como sobreviver submerso.
Domingo, 8 de Julho de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 297

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Guimarães, 2018.



publicado por José António Abreu às 20:06
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Domingo, 1 de Julho de 2018
Das formas e cores: 46

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São Pedro da Afurada, Vila Nova de Gaia, 2018.



publicado por José António Abreu às 22:58
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Domingo, 24 de Junho de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 296

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Zagreb, Croácia, 2018.



publicado por José António Abreu às 21:03
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Domingo, 17 de Junho de 2018
Cães e gatos pela cidade: 37

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Porto, 2018.



publicado por José António Abreu às 22:47
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Domingo, 10 de Junho de 2018
Paisagens bucólicas: 102

 

Blogue_Bled1a.jpg

 

Lago Bled, Eslovénia, 2018.



publicado por José António Abreu às 21:43
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Domingo, 27 de Maio de 2018
Como Douro por cenário: 85

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Porto, 2018. (Sim, continuo a gostar de batráquios.)


publicado por José António Abreu às 20:59
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Domingo, 20 de Maio de 2018
Paisagens bucólicas: 101

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Perto de Ervedal da Beira, concelho de Oliveira do Hospital, 2018.



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Domingo, 13 de Maio de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 295

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Porto, 2018.



publicado por José António Abreu às 20:11
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Domingo, 6 de Maio de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 294

Blogue_p_XP1_Porto2018_1.jpg

 

Porto, 2018.



publicado por José António Abreu às 20:14
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Domingo, 29 de Abril de 2018
Paisagens bucólicas: 100

Blogue_p_X20_OH2018_2.jpg

 

Perto de Oliveira do Hospital, 2018.



publicado por José António Abreu às 22:11
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Domingo, 15 de Abril de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 293

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Praia, Cabo Verde, 2007.



publicado por José António Abreu às 19:21
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Domingo, 8 de Abril de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 292

Blogue_p_X20_Águeda2018_3.jpg

 

Águeda, 2017.



publicado por José António Abreu às 21:35
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Domingo, 1 de Abril de 2018
Paisagens bucólicas: 99

Blogue_p_X20_Esposende2018_1.jpg

 

Estremoz, 2018.



publicado por José António Abreu às 23:04
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Domingo, 25 de Março de 2018
Das formas e cores: 45

Blogue_p_Aguieira2017.jpg

 

Barragem da Aguieira, 2017.



publicado por José António Abreu às 19:32
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Domingo, 18 de Março de 2018
Paisagens bucólicas: 98

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Entre Gouveia e Celorico da Beira, 2017.



publicado por José António Abreu às 19:51
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Domingo, 11 de Março de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 291

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Braga, 2015.



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Domingo, 4 de Março de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 290

Blogue_p_X20_Afurada2014.jpg

 

Vila Nova de Gaia, 2014.



publicado por José António Abreu às 19:55
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Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
Das formas e cores: 44

Blogue_McCurry_Porto2017.jpg

 

Exposição de fotografias de Steve McCurry, Porto, 2017.



publicado por José António Abreu às 21:15
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Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 289

Blogue_pX20_Coimbra2017.jpg

 

Coimbra, 2017.



publicado por José António Abreu às 21:01
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2018
Cães e gatos pela cidade: 36

Blogue_Porto2017_2.JPG

 

Porto, 2017.



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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2018
Diário semifictício de insignificâncias (37)

Vou à estação dos CTT da Galiza (parece que vai encerrar) buscar uma encomenda. Espero cerca de três minutos (um período tão razoável que só pode constituir o motivo de encerramento) e depois sou atendido por um senhor cordato, mas lento. Muito, muito lento. Examina o talão deixado na minha caixa do correio de um lado e do outro, verifica cuidadosamente a data e a hora em que é suposto a encomenda já estar disponível, pergunta-me, em voz baixa e ritmo pausado, se sou o próprio (sou), pede-me o cartão de cidadão (que já coloquei sobre o balcão), não compara as assinaturas mas demora uma eternidade a transcrever o número, levanta-se (devagar), arruma (devagar) umas quantas cartas dentro de um tabuleiro, e segue (devagar) com ele para o interior da estação, onde fica durante quase tanto tempo como o que eu esperei até ser atendido. Regressa finalmente (devagar), com a minha encomenda nas mãos.

Houve um instante, ainda antes de ele se levantar da cadeira, em que estive prestes a irritar-me (sabe-se lá se não o acusaria de constituir o motivo de fecho da estação). Felizmente, apercebi-me a tempo do nome afixado na etiqueta que trazia ao peito. «José Plácido». Como ficar irritado com alguém que se limita a fazer jus ao nome?

