como sobreviver submerso.

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017
Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo
 

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi), lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

 

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.



publicado por José António Abreu às 11:01
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2016
«Querida, vamos voltar a falar daquela minha fantasia, agora que sei que está de acordo com a tua natureza...»
Estudo conclui: não há mulheres heterossexuais.


publicado por José António Abreu às 18:39
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
Considerações acessórias sobre o número ideal de parceiros sexuais de homens e mulheres
No Delito de Opinião, Andréa, proprietária de um blogue chamado A Ponto, respondeu a sério ao meu semi-estapafúrdio (permitam-me alguma condescendência comigo mesmo) post anterior. Remetendo para um texto escrito em 2009, lembrou um estudo publicado na Visão, onde ficava evidente que, quando o tema é sexo, as mulheres portuguesas mentem tanto como os homens, só que em sentido inverso. E escreveu: Seremos tão mal vistas pela abstinência como pelo excesso, seja lá o que isso for. É esta frase que eu gostava de realçar porque Andréa tem toda a razão. Um homem sempre precisou de um currículo de experiências sexuais. E quanto mais preenchido estivesse, melhor. Por seu lado, até há poucas décadas as mulheres enfrentavam uma situação bastante diferente. Sexo com poucos homens era fundamental, sexo com muitos (sendo «muitos» um termo tão relativo que podia – e em alguns recantos deste belo planeta ainda pode – começar em um) transformava-as em meretrizes (que é uma maneira suave de dizer «putas»). Hoje, não sendo já estranho que uma mulher possua um historial de parceiros sexuais, ainda não é exactamente bem visto que ele seja demasiado longo. Mas (não quero fugir à dúvida da Andréa) o que é demasiado? Praticamente qualquer número desde que a avaliadora seja outra mulher, com razões (reais ou imaginadas) para não gostar da primeira, ou mais do que o parceiro do momento. (Quanto a este último ponto, gostaria de salientar algumas excepções; homens com tendência para o papel de «salvador», homens que apenas pretendem sexo, homens de uma incrível saúde mental, homens com cinquenta, sessenta ou setenta anos que querem provar ainda funcionarem tão bem como os de vinte e adolescentes em processo de iniciação sexual poderão não ligar a tais desequilíbrios.) Mais curioso do que este limite superior (as mentalidades alteram-se devagar) é verificar como, numa aproximação à lógica masculina, parece também ser hoje mal visto que uma mulher tenha ido para a cama com um número reduzido de parceiros – e a virgindade, então, passou a doença: pensemos no modo como olhamos para as jovens daqueles clubes em que se jura virgindade até ao casamento. Sinal dos tempos, da liberdade sexual feminina e talvez da enorme quantidade de séries televisivas que, na última década, década e meia, têm apresentado – e glorificado – mulheres sexualmente muito activas. Porém, tudo isto não deixa de configurar uma situação de relativa injustiça. Enquanto um homem tem que ir para a cama com umas quantas mulheres e depois o Céu é o limite (partindo do princípio de que os anjos não são afinal do sexo feminino), as mulheres parecem ter que se manter dentro de balizas mal definidas. Nem abstinência nem excesso, como a Andréa escreveu. A boa notícia é que a situação tende a corrigir-se e, em breve, também para as mulheres o Céu será o limite. Até porque nem elas nem os homens lá conseguirão entrar.

 

Adenda: O que isto tudo significa para as relações de longo termo – bom, essa é outra questão. Que o aumento da taxa de separações e a diminuição do número de partos talvez ajude a explicar. A liberdade também tem custos.



publicado por José António Abreu às 20:53
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Domingo, 6 de Maio de 2012
Contabilidade sexual

Nas cartas dirigidas a Flaubert, muitas delas de uma sã crueza de linguagem, Maupassant mostra-se orgulhoso da sua virilidade excepcional e chega a confessar-se farto de sodomizar judias!... A resposta foi simples: «experimenta pelo lado tradicional e pode ser que o teu tédio desapareça».

João Costa, no prefácio a As Sobrinhas da Viúva do Coronel, de Guy de Maupassant, Bertrand, 2007.

 

Será possível acharmos que vivemos numa época especialmente sexual – isto é, em que se faz mais sexo do que noutros tempos e de formas mais criativas? A década de sessenta, com a libertação feminina, o amor livre, o make love not war e o sex, drugs and rock ‘n’ roll, bem como a representação cada vez mais displicente (e inconsequente) do acto sexual na televisão e no cinema terão provavelmente contribuído para tal sensação. Mas corresponderá ela à realidade? Infelizmente, sendo, por um lado, os inquéritos sobre a frequência e os hábitos sexuais o que eram nos séculos anteriores ao último (inexistentes talvez seja o termo que procuro) e, por outro, os humanos (especialmente se possuidores de um cromossoma Y) propensos a mentir quando questionados sobre estas matérias, não é fácil ter certezas. Mas julgo podermos afastar desde já a hipótese de sermos mais criativos. Se as confissões de Maupassant, afloradas acima (e confesso tê-las usado essencialmente para vos chamar a atenção), não constituem grande indicador, há milhares de outras fontes onde podemos constatar que, basicamente, nos limitámos a melhorar alguns acessórios recorrendo à electricidade, à injecção de plásticos e aos circuitos integrados. Mas e a questão da frequência? O mesmo Maupassant terá possuído numa só hora, perante uma testemunha, seis mulheres num bordel parisiense. Mas relações envolvendo troca de dinheiro dificilmente representam a realidade ou a sensibilidade de uma época. Por outro lado, convém evitar dar excessivo crédito a declarações de machos com tendência para o priapismo – ou para a gabarolice. É por esta razão que os relatos do divino Marquês de Sade também não nos servem para caracterizar o que quer que seja. Podíamos ainda recorrer à Bíblia, que nos fala de Sodoma e Gomorra, ou a relatos gregos e romanos mencionando bacanais mas continua a ser difícil fazer comparações com os tempos actuais (como determinar se Calígula participava em mais ou menos orgias do que José Castelo Branco?). De resto, talvez seja melhor atermo-nos aos tempos e às regiões de influência cristã. Então, como fazer? Eu digo-vos: buscando na ficção não erótica de diferentes épocas a ideia que os autores transmitem sobre o que representa ter muitas relações sexuais. Claro que não obteremos o número de relações em que uma pessoa média se envolvia mas pelo menos obteremos uma noção do que era considerado excessivo. Sendo isto um post de blogue (necessariamente curtinho e to the point), vou limitar-me a um par de exemplos totalmente aleatórios e, dessa forma, estou em crer que totalmente representativos.

