como sobreviver submerso.
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
Da selectividade da memória: as obras públicas
A discussão sobre as obras públicas tem várias vertentes. A que encerra uma desonestidade mais gritante é aquela em que se comparam as posições actuais e passadas dos intervenientes políticos e se pretende que partidos e pessoas que defenderam obras públicas nas décadas de oitenta e noventa do século passado (nomeadamente, PSD e Cavaco Silva) não têm autoridade moral para adoptar agora uma posição crítica das mesmas.

Comecemos isto pela actualidade. Em finais de 2008 Portugal tinha 2860 km de auto-estradas. Dois anos antes, os quilómetros de auto-estrada já representavam 2,3% do total de vias. Apenas Espanha e Luxemburgo tinham percentagens superiores na UE a 25 (e, atendendo à sua dimensão e nível de riqueza, o Luxemburgo não é relevante para a discussão). A média na UE era de 1,2%. Portugal tinha 17 km de auto-estrada por cem mil habitantes enquanto a UE tinha uma média de 13. Por cá, existiam 20 km de auto-estrada por 1000 quilómetros quadrados enquanto na UE a média era de 15. Ainda mais interessante: Portugal era o segundo país do mundo – repito: do mundo – com mais quilómetros de auto-estrada por milhão de dólares de PIB. Apenas o Canadá se encontrava à nossa frente. 

Recuemos um quarto de século. No início de 1985, ano em que Cavaco chegou ao poder, a rede de auto-estradas tinha 158 km. Repito: 1-5-8 km. A A1 não ligava Lisboa a Porto porque lhe faltava quase metade (ficou completa apenas em 1991). A A2 não existia (foi concluída em 2002). A A3 (Porto - Valença) não existia (ficou completa em 1998). A A4 (Porto - Amarante) não existia. A A8 (Lisboa - Leiria) não existia como, naturalmente, não existiam os seus prolongamentos A17 e A29. A A9 (CREL) não existia. A A20 (Via de Cintura Interna) não existia (o anel foi fechado em 2007). A A22 (Via do Infante) não existia (é de 2003). A A23 (Torres Novas - Guarda) não existia. A A25 (Aveiro - Vilar Formoso) não existia (é de 2006) e o famigerado IP5, que substituiu, tinha 12 km inaugurados em 1983 (ficou concluído somente em 1990). Não existiam também a A7, a A10, a A11, a A12, a A13, a A14, a A15, a A19, a A21, a A24, a A27, a A28, a A30, a A31, a A41, a A42, a A47 e mais algumas que, por terem poucos quilómetros ou ainda serem conhecidas por IPs ou ICs, vou deixar de fora. Mais há mais. A ponte Vasco da Gama, em Lisboa, não existia (foi aberta ao público em 1998). A ponte do Freixo, no Porto, não existia (foi inaugurada em 1995). A ponte Rainha Santa Isabel (ou Europa), em Coimbra, não existia (é de 2004). O Eixo Norte-Sul não existia (as obras começaram em 1993 e terminaram em 2007). O Alfa Pendular não existia (a primeira viagem foi em 1999). A travessia ferroviária na ponte 25 de Abril não existia (também foi inaugurada em 1999). A Estação do Oriente não existia (é, claro, de 1998). O Metro do Porto não existia (a primeira linha foi inaugurada em 2003). O aeroporto do Porto não existia na forma que hoje conhecemos (o terminal actual é de 2005). O Centro Cultural de Belém não existia (o último módulo construído é de 1993). O Museu de Serralves não existia (inauguração em 1999). A Casa da Música não existia (foi inaugurada em 2005).

Chega?

Pode-se ou não considerar o investimento em obras públicas uma forma correcta de sair da crise. Pode-se ou não ver o nível de endividamento nacional como preocupante e condicionador das decisões a tomar neste campo. Pode-se ou não achar que os (ou alguns dos) projectos em discussão actualmente são despropositados e prejudiciais. O que não tem qualquer lógica é considerar que a situação actual é idêntica à que existia em 1985 e que quem optou então por determinadas soluções deve apoiá-las agora.


publicado por José António Abreu às 22:14
link do post | comentar | favorito

dentro do escafandro.
pesquisar
 
Janeiro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


à tona

Speaker do parlamento bri...

Imagens recolhidas pelas ...

Com o Douro por cenário: ...

Paisagens bucólicas: 105

Momentos com significado

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Paisagens bucólicas: 104

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Paisagens bucólicas: 103

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Das formas e cores: 48

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Das formas e cores: 47

Imagens recolhidas pelas ...

Das formas e cores: 46

Imagens recolhidas pelas ...

Cães e gatos pela cidade:...

Paisagens bucólicas: 102

Como Douro por cenário: 8...

Paisagens bucólicas: 101

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

Paisagens bucólicas: 100

Imagens recolhidas pelas ...

30 comentários
22 comentários
reservas de oxigénio
Clique na imagem, leia, assine e divulgue
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!
tags

actualidade

antónio costa

blogues

cães e gatos

cinema

crise

das formas e cores

desporto

diário semifictício

divagações

douro

economia

eleições

empresas

europa

ficção

fotografia

fotos

governo

grécia

homens

humor

imagens pelas ruas

literatura

livros

metafísica do ciberespaço

mulheres

música

música recente

notícias

paisagens bucólicas

política

porto

portugal

ps

sócrates

televisão

viagens

vida

vídeos

todas as tags

favoritos

(2) Personagens de Romanc...

O avençado mental

Uma cripta em Praga

Escada rolante, elevador,...

Bisontes

Furgoneta

Trovoadas

A minha paixão por uma se...

Amor e malas de senhora

O orgasmo lírico

condutas submersas
Fazer olhinhos
subscrever feeds