como sobreviver submerso.

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017
Os Estados Unidos trumpistas também têm pontos positivos...
Playboy volta a ter fotografias de mulheres nuas.


publicado por José António Abreu às 14:16
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017
Trump

PlayTrump.jpg

 

Alguém já deve ter feito um estudo relacionando o nível de riqueza dos países e o nível de proteccionismo das respectivas economias. Confesso desconhecê-lo. Estou, porém, convencido de que, a prazo, o proteccionismo nunca cria riqueza. Quando muito, é útil para dar algum tempo de adaptação a sectores específicos, de modo a evitar mudanças demasiado bruscas. Nenhum regime fortemente proteccionista é verdadeiramente rico (exemplo-limite: a Coreia do Norte) e, no mundo actual, baseado na tecnologia e no conhecimento, o proteccionismo é uma táctica suicida para economias pequenas e mal desenvolvidas (como a portuguesa).

 

Os Estados Unidos não têm nem o problema da dimensão (o PIB norte-americano representa cerca de 24% do PIB mundial) nem o de constituírem uma economia subdesenvolvida. Na realidade, numa economia tão grande, tão variada, tão baseada no consumo (68% do PIB) e tecnologicamente tão avançada como a norte-americana, é perfeitamente possível que medidas proteccionistas dêem origem a recuperação do emprego e aumento dos salários – durante uns tempos. Depois os preços tenderão a subir, o dólar a valorizar-se (com péssimas consequências para a sustentabilidade das dívidas de vários países periféricos), o consumo a travar, as exportações a diminuir (tanto pelo aumento dos custos de produção como pela imposição de tarifas aos produtos norte-americanos por parte de outros países), a imigração a aumentar (o efeito negativo na economia mexicana será imediato), o nível de inovação a descer, o investimento estrangeiro a hesitar, o mercado de capitais (assente em empresas multinacionais) a ressentir-se. Já para não mencionar o surgimento de dificuldades logísticas ou até mesmo político-logísticas: alguns materiais necessários para fabricar certos produtos obtêm-se apenas em países específicos (a China produz 85% dos metais de terras raras - como o neodímio e o lantânio - essenciais para o fabrico de smartphones e computadores) e uma deterioração das relações internacionais poderá dificultar o acesso a eles. (Vejam-se, por exemplo, as implicações de transferir a produção do iPhone para os Estados Unidos.) Enquanto isto for acontecendo, países mais fracos enfrentarão tremendas dificuldades (o México encontra-se prestes a ficar numa posição similar àquela em aquela em que Portugal se encontraria se perdesse o acesso livre ao mercado europeu) e a economia mundial também.

 

Mas Donald Trump está apenas a fazer o que prometeu. Na verdade, está até a fazer o que sempre defendeu. Comprovando a teoria (tão injustamente atacada) de que se pode ler a Playboy pelos artigos, parece que no interior do governo alemão tem andado a circular a edição de Março de 1990. Trump - que, pelos vistos, não gosta apenas de gatinhas (pussies), mas também de coelhinhas - era o entrevistado. E não tinha dúvidas: os problemas da economia norte-americana (no início de uma década de excelente desempenho) tinham origem nas importações de produtos japoneses e alemães, tornados competitivos através de subsídios dos respectivos governos, os quais ganhavam a folga para os pagar devido ao facto de serem os Estados Unidos a assegurar que os dois países não eram «removidos da face da Terra em cerca de 15 minutos». Trump acusava japoneses e alemães de roubarem o amor-próprio dos norte-americanos e terminava dizendo que «os nossos aliados lucram biliões lixando-nos». De então para cá, apenas necessitou de acrescentar China, México e, suponho, Coreia do Sul à lista dos seus ódios de estimação. Para Trump, tudo assenta em análises custo-benefício simplistas, feitas sempre numa perspectiva de curto prazo. Trata-se de uma excelente receita para o desastre. Que ele esteja a posicionar-se para incentivar o desmembramento da União Europeia, de modo a forçar acordos bilaterais a partir de uma posição de força que as condições actuais não lhe providenciam, só pode reforçar os motivos de preocupação.

