como sobreviver submerso.

Segunda-feira, 27 de Março de 2017
Trumps nacionais
Catarina Martins propõe saída do euro.

 

Evidentemente, e não obstante a demagogia com que abordam estes assuntos ser igualzinha à do presidente norte-americano ou de Marine Le Pen (podiam ou não ser declarações de Catarina Martins?), ninguém os classifica como tal - afinal são simpáticos para os imigrantes e nem chamam terroristas aos terroristas. Por cá, raros se atrevem sequer a afirmar serem precisamente as políticas da Geringonça a empurrar o país para uma situação de insustentabilidade - e os que o fazem são corridos a acusações de ressabiamento e derrotismo. Todos sabem, porém, que ao nível da dívida pública e respectivas taxas de juro o último ano e meio poderia ter sido muito diferente, abrindo perspectivas mais optimistas para um futuro sem (tanta) ajuda por parte do BCE. António Costa, por exemplo, sabe-o perfeitamente. Os pedidos, cada vez menos subtis, para mudanças de política ao nível da União Europeia (o que representa a sanha contra Dijsselbloem senão uma tentativa para facilitar a abordagem de pontos como a mutualização e a renegociação?) constituem reconhecimento cabal de que também ele acha a dívida insustentável - sem que isso o impeça de continuar alegremente a aumentá-la (perdido por cem, dir-se-á...). Talvez um dia fique demonstrado que Costa, a mais frontal Catarina (e o mais «ortodoxo» Jerónimo) estavam certos. Mas quando alguém tem o poder para fazer cumprir uma profecia, e faz quase tudo nesse sentido, não admira que ela se concretize. Infelizmente, esse dia, como é habitual nas vitórias do populismo, não ficará para a história como um dia feliz.


publicado por José António Abreu às 16:58
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016
Coisas, pessoas, fronteiras

Ontem à noite, na SIC Notícias, Mariana Mortágua - estrela da «geringonça», ideóloga em formação - recusava comparações entre o proteccionismo do Bloco e o proteccionismo de Donald Trump. Explicava ela, com trejeitos de nojo, que Trump quer fechar fronteiras às pessoas enquanto o Bloco defende um mundo onde estas possam movimentar-se livremente. O proteccionismo do Bloco, a sua recusa da «globalização», aplica-se apenas à circulação de produtos e destina-se a proteger e a «dignificar» a produção local contra as «grandes multinacionais». Como de costume, a verve resulta ligeiramente encantatória - desde que não se reflicta muito sobre o assunto. Não parece ocorrer a Mortágua que várias das economias com maior crescimento nas últimas décadas, aquelas onde mais gente saiu da pobreza, dependem precisamente das exportações. Não parece ocorrer-lhe que fechar as fronteiras aos produtos originados nesses países (sejam de índole industrial, sejam de índole agrícola ou pecuária), representaria desemprego e regresso à pobreza. Não parece ocorrer-lhe que a pobreza reforçaria os fluxos de migração, nem que o excesso de imigração gera tensões sociais, custos para o erário público e fenómenos populistas como Trump, o Brexit ou Marine Le Pen. Ou então ela sabe-o perfeitamente - afinal, dizem-na inteligente - e, tal como os seus colegas do Bloco, é apenas muito mais revolucionária do que tenta parecer.



publicado por José António Abreu às 15:39
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016
Da dependência como estratégia política

O governo e a sua maioria parlamentar todos os dias maldizem a UE, mas dependem totalmente da Comissão Europeia e do BCE, e nada fazem para diminuir essa dependência. É este o mecanismo da dependência em Portugal: quanto maior a dependência da população em relação ao Estado, maior a dependência do Estado em relação às instituições europeias.

(...)

Não é possível imaginar a liberdade política sem cidadãos independentes e uma sociedade civil forte. Mas o açambarcamento de recursos pelo Estado reduziu a independência da classe média a um ideal sem futuro. Só os juros e o petróleo baratos compensam, por enquanto, o assalto fiscal. Se acrescentarmos a isso o enfraquecimento das grandes instituições tradicionalmente autónomas (Forças Armadas, Universidade, Igreja), ou a descapitalização das empresas, a conclusão é óbvia: o único freio e contrapeso dos governos em Portugal já não está dentro do país, mas fora. Só a Comissão Europeia e o BCE, na medida em que condicionam o financiamento do Estado, limitam neste momento o poder governamental sobre uma sociedade cada vez mais envelhecida, empobrecida e dependente. E é por isso que tudo isto, tanto como um problema económico, é um problema político.

