como sobreviver submerso.

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016
Mas afinal existe esse risco?
Centeno: Evitar novo resgate “é a minha principal tarefa".

Há momentos que separam os técnicos (por moldáveis que sejam) dos políticos. Mário Centeno poderia ter dito que falar de um novo resgate não faz sentido. Que a economia está bem e vai melhorar ainda mais; que o país se encontra no caminho certo; que, «virada a página da austeridade», Portugal é agora - e não antes - um caso de sucesso. António Costa tê-lo-ia feito, com a displicência a que tantos chamam «optimismo». Centeno fez diferente. Aceitou a hipótese como credível. E isto diz tudo sobre o que realmente pensa - ou, no mínimo, sobre os medos que o assaltam.

 

(Note-se que lampejos de sinceridade como este não o desculpam: destroçado o cenário no qual baseou a sua acção, continua no governo a fingir que tudo vai bem. Lampejos como este demonstram apenas que a maior diferença entre técnicos e políticos nos momentos em que se torna necessário manter uma ficção é - como também vimos no tempo de Sócrates e Teixeira dos Santos - a consistência.)



publicado por José António Abreu às 15:58
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016
Da dependência como estratégia política

O governo e a sua maioria parlamentar todos os dias maldizem a UE, mas dependem totalmente da Comissão Europeia e do BCE, e nada fazem para diminuir essa dependência. É este o mecanismo da dependência em Portugal: quanto maior a dependência da população em relação ao Estado, maior a dependência do Estado em relação às instituições europeias.

(...)

Não é possível imaginar a liberdade política sem cidadãos independentes e uma sociedade civil forte. Mas o açambarcamento de recursos pelo Estado reduziu a independência da classe média a um ideal sem futuro. Só os juros e o petróleo baratos compensam, por enquanto, o assalto fiscal. Se acrescentarmos a isso o enfraquecimento das grandes instituições tradicionalmente autónomas (Forças Armadas, Universidade, Igreja), ou a descapitalização das empresas, a conclusão é óbvia: o único freio e contrapeso dos governos em Portugal já não está dentro do país, mas fora. Só a Comissão Europeia e o BCE, na medida em que condicionam o financiamento do Estado, limitam neste momento o poder governamental sobre uma sociedade cada vez mais envelhecida, empobrecida e dependente. E é por isso que tudo isto, tanto como um problema económico, é um problema político.

Rui Ramos, no Observador.

 

É por isto que o PCP acaba por ser o membro mais honesto da «geringonça»: não esconde a aversão à União Europeia e ao euro. Os comunistas sabem que a utilização da dependência como estratégia política funciona durante pouco tempo num sistema em que não se controla a impressão de dinheiro e no qual as crises de financiamento obrigam a cortes de rendimento que a inflação não disfarça, bem como à venda de empresas públicas a grupos privados (para mais, quase sempre estrangeiros, dado os nacionais irem ficando sem capacidade financeira). A União Europeia é pois um travão ao caminho para a sociedade integralmente subjugada aos interesses do Estado que os comunistas desejam, ignorando estoicamente nunca ter sido possível implementá-la em grande escala e com sucesso em lugar algum, e também que todas as tentativas realizadas levaram à pobreza e à opressão (mas os pobres são menos exigentes e mais fáceis de controlar por qualquer Estado).

Já o PS e a facção que controla o BE pretendem algo ligeiramente diferente: uma sociedade de dependentes, sim, mas com ilusões de cosmopolitismo que exigem um nível de vida razoável. (No PS muita gente sabe que o modelo do PCP é uma aberração e no Bloco, paradigma da esquerda 'intelectual' e caviar, predomina a retórica - e, sendo caridoso, o voluntarismo - sobre qualquer modelo real.) Para conseguir - ou, mais precisamente, para manter - esta sociedade de dependentes do Estado apenas moderadamente infelizes, socialistas e bloquistas dispõem-se a suportar actos de subserviência regulares perante os parceiros da União Europeia, aceitando reprimendas e jurando intenções de mudança que nunca concretizam na totalidade. (O BE tem aqui uma vantagem competitiva: estando - ao contrário do Syriza - fora do governo, até pode manter o discurso enquanto engole pequenos sapos.) Claro que ciclicamente a situação fica insustentável - o dinheiro acaba e é necessário tomar medidas duras em troca de mais. Mas é nestes momentos que os partidos de centro-direita (cuja existência o PCP tolera mal) revelam a sua utilidade. Num país de dependentes do Estado, serão sempre - e apenas - a brigada de limpeza. PS e BE sabem-no. Quanto ao PCP, neste tema muito menos hipócrita, espera a sua grande oportunidade - a saída de Portugal da União Europeia.



publicado por José António Abreu às 16:59
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Sábado, 13 de Agosto de 2016
Critérios... er, jornalísticos?
Ontem, a RTP1 abriu o telejornal com os incêndios. Depois passou para os últimos dados do INE sobre a evolução da economia portuguesa. A TVI também abriu o noticiário das 20 horas com os incêndios. E depois também passou para os últimos dados do INE sobre a evolução da economia portuguesa. Por seu turno, a SIC abriu o noticiário com os incêndios. Depois fez intervalo. Depois continuou com os incêndios. Depois passou para a peregrinação a Fátima. Depois para um alcoolizado apanhado em contramão na A22. Depois para os protestos dos lesados do BES. Depois para os Jogos Olímpicos. Depois para a abertura do campeonato nacional de futebol. Depois para a presença de Paulo Bento no Olympiakos. Depois para reportagens turísticas em São Miguel e no Porto. Depois para o Festival Sol da Caparica. Depois para a previsão meteorológica. E depois Rodrigues Guedes de Carvalho desejou-nos boa noite e bom fim-de-semana.