 

(Agora que escrevinho isto, apercebo-me de que também se pode ver a coisa por outro ângulo: às vezes a irritação dissipa-se por motivos muito estranhos.)



publicado por José António Abreu às 20:58
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2018
Paisagens bucólicas: 97

Blogue_paisagem53_Pocinho2016.jpg

 

Perto do Pocinho, 2016.



publicado por José António Abreu às 19:53
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018
Diário semifictício de insignificâncias (36)

Nas últimas semanas tem sido um fartote de gripes à minha volta. Fui apanhado por uma (acho estranho que se diga que nós é que as apanhamos), mas bastante ligeira, o que me deixou satisfeito (gosto quando a minha resiliência me surpreende pela positiva). Agora dizem que o pior já passou. Até ao próximo Inverno, certamente, porque os vírus estão cada vez mais evoluídos e os humanos cada vez mais susceptíveis. Basta constatar a facilidade com que se ofendem.

Quando alguém espirra perto de mim, digo «Santinho». Toda a gente no Porto diz «Viva». Ou «Biba», dependendo da zona onde cresceu. Noutros pontos do país dizem «Saúde». Gosto mais de «Santinho», apesar da conotação com doenças outrora mortais. É mais incongruente. Como os próprios espirros.

E a propósito. Sem surpresa, os meus olhos preferidos pertencem a uma mulher. De um momento para o outro, o meu cérebro nem consegue pensar nuns olhos masculinos dignos de registo. Os do Paul Newman, talvez, que hoje em dia já devem ter perdido grande parte do encanto. Naturalmente, o meu sorriso favorito também é de uma mulher. Há dezenas deles em dezenas delas, para ser sincero. Sorrisos que fazem com que me apaixone durante dez segundos, dez minutos, dez dias. Com vozes, é mais difícil. Tenho - e ouço - mais música cantada por mulheres do que por homens, o que há-de significar alguma coisa, mas certas vozes femininas são instrumentos de tortura que deviam estar cobertos pelas convenções aplicáveis. Os meus risos preferidos voltam a pertencer a mulheres - e ao Ricky Gervais. Contudo, se pensasse no assunto, teria que classificar como meu favorito o espirro de um homem. L., lá do emprego. Tem mais ou menos a minha idade e um espirro by the book. Composto, sereno, sonicamente irrepreensível. A exacta tradução de um balão de banda desenhada: «Atchim!» Tão diferente do meu, espalhafatoso e anárquico.

Mas não penso nisso, claro. Ninguém pensa.



publicado por José António Abreu às 21:01
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Domingo, 28 de Janeiro de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 288

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Porto, 2017.



publicado por José António Abreu às 19:52
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Sábado, 27 de Janeiro de 2018
Diário semifictício de insignificâncias (35)

Uma das poucas coisas que dão satisfação à minha mãe é agora já poder morrer. Até há poucas semanas, se morresse não poderia ser sepultada na campa dos pais. Uma das três irmãs (todas mais novas) antecipara-se. Todavia, agora já passou o número de anos suficiente para que o enterro naquela campa volte a ser possível. Foi a melhor notícia que ela teve nos últimos tempos.

Não sei se me sinta satisfeito por ela (com ela), se deprimido. Frequentemente, eu apanhava-me a pensar que o raio do prazo era o principal motivo para ela se manter viva. Agora, resto eu, que estou quase sempre longe, e, em menor grau, o meu pai, que hoje em dia a preocupa e exaspera em igual medida.

Ainda por cima, sobra-lhe uma irmã. É certo que se trata da mais nova de todas, e que parece andar de boa saúde, mas não deixa de constituir um risco apreciável: a minha mãe não o admite, mas aquilo que neste momento mais a assusta é poder ver-se novamente ultrapassada na corrida à campa dos pais.



publicado por José António Abreu às 22:47
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Domingo, 21 de Janeiro de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 287

Blogue_p_X20_Águeda2018.jpg

 

Águeda, 2018.



publicado por José António Abreu às 20:28
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Domingo, 14 de Janeiro de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 286

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Porto, 2012.



publicado por José António Abreu às 19:52
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Domingo, 7 de Janeiro de 2018
Imagens recolhidas pelas ruas: 285

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Porto, 2017.



publicado por José António Abreu às 19:40
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Domingo, 31 de Dezembro de 2017
A caminho do futuro: 21

Blogue_OH2017.jpg

 

Portugal, 2017. Ou uma última homenagem ao «ano saboroso» de um António Costa certamente mais habituado a locais sprinklados e aos topos de gama que os colegas do partido, bem como os respectivos familiares e amigos, usam para chegar aos empregos que os dois últimos anos lhes providenciaram.