Rui Ramos, no Observador.

 

É por isto que o PCP acaba por ser o membro mais honesto da «geringonça»: não esconde a aversão à União Europeia e ao euro. Os comunistas sabem que a utilização da dependência como estratégia política funciona durante pouco tempo num sistema em que não se controla a impressão de dinheiro e no qual as crises de financiamento obrigam a cortes de rendimento que a inflação não disfarça, bem como à venda de empresas públicas a grupos privados (para mais, quase sempre estrangeiros, dado os nacionais irem ficando sem capacidade financeira). A União Europeia é pois um travão ao caminho para a sociedade integralmente subjugada aos interesses do Estado que os comunistas desejam, ignorando estoicamente nunca ter sido possível implementá-la em grande escala e com sucesso em lugar algum, e também que todas as tentativas realizadas levaram à pobreza e à opressão (mas os pobres são menos exigentes e mais fáceis de controlar por qualquer Estado).

Já o PS e a facção que controla o BE pretendem algo ligeiramente diferente: uma sociedade de dependentes, sim, mas com ilusões de cosmopolitismo que exigem um nível de vida razoável. (No PS muita gente sabe que o modelo do PCP é uma aberração e no Bloco, paradigma da esquerda 'intelectual' e caviar, predomina a retórica - e, sendo caridoso, o voluntarismo - sobre qualquer modelo real.) Para conseguir - ou, mais precisamente, para manter - esta sociedade de dependentes do Estado apenas moderadamente infelizes, socialistas e bloquistas dispõem-se a suportar actos de subserviência regulares perante os parceiros da União Europeia, aceitando reprimendas e jurando intenções de mudança que nunca concretizam na totalidade. (O BE tem aqui uma vantagem competitiva: estando - ao contrário do Syriza - fora do governo, até pode manter o discurso enquanto engole pequenos sapos.) Claro que ciclicamente a situação fica insustentável - o dinheiro acaba e é necessário tomar medidas duras em troca de mais. Mas é nestes momentos que os partidos de centro-direita (cuja existência o PCP tolera mal) revelam a sua utilidade. Num país de dependentes do Estado, serão sempre - e apenas - a brigada de limpeza. PS e BE sabem-no. Quanto ao PCP, neste tema muito menos hipócrita, espera a sua grande oportunidade - a saída de Portugal da União Europeia.



publicado por José António Abreu às 16:59
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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016
Bingo

O governo e a sua maioria têm sido acusados de dar com uma mão e tirar com a outra, mas o que importa nessa ginástica não é quanto ganham as pessoas, mas que ganhem por vontade do poder político: o rendimento de cada cidadão não deve depender do seu esforço, mas da sua relação com o governo. O PS, PCP e BE nada têm contra quem ganha muito, desde que ganhe muito no Estado ou através do Estado. Banqueiros e empresários disponíveis para “parcerias” nunca terão dificuldades.

Rui Ramos, no Observador.


publicado por José António Abreu às 12:37
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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016
Uma correcção, com as minhas desculpas
O meu textozito sobre a transferência do pagamento de benefícios sociais para as empresas recebeu meia dúzia de críticas (e um destaque imerecido no Blasfémias). Inverosímil, escreveram alguns. Simplista, anexaram outros. Ainda que eu tenha procurado aspergi-lo com umas gotas de sarcasmo e que António Costa pareça estar mesmo disponível para fazer a EDP assegurar os custos da tarifa social, devo admitir que as críticas não são totalmente descabidas. Como se comprova em vários países-modelo do PCP, do Bloco e dos sectores que hoje dominam o PS, o trajecto mais habitual para a indigência económico-social passa antes por fixação administrativa de preços, prateleiras vazias e racionamento.


publicado por José António Abreu às 10:19
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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016
O início da era pós-impostos
O BE quer alargar a aplicação da tarifa social de energia, que neste momento beneficia cerca de 120 mil pessoas. A ideia é dar acesso automático à tarifa social a todos os beneficiários do abono de família do 1º e 2º escalões, complemento social de idosos, pensão social de invalidez ou de velhice, subsidio social de desemprego e rendimento social de inserção. O partido liderado por Catarina Martins propõe ainda que os custos desta tarifa passem a ser integralmente suportados pela EDP Produção, deixando de onerar o Estado em cerca de seis milhões de euros.

