como sobreviver submerso.

Domingo, 14 de Julho de 2013
Um apartamento em Oslo
Em Oslo, 95 coroas (cerca de 11 euros) dão direito a uma visita guiada (o único género disponível) ao apartamento onde Henrik Ibsen residiu durante os últimos quinze anos da sua vida, na companhia da mulher, Suzannah. O apartamento fica no primeiro andar de um edifício situado defronte do parque do Palácio Real, tem cerca de 300 metros quadrados (grande, até pelos padrões actuais) e apresenta uma mistura de elementos originais e de elementos construídos para parecerem originais. De forma grosseira, pode dizer-se que virando à direita na entrada se atinge a cozinha, a casa de banho, o quarto da empregada e os quartos de Ibsen e de Suzannah, que seguindo em frente se acede às várias salas, e que virando à esquerda se vai ter ao estúdio onde Ibsen escrevia. Ibsen morreu em 1906 e o apartamento foi aberto ao público no ano em que se comemorou a passagem de um século sobre a sua morte.

 

A difícil relação de Ibsen com os seus concidadãos (ou, talvez mais correctamente, a difícil relação destes com as suas peças), reflectidas em dificuldades financeiras variadas, levou-o a residir quase três décadas em Sorrento, na Itália, e em Dresden, na Alemanha. Contudo, em 1891, gozando de enorme prestígio a nível europeu, regressou quase como uma lenda viva, o que, se pensarmos no assunto, aproxima bastante a mentalidade dos noruegueses de então à dos portugueses de sempre. Escreveu as suas última quatro peças no apartamento de Oslo, que visitei num domingo, ao meio-dia, acompanhado pela guia, por uma chinesa com tendência para o mutismo, por uma belga pouco faladora e por uma alemã bastante silenciosa. A chuva intensa que começara a cair meia hora antes tinha provavelmente qualquer coisa a ver com o facto de a afluência ser tão reduzida.

 

Começa-se pelo estúdio, onde não se pode entrar porque o piso (uma espécie de linóleo) é o original. Ibsen tinha a secretária junto à janela; escrevia de frente para as árvores do parque e quase directamente de costas para um gigantesco quadro retratando August Strindberg, o seu rival sueco. Ibsen comprara a pintura não por apreciar Strindberg (que passara de seu admirador a crítico feroz) mas por desejar sentir-se permanentemente desafiado. Começava a escrever às nove da manhã e parava às onze e meia, ainda que deixando uma frase inacabada. Gostava, aliás, de se interromper num período de inspiração porque isso lhe permitia recomeçar igualmente inspirado. Saía de casa e percorria umas centenas de metros até um café onde tinha mesa reservada. Lia o jornal, observava as pessoas. Embora constituísse motivo de curiosidade para muita gente, ninguém o abordava. Em 1900, depois do primeiro de três derrames cerebrais, tornou-se-lhe difícil percorrer o trajecto até ao café. O rei ofereceu-lhe então uma chave para o parque do palácio (hoje público), que podia visitar sempre que desejava.

 

Ibsen autorizara a colocação de um piano no apartamento mas detestava música, considerando-a uma distracção. Apenas a nora tinha autorização para usar o piano de forma regular. Até mesmo o compositor Edvard Grieg, que criou a música para Peer Gynt, tê-lo-á utilizado somente uma vez. Também há uma pequena biblioteca no apartamento mas, pelo menos nesta fase da vida, Ibsen não gostava de ler. Defendia que o realismo que buscava era encontrado observando as pessoas, não através da leitura. Era Suzannah quem lia. À noite, lia em voz alta para ele ouvir.

 

Em quase todas as peças a partir de Casa de Boneca se percebe como Ibsen detestava a hipocrisia da vida familiar e social: aquelas mentiras, aqueles ajustes, aquelas ideias feitas que, no fundo, então como agora, são a base da convivência humana. As suas últimas palavras (assumindo que, ao estilo de O Homem que Matou Liberty Valance – e como é estranho meter um western neste texto – a lenda não ultrapassou a realidade) são por isso mesmo perfeitas. Agonizando na cama após mais um ataque, aparentemente sem noção do que se passava à sua volta, reagiu às informações da enfermeira para um visitante, segundo as quais ele estava a melhorar, abrindo os olhos e resmungando: «Pelo contrário.» Voltou a tombar inconsciente e morreu no dia seguinte, 23 de Maio de 1906.

 

Qualquer pessoa pode poupar as 95 coroas (mais umas quantas para chegar a e sobreviver em Oslo) e encontrar esta informação na Internet (por exemplo, aqui, a partir de agora). E, contudo, é diferente ouvi-la no local, olhando para o retrato de Strindberg, ou para os livros, ou para a banheira, que a guia jura ser a original, recuperada depois de ter andado a servir de bebedouro para animais numa quinta algures, onde Ibsen tomava dois banhos diários (era um dos seus grandes prazeres), ou para os quartos, incrivelmente espartanos quando comparados com as restantes divisões da casa. Subitamente, que apenas sejam autorizadas visitas guiadas faz todo o sentido. E que nesta apenas se encontrassem uma chinesa com tendência para o mutismo, uma belga pouco faladora, uma alemã bastante silenciosa e um português que também pouco disse pareceu tornar tudo ainda mais perfeito. Vozes e risos e passos destruiriam o ambiente. Bom, que a guia não debitasse a informação de forma demasiado ensaiada e fosse uma norueguesa loura, com pouco menos de trinta anos de idade, pouco mais de um metro e setenta de altura (Ibsen, norueguês de outros tempos, media um e sessenta e um), corpo esbelto e sorriso pertencente àquela traiçoeira categoria de sorrisos que deixam um homem sentindo-se imundo quando se atreve a questionar-lhes a genuinidade, também terá ajudado. Olhando para ela falando com entusiasmo, não pude deixar de pensar que Ibsen estava certo: observar as pessoas ao vivo é extremamente agradável. Pelo menos certas pessoas.

 

Mas não era na guia que eu pensava ao passar de novo perto do piano e abandonar o apartamento. Bailava-me no cérebro a ideia pouco original (para quê entrar por caminhos desconhecidos?) de que todos os génios são simultaneamente indivíduos normais, com vidas chatas e apartamentos banais (ainda que com vistas bonitas), e pessoas contraditórias, frequentemente auto-destrutivas. No fundo, que todos os génios têm uma apreciável dose de loucura. (A de Strindberg, acrescente-se en passant, era ainda maior do que a de Ibsen.) Infelizmente para mim, nem o sol que entretanto surgira em Oslo me abriu esperanças de o inverso também ser verdade. Mas outra coisa talvez seja. No apartamento encontra-se a cadeira onde Suzannah morreu em 1914. Suzannah detestava a ideia de morrer deitada. Quando sentiu o fim aproximar-se (na velhice e na doença, é sempre a morte que se aproxima, não os humanos que se aproximam dela), passava as noites sentada na cadeira. Uma manhã não acordou. Se os génios têm invariavelmente uma dose considerável de loucura, os seus parceiros necessitam pelo menos de uma boa pitada.

 

Fotos pescadas no Bing (é proibido fotografar no interior do apartamento).



publicado por José António Abreu às 21:16
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Terça-feira, 4 de Junho de 2013
Notas de viagem: perder a inocência sem perder a alma

Sábado, 25 de Maio, à noite. Nos ecrãs do comboio que liga o aeroporto de Estocolmo à cidade, informa-se – em inglês – que grupos de «pais» patrulham as ruas dos bairros onde se têm verificado confrontos e que o acto recebeu elogios da polícia. Porque os fait divers são hoje tão importantes como as notícias «sérias» (com a necessidade de escape que parecemos ter, é possível que até sejam mais importantes), a notícia seguinte é acerca de um acidente rodoviário causado por uma fêmea de alce que decidiu dar à luz no meio de uma estrada.

Domingo, 26 de Maio, à tarde. A campa de Olof Palme encontra-se numa pequena praça situada a menos de duzentos metros do local onde ele foi assassinado, ao regressar do cinema com a mulher. É uma praça rectangular, com uma igreja rodeada por um pequeno cemitério. Quase todas as campas têm cruzes mas não a dele. A dele tem uma pedra. É uma campa bonita. Foi vandalizada, há uns tempos, com graffiti. Não consigo lembrar-me se, desde a morte de Palme, mais algum líder europeu de uma nação em paz foi assassinado. Certamente o último caso não poderá ter sido aqui, num país rico, evoluído, tolerante.

Quarta-Feira, 29 de Maio, ao fim da tarde. O Mercado de Peixe é um dos pontos de interesse da cidade de Bergen, na Noruega. Porém, como muitos outros locais em países desenvolvidos, trata-se hoje de uma área para consumo turístico. Há bancadas ao ar livre, cobertas por toldos, onde são preparadas refeições na hora. Numa delas, uma rapariga sorridente responde ao inglês com castelhano. Explica que é uma de duas espanholas a trabalhar naquela banca e que entre os colegas estão um italiano, uma francesa, dois brasileiros e uma uruguaia. Nos países desenvolvidos não apenas as tradições foram convertidas em atracções turísticas como, ainda por cima, são mantidas por imigrantes.

Sexta-Feira, 31 de Maio, ao fim da tarde. Do lado de dentro do balcão do McDonald’s de Aker Brygge, em Oslo (Aker Brygge é uma zona nova, de prédios de vidro e metal, com bares e restaurantes e passadiços junto à água), encontram-se três jovens de pele negra, um que parece indiano ou indonésio, e uma rapariga com traços que lembram os nativos da América Latina. Cabeças louras apenas do lado de fora do balcão.

Sábado, 1 de Junho, à tarde. Na estação de metro de Majorstuen, em Oslo, cinco rapazes de quinze ou dezasseis anos e aparência sul-americana envolvem-se numa discussão com um rapaz de aproximadamente vinte, alto e louro. Não percebo quem começou nem porquê mas o incidente só não descamba em violência física porque a acompanhante do rapaz louro – tão loura quanto ele – se interpõe. Seguem todos pela plataforma em direcção à saída, trocando frases em tom agressivo.