 

Comecemos pela actualidade e por uma série televisiva intitulada How I Met Your Mother ou, na versão portuguesa, Foi Assim Que Aconteceu. Nesta série, Barney Stinson, um awesome (definição do próprio) jovem mulherengo nova-iorquino com cerca de trinta anos, tem relações sexuais com a duocentésima mulher diferente durante a quarta temporada. Já perto do final da quinta, refere que a contagem vai em quase duzentas e oitenta (o que revela um considerável aumento de ritmo). Temos então que, de acordo com a mentalidade actual, fazer sexo com quase trezentas mulheres é mais do que suficiente para que um tipo de trinta e tal anos possa considerar-se (e ser considerado) um engatatão de primeira classe. Se Barney tiver iniciado a vida sexual aos quinze, isto dá uma média de catorze ou quinze mulheres por ano. Razoável, de facto, pelo menos quando comparado com a minha estatística pessoal – mas eu tendo a esquecer-me das coisas.

 

Antes de recuarmos no tempo e colocarmos à prova as façanhas de Barney Stinson convém explicar que toda a lógica deste post se aplica aos homens. E não por uma questão de machismo, pelo menos da minha parte. Apenas porque, no que respeita às mulheres, não há qualquer dúvida. Convenhamos que discutir o número a partir do qual uma mulher era classificada como – er, conquistadora nem sequer é o termo, pois não?... promíscua, então? – há um par de séculos não é mais do que escolher entre os algarismos um, dois e três, consoante se tratasse de um mulher solteira, casada pela primeira vez ou casada pela segunda vez após morte do primeiro marido. Felizmente, hoje a situação é bastante diferente (felizmente também para os homens, que têm – dizem-me – menores dificuldades em arranjar sexo barato). Ainda assim, sinto-me forçado a salientar que, décadas depois da tal «revolução sexual» dos anos sessenta, continua a notar-se uma diferencita no valor considerado excessivo para homens e para mulheres. Lembram-se da cena, em Quatro Casamentos e Um Funeral (de 1994, mas creio que ainda razoavelmente representativo) na qual a personagem interpretada por Andie MacDowell enumerava os amantes que tivera? Ela apenas chegou a trinta e qualquer coisa mas terminou corada de vergonha e, diante dela, a personagem interpretada por Hugh Grant começava a entrar em estado de choque. Ou seja, trinta e qualquer coisa parceiros sexuais já são demasiados para uma mulher de trinta e qualquer coisa anos mas quase trezentas parceiras sexuais ainda não embaraçam um homem de trinta e qualquer coisa anos (pelo contrário, ele continua a sorrir, orgulhoso).

 

Bom, mas então como era no passado? E a quem recorrer para obtermos uma ideia digna de crédito? Não existindo televisão nem cinema, resta-nos a literatura, o teatro e a ópera. Mantenhamo-nos nas artes performativas e usemos a última. Em Don Giovanni (parcialmente uma comédia, como How I Met Your Mother) Lorenzo da Ponte, o librettista que trabalhou com Mozart no mais famoso trio de óperas do pequeno génio austríaco, fez Leporello, o servo de Don Giovanni, explicar a D. Elvira, através da famosa ária do catálogo (ver abaixo Kyle Ketelsen como Leporello e Joyce DiDonato como D. Elvira na excelente produção da Royal Opera House de 2008, disponível em DVD e Blu-ray), que as conquistas do patrão ascendiam a:

In Italia seicento e quaranta;

In Alemagna duecento trentuna;

Cento in Francia, in Turchia novantuna;

Ma in Ispagna son già mille e tre.

Passando sobre a desfeita de Don Giovanni ter ignorado as mulheres portuguesas (porquê, João, porquê?), somem os números e chegarão a – prontos? – duas mil e sessenta e cinco conquistas sexuais. Ora Don Giovanni teria apenas vinte e dois anos de idade. Considerando uma vida sexual de sete anos, obtém-se a astronómica média de duzentas e noventa e cinco mulheres diferentes por ano. O que são, comparadas com isto, as catorze de Barney Stinson? A conclusão é dolorosa mas inevitável: a menos que na televisão actual se exagere afinal muito pouco, vai-se a ver e ainda temos muito que... muito que… ainda temos muito sexo a fazer.

 

 
(Imagens recolhidas aqui.)


publicado por José António Abreu às 23:55
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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012
À atenção de homens heterossexuais (que vos permita uma melhor vida ou pelo menos deixarem melhores recordações)

– Depois de ti nunca mais tive um namorado ou um amante que amasse o meu corpo tanto como tu o amaste.