 

(Se fizerem questão de saber: perto de Oliveira do Hospital, há uma semana.)



publicado por José António Abreu às 18:16
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Três álbuns de música clássica lançados em 2017

 

Antonio Pappano, Saint-Saëns: Carnaval dos Animais & Sinfonia Nº 3 "Órgão".

Edição Warner Classics.

 

Duas das mais famosas obras de Camille Saint-Saëns foram compostas quase em simultâneo e dificilmente poderiam ser mais diferentes. Toda a gente conhece pelo menos excertos de O Carnaval dos Animais, um divertimento para dois pianos e ensemble de nove músicos, que inclui segmentos dedicados, entre outros, ao leão, ao elefante, ao burro, aos «animais de orelhas compridas» (coelhos, lebres), aos galináceos, aos peixes, às tartarugas e (num toque de humor gaulês) aos pianistas. Saint-Saëns compôs O Carnaval dos Animais como um exercício de descontracção durante os trabalhos da sinfonia nº 3. Temendo que prejudicasse a sua imagem de compositor «sério», determinou que a obra apenas poderia ser tornada pública após a sua morte, limitando-se a autorizar algumas sessões privadas (entre as quais uma para o amigo Franz Liszt) e a publicação do movimento "Cisne", adaptado para violoncelo e um único piano. O Carnaval veio finalmente a público em 1922 - um ano após a morte de Saint-Saëns - e depressa se tornou uma das obras mais populares do francês. 

Nesta edição, os pianos são tocados por Antonio Pappano e por Martha Argerich. O acompanhamento é providenciado por um ensemble composto a partir dos solistas de orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, de Roma. Da delicadeza e lirismo do «Cisne» à pomposidade do «Elefante», tudo soa perfeito. E, ainda que ela já tenha interpretado «Os Pianistas» várias vezes, é sempre uma delícia ouvir Martha Argerich fingir que está a aprender a tocar piano.

Pappano conduz a orquestra de Santa Cecília na Sinfonia Nº 3 "Órgão", um trabalho numa linha neoclássica, mas cheio de passagens delicadas e sensuais, que a orquestra delineia perfeitamente (e os técnicos da Warner captam de forma igualmente brilhante).

 

(Não descobri um vídeo relacionado com esta gravação. N'O Carnaval dos Animais, acompanhada por, entre outros, Gidon Kremer, Argerich pode ser vista aqui.)

 

***

 

 

Max RichterThree Worlds: Music From Woolf Works.

Edição Deutsche Grammophon.

 

A melhor música composta para servir de complemento a imagens (sejam elas ao vivo, como num bailado, ou num suporte tecnológico qualquer, como num filme) sobrevive mesmo longe destas. Para apreciar a música que Tchaikovsky compôs para O Lago dos Cisnes não precisamos de ter alguma vez visto o bailado. Para sentir a intensidade d'A Cavalgada das Valquírias não é necessário conhecer a ópera de Wagner - ou o filme de Coppola - onde ela surge.

Na realidade, a melhor música sobrevive mesmo que não se conheçam quaisquer referências a seu respeito. Pode ouvir-se e apreciar-se a Sétima Sinfonia, de Shostakovich, sem saber que é apelidada de «Leninegrado» - e porquê. Pode ser-se fã de Tears in Heaven, de Eric Clapton, desconhecendo o acontecimento que lhe esteve na origem.

Por vezes, não saber demasiado até se revela benéfico. É hoje difícil ouvir Wagner sem sentir estar a partilhar um prazer com Hitler. Na maioria das casos, porém, conhecer as obras para as quais a música foi composta, ou os acontecimentos que a inspiraram, ou as circunstâncias que já a moldaram, permite analisar melhor a obra e constitui um factor positivo de ligação emocional. (Também salva algumas obras menores, que não levaríamos a sério se não estivessem relacionadas com, por exemplo, um filme que nos marcou.) 