 

Há um ponto, todavia, em que é necessário elogiá-lo. Um ponto que até ajuda a explicar por que venceu as eleições. Nos primeiros dois dias, Trump reuniu-se com líderes de grupos industriais e com sindicalistas. Nas conferências de imprensa diárias, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, fez questão de realçar que vários deles nunca tinham estado na Sala Oval e que alguns nunca haviam sequer entrado na Casa Branca. Para um cidadão desempregado, ou num emprego de baixo rendimento, que via as estrelas de Hollywood descreverem, nos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon, as festas e os jantares na Casa Branca em que haviam participado, isto é um tremendo sinal. Os encontros de Trump podem não passar de demagogia ou significar o pontapé de partida para uma crise mundial. Para essas pessoas, contudo, marcam a diferença. Barack e Michelle Obama eram elegantes, politicamente correctos, excelentes oradores e dançarinos - o epítome do cosmopolitismo. Mas Trump está a lutar por eles. Não há piada desdenhosa ou crítica mal fundamentada capaz de vencer esta ideia. 


publicado por José António Abreu às 20:32
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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016
Trump e outros populismos

A maior tragédia da candidatura de Donald Trump seria a sua eleição. Felizmente, tal começa a parecer improvável.

A segunda maior tragédia da candidatura de Donald Trump - como, de resto, da maioria dos populismos, sejam estes de direita ou de esquerda - é distorcer o debate, afastando-o dos temas e das soluções que verdadeiramente importaria discutir.

As políticas de Barack Obama, que Hillary Clinton prosseguirá, são passíveis de inúmeras críticas: o aumento exponencial da dívida, a que correspondeu apenas um crescimento tímido da Economia; os riscos gerados pela política financeira, de - não obstante a retórica em contrário - apoio a Wall Street; a estagnação dos níveis salariais; o recrudescimento da violência racial; a tendência para o aumento de impostos; as hesitações e contradições da política externa. Seria fundamental que existisse uma oposição à altura, chamando a atenção para estas e outras questões (mas questões verdadeiras, não as que se baseiam em números inventados ou em sensações, como o putativo aumento da criminalidade) e avançando com propostas alternativas, concretas e viáveis. No mínimo, a discussão forçaria o Partido Democrata a clarificar e a refinar propostas. Nada disso está a acontecer. As frases ocas de Trump, a sua incoerência e a sua incapacidade para manter a discussão no plano das ideias (invariavelmente, e ao melhor estilo autocrático, ele responde a críticas de cariz político com descabelados - perdoe-se-me o trocadilho - ataques pessoais) deixa terreno aberto a Clinton para que possa ser eleita não apenas com relativa facilidade mas sem ver o seu programa devidamente escrutinado.

Isto é terrível para a democracia. Os populismos são perigosos por criarem realidades alternativas e fazerem muitas pessoas acreditar no impossível, mas também por (1) levarem os adversários a entrar por seu turno na baixa política dos ataques pessoais e das promessas irrealistas (ou, a prazo, prejudiciais), (2) diminuírem a extensão e qualidade do debate sobre o que verdadeiramente é possível fazer, e (3) queimarem pontes para compromissos futuros. Mesmo que os populistas não vençam as eleições, a conjugação destes factores aumenta a probabilidade de que sejam (ou continuem a ser) implementadas políticas erradas. E o resultado de políticas erradas é o aumento da insatisfação e dos populismos. O círculo vicioso perfeito. O círculo vicioso em que o Partido Republicano se deixou aprisionar. (A terceira maior tragédia da candidatura de Donald Trump é o modo como fragiliza o partido de Abraham Lincoln, ainda que - sejamos honestos - o processo tenha começado antes dela.) O círculo vicioso que, com ligeiras variantes, elegeu o Syriza, deu força ao Podemos, ao UKIP, à AfD e à Frente Nacional, destruiu o PASOK e ameaça o PSOE, e poderá vir a esvaziar ou a fragmentar o PS, se - e talvez fosse mais adequado escrever «quando» - o falhanço da demagogia em curso forçar uma crise.



