como sobreviver submerso.

Terça-feira, 27 de Junho de 2017
Um retrato da falência moral do país político (e jornalístico)

Ontem, porém, houve luz na escuridão. O provedor da Misericórdia de Pedrogão Grande induziu Passos Coelho num lapso, de que o líder do PSD decidiu pedir desculpa. Foi a alegria do costismo. Era a sorte outra vez. Mas talvez o sarcasmo do regime tenha desta vez ficado demasiado patente: é que tivemos desculpas do líder da oposição por um pequeno comentário, mas nem uma palavra de contrição do governo pela incompetência e descontrole que mataram 64 pessoas e deixaram mais de 200 feridas.

Rui Ramos, no Observador.


publicado por José António Abreu às 09:23
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017
TSU e o mau da fita

1. Economia

Em Portugal, ninguém questiona que tudo passe pelo Estado e tudo dependa do Estado. Ao lidar com o sector público mas também com o privado, o governo age como se o dinheiro dos contribuintes fosse inesgotável e a economia de uma resiliência à prova de bala. Daqui nasce um círculo vicioso: a economia cresce pouco, o Estado não obtém os recursos pretendidos, o orçamento público apresenta défices crónicos, os impostos e a dívida aumentam, a economia cresce ainda menos. Tudo isto perante a complacência – quando não o aplauso – das associações patronais, dos sindicatos, da maioria dos comentadores, do Presidente da República. A polémica em torno da TSU constitui mais um exemplo desta lógica. A medida é péssima: apoia-se em dinheiro dos contribuintes, serve de contraponto a um aumento exagerado (porque muito superior aos ganhos de produtividade) do salário mínimo (já demasiado próximo do salário mediano), e, num país onde ele abrange vinte e tal por cento dos trabalhadores, incentiva as empresas a usá-lo ainda mais. Porém, isto não impediu que as associações patronais a sancionassem. Em vez de defenderem medidas que permitam a subida do salário mediano e forcem o Estado a um nível superior de eficiência (descidas de impostos ou simplificação de processos burocráticos, por exemplo), escolheram (escolhem sempre) alinhar numa lógica de subsidiação, apoiada em cada vez mais regras e excepções. Ou seja: em Portugal, as associações patronais são uma parte não apenas activa mas entusiasta no crescimento desmesurado do Estado - e, por conseguinte, no agravamento dos problemas dos seus próprios associados.

 

2. Política

Passos Coelho é um espinho cravado no sistema político nacional. O homem recusa-se a seguir o guião. Parece que, de repente, até decidiu fazer política. Indivíduos mais atentos teriam notado a forma como ele deu a volta a Paulo Portas em 2013; como aguentou críticas ferozes, vaticínios catastrofistas e distorções variadas (que, evidentemente, nada tinham a ver com «pós-verdade» ou «factos alternativos») enquanto foi primeiro-ministro; como, quebrando a tradição nacional de que uma pessoa não se «rebaixa» a um papel menos importante do que outro já desempenhado, assumiu o lugar de deputado após a queda do seu governo às mãos da «geringonça». Na verdade, Passos é um político. Um excelente político. Nas últimas semanas, António Costa – este sim, considerado por todos um político exímio, para além de um negociador imbatível – deu-lhe oportunidade para o demonstrar. Costa fechou um acordo que violava a Constituição (o escândalo mediático que teria surgido há apenas um par de anos...) e para o qual não garantira apoio parlamentar. Para o fazer passar, contava com a passividade do PCP, do Bloco – ou do PSD. Os dois primeiros foram iguais a si mesmos e mostraram que o governo de Portugal não é estável nem credível (quanto a duradouro, veremos). Por seu turno, Passos resolveu finalmente assumir o papel de líder da oposição e cumprir o que prometera aquando da tomada de posse da «geringonça»: forçá-la a governar. Nos dias seguintes, verificou-se que Costa tinha quase toda a gente «importante» com ele: a intelligentsia mediática, os «patrões», a UGT, a facção «bem-pensante» do PSD, o Presidente da República. Só que Passos aguentou muito mais durante os anos da Troika. Não cedeu, e fez bem. Contudo, assumiu um risco: para os poderes instalados (os mesmos que Ricardo Salgado elogiou explícita e implicitamente no artigo que escreveu aquando da morte de Mário Soares), é cada vez mais importante afastá-lo da liderança do PSD.


