como sobreviver submerso.
Sábado, 23 de Dezembro de 2017
O Fim do Pai Natal (conto revolucionário infantil não aconselhável a crianças)

 

Capítulo 2

Contestação

 

Nessa noite, o Pai Natal percorreu devagar os menos de cem metros que separavam a fábrica de brinquedos da sua casa. Estava muito preocupado. Sentia necessidade de conversar com alguém e ponderou contornar a casa e ir ter com Rodolfo ao cercado das renas. Mas acabou por entrar, deparando com a Mãe Natal a costurar mais um gorro vermelho com uma borla branca. Todos os anos obrigava o marido a levar pelo menos duas dúzias de gorros no trenó. Dizia-lhe: «Não faz mal levares a mais, faz mal é levares a menos. Já sabes que o vento te arranca sempre alguns da cabeça e que perdes mais uns quantos a descer pelas chaminés. E também sabes que, sem a cabeça protegida, te constipas imediatamente. Não queres passar outra Passagem de Ano na cama, pois não?» Ela tinha razão, mas o Pai Natal detestava vê-la fazer os gorros porque não conseguia deixar de se sentir uma criança pequena e irresponsável, que era preciso proteger.

Sentou-se ao lado dela e contou-lhe o que sucedera. A Mão Natal ouviu-o enquanto cosia a borla à ponta do gorro, e depois disse: «Não há-de ser assim tão grave.» Espetou a agulha numa almofadinha pequena que colocou dentro da caixa de costura e pousou o gorro no braço da cadeira. «O jantar é outra vez foca.»

 

Depressa começou a ficar evidente que a situação era grave. Nos cinco meses que passara no Pólo Norte, o duende barbudo conseguira arregimentar meia dúzia de duendes para as suas ideias. Falava-lhes dos direitos do proletariado (por vezes dizia «os direitos dos mais pequenos contra os grandes», o que, considerando o tamanho dos duendes, era uma forma duplamente traiçoeira de espicaçar os ânimos), da redistribuição da riqueza, do colocar o poder ao serviço do povo. O Pai Natal julgava ter sempre tratado os duendes com respeito. Desde logo, não haveria certamente muitas empresas no mundo que dessem emprego a tantas pessoas que, mesmo não o sendo, apresentavam características parecidas com as pessoas com deficiências de crescimento. Mas o duende barbudo – um tudo-nada baixo, mesmo para os padrões dos duendes, facto que, matutava por vezes o Pai Natal, talvez não se encontrasse totalmente desligado do fervor com que defendia as suas ideias políticas – dizia-lhes que reparassem como eram explorados; como, nas semanas anteriores ao Natal, as horas extraordinárias eram numerosas e mal pagas; como as refeições eram pouco variadas e nem sequer incluíam Coca-Cola, apesar do contrato chorudo que o Pai Natal tinha com a empresa; como não dispunham de seguro de saúde nem de plano de poupança para a reforma; como certas máquinas e utensílios – martelos, serrotes, baldes, pincéis – eram comprados sem levar em atenção o tamanho dos duendes. Enfim, enchia-lhes a cabeça com ideias que, para muitos ali no Pólo Norte, constituíam inteira novidade. E resultava. À noite, em casa, os casais de duendes discutiam-nas, olhando para os filhos pequenos – mesmo muito, muito pequenos -, deitados nos berços ou brincando no chão. Perguntavam-se o que aconteceria se o Natal passasse de moda ou o Pai Natal decidisse reformar-se. No dia seguinte, vinham ter com ele e exigiam escolas e universidades para os filhos e planos de poupança reforma para eles próprios.

Mas se os meses anteriores à conversa entre o Pai Natal e o duende barbudo haviam sido difíceis, tudo se complicou muito mais logo a seguir.