 

Em qualquer das três cidades (Estocolmo, Bergen, Oslo), é notório o elevado número de pessoas com ascendência noutras paragens – em África, na América Latina, no Extremo Oriente. Pessoas habituadas a temperaturas de trinta e tal graus, forçadas a suportar menos dez ou menos vinte (no Inverno; agora andam pelos dezoito, dezanove e está-se bem), ocupando os empregos a que os nórdicos já não precisam de se submeter. Em teoria, os imigrantes são bem tratados. Estes são países com leis evoluídas. Mas com que olhos verão os imigrantes – e em especial os filhos dos imigrantes – as diferenças de rendimento? Não será a pobreza (ainda que relativa, tão inferior à que experimentariam nos países de origem que talvez o termo nem faça sentido) uma condição especialmente frustrante quando se está rodeado por gente rica (e, ainda por cima, atraente)? E depois há a reacção dos nórdicos. Gostamos de pensar neles como tendo uma mentalidade aberta, tolerante, progressista. É uma visão demasiado benigna mas comecemos por algo que sucede em todos os países onde os imigrantes preenchem os tais empregos que os autóctones recusam (logicamente, uma vez que dispõem de melhores alternativas): a presença deles, que a cor da pele e os hábitos culturais tornam indisfarcável, constituiu uma acusação silenciosa (ainda que injusta) de egoísmo. São um lembrete constante de que o igualitarismo é sempre mais teórico do que real (mesmo em países que se orgulham dele), de que, por mérito ou por sorte (normalmente por uma mistura dos dois factores), há sempre privilegiados. Na nota inicial de Child Wonder, um dos livros de autores nórdicos contemporâneos que enfiei no Kindle para a viagem, o norueguês Roy Jacobsen escreve: Os meus heróis são crianças. Crianças corajosas, lutadoras. Crescendo numa área de operários nos arredores de Oslo no início dos anos sessenta – uma época de confusão, excitação e experiências sociais violentas. Antes do petróleo. Antes de alguém ter qualquer dinheiro. Quando um estado social social-democrata não passava de uma ideia vaga e desesperada, pouco condizente com a sociedade noveau-riche que produziu em poucas décadas. Esta foi uma mudança tão abrupta, radical e inédita na história da Noruega que tudo o que resta é uma nostalgia ambígua e histórias reais acerca desse eterno assunto: como perder a inocência sem perder a alma. Este romance é dedicado àqueles miúdos que conseguiram. E aos que não conseguiram. Amo-os a todos. (Tradução minha, a partir da versão em inglês.) A memória dos anos de penúria continua presente e assusta ou, pelo menos, confunde. Das tramas dos policiais de Henning Mankell aos recentes motins em Estocolmo, passando pelo assassinato de Palme e pelos resultados eleitorais de alguns partidos extremistas, abundam indícios de que, no instante em que nível de vida actual ficar em risco, todo o cosmopolitismo se desvanecerá. Sendo que, mesmo agora, uma época de riqueza e abertura, uma época em que a cada instante nos cruzamos com casais homossexuais nas ruas, certas diferenças continuam a assustar muita gente. Afinal, foi em Oslo que, faz este mês dois anos, um fanático assassinou dezenas de pessoas em nome da ideia da separação cultural.

 

Quarta-feira, 29 de Maio, à noite. No exterior da sala de espectáculos Edvard Grieg, em Bergen, um grupo de jovens diverte-se bebendo cerveja e dançando o Charleston. Observo-os durante alguns minutos. Mais tarde, ocorrer-me-á que os roaring twenties, a década em que o Charleston esteve na moda, foram seguidos pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial; mas, no momento, o ambiente de descontracção nem me leva a reparar na cor do cabelo deles.

 

Na foto: a campa de Olof Palme.


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publicado por José António Abreu às 12:40
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Terça-feira, 5 de Junho de 2012
Uma cripta em Praga

 

Esperava um local maior. Espera-se sempre um local maior ou, pelo menos, diferente. Da mesma forma que Praga é demasiado bela, demasiado ampla e, acima de tudo, demasiado luminosa para ser a cidade de Joseph K., do Golem e das cabeças de líderes protestantes espetadas em estacas durante anos na Ponte Carlos, a cripta da Igreja Ortodoxa de S. Cirilo e S. Metódio é muito mais acanhada do que a leitura dos relatos me deixara antever. No entanto, apesar das flores e das velas e de algumas fotografias, não é menos impressionante por isso. Pelo contrário: as dimensões reduzidas fazem com que imaginar os acontecimentos daquela manhã de 18 de Junho de 1942 deixe uma marca ainda mais forte.

 

Reinhard Heydrich é o Reichsprotektor de Praga, nomeado por Hitler para eliminar a resistência e germanizar os checos. Heydrich prova ser o homem certo. Ameaça, persegue, deporta e mata mas, num acto de inteligência, não apenas os opositores declarados do regime; também todos aqueles que no mercado negro, dos agricultores aos distribuidores, dificultam a vida ao cidadão comum. Escrevi-o num post anterior: Heydrich fascina-me. O cérebro de Himmler, como alguns alemães diziam (Himmlers Hirn heisst Heydrich, ou O Cérebro de Himmler é Heydrich, ou HHhH, título do livro de Laurent Binet que devo aconselhar novamente). Um dos organizadores da Noite de Cristal. O principal mentor da Solução Final. Um monstro. Mas também um executante do violino e um apreciador das artes que considera incultos muitos colegas do topo da hierarquia do Reich. No exílio em Londres, o presidente checo, Edvard Beneš, decide tentar matá-lo. Será um sinal para o Terceiro Reich e para o mundo, por parte da primeira nação espezinhada durante a Segunda Guerra Mundial (na verdade, ainda antes, em 1938). A operação recebe o nome de «Antropóide». Após um período de treino na Escócia, dois pára-quedistas, um checo (Jan Kubiš), outro eslovaco (Josef Gabčik), são lançados sobre território checo. Com eles, seguem outros homens, encarregados de operações de recolha de informação. Kubiš e Gabčik passam meses em Praga, escondidos em casas de família, preparando o ataque com o apoio de elementos locais da resistência e dos outros infiltrados. Executam-no a 27 de Maio de 1942. São dez e meia da manhã e Heydrich desloca-se do castelo nos arredores onde se instalou com a família para a cidade. (Sim, os monstros têm família, a quem muitas vezes são dedicados – Heydrich gosta de brincar com os filhos; o que não têm é consciência de que são monstros ou não a suficiente para que ela se sobreponha ao prazer de utilizar o poder conseguido.) Numa curva da rua Holešovičkách (hoje completamente diferente), Kubiš e Gabčik atacam. Mas a metralhadora Sten de Gabčik encrava. É então que o motorista de Heydrich comete um erro (o outro, mais grave, da responsabilidade do próprio Heydrich – deixará Hitler extremamente irritado mas é sintomático de quão invulnerável ele se devia sentir ou de quão impotentes considerava os checos, é não existir escolta) e, em vez de acelerar e desaparecer dali, trava, decidido a lutar. Kubiš usa uma bomba artesanal que, apesar de mal apontada, fere o Reichsprotektor. Os dois pára-quedistas fogem, sem saber se conseguiram. Conseguiram. Apesar dos esforços dos alemães, Heydrich morrerá a 4 de Junho, no hospital. Por essa altura, o inferno já se mudou para Praga.

 

E a propósito do inferno, antes de chegarmos aqui, à igreja e à cripta: quando é que um acto deste género é lícito e não terrorismo? Aceitamo-lo e glorificamo-lo por ocorrer durante uma guerra e ser cometido pelo lado justo (e neste caso é fácil; quase todos aceitamos o mesmo lado como sendo o justo) ou por Heydrich ser um monstro? Talvez mais importante: quando é que um acto destes vale a pena? Na sequência do atentado, os nazis mataram, torturaram e deportaram centenas de pessoas. Seguindo uma suspeita infundada, arrasaram a aldeia de Lidice, a noroeste de Praga (173 homens entre os quinze e os oitenta e quatro anos foram fuzilados de imediato, 26 foram mortos mais tarde em Praga, 88 crianças foram gaseadas em Chelmno, na Polónia, e 53 mulheres morreram em vários campos de concentração). Todos as pessoas envolvidas na preparação do atentado, ainda que de forma circunstancial, foram mortas (incluindo, evidentemente, os clérigos da igreja de São Cirilo e São Metódio e as familias que esconderam os pára-quedistas). No outro prato da balança, o atentado abanou de facto a confiança do Terceiro Reich, mostrou que a ocupação da República Checa estava longe de ser pacífica e, mais importante, o massacre de Lidice provocou reacções de horror a nível internacional, expondo o regime nazi como de facto era: brutal. Ainda assim: valeu a pena?

 

Seja a resposta qual for (e creio que, para uma tal questão, só pode haver respostas individuais), Kubiš e Gabčik merecem a nossa homenagem. O acto custou-lhes a vida mas os nazis quase falharam nos esforços para os encontrarem. Com outros cinco elementos infiltrados (Josef Valčik, Jan Hruby, Jaroslav Švarc, Josef Bublík e Adolf Opálka; falta um e isso revelar-se-á crucial), Kubiš e Gabčik estão escondidos na igreja de São Cirilo e São Metódio, no número nove da rua Resslova. Hoje, é uma rua larga, movimentada, com semáforos e passadeiras para peões, que vai dar ao rio e ao famoso edifício de vidro, metal e betão conhecido por Casa Dançante ou Ginger e Fred. Na época, teria a mesma largura mas desconheço se existiam semáforos; quanto a Ginger e Fred, só existiam os verdadeiros, fazendo filmes em que acontecimentos deste género não têm lugar. Os nazis revistam casas mas, estranhamente, não igrejas. Prometem uma recompensa a quem der informações que permitam a captura dos homens que mataram Heydrich e garantem uma bala a quem, tendo-as, não as forneça. Passam-se dias e ninguém avança. Os nazis percebem que o medo das consequências assusta os possíveis denunciantes e, a 13 de Junho, jogam uma última cartada: apesar do tempo que decorreu, quem avançar terá o dinheiro e total imunidade. Mas a oferta só dura cinco dias. Trata-se de um acto de desespero que pode correr mal: se nos cinco dias não acontecer uma denúncia, certamente já não acontecerá. É então que o elemento em falta (chama-se Karel Čurda e será julgado e executado depois da guerra) entra na sede da Gestapo e, em troca de vinte milhões de coroas, denuncia Kubiš e Gabčik. Ele não sabe o sítio exacto onde eles se encontram mas conhece muitos contactos, incluindo pessoas que os acolheram. É o suficiente. A prisão e a tortura fazem o resto. Às duas da manhã de 18 de Junho, a igreja é cercada por oitocentos soldados. Às quatro e um quarto, o assalto começa.