– Tiveste namorados?

Lá estava eu de novo, com a mesma conversa. Esquece os namorados. Mas não conseguia.

– Tiveste, Consuela?

– Tive, mas não muitos.

– Dormiste regularmente com homens?

– Não. Numa base regular, não.

– Como era o teu emprego? Não houve ninguém no teu emprego que se apaixonasse por ti?

– Apaixonavam-se todos.

– Eu compreendo isso. Mas, e depois? Eram todos homossexuais? Não conheceste homens heterossexuais?

– Conheço, conheci, mas não prestavam.

– Não prestavam porquê?

– Masturbam-se apenas no meu corpo.

Philip Roth, O Animal Moribundo.

Edição D. Quixote, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.



publicado por José António Abreu às 19:08
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Domingo, 18 de Setembro de 2011
Amor e sexo - surpresa e inveja dos deuses

Este amor, este amor mortal, foram eles que o criaram, algo que nós não planeámos, previmos ou sancionámos. Como é que não haveria de nos fascinar? Demos-lhes aquela irresistível compulsão no baixo-ventre – Eros e Ananké trabalhando de mãos dadas –, só para que eles superassem a sua repulsa pela carne do outro e se unissem de bom grado, mais do que de bom grado, no acto de procriação, já que, uma vez que os criámos, detestámos a ideia de os deixar perecer, sendo eles, no fim de contas, a nossa obra, para o bem e para o mal, ou, como é muitas vezes o caso, para o mal. Mas, olhem!, vejam o que eles fizeram desta trapalhada do esfreganço. É como se alguém tivesse dado a uma criança birrenta umas quantas aparas de madeira e um balde de lama para ela ficar sossegada e, de imediato, ela tivesse erguido uma catedral, com direito a baptistério, campanário, cata-vento e tudo. No recinto desta consagrada casa, oferecem-se uns aos outros refúgio, desculpam uns aos outros as suas falhas, suores e cheiros, as suas mentiras e subterfúgios e, acima de tudo, a sua inextirpável auto-obsessão. É isto que nos desconcerta, a maneira como fugiram ao nosso controlo e, de alguma maneira, se tornaram livres de se perdoar uns aos outros por tudo aquilo que não são.

 

E do princípio ao fim, a coisa não passa de uma fantasia auto-induzida. O que o meu pai, ansiando pela amor delas, não vê e não admite que lhe digam é que aquilo que o amor ama é precisamente a representação, pois a representação é a única coisa que o amor conhece. Ou nem sequer tanto. Mostrem-me um par em pleno acto e eu mostro-vos dois espelhos, rosados, lisonjeiramente distorcidos, presos num abraço de incompreensão mútua. Eles amam para poderem ver o seus eus em piruetas maravilhosamente reflectidos nos olhos do amado. É a imortalidade que buscam – sim, aquilo de que gostaríamos de nos livrar, eles almejam, ou pelo menos, desejam a ilusão de imortalidade, a sensação de viver para sempre num instante de paixão. Donde as suas cerimónias de entrega e voracidade. Ágape?... Sim, nesse festim eles comem-se uns aos outros, devorando-se mutuamente. E isso, isso é o que grande Zeus cobiça, os seus pequeninos arroubos manufacturados dos quais ele se vê excluído.

 

John Banville, Os Infinitos.

Edição Asa, tradução de Tânia Ganho.



publicado por José António Abreu às 21:29
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Domingo, 13 de Março de 2011
Sexo

«Não o devemos fazer às claras, é o que tu estás a dizer. Mas isso é porque ainda continuas a ser o mesmo romântico que, provavelmente, eras aos vinte anos. O sexo já deixou de ser uma coisa assim tão secreta. O sexo foi desvendado. Sabes o que o sexo significa para a maioria das pessoas?»

Baixou a mão e pousou-a sobre a minha, e moveu a pélvis ligeiramente, roçando-se contra a minha palma.

«O sexo é aquilo a que temos acesso. Para algumas pessoas, para a maioria, é a coisa mais importante a que têm acesso sem terem nascido ricas nem inteligentes, e sem precisarem de roubar. Eis uma coisa que a vida nos pode oferecer e que é igual ou até melhor ao que os outros possuem, e que não temos de andar seis anos na universidade para alcançarmos. E não é uma religião nem é uma ciência, mas podemos explorá-lo e aprender coisas novas acerca de nós mesmos.»

Don DeLillo, Submundo.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.



publicado por José António Abreu às 15:57
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
Geografia

Em poucos anos, o acto sexual transferiu-se das densas florestas tropicais para os desertos mais desprovidos de vegetação existentes no planeta.


