como sobreviver submerso.
Domingo, 31 de Janeiro de 2010
Perfeição
Tive um professor de matemática que desenhava no quadro circunferências perfeitas sem auxílio do compasso. É bom que um professor consiga fazer algo de que os alunos são incapazes. Obriga-os, mesmo contrariados, a admirá-lo um pouco (saber mais do que eles não tem o mesmo efeito). Quanto às circunferências, sei que eram perfeitas porque um dia duvidei que o fossem em voz alta (creio já ter admitido dificuldades em deixar de dizer o que penso). Ele pegou no giz e, em dois movimentos fulminantes (traçava primeiro a metade direita, depois a esquerda), desenhou uma no quadro. A seguir obrigou-me a ir buscar o compasso e a verificar, perante uma turma de miúdos expectantes e desejosos de poder gozar alguém (mas preferindo que esse alguém fosse eu, porque o poderiam fazer imediata e abertamente), a perfeição do seu trabalho. O giz na ponta do compasso limitou-se a seguir cobardemente o traço branco que já se encontrava no quadro. A filha da mãe da circunferência era mesmo perfeita. Os meus colegas riram-se (o professor também), mandaram bocas (o professor não, mas revelou grande complacência para com a algazarra instalada) e gozaram comigo durante todo o resto do dia.
 
Usei várias vezes «perfeita» e «perfeição» ao longo do texto porque ainda é naquela circunferência – e em Aston Martins e em algumas mulheres – que penso quando imagino a perfeição. E mantenho até hoje sentimentos contraditórios em relação a pessoas que fazem coisas difíceis sem esforço aparente: admiro-as por o conseguirem mas apetece-me dar-lhes um pontapé no traseiro e ordenar-lhes que se limitem a ser humanas.
 
(A foto é do Estoril Open de 2008.)



Sábado, 30 de Janeiro de 2010
Paisagens bucólicas: 9



publicado por jaa às 21:05
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Escrever
For whom am I writing this? For myself? I think not. I have no picture of myself reading it over at a later time, later time having become problematical. For some stranger, in the future, after I’m dead? I have no such ambitions, or no such hope.
Perhaps I write for no one. Perhaps for the same person children are writing for, when they scrawl their names in the snow.
Margaret Atwood, The Blind Assassin.
 
E nós, escrevinhadores de blogues? Para quem escrevemos? O «porquê» é mais fácil: inconsciência, tentativa de amenizar a insignificância e a mesquinhez da vida, receio do envelhecimento, da morte e do esquecimento. Tudo boas razões. Atwood outra vez, no mesmo livro:
 
Why is it we want so badly to memorialize ourselves? Even while we’re still alive. We wish to assert our existence, like dogs peeing on fire hydrants. We put on display our framed photographs, our parchment diplomas, our silver-plated cups; we monogram our linen, we carve our name on trees, we scrawl them on washroom walls. It’s all the same impulse. What do we hope from it? Applause, envy, respect? Or simply attention, of any kind we can get?
At the very least we want a witness. We can’t stand the idea of our own voices falling silent finally, like a radio running down.
 
Talvez possamos voltar agora ao «para quem». Escrevemos para quem quer que aceite testemunhar. Para pessoas que, não nos conhecendo, avaliarão apenas aquilo que lhes dissermos. Um blogue é uma oportunidade para mostrar quem achamos poder ser mas receamos não ser. Para mostrar que temos capacidades e opiniões. Para, ao abordar pormenores da vida pessoal, reinterpretar o passado e, não mudando um único facto, reescrever o presente. Para, sem mentir, ficcionar a verdade, permitindo-nos a sensação de ser um autor mas também uma personagem (ou seja, o criador e a criatura), sensação que nos eleva temporariamente (e ilusoriamente) à companhia dos autores que idolatramos (não será por acaso que lhes «roubamos» tanto: frases, poemas, canções) e das personagens que nos apaixonam. Escrever  escrever em blogues  é, como animais urinando na base das árvores, marcar um território. É dizer, mesmo quando não falamos de nós, «isto sou eu e valho a pena». Precisamos de quem acredite nisso. É para encontrar pessoas que acreditem que mantemos blogues (ou, na verdade, fazemos tantas outras coisas). Porque, se elas surgirem, talvez nós também acreditemos. 



Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Estratagema
Afirma: não me incomoda que os outros (essa entidade apenas teoricamente abstracta) pensem mal de mim porque dificilmente conseguirão pensar de mim pior do que eu penso deles.
 
(E, no entanto, tenta ser simpático para toda a gente.)



Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Sai um orçamento curto para o país do canto
É preciso ver as coisas de forma positiva: a nossa extrema-direita não consegue impor-se; a nossa extrema-esquerda faz muito barulho mas já não passa daí; o nosso sistema judicial assegura que banqueiros e políticos que poderiam estar inocentes não acabam na prisão; o nosso sistema educativo evita que as pessoas tenham conhecimentos suficientes para se assustarem com os números da economia; a nossa incoerente política externa dá-nos uma razoável garantia de que não seremos alvo de actos de terrorismo; o nosso desejo de que falem de nós levou-nos a organizar um campeonato da Europa de futebol mas não um campeonato do Mundo, que teria exigido a construção de mais estádios inúteis; usámos inadvertidamente a estratégia certa para dar o prémio Nobel da literatura a um escritor português; termos um regime ditatorial e arcaico evitou que tivéssemos de lutar na segunda guerra mundial; as nossas ambições imperiais (aquelas do «mapa cor-de-rosa») foram prontamente travadas pelos nossos amigos ingleses, fazendo de Robert Mugabe um problema alheio; fomos invadidos pela Espanha e pela França mas nunca invadimos nenhum país europeu, acto que nos teria metido em sérios problemas; no tratado de Tordesilhas ficámos com a parte do mundo mais pequena mas em que não era preciso massacrar muitos indígenas.
 
A nossa incompetência é frequentemente algo que acabamos por agradecer.



