Então porquê? Tentaram comprar os árbitros com dinheiro do FMI? E quem jogaria com a Polónia no encontro de abertura?
Há os países que se vão lixar por estarem sobreendividados. Há os países que se vão lixar por se estarem a sobreendividar. Há os países que se vão lixar por andarem a alimentar o sobreendividamento dos países mencionados nas duas frases anteriores. Há os países que se vão lixar porque vivem de vender petróleo ou gás natural aos países mencionados nas três frases anteriores. E há a Coreia do Norte.
Para a Primavera/Verão, ver cor(es) do vestido da Sharapova no Open da Austrália (finais de Janeiro).
Para o Outono/Inverno, ver cor(es) do vestido da Sharapova no Open dos Estados Unidos (finais de Agosto).
Na verdade, quem cala normalmente discorda mas laborar com base na outra versão é mais simples para ambas as partes.
A Fnac enviou-me um bonito cartão plastificado. Chama-se «cartão Fnac Rock in Rio Lisboa 2012» e garante-me o extraordinário desconto de 5% na aquisição de um bilhete para o referido evento. Promoções em que o nível de pompa está vários graus de grandeza acima do de generosidade deixam-me sempre a pensar se conseguirão gerar receitas suficientes para compensar os custos. Visto continuar a recebê-las, presumo que sim. Esta teve pelo menos o efeito positivo de me levar a olhar para o cartaz do Rock in Rio deste ano (vem na carta) e a comprovar uma ideia já antiga: o Rock in Rio é um festival para ouvintes da RFM e da Comercial; para gente que gosta de dizer ainda apreciar música rock (o termo é importante, numa época em que o rock está mais ou menos morto) ao ponto de até continuar a ir a concertos mas que, na realidade, se encontra entalada na porta de passagem da década de oitenta para a de noventa do século passado. Repare-se: Metallica, The Offspring, Lenny Kravitz, Ivete Sangalo, Stevie Wonder, Bryan Adams, Bruce Springsteen, Xutos & Pontapés, James. Não estou a dizer que toda esta gente é má. Inclui até pessoas que muito prezo. Por exemplo: gosto tanto de Bruce Springsteen que o fui ver a Valladolid em 2009; por alturas de And Justice For All e do Black Album chateei tanto colegas de universidade com gostos a tender para o Phil Collins fazendo-os ouvir Metallica que dois pediram transferência para direito (mentira, já lá andavam e era por isso que eu achava justo chateá-los); tornei-me fã dos Smashing Pumpkins aquando de Gish, o primeiro álbum deles, numa época em que raros eram os que desviavam olhos e ouvidos dos Nirvana e dos Pearl Jam (convenhamos, todavia, que, por muito que o Billy Corgan seja quase tão bom quanto ele pensa ser, os Smashing Pumpkins sem James Iha, D'Arcy Wretzky – desculpa, Melissa – e Jimmy Chamberlin não são os Smashing Pumpkins); e também ainda me lembro de um fantástico concerto que os James deram no Coliseu do Porto há cerca de dez anos. É a acumulação que impressiona. Não seria possível misturar este pessoal (ou parte dele, porque de outra parte nem vale a pena falar) com gente mais recente? Eu sei que a última década não foi pródiga no nascimento de grandes bandas capazes de agradar ao público em geral (coisa linda, o público em geral). Culpa da internet e do carácter cada vez mais efémero da fama, certamente. Mas ainda se arranjam algumas. Imagino que após grande esforço mental, os organizadores do Rock in Rio até conseguiram lembrar-se dos Kaiser Chiefs, colocados a abrir o palco «Mundo» na única noite que poderia levar-me a gastar dinheiro neste mastodonte para quarentões (a faixa etária em que o bilhete de identidade me coloca, note-se). Mas ficaram por aí. Melhor ainda: em vez de misturar, porque não organizar uma noite (uminha só) com música mais recente e alternativa? Não, desculpem, esqueçam. Era capaz de gerar confusões com um festival a sério, como o Super Bock Super Rock – esse sim, quase me convence a fazer trezentos e tal quilómetros para ficar a cinquenta metros de um palco respirando pó, fumo de haxixe e transpiração (ora comparem). Provavelmente é mais seguro assumir uma linha e mantê-la. Permitam-me, então, que dê umas sugestões à Roberta Medina para a edição de 2014: miúda, tenta conseguir os Beatles (sshhh – vocês acham que ela sabe que os Beatles se separaram?), junta o Roberto Carlos e o Júlio Iglésias numa noite gloriosa e, quanto ao recinto, instala cadeirinhas e duplica o número de casas de banho, que a idade não perdoa.