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publicado por José António Abreu às 08:23
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
Bisontes
Num dos canais National Geographic uns quantos bisontes macho residentes no Parque Nacional de Yellowstone esforçavam-se por conquistar o coração das fêmeas e afastar a concorrência. Segundo parece, as principais formas dos bisontes macho se insinuarem junto das companheiras de manada (é possível que «insinuar» seja um verbo demasiado subtil para descrever a atitude dos bisontes mas não consigo resistir a deixar duas ou três das cinco pessoas e três quartos que ainda lêem este blogue tentando imaginar um bisonte insinuando-se) é realizando exibições de porte e de dotes vocais (o júri do Ídolos seria implacável), rebolando-se na lama e trotando atrás delas para onde quer que elas vão (de modo um tudo nada demasiado insistente, if you ask me, especialmente se as bisontes fêmea modernas tiveram pontos de contacto com as humanas modernas). Quanto à segunda parte da questão, lidam com ela escavando no solo com as patas anteriores, urrando ameaçadoramente e dedicando-se a lutas cabeça contra cabeça. Estas, deixem-me que vos escreva, constituem um espectáculo impressionante, digno de um documentário da National Geographic (que afinal de contas era o que aquilo era). Apesar de, segundo o narrador, os bisontes tentarem evitar o confronto físico, cerca de um terço dos machos tem ossos partidos em resultado de combates. O que não surpreende quando se vêem dois mastodontes de novecentos quilos cada chocando de cabeça um contra o outro. Repetidamente. Mas o prémio compensa, não? Hmmmm, exactamente qual é o prémio? O que é que eles ganham no final de todo este esforço? Preparados? Aqui vai: quinze segundos de prazer. A sério, não é uma figura de estilo: quinze segundos – um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze – é a duração do acto sexual que eles tanto ambicionam. Penso já ter lido em qualquer lado que alguns humanos macho também não duram mais do que isso. Mas convenhamos que poucos andam às cabeçadas uns aos outros por causa de fêmeas (pronto, está bem, alguns também andam mas a esmagadora maioria fá-lo por amor a Jorge Nuno Pinto da Costa ou a Luís Filipe Vieira). Seja como for, estava eu a olhar para o ecrã com um sorriso de espanto e outro de comiseração (ando a aprender dupla personalidade com a Toni Collette), pensando que as fêmeas, quando finalmente desistem de se fazer de difíceis, só podem achar que a montanha pariu um rato (agora é uma figura de estilo) e que, diabos, quinze segundos (quinze, ok?) de prazer não valem tamanho esforço e risco (no mínimo, um bisonte faz sexo com uma dor de cabeça mais intensa do que a de uma humana tentando evitar fazer sexo, no máximo com um traumatismo craniano fatal) quando me apercebi de que, para um bisonte macho, vivendo com escassos métodos alternativos de obtenção de prazer (a paisagem é bonita mas ao fim de um certo tempo deixa de ser novidade e não há televisão, nem livros, nem cinema, nem música, nem blogues, nem nenhuma daquelas substâncias a que os humanos recorrem para tentar esquecer como a sua vida é deprimente – ainda que esteja repleta dessas coisas todas), aqueles quinze segundos podem representar muito mais do que um exemplar mediano de homo sapiens está capacitado para entender. Reparem só num detalhe a que ninguém presta atenção: um bisonte, como a maioria dos restantes animais, nem sequer consegue masturbar-se.

Esta imagem desaparecerá dentro de quinze segundos. Catorze. Treze. Doze...

Fotografias pilhadas aqui e aqui.


publicado por José António Abreu às 22:47
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Domingo, 21 de Novembro de 2010
Sex shop

Diz que vai abrir uma sex shop oriental. Ou melhor, com produtos orientais. Mas não apenas chineses, que isso podia transmitir a ideia de material barato e sem qualidade. Explica que ainda existe muito mistério, muita construção de fantasias, em torno dos orientais – e especialmente das orientais. «Um vibrador com um nome que pareça oriental – flor de lótus, ou shinkansen, por exemplo – adquire logo uma aura especial.» E depois haverá roupa interior e objectos estranhos e cremes que até podem nada ter a ver com sexo («Estou convencido de que podia vender Atrix enfiado num tubo com a designação 'Sushi Pleasure Enhancer' sem dificuldades, pá. Está tudo na cabeça e os clientes iam achar que aquilo dava resultado. E mal não lhes fazia: deixava-lhes a pele mais suave.») mas que poderão ser vendidos por preços exorbitantes («A Chanel vende água perfumada a quinhentos euros o litro e nem é suposto ajudar nas erecções...») se as pessoas desconfiarem que sim. Planeia comercializar peluches eróticos («Serão fantásticos para festas de despedida de solteiro e tretas similares»), e convida quem o ouve a imaginar o divertido que será colocar um macaco japonês a ter relações sexuais com um panda chinês. Promete quimonos de cabedal, com incrustações metálicas, orifícios e fechos (não há trejeito de horror que o faça hesitar). Diz que disponibilizará objectos hi-tech, com chips, luzinhas, músicas (orientais, sempre orientais) que arrancarão nos momentos certos, câmaras microscópicas e ligação wi-fi para download imediato de imagens e vídeos para o Facebook. («Tudo made in Japan ou Korea ou, vá lá, Taiwan, mas nada made in China, que o rótulo faz diferença no preço que se pode cobrar.») Gosta de imaginar os clientes tentando descobrir como usar um vibrador vendido com o rótulo vibrador transversal. («'Transversal' por causa do que se costumava dizer do sexo das orientais, estás a ver? Mas claro que o vibrador vai igual aos outros; àqueles mais sofisticados, bem entendido.» E se lhe perguntarem como é que se usa? Sorri. «Fácil. Digo-lhes: experimente da forma em que está a pensar e depois vá inovando. Do que as pessoas precisam é de pensar que são ousadas, que estão a chegar mais longe do que o parceiro do lado... ou pelo menos tão longe quanto ele. Sabes o que se diz: o cérebro é o verdadeiro órgão sexual.») Quer instalar a loja num centro comercial («Reparaste que em nenhum dos principais há sex shops?») e já tem nome para ela. Gosta de o dizer depressa e em voz alta porque, garante, se obtém um efeito tipicamente oriental. «Vou chamar-lhe 'Glande e Clitóris', pá. Não é de génio?». Anda entretido a pensar no logótipo: não sabe se é melhor arranjar um símbolo oriental sugestivo, se colocar apenas um ponto de exclamação («com duas pintinhas em vez de uma, assim lado a lado, o que é que achas?») a seguir ao nome.



publicado por José António Abreu às 23:27
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Domingo, 23 de Maio de 2010
Dois é melhor do que um (a perspectiva anatómica)

Dois braços e duas mãos;

Duas pernas e dois pés;

Dois olhos;

Duas orelhas;

Duas narinas;

Duas mamas;

Duas nádegas;

Uma boca;

Um pénis ou uma vagina.

