como sobreviver submerso.

Segunda-feira, 27 de Março de 2017
Trumps nacionais
Catarina Martins propõe saída do euro.

 

Evidentemente, e não obstante a demagogia com que abordam estes assuntos ser igualzinha à do presidente norte-americano ou de Marine Le Pen (podiam ou não ser declarações de Catarina Martins?), ninguém os classifica como tal - afinal são simpáticos para os imigrantes e nem chamam terroristas aos terroristas. Por cá, raros se atrevem sequer a afirmar serem precisamente as políticas da Geringonça a empurrar o país para uma situação de insustentabilidade - e os que o fazem são corridos a acusações de ressabiamento e derrotismo. Todos sabem, porém, que ao nível da dívida pública e respectivas taxas de juro o último ano e meio poderia ter sido muito diferente, abrindo perspectivas mais optimistas para um futuro sem (tanta) ajuda por parte do BCE. António Costa, por exemplo, sabe-o perfeitamente. Os pedidos, cada vez menos subtis, para mudanças de política ao nível da União Europeia (o que representa a sanha contra Dijsselbloem senão uma tentativa para facilitar a abordagem de pontos como a mutualização e a renegociação?) constituem reconhecimento cabal de que também ele acha a dívida insustentável - sem que isso o impeça de continuar alegremente a aumentá-la (perdido por cem, dir-se-á...). Talvez um dia fique demonstrado que Costa, a mais frontal Catarina (e o mais «ortodoxo» Jerónimo) estavam certos. Mas quando alguém tem o poder para fazer cumprir uma profecia, e faz quase tudo nesse sentido, não admira que ela se concretize. Infelizmente, esse dia, como é habitual nas vitórias do populismo, não ficará para a história como um dia feliz.


publicado por José António Abreu às 16:58
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2016
Uma pequena diferença entre conservadores e «progressistas»

Em 2016, com quatro meses de antecedência, o primeiro-ministro britânico convocou um referendo prometido dois anos antes. Perdeu, afirmou que respeitaria a decisão dos britânicos e demitiu-se.

Em 2015, com oito dias de antecedência, o primeiro-ministro grego convocou um referendo nunca antes anunciado. Ganhou, afirmou que respeitaria a decisão dos gregos, fez o oposto e manteve-se no cargo.



publicado por José António Abreu às 14:14
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Da saída da União do Reino (ainda) Unido

1. O sentido de voto de muitos britânicos terá sido determinado por factores secundários ou conjunturais. Todavia, acontece sempre assim, em referendos e até em eleições. As pessoas votam no sentido que entendem pelas razões que acham mais relevantes. Por vezes, a História mostra que cometeram um erro. Isto não significa que o processo esteja errado.

 

2. Há ironia na circunstância de, não obstante vivermos num mundo onde a informação está cada vez mais acessível, continuarem a ser as mensagens simples – até mesmo simplistas – a decidir eleições e referendos. Quase sempre com a recusa do outro em papel de destaque.

 

3. Este referendo poderá significar o fim do Reino Unido tal como o conhecemos. Escócia e Irlanda do Norte - e, se alguma vez o desejar, Gales - têm todo o direito a escolher se preferem a independência. Saem também reforçadas as tendências independentistas noutros países (em Espanha, desde logo).

 

4. Com os anos, a União Europeia foi-se transformando numa entidade demasiado burocrática e controladora. Esta evolução gerou anticorpos, em parte benéficos (a oposição do Reino Unido ao excesso de regulamentação era muito útil), em parte resultado de oportunismo (partidos e governos nacionais aprenderam a culpar Bruxelas por tudo o que corria mal nos seus países). O referendo britânico reforça os discursos anti-UE, abre a porta a outras saídas e cria pressão para que se operem mudanças no modo de funcionamento da União - mas talvez não no sentido que tanta gente parece esperar.

 

5. As probabilidades de que se entre numa fase de laxismo orçamental são reduzidas. A saída do Reino Unido, para além de diminuir o orçamento comunitário de onde países como Portugal recebem há décadas os fundos que lhes permitem atenuar problemas de crescimento e fortalecer redes de interesses, tenderá a extremar posições nos países do Norte. Para a Alemanha, será muito mais importante garantir a manutenção destes na União – numa União – do que a de Portugal, da Grécia, ou até da Espanha ou da Itália.

 

6. Nos países do Sul, sair custa muito caro. Muito mais do que no Reino Unido. Qualquer saída será um processo sujo, desagradável, caótico – que, como os mercados bem percebem (à hora a que escrevo, a taxa de juro da dívida portuguesa a 10 anos sobe 11%), acabou de se tornar mais provável, não menos.

 

7. Resta França. Um mastodonte aparentemente irreformável, em risco de cair nas mãos do populismo. França é o verdadeiro problema da Europa. E a ameaça que constitui a extrema direita francesa a única verdadeira esperança da esquerda portuguesa, grega e espanhola.