As declarações de Passos Coelho sobre o desemprego foram infelizes, sim senhor. A crise é real e há milhares de pessoas sem perspectiva. Mas teriam sido mal recebidas ainda que as circunstâncias fossem outras, menos graves. Os portugueses são hiper-sensíveis a opiniões claras e desagradáveis. Como, há uns tempos, nos ofenderam as palavras de uma actriz brasileira. Como, durante anos, reagimos mal aos alertas de gente sem jeito nem paciência para disfarçar opiniões: Medina Carreira e Manuela Ferreira Leite, por exemplo. Estamos habituados a escutar em silêncio e a preferir uma promessa que suspeitamos vazia a um aviso sincero. Estamos habituados a compromissos, às relações de poder baseadas na hipocrisia, a fingir que tudo está bem. Não somos piegas no sentido de uma tarefa nos assustar; não queremos é que nos digam que ela é desagradável. Raramente achamos que as coisas vão bem (no limite, «vão indo») mas tal é motivo para um encolher de ombros, para um «logo se verá», não para declarações frontais e mudanças de rumo. E, claro, as pessoas que agem de outro modo surgem-nos como estranhas e ameaçadoras. Quem raio julgam que são? O José Mourinho?
– Antes morta! – disse-me ela.
E a única coisa que eu queria era fazer-lhe a vontade!
Max Aub, Crimes Exemplares.
Edição Antígona (2008).
Tradução de Jorge Lima Alves.
Ilustração (deste crime) de Arnal Ballester.
Adenda: como ainda surgem excepções, à Guerra e Paz, por Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, de Delmore Schwartz (nem a Academia Nobel contesta que a literatura norte-americana de meados do século passado era fantasticamente interessante), à Tinta da China, por Viagem a Tralalá, de Wladimir Kaminer (levem carro se precisarem de andar à boleia na Dinamarca), e à Teodolito, por Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas (é preciso dizer alguma coisa sobre Vila-Matas?), não posso agradecer. Num débil gesto de compensação, comprei-lhes os livros.
Ou como esvaziar os mealheiros que ainda têm algumas moedas.
Como fica demonstrado pelos posts que escrevo, os meus instintos flutuam entre uma seriedade mal amanhada e uma idiotice plenamente conseguida. Baseado na ideia de que é preferível apostar naquilo em que se é bom, tento com frequência convencer a minha faceta séria a deixar-me abraçar em definitivo a via da idiotice. Ela recusa e cobre-me de insultos. Nas pausas entre eles, uma vozinha diz-me que se trata de uma péssima ideia por, nesse campo, a concorrência ser numerosa e feroz mas ignoro de que faceta provém.
Adenda: O que isto tudo significa para as relações de longo termo – bom, essa é outra questão. Que o aumento da taxa de separações e a diminuição do número de partos talvez ajude a explicar. A liberdade também tem custos.
Nas cartas dirigidas a Flaubert, muitas delas de uma sã crueza de linguagem, Maupassant mostra-se orgulhoso da sua virilidade excepcional e chega a confessar-se farto de sodomizar judias!... A resposta foi simples: «experimenta pelo lado tradicional e pode ser que o teu tédio desapareça».
João Costa, no prefácio a As Sobrinhas da Viúva do Coronel, de Guy de Maupassant, Bertrand, 2007.
