como sobreviver submerso.
Terça-feira, 5 de Junho de 2012
Uma cripta em Praga

 

Esperava um local maior. Espera-se sempre um local maior ou, pelo menos, diferente. Da mesma forma que Praga é demasiado bela, demasiado ampla e, acima de tudo, demasiado luminosa para ser a cidade de Joseph K., do Golem e das cabeças de líderes protestantes espetadas em estacas durante anos na Ponte Carlos, a cripta da Igreja Ortodoxa de S. Cirilo e S. Metódio é muito mais acanhada do que a leitura dos relatos me deixara antever. No entanto, apesar das flores e das velas e de algumas fotografias, não é menos impressionante por isso. Pelo contrário: as dimensões reduzidas fazem com que imaginar os acontecimentos daquela manhã de 18 de Junho de 1942 deixe uma marca ainda mais forte.

 

Reinhard Heydrich é o Reichsprotektor de Praga, nomeado por Hitler para eliminar a resistência e germanizar os checos. Heydrich prova ser o homem certo. Ameaça, persegue, deporta e mata mas, num acto de inteligência, não apenas os opositores declarados do regime; também todos aqueles que no mercado negro, dos agricultores aos distribuidores, dificultam a vida ao cidadão comum. Escrevi-o num post anterior: Heydrich fascina-me. O cérebro de Himmler, como alguns alemães diziam (Himmlers Hirn heisst Heydrich, ou O Cérebro de Himmler é Heydrich, ou HHhH, título do livro de Laurent Binet que devo aconselhar novamente). Um dos organizadores da Noite de Cristal. O principal mentor da Solução Final. Um monstro. Mas também um executante do violino e um apreciador das artes que considera incultos muitos colegas do topo da hierarquia do Reich. No exílio em Londres, o presidente checo, Edvard Beneš, decide tentar matá-lo. Será um sinal para o Terceiro Reich e para o mundo, por parte da primeira nação espezinhada durante a Segunda Guerra Mundial (na verdade, ainda antes, em 1938). A operação recebe o nome de «Antropóide». Após um período de treino na Escócia, dois pára-quedistas, um checo (Jan Kubiš), outro eslovaco (Josef Gabčik), são lançados sobre território checo. Com eles, seguem outros homens, encarregados de operações de recolha de informação. Kubiš e Gabčik passam meses em Praga, escondidos em casas de família, preparando o ataque com o apoio de elementos locais da resistência e dos outros infiltrados. Executam-no a 27 de Maio de 1942. São dez e meia da manhã e Heydrich desloca-se do castelo nos arredores onde se instalou com a família para a cidade. (Sim, os monstros têm família, a quem muitas vezes são dedicados – Heydrich gosta de brincar com os filhos; o que não têm é consciência de que são monstros ou não a suficiente para que ela se sobreponha ao prazer de utilizar o poder conseguido.) Numa curva da rua Holešovičkách (hoje completamente diferente), Kubiš e Gabčik atacam. Mas a metralhadora Sten de Gabčik encrava. É então que o motorista de Heydrich comete um erro (o outro, mais grave, da responsabilidade do próprio Heydrich – deixará Hitler extremamente irritado mas é sintomático de quão invulnerável ele se devia sentir ou de quão impotentes considerava os checos, é não existir escolta) e, em vez de acelerar e desaparecer dali, trava, decidido a lutar. Kubiš usa uma bomba artesanal que, apesar de mal apontada, fere o Reichsprotektor. Os dois pára-quedistas fogem, sem saber se conseguiram. Conseguiram. Apesar dos esforços dos alemães, Heydrich morrerá a 4 de Junho, no hospital. Por essa altura, o inferno já se mudou para Praga.

 

E a propósito do inferno, antes de chegarmos aqui, à igreja e à cripta: quando é que um acto deste género é lícito e não terrorismo? Aceitamo-lo e glorificamo-lo por ocorrer durante uma guerra e ser cometido pelo lado justo (e neste caso é fácil; quase todos aceitamos o mesmo lado como sendo o justo) ou por Heydrich ser um monstro? Talvez mais importante: quando é que um acto destes vale a pena? Na sequência do atentado, os nazis mataram, torturaram e deportaram centenas de pessoas. Seguindo uma suspeita infundada, arrasaram a aldeia de Lidice, a noroeste de Praga (173 homens entre os quinze e os oitenta e quatro anos foram fuzilados de imediato, 26 foram mortos mais tarde em Praga, 88 crianças foram gaseadas em Chelmno, na Polónia, e 53 mulheres morreram em vários campos de concentração). Todos as pessoas envolvidas na preparação do atentado, ainda que de forma circunstancial, foram mortas (incluindo, evidentemente, os clérigos da igreja de São Cirilo e São Metódio e as familias que esconderam os pára-quedistas). No outro prato da balança, o atentado abanou de facto a confiança do Terceiro Reich, mostrou que a ocupação da República Checa estava longe de ser pacífica e, mais importante, o massacre de Lidice provocou reacções de horror a nível internacional, expondo o regime nazi como de facto era: brutal. Ainda assim: valeu a pena?