publicado por José António Abreu às 17:38
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2016
Coisas que deviam ser óbvias
“[Seguro] teve medo de ser corrido e por isso foi fazendo a vontade às tribos todas, mas correram com ele na mesma. Quem ande a gerir as tribos com medo de ser corrido não sabe o que há-de fazer se algum dia ganhar.”


publicado por José António Abreu às 10:44
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Quarta-feira, 16 de Março de 2016
A hipótese inaudita
Discordo da escolha de Pedro Passos Coelho no caso da votação das ajudas à Grécia e à Turquia. Acho que, a cada oportunidade, devia forçar Bloco e PCP a assumirem as responsabilidades inerentes à viabilização do governo. Mas, por incrível que pareça neste mundo de enviesamentos, no qual a alguns é exigida a perfeição e a outros tudo se perdoa, das políticas mais irresponsáveis à corrupção mais óbvia, até ao instante em que fingir se revela impossível (vide Sócrates, Lula e Dilma, Tsipras, Maduro, Kirchner), por incrível que pareça num político que «nasceu» no partido e se rodeou - e ainda rodeia - de algumas figuras de ética questionável, vai-se a ver e as decisões de Passos Coelho decorrem muito mais daquilo que ele entende ser o interesse nacional do que de jogos político-partidários. Relembrem-se as hipóteses que deu a Sócrates, a tirada «que se lixem as eleições», a insistência durante a campanha num assunto tão pouco eleitoralista como a reforma da Segurança Social ou a resistência, em finais de 2014, ao desejo do CDS de eliminar parte da sobretaxa de IRS no orçamento para 2015 (uma solução que, sabemo-lo hoje, teria sido irresponsável, e que foi substituída por outra que, embora responsável e inteligente, acabou por lhe causar mais problemas do que a cedência pura e simples teria alguma vez causado). Tudo posições na linha do sentido de voto nos casos do Banif e das ajudas à Grécia e à Turquia. Num país de chico-espertos, de orgulhosos especialistas no «desenrascanço», onde se elogia acima de tudo a capacidade de, a cada instante, manobrar as situações em benefício próprio e não a assumpção de responsabilidades ou a visão de longo prazo (e, por conseguinte, onde António Costa é um génio e o radicalismo do PS durante os anos da Troika algo natural), as posições de Passos Coelho constituem uma aberração que pode fazê-lo descer nas sondagens e até mesmo perder a liderança do PSD. Mas - e escrevo-o consciente de que, não obstante as frases iniciais deste texto, rapidamente surgirá quem me acuse de «facciosismo» e/ou «ingenuidade» - podem também constituir um dos poucos gestos dignos de verdadeiro respeito que a política portuguesa produziu nos últimos meses.


publicado por José António Abreu às 13:44
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Sexta-feira, 2 de Outubro de 2015
Os passos de Passos não foram perdidos

1. Governo

Em Janeiro de 2013, estavam os sinais de retoma económica ainda escondidos pelas peculiaridades da quarta dimensão (o extra-Euclidiano «tempo» e a sua patusca componente «futuro), escrevi que, não obstante muitos defeitos – tinha imensos, já na altura –, achava este governo um dos melhores, se não o melhor, da Terceira República. Muitas coisas ocorreram desde então: os chumbos mais mediáticos do Tribunal Constitucional, as revisões para cima dos objectivos do défice, a crise da «irreversibilidade» de Paulo Portas, o início da descida da taxa de desemprego, o desvanecimento da tão-certa-quanto-maligna «espiral recessiva», o aumento sustentado das exportações, o saldo das contas externas positivo pela primeira vez em décadas, o fim do programa de assistência financeira sem necessidade de segundo resgate ou de programa cautelar, o escândalo dos Vistos Gold, a reforma do mapa judiciário, a confusão na abertura do ano lectivo de 2014, o colapso do Grupo Espírito Santo, o processo de privatização da TAP. Embora acomodando mais algumas discordâncias e desilusões, a minha opinião manteve-se. E gostaria hoje, a dois dias das eleições, de regressar a dois destes temas, que me parecem definir um traço fundamental no governo e, muito particularmente, em Pedro Passos Coelho: a crise provocada pela demissão de Paulo Portas e a falência do Grupo Espírito Santo.