Será possível acharmos que vivemos numa época especialmente sexual – isto é, em que se faz mais sexo do que noutros tempos e de formas mais criativas? A década de sessenta, com a libertação feminina, o amor livre, o make love not war e o sex, drugs and rock ‘n’ roll, bem como a representação cada vez mais displicente (e inconsequente) do acto sexual na televisão e no cinema terão provavelmente contribuído para tal sensação. Mas corresponderá ela à realidade? Infelizmente, sendo, por um lado, os inquéritos sobre a frequência e os hábitos sexuais o que eram nos séculos anteriores ao último (inexistentes talvez seja o termo que procuro) e, por outro, os humanos (especialmente se possuidores de um cromossoma Y) propensos a mentir quando questionados sobre estas matérias, não é fácil ter certezas. Mas julgo podermos afastar desde já a hipótese de sermos mais criativos. Se as confissões de Maupassant, afloradas acima (e confesso tê-las usado essencialmente para vos chamar a atenção), não constituem grande indicador, há milhares de outras fontes onde podemos constatar que, basicamente, nos limitámos a melhorar alguns acessórios recorrendo à electricidade, à injecção de plásticos e aos circuitos integrados. Mas e a questão da frequência? O mesmo Maupassant terá possuído numa só hora, perante uma testemunha, seis mulheres num bordel parisiense. Mas relações envolvendo troca de dinheiro dificilmente representam a realidade ou a sensibilidade de uma época. Por outro lado, convém evitar dar excessivo crédito a declarações de machos com tendência para o priapismo – ou para a gabarolice. É por esta razão que os relatos do divino Marquês de Sade também não nos servem para caracterizar o que quer que seja. Podíamos ainda recorrer à Bíblia, que nos fala de Sodoma e Gomorra, ou a relatos gregos e romanos mencionando bacanais mas continua a ser difícil fazer comparações com os tempos actuais (como determinar se Calígula participava em mais ou menos orgias do que José Castelo Branco?). De resto, talvez seja melhor atermo-nos aos tempos e às regiões de influência cristã. Então, como fazer? Eu digo-vos: buscando na ficção não erótica de diferentes épocas a ideia que os autores transmitem sobre o que representa ter muitas relações sexuais. Claro que não obteremos o número de relações em que uma pessoa média se envolvia mas pelo menos obteremos uma noção do que era considerado excessivo. Sendo isto um post de blogue (necessariamente curtinho e to the point), vou limitar-me a um par de exemplos totalmente aleatórios e, dessa forma, estou em crer que totalmente representativos.
Comecemos pela actualidade e por uma série televisiva intitulada How I Met Your Mother ou, na versão portuguesa, Foi Assim Que Aconteceu. Nesta série, Barney Stinson, um awesome (definição do próprio) jovem mulherengo nova-iorquino com cerca de trinta anos, tem relações sexuais com a duocentésima mulher diferente durante a quarta temporada. Já perto do final da quinta, refere que a contagem vai em quase duzentas e oitenta (o que revela um considerável aumento de ritmo). Temos então que, de acordo com a mentalidade actual, fazer sexo com quase trezentas mulheres é mais do que suficiente para que um tipo de trinta e tal anos possa considerar-se (e ser considerado) um engatatão de primeira classe. Se Barney tiver iniciado a vida sexual aos quinze, isto dá uma média de catorze ou quinze mulheres por ano. Razoável, de facto, pelo menos quando comparado com a minha estatística pessoal – mas eu tendo a esquecer-me das coisas.
Antes de recuarmos no tempo e colocarmos à prova as façanhas de Barney Stinson convém explicar que toda a lógica deste post se aplica aos homens. E não por uma questão de machismo, pelo menos da minha parte. Apenas porque, no que respeita às mulheres, não há qualquer dúvida. Convenhamos que discutir o número a partir do qual uma mulher era classificada como – er, conquistadora nem sequer é o termo, pois não?... promíscua, então? – há um par de séculos não é mais do que escolher entre os algarismos um, dois e três, consoante se tratasse de um mulher solteira, casada pela primeira vez ou casada pela segunda vez após morte do primeiro marido. Felizmente, hoje a situação é bastante diferente (felizmente também para os homens, que têm – dizem-me – menores dificuldades em arranjar sexo barato). Ainda assim, sinto-me forçado a salientar que, décadas depois da tal «revolução sexual» dos anos sessenta, continua a notar-se uma diferencita no valor considerado excessivo para homens e para mulheres. Lembram-se da cena, em Quatro Casamentos e Um Funeral (de 1994, mas creio que ainda razoavelmente representativo) na qual a personagem interpretada por Andie MacDowell enumerava os amantes que tivera? Ela apenas chegou a trinta e qualquer coisa mas terminou corada de vergonha e, diante dela, a personagem interpretada por Hugh Grant começava a entrar em estado de choque. Ou seja, trinta e qualquer coisa parceiros sexuais já são demasiados para uma mulher de trinta e qualquer coisa anos mas quase trezentas parceiras sexuais ainda não embaraçam um homem de trinta e qualquer coisa anos (pelo contrário, ele continua a sorrir, orgulhoso).
