como sobreviver submerso.
Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
O orgasmo lírico
Anúncios governamentais à parte, haverá algo mais ficcional que uma ópera? Um conjunto de pessoas, digamos, bem constituídas (eu sei que há a Gheorgiou e – nham, nham – a Garanca, mas são excepções que confirmam a regra) vestidas de forma espalhafatosa, berrando a plenos pulmões uma história que seria risível se não fosse uma tragédia? Pode alguém irritar-se com o enredo de uma ópera?
 
Pode, especialmente se for um ditador. É sabido que os ditadores não têm grande sentido das proporções e menos ainda de humor. Suponho até que isso faz parte dos requisitos de candidatura ao cargo. De entre os ditadores que se podiam escolher para demonstrar a tese vou escolher, por causa do primeiro parágrafo, um rapaz nascido na Geórgia que, como seria da esperar, foi espancado pelo pai em criança (*) e depois (de forma talvez menos evidente) passou pelo seminário, percebeu que preferia ter um papel mais activo no encaminhamento das almas e, após ainda se dar ao trabalho de salvar a rapariga que viria a ser a sua segunda mulher de morrer afogada no mar Cáspio, se dedicou com denodo a despachar muito mais que documentos oficiais e a deixar crescer um bigode farfalhudo.
 
Em 1936, Dmitri Shostakovich, um (peguem nos sacos plásticos que se encontram nas costas da cadeira da frente, por favor) jovem e promissor compositor, estreou em Moscovo a ópera Lady MacBeth do Distrito Mtsensk, com libretto de Alexander Preis a partir de um conto de Nikolai Leskov, que já estivera em cena em S. Petersburgo (perdão, Leninegrado) com (espero que ainda tenham os sacos na mão) assinalável sucesso crítico e de público. (Uma coisa boa das frases feitas é que ajudam a manter a linha, não é? Podem ir meter os sacos no balde do lixo que eu espero.) Because tramps like us, baby, we were boorn to ruuuuuuuun… Já de volta? Prossigamos então: numa das primeiras noites de exibição, um homenzinho de bigode farfalhudo (esse mesmo) sentou-se no melhor camarote para assistir ao espectáculo. Passado algum tempo depois da exibição começar (as minhas fontes não são precisas acerca de quanto tempo exactamente), levantou-se e saiu, aparentemente perturbado por uma nota mais aguda. Dois dias depois, o Pravda publicava a verdade (para fazer jus ao nome, o Pravda nunca publicava outra coisa senão a verdade) sobre a ópera: que era lixo e não música (a verdade do Pravda não estava expressa de forma tão sucinta mas isto só demonstra as minhas espantosas capacidades de síntese como, de resto, o tamanho deste post irá provar). Lady MacBeth de Mtsensk foi retirada de cena e só voltou a ser representada em 1962, numa versão alterada e com o título Katerina Izmáilova. Quanto a Shostakovich, depois de uns dias em que receou ir compor na Sibéria, viveu no temor constante de que as suas obras não fossem consideradas suficientemente patrióticas e revolucionárias. É interessante notar como o compositor que deu ao regime soviético tantas sinfonias emblemáticas vivia com medo de que meia dúzia de acordes burgueses (seja lá isso o que for mas dizem-me que, em tempos, o fado também os teve) pudessem fazê-lo cair em desgraça.(**) E ainda mais interessante é colocarmo-nos uma daquelas maravilhosas e tão, mas tão irrelevantes perguntas “e se”. E se a Rússia não fosse uma ditadura (eu avisei que era uma pergunta hipotética) e Shostakovich pudesse ter seguido os seus impulsos criativos sem restrições? Teria a sua obra sido melhor? Pior? Apenas diferente? Respostas directamente para o Kremlin, por favor.
 
Mas afinal o que tinha Lady MacBeth de Mtsensk para irritar o homenzinho do bigode farfalhudo? Provavelmente pormenores que só um ditador seria capaz de achar excessivos. Ou elementos que eram provocantes em 1936 mas que agora, do alto do nosso cosmopolitismo, merecem apenas um bocejo. Talvez. A ópera conta a história de Ekaterina, uma mulher casada com um cretino que a deixa sozinha durante longos períodos na quinta onde residem, sempre sob vigilância do pai dele. Ekaterina inicia um caso com Sergei, um novo funcionário que é uma espécie de Zezé Camarinha rústico (passe a redundância), na sequência do qual o sogro e o marido acabam mortos, sendo que o primeiro é devidamente enterrado porque a morte até pareceu um problema digestivo mas o segundo tem que ser escondido na adega. No dia do casamento dela com o amante (demonstrem aqui alguma flexibilidade nos processos lógicos, por favor) a polícia, irritada pela inactividade própria e pelo divertimento alheio, aproveita a denúncia de um bêbado para invadir o casamento, descobre o corpo e prende Ekaterina e Sergei, os quais são enviados para a Sibéria. Sergei, farto das lamechices de Ekaterina, começa a namoriscar outra mulher para grande irritação de Ekaterina que, convencida finalmente de que ele não a ama, se atira a um rio arrastando consigo o novo interesse amoroso do Zezé Camarinha eslavo. Fim.
 