 

Boca e sexo causam-nos os maiores problemas. E cedo começam à procura de par.


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publicado por José António Abreu às 23:08
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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010
Business time

 

 
(Na sequência do debate que se gerou na caixa de comentários deste post. Vá lá, rapazes  especialmente os casados , mantenham algum sentido de humor...)


publicado por José António Abreu às 00:07
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010
Vovó no Carnaval
«Avó? Como posso me sentir avó?», indignou-se outro dia uma amiga minha. «No Carnaval de 1962, eu tinha vinte anos e passei quatro dias pulando montada no pescoço de alguém. Toda noite era um namorado diferente. Às vezes, mais de um, porque eu saía de um baile para outro. Brinquei no Municipal, no Copa, no Quitandinha, no Glória, no Monte Líbano e no Marimbás. Destruí quatro fantasias: índia, tirolesa, pirata e pistoleira. De dia, refrescava a cabeça na praia ou saía em algum bloco. Fui eleita as melhores pernas do Bafo da Onça. Dei uma namoradinha na Barra com um diretor do cinema italiano, esqueci o nome – entrou areia mas valeu. Durante uma semana não me lembro de ter dormido em casa. Cheirei dez tubos de lança-perfume. Então me diga: tenho moral para ser chamada de vovó?»
 
Ruy de Castro, Rio de Janeiro – Carnaval no Fogo.
Edições Asa, pp. 107.


publicado por José António Abreu às 13:18
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Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
No que pensar em certos momentos delicados
Ainda a propósito desta questão:
 

 

E, já agora, o trailer, para pessoas demasiado novas para saberem quão importante foi o grunge durante um par de anos e que o melhor filme do Cameron Crowe já é de 1992.
 

 



publicado por José António Abreu às 11:45
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Domingo, 6 de Dezembro de 2009
Simpatia feminina
«Joan: Let's face it. He would premature ejaculate. There's no nicer way to say it. And the sooner he would come the guiltier he would feel and the sooner he would come. Because in some ways, of course, he was doing it to punish me. And he was doing a hell of a job of it.
So one day I said to him: "Look, I'm in bed to make love to you, and you're in bed to make love with me. So why don't we just relax, and I'll be with you, and you be with me, and whenever you want to come is fine. Pause. But he still kept prematurely ejaculating. Pause. Although he seemed happier about it.»
David Mamet, Sexual Perversity in Chicago 
 
Os homens não deviam pensar, especialmente nas ocasiões que exigem acção (toda a gente sabe que não somos bons em multitasking). Mas a simpatia das mulheres nesses momentos é problemática porque os homens desconfiam que a) existe uma dose de condescência por baixo da simpatia (o que é mentira, não é, Margarida e Maria?); b) na primeira discussão séria, toda a simpatia desaparecerá como num passe de magia; e c) raras são as mulheres capazes de manter um segredo (por que é que acham que os homens tendem a detestar as amigas da mulher, mesmo que, claro, possam perfeitamente fantasiar levá-las para a cama, de modo a provar-lhes que a mulher é mentirosa compulsiva?).


publicado por José António Abreu às 23:55
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Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
Prioridades trocadas

Este blogue tem apenas quatro meses e uns dias. Olhando para a coluna das tags verifico que, antes de este post ser publicado, há já vinte e um com a tag “Sócrates” mas apenas sete com a tag “mulheres” e onze com a tag “sexo”. Há qualquer coisa tremendamente errada comigo.



publicado por José António Abreu às 20:06
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2009
Os gregos e os pénis pequenos