 

É esta cripta. Acanhada, escura, fria, bruta. Mas não morrem aqui os sete. Kubiš, Bublík e Opálka morrem lá em cima, na nave, depois de resistirem a partir da galeria até às sete da manhã. Só depois os nazis se apercebem da existência dos restantes. Gabčik, Valčik, Hruby e Švarc aguentam cinco horas, aqui em baixo. Os nazis não conseguem descer (os soldados que, cumprindo ordens, procuram fazê-lo são recebidos com tiros nas pernas) e revelam-se estranhamente ineficazes na resolução do problema. Resolvem inundar a cripta através da seteira que dá para a rua e, ao mesmo tempo, lançar granadas lacrimogénias cá para dentro. Mas os métodos têm efeitos contraproducentes (a água no chão diminui o efeito das granadas permitindo que seja possível atirá-las de volta para a rua) e os sitiados conseguem, com uma escada de mão, ir empurrando a mangueira da água. Entretanto, vão escavando na parede, tentando atingir uma qualquer conduta subterrânea que passe sob a rua Resslova (a seteira, ou respiradouro, ou o que lhe quiserem chamar, está aqui, a uns dois metros e meio de altura, e o buraco na parede também, quase por baixo, desviado para a direita). Finalmente, por volta do meio dia, tudo acaba: na nave da igreja, os nazis rebentam uma laje e abrem outro acesso à cripta. Gabčik, Valčik, Hruby e Švarc percebem que o jogo acabou e suicidam-se.

 

É sábado, 2 de Junho, e apercebo-me de repente que foi há setenta anos. Há setenta anos, Heydrich estava a morrer no hospital e homens condenados ocupavam esta cripta. Sinto-me indisposto, aqui dentro, como turista, máquina fotográfica na mão. Mas provavelmente é a única reacção adequada.

(Os retratos são de Kubiš e Gabčik, tal como aparecem nos painéis informativos existentes na igreja. As fotos da cripta são actuais, tiradas por mim. Os dados foram recolhidos do folheto oficial, comprado no local, do livro HHhH, de Laurent Binet, e da internet.)



publicado por José António Abreu às 11:27
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012
Os riscos do Museu Kafka

Entre outras coisas, o Museu Kafka tem fotos de Praga e de pessoas com quem Kafka se relacionava, páginas originais manuscritas (que, já o verifiquei noutros museus perante páginas de outros escritores, me deixam no estado mais próximo da religiosidade que consigo atingir), filmes interessantes e filmes pomposos, instalações que pretendem induzir um efeito de desorientação (falham), paredes de gavetões tipo-morgue, cada um deles com o nome de uma personagem de Kafka, meia dúzia dos quais abertos para mostrar a primeira edição do livro correspondente. Percebo que os museus tentem inventar formas «apelativas» de mostrar aquilo que se propõem mostrar mas às vezes exageram; enfim, este nem é dos piores. Na verdade, aprecio a visita – que termina de forma inesperada: a porta de saída (que é também a de entrada) encontra-se fechada à chave e nenhum funcionário se encontra na área de recepção. Meia dúzia de visitantes, entre os quais eu, torcem o puxador, entreolham-se, tentam perceber o que se passa. Das salas do piso superior vem o ruído da música e das locuções, o que parece indicar que, por lá, tudo continua a funcionar normalmente. Algumas pessoas procuram outra porta mas esta parece não existir. Nem sequer há cadeiras onde nos sentarmos à espera. Passam dez, quinze, trinta segundos. Um minuto. Verificam-se os telemóveis. A senhora da recepção surge finalmente, esbaforida. Usa a chave para abrir a porta, pede desculpa: tivera que ir à casa de banho. Digo-lhe, em inglês, que já pensávamos que aquilo fazia parte da visita, que se tratava de uma tentativa de lhe conferir um final kafkiano. Arregala os olhos, solta uma gargalhada, garante que não. Cá fora, penso que, assim como assim, até nem seria má ideia. Se alguém lá passar daqui a uns tempos, faça-me o favor de verificar se não a aproveitaram.



publicado por José António Abreu às 22:19
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012
Mais uma foto de Praga

Do monumento dedicado a Jon Hus.



publicado por José António Abreu às 22:09
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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
É só para saberem; podiam ficar preocupados...

Não estou cá. Ou melhor, não estou aí. Estou, há pouco mais de três horas, aqui. E ainda não ouvi falar de Miguel Relvas uma única vez. Claro que também não percebo patavina do que eles dizem...

 

(Talvez ainda escreva qualquer coisa sobre temas de cá: escritores, músicos, físicos, fotógrafos, assassinos heróis ou qualquer coisa do género. Mas se tudo correr bem é provável que não me apeteça.)



publicado por José António Abreu às 22:52
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Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
Notas de viagem (Adenda: poses ou o segundo plano e o ioga de Pisa)

A pose típica do turista é de costas para o que quer que seja – igreja, praça, quadro, paisagem – que o levou até ao local. A putativa atracção fica assim por trás, mais ou menos focada, mais ou menos bem exposta, consoante a capacidade do fotógrafo, as características do sensor de imagem e a inteligência dos algoritmos da máquina. Para quase toda a gente, o importante é a própria presença – cá estou eu em frente àquilo. É ser capaz de provar a si mesmo e aos outros ter estado lá – junto daquele segundo plano.

 

Depois há uma variante mais divertida mas, por muito que as pessoas pensem o contrário, não muito mais original, que um pouco conhecido blogger português irá chamar dentro de instantes – três, dois, um – ioga de Pisa. (Mas vocês já sabiam porque leram o título, não é verdade?) Em Pisa, o ioga de Pisa significa posicionar corpo e mãos de modo a fingir que se impede a queda da torre enquanto outra pessoa tira uma fotografia; junto a estátuas de nus masculinos em Pisa, Paris ou Provideniya (se é que existem estátuas de nus masculinos num sítio tão frio como Provideniya), significa colocar o indicador e o polegar de tal forma que pareçam medir o tamanho do pénis da estátua enquanto outra pessoa tira uma fotografia; em Pisa, Paris, Provideniya ou qualquer outro ponto do planeta em que ocorram pores-do-sol (mas especialmente à beira-mar), significa colocar os dedos, as mãos ou os braços de modo a parecerem agarrar o Sol enquanto outra pessoa tira uma fotografia. And so on and so on. A nossa originalidade é a originalidade de milhões mas isso pouco importa: como o mesmo blogger escreveu um dia (também pode ter sido uma noite), um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché.


publicado por José António Abreu às 22:30
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2011
Notas de viagem (5/5: Roma)

Com a imagem de um homem utilizando um velho Fiat Seicento como se fosse uma scooter numa auto-estrada entupida de veículos ainda fresca na cabeça, faço questão de entregar o automóvel na Hertz imediatamente após entrar na cidade. Enquanto arrasto a mala pelas ruas constato que poucos passeios têm rampas e que a cor dos semáforos é apenas uma sugestão de comportamento. Ainda não o sei mas esta primeira e nada original imagem de Roma vai marcar tudo o resto.

Roma é um caldeirão de contradições. Essencial na evolução política e cultural do ser humano, está em relação ao seu passado um pouco como Portugal em relação aos Descobrimentos: não se percebe bem como pôde atingir tais alturas. Ou talvez perceba mas a explicação não é simpática: tanto no período Clássico como no Renascimento, quase tudo passou pela decisão de meia dúzia de indivíduos com demasiado poder. Mais do que o povo «comum», mais do que os artistas e/ou os teóricos do pensamento, terão sido os humores, as preferências, as crenças e as invejas de líderes muito pouco escrutinados a empurrar Roma (como, nos séculos antes do e durante o Renascimento, também Florença e Veneza) para a glória. É aliás curioso pensar que, enquanto turistas, admiramos hoje um pouco por todo o mundo os efeitos da autocracia política e religiosa. (Não que ela seja indispensável: mesmo em democracia, e porque as arenas para lutas de gladiadores são agora de outro tipo, é sempre possível construir estádios de futebol.)

Mas a aparente dissonância entre as capacidades dos romanos actuais e a obra dos seus antecessores não é a única contradição em Roma. Há outra, mais prosaica: sendo uma cidade com tantos pontos de interesse e tão voltada para o turismo, a que se chega com as imagens de Audrey Hepburn e Gregory Peck andando de scooter em torno do Coliseu e de Anita Ekberg tomando banho na Fontana di Trevi, é também uma cidade que se sente estar farta de visitantes. Ao contrário do que afirmam os guias de viagem, quase não há jardins ou parques; para descansar, os turistas sentam-se na beira dos passeios e em qualquer degrau da Scalinata di Spagna que se encontre à sombra. Apesar da quantidade de visitantes, não há casas de banho públicas e os restaurantes limitam o acesso às suas a clientes; para urinar, muitas mulheres e alguns homens (é sempre mais complicado para as mulheres) fazem fila junto às casas de banho dos McDonald’s. Não se estando à espera de perfeição na organização e limpeza, as tendas no Campo di Fiori são tão numerosas que é impossível ter uma visão adequada da praça; Giordano Bruno parece perdido no alto do pedestal, olhando para a face superior dos toldos. Roma é uma cidade que se sujeita ao turismo (entraria em colapso sem ele) mas que recusa preocupar-se com o bem-estar dos turistas. E se isso por um lado é bom (o visitante não se sente num cenário erguido em sua homenagem), por outro é com frequência exasperante. Mas há mais: se conseguirmos esquecer o peso da História (nada fácil, é verdade) e apesar de todas as igrejas, praças e monumentos, em poucas zonas Roma é verdadeiramente bonita. Pelo menos não no sentido em que capitais europeias como Paris, Viena, Amesterdão ou Lisboa o são.