 

8. Escrevi «esperança da esquerda» e não «esperança da extrema esquerda» porque ainda há uma diferença entre os socialistas e o pessoal situado à esquerda deles. Os socialistas apenas desejam poder continuar a gastar à custa da Europa (i.e., dos países do Norte). A Frente Nacional serve-lhes como meio de pressão, nada mais. Para a extrema esquerda, quaisquer sobressaltos no processo de construção de um bloco de nações relativamente homogéneo, com contas públicas equilibradas, moeda forte, crescimento assente no sector privado e política externa unificada, são boas notícias. Para a extrema esquerda (Bloco, PCP, Podemos, Syriza, …), a Frente Nacional representa um forte aliado. E pensar que ainda há quem diga que fascismo e comunismo são coisas totalmente distintas…



publicado por José António Abreu às 10:53
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2015
Pois é, as boas acções são mais fáceis com o dinheiro dos outros
Obama manobrou para que os países da Zona Euro perdoassem dívida e enviassem mais dinheiro para a Grécia mas recusa-se a ajudar Porto Rico, que acaba de entrar em incumprimento.


publicado por José António Abreu às 11:00
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2015
Aplaudem o quê?

14h39 - Alexis Tsipras é recebido "com aplausos" pelos deputados do Syriza em Atenas - incluindo o presidente do Parlamento, que se absteve na votação do pacote de medidas que foi apresentado em Bruxelas - antes da reunião à porta fechada que antecede as votações do pacote de reformas previsto para esta quarta-feira à noite.

- A Comissão Europeia espera que a Economia da Grécia caia entre 2% e 4% este ano, agravando a queda do PIB face aos 0,5% que eram previstos em Maio, aquando da divulgação das previsões da Primavera [e, acrescento eu, aos 2,9% positivos que o FMI antecipava em Outubro passado]. A confirmar-se, isto significa o regresso da Grécia à recessão depois de em 2014 a Economia ter avançado uns ligeiros 0,8%. O regresso ao crescimento está agora previsto acontecer apenas em 2017, isto diz a Comissão Europeia, "assumindo que a estabilidade política é restaurada em breve" e que vão sendo retiradas as medidas restritivas impostas sobre o sector bancário.

No Económico.


publicado por José António Abreu às 17:07
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Terça-feira, 14 de Julho de 2015
Em quatro frases

O governo grego perdeu porque, na vigésima quinta hora e após cinco meses e meio de um comportamento que, fosse o Syriza de direita, teria levado as mentes bem-pensantes do planeta a despejar sobre ele uma chuva de acusações impregnadas de desprezo e salpicadas de impropérios, renegou todas as promessas que jurara cumprir. O governo alemão perdeu porque não somente foi mais uma vez coagido a manter no euro quem recusa comprometer-se com as regras deste, num processo que tenderá a arrastar a economia alemã para uma lógica terceiro-mundista, como tem de arcar com a imagem de polícia mau. Hollande ganhou porque saiu das negociações como o polícia bom e, mesmo forçado a aceitar o dano colateral (menor) de obrigar Syriza e Grécia a meter o socialismo na gaveta (até ver), atingiu o seu objectivo de conservar o destino da Alemanha preso ao da França. Quanto à União Europeia e, em particular, à Zona Euro, aparentemente ganhou (oxalá), provavelmente perdeu.



publicado por José António Abreu às 17:14
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Domingo, 12 de Julho de 2015
Passado recente e futuro - duas notas

1. Por motivos históricos, culturais, geopolíticos e, acima de tudo, porque a maioria dos gregos ainda o parece desejar, seria importante que a Grécia permanecesse na Zona Euro. Infelizmente, a acção do governo grego ao longo dos últimos meses tornou-o difícil, se não impossível. Primeiro, porque agravou significativamente a situação económica e financeira do país, fazendo com que este necessite hoje de muito mais dinheiro do que necessitava em Janeiro. Depois porque, sendo já por si difícil acreditar que um governo eleito com base em promessas de aumento de despesa pública levaria a cabo as reformas eternamente adiadas no sentido da liberalização da economia, destruiu todos os laços de confiança que poderiam garantir-lhe boa vontade junto dos governos e das populações dos restantes países europeus. Pior ainda: não é de excluir que, ao fazê-lo, tenha tornado mais difícil para qualquer outro estado-membro obter compreensão e flexibilidade nos próximos anos.