 

Há um momento na descida para a paralisia económica em que ao Estado já não basta cobrar impostos. A solução? Colocar empresas privadas a garantir o pagamento de benefícios sociais. Como a mentalidade da «verdadeira esquerda» (Bloco, PCP, actual PS) exclui o conceito de relação causa-efeito, fazê-lo não implica obrigar essas empresas a distribuir os custos da medida por todos os seus clientes ainda não suficientemente pobres para terem eles mesmos direito aos benefícios mas apenas diminuir-lhes o nível «obsceno» de lucros (é sabido: para a esquerda, uma empresa privada ou tem lucros obscenos ou gestão criminosa). Começa-se pela EDP, entidade fornecedora de um bem que muitos, consciente ou inconscientemente, acham que devia ser gratuito (ei, a electricidade é uma espécie de download, certo?) e que todos apreciam odiar. E abre-se caminho para ir mais longe. Para, sei lá, tornar obrigação do Continente, do Pingo Doce e do Lidl a distribuição mensal de cento e tal mil cabazes de compras; para tornar obrigação da Galp, da BP e da Repsol a oferta mensal do combustível correspondente a cento e tal mil depósitos; para tornar obrigação da McDonald's, da Pizza Hut e da H3 a entrega mensal de dez (ou talvez quinze) vezes cento e tal mil menus; para tornar obrigação da Fidelidade, da Tranquilidade e da Allianz a subscrição anual de cento e tal mil apólices de seguro; para tornar obrigação da MEO, da NOS e da Vodafone a disponibilização de cento e tal mil pacotes de telemóvel, televisão e internet (sem período de fidelização); para tornar obrigação da Zara, da Cortefiel e da H&M o fornecimento de cento e tal mil vales de trezentos euros em roupa e calçado (bastará por estação, que os beneficiários da medida não pertencem à esquerda-caviar); para tornar obrigação da Mota-Engil, da Teixeira Duarte e da Soares da Costa a construção e oferta de cento e tal mil habitações (mantenhamos os pés na terra e digamos em cinco anos). Ou, melhor ainda, por que não obrigar que todas as empresas privadas desviem cinco (e, mais tarde, dez) por cento da facturação para apoios que o Estado, gordo e deficitário (pudera), será cada vez mais incapaz de providenciar?

O maravilhoso país que emergirá de toda esta consciência social é, evidentemente, um país sem competitividade mas também sem empresas privadas. No fundo - e aqui se encontra afinal uma relação de causa-efeito bem delineada -, o sonho da esquerda.



publicado por José António Abreu às 17:03
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016
Olá, Mariana; não, podes roçar o cotovelo à vontade

«É uma decisão que envergonha o Tribunal Constitucional, os deputados que a exigiram, que degrada a nossa democracia. Eu repudio esta decisão e não me conformarei com ela.»

«Envenenada, mesquinha, inconsistente, vergonhosa - a decisão do Tribunal Constitucional sobre as pensões dos titulares políticos.»

 

Durante os últimos anos manifestei desagrado por muitas decisões do Tribunal Constitucional, várias das quais relacionadas com «direitos adquiridos». Nessa linha, gostaria de o voltar a fazer a propósito da que garante subvenções vitalícias a governantes, deputados e - cof, cof - juízes do TC que tiveram a sorte de exercer os seus cargos antes de 2005. Mas estranho ver elementos do Bloco de Esquerda, para quem ainda há poucos meses a mais leve crítica à Constituição ou ao TC configurava um atentado à democracia, ao meu lado.


publicado por José António Abreu às 20:40
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2015
Isto é tudo um... er... huh... raios partam a minha moral burguesa!
Com Garcia Pereira ocupado na elaboração da autocrítica, o mítico Arnaldo Matos faz prova de vida, atacando pela esquerda os «revisionistas» do PC e as «meninas oportunistas» do Bloco.

