como sobreviver submerso.
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Lembrete.

«Olhe, tire mas é fotografias à minha casa, para ver se me dão outra.»

A senhora tem sessenta e tal anos, talvez mais, é pequenina, tem pele e cabelo enrugados, e não usou um tom agressivo. Antes um misto de desencanto e mordacidade. Traz com ela uma miúda de sete ou oito anos, vestida com saia azul e blusa e meias cor-de-laranja. Os olhos chamam-me imediatamente a atenção. São enormes e redondos, entre o espanto e a curiosidade.
Parei na rua estreita, máquina fotográfica pendurada do pescoço. Sorrio. «É aqui a sua casa?» pergunto.
«É a do primeiro andar», diz, imobilizando-se à minha frente. «Chove lá dentro e não se aguenta com o frio. Está a ver os buracos na parede? Dão mesmo para o meu quarto. À noite é um frio que não se aguenta.»
Vejo os buracos na parede, nas juntas entre as pedras. Ela conta-me que a senhoria morreu há cerca de um ano e que, desde então, por desinteresse e dificuldades económicas da herdeira, a casa se tem degradado. Que já foi à Câmara e que uns senhores da Câmara vieram a casa dela e mandaram colocar uma janela nova na sala. Mas que nada fizeram acerca dos buracos que estão cada vez maiores. Que gostava que lhe dessem ­uma casa nova. Corrige: dessem não, arrendassem, pois sabe muito bem que teria que pagar uma renda, e superior aos sete euros e meio que paga actualmente. «Há quatro ali em cima, está a ver? as amarelas?, que a Câmara arranjou e estão vazias.»
Enquanto a velha me conta tudo isto, a miúda deambula por perto. Aproxima-se agora. Espreita para a objectiva da máquina fotográfica. Levanto-a ligeiramente para que veja a lente frontal. Digo para a velha: «Já pediu uma casa à Câmara?»
«Pedi quando cá vieram os homens. Mas tenho que ir à Câmara outra vez. Já me disseram onde é que é preciso ir.»
A miúda continua a tentar espreitar o interior da máquina através da objectiva. Sorrio. Levanto a câmara. «Queres ver?» Mostro-lha. Um pombo caminha pelas pedras do chão. Tiro-lhe uma foto, sem me preocupar com a focagem ou com a velocidade de obturação. Deixo a miúda vê-la no ecrã da máquina. Sei que está tremida mas no ecrã parece razoável. Para a miúda, a velha diz qualquer coisa como «Estás a ver? O pombo aparece ali…» Ergo novamente a máquina. Digo: «Deixas-me tirar-te uma?» Os olhos da miúda tornam-se ainda maiores. Faz pose. Tiro-lhe duas fotos em rápida sucessão. Prometo: «Daqui a uns dias trago-ta.» A velha agradece. Diz: «Pode deixá-la aqui em casa e eu nessa altura já lhe conto o que me disseram na Câmara.» Faço que sim com a cabeça, despeço-me depois de desejar que tudo corra pelo melhor e afasto-me.
 

Estou em falta. Já passou um mês e ainda não fui lá levar a foto.

 

    



publicado por José António Abreu às 08:26
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2 comentários:
De Sílvia a 30 de Novembro de 2010 às 09:36
Nestas suas incursões pela cidade não parece nada eremita... (ehehe)

Posso perguntar-lhe se a sua falta já deixou de o ser...?


De José António Abreu a 30 de Novembro de 2010 às 10:09
Andar por aí com uma máquina fotográfica (coisa que tenho feito pouco nos últimos tempos) obriga-me a interagir com as pessoas. É uma forma de terapia.

Já. Poucos dias depois. A senhora tinha ido à Câmara mas, claro, ainda estava à espera de resposta. De qualquer modo (tendemos a não ver para além do curto prazo), já não se encontrava tão preocupada com os buracos na parede do quarto porque o Verão estava a chegar. 


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