In Italia seicento e quaranta;
In Alemagna duecento trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.
Passando sobre a desfeita de Don Giovanni ter ignorado as mulheres portuguesas (porquê, João, porquê?), somem os números e chegarão a – prontos? – duas mil e sessenta e cinco conquistas sexuais. Ora Don Giovanni teria apenas vinte e dois anos de idade. Considerando uma vida sexual de sete anos, obtém-se a astronómica média de duzentas e noventa e cinco mulheres diferentes por ano. O que são, comparadas com isto, as catorze de Barney Stinson? A conclusão é dolorosa mas inevitável: a menos que na televisão actual se exagere afinal muito pouco, vai-se a ver e ainda temos muito que... muito que… ainda temos muito sexo a fazer.
Vai Hollande fazer o contrário do que prometeu em campanha ou, contra todas as esperanças dos optimistas, estamos mesmo f*****s?
Bom, esta não foi recolhida exactamente na rua, apesar da maioria da área estar a céu aberto. Foi tirada em Guimarães, dentro do Paço dos Duques de Bragança, na Segunda-Feira passada, durante um período de chuva intensa.
Num dos separadores da Praça da Galiza, no Porto, aguardando que o semáforo passe a verde, sob chuva a enfraquecer mas vento forte, sem a protecção de qualquer guarda-chuva (o vento também não facilitaria o seu uso), um homem e uma mulher com cerca de trinta anos de idade beijam-se enquanto os carros lhes passam à frente e atrás. Quando o semáforo muda, separam as cabeças e avançam, de mãos dadas. Cruzo-me com eles na passadeira. Chegado ao passeio do lado oposto, junto à Escola Secundária Gomes Teixeira, olho para trás. Forçados pelo último semáforo a parar novamente, estão mais uma vez a beijar-se. Sorrio para dentro e penso que a paixão deles (ou, para ser mais exacto, a demonstração desta) funciona como os sistemas stop/start dos automóveis modernos, só que ao contrário: liga-se quando eles param no semáforo, desliga-se quando arrancam. E, claro, o objectivo é tudo menos poupança de energia. Depois apercebo-me de que estas elucubrações servem apenas para evitar a constatação de que existe melancolia (e uma pitada de inveja) misturada no meu divertimento: assim de repente, não me lembro da última vez em que consegui atingir tamanho grau de abandono. Se é que algum dia fui capaz disso.
Gostas muuiiiiito da tua mãe? Então diz-lhe com um presente no Dia da Mãe!
E o coraçãozinho a transformar-se numa carteira. Lindo. Só um mau filho poderá resistir.
Proibir o Banco Central Europeu de financiar directamente os Estados tinha um objectivo: obrigá-los a, como qualquer empresa ou cidadão, fazer contas. Impedir a irresponsabilidade – ou aceitar as consequências. Não resultou. Pelo contrário: endividámo-nos na mesma, a juros mais elevados. Agora muitos recusam admitir o erro. Falam em «ditadura da dívida». Não deixa de ter piada. A dívida nasceu de actos livres. É como se uma família, ao descobrir não ter afinal dinheiro para pagar as prestações da casa, do carro, do colégio dos filhos, do acesso à net e à SportTv, dos iPhones e iPads e iOutrasCoisas acusasse os bancos e a escola e a Zon e a Worten de lhe extorquirem dinheiro indevidamente – e exigisse o pagamento aos vizinhos. Há apenas um ponto em que quem assim fala tem alguma razão: a lógica do sistema fez com que os bancos achassem que podiam ganhar muito dinheiro sem risco – os Estados pagariam sempre. Mas não foram os bancos que lançaram emissão de dívida pública atrás de emissão de dívida pública. Foram os Estados. Os governos, em nome de todos os cidadãos – mesmo daqueles que se opunham ao aumento do endividamento. A solução, agora? Parece que há três (mais as suas combinações): corrigir, cortando severamente nos