 

2. Desilusão

Como os políticos gostam de dizer, permitam-me começar por um enquadramento. Na sexta-feira imediatamente anterior às eleições de 2011, escrevi:

9. Gostei da clareza do programa do PSD, apesar de existirem pontos em que não me revejo e outros em que receio se vá demasiado longe no futuro. [...] Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.

10. Os próximos anos vão ser muito, muito difíceis.

11. Até domingo decidirei em que partido voto.

Votei CDS. Arrependi-me, acima de tudo por causa das tentativas que Paulo Portas foi fazendo para se dissociar – e dissociar o CDS – das medidas mais impopulares que o governo aplicava. Mesmo gostando pouco de organizações pejadas de gente com mais interesses do que convicções (como são todos os grandes partidos), se PSD e CDS concorressem separados às eleições do próximo domingo, o CDS perderia o meu voto e PSD ganhá-lo-ia.

 

3. Surpresa

Portas pode ter frustrado as minhas expectativas (reconheço-lhe, não obstante, uma capacidade de trabalho notável, que ajudou aos bons resultados das exportações) mas Passos ultrapassou-as – largamente. Contra uma esquerda radical ululante, contra um PS populista que sempre recusou assumir responsabilidades na situação a que o país chegara e colaborar nas medidas para o tirar dela, contra os «barões» do PSD, muitos dos quais afirmando o contrário do que antes haviam defendido, contra uma miríade de comentadores e «especialistas», contra sectores do Estado gordos, ineficientes e pouco habituados a constrangimentos, contra grupos económicos muito habituados aos negócios provenientes do Estado, contra quase toda a comunicação social, de maneira serena e sem autoritarismos (nunca ninguém teve razões para lhe chamar «animal feroz»), Passos aguentou o barco durante quatro anos e meio. Cometeu erros mas soube ultrapassá-los, aguentando firme ou recuando quando se tornou evidente que a alternativa seria pior – para ele, claro, mas também para o país.

 

4. «Não» a Portas

Quiçá por, em 2011, ter derrotado um Sócrates tão combativo, manipulador e histriónico como sempre mas bastante debilitado pelo falhanço clamoroso do rumo que insistira em seguir, muita gente continuou a subestimar as capacidades políticas de Passos Coelho até aos dias que se seguiram à demissão de Paulo Portas, no Verão de 2013. Nesses dias, ele mostrou que – não obstante o virulento cepticismo dos «pais» da República – era afinal um político de primeira. Nesses dias, fez algo que – admito – não julguei possível: manter o governo em funções, forçar Portas a reconsiderar, usando para isso o próprio CDS, e, na sequência dos esforços de Cavaco Silva para arranjar uma solução que envolvesse os socialistas, manter inteligentemente disponibilidade para negociar, ciente de que António José Seguro estava manietado por radicais que não aceitariam – como ainda não aceitam – compromissos. (Os quais – oh, ironias – lhes teriam dado em 2014 o que talvez não venham a conseguir em 2015.) Mais: partiu desse momento crítico para deixar de lado animosidades pessoais e criar uma melhor relação com Portas, bem visível durante a presente campanha. (Passos aproveitou a fraqueza de Portas, que ficara sem margem para novos erros, mas obviamente – até porque estas coisas são mais instintivas do que racionais – este terá parte do mérito na evolução que se constata.)

No Verão de 2013, nasceu outro Passos: o político que ninguém pode subestimar. Algo que os resultados das sondagens vêm confirmando, para surpresa e irritação de quase todos os socialistas, dos «barões» do PSD e de muito comentadores.