Uma voltinha pelo Museu do Louvre permite rapidamente constatar três coisas: a Vénus de Milo, que tem cara de rapaz, parece cansada e só não afasta as pessoas que se acumulam à sua frente por falta de braços; a instalação/performance na sala da Mona Lisa, em que uma multidão tira fotos ao (e em frente ao) enigmático (e cansado e resignado) sorriso, fazendo questão de ignorar ostensivamente todos os restantes quadros na sala (um apontamento de arte contemporânea pelo qual Serralves trocaria de bom grado todas as obras envolvendo garrafas ou pedaços de madeira que já teve em exibição), funciona bem; as estátuas clássicas gregas têm pénis pequenos. Os dois primeiros pontos são específicos do Louvre, o terceiro não, e, por incrível que possa parecer, muita gente já reparou nele. Procurei explicações na net. Como seria de esperar, encontrei para todos os gostos. Há quem diga que era para não chocar o espectador; há quem assegure que era para os homens não se sentirem como hoje em dia alguns se sentem ao verem as monumentais obras de arte exibidas em certos canais codificados de televisão; há quem avente a possibilidade dos modelos estarem com frio enquanto posavam, uma vez que não existiam sistemas eficazes de aquecimento; há quem sugira que, sendo os gregos à época um bocado gays, pénis pequenos eram menos assustadores para neófitos (parece-me bem que é não conhecer os gays...). A explicação que me pareceu mais fundamentada defende que os gregos tinham um ideal de beleza masculina em que pénis demasiado grandes (tal como pénis circuncidados) não se enquadravam. Gostavam de corpos atléticos, com torsos e pernas musculados, não perturbados por excrescências volumosas. Não tinham qualquer problema em relação à nudez e o facto de aceitarem ser reproduzidos com pequenas partes pendentes pode até ser visto como um sinal de maturidade intelectual: no fim de contas, a Grécia ou, mais precisamente, a Atenas Clássica é a primeira sociedade onde a cultura não só é apreciada como estimulada. Tanto que, depois de espreitar os tais canais codificados ou de ver algumas páginas de publicidade a boxers, sou forçado a pensar que regredimos. A tendência actual, na representação ou sugestão do órgão sexual masculino como noutras áreas, é para privilegiar o tamanho, ainda que em detrimento da qualidade: já me queixei antes da popularidade das gigantescas mamas de silicone mas também estão na moda estaturas elevadas, olhos gigantes e lábios grossos. Mas há mais: as mulheres preferem homens com mãos grandes e, desde a eleição de Obama, até orelhas-de-abano parecem estar in (circulam rumores de que José Rodrigues dos Santos não tem já qualquer dúvida de que é um símbolo sexual). Mesmo os automóveis (a tradicional extensão do pénis) têm vindo a ficar maiores: comparem um Clio da primeira geração com um actual ou, mais flagrante ainda, um Mini clássico com um dos que a BMW agora produz. Regredimos também noutra área: enquanto a nudez era vista de modo natural na Grécia de há dois mil e quinhentos anos, é encarada com reservas por muita gente hoje em dia, um pouco por todo o mundo. Independentemente do tamanho dos pénis.

 
Claro que os gregos também inventaram o mito de Príapo e as estátuas deste deus sempre-em-pé (filho de Dionísio e de Afrodite) eram comuns na Grécia clássica. Pode ter sido para disfarçar  – como aqueles sujeitos que ameaçam descer as calças e berram “queres que to mostre?” quando sentem a sua virilidade posta em causa – mas provavelmente não foi. Príapo era visto como um rústico, a sua sexualidade encarada como demasiado agressiva, e aparece mencionado essencialmente em obras de arte satírica. Definitivamente, pénis grandes eram coisas feias. Rocco Siffredi e John Holmes nunca fariam carreira nas artes gregas dessa época.
 

Desconheço o que pensam os gregos actuais da representação do pénis nas suas estátuas. Não sei se sentem algum embaraço e se têm constantemente que provar que os seus antepassados exageravam. Seja como for, de nós, portugueses, os gregos não devem temer bocas foleiras. Depois da selecção grega nos ter derrotado duas vezes no europeu de futebol de 2004, a última das quais na final, nós sabemos que eles podem não ter pénis grandes mas: a) têm certamente tomates; e b) a expressão "o tamanho não interessa" deve estar certa porque nos doeu a valer.

 

(Fotos tiradas no Louvre e no Jardim das Tulherias em Maio de 2009.)



publicado por José António Abreu às 13:18
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Não sei se o Condestável aprovaria...

Esta notícia do i sobre o "I Salão Erótico Medieval" que parece estar a decorrer desde hoje em Vila Nova de Gaia levanta (é uma forma de expressão) tantas questões que nem sei por onde começar.

 

Pelo conceito, talvez. "Na época medieval existia uma forte componente erótica", assegura o organizador. “As senhoras da nobreza demoravam quatro horas para se vestir e precisavam da ajuda de aias para colocar os corpetes para evidenciar os seios.” Está-se sempre a aprender. O tempo que as mulheres levam a arranjar-se, que para uns é um pesadelo, para outros é uma fonte de erotismo. Mas será que os organizadores esperam enchentes desejosas de ver mulheres vestindo-se? Nos filmes (a minha única fonte de informação sobre o assunto) os shows eróticos têm normalmente mulheres despindo-se. Lutas na lama protagonizadas por bailarinas exóticas, saltimbancos que recriam contos eróticos e striptease a cavalo são alguns dos espectáculos a que vai ser possível assistir. Ah, OK, assim já faz striptease a cavalo?!

 

Não consigo imaginar a coisa sem quedas potencialmente perigosas. Enfim, há ainda a acrobata erótica Sónia Baby, uma outra estrela chamada Lesly Kiss, um museu de tortura medieval (hmmm, as possibilidades da roda, ainda por cima com uma acrobata por perto), lutas de varapaus (penso que não é uma forma de expressão) e cuspidores de fogo. Tudo isto decorre onde? No Cais de Gaia? Na praça em frente ao El Corte Inglés? Não. No parque de estacionamento do restaurante erótico The Lingerie. O guia Michelin tem tantas falhas...

 

Sejamos honestos: mesquinhas considerações puritanas à parte, são de louvar iniciativas que, nesta época de crise, tentam levantar (é uma forma de expressão) a moral às pessoas. É também de louvar o esforço dos organizadores para atrair o público feminino, através de redução de preços e da garantia, dada pelo organizador, que "Portugal tem os melhores strippers masculinos da Europa". E ainda dizemos mal do país. Se calhar, para além de artistas da bola, podíamos exportar... outro género de artistas. Já agora, como é que isso é avaliado e quem avalia? “Participamos regularmente em campeonatos de strip dance e somos bons, realmente."  Ah.