Talvez o exemplo mais flagrante de como certas experiências potencialmente sublimes são arruinadas pelo excesso de turismo, que não é culpa dos romanos, e pela falta de organização, que é, seja a visita aos Museus do Vaticano. As salas de Raffaello são magníficas (por uma qualquer razão obscura, atrai-me particularmente a aula prática de

Euclides no fresco A Escola de Atenas.) Há na Pinoteca obras de Caravaggio e Da Vinci. A galeria dos mapas é simultaneamente grandiosa e delicada. Porém, a existência da Capela Sistina e o percurso necessário para a atingir transformam o interior dos museus num gigantesco mal-entendido. O exemplo mais notório talvez ocorra nas salas imediatamente antes da capela, onde se encontram expostas obras de artistas ‘modernos’ como Van Gogh, Chagall, Gauguin, Kandinsky, Dali e Bacon. As pessoas passam aos magotes, atiram um olhar rápido às paredes mas, com raras excepções, nem sequer abrandam no percurso entre a porta de entrada e a de saída. Podem existir não sei quantos quilómetros de galerias nos Museus do Vaticano mas tudo o que a maioria dos visitantes deseja ver é a Capela Sistina. Que, aliás, é uma maldição para ela mesma (é impossível apreciá-la condignamente quando nos sentimos um cordeiro tentando manter a cabeça erguida no meio de um rebanho em movimento) e para o resto dos museus (como apreciar a galeria dos mapas, por exemplo, se não se pode deambular calmamente de uma pintura para outra sem ser arrastado pela massa de gente a caminho da porta de saída?) Deveria ser arranjada uma entrada directa para a capela ou então (como na Galleria Borghese) limitar-se o número de admissões. Poupar-se-ia muita exasperação a quem deseja apreciar outras áreas e facilitar-se-ia a vida àqueles que apenas pretendem, regressados a casa, poder afirmar terem estado no interior da Capela Sistina. Nem Michelangelo, nem Rafaello, nem Caravaggio, nem Pinturicchio (que decorou os aposentos Bórgia), nem Van Gogh nem dezenas de outros merecem ter as obras apreciadas por gente exasperada.

Mas também é nesta aparente indiferença pela lógica que se encontra muito do melhor de Roma. Na igreja de Santa Maria della Vittoria estão cinco ou seis turistas e eu quase lanço os braços ao ar e grito «milagre». Depois penso que, a ser, será ligeiramente profano. O meu principal objectivo ao visitar a igreja é ver O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. E a questão surge, inevitável: como diabo (perdão, «diabo» não – ou, se calhar, sim) alguém autorizou que se colocasse uma obra destas no interior de uma igreja? Para mais, em meados do século XVII? Eu sei que, dois séculos antes, já houvera o David de Donatello e que entre David e Santa Teresa existiram outros casos, entre os quais a miríade de referências aos deuses «pagãos» da Grécia e Roma clássicas a que o Renascimento deu origem. Mas este é um caso especial. Está numa igreja e, por muitas interpretações politicamente correctas que se tentem, por muito que esteja de acordo com os escritos da própria Santa Teresa de Ávila, segundo os quais foi uma noite visitada por um anjo que a trespassou com uma flecha, levando-a a mergulhar num êxtase de dor e prazer, por muito boa vontade que Bernini garantisse junto do clero do século XVII (apesar do papa da altura ter prescindido dos seus serviços), por muito que alguns estudiosos defendam que Bernini não o via como tal, como foi possível ignorar que isto é um orgasmo? Não pode ter sido. Pelo que só encontro duas explicações. Se, como Woody Allen afirmou, masturbação é fazer amor com a pessoa de quem mais gostamos, um orgasmo espontâneo, ocorrido durante o sono, só pode ser fazer amor com Deus. E ainda que, ao contrário do que sucedia com os tais deuses clássicos, o Deus cristão não seja conhecido por se permitir contactos com os humanos, talvez os papas e os cardeais do século XVI Lhe percebessem as necessidades melhor do que nós pensamos. Melhor do que nós, na realidade. Ou então – segunda hipótese – limitaram-se a esconder um sorriso e a encolher os ombros. Quando em Roma sê romano não passa afinal de um conselho para adaptar as regras às conveniências e aceitar todas as contradições.

(Releio este texto e ele parece-me longo, desconexo, contraditório. Deve estar pronto.)


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publicado por José António Abreu às 23:48
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
Notas de viagem (4/5: Florença)

O calor não ajuda, os magotes de outros turistas também não. Na Piazza della Signoria sou incapaz de visualizar Botticelli queimando as suas obras «pagãs» durante o período de Savonarola (apesar de ter lido existirem dúvidas quanto a ele o ter efectivamente feito, nos Uffizi, diante d’O Nascimento de Vénus e d’A Primavera – pinturas mais escuras e baças do que esperava, talvez porque nos vamos habituando ao brilho excessivo dos ecrãs de computador – dou graças por já terem saído das mãos dele nessa época). No baptistério, não consigo imaginar a cena em que, n’A Divina Comédia (Inferno, Canto XIX), Dante relata como salvou uma criança de morrer afogada numa pia baptismal. Na Ponte Vecchio, pejada de ourivesarias (e, embora sejam hoje lojas de aspecto cem por cento turístico, a existência de ourivesarias neste local não constitui uma adulteração do passado, pelo menos desde que em 1593 os talhantes, ferreiros e curtidores que o ocupavam foram expulsos por causa do mau cheiro), páro, obrigando pessoas com mapas e máquinas fotográficas a desviarem-se, e ergo os olhos para o corredor Vasariano mas também não me é fácil imaginar os membros da família Medici usando-o para evitar o contacto com a população (ainda que – garanto – os entenda melhor neste instante do que alguma vez no passado). É incrível estar no epicentro do Renascimento (e não só, que Giotto, Dante, Petrarca, Boccaccio, Donatello e muitos outros lhe são anteriores) mas torna-se impossível imaginar a realidade de há quinhentos anos. Diabos, torna-se impossível imaginar Hannibal Lecter passeando por estas ruas sem cortar a artéria femural de vinte ou trinta pessoas em cada trajecto. Lamento, Thomas Harris, mas afinal a trepanação não é o único ponto de Hannibal a que falta verosimilhança.

E esta não é a única impossibilidade: também é impossível abarcar tudo. Há demasiada informação. Demasiados edifícios relevantes a visitar, demasiados nomes imortais a recordar, demasiadas pinturas e estátuas a ver, demasiadas intrigas e traições a estudar. O problema é antigo, claro. Como assimilar a História de um local? Como sentir a grandeza de um quadro ou de uma estátua? E de dezenas? Fica quase sempre uma sensação de incapacidade, de que devia sentir-se mais. Talvez a forma correcta de abordar um local seja sem expectativas, com a cabeça vazia. Não ter antes lido Florença, Um Caso Delicado (Asa, 2004, tradução de Teresa Casal), onde David Leavitt escreveu: «A promessa de um destino, tendendo por um lado para o erótico e, por outro, para o artístico, parece ter estado sempre associada a Florença na imaginação do estrangeiro, atraindo-o para a cidade não só para que ele possa ver, mas também para que ele possa ser ou tornar-se algo mais do que é. Ou talvez fosse mais exacto dizer-se que ele espera recuperar uma qualidade que lhe é endémica mas cuja expressão foi inibida pelo seu ambiente de origem.» Mas eu li. E por isso caminho pela cidade e percebo que estou a falhar. Que não pareço conseguir apreciar devidamente o que vejo e que, em consequência disso, sou incapaz de encontrar a tal qualidade que me seria endémica. Pergunto-me se a culpa será exclusivamente minha ou se a devo partilhar com os milhares de outros turistas. Destruiremos mutuamente a hipótese de atingir a plenitude? Mas então penso que Leavitt também classificou Florença como a cidade dos suicidas (e dos homossexuais) e que a propensão para o suicídio se pode dever precisamente ao facto de, com ou sem turistas, Florença mostrar ao visitante que este dificilmente estará à altura do desafio que lhe coloca. Certos locais – como certas pessoas – atraem mas expõem insuficiências. Magnífica, Florença consegue ser uma cidade cruel.

 

(Apesar de poder confirmar a crueldade, retiro algum consolo do olhar de Botticelli em A Adoração dos Magos. Na extremidade direita da tela, junto de elementos da família Medici passando por reis magos, Botticelli examina os que lhe vieram admirar o génio – quem disse que o pós-modernismo é uma coisa recente? – com uma mistura de enfado e irritação. Apetece-me dizer-lhe que, pelo menos a ele, aqui, o vejo e compreendo.)



publicado por José António Abreu às 22:08
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Sábado, 2 de Julho de 2011
Notas de viagem (3/5: Génova)

Génova é a cidade que falhou o Renascimento. Centro mercantil e financeiro tão importante como Veneza ou Florença, uma das quatro principais Repúblicas Marítimas (com Veneza, Pisa e Amalfi), Génova teve durante o século XIII apenas Veneza como rival (em particular depois de, em 1284, destruir a frota de Pisa na batalha de Meloria). Contudo, no século XIV a peste negra reduziu-lhe significativamente a população (se a peste teve efeito similar em Florença, Pisa, Siena e Milão, Veneza conseguiu ir mantendo o nível de habitantes, o que a ajudou a ganhar vantagem sobre as rivais) e no século XV, perdidas muitas colónias para o Império Otomano e o domínio do Mediterrâneo Oriental para Veneza, mostrava claros sinais de decadência. Voltou-se para Oeste. Ligada a Espanha, recuperou poder no século XVI, sendo, em meados desse século, o mais importante centro financeiro do Mediterrâneo. Mas o período áureo do Renascimento já ficara para trás e, seja como for, os banqueiros e mercadores de Génova nunca pareceram mostrar a apetência para as artes dos Medici ou dos Sforza. Isso nota-se. Apesar de, mais de cem anos após o início do Renascimento, artistas como Rubens e Caravaggio terem passado por e trabalhado na cidade, em Génova não nasceram pintores e escultores do calibre de Botticelli, Michelangelo, Leonardo Da Vinci ou Raffaello. Apesar de Génova ter palácios e igrejas, poucos edifícios conseguem ombrear com os seus homólogos de Florença, Veneza ou Roma. Elementos reveladores da vocação marítima e mercantil da cidade, os genoveses mais famosos são Cristóvão Colombo e o almirante Andrea Doria, e o monumento mais conhecido da cidade será a Lanterna, cuja versão actual é de 1543 e que, com 77 metros, é o segundo mais alto farol «tradicional» do mundo.

 

Mas Génova tem ainda outros monumentos interessantes, como a catedral San Lorenzo, e tem também uma das maiores zonas históricas da Europa, constituída por um emaranhado de ruas estreitas e pitorescas. Por que não é então um destino turístico tão importante como outras cidades italianas? Em grande medida, porque ruas estreitas não conseguem rivalizar com palácios e catedrais (na eterna luta entre cidades italianas, neste tempo em que o turismo é o Santo Graal de qualquer região, a derrota de Génova foi decidida há quinhentos anos). Mas também porque, independentemente da existência de catedrais ou palácios (e, volto a realçar, Génova possui exemplares de umas e outros), o centro histórico de Génova não parece um destino turístico. Os centros históricos de Florença, Pisa e Siena parecem destinos turísticos. Os centros históricos de quase todas as cidades espanholas parecem destinos turísticos. Os centros históricos de Braga e de Guimarães parecem destinos turísticos. As ruas e os canais de Veneza são o expoente máximo de como um centro histórico pode parecer um destino turístico. O centro histórico de Génova, pelo contrário, é um sítio onde pessoas – e pessoas não especialmente organizadas ou cuidadosas – parecem viver.