 

2. Na Grécia como noutros países, os riscos ligados às tensões sociais e aos partidos extremistas – quase inevitáveis em tempos de dificuldades económicas – devem ser levados muito a sério. Mas isso não pode significar continuar a adiar os problemas. Ou as economias são reformadas no sentido da auto-sustentabilidade e da diminuição do nível de endividamento, o que significa austeridade, ou a situação acabará por rebentar, no plano financeiro, económico e social, de modo ainda mais grave. Em tempo de Keynesianistas, talvez seja conveniente lembrar Mises: There is no means of avoiding the final collapse of a boom brought about by credit expansion. The alternative is only whether the crisis should come sooner as a result of a voluntary abandonment of further credit expansion, or later as a final and total catastrophe of the currency system involved. Na verdade, pode já ser demasiado tarde.



publicado por José António Abreu às 16:08
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2015
Alguém tinha que dizer-lho

A intervenção de Guy Verhofstadt no Parlamento Europeu esta manhã.



publicado por José António Abreu às 16:09
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Terça-feira, 7 de Julho de 2015
Em 24 horas tinham um acordo, garantiam...
E, todavia, 48 horas após o referendo surgiram em Bruxelas sem propostas. Amanhã, juram eles agora. Como dizia o advogado interpretado por John Cleese ao gago interpretado por Michael Palin em Um Peixe Chamado Wanda: «Plenty of time.»


publicado por José António Abreu às 16:47
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O produto que Tsipras pretende exportar para o resto da União Europeia, assim salvando a Grécia

Austeridade.



publicado por José António Abreu às 10:22
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2015
Constatações e cenários (todos maus)

Blogue_UE_Bandeira.jpg

 

1. O referendo na Grécia vincula o governo grego, não os restantes. Os gregos apenas têm legitimidade para decidir sobre o seu próprio orçamento. Não sobre o português, o espanhol, o alemão ou o eslovaco.

 

2. Mostrar solidariedade com a Grécia não é ajudá-la a manter as distorções que sempre lhe caracterizaram a economia (como, de resto, a Portugal). Não é dar-lhe o peixe (ainda que, provisoriamente, algum deva ser dado), é ensiná-la a pescar (como, de resto, a Portugal).

 

3. Se tal sucedesse, nunca mais seria possível convencer qualquer dos governos do Sul da Europa (começando pelo próprio grego) a efectuar reformas com um mínimo de dificuldade. Aberto o precedente, os referendos ou, onde constitucionalmente proibidos (em grande medida porque, colocadas perante a questão de pagar ou não pagar, as pessoas tendem a escolher não pagar), outras formas de manifestação de desagrado tratariam de o garantir. O resultado? A implosão da UE ou a sua transformação numa Venezuela com 500 milhões de pessoas, onde a riqueza hoje produzida seria rapidamente desbaratada. Outros blocos políticos e económicos agradeceriam. De resto, talvez não por acaso todos pressionam (sem que alguém os acuse de ingerência nos assuntos alheios) no sentido da Grécia obter as condições que pretende.

 

4. O incumprimento da Grécia teria efeitos potencialmente perigosos nas contas públicas dos restantes países (através dos fundos de apoio e da eventual necessidade de recapitalizar o BCE) mas ceder a uma chantagem feita por um governo com as políticas do governo grego (i.e., que nunca colocarão a Grécia a crescer de forma sustentada) apenas adia e agrava o problema. Sendo certo que as instituições europeias têm hoje mais instrumentos para lidar com a saída da Grécia do que há alguns anos, não é líquido que cheguem. Ironicamente, o alargamento de prazos de que a Grécia goza facilitará um pouco a tarefa, adiando a conta e distribuindo-a por mais anos. Mas o efeito de contágio não está afastado e este escalonamento não se aplica à dívida (do Estado e dos bancos gregos) ao BCE. Seja como for, se pode defender-se a tese de que teria sido preferível deixar cair a Grécia em 2010 ou 2012, em vez de continuar a emprestar-lhe dinheiro, mais difícil de entender é prosseguir na mesma via, sem existirem indícios que permitam acreditar que, dentro de dois ou três anos, a situação terá evoluído para melhor. Pelo contrário: tudo indica que a bola de neve aumentará de tamanho.

 

5. O próprio corte de 30% na dívida grega, como exigido por Tsipras, também teria custos para os cidadãos dos restantes países e, acima de tudo, feito desta forma, abriria a porta a outros perdões logo que a dívida atingisse patamares considerados «injustos» (imagine-se Iglesias como primeiro-ministro de Espanha, Berlusconi ou similar à frente de Itália, Le Pen na presidência francesa). A dada altura, este cenário confundir-se-ia com o de default total pois entrar-se-ia numa via de insustentabilidade. Chegaria também o momento em que os contribuintes e/ou depositantes seriam chamados a cobrir as perdas decorrentes do accionamento dos famosos CDS, ou seguros contra incumprimento (a dívida de Itália, de Espanha ou de França encontra-se essencialmente em mãos privadas), que têm potencial para arrasar muitas instituições de crédito.

 

6. Perdoar dívida a uns significa aumentar dívida a outros. E, mesmo no caso dos credores serem privados, toda a gente acaba atingida.

 

7. Muitos na esquerda sabem isto. (O governo grego joga com isto.) Mas que melhor forma de tentar fazer implodir o sistema capitalista, mantendo a retórica de que foi ele próprio o causador da queda? (A acontecer - ver-se-á então o que é recuar dezenas de anos em termos de rendimento disponível -, tê-lo-á sido em parte; governos irresponsáveis fizeram o resto.)