 

Seja a resposta qual for (e creio que, para uma tal questão, só pode haver respostas individuais), Kubiš e Gabčik merecem a nossa homenagem. O acto custou-lhes a vida mas os nazis quase falharam nos esforços para os encontrarem. Com outros cinco elementos infiltrados (Josef Valčik, Jan Hruby, Jaroslav Švarc, Josef Bublík e Adolf Opálka; falta um e isso revelar-se-á crucial), Kubiš e Gabčik estão escondidos na igreja de São Cirilo e São Metódio, no número nove da rua Resslova. Hoje, é uma rua larga, movimentada, com semáforos e passadeiras para peões, que vai dar ao rio e ao famoso edifício de vidro, metal e betão conhecido por Casa Dançante ou Ginger e Fred. Na época, teria a mesma largura mas desconheço se existiam semáforos; quanto a Ginger e Fred, só existiam os verdadeiros, fazendo filmes em que acontecimentos deste género não têm lugar. Os nazis revistam casas mas, estranhamente, não igrejas. Prometem uma recompensa a quem der informações que permitam a captura dos homens que mataram Heydrich e garantem uma bala a quem, tendo-as, não as forneça. Passam-se dias e ninguém avança. Os nazis percebem que o medo das consequências assusta os possíveis denunciantes e, a 13 de Junho, jogam uma última cartada: apesar do tempo que decorreu, quem avançar terá o dinheiro e total imunidade. Mas a oferta só dura cinco dias. Trata-se de um acto de desespero que pode correr mal: se nos cinco dias não acontecer uma denúncia, certamente já não acontecerá. É então que o elemento em falta (chama-se Karel Čurda e será julgado e executado depois da guerra) entra na sede da Gestapo e, em troca de vinte milhões de coroas, denuncia Kubiš e Gabčik. Ele não sabe o sítio exacto onde eles se encontram mas conhece muitos contactos, incluindo pessoas que os acolheram. É o suficiente. A prisão e a tortura fazem o resto. Às duas da manhã de 18 de Junho, a igreja é cercada por oitocentos soldados. Às quatro e um quarto, o assalto começa.

 

É esta cripta. Acanhada, escura, fria, bruta. Mas não morrem aqui os sete. Kubiš, Bublík e Opálka morrem lá em cima, na nave, depois de resistirem a partir da galeria até às sete da manhã. Só depois os nazis se apercebem da existência dos restantes. Gabčik, Valčik, Hruby e Švarc aguentam cinco horas, aqui em baixo. Os nazis não conseguem descer (os soldados que, cumprindo ordens, procuram fazê-lo são recebidos com tiros nas pernas) e revelam-se estranhamente ineficazes na resolução do problema. Resolvem inundar a cripta através da seteira que dá para a rua e, ao mesmo tempo, lançar granadas lacrimogénias cá para dentro. Mas os métodos têm efeitos contraproducentes (a água no chão diminui o efeito das granadas permitindo que seja possível atirá-las de volta para a rua) e os sitiados conseguem, com uma escada de mão, ir empurrando a mangueira da água. Entretanto, vão escavando na parede, tentando atingir uma qualquer conduta subterrânea que passe sob a rua Resslova (a seteira, ou respiradouro, ou o que lhe quiserem chamar, está aqui, a uns dois metros e meio de altura, e o buraco na parede também, quase por baixo, desviado para a direita). Finalmente, por volta do meio dia, tudo acaba: na nave da igreja, os nazis rebentam uma laje e abrem outro acesso à cripta. Gabčik, Valčik, Hruby e Švarc percebem que o jogo acabou e suicidam-se.

 

É sábado, 2 de Junho, e apercebo-me de repente que foi há setenta anos. Há setenta anos, Heydrich estava a morrer no hospital e homens condenados ocupavam esta cripta. Sinto-me indisposto, aqui dentro, como turista, máquina fotográfica na mão. Mas provavelmente é a única reacção adequada.

(Os retratos são de Kubiš e Gabčik, tal como aparecem nos painéis informativos existentes na igreja. As fotos da cripta são actuais, tiradas por mim. Os dados foram recolhidos do folheto oficial, comprado no local, do livro HHhH, de Laurent Binet, e da internet.)



publicado por José António Abreu às 11:27
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