como sobreviver submerso.
Sábado, 28 de Agosto de 2010
Fome

Audiências televisivas ou de cinema, bem como tabelas de venda de livros, provam-no à saciedade: preferimos obras em que as personagens são indiscutivelmente boas ou más. Não é difícil perceber porquê: permitem-nos alinhar sem hesitações ao lado dos «bons», sentir tão justos quanto eles e, dessa forma, fugir a analisar os nossos próprios actos e pensamentos. Obviamente, quem deseja ser estimulado preferirá obras em que os bons pecam e os maus têm razões que não se conseguem deixar de entender. E é um dilema especialmente gratificante ser confrontado com uma personagem com quem desejamos simpatizar, apesar dos erros e canalhices em que vai incorrendo.

 

Fome, de Elise Blackwell, é uma pequena novela com um narrador de quem desejamos gostar. Afinal, suportou a pressão asfixiante do Estalinismo enquanto funcionário do Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas, em Leninegrado, vendo pessoas serem presas e condenadas à morte por contestarem as políticas agrícolas oficiais, definidas pelo influente – e, a esta distância, ridículo – Trofim Lysenko, e suportou também a fome na sequência do cerco alemão a Estalinegrado. A personagem principal de Fome é uma vítima e é também o narrador e tendemos a simpatizar com vítimas e com quem nos conta a história. Mas é também alguém que trai a mulher (de quem, essa sim, é fácil gostar) com uma desconcertante naturalidade, que procura não se comprometer, que fura decisões que ajudou a tomar. Podemos criticá-lo? Claro que sim. O chefe (Nikolai Vavilov, cujo nome o Instituto hoje tem*) não cedeu. Alena, a mulher, não cedeu. Outras pessoas não cederam. Podemos condená-lo? Como, se, ainda que contrariados, o entendemos, se sentimos que em situação similar provavelmente cometeríamos vários daqueles actos? Será possível ler o livro mantendo a convicção de ser capaz de arriscar a vida na defesa de simples teorias científicas quando tantas vezes, arriscando apenas uma repreensão ou, vá lá, o emprego, fugimos ao confronto? Temos a certeza de que resistiríamos à fome, com alimentos à nossa frente? E depois como é possível não relativizar? Comparados com os crimes de Estaline ou de Hitler, o que são os pequenos pecadilhos do narrador de Fome que, enquanto nos conta a história, já idoso e vivendo em Nova Iorque, nunca nos diz o nome, como se isso o pudesse proteger um pouco da vergonha que finalmente sente? Fome é um delicado (a todos os níveis, até no do estilo de escrita) exercício de análise das acções individuais em tempos históricos de pressão e violência extremas. E nessas circunstâncias, quase inimagináveis para quem lê a novela na modorrice de uma vida confortável, são poucos os heróis e muitos os que apenas tentam sobreviver. No final do livro, eu não simpatizava com este homem. Mas entendia-o porque também entendo – demasiadamente bem, até – falhas como cobardia e egoísmo.

 

* Quem desejar mais informações sobre Lysenko, as suas teorias sobre vernalização (exposição das sementes a temperaturas baixas para as levar a germinar) e Vavilov, pode começar por ler isto, isto, isto e isto.


publicado por José António Abreu às 19:42
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