 

8. A situação actual valida a posição dos que, um pouco por toda a Europa, receavam que a compatibilidade entre uma moeda assente na responsabilidade (como as do Norte da Europa tendiam a ser) e políticas centradas na demagogia (como as do Sul da Europa quase sempre foram) se revelasse impossível. Poucos terão hoje mais razões para dizer "bem vos dissemos" do que os cépticos que, na Alemanha, contestaram o abandono do marco. A Alemanha cedeu porque desejava apoio político para a reunificação e a França exigia o euro, invejosa que sempre esteve da força do marco e incapaz de perceber o que ele implicava em termos de contas e políticas públicas. Ilusões da França (e de Espanha, Itália, Portugal e Grécia), ingenuidade da Alemanha (e da Holanda, Áustria, Finlândia e - quão estranho é escrevê-lo - Irlanda). Moral da história: por norma, é preferível considerar como correctos os melhores cenários dos pessimistas - e não misturar mundos incompatíveis.

 

(Fotografia: Alamy Alamy / Alamy, recolhida no Bing.)



publicado por José António Abreu às 13:43
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A união dos verdadeiros democratas

Eurocépticos espalhados pela UE ficaram em júbilo com a rejeição do que Marine Le Pen, a líder do partido de extrema direita francês Frente Nacional, chamou "a oligarquia da União Europeia".

"É um voto "não" de liberdade, de rebelião contra os 'diktats' europeus daqueles que querem impor a moeda única a qualquer preço, através da mais inumana e contraproducente austeridade", afirmou ela em comunicado.

Na Grã-Bretanha, Nigel Farage, líder do partido UK Independence Party, anti-EU, elogiou os eleitores gregos por "desafiarem o bluff da UE".

"O projecto da UE está a morrer. É fantástico ver a coragem do povo grego em face do bullying político e económico de Bruxelas", disse ele.

Eurocépticos na Holanda e na Itália juntaram-se ao coro de satisfação com a derrota da UE. Em Espanha, o líder do partido de extrema-esquerda Podemos, Pablo Iglesias, próximo de Tsipras, tuítou: "Hoje na Grécia, a democracia venceu".

Reuters. Tradução minha.


publicado por José António Abreu às 00:27
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2015
Onde tudo começou

A Grécia entrou no Euro em 2001. Desde essa altura, teve um crescimento imparável.

Muito superior ao registado em Portugal - ou na Alemanha. Convém ver os números (PIB, salários, consumo) e perceber porquê. Leitura essencial, n'O Insurgente. Por Carlos Guimarães Pinto.


publicado por José António Abreu às 22:30
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Coerências (auxiliar de memória para os fãs)

Varoufakis afastou a possibilidade de um referendo aos termos do acordo dizendo que seria efectivamente um voto à manutenção do euro como moeda.

«Seria injusto para os cidadãos gregos terem de tomar uma posição sobre o assunto, respondendo com um sim ou um não», disse ele.

19.05.2015. Tradução minha.


publicado por José António Abreu às 12:14
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Domingo, 28 de Junho de 2015
Pescadinha

Falando acerca disto após o Eurogrupo, o loquaz ministro das finanças da Grécia, Yannis Varoufakis, tombou em incoerências. A recusa dos ministros em aprovar uma extensão do programa, disse ele, causou «danos permanentes à credibilidade da UE». Porquê? Porque havia uma «muito elevada probabilidade» de que os gregos ignorassem o governo e aprovassem a proposta dos credores. A Grécia, parecia estar a argumentar o Sr. Varoufakis, merecia ainda mais uma extensão do programa para dar tempo ao governo para aconselhar os eleitores a rejeitar os seus termos porque esse conselho poderia bem ser rejeitado.

The Economist. Tradução minha.


publicado por José António Abreu às 16:23
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Sábado, 27 de Junho de 2015
Timings (e felicitações)

O referendo constituiria uma opção razoável se realizado antes do final de Junho. Para que tal fosse possível, o governo grego não poderia ter queimado meses em manobras dilatórias. Mais: considerando o apelo ao voto no «não» por parte do Syriza, seria de toda a conveniência garantir uma margem de várias semanas, uma vez que a vitória do «sim» deixaria o governo numa posição insustentável, podendo ser necessário realizar eleições antecipadas.

Agora tudo se precipita e, a menos de um golpe de teatro de último instante, o referendo nem sequer faz sentido (no próximo domingo, a proposta terá perdido a validade). Como, de resto, a análise acima também pode não fazer - porque é bem possível que Tsipras tenha conseguido o seu verdadeiro objectivo: retirar a Grécia da zona euro sem, junto dos seus cidadãos e de ingénuos espalhados um pouco por toda a Europa, parecer ter manobrado para o fazer. Caso em que restará dar-lhe os parabéns por um trabalho bem feito.



publicado por José António Abreu às 18:42
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2015
Quatros meses e meio depois, há quem concorde com Passos Coelho

«O diálogo com o governo grego tem que ser feito com adultos na sala.»