Três ou quatro dias após a conversa, o Pai Natal soube que o duende barbudo convocara uma reunião da comissão de trabalhadores e conseguira convencer a maioria dos duendes que faziam parte dela a exigir alterações na política da empresa. O Pai Natal não ficou surpreendido; o duende barbudo soubera rodear-se de gente que não lhe faria frente e na comissão de trabalhadores estavam apenas duendes facilmente influenciáveis e não muito espertos. A comissão exigiu uma reunião com o Pai Natal, mas esta até correu bem ao Pai Natal, que teve apenas de prometer estudar formas de aumentar ligeiramente («dentro dos prazos e do orçamento disponíveis») o número de brinquedos mais caros e distribuir esse acréscimo pelas crianças mais pobres. O duende barbudo não gostou nada do resultado da reunião e, nos dias seguintes, tratou de convencer toda a gente de que as promessas vagas do Pai Natal eram insuficientes. Uma semana depois, o Pai Natal recebeu um pré-aviso de greve. Ainda não se entrara no período de trabalho mais crítico do ano e o Pai Natal, depois de procurar nos livros o que era suposto dizer naquelas ocasiões (era inexperiente no assunto, uma vez que se tratava da primeira greve na história da fábrica de brinquedos do Pólo Norte), suportou a paragem com declarações de respeito pelos direitos dos trabalhadores. O problema é que a esta primeira greve seguiu-se outra, que até incluiu uma manifestação em frente à fábrica, com gritos de ordem e arremesso de pedaços de gelo e de bolas de neve (no Pólo Norte é difícil arranjar pedras). No dia seguinte, alguém fez explodir um pequeno armazém cheio de carros de bombeiros que haviam sobrado do ano anterior. O Pai Natal estava convencido de que o bombista fora o duende barbudo, mas não tinha provas. As opiniões extremaram-se e o Pai Natal tentou aproveitar as reticências de alguns duendes, que não aprovavam o uso da violência, mesmo que ela fosse apenas dirigida contra sobras de inventário. Não resultou. O duende barbudo foi-os convencendo de que o Pai Natal estava a ser hipócrita e quase todos acabaram do lado dele.

E depois veio o dia fatídico.

 

O capítulo 3 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 32 minutos.



publicado por José António Abreu às 10:56
link do post | comentar | favorito

dentro do escafandro.
pesquisar
 
Janeiro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


à tona

Imagens recolhidas pelas ...

Imagens recolhidas pelas ...

A caminho do futuro: 21

Três álbuns de música clá...

A alegria de saber que há...

2017 e o futuro radioso

Música recente (157)

O Fim do Pai Natal (conto...

Imagens recolhidas pelas ...

O Fim do Pai Natal (conto...

O Fim do Pai Natal (conto...

O Fim do Pai Natal (conto...

Música recente (156)

O tamanho do meu interess...

Música recente (155)

Diário semifictício de in...

Imagens recolhidas pelas ...

Jazz de 2017

O segundo melhor amigo do...

Música recente (154)

Diário semifictício de in...

Imagens recolhidas pelas ...

Música recente (153)

Diário semifictício de in...

Música recente (152)

Centeno, o Eurogrupo e um...

Imagens recolhidas pelas ...

Diário semifictício de in...

Música recente (151)

Música recente (150)

30 comentários
22 comentários
reservas de oxigénio
Clique na imagem, leia, assine e divulgue
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!
tags

actualidade

antónio costa

blogues

cães e gatos

cinema

crise

das formas e cores

desporto

diário semifictício

divagações

douro

economia

eleições

empresas

europa

ficção

fotografia

fotos

governo

grécia

homens

humor

imagens pelas ruas

literatura

livros

metafísica do ciberespaço

mulheres

música

música recente

notícias

paisagens bucólicas

política

porto

portugal

ps

sócrates

televisão

viagens

vida

vídeos

todas as tags

favoritos

(2) Personagens de Romanc...

O avençado mental

Uma cripta em Praga

Escada rolante, elevador,...

Bisontes

Furgoneta

Trovoadas

A minha paixão por uma se...

Amor e malas de senhora

O orgasmo lírico

condutas submersas
Fazer olhinhos
subscrever feeds