Desabafo
Sugestionado talvez pelo friozinho cortante da última noite, o Ministro das Finanças anuncioucongelamento de salários na Função Pública, uma medida que as empresas privadas certamente acompanharão com aumentos muito moderados (se existentes) dos seus próprios funcionários. Era inevitável, claro. Não é sequer uma decisão passível de grandes críticas. Mas não deixa de ser um bocado chato para todos os que, fora ou (suponho que também) dentro da função pública, alertam há anos para os efeitos de políticas governamentais dirigistas, geradoras de despesa e sugadoras de impostos verem-se mais uma vez prejudicados pelas opções alheias, sempre tão cristalinamente certas apesar dos resultados sempre tão fantasticamente errados. Sei que é demagogia mas não podiam os que têm votado nesta gente pagar da crise um pouquinho mais do que os restantes? Digamos, cortarem-lhes meio por cento no salário em vez de lho congelarem? É que pagar por igual pode ser democrático mas não é nada simpático.


publicado por jaa às 08:34
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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Novos significados
Ouvir o tema dos Arcade Fire (versão ao vivo, aqui) é agora uma experiência diferente. E ver imagens de um país quase normal também.

 

  


publicado por jaa às 13:32
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Enamoramento
Filipa Melo começou um blogue. Filipa Melo começou um blogue chamado Coração Duplo com dois posts sobre Cormac McCarthy.



Eu e o meu cérebro
Já estou na idade em que me dão brancas com frequência. Tento aceder a um ficheiro que tenho a certeza estar algures no meu (reconhecidamente desorganizado) cérebro e fico a sorrir com ar de cretino e a emitir durante uma infinidade de segundos o som que o meu pai fazia (não descarto a possibilidade de ser uma característica genética) quando eu lhe colocava perguntas sobre sexo. (Desconfio, porém, que ele sabia as respostas.) Reconheço finalmente que não me lembro, finjo que não era importante e disfarço tão bem quanto posso (ou seja, mal) a sensação de que toda a gente me deve estar a achar um idiota presunçoso. (Não é exagero: a sensação baseia-se no facto de já duas ou três pessoas me terem chamado idiota presunçoso, uma acusação que me teria destroçado se eu não fosse efectivamente um idiota presunçoso.)
 
Este declínio da minha memória preocupa-me. Artigos de revistas e de sites médicos, já para não mencionar o médico da Oprah, aconselham a exercitar o cérebro. Passo então a vida tentando lembrar-me de coisas de que já me esqueci. Não é tão fácil como parece porque uma pessoa precisa de se lembrar de que conhece a informação mas também de que não se lembra dela. Ou então acontece algo parecido com isto:
Eu: «Como que chamava o cão do Tintin?»
O meu cérebro: «Milou» e, desdenhoso, acrescenta: «Achas que não me lembrava de uma coisa tão fácil, grande parvalhão?»
O meu cérebro é claramente um aluno mal comportado e eu hesito entre apaparicá-lo e ser duro com ele. Quando tenho uma branca, devo sussurrar-lhe «Vá lá, tu sabes isto», ou berrar-lhe «Polpa informe e nojenta, como é possível que não saibas algo tão óbvio?» Nenhum dos métodos parece conduzir a grandes resultados: ignora-me com sobranceria no primeiro caso, fecha-se agressivamente no segundo. Não o controlo. Pelo contrário, tenho com frequência a sensação de que é ele a controlar-me. Pensa no que quer (sim, já sei que os calções que a Venus Williams está a usar no Open da Austrália, por serem de cor similar à da pele dela, fazem com que pareça estar nua por baixo da saia… E daí? Passa à frente, não é preciso estar sempre a pensar nisso), acusa-me do que bem entende (gordo, moi?), causa-me efeitos fisiológicos inconvenientes (err, corar, por exemplo), tudo com a maior das impunidades. E, por muita piada que tenha achado à cena da trepanação no Hannibal (perturbo-o quando o forço a pensar nela), não sou capaz de o retirar e deixar em casa, como tanta gente parece conseguir fazer. O melhor que consigo é que, por vezes, ele se cale quando estou mesmo cansado. Percebo então como deve ser bom conseguir viver sem cérebro. Especialmente num país como este.
 
(Fotografia filho da mãe, conseguiu forçar-me a colocá-la no post – retirada daqui.)



Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Ideia patusca
Grassa por aqui uma ideia patusca segundo a qual os economistas que recomendam contenção da despesa e se opõem aos grandes investimentos públicos são os que nos conduziram à actual situação de dificuldade, por terem aplicado essas receitas nas suas passagens por governos do passado. É uma divertida inversão da realidade. Em primeiro lugar, os economistas, os políticos e até os empresários que defendem as políticas do actual governo também não nasceram ontem para as vidas pública e política. Nem anteontem. Creio que nem mesmo na semana passada. Ou seja, também têm um longo (vai para quinze anos com um interregno inferior a três) currículo de falhanços. Depois, e mais importante, os tais economistas que agora pedem contenção nunca a implementaram durante as suas passagens pelos vários governos. Afinal, quando é que, no Portugal do pós-25 de Abril, se fizeram análises cuidadosas da relação custo/benefício dos projectos de investimento? Com uma possível excepçãozita durante o governo do bloco central, por absoluta falta de dinheiro, quando é que não se apostou nas grandes obras públicas e no crescimento da despesa?  A verdade é que, seja porque então pensavam de maneira diferente, seja porque não tiveram força para impor as suas posições (ou abandonar o governo, como fez – honra lhe seja prestada – Campos e Cunha), esses economistas sempre seguiram políticas que conduziram ao aumento da despesa e do endividamento. Terão atenuantes (há um quarto de século, o país necessitava mesmo de infra-estruturas) mas é esta contradição que pode (e talvez deva) ser usada contra eles, não a pretensão de que foram as políticas que hoje defendem as culpadas da crise. É, aliás, um contra-senso: como poderiam políticas de contenção levar a um endividamento monstruoso? Mas percebe-se que tentar fazer passar esta tão patusca ideia dá muito jeito para evitar discutir seriamente os assuntos.


publicado por jaa às 22:43
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Domingo, 24 de Janeiro de 2010
Cães e gatos pela cidade: 4




Sábado, 23 de Janeiro de 2010
Sábados
Dez da noite. Quando olho para trás e vejo que um Sábado, o dia da semana que quase toda a gente prefere, foi passado na mais completa, absoluta, estupidificante e viciadora inactividade (de tal forma que agora estou tão lento que preciso de vários minutos para me lembrar de palavras com mais de cinco letras), fico na dúvida se desperdicei um pedacinho da vida, se o aproveitei em pleno. E pergunto-me se as pessoas gostam dos Sábados porque quase todas optariam pela segunda hipótese.
 
(Uff, acabei. Vou publicar isto imedia... já.)



Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
Hobby

Percorremos as ruas sem ver as pessoas. Delineamos trajectórias pelos passeios de modo a contorná-las. Irritamo-nos quando elas, parecendo não se aperceber da nossa presença, bloqueiam a trajectória que definíramos. Mostramo-nos apressados e olhamos em frente quando passamos por pedintes ou por adolescentes fazendo inquéritos. Se assistimos a uma discussão ou a um acidente de automóvel, recusamos intervir ou ser testemunhas. Não queremos «envolver-nos» nos problemas alheios. Somos o nosso mundo, ameaçado por todos os lados pelos seus próprios problemas.

 

Na maior parte do tempo não sou excepção. Mas sou-o quando caminho pelas ruas com uma máquina fotográfica na mão ou pendurada ao pescoço. Em grande medida, aprecio a fotografia de rua porque ela me força a olhar para as pessoas. Mesmo que, hoje em dia, muitas não gostem que reparem nelas (excepto se for a televisão a fazê-lo, suponho; toda a gente parece desejar aparecer na televisão). A primeira reacção é, cada vez mais, de desagrado. Até certo ponto, percebo-a: quando um desconhecido nos aponta uma câmara a pergunta que surge é, inevitavelmente, «por quê eu?». Algo de peculiar se deve ter para nos quererem fotografar.  Mas não. Não é a diferença que desejo fotografar. Pelo contrário. É o factor mais comum a toda a gente: a humanidade. O cenário, o enquadramento, a cor ou os jogos de luz e de sombra são apenas formas de a realçar.




Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Pergunta para Pedro Lomba
É uma pergunta simples a que, na realidade, qualquer pessoa pode responder e não apenas Pedro Lomba (de resto, pouco prolífico nos últimos tempos): pode uma relação de amizade sobreviver (e mais do que isso, sobreviver intacta) quando um dos amigos se torna superior hierárquico do outro? Quando questões como gestão das expectativas, avaliação de desempenho, aumentos salariais, prazos, enganos, objectivos, horários, desmotivação se misturam com os (normalmente partilhados) interesses de sempre? A minha resposta? A minha resposta está implícita no facto de fazer a pergunta.



Glicémia
Por causa da saga Twilight, os vampiros estão na moda. Confesso que prefiro imaginá-los à antiga. Mais velhos, menos bonitos, torturados sim mas também indubitavelmente perversos, mordendo pescoços com um gosto que se sobrepõe a qualquer consideração de ordem moral. Com um erotismo bordejando o sadismo. Maldade por falta de opção mas também pelo prazer da transgressão. Destino e vocação. Max Schrek e Béla Lugosi, teatrais e a preto e branco (penso invariavelmente primeiro em filmes a preto e branco quando penso em filmes de vampiros); Christopher Lee, cadavérico e silencioso (em Prince of Darkness não diz uma única frase); Gary Oldman, excessivo e numa orgia de cor.
 
E assaltam-me dúvidas, perguntas que sei serem ridículas mas gostaria tanto de ver respondidas. Como, por exemplo, se um vampiro prefere o sangue doce de um diabético quando tem vontade de uma sobremesa.



Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Condições de trabalho

«Estou farto disto.»

Na voz dele não existe cumplicidade, apenas desabafo. Sou apanhado de surpresa. A que propósito vem aquilo? Até há dez minutos nunca nos tínhamos visto. Nem sabemos o nome um do outro. Sinto uma ligeira irritação. Por que me terá escolhido para confidente e por que decidiu colocar-me na posição de ter que dizer algo, eu que nada tenho a ver com a empresa?

«Há pior», digo, e depois sinto-me envergonhado pela frouxidão da resposta.

«Há pior?», repete, em tom agressivo. Olha-me frente, como que para verificar quem diabo sou eu afinal. «O ambiente é péssimo. Não se pode confiar em ninguém. Tratam-nos pior do que a cães. Já trabalhei na ... e não tinha nada a ver. Trabalhava nos fornos, era mais difícil mas as pessoas eram porreiras. Tinha um chefe espectacular.»

«Por que é que saiu?»

Tem um trejeito de nojo. «Caí na asneira de dizer à médica que tenho asma. Ela proibiu-me de trabalhar naquele sector. Mandaram-me embora quando o contrato acabou.»

Olho em volta. Há partículas no ar, no pavimento e, apesar de estar ali há menos de um quarto de hora, na minha roupa. Pergunto: «E pode trabalhar aqui?»

A resposta é imediata e definitiva: «Aqui não disse nada.»



publicado por jaa às 23:13
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2006

Ao pensar na Feist lembrei-me de um dos meus temas preferidos de 2006 e, por conseguinte, da década zero zero.

 



publicado por jaa às 22:53
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1, 2, 3, 4

 1. O vídeo oficial, para pessoas que gostem de cor.

 
 

 

 

2. Ao vivo no Letterman, para pessoas que gostem de coros. (Qualquer mulher fica automaticamente mais atraente tocando guitarra?)
 
 

 

 

3. Versão Rua Sésamo, para crianças e adultos que não o sejam demasiado.
 
 

 

 

4. A letra, para relembrar ilusões (e encantos pouco reconhecidos) da adolescência.
 


publicado por jaa às 07:52
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
Da selectividade da memória: as obras públicas
A discussão sobre as obras públicas tem várias vertentes. A que encerra uma desonestidade mais gritante é aquela em que se comparam as posições actuais e passadas dos intervenientes políticos e se pretende que partidos e pessoas que defenderam obras públicas nas décadas de oitenta e noventa do século passado (nomeadamente, PSD e Cavaco Silva) não têm autoridade moral para adoptar agora uma posição crítica das mesmas.
 
Comecemos isto pela actualidade. Em finais de 2008 Portugal tinha 2860 km de auto-estradas. Dois anos antes, os quilómetros de auto-estrada já representavam 2,3% do total de vias. Apenas Espanha e Luxemburgo tinham percentagens superiores na UE a 25 (e, atendendo à sua dimensão e nível de riqueza, o Luxemburgo não é relevante para a discussão). A média na UE era de 1,2%. Portugal tinha 17 km de auto-estrada por cem mil habitantes enquanto a UE tinha uma média de 13. Por cá, existiam 20 km de auto-estrada por 1000 quilómetros quadrados enquanto na UE a média era de 15. Ainda mais interessante: Portugal era o segundo país do mundo – repito: do mundo – com mais quilómetros de auto-estrada por milhão de dólares do PIB. Apenas o Canadá se encontrava à nossa frente.
 