publicado por José António Abreu às 10:41
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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016
Dívida e crescimento económico em tempos de «geringonça»
Não obstante a austeridade ter acabado e já não ser preciso compensar um défice de 10% através das tranches dos empréstimos da Troika, a UTAO estima que a dívida pública tenha subido para 131,6% do PIB. Ressalva, porém, a existência de factores que poderão fazê-la aproximar-se do valor previsto pelo governo para o final do ano (124,8%): a amortização da Obrigação de Tesouro com maturidade em outubro de 2016, e a utilização de depósitos da administração central para recompra de dívida pública e/ou amortização do empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI). Avisa depois que também existem riscos, entre os quais o de um crescimento económico abaixo do objectivo.

A UTAO quase tem razão. A areia na engrenagem é o último factor já não constituir um risco, mas uma certeza: basta analisar os números saídos hoje para o perceber. (Tsk, tsk, quem poderia alguma vez ter antecipado que a «geringonça» causaria uma quebra no investimento?) E, assim sendo, no final do ano, uma de duas: ou a dívida pública terá aumentado significativamente ou os tão polémicos «cofres cheios» de Maria Luís Albuquerque terão sofrido um grande rombo. Em condições normais, a escolha dependeria de uma análise aos efeitos mediáticos de cada opção (esvaziar os cofres talvez passasse despercebido). O governo, todavia, possui dois trunfos: a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e a eventual venda com prejuízo (ou não-venda) do Novo Banco. Qualquer destes acontecimentos será ouro sobre azul, permitindo não apenas disfarçar a parte da história do aumento da dívida que convém manter escondida como, ainda por cima, transferir responsabilidades para o governo anterior.

Sócrates e Teixeira dos Santos também o sabiam: os falhanços apenas são graves no momento em que já não é possível escondê-los.


publicado por José António Abreu às 17:04
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A esquerda dos direitos
Portugal arde. O ministro do Ambiente afirma que os valores de área ardida são inferiores aos de 2015. Portugal continua a arder. O primeiro-ministro manda dizer que interromperá as férias para se deslocar à Protecção Civil. Portugal arde cada vez mais. O governo parece sair finalmente do estupor veranil. O Funchal arde. O primeiro-ministro promete enviar 30 elementos para ajudar no combate às chamas, entre bombeiros, polícias e elementos da protecção civil. Depois aumenta a oferta para 110. Ainda assim, Portugal continua a arder. Várias pessoas morrem. O governo pede ajuda aos parceiros europeus. Espanha envia dois aviões. A ministra da Administração Interna mostra-se insatisfeita com a resposta europeia ao pedido de ajuda. O primeiro-ministro diz que a União Europeia tem que ter noção de que é necessário um reforço de meios. Um representante da União Europeia lembra que os meios são limitados, pertencem aos países-membros e que vários destes também enfrentam incêndios (França, por exemplo) ou encontram-se em situação de risco elevado. Entretanto, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista vão discretamente exprimindo preocupação e - pasme-se - impotência.

A «geringonça» transformou Portugal num dos paradigmas da esquerda actual. Só existem direitos. O direito a receber ajuda imediata e sem condições (seja ela financeira ou material); o direito a violar as regras; o direito a manter políticas que os parceiros europeus consideram erradas; o direito a fazer o que, soberanamente, muito bem se entender. Para os outros, ficam os deveres.



publicado por José António Abreu às 10:39
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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016
Trump e outros populismos

A maior tragédia da candidatura de Donald Trump seria a sua eleição. Felizmente, tal começa a parecer improvável.

A segunda maior tragédia da candidatura de Donald Trump - como, de resto, da maioria dos populismos, sejam estes de direita ou de esquerda - é distorcer o debate, afastando-o dos temas e das soluções que verdadeiramente importaria discutir.

As políticas de Barack Obama, que Hillary Clinton prosseguirá, são passíveis de inúmeras críticas: o aumento exponencial da dívida, a que correspondeu apenas um crescimento tímido da Economia; os riscos gerados pela política financeira, de - não obstante a retórica em contrário - apoio a Wall Street; a estagnação dos níveis salariais; o recrudescimento da violência racial; a tendência para o aumento de impostos; as hesitações e contradições da política externa. Seria fundamental que existisse uma oposição à altura, chamando a atenção para estas e outras questões (mas questões verdadeiras, não as que se baseiam em números inventados ou em sensações, como o putativo aumento da criminalidade) e avançando com propostas alternativas, concretas e viáveis. No mínimo, a discussão forçaria o Partido Democrata a clarificar e a refinar propostas. Nada disso está a acontecer. As frases ocas de Trump, a sua incoerência e a sua incapacidade para manter a discussão no plano das ideias (invariavelmente, e ao melhor estilo autocrático, ele responde a críticas de cariz político com descabelados - perdoe-se-me o trocadilho - ataques pessoais) deixa terreno aberto a Clinton para que possa ser eleita não apenas com relativa facilidade mas sem ver o seu programa devidamente escrutinado.