Onde quero chegar? Na ânsia de atrair turistas, as cidades, e em especial as zonas históricas das cidades, são hoje pouco mais do que museus ao ar livre: em vez de quadros e estátuas, expõem edifícios retocados para parecerem mais bonitos; em vez de uma loja de souvenirs, têm centenas; em vez de se pagar um bilhete para entrar, pagam-se preços inflacionados nas bebidas, refeições e alojamento. São, em muitos casos, locais com muito pouca vida para além da que depende do turismo. São zonas arranjadinhas, limpas, assépticas. Há um par de anos, parado no Cais de Gaia, fui interpelado por um espanhol. Queria saber qualquer coisa, já não me lembro o quê, mas depois continuou a falar e ao fim de minutos estava a dizer-me que a Ribeira, do outro lado, devia ter os prédios mais bem arranjados e que devia haver mais hotéis junto ao rio e outras coisas que também já não recordo. Nem me dei ao trabalho de discordar porque é inútil fazê-lo: mais do que cidades vivas, a maioria das pessoas deseja cenários perfeitos. É a minoria capaz de apreciar um mínimo de realismo (e, como é óbvio, não estou a defender que se facilite a degradação) que apreciará as ruas estreitas e escuras, nem sempre limpas, nem sempre bem cheirosas, nem sempre bem frequentadas, e os edifícios com pintura degradada dos bairros da Ribeira, da Sé ou de Miragaia, no Porto. Ou as ruas do centro histórico de Génova. Onde, descontada a profusão de anúncios luminosos e de cabos eléctricos pendurados, se consegue mais facilmente imaginar como seria a vida há quatrocentos ou quinhentos anos do que nas ruas inegavelmente mais bonitas de muitas outras cidades.

 

Mas afinal eu também não permaneço em Génova mais do que algumas horas antes de seguir para Pisa e Florença.



publicado por José António Abreu às 23:58
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
Notas de viagem (2/5: Mónaco)
O Mónaco é patético a diversos níveis. É desde logo, com duas ou três excepções (o «Rochedo» e a praça do Casino e do Hotel de Paris, por exemplo), feio. É, depois, um sítio de ostentação muito para lá da fronteira do ridículo. E, lamento, não são as pessoas que têm muito dinheiro as mais ridículas. As que se aperaltam para ficar junto à porta do casino vendo outras entrar ou as que alugam Ferraris ou Porsches descapotáveis (interessados podem dirigir-se aqui ou aqui) para dar voltas ao principado a quarenta à hora, acelerando apenas ligeiramente à entrada do túnel sob o hotel Fairmont porque os Fórmula 1 também o fazem e o eco torna o ruído dos motores mais impressionante, estas sim, são dignas de pena ou então de servirem de inspiração a um conjunto de contos mostrando as fragilidades, inseguranças e ilusões do ser humano.
Mas o Mónaco é ridículo precisamente por viver das fragilidades, inseguranças e ilusões do ser humano. O Mónaco depende da imagem de glamour. Para a manter, atrai os muito ricos com um sistema fiscal que não taxa o rendimento (excepto o dos franceses residentes no principado há menos de cinco anos e o das empresas que obtenham os seus proveitos a partir de patentes e direitos intelectuais). Mas será eticamente aceitável permitir que os muito ricos fujam a um mínimo de responsabilidade para com a comunidade? Desde logo, a comunidade local, do próprio Mónaco: um sistema fiscal que não taxa os rendimentos é um sistema que não redistribui ou, para ser mais preciso, que o faz apenas na medida em que, ao consumirem produtos mais caros, os muito ricos pagam mais IVA. O Mónaco tem assim um sistema fiscal que não se preocupa com a redistribuição (e valerá a pena salientar que nem toda a gente no Mónaco é rica mas provavelmente também não convém que seja: afinal, nos hotéis alguém tem que estacionar os Ferraris e limpar os quartos). Mas pior: trata-se de um sistema fiscal que, ao sugar recursos de outros países, também nestes prejudica a redistribuição de rendimentos. Para quem como eu considera que o IRS é o único imposto verdadeiramente justo (além de, por norma, ser progressivo, tudo o resto – incluindo outros impostos – é pago com o que resta depois de retirar o IRS), este sistema é obsceno. Mas para o Mónaco é fundamental: sem a publicidade gratuita que os meios de comunicação social lhe fazem ao referir que o actor X e a tenista Y vivem lá e ao mostrar imagens do casino (onde as pessoas parecem estar sempre à espera de ver Bond, esse ícone do prazer, do bom gosto e até da cultura geral, apesar de nunca se ver a ler um livro), dos carros de alta cilindrada e da vida dos príncipes (não se esqueçam de que o casamento é este fim-de-semana!), o Mónaco correria o risco de perder o encanto. As pessoas 'normais' poderiam aperceber-se da fealdade dos prédios. Poderiam deixar de ir para a frente do casino na esperança de ver gente rica e famosa. Poderiam reparar que a relação preço-qualidade de muitos restaurantes e hotéis é discutível. Poderiam chegar à conclusão de que quase todas as povoações das redondezas são mais interessantes (Nice, por exemplo, a meros vinte quilómetros, é, na sua mistura de beleza arquitectónica e paisagística, zonas históricas e modernas, vida normal e turismo, incomparavelmente mais agradável). Felizmente para o Mónaco, gente com muito dinheiro quererá sempre fugir aos impostos e gente com algum dinheiro desejará sempre visitar o sítio onde as pessoas famosas vivem (pelo menos oficialmente) e o luxo parece imperar. Ainda que alguns Bentleys e Aston Martins possam estar estacionados junto aos hotéis porque os próprios hotéis lá os colocaram.


publicado por José António Abreu às 08:43
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Terça-feira, 28 de Junho de 2011
Notas de viagem. 1/5: Zermatt

Preâmbulo

Estou de volta (estejam à vontade para festejar porque, por muito que goste de vocês – especialmente de ti; sim, tu, com o Toshiba cor-de-rosa –, não serei eu a fazê-lo). Tendo rabiscado umas quantas notas que não cheguei a publicar, vou desfazer-me delas durante os próximos dias. Depois talvez comece a prestar atenção ao novo governo. Ou não: estados de graça não combinam comigo.

Não me perguntem porquê mas o Matterhorn fascina-me. Há um ano passei uma semana e tal na Suíça mas não tive oportunidade de chegar tão a Sul. Por isso este ano conduzi de Milão até Zermatt, passando pelo lago Como, pelo Ticino e pelo vale de Domodossola, em grande medida para o ver. A minha opinião sobre a Suíça continua a ser extremamente positiva e não, o Federer nada tem a ver com o assunto – ou talvez apenas um pouco mas não mais do que o chocolate. A circunstância de ter nascido junto ao sopé da Serra da Estrela poderá ser mais relevante (acredito que há uma espécie de genética do local de nascença) mas, acima de tudo, gosto na Suíça da mistura de natureza agreste com civilização. E do facto de as temperaturas raramente atingirem valores excessivos (o meu cérebro entra em default quando os termómetros sobem dos vinte e cinco graus). Claro que em férias também não convém que esteja muito frio nem que chova nem que a paisagem se encontre por trás de um manto de neblina. Felizmente, apanhei um tempo espectacular. Tão espectacular que apenas o topo do Matterhorn se manteve permanentemente encoberto. Juro que aprecio a ironia. Seja como for, o resto mais do que justificou a deslocação. E sempre posso fazer novo desvio para o ver quando for, sei lá, à Sicília.

Em Zermatt não circulam veículos com motor de combustão interna. Os automóveis têm de ser deixados em Täsch, a cerca de cinco quilómetros e meio. A partir daí, usa-se o comboio. Os hotéis de Zermatt enviam pequenos veículos eléctricos à estação recolher hóspedes e bagagem. São veículos curiosos, paralelepípedos toscos com rodas. O condutor do veículo do hotel Mirabeau (o buffet de pequeno-almoço tem pães e bolos sublimes) usa uma plaquinha com o nome “Jorge”. É português. Explica que se encontra em Zermatt há cerca de quatro anos e que está longe de ser o único português ali. Ouviu dizer – não sabe se é verdade – que são perto de três mil ou quarenta por cento da população. Sei que há muitos portugueses na Suíça mas ainda assim fico surpreendido. Rapidamente constato que os números de Jorge não devem andar longe da realidade. No hotel, um Avelino leva a bagagem até ao quarto. Mal regressado à rua, cruzo-me com um homem vestindo uma camisola do Futebol Clube do Porto. Grupos passam a falar em português. Crianças com trotinetes gritam em português. No dia seguinte, a funcionária de uma loja, rapariga louríssima, explica em português que, não sendo portuguesa, como tem amigas que o são já consegue falar a língua. Digo-lhe que a fala muito bem (é verdade). Torna-se simultaneamente gratificante e desconfortável estar rodeado de tantos portugueses. Gratificante porque, apesar de me encontrar no coração dos Alpes, é como se não se estivesse verdadeiramente num lugar estranho. Desconfortável porque sinto ter usurpado um poder que não condiz comigo: tão português como os restantes, por que diabo gozo do privilégio de ser turista? Mas ei – isto sou eu. Felizmente muitas pessoas não têm pruridos deste género (desconfio que algumas até gostarão de poder sentir-se superiores) e, de qualquer modo, questões existenciais não devem dissuadir quem quer que seja de ir até Zermatt ou qualquer outro ponto da Suíça. Aliás, vai-se a ver e é por serem confeccionados por portugueses que os pães e os bolos são tão bons.