Recuemos um quarto de século. No início de 1985, ano em que Cavaco chegou ao poder, a rede de auto-estradas tinha 158 km. Repito: 1-5-8 km. A A1 não ligava Lisboa a Porto porque lhe faltava quase metade (ficou completa apenas em 1991). A A2 não existia (foi concluída em 2002). A A3 (Porto - Valença) não existia (ficou completa em 1998). A A4 (Porto - Amarante) não existia. A A8 (Lisboa - Leiria) não existia como, naturalmente, não existiam os seus prolongamentos A17 e A29. A A9 (CREL) não existia. A A20 (Via de Cintura Interna) não existia (o anel foi fechado em 2007). A A22 (Via do Infante) não existia (é de 2003). A A23 (Torres Novas - Guarda) não existia. A A25 (Aveiro - Vilar Formoso) não existia (é de 2006) e o famigerado IP5, que substituiu, tinha 12 km inaugurados em 1983 (ficou concluído somente em 1990). Não existiam também a A7, a A10, a A11, a A12, a A13, a A14, a A15, a A19, a A21, a A24, a A27, A28, a A30, a A31, a A41, a A42, a A47 e mais algumas que, por terem poucos quilómetros ou ainda serem conhecidas por IPs ou ICs, vou deixar de fora. Mais há mais. A ponte Vasco da Gama, em Lisboa, não existia (foi aberta ao público em 1998). A ponte do Freixo, no Porto, não existia (foi inaugurada em 1995). A ponte Rainha Santa Isabel (ou Europa), em Coimbra, não existia (é de 2004). O Eixo Norte-Sul não existia (as obras começaram em 1993 e terminaram em 2007). O Alfa Pendular não existia (a primeira viagem foi em 1999). A travessia ferroviária na ponte 25 de Abril não existia (também foi inaugurada em 1999). A Estação do Oriente não existia (é, claro, de 1998). O Metro do Porto não existia (a primeira linha foi inaugurada em 2003). O aeroporto do Porto não existia na forma que hoje conhecemos (o terminal actual é de 2005). O Centro Cultural de Belém não existia (o último módulo construído é de 1993). O Museu de Serralves não existia (inauguração em 1999). A Casa da Música não existia (foi inaugurada em 2005).
 
Chega?
 
Pode-se ou não considerar o investimento em obras públicas uma forma correcta de sair da crise. Pode-se ou não ver o nível de endividamento nacional como preocupante e condicionador das decisões a tomar neste campo. Pode-se ou não achar que os (ou alguns dos) projectos em discussão actualmente são despropositados e prejudiciais. O que não tem qualquer lógica é considerar que a situação actual é idêntica à que existia em 1985 e que quem optou então por determinadas soluções deve apoiá-las agora.


publicado por jaa às 22:14
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
Outros comprimidos
José Sócrates para Ana Jorge: «Quando é que vamos ter anticépticos disponíveis nas farmácias?»


publicado por jaa às 17:00
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Totoloto
Todos queremos ter pessoas principais. E suplementares.
 
(Consegui-las será mais do que sorte mas é importante ir a jogo.)



Domingo, 17 de Janeiro de 2010
Imagens recolhidas pelas ruas: 25



publicado por jaa às 20:56
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Sábado, 16 de Janeiro de 2010
Comprimidos
Tinha onze anos quando uma professora avisou o meu pai de que eu ia ter problemas na vida. «O rapaz até é inteligente», explicou-lhe, «mas tem o hábito de dizer o que pensa.» Na face do meu pai, o sorriso de deferência ficou congelado num esgar. Não me lembro da resposta que deu mas terá sido algo no género de «tem razão, este miúdo... não sei a quem saiu» (conversas complicadas, ainda por cima com estranhos do sexo feminino, sempre o assustaram), e fugiu tão depressa quanto pôde, arrastando-me com ele. Em casa, contou o que se passara à minha mãe e ficaram os dois a olhar para mim durante um instante, como que avaliando o que poderiam fazer para me extraírem aquele terrível hábito. Pôr-me de castigo? Ter uma «conversa» comigo, apesar de estarmos ainda numa época em que não se falava dos pais terem conversas com os filhos? Ir à farmácia tentar arranjar comprimidos que combatessem a doença? E, se eu tinha aquele problema, seria culpa deles? Teriam feito alguma coisa mal? Acabaram por me pedir para não ser «assim»; para não dizer tudo o que me viesse à cabeça. Mas o miúdo de onze anos que eu era ainda não percebia os benefícios de silenciar opiniões ou discordâncias e eles tiveram que ir repetindo o pedido ao longo dos anos seguintes, com a esperança de que eu acabaria por ouvi-los a abandoná-los progressivamente e a preocupação com as possíveis consequências do insucesso dos seus esforços sempre a aumentar. Porque, apesar de Salazar estar morto há mais tempo do que eu estava vivo, do 25 de Abril ter ocorrido há vários anos, e de Portugal caminhar para uma adesão à «Europa», os meus pais sabiam que continuavam a existir boas razões para o aviso da professora e só queriam o melhor para o filho. E eu, agora que já passei a idade que o meu pai tinha quando a professora o avisou e tenho sensivelmente a idade que ela tinha, também já estou convencido. Mas continuo à procura dos comprimidos certos para corrigir o problema.

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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Insensibilidade
Receio estar a ficar insensível a catástrofes. À contagem de mortos nas catástrofes. Cem mortos (já se pode considerar uma catástrofe?). Mil mortos. Cem mil mortos. É-me praticamente indiferente. Questão de zeros. Não pretendo diminuir a importância do que sucedeu no Haiti. Foi e está a ser horrível. Mas uma catástrofe, quando distante, é hoje e antes de mais um número com efeito de choque: «Jesus, parece que há cem mil mortos!», «Não, afinal é meio milhão!» E acompanhamos as frases com um frémito de horror, sendo que há uma componente de fascínio e outra de alívio na nossa voz. Fascínio pela dimensão da tragédia, alívio por ter acontecido lá longe. Actualmente, as catástrofes naturais expressam-se em números que se comparam para saber se a última foi mais ou menos mortífera do que a anterior. Como o número de mortos nas estradas por altura do Natal ou da Páscoa. Oito, dez, doze: qual a diferença para quem está defronte do televisor?
 
A morte já só impressiona em histórias individuais. Com pormenores que revelem o sofrimento de quem morreu ou de quem sobreviveu. É por isso que as televisões procuram casos específicos. Dizem-nos «meio milhão de mortos» mas vão à procura de casos concretos para que possamos sentir a dor. Dos pais das crianças que morreram, da mulher com um braço ao peito, do miúdo que ficou sozinho no mundo. Todavia, ao fazê-lo causam-nos (não, nada de generalizar: causam-me) uma outra sensação: a de estar assistindo a algo forçado, encenado, o episódio de um reality show. (O mal que a proliferação de reality shows fez à nossa capacidade de encarar a realidade de forma espontânea…) E surgem então vontades contraditórias: a de continuar a ver, em fascínio mórbido, e a de desligar o televisor, em negação.
 