 

5. «Não» a Salgado

Se a crise provocada pela demissão de Portas revelou o político, o colapso do GES confirmou que Passos tem uma visão para a Economia. Ao longo destes quatro anos, teve de implementar muitas medidas que certamente lhe desagradam, começando pelos vários aumentos de impostos. Mas nunca tergiversou num ponto: a Economia desenvolve-se à base da iniciativa privada; esta deve funcionar em concorrência e assumir os riscos decorrentes da má gestão.

É ponto assente que o Banco de Portugal foi demasiado suave para com Ricardo Salgado durante demasiado tempo. O governo não. No período democrático (i.e., Terceira República excluindo PREC), nenhum antecessor de Passos teria recusado salvar Ricardo Salgado. Como – estou absolutamente convencido disto – não o teria recusado António Costa, se fosse primeiro-ministro. Há dias, no programa Conversas Cruzadas, da Rádio Renascença, Daniel Bessa (ex-ministro socialista) e Álvaro Santos Almeida (professor de Economia na Universidade do Porto) foram tão claros sobre o assunto que apenas me resta citá-los:

Daniel Bessa (1): Não tenho nenhuma dúvida de que o acto fundador – para o melhor e para o pior com todas as consequências que aí estão – partiu de Passos Coelho e Maria Luís que disseram ‘não’ ao Dr. Ricardo Salgado.

Daniel Bessa (2): Um ‘não' proferido quando o Dr. Ricardo Salgado lá foi e não foi sozinho. Até conheço quem o acompanhou nessa diligência, mas não vou dizer. Até não foram só dois, mas saíram de lá com uma ‘nega’ redonda. O regime caiu aí.

Álvaro Santos Almeida: Se não fosse por mais nada este governo teria valido a pena só por esta decisão.

É cedo para aferir os custos decorrentes do colapso do Grupo Espírito Santo e, ainda que se perceba a intenção subjacente (não permitir impactos no défice), terá sido um erro tentar vender o Novo Banco à pressa. Seja como for, até prova em contrário, a resolução foi a escolha com menos inconvenientes. Mas nem é tanto isso que aqui me interessa. Interessa-me a posição de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque diante do dono disto tudo, absolutamente extraordinária num país onde o cruzamento de interesses entre o Estado e os principais grupos económicos tem imperado, com custos enormes para o bem-estar geral.

 

6. Do passado ao futuro

Critiquei-o várias vezes. Em Março de 2010, num texto intitulado Os passos de Passos não serão perdidos (no qual - de vez em quando sou ainda melhor do que julgo ser - previ que se realizariam eleições em Junho de 2011), cheguei a admitir preferir Paulo Rangel para líder do PSD. Desconfio que, numa perspectiva de imagem para o futuro, seria melhor para Passos perder tangencialmente no próximo domingo. Dentro de vinte ou trinta anos, o seu nome estaria associado ao salvamento (provavelmente temporário) do país; à criação de uma (provavelmente desperdiçada) oportunidade. Vencendo sem maioria absoluta, enfrentará (mais) um período turbulento, o qual, dependendo da versão do Partido Socialista que sair das eleições, pode acabar mal. Mesmo com uma improvável maioria absoluta, está por demonstrar que é possível fazer crescer este país de forma saudável sem a presença de uma forte tutela externa, tão numerosos e poderosos são os interesses instalados (veja-se como o governo, que até se comportou razoavelmente para ano eleitoral, acaba de ceder aos enfermeiros). E ainda há os riscos externos: tirando Centeno e Galamba, alguém acredita que a Economia mundial escapará a um novo solavanco - passe o eufemismo – durante os próximos quatro anos? Seja como for, levando em conta as alternativas, ainda bem que Passos Coelho está na corrida. Se em grande medida o meu voto no próximo domingo configura a recusa de males maiores (a democracia é o jogo do possível; as utopias acabam mal), em parte serve também como reconhecimento do trabalho desenvolvido e (por vezes convém suspender o cinismo e, ainda que sem entusiasmos excessivos, apostar em alguma coisa) sinal de esperança no trabalho a desenvolver pelo homem mais contestado de Portugal.