publicado por José António Abreu às 15:42
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2015
Pois é, as boas acções são mais fáceis com o dinheiro dos outros
Obama manobrou para que os países da Zona Euro perdoassem dívida e enviassem mais dinheiro para a Grécia mas recusa-se a ajudar Porto Rico, que acaba de entrar em incumprimento.


publicado por José António Abreu às 11:00
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Sexta-feira, 19 de Julho de 2013
Detroit
Como sabemos, os problemas da periferia europeia devem-se exclusivamente à inexistência de uma verdadeira união política e financeira.

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publicado por José António Abreu às 10:17
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Big bang
Se o título desta notícia do Público é fantástico (Os EUA estão a recuperar o papel de motor da economia mundial), o subtítulo é deslumbrante: Com a Europa a cair em recessão e a China a abrandar, o mundo volta a olhar para o consumidor norte-americano como estímulo para uma recuperação. Mas a Fed tem de continuar a ajudar. Adoro a ideia do consumidor como salvador do mundo e o singelo apelo à Fed para que continue a ajudar. Eu sei que estamos em ano de eleições e é preciso reeleger Obama (for the record, também não sou grande fã dos republicanos). Ainda assim, acho extraordinário continuar a defender-se (e num artigo normal de jornal, não é sequer uma coluna de opinião) que o «crescimento» seja obtido através do consumo, da emissão de moeda, do défice. Por outras palavras: aumentando a massa crítica. Quando a explosão ocorrer, ninguém estará suficientemente longe.


publicado por José António Abreu às 10:12
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Domingo, 11 de Setembro de 2011
Voando pelo céu acima

Tirei a lanterna da mochila e apontei-a para o livro. Vi mapas e desenhos, fotografias de revistas, de jornais e da Internet, fotografias que eu tinha tirado com a máquina do avô. O mundo inteiro estava ali. Por fim, encontrei as fotografias do corpo a cair.

Seria o pai?

Talvez.

Quem quer que fosse, era alguém.

Arranquei as folhas do caderno.

Inverti a ordem, de modo a que a última fosse a primeira e a primeira fosse a última. Quando as desfolhei, parecia que o homem estava a voar pelo céu acima.

E se tivesse mais fotografias, ele teria voado para dentro de uma janela, de regresso ao edifício e o fumo teria entrado no buraco do qual o avião estava prestes a sair.

O pai teria deixado as mensagens de trás para a frente, até o atendedor de chamadas estar vazio, e o avião teria voado para trás, para longe dele, de regresso a Boston.

Ele teria apanhado o elevador para a rua e carregado no botão do rés-do-chão.

Teria caminhado de volta ao metropolitano e o metropolitano teria atravessado o túnel para trás até à paragem da nossa casa.

O pai teria passado pelo torniquete às arrecuas, depois teria passado o passe pela máquina ao contrário enquanto lia o The New York Times da esquerda para a direita.

Teria cuspido o café para dentro da chávena, deslavado os dentes e posto pêlos na cara com uma gilete.

Teria voltado a entrar na cama, o despertador teria tocado do princípio para o fim e ele teria sonhado para trás.

A seguir ter-se-ia levantado de novo no fim da noite antes do pior dia.

Teria entrado a andar para trás no meu quarto, a assobiar «I Am the Walrus» de trás para a frente.

Ter-se-ia metido na cama comigo.

Teria olhado para as estrelas do tecto do meu quarto, que teriam afastado a luz dos nossos olhos.

Eu teria dito «Nada» de trás para a frente.

Ele teria dito «Sim, rapaz», ao contrário.

Eu teria dito «Pai?» do fim para o princípio, o que teria sido igual a dizer «Pai» do princípio para o fim.