Christine Lagarde, há minutos, na conferência de imprensa após a reunião do Eurogrupo.



publicado por José António Abreu às 19:38
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2015
Pequeno teste (com consulta)

Considere as seguintes previsões para a variação do PIB da Grécia em 2015:

+ 2,87% (FMI, Outubro de 2014).
+ 2,3% (OCDE, Novembro de 2014).
+ 2,5% (Comissão Europeia, início de Fevereiro de 2015).
+ 1,4% (Governo da Grécia, na lista de 'medidas' enviada ao «Grupo de Bruxelas» - ex-Instituições, ex-Troika -, final de Março de 2015).

 

A. O governo grego (que - tenha em atenção - é diferente para melhor de todos os outros, com excepção do cubano e do venezuelano):

1. Devia acreditar mais nas suas capacidades.

2. Embora não o possa admitir, sabe que as perspectivas de crescimento pioraram desde que tomou conta da situação e está a ser realista.

3. Na linha de tantos governos acusados de apresentarem números fantasiosos, está ainda assim a ser optimista.

4. Não faz ideia do que está a fazer nem do que vai acontecer.

 

B. Levando em conta as previsões e sabendo que o PIB da Grécia cresceu 0,8% em 2014, qual será a variação em 2015?

1. Acima de 3% (a austeridade era o problema e a Merkel cederá em toda a linha).

2. Entre 2% e 3%, como previam as instituições internacionais (o Syriza tem estilo mas é irrelevante).

3. Entre 1,4% e 2% (Varoufakis é ainda melhor do que pensa ser).

4. Exactamente 1,4% (Varoufakis é infalível).

5. Entre 0% e 1,4% (a teimosia da União Europeia tem custos).

6. Entre -1 e 0% (a teimosia da União Europeia e do BCE tem custos).

7. Mais negativa do que a temperatura média em Murmansk durante o mês de Janeiro (a Grécia liberta-se do euro e adopta um novo dracma, ligado ao rublo).

 

C. Elabore um texto com não mais de dez linhas sobre a hipótese de Varoufakis chegar um dia a líder do FMI.



publicado por José António Abreu às 09:57
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Terça-feira, 10 de Março de 2015
Suponho que os apreciadores da seita lhe chamarão «negociação musculada» ou algo similar
Ministro da Defesa da Grécia ameaça deixar entrar na Europa jihadistas do Estado Islâmico se o governo grego não obtiver o que deseja.


publicado por José António Abreu às 12:05
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Sábado, 28 de Fevereiro de 2015
Alexis Chávez ou seguindo o modelo à risca
Passos elevado à condição de «grande satã» Bush é que não lembrava ao diabo.


publicado por José António Abreu às 16:13
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No seguimento do texto anterior
(Este texto.)

Os partidos populistas, baseando a conquista de votos não apenas em promessas impossíveis de concretizar mas na denúncia da promiscuidade entre os governos dos partidos «tradicionais» e o sector privado, caem numa aparente contradição quando exigem uma moeda - seja esta um euro fraco ou novas-velhas moedas nacionais - capaz de a disfarçar. Uma moeda fraca está inextricavelmente ligada a regimes mais corruptos e a menores níveis de riqueza geral. Compare-se outro Sul com o Norte de sempre. Os países da América Latina têm tradicionalmente moedas que acomodam a corrupção e os exageros populistas dos políticos - até ao momento em que mesmo isso deixa de ser possível. Os países do Centro e do Norte da Europa favorecem tradicionalmente moedas fortes e estáveis, que obrigam os empresários a apostar na competitividade e os políticos a justificarem opções perante o eleitorado. Por não disfarçar os problemas, a moeda forte torna os eleitores mais exigentes e dificulta a realização de promessas vãs. Ou seja, dificulta os populismos. É por isso que a contradição não passa de aparência e é também por isso que os políticos minimamente honestos enfrentam enormes dificuldades em épocas de crise.



publicado por José António Abreu às 15:44
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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015
A ver se entendi
O governo grego compromete-se a:

- Pagar a dívida pública;

- Manter as privatizações feitas e em curso; avaliar a melhor altura para executar as restantes;

- Combater a evasão fiscal;

- Reduzir a despesa pública;

- Aumentar impostos;

- Cortar pensões, poupando as mais baixas.

- Rever o código laboral e não aumentar para já o salário mínimo;

- Aumentar o nível de concorrência na economia;

- Liberalizar o enquadramento de profissões reguladas;

- Estudar medidas de apoio social que não tenham impacto negativo nas contas públicas.

E ainda se dizia que não existiam alternativas.



publicado por José António Abreu às 18:55
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"Astounding 56%"

Identificar medidas de poupança de custos através de uma exaustiva revisão dos gastos de cada Ministério e da racionalização das despesas não relacionadas com salários e pensões, que actualmente representam uns assombrosos 56% do total da despesa pública.