publicado por José António Abreu às 10:15
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2015
Das prioridades no cumprimento das promessas
Nas eleições legislativas portuguesas de 2011, Passos Coelho admitiu que os anos seguintes seriam difíceis mas prometeu não efectuar cortes adicionais aos já anunciados. Quebrou a promessa, com a justificação de que nas contas do Estado existiam buracos escondidos (as empresas públicas, por exemplo) e de que a alternativa seria pior para os portugueses. Apesar das perspectivas serem hoje menos más do que as existentes na altura, é constantemente acusado de ter mentido. Nas eleições legislativas gregas de 2015, Tsipras prometeu repor cortes já efectuados e impedir cortes adicionais, melhorando dessa forma a situação dos gregos. A economia grega está hoje pior do que estava há seis meses (ver relatório do Banco Central da Grécia, que a - mui democrática - presidente do Parlamento devolveu, classificando-o como «inaceitável») e os gregos encontram-se no limiar do colapso financeiro mas muitos dizem que ele falou verdade e cumpriu todas as promessas feitas.


publicado por José António Abreu às 10:54
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2015
Quatros meses e meio depois, há quem concorde com Passos Coelho

«O diálogo com o governo grego tem que ser feito com adultos na sala.»

Christine Lagarde, há minutos, na conferência de imprensa após a reunião do Eurogrupo.



publicado por José António Abreu às 19:38
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Terça-feira, 17 de Março de 2015
Uma diferença

Há muitas, nem todas confinadas ao plano político. Várias são importantes. Uma é fundamental. José Sócrates conduziu o país exactamente para onde os seus críticos afirmavam que ia conduzir: o limiar da bancarrota. Por muitos erros que lhe possam - e devam - ser imputados, Passos Coelho desmentiu os críticos: não houve espiral recessiva, nem segundo resgate, nem saída do euro. Evidentemente, isto também diz algo sobre a qualidade dos críticos - e as lições que, por incapacidade, conveniência ou má vontade, não se aprendem.



publicado por José António Abreu às 09:11
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Sexta-feira, 6 de Março de 2015
Meia dúzia de notas

1. Não abordei até agora o caso da falta de pagamento das contribuições devidas por Passos Coelho à Segurança Social entre 1999 e 2004 porque não vejo razões para defender quem não cumpre as suas obrigações nem para atacar quem, apesar de tudo, incorreu no que classifico como um delito menor, partilhado por muitos milhares de portugueses (desconhecendo a obrigação, eu próprio andei uns meses sem pagar as contribuições em 1993/94 e conheço várias pessoas que fizeram o mesmo, uma das quais durante dois anos - sem que nenhuma tenha sido alertada para a falha pelos serviços da Segurança Social).

 

2. Não, não é necessário ter um passado impoluto para, sendo governante, exigir um módico de cumprimento aos restantes cidadãos - até porque ninguém o tem. É necessário assumir os erros cometidos e mostrar que se aprendeu algo com eles. A reacção de Passos, atabalhoada, revela uma de duas coisas: ou está convencido de que reacções sinceras, não preparadas por spin doctors, o beneficiam (até por contraponto às contínuas encenações do primeiro-ministro que o antecedeu) ou necessita de despedir os spin doctors actuais e arranjar outros (melhores; muito, muito melhores). A reacção pública aconselha a segunda via.

 

3. Que muitas almas tenham visto na defesa de Passos Coelho uma alusão a Sócrates é normal. Que, por Sócrates estar preso, Passos estivesse impedido de afirmar nunca ter usado o cargo para benefício pessoal seria aberrante. Passos terá culpas pela situação em que se encontra mas não pelo facto do Ministério Público estar precisamente a acusar Sócrates de usar o cargo para, beneficiando empresas, ganhar milhões.