São momentos sublimes e inesquecíveis. Obrigado, António Costa.



publicado por José António Abreu às 16:11
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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2015
A aposta estúpida do PS e a aposta natural do BE
O desvelo dos socialistas nacionais para com a vitória do Syriza não configura apenas oportunismo mas também um erro monumental. Se a Grécia entrar em colapso ou tiver que recuar nas políticas anti-austeridade, nem os favores de que continua a gozar na comunicação social serão suficientes para disfarçar a perda de credibilidade de António Costa. (Ironia assinalável: a fuga de capitais dos bancos gregos mostra que existe por lá bastante gente menos crédula do que os socialistas portugueses.) Mas se o governo de Tsipras conseguir forçar uma mudança de rumo na União Europeia, então o PS tornar-se-á irrelevante porque outro partido apresenta uma relação com o Syriza e com as políticas que este defende muito mais antiga, forte e credível - e, ainda por cima, não está sobrecarregado com o peso da governação Sócrates nem com a imagem de abuso do poder para negócios pouco claros que hoje persegue os partidos do «arco governativo». O Bloco de Esquerda pode encontrar-se em processo de implosão mas, se o Syriza levar a Grécia a atingir aquilo a que Rui Ramos chama, muito adequadamente, «essa coisa curiosa: uma “independência” que depende inteiramente do dinheiro dos outros», até eu ponderarei seriamente votar nele.


publicado por José António Abreu às 11:16
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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014
Sugestão para novo símbolo do Bloco de Esquerda

Hydra 002.jpg

Embora - e de forma a prevenir futuros desenvolvimentos - talvez seja preferível optarem pela versão com as sete cabeças bem visíveis.



publicado por José António Abreu às 10:23
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Domingo, 23 de Novembro de 2014
Que tal avançarem para a primeira liderança tricéfala?
Catarina Martins, João Semedo e Pedro Filipe Soares empatam na eleição de delegados para a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda.


publicado por José António Abreu às 14:09
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Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
Newsflash: Bloco de Esquerda suaviza posição
Depois de muitos meses a exigir a demissão do governo, exigiu hoje apenas a demissão do Ministro da Educação.


publicado por José António Abreu às 18:19
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2013
Confluência, confronto com a realidade, conflito
Mário Soares acha possível «um entendimento bastante grande» entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda. Por uma vez, concordo com ele. A deriva do PS para a esquerda, adoptando posições cada vez mais parecidas com as do Bloco, pode permiti-lo. O problema seria após formarem governo, quando o realismo voltasse a entrar no Largo do Rato. O realismo que forçou o mestre da fantasia que o liderou antes a apresentar, de mão estendida em Bruxelas, PEC após PEC com medidas de austeridade. O realismo que leva Hollande a nada de essencial ter mudado em França desde que foi eleito. O realismo que o pessoal do BE adoraria.


publicado por José António Abreu às 09:54
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Terça-feira, 17 de Maio de 2011
Duas notas rápidas sobre o Bloco de Esquerda

No debate desta noite, com Pedro Passos Coelho, Francisco Louçã atacou o PSD, ignorando quase sempre o PS. Não percebo porquê. O Bloco não disputa eleitorado com o PSD. Disputa-o (e disputa-o ferozmente) com o PS. Jerónimo de Sousa, que tem as mesmas preocupações, mostra um imenso cuidado em abranger PS e PSD na maioria das críticas que faz. De os tentar tornar quase iguais. Louçã escolheu atacar apenas o PSD. Sócrates agradece.