publicado por José António Abreu às 20:57
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Domingo, 19 de Junho de 2011
O sorriso do são bernardo
Em Gronergrat, no Sul da Suíça, a 3089 metros de altitude, recordo-me de como, em Milão, na Pinoteca Ambrosiana, um quadro de um velho e um cão me chamara a atenção. Apropriadamente, chamava-se (bom, chama-se, que ainda lá deve estar) Vecchio com cane. Trata-se de um pequeno óleo sobre tela de 45 por 54 centímetros, pintado por Domenico Induno (1815-1870), alguém que permanece quase desconhecido para mim, visto nem a informação na Pinoteca nem a internet terem sido de grande utilidade. Há na Ambrosiana obras de gente muito mais famosa, como Botticelli, Raffaello, Tiziano, Caravaggio, Da Vinci ou Jan Brueghel, o Velho, defronte das quais se é forçado a parar quase religiosamente, nem que seja para depois se poder dizer tê-las visto. Ainda assim, se apreciei muitas das obras destes mestres (La Madonna del Padiglione, de Boticelli ou umas fantásticas Allegoria dell'acqua e Allegoria del fuoco, de Jan Brueghel, por exemplo) não deixei de ficar durante um par de minutos em frente à pequena tela de Induno. É uma situação simples, sem grande carga alegórica, mas qualquer coisa me fez parar. Lembrei-me, meio a despropósito, de um conto de Tchékhov em que um velho se tenta livrar de um cão e de um cavalo por (como ele, no fundo), estarem velhos e só lhe darem despesa. Mas o conto de Tchékhov tem um final triste e nada neste quadro indica que o homem planeia desfazer-se do cão. Parece haver cumplicidade entre ambos: o homem olha o cão com ar de bonomia enquanto este come, decidido mas sem urgência. É como se o velho tivesse acabado de chegar a casa (a forma como está vestido sugere-o) e tivesse ido imediatamente alimentar o cão. Como se vê-lo comer fosse a coisa que mais prazer lhe dá. Claro que não lhe deve ser fácil alimentá-lo – o velho tem aparência de pobre e o cão, um são bernardo, é enorme, deve comer bastante. Ao escolher um cão tão grande e ao pintar cão e velho nesta pose e não noutra, Induno só podia estar a tentar dizer-nos algo sobre as dificuldades e a força da relação entre ambos.

 

Lembro-me do quadro e deste confuso processo mental na Suíça, a 3089 metros de altitude, porque na pequena estação onde o comboio de cremalheira larga os turistas há um fotógrafo que tenta convencer as pessoas a posarem junto a um par de são bernardos. Os cães, com o barrilzinho típico (como o do quadro, afinal) são belíssimos e têm um ar pachorrento. Apetece fazer-lhes festas. Mas de repente um desata a correr e abocanha uma mochila pousada no chão. Sacode-a energicamente de um lado para o outro. Um rapaz – o dono da mochila – solta um grito, corre para o cão, agarra-lhe a trela e puxa. O são bernardo pára de sacudir a mochila, roda a cabeça, olha para o rapaz e sorri (eu sei, eu sei, mas «sorrir» é de longe o termo que melhor descreve a expressão do animal). Sorri como se comprovasse mais uma vez como os humanos são tontos. Depois volta a dedicar a atenção à mochila, tentando enfiar o focinho lá dentro, enquanto o rapaz puxa com mais força. É apenas quando o fotógrafo acorre que o são bernardo percebe não ir conseguir chegar à sanduíche ou ao que quer que seja de apetitoso que o rapaz transporta dentro da mochila (relembre-se que uma das características da raça é um olfacto apuradíssimo, que lhes permitia cheirar pessoas enterradas na neve) e desiste. Sim, penso então, lembrando-me do quadro da Pinoteca, por bem alimentado que pareça estar, um são bernardo tem de ser um cão de muito alimento. Mas é também um cão de boa índole. Perdida a sanduíche, aquele reassume sem protestos o seu papel de apoio à criação de recordações turísticas.

Horas depois, regressando a Itália, conduzo em direcção ao Col du Grand-Saint-Bernard e pondero seguir pela histórica passagem, subir ao local do mosteiro onde os monges criaram a raça há cerca de trezentos anos. Mas é tarde, ameaça escurecer. Opto pelo túnel de quase seis quilómetros inaugurado em 1964. Enquanto o percorro, e por muito ilógico que seja, não consigo evitar a sensação de que, ao evitar o esforço, estou de alguma forma a trair os simpáticos mastodontes helvéticos. A ser um bocadinho o velho do Tchékhov.



publicado por José António Abreu às 23:01
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
Momentos em que é impossível não estremecer (literal e figurativamente)

Ao escutar o órgão do Duomo de Milão – um dos maiores do mundo, com 250 registos e 15350 tubos.

 

O órgão (principal, dado existir um mais pequeno) foi alterado várias vezes desde 1397, ano de entrada em actividade da primeira versão. As mais significativas, para além do facto de ter crescido sempre, tiveram a ver com o tipo de transmissão (ligação entre os teclados e a abertura dos tubos): de mecânica para pneumática para, já no século passado, eléctrica. Entre 1760 e 1762, teve como organista Johann Christian Bach, filho mais novo (de um total de onze) do mais famoso Johann Sebastian. E, ainda assim, a história do órgão é bastante menos complicada do que a do próprio Duomo. Quarta maior catedral europeia em termos de área, a seguir à Basílica de São Pedro, em Roma, à Catedral St. Paul, em Londres, e à Catedral de Sevilha, teve a construção iniciada em 1386 e terminada a 6 de Janeiro de 1965 (o que é o século e pouco em que vai a da Sagrada Família, em Barcelona, ao lado disto?). As alterações ao projecto foram constantes e nem sempre ocorreram apenas por capricho dos arcebispos ou dos arquitectos mas também porque a História as tornava recomendáveis – por exemplo, na segunda metade do século XVI, na sequência do Concílio de Trento e da subida de Carlo Borromeo ao posto de Arcebispo de Milão, privilegiou-se um estilo mais românico e menos gótico, uma vez que este tinha passado a ser visto como «estrangeiro» (contudo, no século XVII voltaram a introduzir-se elementos góticos no projecto da fachada). Houve também impulsos à construção vindos de onde talvez não se esperasse: em 1805, Napoleão, prestes a ser coroado rei de Itália (cerimónia que ocorreria no próprio Duomo a 26 de Maio desse ano), ordenou que a fachada fosse terminada, a expensas do tesouro francês. (Diga-se que, após um século de domínio austríaco, o qual se seguira a dois de domínio espanhol, os lombardos até viram com bons olhos a invasão Napoleónica de 1796 mas o entusiasmo desvaneceu-se quando o baixote francês começou a levar tesouros artísticos para Paris*.) O tempo que a construção demorou e todas as alterações que o projecto foi sofrendo tiveram uma consequência, talvez inevitável: se ninguém contesta a imponência do Duomo, muita gente ao longo dos séculos questionou-lhe beleza e coerência arquitectónica. Oscar Wilde terá sido o detractor mais famoso: considerou-o um falhanço monumental, salientando que os pormenores mais atraentes estão a altura excessiva para poderem ser devidamente apreciados. Já Mark Twain, outro autor com queda para as tiradas corrosivas, adorou-o. Eu, que não passo de uma alma simples, sempre disponível para ser maravilhado, concordo mais com Twain. Mas não deixo de perceber o ponto de vista de Wilde. Que, se calhar, nem chegou a ouvir o órgão.

 

* Entre os quais o Codex Atlanticus, recolha de apontamentos e esboços de Leonardo da Vinci, que foi mais tarde devolvido e se encontra actualmente na Biblioteca Ambrosiana, onde os turistas podem apreciar algumas páginas.

 

P.S.: Façam os comentários que entenderem mas não esperem que eu responda. :)



publicado por José António Abreu às 10:36
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Domingo, 12 de Junho de 2011
I´m here, I'm there, I'm everywhere

 

 


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publicado por José António Abreu às 19:58
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Terça-feira, 7 de Junho de 2011
Somewhere over the rainbow

Achei melhor fugir antes que me convidassem para o governo. Fiquem bem. Até já.


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publicado por José António Abreu às 10:30
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011
Lauberhornrennen (que é como quem diz «a corrida na Lauberhorn»)

Fiquei na dúvida se as duas senhoras de sessenta e muitos anos que, numa manhã fresca mas agradável de finais de Maio do ano passado, passeavam com um cão (ou passeavam o cão?) pelas ruas de Wengen, na Suiça, eram inglesas (pelas feições e sotaque, pareciam) e também se eram lésbicas (esses pormenores tendem a passar-me ao lado mas houve quem achasse que sim). Em resposta à minha pergunta, uma delas voltou-se e apontou-me na encosta a zona de meta das provas de esqui alpino.

 

(Fossem ou não inglesas lésbicas, é uma imagem curiosamente aconchegante, a de duas estrangeiras sexagenárias, suavemente apaixonadas uma pela outra, vivendo mais ou menos exiladas numa fria mas pitoresca povoação situada nas montanhas da Suiça Central. Acho eu. Enfim, avancemos.)

 

Muitos apreciadores de futebol não considerariam completa uma primeira deslocação a Madrid se não pudessem visitar o Santiago Bernabéu. Da mesma forma, fãs de desporto automóvel não se sentiriam bem dispensando, quando em viagem pela zona Oeste da Alemanha, uma visita ao Nürburgring Nordschleife. Encontrando-me em Wengen, eu precisava de saber onde era a pista de downhill. E devo confessar que, como quase todos os indivíduos nascidos e criados junto ao sopé da Serra da Estrela, nem sequer faço esqui (é entretenimento de fim-de-semana para lisboetas e portuenses).

Mas gosto de velocidade e de um pouco de loucura. E de cenários grandiosos. Vejamos: quatro quilómetros e meio (a mais longa prova da taça do mundo de esqui) para descer dos 2315 até aos 1290 metros de altitude (desnível de 1025 metros, inclinação média de 15 e máxima de 42 graus) a uma velocidade média ligeiramente superior a 100 km/h. Aproximadamente 150 km/h de velocidade máxima (o recorde é de 158). Uma secção estreita onde os esquiadores passam sob a linha férrea de cremalheira que sobe de Wengen para Kleine Scheidegg (onde se pode mudar para outro comboio e trepar por dentro do Mönch e do Eiger até Jungfraujoch, estação situada a cerca de 3500 metros de altitude, num trajecto totalmente desaconselhável a claustrofóbicos). O Hundschopf, um dos mais famosos saltos de todas as pistas de downhill (assim designado por – dizem – ter o formato de uma cabeça de cão). Uma curva interminável chamada «canto dos canadianos» por vários canadianos lá terem caído. Um ponto conhecido como «o buraco dos austríacos» por – what else? – quase todos os austríacos em prova ali terem caído em 1954 (para grande satisfação dos suiços, certamente). E depois há o resto. A presença imponente dos picos Eiger, Mönch e Jungfrau (costumam ver-se bem na televisão, mesmo antes do Hunsdchopf). O tal comboio de cremalheira. O covil de Blofeld no filme de 007 Ao Serviço de Sua Majestade (aquele em que Bond era George Lazenby, casava e não ficava com grandes recordações de Portugal) no Schilthorn, do outro lado do vale. Um teleférico que sai de Wengen e, em 1656,9 metros de trajecto, sobe 947,5. Em 5 minutos.

