como sobreviver submerso.
Segunda-feira, 22 de Março de 2010
Da hipótese de inteligência por baixo da evidência de beleza
«As mulheres interessantes são mais interessantes que os homens interessantes. São é menos.»
Pedro Mexia
 
Quando um homem diz que uma mulher é «interessante» não costuma estar a pensar na aptidão que ela demonstra para discutir apaixonada e pormenorizadamente se os melhores filmes de Alfred Hitchcock são os do período inglês ou os do período norte-americano. Uma mulher é interessante, antes de qualquer outra consideração, pelas mesmas razões que um Aston Martin é interessante: questão de linhas (ou curvas) e capacidade para gerar excitação, nervoso miudinho e vontade de – acho que não há forma de escrever isto sem parecer machista, pelo que nem vou tentar – dar uma voltinha.
 
Mas, claro, não era (apenas) a isto que Pedro Mexia se referia. Ele estava também a pensar no conhecimento da obra do Hitchcock. Mas por que existem menos mulheres interessantes do que homens interessantes? Talvez o sentido prático (e mais instintivo) das mulheres as leve a não se deixarem enredar em questões razoavelmente etéreas. Afinal, não é mais importante fruir os filmes do Hitchcock do que escalpelizá-los? Ou talvez o facto decorra da falta de tempo (diga-se o que se disser acerca da igualdade dos sexos, a maioria das mulheres tem o tempo muito mais ocupado do que a maioria dos homens). Seja pelo que for, concordo com Pedro Mexia: as mulheres interessantes são mais interessantes que os homens interessantes (bom, desde logo são mulheres), mas são menos. Já o escrevi antes: há mais grandes escritores, filósofos ou mesmo músicos do sexo masculino do que do feminino (mas note-se como a situação é mais equilibrada nas artes plásticas). De qualquer modo, independentemente do número que por aí ande, a pergunta fundamental é: como reconhecer uma mulher interessante ao vivo? (As meninas que ainda estão a ler – prova mais do que suficiente de que são interessantes mas também de que isto não tem nada a ver com bom-senso – podem inverter os papéis e pensar em homens interessantes, ok?) Serão as que frequentam museus, vernissages e festivais de cinema? Hmmmmm, dificilmente: não parecem muitas dessas mulheres apenas pomposas e presunçosas? E que tal aquelas que lêem nos transportes públicos? Sejamos honestos: em primeiro lugar, são poucas; em segundo, são com frequência e na outra acepção do termo, pouco interessantes; por último, estão invariavelmente a ler Miguel Sousa Tavares ou Dan Brown, o que diminui bastante o interesse que suscitam, mesmo na acepção do termo de que estamos a falar. As que escrevem em blogues? Algumas, são-no certamente. Outras... nem tanto. E, de resto, eu estava a tentar descobrir como reconhecê-las ao vivo. Por enquanto, a net ainda não equivale à vida real, pelo menos para pessoas interessantes. (Na televisão, muito embora continuem a ver-se poucas, é mais fácil reconhecer uma mulher interessante: tem o cabelo que a Paula Moura Pinheiro tinha antes de o cortar, os olhos que a Paula Moura Pinheiro ainda tem, e apresenta programas com títulos roubados a livros sobre fotografia escritos por Roland Barthes.)
 