Isto é terrível para a democracia. Os populismos são perigosos por criarem realidades alternativas e fazerem muitas pessoas acreditar no impossível, mas também por (1) levarem os adversários a entrar por seu turno na baixa política dos ataques pessoais e das promessas irrealistas (ou, a prazo, prejudiciais), (2) diminuírem a extensão e qualidade do debate sobre o que verdadeiramente é possível fazer, e (3) queimarem pontes para compromissos futuros. Mesmo que os populistas não vençam as eleições, a conjugação destes factores aumenta a probabilidade de que sejam (ou continuem a ser) implementadas políticas erradas. E o resultado de políticas erradas é o aumento da insatisfação e dos populismos. O círculo vicioso perfeito. O círculo vicioso em que o Partido Republicano se deixou aprisionar. (A terceira maior tragédia da candidatura de Donald Trump é o modo como fragiliza o partido de Abraham Lincoln, ainda que - sejamos honestos - o processo tenha começado antes dela.) O círculo vicioso que, com ligeiras variantes, elegeu o Syriza, deu força ao Podemos, ao UKIP, à AfD e à Frente Nacional, destruiu o PASOK e ameaça o PSOE, e poderá vir a esvaziar ou a fragmentar o PS, se - e talvez fosse mais adequado escrever «quando» - o falhanço da demagogia em curso forçar uma crise.



publicado por José António Abreu às 15:42
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016
Notícias de um país desprovido de austeridade
Dívida pública aumentou mais de 8,5 mil milhões de euros no primeiro semestre.

 

Valor do IMI vai depender da exposição solar e da qualidade da vista.

Nota 1: Quem fará a avaliação? Um «especialista» em vistas? Um algoritmo informático programado por um nerd especialista em vistas? Uma empresa idónea de um ex-assessor do governo?

Nota 2: À atenção das universidades - cursos de «avaliação de vistas e exposição solar» poderão vir a ter muita procura.



publicado por José António Abreu às 17:14
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2016
Não há sanções

Não há desculpas.



publicado por José António Abreu às 20:49
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2016
Os coveiros da União Europeia
Com a realidade cada vez mais à porta, António Costa e demais «geringonceiros» intensificam os ataques à União Europeia. Não surpreende. Diogo Noivo explicou-o bem aqui: arranjar um inimigo externo para disfarçar incompetências internas (ou, no caso, um descarado assalto ao poder, da única forma que se encontrava disponível) é manobra clássica para cerrar fileiras e calar dissidências. Na União Europeia, usa-a neste momento a «geringonça» como antes a usou o governo do Syriza. (E como a usam partidos, de direita e de esquerda, sequiosos de formas simples de ganhar votos - programas consistentes dão trabalho, obrigam a fazer escolhas e são frequentemente incompatíveis com a ideologia professada.) Na sequência disto, apenas ingénuos podem admirar-se de que os sentimentos anti-UE cresçam um pouco por todo o lado. Afinal, como estranhar que a vontade de um alemão médio (ou holandês, ou austríaco, ou luxemburguês, ou finlandês, ou polaco, ou checo, ou eslovaco, ou letão, ou lituano, ou estónio, ou esloveno, ou sueco, ou dinamarquês, ou britânico, ou belga, ou até mesmo francês ou irlandês), informado de que a situação económica de certos países piorou devido à acção dos mesmos políticos que, com a aparente concordância dos seus cidadãos, lhe surgem nos ecrãs televisivos e nas páginas dos jornais a imputar todos os problemas à União Europeia, seja mandar estes gajos à merda?


publicado por José António Abreu às 10:03
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2016
Os amigos dos especuladores
Uma das muitas ironias ligadas à acção da «geringonça» é como tem vindo a ajudar os «especuladores» dos mercados financeiros. Para estes, dívida pública de países pertencentes à União Europeia (ainda uma excelente caução, noutra ironia assinalável em tempos de ataque feroz às suas regras e instituições) com taxas de juro de 3% constitui um óptimo investimento quando muitas outras rondam o zero. É verdade que o investimento só é bom enquanto Portugal for pagando e sabemos que, por vontade do Bloco e do PCP, Portugal não pagaria - mas nesse caso também não obteria mais dinheiro, o que talvez gerasse efeitos desagradáveis (diz-se que a fé move montanhas mas poderá não imprimir euros). Continuemos pois a aplicar políticas que fazem subir as taxas de juro. Cedo ou tarde, a bolsa dos portugueses ressentir-se-á, mas os «especuladores» agradecem.


publicado por José António Abreu às 12:09
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2016
Avalanche
Os crentes na política de estímulos monetários deveriam hoje sentir-se no paraíso. Aquilo que defendem anda a ser feito por todos os grandes blocos económicos, com bancos centrais e governos entretidos a manipular taxas de juros e moeda, num esforço cada vez mais desesperado para adiar a inevitável correcção, que apenas agrava os problemas dos vizinhos. Este artigo de Ambrose Evans-Pritchard, no The Telegraph, explica como a China, pendurada numa montanha de mau investimento, está a aproveitar o Brexit para violar garantias de estabilidade da moeda, amplificando tendências deflacionistas e criando cada vez mais dificuldades para a economia mundial.