 

Se o Bloco tiver um mau resultado, a liderança de Louçã poderá ficar em risco. Mas, sem Louçã, o Bloco afundar-se-á ainda mais depressa. A menos, talvez, que Miguel Portas (teria uma certa piada, assistir a um frente-a-frente entre os dois irmãos) ou, eventualmente, Rui Tavares avancem para a liderança.



publicado por José António Abreu às 23:00
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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
As tácticas de guerrilha do Bloco de Esquerda e o auxílio deste a Sócrates

A  queda deste governo é, para mim, uma prioridade. Mas isto não significa que pense que o PSD deva votar favoravelmente a moção de censura anunciada pelo Bloco de Esquerda. Toda a gente já percebeu, até porque o sorridente Pureza se apressou a avisar que a moção também tem por alvo o PSD, que o pessoal do Bloco não deseja verdadeiramente derrubar o governo. Pretendeu apenas antecipar-se ao PC e entalar o PSD. Precisamente o tipo de jogos calculistas e hipócritas que os bloquistas costumam criticar nos outros. Mas o PSD não deve hesitar por causa de um pormenor como este. Nem por considerações tácticas, como preferir evitar assumir a governação antes de Sócrates ser forçado a tomar todas as medidas impopulares e não apenas algumas. A razão é outra. Mal ou bem, o PSD deu uma última hipótese ao governo ao viabilizar a aprovação do orçamento. Instou-o a provar que, contra todos os indícios acumulados ao longo de 2010 (e, na verdade, dos anos anteriores), consegue resolver a situação. Ora é demasiado cedo para avaliar se o governo aproveitou a oportunidade: o país ainda não teve de recorrer a ajuda externa (apesar dos métodos para conseguir financiamento estarem a roçar o crime, de tão onerosos que são para as contas públicas) e ainda não estão disponíveis quaisquer números sobre a execução orçamental de 2011. Derrubar o governo agora seria arriscar a incompreensão de milhares de portugueses, devidamente alimentada por Sócrates. Para mais, a incerteza não durará. Dentro de dois ou três meses poderemos avaliar pelo menos um destes pontos, e provavelmente ambos: Abril e Maio são meses cruciais no que respeita às necessidades de financiamento e também por essa altura conhecer-se-ão os dados referentes à execução orçamental no primeiro trimestre. Se os resultados forem negativos (isto é, se entretanto o governo for incapaz de conseguir financiamento e tiver de recorrer a auxílio externo, ou se a execução orçamental for má), o PSD terá então todas os motivos para censurar o governo. E os portugueses para compreenderem a atitude. Se isto vier a acontecer, a moção do Bloco assumirá então todos os seus contornos: permitirá que Sócrates acuse o PSD de inconstância, de votar de uma forma em Março e de outra em Maio, de se entregar a manobras calculistas em vez de pensar nos «interesses do país» (para o qual, segundo ele, a estabilidade continuará a ser decisiva). Vozes no PS acusam com frequência Bloco e PC de não passarem de partidos contestatários, indisponíveis para apoiar as políticas do governo. Após esta moção, e pelo menos em relação ao Bloco, a acusação torna-se bastante injusta.



publicado por José António Abreu às 23:38
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Ao lado do centro