 

Mas na verdade estou a escrever isto por causa da prova. Disputa-se desde 1930 e nem a Segunda Guerra Mundial interrompeu a sua realização (embora quase só esquiadores suíços tenham participado nesses anos). Em 1991 houve uma morte e, ao longo das décadas, muitas pernas e braços partidos. É possível que certos desportos sejam demasiado loucos para mentes sensatas (é facto assente que as mentes sensatas só aguentam uma dose pequenina de loucura antes de entrarem em processo de rejeição). Nesse caso, esqui alpino, e especificamente a disciplina de downhill, só pode estar na lista. (Imaginem-se a colocar a cabeça de fora da janela do carro na auto-estrada; considerem que estão quinze graus negativos; agora substituam o carro por um par de esquis; finalmente esqueçam a auto-estrada e visualizam-se a descer uma encosta com vinte e tal graus de inclinação.) A Lauberhornrennen é um dos expoentes máximos do downhill e, por conseguinte, da loucura. Acontece amanhã de manhã, se o nevoeiro ou a queda de neve não complicarem tudo. Dá no Eurosport.

 

Neste vídeo faltam os primeiros trinta e tal segundos de descida. O Hundschopf é o primeiro salto, após a curva à esquerda. Ken Read, o canadiano que venceu em 1980, explica no site oficial da taça do mundo que é preciso travar a fundo - pouco antes, segue-se a cerca de 130 km/h - e abordá-lo com muito cuidado porque é «como cair num poço de elevador». Quanto ao Bode, aqui na descida que lhe deu a vitória em 2007 (ganhou também em 2008), para além de conseguir imitar o Keanu Reeves sem recurso a efeitos especiais, sabe decididamente terminar uma prova em grande estilo.


publicado por José António Abreu às 22:07
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Sábado, 4 de Dezembro de 2010
Chamam-lhe «progresso»

Ponta Delgada, 2005.

Ponta Delgada, 2010.



publicado por José António Abreu às 13:48
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Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010
OK, nem sempre o mau tempo é bom
O Renault Twingo está prestes a fazer dez anos. É azul vivo e tem comandos interiores em verde quase fluorescente. O vento fá-lo abanar enquanto percorre a estrada estreita, ladeada de casas baixas. O pára-brisas embacia com facilidade e as escovas mostram-se incapazes de afastar a quantidade de água que o atinge. De vez em quando, do lado direito, por entre casas, vê-se o mar, uma faixa quase branca em fundo cinzento-azulado. Nada disto parece incomodar ou distrair o meu condutor. Vai inclinado para a frente, agarrado ao volante, manuseando a alavanca das mudanças com gestos firmes, quase bruscos. Eu também vou inclinado para a frente, porque o meu banco tem as costas na vertical. Procurei a alavanca de ajuste mas não a encontrei (terá caído ou estará num local diferente do habitual?) e, como a viagem não se prevê longa, optei por não dizer nada. Sigo com o nariz quase encostado ao pára-brisas – ou assim me parece. Devemos constituir uma visão divertida, dois homens debruçados sobre o painel de instrumentos de um pequeno Twingo, como que tentando constantemente ler a placa de uma rua ou o número das portas. Pergunto: «Como este tempo os aviões levantarão voo?» O meu condutor encara a questão com a displicência de quem não precisa de apanhar qualquer avião para chegar a casa mas também com a de quem, residindo nas ilhas, está habituado a atrasos e a cancelamentos de voos. «Duvido», diz. O sotaque é evidente mas, ainda assim (felizmente), não tão forte que eu tenha de fazer um esforço para entender o que diz. «Isto é habitual? Das duas vezes que cá estive antes apanhei sempre bom tempo. Também era quase Verão…» Abana a cabeça mas mantém os olhos na estrada. «Não. Um tempo assim já não acontecia há muitos meses. E até tivemos um Verão de S. Martinho excelente, que durou até agora.» Muitos meses não é uma medida de tempo que me diga grande coisa (afinal, ainda nem chegámos ao Inverno) mas condiz com a displicência que já percebi ser marca registada dele. E, apesar de tudo, juntamente com a referência ao Verão de S. Martinho, permite-me pensar, num daqueles desabafos mentais em que nos achamos perseguidos pelo azar ou por forças superiores, como se Deus não tivesse mais nada para fazer do que nos chatear pessoalmente, que é preciso pontaria para vir a S. Miguel precisamente na altura em que o tempo acaba de mudar. E depois, claro, penso que se calhar é mesmo de propósito. Afinal, eu andava a pedi-las, após fazer tantos elogios ao frio e ao «mau» tempo na última semana.

 

Entretanto ele devolveu-me ao hotel. Passaram três horas e faltam outras três para a hora do voo. Até agora, consegui manter-me razoavelmente seco. O vento e a chuva têm diminuído de intensidade. Com sorte, talvez consiga regressar.



publicado por José António Abreu às 13:35
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Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
Consequências da greve geral

Por aqui, canais de televisão e jornais afirmam que a greve geral foi um fracasso. Intoxicação pura e simples. Houve consequências evidentes – e graves. Ontem à tarde, o funcionário da cafeteria do hotel explicava-me, contrito, que não havia casadiellas asturianas porque a pastelaria que as fornece estava em greve.



publicado por José António Abreu às 08:40
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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
Viagens superficiais
«Não gosto de repetir sítios», dizia, em tom de voz inquestionável e onde se podia mesmo detectar uma pontinha de horror. Falava de férias. Como se viajar fosse um processo de coleccionar carimbos e voltar aos mesmos lugares desse menos pontos do que fazer-se fotografar em frente a uma nova catedral (construída quando, por decisão de quem, em nome de que fé, pormenores irrelevantes quando comparados com o facto de ser mais ou menos imponente do que as anteriores – e de nunca se ter estado em frente dela). Viajar como que desempenhando uma tarefa num jogo de regras rígidas. Viajar para poder dizer que já se esteve em não sei quantos lugares diferentes. Mesmo que só o nome do país mude (leiam este post de Manuel Jorge Marmelo). Mas talvez assim evitem a sensação de não estarem sequer a conseguir arranhar a superfície dos lugares visitados. Sinto-a sempre, quando viajo. Nesta como noutras coisas, não tentar, nem sequer pensar em tentar, deve efectivamente ser mais fácil. A superficialidade como defesa contra a sensação de incapacidade para ir além da superficialidade. Brilhante. Óbvio. Por que não contentar-me com isso?
    
   
   
(Para ir de encontro ao post de M. J. Marmelo escolhi fotos tiradas em Cabo Verde – as cinco primeiras na Cidade da Praia, a última no Tarrafal. Já agora, leiam As Sereias do Mindelo, também escrito por ele.)


publicado por José António Abreu às 00:03
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
Paisagens mentais
Manuel Jorge Marmelo fantasia em viajar para um mundo só para ele. Escreve: Não haveria uma brisa, uma voz humana, nenhum sinal da civilização. Só eu e a minha pobre cabeça. Saltando por cima do facto de existir um termo médico para designar a condição de escapar do mundo para dentro da cabeça, tenho para mim que viajamos – quando viajamos mesmo, fisicamente – acima de tudo para sair da própria cabeça. Para a ocupar com pensamentos novos, ou com uma indolência catatónica, que a obriguem a dar-nos uns dias de sossego. Pelo contrário, viajar para dentro da cabeça, se não exige bilhete de avião nem subsídio de férias, força-nos a encarar paisagens conhecidas e com frequência deprimentes.

 

Mas talvez a fantasia fosse de um Manuel Jorge Marmelo mais novo (afinal, ele escreve: Um dia, quando eu fosse grande) ainda crente na possibilidade de se evadir para dentro da cabeça sem lá encontrar paisagens assustadoras nem cair na condição designada pelo tal termo médico. Também há uma palavra para isto: ingenuidade. Todos passámos por lá.



publicado por José António Abreu às 18:04
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Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Paisagens bucólicas: 15
Lungern, Suiça.


publicado por José António Abreu às 23:12
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Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
O ponto menos bom foi o Federer estar em Paris e, ainda por cima, ter perdido
Agora sou mesmo eu. Regressei ontem à tarde. A sério. Juro. Pelas alminhas, cross my heart and hope to die, e essas tretas todas. Apesar de não ter resistido a espreitar o blogue duas ou três vezes durante a última semana e meia (ok, quatro), devo esclarecer que todos os irritantes posts surgidos durante esse período foram escritos previamente e pré-publicados através da opção catita que a plataforma de blogues do Sapo possui para o efeito. Obrigado aos que continuaram a passar por cá, e em especial a quem deixou comentários; sem eles, não teria sido a mesma coisa (independentemente do que quer que tenha sido). Não lamento a exasperação que causei mas, por favor, finjam que sim. Fico ainda sensibilizado por ter ajudado a debelar, ou pelo menos controlar, algumas questões do foro mental.

É suficiente para provar que agora sou mesmo eu, ao vivo (kind of), e a cores? (Se não vir cores, por favor regule o seu monitor). Ou deverei referir algo que só eu – e não aquela criatura atormentada e ridícula que aqui ficou – possa saber? Estive na Suiça. (Desiludiu-me que ninguém tivesse apanhado a pista alpina das vacas roxas – sou demasiado subtil, é o que é.) Entre outras coisas que talvez um dia vos conte, gastei uma fortuna para trepar por dentro do Eiger num comboio de cremalheira até Jungfraujoch, apenas para ver neve a cair contra um belíssimo fundo de nevoeiro cerrado (mas a temperatura eram uns amenos 2,2 ºC negativos). Apesar de ter andado mais de carro, consegui perceber que os suíços têm uma excelente rede ferroviária, com linhas malucas – mas presumo que rentáveis – dando acesso aos sítios mais estranhos. E menciono os comboios porque assisti ontem à noite, quase contrariado, ao noticiário televisivo da TV portuguesa, onde vi Sócrates tentando impingir aos marroquinos tecnologia do TGV que ainda não temos. Percebi então que, mesmo não entendendo uma palavra de alemão (bom, não é inteiramente verdade: sei o que significa Bayerische Motoren Werke), os noticiários em Zurique faziam muito mais sentido do que os que se vêem por cá.