Da carta enviada pelo governo grego ao Eurogrupo. Tradução minha.

 

A carta está cheia de propostas vagas, sem quantificação de resultados previstos, mas tem no mínimo uma utilidade: demonstra que a Grécia precisa menos de perdões de dívida do que de uma gestão minimamente competente. Tomara o governo português ter disposto de uma margem como a revelada no trecho acima.

 

Versão original do parágrafo traduzido:

Identify cost saving measures through a thorough spending review of every Ministry and rationalisation of non-salary and non-pension expenditures which, at present, account for an astounding 56% of total public expenditure.



publicado por José António Abreu às 12:39
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2015
Previsão de efeitos da aplicação prática da teoria dos jogos (com ironia mas sem bluffs)

Negativos

Governos da Zona Euro ver-se-ão obrigados a apresentar orçamentos rectificativos para acomodar aumento de despesas com viagens. O anúncio gerará contestação na Bélgica, levando à demissão do governo (seguindo tradição local, as perspectivas de desempenho da economia melhorarão de imediato).

 

Positivos

Companhias aéreas europeias comunicarão ter tido o melhor mês de Fevereiro do milénio. Aeroporto de Bruxelas ocupará lugar entre os mais concorridos do planeta. Governo português anunciará que as receitas previstas com a privatização da TAP foram revistas em alta, devendo permitir eliminar a sobretaxa do IRS antes das eleições legislativas. Lufthansa anunciará instalação de um lugar para atracagem de cadeiras de rodas em todos os aviões (responsável afirmará: «Para além de ser positivo para a nossa imagem, julgamos que é rentável e evita que as assistentes de bordo tenham que andar todos os dias com o ministro das finanças ao colo»).


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publicado por José António Abreu às 16:28
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'Destroikando' em miúdos

Quem ganhou? Acima de tudo, a Grécia perdeu. O governo aceitou quase todas as exigências e o país está hoje pior do que estava há três meses. Sobra a retórica imbatível de Varoufakis, o sexy e sincero, que conseguiu uma provável descida do objectivo para o excedente primário e que «a Troika» fosse substituída no léxico oficial por «as Instituições».

O acordo é para levar a sério? Sem sombra de dúvida, talvez. Para já, é preciso concluí-lo e para isso as medidas a apresentar pelo governo grego na próxima segunda-feira têm de ser credíveis (nada menos certo). Depois, ninguém estranhará se for desrespeitado nos meses seguintes, através da aplicação de medidas não previstas ou da recusa em corrigir eventuais desvios orçamentais. Hipótese mais divertida: não passar de um estratagema para ganhar tempo e preparar a saída do euro.

Porquê quatro meses e não seis? Porque em Julho e Agosto a Grécia tem de efectuar pagamentos de quase 7 mil milhões de euros e um bocadinho de pressão extra sobre Tsipras e Varoufakis só pode ajudar nas negociações para um novo plano de financiamento. Porque Portugal e Espanha têm eleições antes do fim do ano e convém ter o governo grego domesticado – ou a Grécia fora do euro – a tempo dos eleitores perceberem a inutilidade que é votar em Syrizas.

E por cá? Tem piada ver bloquistas a comemorar.



publicado por José António Abreu às 01:48
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015
Metamorfose da revolução

Agora foi a surpresa, os trabalhadores não apareceram na rua de punho ao alto para esmagar a reacção. As 200 famílias, quando não estão em tribunal por qualquer vigarice comum, continuam em casa. A doença infantil do esquerdismo acabou por se instalar no Governo da Grécia e viaja por aí freneticamente de avião. E a grande força do progresso passou agora a ser o imenso proletariado do funcionalismo e dos subsídios do Estado. O manifesto obrigatório da “inteligência”, assinado pelas luminárias do costume, é dirigido ao pobre dr. Passos Coelho, que certamente ficou atarantado com a sua súbita importância histórica. De resto, por razões que se compreendem, nem Sartre, nem Beauvoir se deram ao trabalho de ir deixar uma frase em Atenas, coisa que não nos faltou em Lisboa.

Não interessa. Nada disto diminui o Syriza, porque o Syriza encenou a sua erupção na consciência das massas para o tempo da televisão e da Internet; e aí foi, reconheçamos, magistral. A ideia de não pôr gravata não ocorreria a Lenine. O nacionalismo e o justo ódio aos mercados do capital oligárquico e especulativo não se vêem e não ganham com a alta definição o Facebook ou o Twitter. Em contrapartida, o couro preto não engana ninguém e não há ninguém que não conheça a sua ilustre linhagem: os comissários do Exército Vermelho, os generais do Führer, os super-homens da SS. O couro preto e o pormenor moderno da fralda de fora indicam agressivamente o macho Alfa, a sua virilidade e a sua vontade de domínio. Características que, se não comovem a sra. Merkel, intimidam os burocratas da economia e arrasam as feministas de serviço. A velha Europa precisava desta metamorfose da revolução.