No União de Facto, Bernardo Pires de Lima escreveu após o debate televisivo entre José Sócrates e Paulo Portas que, num país normal, aquele teria sido o debate entre os líderes dos dois maiores partidos. É verdade. As diferenças ideológicas entre o PSD e o PS são ténues. Ao longo de décadas, os portugueses pareceram gostar disso e nem o CDS se atreveu a apresentar ideias muito diferentes (houve até uma altura em que o CDS se assumiu como o partido da "equidistância", um conceito absurdo quando se olha para o beco estreito que são as diferenças entre PSD e PS). Nestas eleições, os partidos fora do que Paulo Portas gosta de chamar “o centrão” usaram uma estratégia diferente. A crise financeira animou uma esquerda já antes bastante ideológica: o Bloco e o Partido Comunista não se coibiram de falar em nacionalizações e em taxar tudo e mais alguma coisa (não sei se inventámos a máquina do tempo e recuámos umas décadas, se a máquina do teletransporte e fazemos agora parte da América Latina). Mas também o CDS arriscou discutir assuntos como o papel do Estado em sectores como a educação e a saúde, as prioridades nas prestações sociais, a colocação de portagens nas SCUTs ou a política de impostos. Ao mesmo tempo, Bloco e CDS assumiram, na pose e no discurso, uma ambição cada vez maior. É verdade que, como Pacheco Pereira dizia há semanas num debate na RTP-N, todos os partidos querem os votos todos mas, num país conformista, anestesiado e avesso ao risco, costumava ter-se a sensação de que os dois maiores tinham mais de 70% dos eleitores presos num redil. No domingo passado descobriu-se que menos de 66% lá permanecem. Sendo improvável que o país caminhe da depressão para a felicidade antes que se verifique a necessidade de novas eleições, tenderão PSD e PS a reforçar componentes ideológicas (assumindo que o albergue espanhol em que se tornaram o permite), deslizando o primeiro para a direita e o segundo para a esquerda (como o PS fez nos últimos meses e em especial durante a campanha, num esforço desesperado e instrumental para esvaziar o BE), ou continuarão a procurar agradar a gregos e troianos, correndo o risco de verem os partidos mais pequenos aumentarem pelo voto dos que, por crescente desilusão, se forem deixando convencer da necessidade de políticas mais definidas? É claro que o crescimento do CDS e do BE vai também depender do que cada um fizer nos próximos tempos. E aqui a posição do BE é mais fácil. Não tem deputados para formar maioria com o PS e está livre para prosseguir o seu caminho de contestação e capitalização do descontentamento. Contudo, baseia-se numa ideologia que pode ser facilmente desmontada como irrealista e catastrófica para a economia (Portugal, talvez por estar tão longe dos países que ficaram do lado errado da "Cortina de Ferro", é o único país da Europa Ocidental onde quase 20% dos eleitores ainda acreditam no comunismo), e disputa votantes com um partido que sabe excepcionalmente bem fingir-se mais de esquerda ou mais de direita, consoante as conveniências. Já o CDS tem um delicado balanço pela frente. Por um lado, não deve adoptar a mesma estratégia destrutiva (muitos dos que votaram nele não o entenderiam); por outro, não pode de forma alguma transmitir a sensação de que está a ceder perante o PS (muito mais votantes se sentiriam traídos). Tem ainda que levar em conta o posicionamento do PSD depois da previsível mudança de liderança mas dificilmente o PSD se permitirá "assustar" os eleitores do centro virando demasiado à direita (o PSD está obrigado a um balanço ainda mais difícil e só a máquina partidária, a força autárquica, o "clubismo" de alguns eleitores e o voto "útil" lhe garantem resultados pelo menos honrosos). Para o CDS ter esperanças de continuar a crescer necessita de munir-se de muita paciência (não costumava ser o ponto forte de Paulo Portas), fazer uma oposição firme mas bem fundamentada e explicar todas as posições que tomar. E aguardar que, à medida que a situação do país se agravar (é duro ter de escrever isto mas não creio que, mesmo com o final da crise internacional e com os megalómanos projectos de obras públicas, a situação económica vá melhorar nos próximos tempos), mais e mais pessoas comecem a não aceitar respostas em meias tintas e, apesar de todas as fidelidades que o peso do Estado e da resignação consegue comprar, ponderem outros sentidos de voto que não no PS ou no PSD. A incapacidade que ambos têm revelado para reformar o Estado em vez de se servirem dele pode começar finalmente a custar-lhes caro. Em especial ao PSD, empenhado na sua ideologia esquizofrénica de tentar a quadratura do círculo (ou achavam que o título do programa do Pacheco Pereira tinha sido escolhido apenas por ser uma expressão bonita?).



publicado por José António Abreu às 13:00
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Terça-feira, 22 de Setembro de 2009
És mesmo lésbica ou do Bloco de Esquerda?

The Library. Deb is seated, working. Dan cruises her and so on.

Danny: Hi.
Deborah: Hello.
Danny: I saw you at the Art Institute.
Deborah: Uh huh.
Danny: I remembered your hair.
Deborah: Hair memory.
Danny: You were in the Impressionists room. Pause. Monet. Pause.
Deborah: Uh huh.
Danny: You’re very attractive. I like the way you look. Pause. You were drawing in charcoal. It was nice. Pause. Are you a student at the Art Institute?
Deborah: No, I work.
Danny: Work, huh?... Work. Pause. I bet you’re good at it. Pause. Is someone taking up a lot of your time these days?
Deborah: You mean a man?
Danny: Yes, a man.
Deborah: I’m a Lesbian. Pause.

Danny: As a physical preference, or from political beliefs?