 

Como nota final, é da mais elementar justiça salientar a vitalidade cultural de Gaia sob a presidência de Luís Filipe Menezes, por oposição ao imobilismo do Porto. Engole esta (é uma forma de expressão), Rui Rio.

 

P.S.: a foto que o i escolheu para ilustrar a notícia também é fantástica. É tão artsy que podia estar pendurada nas paredes alvas de Serralves. Nada tem de medieval ou de particularmente badalhoco e admitam: uma notícia como esta merecia imagens badalhocas.



publicado por José António Abreu às 19:12
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
PPM vs. Sexo

Descobri hoje que, em termos de visitantes, ser recomendado pelo PPM é quase tão bom como escrever posts com a tag "sexo".


tags: , ,

publicado por José António Abreu às 18:03
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
Good Ship Venus

Na sequência do post anterior e porque o meu cérebro tem a irritante mania de fazer associações que apenas ele entende, não resisto a deixar aqui uma versão de "Good Ship Venus", provavelmente o mais desbocado tema de piratas alguma vez composto. É cantada por Loudon Wainwright III e pode ser encontrado em Rogue’s Gallery, uma excelente compilação de canções de piratas cantadas por gente como Bono, Nick Cave, Sting, Bryan Ferry e Lou Reed, e produzida por Johnny Depp (o capitão Jack Sparrow) e Gore Verbinski (o realizador da série de filmes Piratas das Caraíbas). Acompanhem a letra com atenção mas não junto a crianças que percebam inglês. Quando a música terminar, por volta dos 3’13’’, podem ir fazer outra coisa porque não acontece mais nada.

 

 



publicado por José António Abreu às 17:27
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Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Masculino, à justa

Nove pontos! O meu cérebro é masculino por muito, muito pouco. Pelo menos estão explicados alguns pensamentos estranhos e uma ou outra atitude incompreensível.

 

Façam o teste (o link é para o i, que foi onde vi a notícia; depois vos reenviarão para o outro lado do Atlântico).



publicado por José António Abreu às 22:07
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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
As dificuldades de Maria João Bastos.

Maria João Bastos tem sido uma presença recorrente neste blogue (ver aqui e aqui). Não sei bem por que isso acontece. Eu aprecio-a bastante (aqueles olhos...) mas há muitas outras actrizes que também me são simpáticas. (Não sei se "simpáticas" é o termo mais correcto mas enfim...fica.) Seja lá pelo que for, tenho que a mencionar novamente. Maria João deu esta entrevista ao jornal 'i'. Diz – está logo no título – "As cenas de sexo são difíceis, tenho de pensar que não sou eu". Minha cara Maria João, considere-se sortuda. Muitas pessoas – mulheres e homens – acham as cenas de sexo difíceis por terem que pensar que o parceiro é outro.



publicado por José António Abreu às 09:03
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Sábado, 9 de Maio de 2009
Contra o tuning mamário.
O meu post acerca dos olhos e das maminhas da Maria João Bastos provocou alguma polémica entre quase todos os meus cinco amigos da vida real (e um comentário ao post pedindo uma revolução). Fui acusado de ser "frouxo" e de ter mau gosto. Não sei bem o que significa a primeira acusação mas suponho que se resolva com ginásio. A ginástica, aliás, está na moda. É pena a minha inércia ser superior à do maciço central da Serra de Estrela. Quanto à segunda acusação, até posso concordar mas não quando se trata de avaliar partes da anatomia feminina. Neste caso as discordâncias centraram-se nas maminhas (que os olhos são fantásticos parece que todos davam de barato). Disseram-me que as da Maria João Bastos são demasiado normais. Ora precisamente. Eu gosto de mamas naturais, com curvas suaves, ligeiramente arrebitadas numa saudação amigável - o que é mais difícil para mamas grandes que pequenas ou médias mas, ainda assim, o importante é que sejam naturais. Os balões sintéticos que muitos homens parecem apreciar e muitas mulheres se sentem compelidas a instalar deixam-me indiferente. Não, mais do que isso: incomodam-me. Provocam-me um trejeito de pena e resignação. Há quem diga que me sinto ameaçado por eles. Uma espécie de reacção similar à que teria se desse de caras com a Charlize Theron. (De caras é uma força de expressão; considerando a estatura dela, é mais provável que desse de mamas: isto é, a minha cara ao nível das mamas dela.)
 
  
...
 
  
Peço desculpa, precisei de um instante de introspecção.
 
Retomando o assunto entre mãos (pois sim...), não acho que as gigantescas mamas sintéticas me assustem (muito). O principal motivo para não as apreciar é mesmo de ordem estética. Peço desculpa desde já a qualquer leitora possuidora de um par de exemplares (de preferência não leia mais; se ler, não ligue: há por aí muitos rapazes que sonham consigo) mas lembram-me um Honda Civic kitado. Ou qualquer outro carro em que o dono instalou spoilers e ailerons gigantescos, e ainda pintou labaredas nas portas, de forma a chamar a atenção e a sentir que tem um carro fenomenal. Chamar a atenção, chama, agora o que tem é um carro horrivelmente piroso. Quando perante um gigantesco par de mamas sintético, eu vejo um daqueles veículos que os donos obrigam a fazer corridas na ponte Vasco da Gama. E lá se vai muito do incremento de alma que um par de maminhas femininas costuma provocar em mim.
 