A verdade é que a televisão, com as suas exigências de encenação, de novidade e de narração, é um filtro demasiado poderoso para que a autenticidade da dor subsista incólume. Vejo um homem com um penso cobrindo-lhe parte da cara, gente deitada nas ruas, edifícios em escombros, pessoas descarregando material de camiões, militares marchando para dentro de aviões, e sinto-me estranhamente anestesiado. Nestes tempos de sobrecarga sensorial, a única forma que me resta de sentir emoções é recorrer ao cérebro. À imaginação. (É o trabalho da imaginação que faz com as fotografias funcionem melhor do que a televisão.) Porque o que me incomoda está por trás das evidências – é o sofrimento e, no caso dos mortos, o sofrimento que precedeu as mortes. Há poucos dias vieram a público notícias da morte por frio de vários idosos que viviam sozinhos. Não mil nem dez mil: nove. Um número tão pouco impressionante que os jornais se sentiram forçados a salientar que tinham ocorrido num período de doze horas. Estas nove mortes incomodaram-me tanto ou mais que as mortes do terramoto no Haiti. E não por estarmos a falar de portugueses. (Desagrada-me, aliás, o comportamento recorrente dos meios de comunicação, realçando ad nauseam a inexistência de portugueses feridos em catástrofes ocorridas no estrangeiro, no que é quase uma insinuação de que – bastava um – podia ter sido pior.) Estas nove mortes incomodaram-me porque teria sido possível fazer algo para evitá-las (não resultaram de um imprevisível desastre natural) e especialmente porque aconteceram na sequência de um longo processo de sofrimento físico e psicológico. Dor. Solidão. Incapacidade. Frio. Desespero. São factores como estes – é pensar em factores como estes – que tornam a ideia da morte difícil de suportar. Daí que, quando penso no Haiti, não seja o número de mortos que me faz estremecer mas aquilo por que os vivos estão a passar. E, antes de quaisquer outros, os vivos-ainda-não-mortos (ou talvez os mortos-ainda-vivos), presos nos escombros com pernas e braços partidos, esvaindo-se em sangue, tentando suportar a dor e a noção de que vão morrer. Depois os que, não estando soterrados, estão feridos, sem que exista capacidade de socorro adequada. Finalmente, aqueles que, durante os próximos dias ou semanas, enfrentarão a fome, a sede, as doenças, os surtos de violência. Pensar na agonia – individual, mesmo quando multiplicada por milhares de casos – ainda tem (não sei se por muito, se por pouco tempo) força suficiente para me perturbar. A morte, não. A diferença entre mil ou cem mil mortos é estranhamente nublosa: um pouco como comparar dois filmes de acção com orçamentos totalmente díspares – o tamanho das explosões é diferente mas o filme nem por isso. E talvez a nebulosidade da distinção permita compreender como tantos regimes puderam e podem causar milhões de mortos: depois de se começar, as vítimas cessam de ser indivíduos e o seu número deixa de ser relevante.
 
É por tudo isto que tenho medo de estar a ficar insensível à contagem de mortos em catástrofes  De não lamentar ou me horrorizar tanto quanto devia. Mas o facto de o terramoto no Haiti ter causado a morte a milhares de pessoas (e há uma diferença entre dizer «milhares de mortos» ou «milhares de pessoas mortas»; murmurem-no e verifiquem) e de tantas outras estarem em dificuldades consegue ainda suscitar-me raiva e incompreensão. Carlos Barbosa de Oliveira escreveu-o aqui: parece que há povos (como também há pessoas) que nunca chegam a ter uma hipótese.



Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
Liberalismo luso-africano
«There was a Commissioner down in Mafikeng, over the border into South Africa, and he would come up the road and speak to the chiefs. He would say: ‘You do this; you do that thing.’ And the chiefs all obeyed him because they knew that if they did not he would have them deposed. But some of them were clever, and while the British said ‘You do this’, they would say ‘Yes, yes, sir, I will do that’ and all the time, behind their back, they did the other thing or they just pretended to do something. So for many years, nothing at all happened. It was a good system of government, because most people want nothing to happen. That is the problem with governments these days. They want to do things all the time; they are always very busy thinking of what things they can do next. That is not what people want. People want to be left alone to look after their cattle.»
 
Alexander McCall Smith, The No.1 Ladies Detective Agency
(Editado em Portugal pela Presença.)
 
Já não temos gado mas ainda temos a mentalidade. Mais interessante é isto também poder ser lido como uma defesa do liberalismo. Pelo que vai-se a ver e os portugueses são liberais. Mas – descansem os espíritos mais excitáveis  de forma nenhuma «neo». Professamos uma variante imobilista do liberalismo.



Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
Com o Douro por cenário: 13



publicado por jaa às 19:26
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Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
20%
O electricista é baixo, tem cerca de sessenta anos e veste um volumoso casaco de bombazina com forro em pele. Há dias explicou-me que não aceita trabalhos ao fim da tarde porque tem de ir buscar os netos à escola. Agora, depois de me olhar de través, pergunta-me se quero recibo. «Nunca sei quem tenho à frente», diz, «mas a minha experiência é que o pessoal que trabalha nas finanças é o que menos quer recibos.» Sorrio, tentando estabelecer uma relação de cumplicidade. Não resulta. Ele mantém-se impassível. Não trabalhando nas finanças e sendo estúpido, digo-lhe que é com recibo. Limita-se a encolher os ombros quase imperceptivelmente, como que para me fazer saber que já nada o surpreende ou impressiona, e a dizer que vai buscá-los ao carro.



Solidão entre nós
A minha primeira hipótese foi pessimista: «a solidão entre nós é aí onde estás» porque eu acho que não me movi: continuo aqui, onde antes a solidão não existia. Mas tu, que já aqui estiveste, mudaste de sítio, criando um obstáculo (ou talvez um vácuo) entre nós.
 
Mas, desconhecendo a canção, posso permitir-me todas as ousadias e descortinar uma hipótese optimista: o meu amor por ti faz-me ter consciência de mim  das minhas fraquezas e incapacidades. A solidão podia então ser o sítio onde estou mas eu sei que não estou sozinho: tu estás comigo. Só que o meu amor (a minha vontade de conseguir que também não estejas só) é de tal ordem, e as minhas incapacidades tão evidentes, que sinto nunca conseguir chegar verdadeiramente aí, onde tu estás. Mesmo sabendo que estás perto.
 