 

4. A discussão tem pelo menos dois méritos que ultrapassam a simples questão dos actos passados de um cidadão que chegou a primeiro-ministro. Um deles é permitir um princípio de debate em torno da hemorragia legislativa nacional (que potencia falhas e litígios), bem como da relação dos serviços do Estado com os cidadãos (antes, errática e autoritária; hoje, assertiva e autoritária). Que o governo apenas tenha executado mudanças superficiais nestas áreas (redução dos escalões do IRS, reforma do IRC, corte de subsídios) deveria dar azo a crítica. É, porém, necessário reconhecer que nem o aperto orçamental dos últimos anos nem a circunstância de, durante eles, ter ficado provado ser apenas constitucional aumentar taxas e impostos propicia abertura para tentar uma relação mais adulta com os cidadãos.

 

5. O outro mérito é invalidar o argumento de que há uma relação directa entre os descontos que se fazem e a pensão que se recebe, expresso frequentemente na ideia de que «a minha pensão não pode ser cortada porque o dinheiro é meu». Se assim fosse, ninguém para além do próprio seria penalizado pela falha de Passos Coelho e ela seria vista como pouco grave. Fica pois assumido que a lógica da Segurança Social não é particularmente diferente da que rege o sistema fiscal: as pessoas são forçadas a contribuir por razões comunitárias e até distributivas (se não entre escalões sociais, pelo menos entre as gerações no activo - sem garantias quanto aos valores que receberão - e as não activas - que beneficiam mais do esforço das activas do que da contribuição efectivamente realizada). É uma noção importante, a manter presente quando se voltar a discutir a reforma do sistema - e o Tribunal Constitucional tiver de se pronunciar sobre o assunto.

 

6. Finalmente, desejo exprimir solidariedade para com o PS. Não deve ser fácil ter o líder na prisão.



publicado por José António Abreu às 16:50
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Sábado, 28 de Fevereiro de 2015
Alexis Chávez ou seguindo o modelo à risca
Passos elevado à condição de «grande satã» Bush é que não lembrava ao diabo.


publicado por José António Abreu às 16:13
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015
O maior apoio que Passos Coelho já recebeu?
Alberto João Jardim admite candidatura à Presidência da República mas sem apoio do PSD porque «a minha relação com Passos é inconciliável.»


publicado por José António Abreu às 16:53
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012
A diferença
De forma consciente ou inconsciente (provavelmente de ambas, dependendo de quem o faz) encontra-se em marcha uma tentativa para recuperar a imagem de José Sócrates, pretendendo que Passos Coelho está a revelar-se ainda pior. Eu, que escrevi isto em Abril (não, não tenho t-shirts com fotografias de Passos Coelho ou de Vítor Gaspar gravadas na zona do peito), acho que existe uma diferença fundamental: Sócrates teve oportunidade para mudar de rota mas escolheu ignorar todos os avisos; mais corte na despesa, menos aumento de impostos, Passos Coelho, manietado pelos objectivos do memorando, não dispõe de verdadeiras alternativas – como a retórica vazia de António José Seguro bem demonstra. No fundo, fãs de Sócrates e socialistas em geral podem agradecer Passos Coelho ao próprio Sócrates


publicado por José António Abreu às 19:14
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011
Coisas que me passam pela cabeça e me deixam zonzo (e não precisam de agradecer por vos fazer pensar nelas)

De repente, surgida do nada, tive a visão de um ménage à trois entre Sócrates, Passos Coelho e Angela Merkel. Entrei em pânico, murmurei «The horror! The horror!» e nem consegui perceber quem fazia o quê a quem.



publicado por José António Abreu às 08:16
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Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
Tríade
Pacheco Pereira afirmou no programa Quadratura do Círculo desta semana que Pedro Passos Coelho não devia ter acedido a receber os banqueiros. Concordo. É verdade que, a acreditar no jornal Sol (segundo o qual três bancos podem ir «ao fundo»), eles estão desesperados e não podiam correr o risco de Passos Coelho passar ao lado da gravidade da situação. Mas Passos Coelho é líder do maior partido da oposição, possível futuro Primeiro-Ministro e não devia arriscar-se a que as suas decisões fiquem desde já ligadas aos mesmos banqueiros que, precisamente por interesses próprios de curto prazo, colaboraram na definição do percurso que nos trouxe à situação actual.