Ele ter-me-ia contado a história da Sexta Zona, desde a voz na lata do final até ao princípio, desde «Amo-te» até «Em tempos que já lá vão…»

Teríamos ficado em segurança.

 

Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto.

Edição Quetzal, tradução de Ana Falcão Bastos.



publicado por José António Abreu às 21:41
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
Fugas e perfis
As fugas podem trazer problemas ao governo americano, é verdade. Há líderes árabes que prefeririam continuar a passar por inimigos dos americanos enquanto os incitam a atacar o Irão e há governantes europeus com egos inversamente proporcionais à sua estatura física (cof, Sarkozy, cof, Putin) que não devem ter gostado de se ver retratados da forma como o foram. Mas sejamos honestos: onde é que estão as surpresas em tudo isto? Certamente que não no facto de os americanos procurarem obter o máximo de informações sobre toda a gente, incluindo aliados. Certamente que também não na constatação de que a animosidade entre países do Médio Oriente é pelo menos tão grande quanto entre alguns destes e as nações do «Ocidente» (só almas incapazes de maus pensamentos e muito, muito distraídas podem ainda defender o contrário). Para quem se encontra minimamente a par do modo como, ao longo de décadas, os serviços secretos (americanos e não só) conseguiram de forma espectacularmente brilhante permitir a fuga de informação classificada e acrescentar poucas ou nenhumas novidades relevantes e verdadeiras àquilo que já se sabia (i.e., conseguiram obter informações verdadeiras mas que não eram relevantes e informações relevantes que não eram verdadeiras* mas raramente ambas as coisas em simultâneo), a surpresa também não residirá no facto das informações agora reveladas terem vindo a público nem no de serem tão inesperadas quanto a ocorrência de gripes no Inverno. Assim de repente, a única verdadeira e pequenina surpresa talvez esteja mesmo na circunstância dos perfis, apesar de banais, parecerem acertar em cheio. E, para alguns, no facto da administração do «salvador» e «diferente» Obama não ser afinal assim tão diferente. Nem ele, pelo menos até ver, ser salvador de coisa alguma.
 
* Um exemplo: a existência de armas de destruição maciça no Iraque.


publicado por José António Abreu às 13:25
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Sábado, 20 de Novembro de 2010
Presidentes americanos

Via Obama subir as escadas do Air Force One ainda de noite e depois descê-las, já de dia, e pensava que há pelo menos uma coisa de que gosto nos presidentes americanos: por muito encenados que sejam os seus gestos e muitas camadas de protecção os separem do cidadão comum, mantêm sempre uma aparência de falta de presunção, de acessibilidade, que os políticos portugueses (e não apenas os políticos mas todas as pessoas com algum poder, real ou imaginado) bem podiam copiar.



publicado por José António Abreu às 00:14
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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
Guerra e paz
No Vietname morreram em combate tantos norte-americanos como na Segunda Guerra Mundial: mais de 50 000.
O país entrou nas duas guerras conduzido por presidentes do Partido Democrata que tinham feito campanhas como liberais com promessas de paz. Nos primeiros oitenta e oito anos deste século, todas as guerras em que os Estados Unidos participaram começaram com um presidente democrata no poder. Só um presidente democrata deste século, Jimmy Carter, é que não levou o país para a guerra.
Não foi reeleito. 
Joseph Heller, Imaginem que
Edição Difusão Cultural, 1991, tradução de Cristina Rodriguez
 
Para quem acha que os presidentes republicanos são sinónimos de guerra e os democratas de paz. É verdade que a situação mudou um pouco desde que Bush pai tomou posse. Foi ele, republicano, quem declarou a primeira guerra do Golfo, e mesmo assim não conseguiu ser reeleito. Já Clinton autorizou o envolvimento americano nas guerras nos balcãs e teve o cuidado de ir bombardeando «cirurgicamente» um ou outro país; cumpriu dois mandatos. Bush filho iniciou duas guerras e foi reeleito sem grandes dificuldades. Obama ainda não começou nenhuma mas, considerando o resultado das sondagens e das eleições de ontem, só a falta de dinheiro o pode estar a deter.