A verdade é que uma mulher – como um homem, de resto – é quase sempre mais interessante enquanto possibilidade do que como realidade. Há uma dúzia de anos, havia uma rapariga ruiva (já confessei a minha atracção por ruivas, não já?) na Fnac do NorteShopping. Estava habitualmente em pé junto a um balcãozinho contíguo à secção de música clássica, vestindo calças de ganga azuis e o coletezinho verde e ocre da Fnac. Foi uma época em que comprei muita música clássica, pelo que a via com frequência. (A ordem é mesmo esta, ou alguém acredita que eu era capaz de perder a cabeça ao ponto de comprar Salomé só por causa de uma rapariga ruiva?) Tinha uma face larga e cabelo comprido encaracolado. (Que homem heterossexual não gosta de cabelo comprido e encaracolado nas mulheres, por muito fora de moda que em certas épocas possa estar?) Falei com ela um par de vezes, se tanto. (Apenas para encomendar óperas; não tenho a certeza se lhe encomendei O Elixir do Amor, se a Filha do Regimento, de Donizetti; o meu cérebro inclina-se para A Filha do Regimento mas o meu instinto teima que foi O Elixir do Amor.) Lembro-me que era excelente a efectuar pesquisas no computador (encontrou-me a ópera sem qualquer dificuldade) e que tinha um sorriso bonito (mas não creio que alguma vez tenha sorrido para mim, mesmo na sequência daquelas coisas que se dizem quando se pretende ter piada, como «a Tosca da Callas» ou «isto ainda há-se ser cantado a sério, por quatro rapazes esbeltos vestidos com fatos escuros e ar pomposo»). Depois, um dia, deixei de a ver por lá. Provavelmente arranjou um emprego mais bem remunerado, casou-se, teve filhos, engordou, entristeceu, e nunca mais pensou em óperas. E é esta a verdadeira dúvida: aquela rapariga ruiva era interessante ou tinha potencial para o ser? E deve um homem procurar logo uma mulher interessante ou uma que tenha potencial? Quase todos os homens têm uma costela de Pigmalião, é certo. Mas, especialmente nos dias que correm, as mulheres não são fáceis de moldar, pelo que apostar numa que apenas pareça ter potencial para ser interessante comporta sérios riscos de desilusão. É talvez por isso que, numa visão romântico-pessimista, as mulheres mais interessantes são aquelas que verdadeiramente não se chegam a conhecer. (E aposto que elas podem dizer o mesmo acerca dos homens.) Afinal, mesmo que a rapariga da Fnac nem sequer gostasse de música clássica, eu achá-la-ei eternamente interessante.
 
(E, nunca fiando, dispenso conhecer pessoalmente a Paula Moura Pinheiro.)
 
(Ou não.)


publicado por José António Abreu às 08:38
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21 comentários:
De redonda a 22 de Março de 2010 às 14:38
Vou comentar porque sou interessante apenas por ter lido e se não comentasse, não se saberia que tinha lido e já não o seria...
Como é que se reconhece um homem interessante ao vivo? Ouvindo-o. Os homens mais interessantes que conheci foram professores ou formadores ou escritores que dominavam os temas que tratavam e foi fascinante estar apenas a seguir o seu raciocínio...(estou a retirar da equação os que conheço a nível pessoal com pai, namorado, amigos, também interessantes objectiva e subjectivamente).
E, por outro lado penso que se for interessante mesmo, é melhor conhecê-lo como realidade do que como possibilidade (se não for, então se se tivesse ficado pela possibilidade seria manifestamente melhor)


De José António Abreu a 22 de Março de 2010 às 19:02
Ah, mas a esses conheceu-os apenas durante algumas horas, ou dias. Pode um homem manter-se interessante durante décadas de convívio regular?
(Não responda que sim que eu fico com inveja.)

É, no entanto, evidente que, se queremos viver e não apenas pensar em viver, convém arriscar de vez em quando.


De redonda a 22 de Março de 2010 às 23:07
Décadas, décadas propriamente ainda não sei, mas penso/espero que sim.


De Margarida a 22 de Março de 2010 às 18:15

... acho que vou subscrever o comentário anterior e fiquemos assim...


De José António Abreu a 22 de Março de 2010 às 19:10
 Ok.







 A sério?







 Ufff...




De Margarida a 22 de Março de 2010 às 19:31
... por enquanto. E o que subscrevo são as palavras 'redondas'...
Os seus textos requerem leitura pausada. Ponderada.
Sabe bem que é bom demais para andar "perdido" na blogoesfera.
E depois, não se pode andar aqui todos os dias a aplaudir que gasto palmas!