Parte da coluna de Vasco Pulido Valente, hoje no Público.


publicado por José António Abreu às 11:58
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015
O mercado interno, o euro e os encantos do passado

Resumindo, não é possível um mercado interno com união aduaneira, a funcionar correctamente – e durante muito tempo –, num ambiente de distintas moedas. Não é possível na União e não foi nunca em parte alguma do Mundo. É bom que os detractores do euro pensem nisso quando pensam nisso: sem moeda única, não há mercado interno.

[...]

Duas coisas me irritam, confesso, nos cépticos do euro: a constante referência à soberania nacional e o apelo ao regresso ao tempo do escudo, quando o mel e o leite corriam abundantes pelas doces encostas pátrias, concedendo a todos o benefício do progresso e do bem-estar. Quanto à soberania, lamento, não sei do que falam: há quanto tempo não é Portugal verdadeiramente soberano nas matérias que transferiu para a União e cuja recuperação formal não serviria de qualquer modo para nada? Num Mundo global, países da nossa dimensão e com os nossos recursos têm pouca soberania – sustento aliás que Portugal ganha soberania na condição de membro da União. Quanto ao argumento do passado, de um tempo em que um escudo pujante nos garantia um lugar cimeiro entre as nações ricas do Mundo: quando foi isso? Portugal tinha em 1985, ano anterior à adesão, um PIB per capita pouco superior a 50% da média comunitária, tendo crescido desde então acima dos 70%. Querem comparar o país com escudo com o Portugal de hoje? Era melhor em quê? Havia desemprego, inflação, juros altos, salários em atraso. Melhor em quê? E ao que voltaremos no dia em que, recuperado o amado (e não assim tão velhinho) escudo, sucessivas desvalorizações empobrecerem o país como fizeram tantas vezes ao longo da nossa História, pondo-nos ainda mais longe dos tais países ricos que alegadamente nos exploram dentro da UE (coisa que não farão quando estivermos fora, claro – isto é uma ironia)?

[...]

E não sendo novidade, também é facto que está feita boa parte do caminho da integração, logo da resolução dos defeitos da concepção da zona euro. Como escreveu Alberto Gallo do Bank of Scotland, a zona euro está cada vez mais unida, com união bancária (ainda incompleta, é certo), união financeira (a meio caminho), união orçamental (a fazer-se) e até com a prometida compra de títulos da dívida soberana e sua mutualização (parcial, nos 20% assumidos pelo BCE do Quantitative Easing). Pediam solidariedade europeia? Pediam injecções de dinheiro “à americana”? Pediam a diminuição do preço do euro para beneficiar os deficitários? Check, check, check. Quando a crise começou e sobretudo a partir daquilo a que chamo o tempo dos resgates (2011), nada do que desde então se fez era previsível. Muitos eurocépticos (contra o euro, pelo menos), previram então a saída da Grécia – e de Portugal – e a desagregação iminente da zona euro e da própria União. Já lá vão 4 anos, eles continuaram a prevê-la a cada sinal de crise, muito mudou mas a união não se desagregou. A Europa, quer queiram quer não, está unida. A Alemanha, tão e sempre odiada e apontada como responsável pela crise, continua a ser o travão contra os excessos e as euforias induzidas pelos Syrizas do dia, ainda que continue a ceder sempre que é preciso – sempre que a Europa precisa.

 

Paulo de Almeida Sande, no Observador. Há muito mais no artigo, sobre passado, presente e eventual futuro. O risco não abordado - com potencial para tornar excessivo o optimismo revelado no final do texto - é que os populismos destruam um processo forçosamente lento, pela necessidade de efectuar reformas difíceis em alguns países (que lhes permitam não constituir um peso excessivo e permanente) e de levar outros a aceitar uma progressiva união fiscal e orçamental (através de um orçamento comunitário reforçado, por exemplo).


publicado por José António Abreu às 12:46
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015
A primeira barricada do imobilismo
Sem as chamadas “reformas”, o dinheiro, só por si, nunca será mais do que um paliativo temporário, tal como os perdões de dívida, porque a economia da Grécia não é capaz de usar os recursos de outra maneira. Muito provavelmente, serviria apenas para aumentar as importações com origem na Alemanha, como já está a acontecer em Portugal. Ora, ao eleger o governo do Syriza e da extrema-direita, o eleitorado grego sinalizou que não quer adaptar a sua economia para funcionar dentro da zona Euro. É este o problema que não cabe na análise de Vítor Bento.

Neste ponto, chegámos ao maior erro da zona Euro, e que, esse sim, é o erro fatal: a ideia de que o enquadramento e a pressão externa bastariam para provocar mudanças na Grécia e em outros países, independentemente das configurações de forças políticas internas. Bem apertados, os gregos arranjar-se-iam para resolver o problema. Não se arranjaram. Pelo contrário: a pressão externa serviu apenas para fazer os partidos europeístas parecerem agentes de um castigo estrangeiro, e deu a bandeira da soberania aos populismos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Mais: o enquadramento do Euro criou a expectativa de que, para preservar a união monetária, toda a UE acabaria por submeter-se ao Syriza, cujo despesismo pareceu assim credível aos eleitores gregos. Ironia da história: o Euro, que se julgava fosse o instrumento de transformação do sul, funciona agora como a primeira barricada do imobilismo.