publicado por José António Abreu às 13:27
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
Guerra e Paz
Obama explicou a necessidade da guerra ao receber o Prémio Nobel da Paz. Meteu lá pelo meio Luther King e Mandela e frases destinadas a suavizar a mensagem mas ela não deixou de ficar clara: os Estados Unidos querem a paz mas não hesitarão em fazer a guerra para a conseguir, se a isso forem obrigados. Pela primeira vez, admirei a coragem e frontalidade do homem (há outros aspectos que eu já admirava). Divertido é ver como alguns dos seus apoiantes mais à esquerda (Mário Soares, por exemplo) assobiam para o lado e continuam a assegurar que ele é um símbolo da paz – daquela que não admite a guerra em qualquer circunstância – e que até o envio de mais 30 000 militares para o Afeganistão (uma medida de eficácia dúbia mas cujo sucesso seria fundamental para todos nós) é uma espécie de passo à frente que prepara uma corrida para trás. O discurso de hoje não foi no estilo daqueles que o tornaram famoso. Não empolgou, não criou ilusões. Foi sensato e realista. Foi, apesar de algum excesso de retórica (uma marca que ele parece não conseguir evitar), excelente.


publicado por José António Abreu às 22:18
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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Nobel da Paz, take 2

Tudo indica que Barack Obama é um homem sensato e bem intencionado. Ambos os factores são positivos mas não decisivos para que venha a ser um grande presidente americano. É ainda cedo para avaliar a presidência de Obama. E é também demasiado cedo para que ele receba o Nobel da Paz . O comité diz que a presidência de Obama permitiu avançar na direcção de um mundo sem armas nucleares e dar um novo impulso às questões ambientais. O primeiro ponto é um exagero (o tratado com a Rússia é positivo mas está longe de permitir pensar num mundo sem armas nucleares e, para mais, é puramente instrumental*) enquanto o segundo está por consolidar. Elogia ainda a forma como ele conseguiu alterar o clima político internacional. É um facto que o «clima» se alterou mas isso deveu-se mais à saída de Bush do que à entrada de Obama. E, por si só, o «clima» é pouco importante: todas as situações verdadeiramente problemáticas subsistem, com Afeganistão, Irão e Coreia do Norte no topo da lista. O comité Nobel pretenderá talvez dar um sinal aos líderes desses países, dizer-lhes: «Negoceiem porque estão sozinhos; este homem tem o apoio do Mundo.» É uma estratégia arriscada. Imagine-se que Obama dá ordens para intensificar os combates no Afeganistão, aceita incursões de forças americanas no Paquistão, fecha os olhos a ataques israelitas a reactores nucleares iranianos. (Já para não mencionar uma possível reacção a um novo atentado em solo americano.) Como reagirá o comité Nobel? Continuará a apoiá-lo ou dirá «Ooooops, parece que nos enganámos»? Ou esperará que, tendo recebido o Nobel, ele hesite em estilhaçar a imagem de grande conciliador e nunca assuma posições polémicas? Seria preciso muita sorte para um presidente americano, numa época tão complexa como a actual, passar um mandato inteiro sem enfrentar decisões difíceis e impopulares. E seria péssimo que as evitasse por questões de imagem. Há ainda a questão não resolvida de Guantánamo e sinais preocupantes como a recusa em receber o Dalai Lama.

 

Obama até poderá vir a merecer o prémio Nobel. Aliás, esperemos que sim. Mas, por enquanto, é cedo.

