como sobreviver submerso.
Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Insensibilidade
Receio estar a ficar insensível a catástrofes. À contagem de mortos nas catástrofes. Cem mortos (já se pode considerar uma catástrofe?). Mil mortos. Cem mil mortos. É-me praticamente indiferente. Questão de zeros. Não pretendo diminuir a importância do que sucedeu no Haiti. Foi e está a ser horrível. Mas uma catástrofe, quando distante, é hoje e antes de mais um número com efeito de choque: «Jesus, parece que há cem mil mortos!», «Não, afinal é meio milhão!» E acompanhamos as frases com um frémito de horror, sendo que há uma componente de fascínio e outra de alívio na nossa voz. Fascínio pela dimensão da tragédia, alívio por ter acontecido lá longe. Actualmente, as catástrofes naturais expressam-se em números que se comparam para saber se a última foi mais ou menos mortífera do que a anterior. Como o número de mortos nas estradas por altura do Natal ou da Páscoa. Oito, dez, doze: qual a diferença para quem está defronte do televisor?
 
A morte já só impressiona em histórias individuais. Com pormenores que revelem o sofrimento de quem morreu ou de quem sobreviveu. É por isso que as televisões procuram casos específicos. Dizem-nos «meio milhão de mortos» mas vão à procura de casos concretos para que possamos sentir a dor. Dos pais das crianças que morreram, da mulher com um braço ao peito, do miúdo que ficou sozinho no mundo. Todavia, ao fazê-lo causam-nos (não, nada de generalizar: causam-me) uma outra sensação: a de estar assistindo a algo forçado, encenado, o episódio de um reality show. (O mal que a proliferação de reality shows fez à nossa capacidade de encarar a realidade de forma espontânea…) E surgem então vontades contraditórias: a de continuar a ver, em fascínio mórbido, e a de desligar o televisor, em negação.
 
A verdade é que a televisão, com as suas exigências de encenação, de novidade e de narração, é um filtro demasiado poderoso para que a autenticidade da dor subsista incólume. Vejo um homem com um penso cobrindo-lhe parte da cara, gente deitada nas ruas, edifícios em escombros, pessoas descarregando material de camiões, militares marchando para dentro de aviões, e sinto-me estranhamente anestesiado. Nestes tempos de sobrecarga sensorial, a única forma que me resta de sentir emoções é recorrer ao cérebro. À imaginação. (É o trabalho da imaginação que faz com as fotografias funcionem melhor do que a televisão.) Porque o que me incomoda está por trás das evidências – é o sofrimento e, no caso dos mortos, o sofrimento que precedeu as mortes. Há poucos dias vieram a público notícias da morte por frio de vários idosos que viviam sozinhos. Não mil nem dez mil: nove. Um número tão pouco impressionante que os jornais se sentiram forçados a salientar que tinham ocorrido num período de doze horas. Estas nove mortes incomodaram-me tanto ou mais que as mortes do terramoto no Haiti. E não por estarmos a falar de portugueses. (Desagrada-me, aliás, o comportamento recorrente dos meios de comunicação, realçando ad nauseam a inexistência de portugueses feridos em catástrofes ocorridas no estrangeiro, no que é quase uma insinuação de que – bastava um – podia ter sido pior.) Estas nove mortes incomodaram-me porque teria sido possível fazer algo para evitá-las (não resultaram de um imprevisível desastre natural) e especialmente porque aconteceram na sequência de um longo processo de sofrimento físico e psicológico. Dor. Solidão. Incapacidade. Frio. Desespero. São factores como estes – é pensar em factores como estes – que tornam a ideia da morte difícil de suportar. Daí que, quando penso no Haiti, não seja o número de mortos que me faz estremecer mas aquilo por que os vivos estão a passar. E, antes de quaisquer outros, os vivos-ainda-não-mortos (ou talvez os mortos-ainda-vivos), presos nos escombros com pernas e braços partidos, esvaindo-se em sangue, tentando suportar a dor e a noção de que vão morrer. Depois os que, não estando soterrados, estão feridos, sem que exista capacidade de socorro adequada. Finalmente, aqueles que, durante os próximos dias ou semanas, enfrentarão a fome, a sede, as doenças, os surtos de violência. Pensar na agonia – individual, mesmo quando multiplicada por milhares de casos – ainda tem (não sei se por muito, se por pouco tempo) força suficiente para me perturbar. A morte, não. A diferença entre mil ou cem mil mortos é estranhamente nublosa: um pouco como comparar dois filmes de acção com orçamentos totalmente díspares – o tamanho das explosões é diferente mas o filme nem por isso. E talvez a nebulosidade da distinção permita compreender como tantos regimes puderam e podem causar milhões de mortos: depois de se começar, as vítimas cessam de ser indivíduos e o seu número deixa de ser relevante.
 
É por tudo isto que tenho medo de estar a ficar insensível à contagem de mortos em catástrofes  De não lamentar ou me horrorizar tanto quanto devia. Mas o facto de o terramoto no Haiti ter causado a morte a milhares de pessoas (e há uma diferença entre dizer «milhares de mortos» ou «milhares de pessoas mortas»; murmurem-no e verifiquem) e de tantas outras estarem em dificuldades consegue ainda suscitar-me raiva e incompreensão. Carlos Barbosa de Oliveira escreveu-o aqui: parece que há povos (como também há pessoas) que nunca chegam a ter uma hipótese.


publicado por José António Abreu às 20:15
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2 comentários:
De maray a 17 de Janeiro de 2010 às 19:52

existe também a proximidade física. Não tenho nada de corporativa, nem tenho a noção arraigada de pátria que muitos têm, mas o fato do Haiti estar nas Américas, mesmo que numa américa diferente da "minha" américa, causa-me mais espanto do que o terremoto que houve na Itália, por ex. E não estou falando do número de mortos. Mas de alguma noção de "vizinhança!. De qualquer forma, concordo plenamente contigo que aos poucos, à força de notícias cada vez mais repetitivas a gente passe a se "acostumar". Embora eu não me acostume de jeito nenhum com a idéia da "minha" morte. O ser humano é confuso. Ou então eu é que sou. ..


De José António Abreu a 17 de Janeiro de 2010 às 20:47
Somos todos confusos. E, no fundo, todos parecidos. Independentemente do continente em que estejamos.

Escrevi isto quase como uma bofetada a mim próprio (daí ter mencionado que desejava evitar as generalizações). Mas não deixo de achar que a televisão, com o seu lado de encenação e especialmente depois de ter banalizado a "realidade", mostrando-nos gente em estúdiio a pedir perdão, ou a fazer declarações de amor, ou a discutir, perante as palmas de uma plateia, já para não mencionar programas do género daqueles em que se acompanham polícias reais, anestesia os espectadores e os pode fazer encarar as tragédias com reservas ou, pelo menos, algum cansaço.


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