(Nota: este pode bem ser o meu post mais descabido de sempre, por variadíssimas razões que se tornam irrelevantes perante uma única: o incrível atrevimento de me permitir elaborar sobre um texto do Pedro Mexia. Pedindo desde já as devidas desculpas, em minha defesa apenas posso alegar que os dois parágrafos acima só existem porque o post original me deixou a pensar no assunto.)



Devaneio com (ou por causa da) chuva
Nove menos um quarto da manhã. Chove. A luz é fraca, cinzenta, mortiça. Os faróis dos automóveis, os candeeiros públicos e os painéis publicitários nas paragens de autocarro (tristonhos, apesar das raparigas e rapazes sorridentes), são as poucas e quase inglórias fontes de luz. Não apetece chamar «dia» a isto. Dentro de edifícios, olhando para o exterior a partir de compartimentos bem iluminados (e especialmente nos que possuem amplas superfícies vidradas), tem-se uma sensação estranha: é quase como estar num laboratório ou talvez sob os focos de uma exposição. A melancolia destes dias não me é totalmente desagradável (depois de sair da chuva, admito). Mas desconfio que para a maioria dos portugueses, adeptos do Sol e do «bom tempo», seja quase como viver numa deprimente realidade alternativa. Ainda assim, talvez alguém devesse avaliar a produtividade nacional nestas alturas. Em nenhumas outras temos condições tão próximas das dos países nórdicos.



Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
Se as pudéssemos exportar, fazia sentido
Ontem, durante o noticiário de um canal televisivo, passava em rodapé a informação de que o Primeiro-Ministro considera fundamental o aumento das exportações. Ao mesmo tempo, um repórter explicava que Sócrates fora a Ansião anunciar o investimento em estradas.



Gostava de ter escrito algo mais profundo mas saiu-me apenas isto
Não acredito no Além mas provo assiduamente a existência do Aquém.


publicado por jaa às 08:41
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Domingo, 10 de Janeiro de 2010
Paisagens bucólicas: 8

Sabugueiro, no Inverno passado. Depois do frio deste fim-de-semana não deve estar muito diferente.



Sábado, 9 de Janeiro de 2010
Estrada a evitar
Realizador deste filme, Hillcoat também me merecia crédito. Mas nem por isso eu deixava de ter medo. Descubro-me com razão demasiadas vezes hoje em dia. E a detestar que isso aconteça.


publicado por jaa às 00:22
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Um banqueiro que pensa e fala
Sócrates reagiu como se esperava ao estudo do BPI sobre as perspectivas de evolução da economia portuguesa. Atacou. Há muito que Sócrates está na fase em que nenhum argumento contra as suas posições é válido ou, sequer, digno de análise. No editorial do i, André Macedo chama-lhe «o dono da bola». A imagem é boa e a referência ao mundo do futebol particularmente apropriada: está cheio de gente que também não aceita críticas. Quanto a Ulrich, é o único banqueiro capaz de assumir publicamente ter discordâncias com o governo. Os outros? Os outros estão demasiado ocupados a lamber as botas a Sócrates e, numa incrível demonstração de miopia, a calcular os lucros que terão com os projectos de financiamento das obras públicas.



Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
A dignidade teimosa dos derrotados

As primeiras trinta páginas de Pudor e Dignidade, do norueguês Dag Solstad, passam-se quase inteiramente dentro de uma sala de aulas. O professor, que só virá a ter nome quando sair do recinto escolar, ensina língua e literatura norueguesas a alunos do secundário que o ouvem discorrer sobre Ibsen no silêncio agressivo dos jovens forçados a suportar algo que consideram uma perda de tempo. Qualquer professor reconhecerá o cenário. Basta substituir «Ibsen» por «Gil Vicente» ou por «sistemas de equações».
 
Elias Rukla tem cerca de cinquenta anos e repete a mesma matéria todos os anos há vinte e cinco. Fá-lo com sentido do dever e do seu papel na sociedade. Um sentido do dever, viremos a sabê-lo, que ganhou forma no final dos anos sessenta, época em que as ilusões da juventude e os ventos da história pareciam tornar possível a construção de uma sociedade onde cada pessoa desempenharia o seu papel (qualquer que ele fosse, pois todos seriam importantes) com dedicação e consciência do dever. Foi a época em que Rukla conheceu Johan Corneliussen (e a companheira deste, Eva Linde, tão bela «que parecia haver um vento irreal a animá-la»), jovem universitário de inteligência brilhante, estudioso de Kant, marxista, bon-vivant, visionário, com quem manteve longas e estimulantes conversas. Aqueles rapazes e raparigas na sala de aula de Elias Rukla podem não entender por que lhes fala sobre as peças de Ibsen mas os adultos em que se vão transformar beneficiarão do que ele lhes diz. Serão mais cultos e capazes. Terão capacidade para distinguir entre o bem e o mal, entre o bom e o mau, entre o importante e o acessório. É por isso que Rukla ali está, é isso que diz a si próprio há vinte e cinco anos. E, mesmo depois de tanto tempo, de vez em quando Rukla ainda se surpreende descobrindo em plena aula coisas novas nas peças de Ibsen. Pormenores em que não reparara antes. Explicações em que não pensara. Durante anos, esses foram momentos de alegria e de realização. Mas, progressivamente, deixaram de o ser. Quando, na aula com que o livro se inicia, Rukla sente ter compreendido pela primeira vez a razão que levou Ibsen – «que costuma burilar com precisão as suas personagens e cenas, não deixando nada ao acaso» – a incluir uma personagem aparentemente dispensável na peça O Pato Selvagem, depara-se primeiro com a indiferença e depois com a clara hostilidade dos alunos. Eles – e eles não são mais do que uma amostra da sociedade actual, viciada no superficial e no acessório – não só não estão interessados como preferem não saber. Já fora da sala da aula, Rukla explode. Tem um acto insensato, que pode não parecer especialmente grave mas, para uma pessoa tão inflexível quanto ele, é indesculpável. Vai fazê-lo repensar tudo.
 