gastos; convencer os países em melhor situação a assumirem parte das dívidas dos restantes enquanto tal lhes for possível (eurobonds); conseguir que o BCE faça agora o que se procurou evitar que fizesse antes: financiar a irresponsabilidade (algo que, no fundo, já está a fazer, ao emprestar aos bancos para estes continuarem a comprar dívida pública). Cortar gastos não é user friendly, já o sabemos. Arranjar quem nos pague as contas poderia não durar muito – pouca gente gosta de andar a pagar contas alheias, ainda por cima tendo que se endividar para o fazer (a certa altura, pode mesmo acabar-se-lhe o crédito). E, quanto à hipótese de colocar o BCE a imprimir notas frescas e a emprestá-las aos governos a juros simpáticos, convém começar por reconhecer que a desvalorização do euro que previsivelmente se seguiria não ajudaria por aí além a nossa competitividade: apesar de se verificar uma saudável tendência para a diversificação de mercados, setenta por cento das exportações portuguesas ainda vão para a zona euro; uma subida da inflação (um euro mais fraco representaria custos acrescidos em todos os bens e materiais importados) faria diminuir o poder de compra de todos os cidadãos dos países do euro, prejudicando, pelo menos a curto prazo, a fatia maioritária das nossas exportações. Se a inflação não lhes destruísse o crescimento (grande «se»), talvez os países fortemente exportadores – como a Alemanha – ganhassem. Nós, na melhor das hipóteses, apenas mais tarde. Ou antes: nós ganharíamos, de imediato, de outra forma. A do costume: com dinheiro barato a entrar, poderíamos voltar a alargar o cinto durante uns tempos. Semanas, meses, um par de anos. Contudo, até as pessoas que acreditam que a inflação não dispararia (é curioso verificar como a evolução da inflação se tornou numa questão de fé) têm de reconhecer que o BCE não poderia continuar indefinidamente a "salvar" os países em dificuldades orçamentais. Pelo que a pergunta crucial é: acreditamos mesmo (lá continuamos nas questões de fé) que, com o dinheiro do BCE (ou com os eurobonds), conseguiríamos crescer o suficiente para compensar os efeitos negativos das políticas públicas «expansionistas»? A juros ligeiramente mais elevados, é certo, essa foi a via que tentámos em 2008 e 2009 (e escrevo «ligeiramente» porque, até à Primavera de 2010, o diferencial entre a nossa taxa de juro e a alemã manteve-se quase sempre abaixo dos 100 pontos base – ver aqui, no gráfico 7, página 18 –, ou seja, não muito acima da taxa a que seriam transaccionados os eurobonds e cerca de dois por cento acima da taxa directora actual do BCE). Por outras palavras: essa foi a via que nos trouxe onde estamos. Mas talvez sejamos afinal um povo de permanentes optimistas. E, se a coisa corresse mal (precisamos sempre de arranjar uma consolação, não é?), ao menos teríamos a certeza de ver a Alemanha naufragar ao nosso lado.
Hollande: «A economia francesa devia estar a crescer tanto como a alemã. Temos que convencer os alemães de que estão errados.»
Até consegue fazer com que Sarkozy pareça um tipo sensato.
No final da década de oitenta e início da de noventa, a Feira do Livro de Coimbra era uma coisa relativamente pequena, organizada na Praça da República. Mais relevante para o que se segue, à época eu era forçado a contar os escudos com uma atenção que nem Scrooge nem o Tio Patinhas desdenhariam: todos os que não iam para comida e outras despesas correntes, tinham de ser divididos entre livros, filmes e discos (é verdade, tirando uma ou outra cassete gravada a partir de discos alheios – ah, a saudosa TDK SA –, a música pagava-se). Assim sendo, creio nunca ter comprado mais do que dois ou três livros numa Feira do Livro de Coimbra.