Tudo isto para referir que pouca gente conhecerá Woolf Works, um bailado de Wayne McGregor baseado em três livros de Viginia Woolf (Mrs. DallowayOrlando e The Waves), mas que isso não é necessário para apreciar a música composta para ele por Max Richter. A música de Richter é suficientemente forte para dispensar o apoio de imagens concretas ou até o conhecimento da fonte de inspiração. Mas conhecer os livros ajuda. Torna mais fácil perceber por que razão nos temas baseados em Mrs. Dalloway a música é geralmente suave mas está cheia de interrogações; por que razão nos temas inspirados por Orlando a sonoridade é mais variada, com mistura de estilos e de sonoridades (incluindo componentes electrónicas); e porque o único mas longo tema dedicado a The Waves é - perdoe-se-me a falta de imaginação - ondulante, melancólico e extremamente belo. Todo o álbum (que inclui apenas parte dos temas compostos para o bailado) é perpassado por constantes interrogações, por aquela busca incessante, feita a partir de múltiplos pontos de vista, que caracteriza a literatura de Virginia Woolf.

Devo ainda mencionar os segmentos de abertura de cada bloco. Em grande medida, neles procura-se adicionar contexto para os que (ainda) não leram Woolf, e reforçar a ligação à música dos que já leram. Mas também servem para deixar claro qual o tema principal que guiou Richter - e, décadas antes, Woolf: os mecanismos da memória, as suas imperfeições, o modo como molda a história. O primeiro segmento é composto por um excerto da única gravação conhecida da voz de Woolf, no qual ela refere que as palavras da língua inglesa estão cheias de ecos e de memórias do passado, e que isso dificulta imenso a tarefa do escritor. No segundo, a actriz Sarah Sutcliffe lê um excerto de Orlando, igualmente focado nas questões da memória (Memory is the seamstress, and a capricious one at that...). Finalmente, no terceiro, a actriz Gillian Anderson (e como a sua voz inconfundível causa um instante de surpresa inteiramente adequado) lê a nota de suicídio que Woolf deixou ao marido.

Depois de Philip Glass já ter composto uma excelente banda sonora para o filme The Hours, Richter prova o que qualquer leitor de Woolf consegue sentir: a prosa dela é altamente musical.

 

***

 

 

Barbara HanniganCrazy Girl Crazy.

Edição Alpha.

 

Barbara Hannigan deixa-me sem palavras (e, todavia, desconfio que vou escrever umas quantas). Como soprano, tornou-se o rosto e a voz da incomparável Lulu, de Alban Berg (admitamos que com alguma concorrência por parte de Patricia Petibon), deslumbrou nesse objecto estranho que é Le Grand Macabre, de Ligeti, conseguiu que escrevessem para ela o principal papel feminino de uma das melhores óperas das últimas décadas, fez paródias com pasta dentífrica que incluem lamentos sobre «no more all-night boning», e - convém referi-lo, já que estamos a 31 de Dezembro - ainda se dedicou a festas de passagem de ano. Como comunicadora, revela uma excelente capacidade de expressão e um delicioso sentido de humor. Como mulher, é atraente (vale o que vale, mas não vale a pena esconder que vale alguma coisa). E, desde há alguns anos, é também maestrina. Quando ela canta (postulemos que o termo admite fronteiras amplas) e simultaneamente dirige a orquestra, até Ligeti fica irresistível (bom, quase).
Há cerca de 4 meses, Hannigan lançou Crazy Girl Crazy, um álbum no mínimo peculiar. Inica-se com Sequenza III, de Luciano Beria, que basicamente consiste em nove minutos de exercícios vocais (calma, não se vão já embora). Seguem-se temas de Lulu, quase todos instrumentais Seguem-se temas de Lulu, quase todos instrumentais (Lulu, a personagem, tem apenas uma canção - nem se lhe poderá chamar ária - em toda a ópera, e é curta). No final, surgem os treze minutos mais sublimes da música de 2017 (não, não exagero e também não admito opiniões contrárias, excepto se provenientes de canídeos ou de outros animais com capacidade para ouvir frequências inaudíveis para os humanos). Dificilmente se classificará Gershwin entre os compositores mais experimentalistas - ou mais pessimistas -, mas ele admirava profundamente a música de Berg, que encontrou em Viena em 1928 e que até lhe autografou uma fotografia. Com a ajuda do compositor e orquestrador Bill Elliot, Hannigan dedica-se a extrair da música do norte-americano um nível de inquietude que acaba por transformá-la numa sequência adequada a tudo o que a precede, sem lhe eliminar o carácter festivo que permite fechar o álbum em tom de alegria e optimismo. E, no fundo, me permite a mim fazer o mesmo em relação a 2017.

 

(Nota destinada a pessoas simultaneamente observadoras e picuinhas: a versão apresentada no vídeo acima é cerca de um minuto mais curta do que a versão inserida no álbum; a do álbum é ainda melhor.)

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publicado por José António Abreu às 12:41
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