Efectivamente, nada de especial para os dias de hoje. Parece que o crítico do Pravda achou que a ópera se detinha em questões menores, sentimentais, e não focava os importantes desígnios das massas oprimidas. (Na altura, essa era uma falha grave.) Mas ainda assim… Afinal, a coisa até se passa nos tempos czaristas, pelo que (pensava provavelmente Shostakovich) esses defeitos cairiam sobre o antigo regime. (Os grandes artistas são com frequência um pouco ingénuos.) No que me toca, presumo que o homenzinho do bigode farfalhudo possa ter-se sentido incomodado pela cena em que Sergei se impõe a Ekaterina, no que começa por ser uma violação e acaba num orgasmo lírico e orquestral. Ou pela cena em que o sogro de Ekaterina dá a entender que também não se importava de lhe manter os pés quentes durante a noite. Ou pelas cenas da morte do sogro e do marido de Ekaterina, o primeiro envenenado com cogumelos enquanto os trabalhadores da quinta cantam alegremente, o segundo atingido na cabeça com um candelabro enquanto é estrangulado (métodos de execução pífios que ninguém estranhará poderem desagradar ao homenzinho do bigode farfalhudo). Ou até pela cena 7 (ficou famosa), passada na esquadra da polícia e onde os agentes surgem como mandriões, bêbados e corruptos.

 

É difícil ter a certeza. Eu gosto da ópera. Gosto dela toda e gosto especialmente de pequenos nacos de diálogo como estes:

 
Sergei vem ao quarto de Ekaterina com o pretexto de pedir um livro emprestado.
Sergei: «Estou a morrer de aborrecimento.»
Ekaterina: «Por que não te casas?»
 
Boris, o sogro de Ekaterina, está a morrer envenenado. Entra o padre.
Padre: «Quem está a morrer aqui?»
Um dos capatazes da quinta: «Este tipo.»
Padre: «Ah. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo…»
 
Na esquadra, um polícia entra com um professor.
Polícia: «Apanhei um socialista.»
Polícias: «A! I! O! U! Y! Ho, ho, ho!»
Sargento: «Ho, ho, ho!»
Polícia: «Ele diz, excelência, que não acredita em Deus.»
Professor: «Deus… existe.»
Sargento: «Cale-se!»
Polícias: «Ho, ho, he!»
Polícia: «E fala acerca de sapos…»
Sargento: «Que sapos?»
Professor: «Comecei a pensar por que razão apenas o homem teria uma alma e os sapos não. Por isso peguei num e examinei-o.»
Sargento: «E…?»
Professor: «Tem uma alma mas é uma alma muito pequenina e não é imortal.»
Sargento: «Prendam-no!»
Professor: «Perdão, Deus existe, Deus existe!»
Polícias: «Ho, ho, ho!»
 
Estaline era um filho da puta hipersensível e sem sentido de humor.
 
(Este vídeo tem mais probemas técnicos que as conferências de bloggers organizadas pelo Partido Socialista mas é o único que descobri com a famosa cena do 'deboche'.)
 
(*) Aliás, deve ser por ele ter nascido num meio socialmente desfavorecido que alguma esquerda ainda hoje o olha de forma magnânima.
(**) O que de resto voltaria a suceder em 1948, na sequência da doutrina Zhdanov que pretendia que, no maravilhoso mundo soviético, a única tensão possível era entre o bom e o melhor. Shostakovich, juntamente com mais uns quantos (entre os quais Prokofiev), foi acusado de “formalismo”, teve várias obras banidas, a sua família perdeu privilégios e ele foi forçado a declarações de contrição. O actor e encenador Yuri Lyubimov, também ele por vezes herói, por vezes vilão da grande nação soviética, afirmou que Shostakovich chegou a aguardar junto ao elevador para que, se o viessem prender, a família não fosse molestada.
 
(Fotos retiradas daqui e daqui. Não lhes coloquei legenda porque, digam lá, qual é que parece o ditador e qual é que parece o compositor assustado?)


publicado por José António Abreu às 13:23
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4 comentários:
De Margarida a 20 de Agosto de 2009 às 15:32
... ia escrever 'isto está a ficar perigoso', mas o mais correcto é ' isto está a ficar interessantíssimo!'.
Deuses!...
quid homini est?!



De Margarida a 20 de Agosto de 2009 às 16:04

Now I’m flabbergasted.


And positively in love.


 




 


De José António Abreu a 20 de Agosto de 2009 às 19:26
Hmmmmmmm, pensei que já estava melhor mas afinal continua com febre. E a alucinar....


De Margarida a 21 de Agosto de 2009 às 13:24
Não comento.

Outa coisa, vim agora da nobre casa de MacGuffin encantada com o vosso parlapié.
Ena!
Ena!

(sorry, still in love...)


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