No meio da loucura, meia dúzia de nações da União Europeia, com a Alemanha à cabeça, vêm tentando remar contra a maré. Fazem-no timidamente, é certo, até por estarem conscientes de que a correcção também os afectará. Ainda assim, são vilipendiadas todos os dias. Mas talvez haja lógica nisto: é sinal de estupidez procurar deter uma avalanche. Pelo menos tão grande quanto tentar surfá-la.



publicado por José António Abreu às 11:02
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Quinta-feira, 7 de Julho de 2016
Actualização de uma frase de 2014

A vida das pessoas ainda não está pior mas a do país está muito pior.



publicado por José António Abreu às 13:39
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Patriotismo cábula
Dizem por aí que o bom aluno era demasiado subserviente. Já o aluno cábula, esse, é um grande patriota. Com uma mentalidade destas, só temos aquilo que muito patrioticamente merecemos.

João Miguel Tavares, Público.



publicado por José António Abreu às 08:44
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016
The three desistentes
Dave "Não Sejas um Desistente", tendo sonhado o referendo como uma fantástica ideia para vencer umas eleições sem consequências a longo prazo, foi o primeiro a anunciar ter decidido que desistir não era afinal vergonhoso ou pouco britânico e até à vista. Boris Johnson, que conseguiu mudar a paisagem política em nome de uma campanha que lhe poderia beneficiar a carreira mas em que parecia não acreditar verdadeiramente, ficou tão devastado por o jogo ter dado certo que resolveu também não ser o homem certo para liderar o país.
Agora Nigel Farage, um homem cuja carreira política inteira consistiu em empurrar o Reino Unido para a independência, preferiria não fazer mais declarações públicas sobre o Brexit, muitóbrigado.
No fim de contas, ele apenas apoiou a ideia da independência. Por que deveria manter-se por perto e sujar as mãos com questões práticas? Trata-se do Partido para a Independência do Reino Unido, não do Partido para o que o Reino Unido Deve Fazer Depois da independência!

Holly Baxter, jornal Independent (a acumulação de ironias...). Tradução minha.

 

 

Nota: O título é uma espécie de homenagem a um filme de John Landis sobre três indivíduos um bocado pantomineiros.


publicado por José António Abreu às 10:19
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Terça-feira, 5 de Julho de 2016
Das eventuais sanções a Portugal
Considerando as estimulantes e mui coerentes políticas implementadas, a recusa maníaco-patriótica em - apesar de já nem Centeno acreditar nas próprias previsões - ouvir os alertas da Comissão Europeia, do Eurogrupo, do BCE, do FMI, da OCDE, do Conselho das Finanças Públicas, da UTAO e do Banco de Portugal (um tipo até fica sem fôlego...), e ainda as variadas e folclóricas encenações de ultraje prévio, que incluíram animosas resoluções parlamentares, é apenas justo reconhecer: com a inestimável ajuda de Catarina Martins, inventora de última hora da oh-tão-intimidante proposta de um referendo, o governo fez tudo o que podia para que elas sejam aplicadas.


publicado por José António Abreu às 09:39
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Segunda-feira, 4 de Julho de 2016
O passado glorioso e a UE como bode expiatório
Nem sempre foi assim. Apenas há 40 anos, a Grã-Bretanha era uma confusão. Enquanto adolescente, lembro-me de fazer os trabalhos de casa à luz da vela, durante os cortes de energia de 1972, da semana de 3 dias, das greves ininterruptas e da sensação generalizada de que a Grã-Bretanha era ingovernável. Era um país gasto e sujo; quando a minha mãe colocava roupa a secar em Peterborough, a fuligem das chaminés de tijolo sujava-a novamente. Havia racismo generalizado; "Paki-bashing" era um dos desportos favoritos dos rapazes. No final dos anos 70, mais pessoas estavam a sair da Grã-Bretanha do que a imigrar; a população de Londres caiu um quarto entre 1939 e o início da década de 1990.

Buttonwood, Another country, not my own. The Economist. (Tradução minha.)

 