Há milhares de Elias Ruklas em Portugal. Têm a mesma idade que ele (agora, cerca de sessenta anos) e são o que às vezes se designa por «comunistas ortodoxos». Pessoas que combatem a desilusão há mais de trinta anos. Que se recusam a aceitar que o mundo igualitário com que sonham esbarra invariavelmente na natureza humana. Como, aliás, Corneliussen, o mentor de Rukla, percebeu em meados dos anos setenta, quando decidiu abandonar a mulher, a filha de seis anos, a Noruega e o próprio Elias Rukla para se dirigir a Nova Iorque e usufruir das benesses do capitalismo. A justificação é um portento de cinismo (ou talvez de realismo): «Contou-lhe que se iria pôr ao serviço do capitalismo (um sarcasmo, ou talvez se diga ironia). Elias não ficou surpreendido. Pois Elias não duvidava que Johan Corneliussen ainda era marxista, mas de que lhe serviria isso? Possuía uns conhecimentos extraordinários, o marxismo, que lhe proporcionavam uma capacidade superior para interpretar os sonhos das pessoas quando estão onde estão, ou seja, aqui, nesta sociedade. Só ao serviço do capitalismo poderia pôr em prática as suas capacidades, porque o capitalismo é o único sistema que pode aproveitar e tirar partido destes sonhos, e sobretudo, empregar os intérpretes de sonhos. O marxismo como tal tem implícito um moralismo, de carácter educativo, que entra em conflito com a possibilidade de utilizar essa capacidade.» Há também milhares de Corneliussens em Portugal. Encontram-se no Estado, em lugares de topo de empresas públicas e privadas, em altos cargos da política internacional. São os que tiveram inteligência mas não pudor nem dignidade.
 
(Uma nota para referir que o livro é um dos três primeiros lançamentos da nova editora Ahab, com sede no Porto, e que tanto a selecção de obras – de autores injustamente pouco conhecidos – como o cuidado posto no aspecto gráfico e nas traduções – com menção do nome do tradutor na capa – merecem rasgados elogios. Já alguém escreveu algures que faz lembrar a fase inicial da Cavalo de Ferro e a comparação tem algum sentido.)
 
Pudor e Dignidade, de Dag Solstad
Edição Ahab, tradução de Liliete Martins



Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
Ainda a senhora de 71 anos
Tenho que enviar um postal à Joyce Carol Oates agradecendo a ajuda que me tem dado na promoção deste blogue. Ao José Mário Silva, por isto, agradeço aqui.



Cães e gatos pela cidade: 3




Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
Como ficar mais novo e ajudar Teixeira dos Santos
Crítico de Sócrates e dos seus soldadinhos, não posso, depois do sentido apelo do ministro Lacão e em nome dos «superiores interesses do país» (que expressão gira), deixar de sugerir uma medida para ajudar a diminuir o défice público. É certo que, contrariando os meus princípios, «produz efeitos do lado da receita» (outra expressão magnífica), mas isso nunca antes deteve os nossos queridos governantes e a verdade é que estou já ciente – como julgo estarmos todos –  de que as grandes obras públicas são mesmo indispensáveis para o bem estar da «sociedade civil» (ou, pelo menos, da construção civil) e, para minha enorme surpresa, descobri não me ser fácil sugerir despedimentos ou cortes salariais na função pública (estou a amolecer com a idade e em mais do que um sentido). Fico-me então por um modesto mas sincero contributo «do lado da receita» (perdoem-me a repetição mas uma pessoa sente-se quase economista de painel televisivo ao usar estas expressões). A minha proposta é simples de implementar, exigindo apenas duas ou três pessoas para trabalhar mais um chefe de serviços e, eventualmente, um director para tudo o resto que for necessário, para além de ajustes mínimos no sistema informático já instalado (em alternativa, por questões de marketing político ou para aproveitar sobras, pode montar-se uma pequena rede de Magalhães). É também muito fácil de explicar: o Estado, através dos balcões do registo civil, aceitaria requerimentos de «pessoas individuais» (outra expressão catita) visando a diminuição da sua (delas, «pessoas individuais») idade, cobrando taxas e emolumentos (uma palavra tão bonita que dispensa aspas) de valor directamente proporcional ao número de anos a retirar. Taxas e emolumentos elevados, que quem quiser dispor da possibilidade de provar, mostrando o pequeno e reluzente cartão de cidadão, não ter mais do que vinte e nove anos, apesar da pele da cara artificialmente retesada, da pele do pescoço inegavelmente enrugada, das manchas amareladas na pele dos antebraços e do queixume que lhe sai dos lábios de cada vez que se põe em pé, deverá pagar pelo menos o equivalente ao custo de uma operação cirúrgica de complexidade média. Ainda assim, estou convencido de que a medida permitirá encaixar várias dezenas de milhões de euros: há por aí muitas pessoas que se endividarão de bom grado para ficarem oficialmente mais novas.
 
(Imagem retirada daqui.)


publicado por jaa às 12:57
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Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
O amor é cego e as mochilas são todas iguais
No ArrábidaShopping, três raparigas de dezasseis ou dezassete anos sobem à minha frente nas escadas rolantes para o piso dos restaurantes. Duas vão quase viradas uma para a outra, em extremos opostos de um degrau, enquanto a terceira segue um degrau mais abaixo, de costas para mim. Leva uma mochila cinzenta onde está escrito à mão «Beatriz Vieira» e, mais abaixo, em duas linhas e letras maiores, «AMO-TE SANDRA, H.» (Na mochila não existe a vírgula; em vez disso, o «H.» encontra-se à frente do nome «Sandra», numa posição ligeiramente inferior, como os índices que indicam o número de átomos de cada elemento nos compostos químicos.) Enquanto as escadas nos arrastam para o burburinho da zona de restauração vou tentando encaixar as peças do puzzle. É provável que exista uma explicação mais simples mas a única que me ocorre é H. (Hugo? Hélder?), cego pelas hormonas, pela falta de senso da adolescência e pela incapacidade masculina para reparar em pormenores, se ter enganado na mochila e Beatriz ter decidido identificá-la para evitar novas confusões. Aliás, acho tanta piada a esta hipótese que se a realidade for outra, mais prosaica, dispenso conhecê-la.


publicado por jaa às 19:47
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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Modéstia
Quando Bruno Vieira Amaral escolhe um post d'O Escafandro como «post do ano», ou quando a Margarida coloca um pequeno texto meu junto a um do Pedro Lomba, ou quando o Senhor Palomar elogia outra das minhas divagações, o meu embaraço é absolutamente genuíno. Há uma pitada de prazer? Com certeza. Mais do que uma pitada, até. Seria ridículo (e uma tremenda mentira) negá-lo. Mas há também a noção de que, actualmente, a modéstia é uma demonstração de sensatez. É insegurança e consciência de que antes outros já fizeram o mesmo, e de que provavelmente o fizeram melhor. Aliás, seria estranho que tal não tivesse sucedido, considerando os milhões de páginas de livros, de artigos de jornal, de posts em blogues produzidos desde que sumérios e egípcios aprenderam a rabiscar.
 