Supimpa. 
A sério. 



De José António Abreu a 22 de Março de 2010 às 20:15
Elogios é bom. Especialmente quando eu estava com medo de um raspanete.


De Margarida a 22 de Março de 2010 às 22:17
RASPANETE?!?!?!?

 


De José António Abreu a 23 de Março de 2010 às 08:37
Por passagens ligeiramente sexistas, referência aos olhos da PMP, e outras coisas assim...


De Margarida a 23 de Março de 2010 às 17:36
Meu Amigo, quando é justo, é justo.
Um cavalheiro normalmente 'é' sexista. Nada a fazer...; quanto aos olhos da menina, sou a primeira a afirmá-lo: lindos.


De Cristina Ribeiro a 22 de Março de 2010 às 19:12
Haverá mais homens interessantes do que mulheres, talvez, porque o juízo feminino de " interessante " não se prende tanto com as tais linhas ( ou curvas ), pelo que o seu espírito crítico é muito mais abrangente :)


De José António Abreu a 22 de Março de 2010 às 20:06
Também, Cristina, também. Mas olhe que as mulheres andam a prestar muita atenção a esses aspectos...

Se calhar andamos todos, homens e mulheres, a ficar mais fúteis. Ou ainda mais fúteis.


De paula a 22 de Março de 2010 às 20:38
Pode um homem manter-se interessante durante décadas de convívio regular? - não conheço nenhum caso em que aconteça, e conheço muitos casos por aí.

há mais homens interessante - sim talvez e também talvez porque se desgastem menos no trabalho e tarefas diárias, não será?

não há nada como manter razoável distância e fraca assiduidade para conservar algum interesse


De José António Abreu a 23 de Março de 2010 às 08:40
Ah, uma realista. Ou talvez uma mulher casada...


De MARIA JOSE FERREIRA a 23 de Março de 2010 às 08:01
Pois olhe que eu leio Miguel Sousa Tavares,ando
de transportes públicos,e acho-me bastante interessante.


 


De paula a 23 de Março de 2010 às 09:24

zezinho, o que é ser casado?


De José António Abreu a 23 de Março de 2010 às 10:13
Hmmmmm, viver com alguém que se achava interessante o tempo suficiente para mudar de opinião?


De paula a 23 de Março de 2010 às 10:47
tschiiiiiiiiiiiiii............... e a realista sou eu?????


De MARIA JOSE FERREIRA a 23 de Março de 2010 às 23:02
O interessante,é ser-se divorciada,solitária,aventureira,optimista apesar
de se ter cancro,e não nos lembrarmos dele.


De José António Abreu a 24 de Março de 2010 às 08:40
Maria José: ok, entalou-me. Estou aqui há vinte minutos a olhar para o ecrã pensando no que escrever. Um comentário como o seu torna quase tudo pueril. Mas não quero fugir ao assunto nem, para fazer jus ao adjectivo «optimista», tornar isto demasiado sério. A mulher que descreve é sem dúvida uma mulher interessante. E talvez ajude a explicar o que nos atrai nos outros: algo de diferente (uma capacidade, uma maneira de ser) que gostaríamos de, por um lado, partilhar (eu, por exemplo, invejo quem consegue ser aventureiro e optimista até sem doenças, quanto mais com elas), por outro, proteger e ajudar a desenvolver. (Nem sempre o conseguimos e às vezes até acabamos a tentar destruí-lo, mas isso é outro capítulo.) Talvez as pessoas interessantes sejam as que nos levam a desejar tornarmo-nos melhores (sabermos mais, sermos mais simpáticos e disponíveis, termos uma visão mais optimista da vida e/ou uma maior consciência de nós próprios), e também (no fundo, as coisas estão relacionadas) as que nos criam um impulso para as fazer felizes.


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