O tempo causa distorções da memória. É um mecanismo de defesa compreensível: à medida que o futuro nos fica mais curto e as perspectivas de atingir tudo aquilo com que sonhámos diminuem, embelezamos o passado - algum momento tem que ter valido a pena. A Grã-Bretanha dos anos 70 (década de entrada na então CEE) era muito mais pobre e incomensuravelmente menos cosmopolita do que a Grã-Bretanha de hoje, não obstante as manifestações de xenofobia que vão chegando. E o mesmo se passa com Portugal: um atavismo antes de 1974 (*), uma barafunda depois dela, com duas bancarrotas em meia dúzia de anos, estradas estreitas e esburacadas, serviços públicos do século XIX e um nível indigente de protecção social. E, todavia, como na Grã-Bretanha («Reino Unido» ganhou subitamente uma conotação irónica), como em muitos outros países europeus, há quem acuse a União Europeia de contribuir para o empobrecimento da população; de originar problemas que, no essencial, têm quatro origens distintas: políticas internas erradas (que, por cá, a «geringonça» prossegue), a crise financeira de 2008, a evolução demográfica e a globalização. Faz sentido criticar a UE por ter reagido mal à crise financeira. Faz sentido criticá-la por não abraçar o proteccionismo em relação a outros blocos, se verdadeiramente se acredita que fazê-lo diminuiria os nossos problemas (pouca gente acreditará que, a nível global, o resultado fosse positivo). Não faz sentido lançar um olhar romântico sobre o passado e sustentar que a UE levou à degradação dos níveis de vida. Em países como a Grã-Bretanha, o mercado único trouxe benefícios enormes, ainda que eventualmente mal distribuídos pela população (mas esse era um problema da competência do governo britânico). Em países como Portugal, os níveis de vida quase só subiram por causa dos fundos comunitários e das taxas de juro a que a Zona Euro nos permitiu aceder. (E não, o euro não constitui o problema: a Venezuela está no limiar da bancarrota, apesar de ter moeda própria, e nós falimos duas vezes antes de o adoptar.) E também não faz sentido atacar a UE pelo facto de as suas instituições tentarem impor as regras que todos os países-membros aceitaram livremente e nas quais assenta o modelo que permitiu às suas nações mais ricas atingirem essa condição - o modelo que estabelece o equilíbrio orçamental e a competitividade do sector privado como base para o aumento da despesa pública. O que a «geringonça» vem fazendo em Portugal (e outros movimentos populistas defendem, em Espanha, na Grécia, em França, na Itália) não passa de uma tentativa para criar ilusões e alijar responsabilidades, de forma a manter (ou alcançar) o poder, que potencia fenómenos de rejeição de solidariedade nos países do Norte (o sentido de voto dos britânicos também expressou a recusa em ser contribuinte líquido da UE) e, pior ainda, forçará os portugueses (como forçou os gregos) a suportar mais um duro capítulo no ciclo aparentemente infindável em que períodos de estímulos errados, aos quais a economia reage cada vez menos, são seguidos por fases de correcção assentes em medidas cada vez mais duras. Pode bem acontecer que, mais tarde ou mais cedo, tudo isto leve à efectiva desagregação da União Europeia. E então cada país voltará a ter de viver com os próprios recursos. Estamos preparados para isso? (Ironia e paradoxo: estaremos tão melhor preparados quanto melhor seguirmos a estratégia da UE e, por conseguinte, quanto menor for o risco de saída.) Achamos mesmo que será melhor? Quando é que foi?

 

 

(*) Onde, apesar de tudo - e este tudo inclui uma guerra colonial -, o equilíbrio das contas públicas levou a alguma aproximação do nível de rendimento médio europeu.



publicado por José António Abreu às 08:20
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Sexta-feira, 1 de Julho de 2016
Afinal, House of Cards nasceu na Inglaterra
Os bastidores da luta pelo poder no Partido Conservador britânico. Ou como manobrar para levar o favorito (Boris Johnson) a ganhar o referendo e depois desistir.

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publicado por José António Abreu às 15:55
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Sábado, 25 de Junho de 2016
O crédito devido a Nigel Farage

Votou pela extinção do seu próprio posto de trabalho.



publicado por José António Abreu às 08:40
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2016
Uma pequena diferença entre conservadores e «progressistas»

Em 2016, com quatro meses de antecedência, o primeiro-ministro britânico convocou um referendo prometido dois anos antes. Perdeu, afirmou que respeitaria a decisão dos britânicos e demitiu-se.

Em 2015, com oito dias de antecedência, o primeiro-ministro grego convocou um referendo nunca antes anunciado. Ganhou, afirmou que respeitaria a decisão dos gregos, fez o oposto e manteve-se no cargo.



publicado por José António Abreu às 14:14
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Da saída da União do Reino (ainda) Unido

1. O sentido de voto de muitos britânicos terá sido determinado por factores secundários ou conjunturais. Todavia, acontece sempre assim, em referendos e até em eleições. As pessoas votam no sentido que entendem pelas razões que acham mais relevantes. Por vezes, a História mostra que cometeram um erro. Isto não significa que o processo esteja errado.

 

2. Há ironia na circunstância de, não obstante vivermos num mundo onde a informação está cada vez mais acessível, continuarem a ser as mensagens simples – até mesmo simplistas – a decidir eleições e referendos. Quase sempre com a recusa do outro em papel de destaque.

 

3. Este referendo poderá significar o fim do Reino Unido tal como o conhecemos. Escócia e Irlanda do Norte - e, se alguma vez o desejar, Gales - têm todo o direito a escolher se preferem a independência. Saem também reforçadas as tendências independentistas noutros países (em Espanha, desde logo).

 

4. Com os anos, a União Europeia foi-se transformando numa entidade demasiado burocrática e controladora. Esta evolução gerou anticorpos, em parte benéficos (a oposição do Reino Unido ao excesso de regulamentação era muito útil), em parte resultado de oportunismo (partidos e governos nacionais aprenderam a culpar Bruxelas por tudo o que corria mal nos seus países). O referendo britânico reforça os discursos anti-UE, abre a porta a outras saídas e cria pressão para que se operem mudanças no modo de funcionamento da União - mas talvez não no sentido que tanta gente parece esperar.

 

5. As probabilidades de que se entre numa fase de laxismo orçamental são reduzidas. A saída do Reino Unido, para além de diminuir o orçamento comunitário de onde países como Portugal recebem há décadas os fundos que lhes permitem atenuar problemas de crescimento e fortalecer redes de interesses, tenderá a extremar posições nos países do Norte. Para a Alemanha, será muito mais importante garantir a manutenção destes na União – numa União – do que a de Portugal, da Grécia, ou até da Espanha ou da Itália.

