como sobreviver submerso.
Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010
Citação de uma citação de um comentário meu a um post alheio, seguido de algumas notas sobre as relações entre homens e mulheres que só prejudicam o efeito da referida citação

«(..) um homem quer (...): uma mulher que não teria qualquer dificuldade em sobreviver sem ele mas que seja totalmente incapaz de o fazer.»

 
Em resposta a um texto da Margarida escrevi na caixa de comentários do Criativemo-nos uma frase que a Margarida, sempre simpática (ou então tenho um inesperado talento para impressionar mulheres que não me conhecem pessoalmente), transformou em post. Qualquer pessoa sensata agradeceria o privilégio e não acrescentaria uma vírgula ao assunto mas, convenhamos, poucas pessoas sensatas mantêm blogues. Vou então estragar o minimalismo da frase acima com umas quantas considerações que, fossem elas apresentadas por qualquer outra pessoa que não eu, consideraria ridículas.
 
Como a Margarida refere no post dela, a ideia tradicional é que os homens procuram mulheres que lhes permitam sentir-se fortes e protectores. Isso não parece ser verdade hoje em dia. Qualquer homem com três neurónios fica frustrado se uma mulher não tem pelo menos dois. Porquê? Vejamos: antigamente não se pressupunha que as mulheres falassem ou, pelo menos, que dissessem coisas inteligentes. Bastava que possuíssem intelecto suficiente para poderem fazer um ou outro comentário oportuno que realçasse o brilhantismo do que o marido ia dizendo. Hoje, as mulheres não só falam (e algumas falam mesmo muito) como têm opiniões próprias e fazem questão de as exprimir (atitude que antigamente reservavam para espaços como cozinhas e tanques comuns de lavagem de roupa). Mais: a inteligência e independência tornaram-se critérios importantes na escolha dos homens. Não é segredo para ninguém que um homem gosta de ser acompanhado por uma mulher atraente. Gera inveja nos outros homens e deixa as restantes mulheres a pensar (especialmente se ele não parecer irmão gémeo do Brad Pitt) que talentos escondidos possuirá (ou quão recheada será a sua conta bancária*). Em círculos onde a leitura efectuada durante o ano vai para além do jornal A Bola ter uma mulher inteligente, dinâmica, com carreira e opiniões próprias funciona de modo similar. Diz: meus caros, eu tenho capacidade para mantê-la intelectualmente satisfeita. E, como as mulheres inteligentes são suficientemente inteligentes para potenciar os atributos físicos positivos e disfarçar os negativos, uma mulher inteligente é quase sempre uma mulher atraente. O homem tem assim o melhor dos dois mundos.
 
Só há um problema. Pessoas inteligentes e com elevada auto-estima têm altos níveis de exigência**. Não se contentam com pouco e – se calhar não são assim tão inteligentes – até desejam cada vez mais. Quase inevitavelmente, surgem os atritos e as desilusões. Ora um homem não gosta de ser posto em causa. Pelo que ele, mesmo hoje, não deixa de desejar (confesse-o ou não) um certo nível de dependência emocional por parte da sua bela e inteligente companheira. Sorri, com condescendência e carinho, quando ela o chama para matar uma aranha pateticamente minúscula. Faz peito e retesa os bíceps quando ela lhe pede para abrir um frasco de compota. Sente-se um génio quando ela reconhece a superioridade dele a interpretar mapas. Pensa que a ama quando ela elogia os seus dotes de condução. E é mais feliz quando acredita que ela o ama perdidamente por todas estas qualidades (e, nem deve ser preciso referi-lo, por ser excepcionalmente bom na cama). Daí a frase lá de cima.
 
Claro que a pergunta seguinte é: pode um homem conseguir uma mulher assim? Como não sou pessoa para estar com rodeios, e por muito que, considerando a complexidade da pergunta, isto vos possa surpreender, vou ser claríssimo: talvez. Não porque a mulher se mantenha eternamente deslumbrada por ele (se até as menos inteligentes e mais carentes acabam por perceber que os homens não merecem tal, por que não o fariam as restantes?). Pode consegui-lo (desde que não cometa erros graves) precisamente por causa da inteligência e auto-confiança dela. Uma mulher inteligente e independente sabe que não precisa do marido. Mas, nos momentos de dúvida, pode perceber que, mesmo não havendo já a paixão de outros tempos (isto da paixão – vai ser uma imagem linda, acreditem – é como um motor de automóvel: não pode manter-se sempre na rotação máxima porque o desgaste rapidamente o faria partir***) e tendo entretanto o companheiro desenvolvido comportamentos tão, mas tão irritantes existem ainda assim muitos motivos para manter a relação. Por exemplo, todos os outros detalhes que sempre a encantaram: a capacidade de a fazer rir; de lhe aquecer os pés na cama; de a apaparicar quando adoentada; de matar aranhas, fingindo uma coragem que, na realidade – foi sempre tão óbvio para ela –, nunca teve. A mulher independente pode, porque se sabe independente, decidir ficar por razões perfeitamente compreensíveis. Por perceber e aceitar que o amor se transforma com o tempo numa coisa mais baseada no carinho do que na paixão, sem que isso seja necessariamente mau (é um bocadinho, vá). Aconselha-se é a não informar o companheiro do processo mental que seguiu. Porque – nunca se esqueçam – para ele é importante acreditar que ela continua ali por necessitar verdadeiramente dele.
 