Em Março de 1996 vim para o Porto. E em Maio estava em Lisboa, numa formação de várias semanas. A Feira do Livro foi no Terreiro do Paço e eu, passe o trocadilho, passei-me. Fui lá quase todas as tardes, maravilhado com tantos expositores, tantos livros, tantas pechinchas. Espantei Mário de Carvalho, em pleno rescaldo do sucesso de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde e Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, quando, ao estender-lhe para rubricar um exemplar de A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, lhe coloquei a inteligentíssima pergunta: «É por uma estratégia anti-marketing que escolhe sempre títulos tão compridos para os seus livros?» (Ele tartamudeou que não, que até já tinha escrito um chamado Os Alferes, que é dos títulos mais curtos que se podem arranjar, mas decorrida meia hora ainda se notava que ficara a pensar no assunto.) Fui comprando livros (as pechinchas, caramba) e no final da semana enfrentava um problema logístico: vinte e três livros para transportar no Alfa de Lisboa para o Porto e apenas uma pequena mala, já quase totalmente preenchida com roupa suja, onde o fazer. Foi uma obra de engenharia de precisão de que ainda me orgulho, seleccionar os livros que viajariam na mala, em função do tamanho, peso e potencial para resistirem a danos. Estou até convencido de que é graças a esse esforço – e a um outro de que talvez um dia ainda aqui fale –, realizado naquele acanhado quarto de hotel lisboeta – ouço dizer que há quem realize outro tipo de esforços nos quartos de hotel mas a mim calha-me sempre o de enfiar objectos em malas –, que sou tão bom a empilhar louça num escorredor. E depois lá fui até Santa Apolónia arrastando uma mala estupidamente gorda e pesada e procurando evitar que os três sacos plásticos em que me vira forçado a transportar os restantes livros me fugissem das mãos ou embatessem com demasiada força nas malas das outras pessoas (ou nas próprias pessoas mas nas próprias pessoas é menos grave porque, tirando um ou outro caso de ossos especialmente salientes, o corpo humano possui uma capacidade de amortecimento superior à das malas). Não foi fácil mas tive imenso cuidado e todos os livros chegaram incólumes a casa. Um par de semanas mais tarde realizou-se a Feira do Livro do Porto.
Houve uma vez um homem chamado Johann Friedich Struensee. O início não é este mas podia ser. O verdadeiro início é:
Johann Friedich Struensee foi nomeado médico real do rei dinamarquês Christian VII no dia 5 de Abril de 1768; quatro anos mais tarde foi executado.
Começa, pois, com a eliminação de todas as esperanças. Claro que o relato é histórico (há páginas na Wikipedia sobre as personagens) mas é também pouco conhecido – e o leitor poderia esperar um final feliz. Enquist, escritor sueco nascido em 1934 e – como podemos andar tão distraídos? – quase desconhecido em Portugal, faz questão de esclarecer imediatamente que tal não sucederá.
Ao assumir o trono dinamarquês, Christian VII é um miúdo de dezasseis anos saído de uma educação severa. Está assustado, tem períodos de demência, provavelmente é esquizofrénico. Sente atracção pelas ideias iluministas e chega a corresponder-se com Voltaire, dando esperanças ao francês de que a mudança possa começar naquele pequeno e atrasado país da Escandinávia. Mas Christian é demasiado inconstante e demasiado fraco. Os seus períodos de lucidez são raros. Aceita casar com a prima Caroline Matilda (ou Mathilde, como ficou conhecida na Dinamarca), irmão do rei inglês George III (ou Mad King George). Ela tem quinze anos e um espírito forte. O casamento é uma série de mal-entendidos. Por desinteresse e medo de Christian, só é consumado ao fim de vários meses. Mesmo depois, Christian anda mergulhado numa melancolia feroz. Numa tentativa para que lhe passe, levam-lhe uma prostituta, Anna Catharine Beuthaken, conhecida como Bottine Caterine por ter como padrasto um sapateiro. Christian apaixona-se. Isso é inaceitável e ela é forçada a afastar-se de Copenhaga. Numa tentativa atabalhoada para a encontrar, Christian parte em viagem por vários países europeus. Em Londres tenta assistir a uma representação de Hamlet mas tal é evitado pois seria demasiado arriscado confrontá-lo com um príncipe dinamarquês tombando na loucura (acaba por ver Richard III). Em Paris encontra-se com Diderot mas não com Voltaire. É nesta viagem que Struensee está pela primeira vez ao seu lado. Diderot explica a Struensee que talvez o rei não seja louco mas, se o for, então a doença deixa um vazio no centro do poder. Quem quer que ali entre tem uma oportunidade maravilhosa. Struensee sabe que as palavras lhe são dirigidas. Que é ele quem pode «entrar».
Médico, iluminista, viera para ser o médico do rei. Acaba a controlá-lo. Torna-se seu primeiro conselheiro. Redige decreto após decreto que o rei assina quase sempre sem ler. Envolve-se com a rainha. São dois seres inteligentes e fortes, perdidos numa corte hostil. As cenas de sexo são – bom, nos livros as cenas sexo são sempre ridículas, não é verdade?