 

6. Nos países do Sul, sair custa muito caro. Muito mais do que no Reino Unido. Qualquer saída será um processo sujo, desagradável, caótico – que, como os mercados bem percebem (à hora a que escrevo, a taxa de juro da dívida portuguesa a 10 anos sobe 11%), acabou de se tornar mais provável, não menos.

 

7. Resta França. Um mastodonte aparentemente irreformável, em risco de cair nas mãos do populismo. França é o verdadeiro problema da Europa. E a ameaça que constitui a extrema direita francesa a única verdadeira esperança da esquerda portuguesa, grega e espanhola.

 

8. Escrevi «esperança da esquerda» e não «esperança da extrema esquerda» porque ainda há uma diferença entre os socialistas e o pessoal situado à esquerda deles. Os socialistas apenas desejam poder continuar a gastar à custa da Europa (i.e., dos países do Norte). A Frente Nacional serve-lhes como meio de pressão, nada mais. Para a extrema esquerda, quaisquer sobressaltos no processo de construção de um bloco de nações relativamente homogéneo, com contas públicas equilibradas, moeda forte, crescimento assente no sector privado e política externa unificada, são boas notícias. Para a extrema esquerda (Bloco, PCP, Podemos, Syriza, …), a Frente Nacional representa um forte aliado. E pensar que ainda há quem diga que fascismo e comunismo são coisas totalmente distintas…



publicado por José António Abreu às 10:53
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2016
Baratos e esforçados
Portugal é bom para fazer investimentos porque "os portugueses são os que mais horas trabalham na Europa", além de serem muito baratos quando comparados com os franceses, por exemplo, disse ontem o ministro das Finanças a uma plateia de gestores, em Lisboa.

 

O país viria abaixo se estas palavras tivessem sido proferidas por um ministro do governo PSD-CDS. Até mesmo Manuel Pinho, num governo socialista, levantou um coro de críticas ao publicitar - na China, lembram-se? - os baixos salários dos portugueses. Mas agora existe a geringonça. Está tudo bem.



publicado por José António Abreu às 17:44
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Terça-feira, 14 de Junho de 2016
Obama e o atentado de Orlando

A resposta timorata de Barack Obama ao atentado terrorista de Orlando, evitando relacioná-lo com o Islamismo radical e parecendo atribui-lo exclusivamente à perturbação de uma única pessoa, parece demonstrar que ele ainda não entendeu ser componente essencial do modus operandi do Daesh no Ocidente (e em particular nos Estados Unidos, geograficamente distante dos países onde tem presença militar) o uso de indivíduos perturbados a cujas vidas confere sentido. Ainda que tal não seja verdade e os cuidados de linguagem procurem apenas - por razões tácticas e/ou de convicção - evitar a ideia de que existe uma guerra de civilizações, há momentos em que, não apenas por respeito às vítimas e aos seus familiares, mas também por necessidade de garantir aos cidadãos que se está consciente do grau e das características da ameaça, a ambiguidade é um erro. Estranhamente, Hollande percebeu-o. Obama, não. Donald Trump já está a capitalizar.



publicado por José António Abreu às 15:01
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2016
Até o Deutsche Bank já vê os riscos da política do BCE

Mas a resposta do BCE é extremar ainda mais esta política. Isto causa alocações de recursos erradas na economia real que ficam cada mais difíceis de reverter sem dores ainda maiores. Quem tem poupanças perde enquanto proprietários de acções e apartamentos rejubilam.

Pior, ao auto-nomear-se o salvador de último recurso da Eurozona («tudo o que seja necessário fazer»), o BCE permitiu aos políticos sentarem-se sobre as mãos no que respeita a reformas incentivadoras do crescimento e à necessária consolidação fiscal.

Por isto, a política do BCE ameaça o projecto europeu como um todo em nome da estabilidade financeira de curto-prazo. Quanto mais tempo esta política impedir a catarse necessária, mais contribuirá para o crescimento dos populismos e das forças extremistas.

(...)

Quando a redução das taxas de juro para níveis nunca vistos em vinte gerações falhou no estímulo à inflação e ao crescimento, o BCE embarcou num programa massivo de compra de dívida dos membros da Eurozona - o quantitative easing. Mas quem vendeu dívida soberana ao BCE não gastou nem investiu os lucros e o dinheiro acabou apenas de volta ao Banco Central.

Por isso o BCE seguiu até ao extremo lógico: impôs taxas negativas aos depósitos. Actualmente quase metade da dívida pública da Eurozona negoceia com rendimentos negativos. Ao mesmo tempo, o BCE assegura a solvência dos seus membros como comprador de último recurso - o chamado programa OMT.

(...)

Para além disso, os governos já não receiam que o falhanço na reforma das suas economias ou na redução da dívida faça subir o custo de pedir dinheiro emprestado. Na realidade, o nível total de endividamento na Eurozona tem crescido, com o reformado e reinterpretado Pacto de Estabilidade e Crescimento 3 tão desdentado como sempre. Diferenciais de risco praticamente desapareceram dos mercados de títulos do tesouro. Urgentes reformas nos campos do trabalho, da banca, da política, da educação e da governação foram adiadas ou deixadas cair. E as mãos-largas e o risco moral são jogos difíceis de abandonar.

(...)