Para finalizar, há quem pretenda que, se o tuning for bem feito, não se distinguem as mamas verdadeiras das falsas. Pois sim. E jaa é pseudónimo de Brad Pitt. Se duvidam, façam este teste (cuidado, como seria de esperar tem fotografias de maminhas). Qualquer pessoa que erre mais de duas em vinte respostas (e já estou a dar uma folgazinha simpática) ou é cega ou fica tão nervosa quando vê mamas que não conseguiu posicionar o ponteiro do rato de forma a clicar nas respostas certas.
 
Tenho que ficar por aqui. A Angelina está a chamar-me do quarto.

 

  

 



publicado por José António Abreu às 09:56
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Não sei se chega para engravidar...

O governo decidiu aumentar a comparticipação nos medicamentos para a infertilidade. De acordo com o Sapo Saúde:

 
Medicamentos para infertilidade vão ter comparticipação duplicada
O aumento da comparticipação, de 37 para 69 por cento, dos medicamentos utilizados nos tratamentos de infertilidade entra em vigor a 01 de Junho, segundo um despacho do Ministério da Saúde publicado hoje em Diário da República.
 
Ora bem, 69 não é bem o dobro de 37 mas o valor parece-me interessante. Mesmo assim, não sei se apenas com 69 alguém vai conseguir engravidar.


publicado por José António Abreu às 17:26
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A Casa dos Gestores Tacanhos.

Como tem sido abundantemente noticiado, o grupo Auchan recusa (mais uma vez) vender o livro A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, por considerá-lo pornográfico (link para o blog da editora com pormenores e comentário do escritor). A Ana e o Manuel Jorge já escreveram tudo o que merecia ser escrito. Eu deixo apenas um comentário absolutamente paralelo: o que lhes vale a todos (autor incluído) é que os Budistas são pacíficos...



publicado por José António Abreu às 08:13
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Sábado, 25 de Abril de 2009
Porque não gostam os homens de ver pernas de mulher?

Há muitíssimo mais homens que mulheres a ver desporto. Por isso, são os homens que definem as audiências. Os portugueses, como muitos europeus, são loucos por futebol. Mas só quando são gajos a correr atrás da bola. Ninguém liga ao futebol feminino. O basquete, o andebol, o vólei, o hóquei e todas as restantes modalidades ditas amadoras recebem pouca atenção – mas pior se forem mulheres a jogar. Nem sei se algumas destas modalidades têm campeonatos femininos. A avaliar pela inexistência de notícias nas televisões, provavelmente não. Pelos vistos não há público interessado em ver raparigas fazendo afundanços ou deslizando sobre patins com tacos na mão. No automobilismo e noutros desportos em que a competição é mista entende-se que, por razões de força física, não apareçam muitas mulheres (mas há Danica Patrick) e torna-se difícil saber se os homens continuariam a assistir a corridas de Fórmula 1 se o pelotão tivesse mais mulheres que homens. Os desportos tipicamente americanos são domínio masculino mais uma vez. (Devo confessar que imaginar as mulheres que praticariam futebol americano me assusta). No ténis, na natação, no atletismo e nos desportos de Inverno a situação é mais equilibrada. Mesmo assim, as mulheres tendem a atrair menos espectadores.

 
Eu gosto de mulheres. Prefiro ver maminhas a balançar que pernas peludas a correr. Acho piada quando as voleibolistas deslizam pelo chão, braço estendido, corpo arqueado, tentando meter a mão entre a bola e o pavimento. Gosto mais de ver a Sharapova aos saltinhos que o Nadal a tirar os calções do traseiro. Sei que estou em minoria. De vez em quando, ao ver os adeptos do futebol à beira do orgasmo por causa de gajos chamados Hulk e Nani, apanho-me a questionar a minha masculinidade. Mas não há volta a dar. Chamem-me parvo, se quiserem, mas sou assim.
 
              


publicado por José António Abreu às 12:44
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
«I kissed a girl»? Who the f**k gives a s**t?
Pelos vistos muita gente, considerando o sucesso que a rapariga (Katy Perry) obteve com o tema em questão. (Já agora, uma pepita de informação irrelevante: o apelido dela é Hudson mas, por receios de confusões fonéticas, adoptou o nome de solteira da mãe.) E o sucesso do tema, e dela, leva-me à pergunta: por que raio é que temas idiotas com letras infantilmente eróticas vendem tanto? Não devíamos já ter passado a fase em que a simples menção de um beijo entre duas gajas era suficiente para tornar famosa uma canção e a respectiva cantora? Que, em meados dos anos 80, ainda muita gente sentisse um frémito de surpresa ao ouvir Madonna cantar «like a virgin touched for the very first time», poderá ser compreensível. Mas actualmente? Ainda por cima é recorrente e parece funcionar sempre: lembram-se das Tatu? E do famoso beijo entre a Madonna e a Britney Spears que fez disparar a notoriedade do vídeo desta (e, suponho, as vendas do álbum)? É verdade que estamos quase sempre em território pop-adolescente-borbulhento (com alguns trintões e quarentões pelo meio, atenção) mas, mesmo assim… Os adolescentes não vêem a MTV? Há lá reality-shows onde um beijo entre duas raparigas é apenas o primeiro episódio. «I kissed a girl and I liked it»? Haverá letra mais infantil? O único ponto positivo é que o tema pode ter levado umas quantas miúdas na vida real (as que não têm MTV) a experimentar a coisa e podem muito bem ter gostado e decidido verificar que outros actos íntimos entre raparigas são igualmente agradáveis (sugestão de letra para outra canção: «I nibbled on a girl’s nipples and she moaned») e isso abre algumas hipóteses de fantasia. Ainda assim fraquinhas.


publicado por José António Abreu às 21:51
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