 

   

 Sim, é quase Verão.



publicado por José António Abreu às 13:14
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Domingo, 21 de Março de 2010
Lisboa

 

Pelas ruas.
Não lhe calcorreava as ruas há muitos anos. Passei em Lisboa grande parte da semana e consegui tirar um par de horas para o fazer. A memória é dúctil e sujeita à corrosão do tempo. Mas não me lembro de ver tantos graffiti pelas paredes (alguns são bonitos: na desolação que é o Parque Mayer, as pinturas foram o único elemento que me extraiu um sorriso) e, mais importante, tantas pessoas pedindo na rua ou cambaleando e murmurando pelos passeios. Lisboa dá ideia de ter perdido lisboetas e ganhado uma amálgama de gente desenquadrada, à procura de um lugar que a cidade não tem para oferecer. Muitas destas pessoas são imigrantes; têm diferentes tonalidades de pele mas sempre expressões fechadas, de desilusão, receio e, num ou noutro caso, agressividade. Nos bairros tradicionais, continua-se envelhecido e com olhar triste. Entretanto, há quem passe dentro de Porsches Cayennes com vidros escurecidos, ou saia carregado de sacos das lojas de luxo da Avenida da Liberdade. Alguns destes aspectos são comuns a outras cidades nacionais. Ao Porto, desde logo. Mas – será apenas uma sensação nascida do longo afastamento, do encontro com tantos pedintes, do estaleiro instalado no Terreiro do Paço, do pessimismo trazido pela década de crise? – Lisboa surgiu-me também menos ampla e arejada, como os compartimentos da infância surgem pequenos quando revisitados em adulto. Eram os meus pontos favoritos: a amplitude, a luz, a possibilidade de não sentir a opressão das cidades escuras. Pode dar-se o caso das diferenças estarem em mim e não em Lisboa. De serem os meus olhos que estão mais pessimistas. É possível. Em princípio, regressarei em Maio. Logo verei se as coisas me parecem diferentes.
 
Eléctricos.
Foi nas conversas com algumas pessoas que a alegria e irreverência de Lisboa ainda deu sinal de si. Uma rapariga que conduziu eléctricos durante um ano e meio descreveu-me, por entre risadas onde o sarcasmo se misturava com a ternura, como os eléctricos têm de parar a cada «cinco metros» por causa de carros mal estacionados que os passageiros, turistas incluídos, arrastam para o lado; como em certas zonas (no Martim Moniz, por exemplo) se passa a alta velocidade («para um eléctrico, claro») junto aos veículos estacionados, rezando para que ninguém abra uma porta; como ainda há pessoas que colocam a mão na anca e vociferam contra os atrasos em estilo marialva e sotaque tipicamente lisboeta; como se descarrila um eléctrico ou, por pura distracção ou por se estar a controlar os carteiristas, não se acciona a mudança de linha no momento certo, tendo que se parar o veículo e passar pela vergonha de descer e executá-la manualmente; como os furtos são constantes e encarados com a resignação dos factos incontornáveis; como, acima de tudo, todos estes acontecimentos são catalogados, para usufruto e apaziguamento dos magotes de turistas, como sendo «very typical».
 
Toda a gente precisa de se agarrar a algo nos momentos em que as coisas andam difíceis. Para os que não acreditam num qualquer deus, a ironia talvez seja a melhor religião.

(Todas as fotos foram tiradas em Lisboa entre Terça e Quinta-Feira passadas.) 


publicado por José António Abreu às 19:45
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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010
Pausa

Quase oito da manhã. Deixei para trás a VCI e conduzo na estrada que liga o Porto a Entre-os-Rios. Do lado direito, as águas do Douro, lamacentas, deslizam em bloco no sentido contrário. Não chove mas o piso encontra-se molhado. As nuvens permanecem baixas e há neblina no ar. Não está frio: o indicador no painel de instrumentos indica 12 ºC lá fora. Cá dentro, 18 ºC. Muitos veículos rodam com os médios ligados. (Verifico; o meu também.) Vou com tempo e, surpreendentemente, todos os condutores (os que seguem no mesmo sentido que eu mas também os que vêm em sentido contrário) parecem encontrar-se na mesma situação. Rodamos em ritmo sereno, a 50 ou 60 km/h. (Numa estrada com bom piso e cheia de curvas; o que se passa comigo?) Barcos balançam no rio. Há pontos em que a paisagem é atraente mas, de forma geral, está longe de ser deslumbrante. Parte da culpa é da luz mortiça, da neblina, do tempo cinzento. A maior parte, no entanto, é das construções omnipresentes, de um e outro lado do rio. Muitas das mais antigas, incluindo alguns edifícios fabris, estão degradadas, com fachadas escurecidas e buracos em vez de janelas. As mais recentes são apenas feias. De acessos íngremes em piso empedrado, saem carros. Os condutores olham apressadamente para a direita e para a esquerda antes de avançarem. Muitos acessos ficam em zona de curva e são perigosos. Fico satisfeito por ir devagar. Com uma série de estalidos e zumbidos, o leitor de CDs muda de Wild Beasts para Mumford and Sons. O carro vai-me balançando de curva para curva. Sinto-me estranhamente bem, como se estivesse suspenso dois palmos acima da realidade.
 
Recordo-me então da cena do saco de plástico esvoaçando junto à parede de tijolo no filme American Beauty. Não é preciso Sol nem muito calor nem paisagens exóticas. Às vezes basta respirar fundo e parar para olhar à volta.

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publicado por José António Abreu às 20:10
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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
Cliché

Hesito há semanas em colocar uma foto de Veneza na série das Paisagens Bucólicas. A verdade é que é provavelmente impossível tirar em Veneza uma fotografia que não seja um cliché. Como, aliás, em muitos outros locais. Por que continuamos então a tirá-las? Sim, queremos provar que, como milhões de outras pessoas antes de nós, estivemos lá. Mas não é apenas isso. Como demonstram aqueles escritores, músicos, cineastas (actividades a que, ao contrário da fotografia, poucos acedem) que enchem as obras de clichés e são incapazes de o admitir, um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché.


publicado por José António Abreu às 19:48
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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Memória das gaivotas
Visitei a ilha da Berlenga pela primeira vez num dia de Verão absurdamente quente do início da década de noventa. A quantidade de gaivotas era impressionante. O guano cobria as rochas e o ruído ensurdecia. Quando, no sábado passado, terminei a subida que leva ao farol foi como regressar a um sítio de que se tem uma imagem construída em criança e verificar que os espaços são todos mais acanhados do que no registo guardado na memória. Desde 1998, por questões de equilíbrio do ecossistema da ilha, partem os ovos às gaivotas para limitar-lhes a reprodução. Ainda há bastantes e a diminuição do nível de decibéis e do risco de ser atingido por um bombardeamento com armas químicas são factores inegavelmente positivos. Apesar disso, senti falta da disparatada quantidade de gaivotas de outrora. Quando regressamos a um local que já não visitamos há muitos anos, as alterações são quase sempre negativas: obrigam-nos a reajustar (e, consequentemente, a questionar) as memórias. (Ainda por cima, as memórias de viagens tendem a melhorar com o tempo.) Desde sábado, é-me mais difícil recordar a Berlenga com o sorriso de incredulidade que, durante anos, surgia de forma automática.
 

De resto, as águas permanecem límpidas, a subida do Forte de S. João Baptista até ao farol, exigente, e o próprio Forte continua a parecer-me digno de um filme de piratas.

 

  

 

 



publicado por José António Abreu às 00:19
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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Pleonasmo translinguístico

Os espanhóis de Puebla de Sanabria, povoação muito merecedora de uma visita situada mesmo junto ao cantinho superior direito de Portugal (perto de Rio de Onor e do Parque Natural de Montesinho), chamaram "Rua" à rua principal que sai da inevitável e florida Plaza Mayor. Ou seja, calle Rua (ou talvez calle de la  Rua). Acho simpático. Pergunto-me se teremos em Portugal alguma rua da Calle.



publicado por José António Abreu às 18:49
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Notas de viagem

Fico sempre com a sensação de que o ritmo nas auto-estradas espanholas é pelo menos 10 km/h mais lento que nas portuguesas. Nós abrandamos ao entrar em Espanha; os espanhóis aceleram quando entram em Portugal.

 
Muitas zonas de serviço espanholas obrigam a passar por povoações. É menos prático para o viajante que as nossas áreas bem formatadas e completamente isoladas do resto do país mas desconfio que o comércio dessas povoações agradece.
 
Claro que a solução espanhola só funciona em auto-estradas sem portagens. E a esse respeito: nos cento e sessenta quilómetros de auto-estrada entre o Porto e a fronteira de Vila Verde da Raia pagam-se oito euros e qualquer coisa de portagens; nos quase trezentos quilómetros de auto-estrada entre Verín e Valladolid pagam-se zero euros de portagens. (Ouço alguém dizer que a nossa solução é mais justa? O conceito do utilizador-pagador? Com certeza. Eu até concordo com ele. Aliás, deve ser por isso que o nosso IVA é mais reduzido, os nossos automóveis mais baratos e todos os espanhóis que vivem perto da fronteira vêm abastecer os veículos em Portugal.)
 
Precisamente na fronteira de Vila Verde da Raia, tanto no sábado como no domingo, havia imensa polícia do lado português (no sábado mandavam mesmo parar alguns veículos que entravam em Portugal) e nenhuma no lado espanhol. Podia ser uma alegoria para o facto de terem sido sempre eles a tentar invadir-nos e não o contrário mas devia ser apenas por causa dos imigrantes.
 
Ao passar junto a Tordesilhas não consegui evitar pensar em como, há cinco séculos, nós e os espanhóis estávamos tão seguros da nossa importância no mundo. Agora, excluindo arroubos momentâneos, nós achamos que somos insignificantes; eles continuam a considerar-se o centro do universo.
 
O estádio do Real Valladolid seria indigno de um quase falido clube português de média dimensão. É até incrível pensar que foi inaugurado em 1982 e que lá se disputaram partidas do mundial de futebol desse ano. O facto suscita-me duas notas: estamos todos tão mais exigentes hoje em dia e pelo menos em certas coisas fundamentais evoluímos mais que os espanhóis.
 
Valladolid tem fama de ser a cidade espanhola onde melhor se fala o castelhano. Não sei o que os Valladolidenses acharam do castelhano de Bruce Springsteen mas a mim pareceu-me bastante razoável. Tanto que o teria percebido melhor se falasse em inglês.


publicado por José António Abreu às 13:06
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