A Margarida pergunta-se ainda se serão hoje em dia homens e mulheres assim tão diferentes, uma vez que as mulheres também buscam homens decididos, seguros de si, inteligentes (como, de resto, sempre fizeram). A minha conclusão é a dela: talvez não sejam. Especialmente porque as mulheres não procuram apenas isso: se os homens acrescentaram esses pontos à lista de características a desejar numa mulher, as mulheres acrescentaram a sensibilidade, a preocupação com a aparência, o talento para a cozinha e a disponibilidade para lavar a louça aos predicados a procurar num homem. Ou seja, homens e mulheres esperam actualmente tudo uns dos outros. Alguém ainda se surpreende que seja tão difícil manter uma relação nos dias que correm? 
 
* Antes que me acusem de machismo, isto também funciona ao contrário, quando mulheres pouco atraentes se fazem acompanhar por mancebos com feições, corpos e, muitas vezes, intelecto de Cristiano Ronaldo.
 
** Se me permitem uma ideia politicamente incorrecta – e que remédio têm vocês – há uma receita que continua a produzir relações razoavelmente funcionais: aquela que une homens pouco inteligentes a mulheres pouco exigentes. Pensem um instante e vão ver que é uma excelente mistura para relações longas, embora – digo eu – pouco satisfatórias.
 

*** Mas não faz mal nenhum, muito pelo contrário, puxar por ele de vez em quando.



publicado por José António Abreu às 22:22
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19 comentários:
De Cristina Ribeiro a 11 de Fevereiro de 2010 às 23:35
Parabéns, JAA. Um verdadeiro tratado sobre a sedução no mundo actual, em que todos nos tornámos mais exigentes.


De José António Abreu a 12 de Fevereiro de 2010 às 08:41
Obrigado, Cristina. É bom estarmos mais exigentes mas às vezes estamo-lo tanto que temos dificuldades em contemporizar. Em saber distinguir o essencial do acessório.

E vou ficar por aqui porque, apesar de ter acabado de escrever um milhar de palavras sobre o assunto, que percebo eu disto?...


De joana a 12 de Fevereiro de 2010 às 09:46
Tudo isso é bom senso e tudo isso se deduz da frase minimalista. Não entendo ter suscitado tanta controvérsia. 


De José António Abreu a 12 de Fevereiro de 2010 às 11:30
Bom senso, espero bem que sim. Controvérsia, até agora nem por isso. Que tudo se deduzia da frase inicial é muito provavelmente verdade mas, desde os tempos em que lia policiais do Ellery Queen e delirava com o processo dedutivo que se seguia ao 'desafio ao leitor' (até porque nunca conseguia unir os indícios e descobrir o culpado), não resisto a explicar tudo bem explicadinho, não vá haver por aí outras pessoas tão limitadas quanto eu.


De Margarida a 12 de Fevereiro de 2010 às 10:07
Ena! Brilhante!
V.Exa. é especialmente superlativo a explanar raciocínios
Este tema não se esgota, precisamente porque o relacionamento entre os sexos evolui, desenvolvendo-se novas relações de 'força'.
E a sedução (própria e alheia) está em franca expansão.
Portanto, continuemos a debater a ideia, porque o interesse nãos e esgota aqui - por mais que parece que V.Exa. desferiu um K.O.
E os 'desafios' são constantes.
E galvanizantes!


De José António Abreu a 12 de Fevereiro de 2010 às 11:37
Obrigado, Margarida. Mas não sei se acredito que seja "superlativo" a explanar raciocínios. Primeiro, porque me parece quase impossível que algo bem estruturado e lógico possa sair de um cérebro tão desarrumado como o meu; depois, porque às vezes nem eu percebo o que quis dizer; finalmente, porque me farto de explicar certas coisas a certas pessoas na 'vida real' e elas parecem não me perceber...


De Margarida a 12 de Fevereiro de 2010 às 11:41
Faça o favor de não me contrariar, sim?
Não gosto nada (sou uma mimalha caprichosa, na realidade)
E, para que saiba, isto ainda não acabou aqui...
( o tema, quero dizer).
Quanto à limitação (dos outros), é não permitir que nos abale.
Nós estamos sempre certos!  
(é só disparates, mas deve ser deste raio de frio polar! congela-me as ideias!)


De José António Abreu a 12 de Fevereiro de 2010 às 11:53
Eu gosto de frio. É revigorante.

Er, peço desculpa...