Enquanto é difícil provar que os aspectos positivos não são assim tão positivos (embora pareçam não ser), os efeitos negativos das políticas do BCE são mais visíveis. Por exemplo, empréstimos ultra-baratos providenciam suporte de vida para empresas que não seriam viáveis em condições mais normais. Isto levou a sobrecapacidade - para não mencionar deflação - em muitas indústrias europeias, com as receitas caindo em relação aos activos. No ano passado, 40% das empresas não tiveram aumentos de receitas. É irónico que muitos pensem que aumentos de produtividade podem ser despoletados através de taxas ainda mais baixas.

(...)

A mais longo prazo, as consequências negativas de taxas ultra-baixas e compra de títulos públicos surgem de uma falta de reformas económicas. Não era suposto ser desta maneira. Imediatamente após a crise, o contrato implícito era que os políticos reduziriam os níveis de dívida pública e implementariam as reformas estruturais necessárias enquanto o BCE lhes providenciaria tempo e dinheiro.

(...)

Provavelmente com boas intenções, o BCE colocou-se numa posição em que as suas decisões são cada vez mais influenciadas pelos mercados.

(...)

Mario Draghi, o presidente do BCE, tem dito repetidamente que não pode tornar o cumprimento da sua missão dependente do facto de outros agentes (ou seja, os políticos) cumprirem a deles. Mas o mundo é o que é - ignorar as consequências mais vastas da política monetária conduziu à última crise.

 

Excertos de uma análise do Deutsche Bank (tradução minha, um pouco apressada mas espero que sem erros significativos). Três notas:
1. Há anos que Mario Draghi apela a reformas estruturais. Não apenas os políticos o ignoram como aproveitam a acção do BCE para as adiar. Entretanto, não obstante as taxas de juros reduzidas, o castelo de cartas da dívida pública vai aumentando de tamanho (ver gráfico na página 7 do relatório) e a economia definha. Mergulhados numa convalescença eterna, os cidadãos viram-se para os populismos. Não creio que o plano fosse este.

2. Apesar de ter vindo a reduzir a exposição, o Deutsche Bank está «pendurado» numa montanha de produtos derivados. As medidas do BCE deveriam pois ser-lhe benéficas (e têm sido). Ainda assim, lança o alerta.

(Reconheça-se: há quem diga que terá problemas graves em qualquer dos cenários.)

3. Enquanto o Deutsche Bank se mostra preocupado, o Commerzbank pondera fazer bypass ao BCE.


publicado por José António Abreu às 12:41
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Quinta-feira, 9 de Junho de 2016
Vícios privados, públicas virtudes
Brada-se há quase uma década (o tempo voa, mesmo quando não nos divertimos) contra o salvamento dos bancos pelos contribuintes. Justificadamente, admita-se. Os erros de gestão foram gigantescos, quando não criminosos. Todavia, a irritação pareceu e parece dirigir-se apenas ao salvamento dos bancos privados. Pouca ou nenhuma comoção se detectou ou detecta na sequência dos aumentos de capital da Caixa Geral de Depósitos, igualmente realizados à custa dos contribuintes (como se sabe, o próximo é de 4 mil milhões de euros). Ora a CGD até constitui o banco-refúgio dos portugueses; imagine-se a situação em que estaria sem todos os depósitos que esse estatuto lhe proporcionou. Ainda assim, e ao contrário do que se passou no BPN, no BES e no BANIF, cenários de venda ou de resolução encontram-se afastados e os actos da gestão não irritam vivalma nem (cruz credo) constituem fundamento para inquérito parlamentar. Sem grande oposição, o governo propõe-se até subir os ordenados dos administradores.

Mas não espanta. Em 2011 como nos anos seguintes, também ninguém pareceu irritar-se com o salvamento da totalidade do sector público, tão mal gerido e tão falido como os bancos, pelos contribuintes. Fica evidente que a má gestão privada desagrada muito mais do que a má gestão pública - certamente porque a primeira é motivada pelo lucro enquanto a segunda (ouvem violinos?) decorre quase sempre de boas intenções. (Na verdade, nem sequer se trata de desagradar mais ou menos; imensa gente defende com entusiasmo a gestão pública ruinosa: basta ver o que se passa em torno da «geringonça».) E, claro, fica também (ainda mais) evidente a diferença no nível de respeito suscitado pelos trabalhadores de um e outro sector. Como já se viu com pessoal do têxtil, da construção civil ou da restauração, bancários de bancos privados atirados para o desemprego (muitos foram-no, outros estão a sê-lo) geram infinitamente menos empatia do que professores, enfermeiros ou maquinistas de comboio forçados a trabalhar com supressão de regalias e cortes moderados em salários globalmente simpáticos.


publicado por José António Abreu às 18:08
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Terça-feira, 7 de Junho de 2016
Rábulas
O grupo parlamentar do PS já enviou para os restantes grupos parlamentares um projecto de voto contra as eventuais sanções da União Europeia a Portugal. Os socialistas esperam agora que as restantes bancadas apreciem o documento e proponham, ou não, alterações. O objectivo é chegar a um texto consensual que possa ser aprovado por todos os partidos.

Observador (com um par de consoantes da minha autoria).