Veja-se este post (este mesmo que está a ler): estou absolutamente convencido de que ainda recentemente milhares de pessoas escreveram textos similares, em livros, jornais, revistas e blogues. Textos em que referiram como é difícil ser original (ou apenas fugir ao óbvio) nos dias que correm. Quando clicar no botão Publicar, fá-lo-ei consciente de que, a qualquer instante, alguém pode colocar na caixa de comentários: «O escritor X escreveu muito melhor sobre este assunto no início do século XX» ou, pior, «Você plagiou este post do blogue ‘Parafina Cor-de-Rosa’» (que é melhor procurar saber se existe antes de publicar o post porque, se existir e se o autor alguma vez lá tiver escrito algo parecido com este texto, ninguém acreditará ter sido coincidência).
 
Por isso, de cada vez que coloco um texto n'O Escafandro, faço-o com o receio que nasce de saber o suficiente para ter consciência dos seus pontos fracos, da sua quase certa trivialidade, e das elevadas probabilidades que existem de que tenha já sido escrito por outra pessoa qualquer, homem ou mulher, em Portugal ou na Patagónia, em 2010 ou em 1810. (E agora não consigo deixar de imaginar um antecessor do Bruce Chatwin, sentado junto a uma fogueira no descampado onde viria a nascer Ushuaia, rabiscando num antecessor dos cadernos Moleskine quão difícil é ser original e ponderando qual a melhor forma de encarar os elogios.) Porque, claro, nem eu nem ninguém leu tudo. (O professor Marcelo já folheou todos os livros do mundo mas ler, verdadeiramente, não os leu.) E assim, quando chegam, os elogios causam-me uma reacção a três tempos. Primeiro sinto-me ufano e digo para mim mesmo que sou melhor do que às vezes me considero: afinal, são seres inteligentes, que eu admiro por escreverem bem e até conseguirem ser originais ou, pelo menos, dar uma forma original aos temas que abordam, quem me elogia. Mas essa primeira fase de satisfação dura poucos segundos. É seguida por outra, em que, combatendo a vontade de espreitar por cima do ombro, pondero como terei conseguido enganar aquelas pessoas. E o fácil que foi, caramba. E então sinto outra vez orgulho, mais pelo logro que perpetrei do que pelo texto que escrevi, ainda que nunca separado do receio – insidioso, corrosivo de poder ser desmascarado a qualquer instante como a fraude que certamente sou. Porque, conhecendo-me (e eu conheço-me razoavelmente), estou consciente de que não mereço os elogios.
 
Resta-me terminar repetindo o que escrevi no primeiro parágrafo: a modéstia (mesmo a que inclui um pouquinho de falsidade) é indispensável nestas coisas. É puro bom senso. Sei-o melhor do que ninguém. Modéstia à parte.

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Domingo, 3 de Janeiro de 2010
Compromissos
Nos sonhos não existem compromissos. Quando os sonhos ficam demasiado intensos, acordamos. Estar acordado (mais do que estar vivo) é aceitar compromissos.


publicado por jaa às 18:51
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Sábado, 2 de Janeiro de 2010
Gosto mais de praias desertas: 7



publicado por jaa às 19:10
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Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
O balanço
Agora que a década já acabou há dezasseis horas e quarenta e sete minutos (bem, obrigado) começa a ser possível analisá-la com algum distanciamento crítico. Não tendo sido uma década brilhante, podia ter corrido pior. Afinal, tanto eu como quem me lê (com a possível excepção do pessoal do É Tudo Gente Morta) ainda estamos vivos. Em Portugal, foi marcada por uma crise económica (internacionalmente aconteceram duas mas nós, viciados em crises como somos, conseguimos uni-las) e por uma praga. Da crise não vale a pena falar. A praga chamou-se (e chama-se) Partido Socialista: prosseguindo o trabalho preparatório encetado na década anterior, teve no início desta um papel fundamental na origem da crise e empenha-se afincadamente ainda hoje no seu agravamento. Se fosse de atribuir prémios, dar-lhe-ia o prémio «coerência».
 
O acontecimento da década foram, evidentemente, os ataques de 11 de Setembro de 2001, por terem causado milhares de mortos e duas guerras mas, mais importante, por terem criado o vilão com tendências aparentemente apocalípticas que as pessoas mais adoraram detestar desde que Peter Sellers fez de Dr. Estranhoamor. (Mas o sidekick, aquele que disparava em companheiros de caçada, assustava mesmo). Felizmente, o final da década trouxe de novo esperança à humanidade com o surgimento de um super-herói que, ao contrário do Batman, do Surfista Prateado, do Darkman, que são personagens negras, torturadas, quase psicóticas, é apenas negro.
 
Quanto àquelas coisas de «álbuns da década», «livros da década», «filmes da década» e «etceras da década» tenho que confessar que ainda não pensei nisso  a sério. Sim, o álbum da década é provavelmente Funeral, dos Arcade Fire (mas os que mais vezes ouvi foram Regeneration, dos The Divine Comedy, logo em 2001, e o par Wide Awake, It’s Morning / Digital Ash in a Digital Urn, de Bright Eyes, em 2005), o livro da década é A Estrada, de Cormac McCarthy, o filme da década… nah, ainda não vou arriscar, até porque o meu cérebro, filho da mãe irritante que se julga mais esperto do que eu, me está a martelar incessantemente aos ouvidos (não faço ideia de como o consegue, ainda por cima quando lá tenho enfiados um auscultadores debitando Animal Collective) «Chris Nolan, Wes Anderson, Chris Nolan, Wes Anderson…» e não me apetece parar para analisar tudo o que isso implica. Mas não me importo de escolher o videojogo da década (Ico, para a Playstation 2), o desportista da década (Roger Federer, quem mais?*) e o pastel de nata da década (o que comi no dia 24 de Setembro de 2002, em jejum, facto que admito poder ter tido influência na impressão que me deixou).
 
* Eu sei que também há um senhor chamado Tiger Woods mas continuo relutante em chamar desporto a uma actividade em que não se transpira pelo menos um bocadinho.


publicado por jaa às 16:47
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