 
Rui Ramos, no Observador. Convém ler o resto.
 


publicado por José António Abreu às 13:30
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2015
Não desperdiçar capital em negociações

Por isso, é defensável que Portugal tenha uma posição clara e inflexível sobre o assunto: queremos exatamente as mesmas condições que forem oferecidas aos gregos. Se quiserem usar esquemas que só se apliquem a eles, estamos contra, em nome da igualdade na Europa. Se as negociações não forem a lado nenhum, não temos problema com isso. Não defendemos as propostas gregas, não temos de concordar com elas, nem podemos ser contados como aliados de ninguém nas negociações ou gastar qualquer capital em nenhuma negociação. Entramos nas reuniões mudos e saímos calados.

Ricardo Reis, no Dinheiro Vivo. Vale a pena ler o resto do artigo, no qual se abordam as questões da conversão da dívida grega em perpetuidades e do pagamento indexado à taxa de crescimento da economia.


publicado por José António Abreu às 15:34
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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015
Baixando o nível
Nos tempos modernos, a Grécia nunca foi rica. Portugal também não e mesmo Espanha e Itália nunca conseguiram os níveis médios de rendimento e bem-estar de países como a Alemanha, a Áustria ou a Holanda. Os países do Sul (como, de resto, os seus 'discípulos' da América Latina) nunca perceberam as vantagens de manter contas públicas equilibradas. O exemplo português é elucidativo. Nos últimos séculos, os dois únicos períodos prolongados de crescimento deveram-se à acção de dois déspotas com preocupações de equilíbrio orçamental: o Marquês de Pombal e António de Oliveira Salazar. (O rendimento médio em Portugal era de cerca de 30% do rendimento médio europeu quando Salazar chegou ao poder e, apesar das medidas iniciais de austeridade, da guerra colonial e da filosofia de favorecimento de meia dúzia de grupos económicos, subira para mais de 50% no final do regime.) No Sul, a solução para os problemas passou invariavelmente pela desvalorização da moeda e subsequente inflação. Tome-se como exemplo o ano de 1981 (escolhido por ser o primeiro disponível para todos estes países nos Outlooks do FMI). A inflação nos sete países referidos foi de 21,2% (Portugal), 24,4 % (Grécia), 14,5% (Espanha), 19,5% (Itália), 6,3% (Alemanha), 6,8% (Áustria e Holanda). A separação de águas é demasiado notória para ser irrelevante (neste link podem ser comparados outros anos; a tendência mantém-se).

O euro fez com que, num primeiro momento, todos ganhassem: os países do Norte ficaram ainda mais competitivos e os países do Sul acederam a taxas de juro bastante mais favoráveis do que as suas economias recomendavam. Isto levou-os primeiro a níveis insensatos de investimento improdutivo e de endividamento e, depois, à inevitabilidade de corrigir abruptamente a trajectória (a austeridade é um efeito, não uma causa). Discute-se agora se é desejável atenuar – na verdade, eliminar – essa trajectória, perdoando dívidas e acabando com a austeridade. Para que tal suceda, será necessário assumir uma política em tudo contrária àquela que permitiu o enriquecimento dos países do Centro e Norte da Europa e em quase tudo idêntica à que nunca permitiu o enriquecimento dos países do Sul: aceitar os desequilíbrios em vez de os corrigir, emitir moeda, transferir fundos do Norte para o Sul (assumindo que é constitucionalmente possível). E o pior é que, permanecendo os países do Sul reticentes à aplicação de reformas que os possam tornar mais competitivos, nada permite considerar esta situação como temporária. Ou seja: quando o Syriza promete o fim da austeridade e o reforço das políticas públicas, está a fazê-lo às custas dos contribuintes alemães e holandeses e austríacos (e também portugueses e espanhóis e italianos mas estes têm razões para acreditar poderem sair beneficiados do processo) e nem sequer lhes permite a esperança de que dentro de poucos anos a economia grega consiga auto-sustentar-se. No fundo, a Grécia admite oficialmente desejar ser uma espécie de desempregado da Europa, recebendo o correspondente – e, tudo o indica, eterno – subsídio. Obviamente, caso tenha sucesso, outros lhe seguirão o exemplo.

De um inconsciente António Costa a uma bem consciente Marine Le Pen, muita gente ficou satisfeita com a vitória do Syriza. A curto prazo, ceder ao essencial das exigências de Tsipras e seus correligionários poderá permitir a sensação de que tudo melhora. A longo prazo, é um suicídio para a Europa.



publicado por José António Abreu às 13:28
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