 

Exceptuados os constrangimentos decorrentes da geringonça (foi bonito ver António Costa colocar na ordem os «patrões» do Porto de Lisboa assim que Catarina e Jerónimo lhe disseram para o fazer) e uma ou outra deriva convicta para a esquerda (o Ministro da Educação gosta de ser uma marioneta nas mãos de Mário Nogueira), o PS de 2016 é o PS de 2009 e 2010. Com espantoso descaramento, minimiza resultados negativos (no que respeita ao crescimento económico, hoje informaram-nos de que voltámos à nossa aconchegante mediocridade) e, ajudado por uma comunicação social mais acéfala do que uma amiba amnésica, gera «factos políticos» para tentar desviar as atenções, arranjar inimigos externos (velha táctica, velha táctica), clamar pequenas vitórias (se as sanções não vierem, a «posição de força» terá sido fundamental) e embaraçar a oposição.

E, como em 2010, não vale a pena dizer-lhes para se deixarem de rábulas e começarem a governar a sério. Pela simples razão de que, para além das rábulas, o PS apenas é competente numa coisa: a ocupação do poder.



publicado por José António Abreu às 19:00
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2016
Coisas que deviam ser óbvias
“[Seguro] teve medo de ser corrido e por isso foi fazendo a vontade às tribos todas, mas correram com ele na mesma. Quem ande a gerir as tribos com medo de ser corrido não sabe o que há-de fazer se algum dia ganhar.”


publicado por José António Abreu às 10:44
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Sábado, 14 de Maio de 2016
Quando as coisas são bem feitas e não há um Tribunal protegendo a igualdade dos que são mais iguais do que os outros
Irlanda soma e segue. Moody’s elogia governo e sobe “rating” para A.

 

A agência Moody’s chegou a atribuir um rating de lixo à Irlanda, no auge da crise da dívida, mas a notação foi melhorada à medida que a dívida foi sendo reduzida — algo para que foi crucial o país ter estado a crescer a uma taxa de 7% no final do ano passado. No final do ano passado, o rácio de dívida face ao Produto Interno Bruto (PIB) já tinha caído para menos de 100% (94%).

(...)

Na opinião da Moody’s, o risco de uma inversão da consolidação orçamental verificada nos últimos anos é baixo. "O acordo político recente entre os dois maiores partidos no parlamento e a recente eleição de um governo minoritário liderado pelo Fine Gael [de Enda Kenny], que evidenciou um registo forte de gestão orçamental nos últimos anos, dá-nos conforto de que o défice orçamental vai continuar a ser reduzido nos próximos anos".



publicado por José António Abreu às 12:43
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Sexta-feira, 13 de Maio de 2016
O maior cego
O desemprego aumenta mas não aumenta.

As exportações diminuem mas a economia permanece no rumo certo.

O crescimento do PIB encontra-se muito abaixo das previsões mas não há motivo para alarmes.

Os diferenciais das taxas de juro da dívida pública agravam-se mas tudo corre bem.

O investimento desce mas as perspectivas são excelentes.

Os impostos sobem mas a austeridade diminui.


publicado por José António Abreu às 10:31
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Quarta-feira, 27 de Abril de 2016
As 35 horas são apenas o primeiro passo...
Venezuela à espera da chuva põe função pública a trabalhar dois dias por semana.

Ou a prova de como, sem as grilhetas da União Europeia, do euro ou da inexistência de petróleo, um dos paraísos do socialismo está cada vez melhor.



publicado por José António Abreu às 11:38
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Segunda-feira, 25 de Abril de 2016
Bafio
Alexandre Homem Cristo tem razão. Quarenta e dois anos depois, o 25 de Abril corporiza a resistência à mudança. Transformado em dogma, não apenas constitui pecado mortal equacionar hipóteses que lhe possam diminuir o simbolismo – p. ex., que parte das conquistas obtidas desde então se devem a factores apenas indirectamente com ele relacionados: o acesso aos fundos europeus possibilitado pela adesão à UE, a irresponsabilidade orçamental permitida pela adesão ao euro – mas, acima de tudo, evoca-se para defender o status quo. Os portugueses podem estar mais viajados e ter acesso aos mesmos livros e às mesmas séries que se lêem e vêem no exterior mas, tirando meia dúzia de jovens – especialmente empresários –, o Portugal de hoje permanece o Portugal de 1973: conservador, assustado, fechado à realidade e à mudança. Um país onde se trocaram ilusões de grandeza imperial por ilusões de riqueza imediata e sem esforço. Um país que (à imagem da época pós-Marquês de Pombal) trocou a falta de democracia pela falta de rigor. (Como é possível que apenas sob dois déspotas Portugal tenha crescido de forma sustentada?) As grandes diferenças entre 1973 e 2016 não se encontram pois na mentalidade. Encontram-se no número – hoje muito superior – dos que se alimentam do poder ainda e sempre sufocante do Estado (agradeçam-no aos fundos comunitários e à dívida) e na identidade dos respectivos parceiros ideológicos: antes, uma direita bafienta; hoje, uma esquerda que – apesar de todas as «causas fracturantes» – não o é menos.
 

Dir-me-ão que posso escrever textos como este. Sim, resta a liberdade. É a liberdade que eu agradeço ao 25 de Abril. Ciente de que muitos dos que o fizeram – ou dele se apropriaram – não a tinham como objectivo. Ciente de que, assentes no poder da captação e alocação dos recursos e das noções do politicamente correcto – como antes o Estado Novo se servia da Igreja, da noção de moral e do conceito de Pátria –, os seus descendentes agem para que seja cada vez mais difícil escrevê-los.



publicado por José António Abreu às 13:38
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