David Mamet, Sexual Perversity in Chicago



publicado por José António Abreu às 21:28
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
A visão do Bloco de Esquerda

No debate de ontem entre José Sócrates e Francisco Louçã discutiu-se novamente política. Aleluia. O fim dos benefícios fiscais, defendido pelo Bloco de Esquerda, faz toda a lógica dentro do sistema político-social defendido pelo Bloco. Se o Estado fornecer tudo ‘gratuitamente’ e não aceitar o papel de concorrência e complementaridade que a iniciativa privada pode desempenhar, os benefícios fiscais são desnecessários. É uma visão soviética da realidade. Um sistema em que não há alternativa a um Estado pesado e programático que lentamente (e estou a ser simpático) resvala para a complacência, para a injustiça e para a insustentabilidade. Um sistema em que os cidadãos não têm margem para iniciativa e se acomodam à mediocridade. Sócrates teve o mérito de puxar a ponta do fio que mostra como os rapazes e as raparigas do Bloco, apresentados tantas vezes como modernos e cheios de estilo, têm na realidade ideias antigas e ultrapassadas. Já ter ficado preso na questão do “ataque à classe média” que representaria o fim dos benefícios e não desmontar essa ideia de sociedade é um indício da tendência que Sócrates tem para se agarrar ao soundbyte (ninguém o faz melhor que ele) e da crença (não só dele) de que, na nossa sociedade, discutir convenientemente os assuntos aborrece os eleitores.

 

Já agora, outro momento esclarecedor ocorreu quando Judite de Sousa, em desespero, guinchou: «Mas afinal quem é que está aqui a mentir?» Quando aquela que é reputada como uma das melhores jornalistas televisivas portuguesas (na verdade, não se sabe bem porquê) é incapaz de perceber a diferença entre mentira e visões distintas da sociedade, algo vai realmente muito mal.



publicado por José António Abreu às 08:38
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Domingo, 31 de Maio de 2009
Façam um teste cego a Miguel Portas.

Miguel Portas anda mesmo a decaír na minha consideração. Afirmou agora que as elites do PS e do PSD são como a Pepsi e a Coca-Cola: diferentes sem que se note. Isto é duplamente falso: a Coca-Cola é muito melhor que a Pepsi e isso nota-se até de olhos fechados (de olhos abertos e sem provar parecem efectivamente iguais); as elites do PS e do PSD são iguais, não diferentes, e isso nota-se perfeitamente.

 

Quem é que pode acreditar nestes políticos se nem sabem o básico?

 

 

Post Sciptum: não se aceitam comentários a elogiar a Pepsi. Não sou suficientemente democrático para isso. Elogiar o BE parecer-me-á estranho mas é permitido.



publicado por José António Abreu às 01:05
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Terça-feira, 26 de Maio de 2009
O BE e o outro Portas.

Não sou fã do Bloco de Esquerda. Considero que o moralismo asfixiante, a demagogia intensa (raramente classificada como tal pela comunicação social lusa), e os conceitos económicos potencialmente catastróficos (antes das eleições legislativas de 2005 dei-me ao trabalho de ler o programa eleitoral bloquista e fiquei aterrado) são razões mais que suficientes para não apreciar a dita agremiação. Mas tenho alguma consideração por Miguel Portas. Talvez por ser viajado, por parecer sereno e infinitamente mais ponderado que Louçã, ou apenas porque me deliciavam as suas longas caminhadas em direcção à câmara na série televisiva que apresentou. Todavia, esta campanha ameaça estilhaçar a boa imagem que tenho dele. A proposta de autorizar o voto a maiores de 16 anos é de tal forma típica de uma esquerda Rousseauniana que quase me extrai um sorriso. Mas há também uma componente de interesse (pouco, no Bloco como noutros partidos, é inocente): os senhores e as senhoras bloquistas (já é altura de deixarmos de tratar cinquentões como o Louçã como se fossem adolescentes, não?) sabem que a juventude os grama à brava. Afinal, defendem ideias simpáticas para quem quer, acima de tudo, sexo, drogas e rock 'n' roll. Baixar a idade de voto poderia render-lhes mais uns votos significativos. Como complemento para a proposta, desde já sugiro ao BE que exija distribuição gratuita de cremes contra o acne nas escolas secundárias.



publicado por José António Abreu às 13:47
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dentro do escafandro.
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