   

Vamos por passos (no pun intended): em teoria, se as medidas implementadas por um qualquer governo incentivam os agentes económicos a adoptar políticas que acabam por se revelar inadequadas e mesmo perigosas, a responsabilidade deve ser exigida apenas a esse governo, uma vez que as empresas tendem a seguir os estímulos que lhes maximizam o lucro imediato e não vale a pena perder tempo a esperar o contrário. (É em grande medida devido a esta cupidez – inteiramente humana, note-se, excepto para os muitos teóricos Rousseaunianos que por aí andam – que é indispensável a existência de entidades reguladoras fortes, credíveis e independentes, com a missão de garantir o funcionamento adequado do sistema no presente e salvaguardar o futuro.) Passando a um nível mais concreto: se um governo tem uma política que privilegia as obras públicas e os sectores não transaccionáveis da economia, é natural que os bancos se dediquem a financiar preferencialmente a construção dessas obras ou os projectos ligados a esses sectores, uma vez que o risco é menor – no primeiro caso, directa ou indirectamente empresta-se ao Estado e este, como constatamos hoje, tem formas coercivas de arranjar dinheiro; no segundo, as garantias de sustentabilidade dos projectos são maiores. O governo português teve uma política deste tipo e os bancos portugueses agiram precisamente desta forma. O problema é que em Portugal se formou uma tríade entre quem decide (o governo), quem financia (os bancos) e quem constrói e gere (as empresas de construção civil e de gestão de infraestruturas) que não permite assacar responsabilidades apenas ao governo. As construtoras e as empresas gestoras (concessionárias de autoestradas, de pontes, de hospitais, etc.) querem as obras públicas porque vivem delas; os partidos querem financiamento e postos bem remunerados para os seus acólitos; os bancos adoram projectos de farto lucro e módico risco; as construtoras devem milhões de euros aos bancos que, para garantirem o retorno do dinheiro, precisam de assegurar a sua viabilidade; os governos estão cheios de pessoal vindo dos bancos; as empresas construtoras têm participações accionistas nas empresas gestoras e nos bancos, que por sua vez têm participações accionistas naquelas. Em resultado desta rede de interesses cruzados, há muito que os projectos de investimento são decididos mais em função dos interesses de curto prazo das partes (normalmente coincidentes) do que do interesse nacional, por muitas palavras bonitas que José Sócrates, António Mota ou Ricardo Salgado profiram em entrevistas e colóquios. Para agravar a situação, o sistema de justiça nacional foi paulatina e talvez propositadamente destruído e as entidades reguladoras também não funcionam, no todo ou em parte por terem sido tomadas de assalto por gente tão independente dos universos político e financeiro como um viciado em heroína o é do seu dealer (aposto que nunca antes alguém tinha comparado Constâncio a um viciado em heroína e Santos Ferreira a um dealer). É por isto que ver os banqueiros armarem-se em pessoas isentas e credíveis me causa urticária (Ulrich, um pouco menos, porque foi o único com coragem suficiente para ir lançando alguns alertas). É também por isto que considero inconcebível que, mais ou menos às claras e sob o guarda-chuva do «interesse nacional», tentem desde já começar a manobrar as decisões do PSD – o que, para mal dos nossos pecados, não deverá ser difícil, estando os dois principais partidos portugueses tradicionalmente ansiosos por serem manobrados. Desconheço se a repartição de responsabilidade entre governo, empresas e banqueiros é um terço para cada parte, se é cinquenta por cento para o governo, trinta para as empresas e vinte para os bancos, se é noventa-dez-dez ou se é qualquer outra. Mas sei que os banqueiros não estão isentos de responsabilidade. E que, por isso, deviam manter-se discretos. Por muitas razões que tenham para estar preocupados. E todos nós também.


