ai, já tem… uns quarenta»). Apesar da parca informação, sorri (a miúda tem fibra; não há sombra de exasperação no rosto dela), diz que volta já e dirige-se à zona das novidades. A mulher olha na minha direcção e eu, num assombroso acesso de falta de originalidade, saco do telemóvel e finjo consultá-lo. Sinto-me um bocado mal por ali estar mas tenho de ver que livro a rapariga escolheu. Ela volta logo a seguir e entrega à senhora – Francisco José Viegas, faça o favor de enviar uma caixa de chocolates para a Fnac do GaiaShopping – um exemplar de O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño. Explica-lhe sumariamente que é um dos autores mais falados nos últimos tempos e que, tendo O Terceiro Reich saído há poucos dias, é improvável que o pai do miúdo já o tenha. A senhora sopesa o livro com um ar onde me parece haver mais dúvida e cansaço do que entusiasmo. A rapariga espera durante alguns segundos, após o que diz: «Se preferir outra coisa, esteja à vontade para me pedir», e vai-se embora.
 
A mulher volta-se outra vez para o lado onde me encontro e eu franzo a testa, suspiro, sacudo a cabeça, meto o telemóvel no bolso e afasto-me com passadas enérgicas, mas fico a observar à distância. Andam por ali mais um par de minutos, hesitantes. Ela continua a segurar o Follett e o Bolaño e, a certa altura, pega ainda num José Rodrigues dos Santos. Finalmente, pousa Follett e Rodrigues dos Santos e dirige-se para as caixas com o Bolaño na mão e o miúdo atrás. Quem diz que os bons nunca ganham?
 
(Dedicado às vicissitudes diárias de hmbf e do pessoal da  dos Livros. E façam o favor de contemporizar, meus caros. Às vezes existem boas razões para pedidos estranhos. Afinal, a caminho da saída da Fnac vi a funcionária outra vez e tive vontade de lhe ir pedir um qualquer livro estapafúrdio só para meter conversa.)


publicado por José António Abreu às 20:32
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5 comentários:
De hmbf a 3 de Março de 2010 às 23:29
Só comigo é que ninguém quer meter conversa. :-)))) Obrigado pela dedicatória.


De José António Abreu a 4 de Março de 2010 às 07:52
Tem a certeza? Algumas motivações podem estar a  passar-lhe ao lado, hmbf...


De FJV a 4 de Março de 2010 às 10:31
Obrigado JAA! E da próxima vez que for ao GaiaShopping lá andarei à procura da funcionária nova de cabelo encaracolado e razoavelmente atraente, para lhe oferecer uma caixa de chocolates...


De José António Abreu a 4 de Março de 2010 às 13:23
Ufff! Por momentos até pensei que o verdadeiro Francisco José Viegas tinha colocado um comentário no meu bogue. Felizmente, depois reparei no ponto de exclamação...

(E não é que o link vai dar ao perfil dele? Estranho, muito estranho. Deve ter sido um hacker...)


De miguel a 9 de Março de 2010 às 23:20

engraçada situação sem duvida, apenas estou a comentar porque estou a ler um livro de robert bolano "2666" e é um livro surpreendente, livro esse que vi curiosamente a ser divulgado no seu lançamento em Portugal por Francisco josé Viegas . estou no final do livro, ando com ele ás costas literalmente pois tem 1020 páginas e pesa para ai uns 3 kilos , mas é um livro que se nos entranha no nosso ser de tão cru e tão mundano, conforme alguem disse bolano deixou ali sangue suor e por certo lágrimas....para mim uma pérola para saborear lentamente.


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