De Margarida a 12 de Fevereiro de 2010 às 15:59


De Margarida a 12 de Fevereiro de 2010 às 16:00

...pronto, pronto vá...

 


De bluesy a 12 de Fevereiro de 2010 às 17:16
A única coisa que, a meu ver, pode levar uma mulher inteligente e independente (não gosto dos rótulos, mas dentro do contexto entendo-os), a prolongar uma relação já "gasta" tem apenas a ver com a satisfação dos instintos mais básicos. Sim, falo da cama e aí não há inteligência que salve a história. Se o sexo for bom, a mulher reconsidera. Perdoem a franqueza, mas motivos relacionados com aranhas, pés quentes e afins não acontecem na realidade de hoje. Claro que o jaa estava a ser irónico e provocador, mas ainda assim...


De José António Abreu a 12 de Fevereiro de 2010 às 19:21
Hmmmm, acho que depende um pouco do que entendemos por "relação gasta". Se falamos de discussões frequentes, desprezo mútuo, etc, estamos de acordo: há poucas mulheres (e homens) com auto-estima que suportem a situação. Foi por isso que escrevi "desde que não cometa erros graves". Mas se nos referimos aos desentendimentos pontuais e 'normais' em qualquer relação (aqueles que duas horas mais tarde já não parecem tão graves), considero que muita gente é ainda capaz de contemporizar, como escrevi no post. (O "ainda" é propositado porque não faço ideia do que as pessoas hoje com vinte ou vinte e cinco anos farão quando se encontrarem nessas situações.) Quanto ao sexo, duvido que existam muitas relações com mais de, vá lá, dez anos em que ainda seja um factor de deslumbramento (na maioria delas nem será frequente, quando mais deslumbrante.) E, apesar de tudo, há bastantes relações com mais de dez anos.

Claro que tudo isto não passa da minha opinião - com muita especulação e divagação à mistura.


De Margarida a 15 de Fevereiro de 2010 às 09:51
Puxa..., qual especulação ou divagação! Direitinho ao ponto, é o que é! ... se calhar é o Júlio Machado Vaz disfarçado de José Abreu! Era giro!
Que engraçado..., tirando os 'profissionais', espero sempre este tipo de análises escorreitas de mulheres.
Os homens enrolam-se todos nas 'explicações' e pensam pouco nisto. É-lhes desconfortável, sobretudo quando estão enfiados num destes relacionamenteos gastos e acomodados.
Dá pouco jeito, pensar nisso...
Compreensível, claro...; lidam menos bem com a realidade.
Já as senhoras enfiam os dedos, as mãos, os punhos, os braços todos na relação e esmiuçam até ao osso.
Um desespero...
Uma lucidez mórbida.
Por acaso, acho uma beleza, mas isso sou eu... (que não devo regualr lá muito bem ou devia era ter cursado psicologia).



 


De Margarida a 15 de Fevereiro de 2010 às 10:13
Bom dia José!
Vai um frio de rachar, benza Deus!
Take care, dude!


De José António Abreu a 15 de Fevereiro de 2010 às 12:25

OK, voltemos então ao assunto, agora que já despachei a gravação da crónica para a Antena 1…


A questão é mesmo saber o que é uma “relação gasta”. Não creio que seja uma relação em que o sexo já não é fantástico. O sexo é importante, sim, até fundamental no início da relação, mas é muito difícil basear nele vinte ou mais anos de vida em comum, por mais criatividade, comprimidinhos azuis e/ou abertura a experiências alternativas que se tenha. Afinal, ainda sobrarão muitas horas em comum em que se terá de fazer outra coisa (mudar os lençóis, por exemplo).


Concordo com o que ainda este fim-de-semana ouvi na televisão (num noticiário?) a um especialista de não-sei-o-quê numa reportagem sobre fosse-lá-o-que-fosse: uma relação está ‘gasta’ quando os seus membros deixam de estar interessados em ouvir o que o outro tem a dizer. Foi dentro desta lógica que, há meses, escrevi isto:


http://escafandro.blogs.sapo.pt/79583.html.


Adenda: na primeira frase, estava a brincar – o Júlio Machado Vaz já fez cinquenta anos enquanto eu só tenho quarenta e um; o que eu sou, como penso ter deixado subentendido no comentário anterior, é uma mulher.


 


 

(O que vale é que quase todos os homens que conheço na vida real se recusam a ler este blogue. Ei, vocês os três: vejam lá se ficam calados.)


De José António Abreu a 15 de Fevereiro de 2010 às 12:30
Diabos, por que é que saiu em bold? Lei de Murphy, carago: acontece sempre com as coisas que um tipo preferia nem realçar...


De Margarida a 15 de Fevereiro de 2010 às 12:39
ai! carago não, carago1


De Margarida a 15 de Fevereiro de 2010 às 12:39
 
...cuidado prof. Machado Vaz...; tem aqui concorrência de peso...


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