 

*Na medida em que permite a ambos os países poupar dinheiro e a Obama surgir perante o Irão e outros países com ambições nucleares como o grande «pacifista».



publicado por José António Abreu às 15:03
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O poder dos discursos

Nobel da Paz atribuído a Barack Obama. Uau. Duplo uau. Se ontem os louros de Estocolmo tinham passado a ideia de que os nórdicos detestam os americanos, hoje os louros de Oslo provam que há um americano que eles adoram. Exactamente o que é que ele fez para merecer o prémio? Who cares

 

Definitivamente, yes he can. E se não puder, quem é que alguma vez poderá?



publicado por José António Abreu às 10:40
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Obama: vamos ser amigos?

O discurso de Obama na universidade do Cairo é, como de costume, excelente. Mas é também um portento de compromissos. Vamos por partes.

 

Quase toda a gente estava farta de George W. Bush e de quem o rodeava. Eu incluo-me nesse vasto grupo. Obama surgiu como a alternativa simpática, culta, carismática, conciliadora. Elevou - propositada ou inadvertidamente - a  fasquia para um nível impossível de saltar. No discurso de tomada de posse deixou claro que era necessário baixá-la. Apesar disso, ainda é visto como o potencial salvador do mundo (mais na Europa que nos Estados Unidos).

 

Tendo definido uma estratégia de charme (ou, se quiserem, de cenoura e pau, com muito mais cenoura que pau), tem tentado fazer a quadratura do círculo: convencer todos da sua boa vontade (que existe), da sua disposição para dialogar (que é real), da sua abertura para aceitar soluções que não as defendidas tradicionalmente pelos EUA - que não pode ser genuína porque há certos princípios que Obama (e outros, como os líderes dos países da UE) não pode deixar de defender. Um exemplo: no Cairo, ele mencionou os problemas no acesso das mulheres à educação em países islâmicos nos seguintes termos: "não acredito que uma mulher que use véu não seja igual, mas acredito que uma mulher a quem é negada educação não é igual". É uma formulação inteligente mas é também quase acrítica e totalmente inconsequente. Por enquanto, neste como em muitos outros assuntos, ele pode ainda dar tempo ao tempo. Mas, mais tarde ou mais cedo, se não se verificarem - como é provável que não se venham a verificar - evoluções positivas nas questões mais importantes (p. ex., Palestina, Irão e Paquistão) terá que tomar posições mais claras. De acordo com a The Economist, o primeiro-ministro israelita, aquando da visita a Washington, tentou arrancar-lhe um prazo para uma decisão acerca da estratégia a adoptar na questão iraniana. Obama terá sido evasivo, acabando por declarar que no final do ano já deverá ter uma ideia acerca do que é possível conseguir junto do regime iraniano. Talvez na mesma altura já saiba como abordar a questão da Palestina. Ou as ameaças (que, na realidade, parecem mais ridículas que perigosas) da Coreia do Norte. Ou a situação no Paquistão. Ou as questões dos direitos humanos em vários pontos do globo (cuidadosamente contornadas no discurso do Cairo). Ou como lidar com a Rússia. A estratégia de cordialidade, com oferta de amizade a todos os antigos inimigos, necessita de muito tempo e funcionaria melhor se os países visados tivessem uma opinião pública que fosse verdadeiramente importante (e, como quase todos aprendemos na escola, raramente se transforma o rufia da turma num gajo porreiro cortejando-o no recreio). Pergunto-me se estaremos tão satisfeitos daqui a um ano ou ano e meio se nada evoluir ou, pior, se as coisas se agravarem no Paquistão, ocorrer um novo atentado grave na Europa ou nos Estados Unidos, ou Israel atacar reactores no Irão. E se ele (terá coragem?) mudar de estratégia, quais serão as reacções? Todos sabemos quão rapidamente o amor se tranforma em ódio...

 

Para já, merece o benefício da dúvida. E é um excepcional orador, o que, para quem gosta tanto de palavras como eu, é uma qualidade assinalável, em especial quando em Portugal estamos sujeitos a Sócrates (por mais que ele tente colar-se ao estilo Obama) e a Ferreira Leite.



publicado por José António Abreu às 18:09
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