como sobreviver submerso.
Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (7)

Início da manhã, em Aveiro. O nevoeiro ia-se dissipando. O Sol estava quente mas ainda suave, intensificando de tal forma as cores que era como se quase tudo tivesse acabado de receber uma demão de tinta. Algumas pessoas passeavam os cães, os primeiros barcos com turistas ronronavam pela ria. Senti vontade de ficar sentado, a apreciar um daqueles momentos em que as cidades – algumas cidades – conseguem mostrar-se belas, pacíficas, acolhedoras.

Mas não podia - e o homem com quem me encontrei não estava satisfeito. Explicou-me que já por duas vezes tivera que adiar as férias. «Se não conseguir tirar a semana que vem, ainda dou em doido.»

«Vai para o Algarve?».

Disse que sim. Se conseguisse. «Nem é pela praia. Preciso é de variar.»

«Mas tem sorte», disse eu, apontando para o canal onde passava mais um barco. «Vive numa zona fantástica. Uma zona turística por excelência.»

Esboçou um sorriso. Disse: «Sim, é verdade.» Depois encolheu ligeiramente os ombros.

No regresso, pus-me a pensar que a habituação é uma coisa traiçoeira. Faz perder a capacidade de ver a beleza (e não apenas do local de residência; frequentemente, também das pessoas com quem se reside). Como tantos outros, ele precisa de mudar de sítio não para conhecer algo diferente (já terá estado no Algarve), nem para fazer algo de substancialmente diferente (deitar-se-á na praia e sentar-se-á em esplanadas, comerá gelados e beberá cervejas, lerá livros e consultará a internet no telemóvel), mas para fazer quase o mesmo, longe de casa.

Acredito que necessitamos de mudança. Mas dá-me ideia que normalmente apenas procuramos – e, por conseguinte, apenas obtemos - a ilusão de mudança. Ainda que, em vez de conduzir até ao Algarve, voemos para Cabo Verde, Cuba ou Istambul. (Há dias contavam-me a história de alguém que, temendo os assaltos, não saiu do carro alugado durante a visita a Nápoles.) Sem o sabermos, somos turistas acidentais, constantemente em busca do que nos é familiar (note to self: ler outro livro de Anne Tyler). Mas sabemos que alguma coisa está errada. Por isso tantas vezes apenas dizemos das férias que «já acabaram», e passamos o ano a renovar as ilusões.

 

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publicado por José António Abreu às 21:57
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