publicado por José António Abreu às 23:13
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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010
Lobo mau, disfarçado de engenheiro, disfarçado de Primeiro-Ministro
«Entra, entra, coelhinho. Deixa aí as tuas coisas junto à porta e vem deitar-te ao pé de mim

 

(É favor ler ao estilo da Ministra da Educação.)


publicado por José António Abreu às 08:22
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Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
O fiador
Tendemos a adiar. Pensamos que haverá sempre um momento mais propício, em que as consequências de falharmos (ou de vencermos) serão menos graves. Há poucos meses Pedro Passos Coelho teve uma oportunidade. Optou por adiar o confronto, escudando-se em bonitos princípios: a estabilidade, os mercados, o interesse nacional. Foi a S. Bento dar um balão de oxigénio a Sócrates: em troca de promessas vagas de redução da despesa pública, subscreveu o aumento de impostos do PEC número 2. Ficou bem nas fotos, como todas as sondagens mostraram, e deve ter-se sentido satisfeito. Importante. Fundamental. Maquiavélico, também (pareceu-lhe certamente de mestre surgir como salvador da pátria e, ao mesmo tempo, deixar que fosse o PS a implementar as medidas de austeridade). Mas Passos Coelho é um aprendiz. Vê agora Sócrates – que, admitamo-lo com uma pontinha de raiva e outra de admiração, é mais escorregadio que o Sir Humphrey do Yes, Minister – forçá-lo a compromissos (parece que afinal as diferenças na política de impostos entre o PS e PSD são um escalão de IRS) em nome dos mesmos princípios que ele próprio, Passos Coelho, ajudou a tornar fundamentais. Por muitos discursos inflamados que vá fazendo, arrisca-se a ser arrastado para uma espécie de co-governação, na qual vai assinando onde lhe dizem para assinar. Triste sina: de principal opositor a fiador do governo. Por um lado, é bem feito. Por outro, o país continua a afundar-se enquanto eles se entregam a exercícios de táctica e demagogia. E Passos Coelho – e todos os que estremecem só com a ideia – ainda arrisca ver Sócrates disparar para mais uma vitória eleitoral, em meados de 2011 ou noutra altura qualquer. Qual fénix em fato de marca. Fónix.


publicado por José António Abreu às 20:31
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Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
Uma mão cheia de nada?
Passos Coelho foi abundantemente elogiado por ter ido a S. Bento oferecer colaboração a Sócrates. Permitam-me que junte a minha voz melodiosa (é uma espécie de barítono roufenho com deslumbrantes momentos de falsetto) ao coro de elogios. Foi útil para o país e para a imagem dele. Gostava era que alguém me explicasse exactamente que pontos defendidos pelo partido do outro cada um prometeu apoiar. Parece que Passos Coelho garantiu que o PSD deixaria passar no parlamento várias medidas do PEC mas, no que respeita às cedências do PS, silêncio absoluto. Pelo menos, ficámos hoje a saber que nada terão a ver com as obras públicas. Ainda bem. Poderíamos viver com um Sócrates sem a sua característica dose de teimosia e inconsciência, mas não seria a mesma coisa.


publicado por José António Abreu às 21:36
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Domingo, 28 de Março de 2010
Só para chatear o Santana

Que tal começar a chamar o PSD de PPC/PSD?



publicado por José António Abreu às 00:11
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Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Coelho saltitante

Ontem, na entrevista ao programa Negócios da Semana, da SIC Notícias, Pedro Passos Coelho defendeu que o Estado tem de reduzir os gastos (não disse como) e que os funcionários públicos têm de ser aumentados em 2010 porque não têm culpa de que o Estado não tenha ainda reduzido os gastos. Sou só eu a ver aqui uma – como direi?  contradição? Passos Coelho afirmou ainda que o sector privado é livre de fazer o que entender. Claro que sim. Exige-se-lhe apenas (mas Passos Coelho não o disse nem o pensa porque tem uma visão liberal da economia) que continue a pagar a conta.



publicado por José António Abreu às 12:59
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