Ele deixou-se ficar imóvel dentro dela, esperando pelo bater da sua pulsação.
Pouco a pouco começara a perceber que o prazer mais intenso era encontrado quando esperava pelo bater da pulsação nas profundezas dela, quando as membranas de ambos respiravam e se moviam ao mesmo tempo, suaves, pulsantes. Era maravilhoso. Ele gostara de aprender a esperar por ela. Ela nunca precisara de dizer nada, ele aprendera isso quase de imediato. Podia ficar deitado quase imóvel, durante muito tempo, com o seu membro profundamente dentro dela, ouvindo as suas membranas, como se os corpos de ambos tivessem desaparecido e apenas permanecessem os sexos. […]
Ele dormira com muitas mulheres, e ela não era a mais bela. Mas nenhuma o ensinara a esperar pelo ritmo das membranas e pelas pulsações mais íntimas do corpo.
Ou talvez não, talvez nem sempre sejam ridículas. Numa entrevista, Enquist garantiu que, ao escrever as cenas de sexo, estava tão bem informado que era como se partilhasse o quarto com eles. Talvez sim, talvez não. O que importa?
Struensee avança mas sabe que está perdido. Avança certo de que o farão parar. É em parte por isso que não avança para a reforma mais importante: a que aboliria a servidão. Legisla a abolição da lei contra o adultério, a abolição da pena de morte para crimes de roubo, a proibição da tortura, a criação de um fundo de protecção para filhos ilegítimos, a redução das pensões supérfluas dos funcionários públicos («supérfluas» está no livro), a transferência das tarifas de Øresund do Tesouro Real para o Estado. Redige e faz o rei assinar centenas de decretos – mas não o mais importante de todos. Ainda assim, sabe que está perdido. Não só por questionar os poderes instituídos mas também porque aqueles que pensa estar a defender não o compreendem. E, na verdade, Struensee age como um déspota – um déspota iluminado mas um déspota. Seria possível de outra forma, vários anos antes da Independência Americana, vinte anos antes da Revolução Francesa?
Guldberg é a quarta personagem principal. Pequeno, pouco atraente, filho de um cangalheiro, julga-se guardião da pureza numa corte atolada em deboche. Imagina relatos históricos começados com a frase “Houve uma vez um homem chamado Guldberg”, ao jeito das sagas islandesas, onde a grandeza de um homem não é avaliada pela sua aparência. Detesta a rainha. Detesta-a particularmente desde o dia em que ela, casada mas ainda à espera da visita do marido, dando crédito a um rumor antigo segundo o qual Guldberg fora castrado em criança, o questionou sobre como era viver sem desejos. O rumor é falso. Perante a jovem rainha de ombros nus e «seios quase expostos», Guldberg sente-se humilhado. Ela julga-o um ser incompleto. Guldberg não lhe perdoará. Nem a Struensee, que ela aceita na cama. E que condena, ao fazê-lo. Porque é mais fácil eliminar Struensee por manter relações sexuais com a rainha do que por causa das reformas políticas. A História é quase sempre o resultado de lutas menores – pelo poder individual, pela paixão, pelo prazer da vingança, pela vaidade. Guldberg sabe-o. Enquist também. É por isso que este livro, sendo um romance histórico, é acima de tudo um romance. Centrado nestas quatro pessoas. Tudo o resto vem por acréscimo. Um romance em que o conhecimento da maioria dos factos (repito-o: estão disponíveis na net e Enquist não os esconde logo de início) em nada diminui o prazer que se obtém ao lê-lo.
Pensei em terminar com uma piada, escrevendo que, duzentos anos depois de Shakespeare escrever Hamlet, algo continuava podre no reino da Dinamarca. Mas seria patético, uma forçada tentativa de humor. Parece-me mais significativo mencionar algo que Enquist refere cedo: que ainda hoje, duzentos e quarenta anos decorridos sobre os acontecimentos, não existe nenhum monumento dedicado a Struensee na Dinamarca.
Per Olov Enquist, A Visita do Médico Real. Edição Ahab (em português pré-AO), tradução de Mário Semião e Maria João Freire de Andrade.
O 25 de Abril também permitiu a liberdade de não ter que se estar onde não se deseja estar.
A primeira vez no deserto foi uma epifania. Não me interpretem mal. Só o conhecia do cinema e dos livros e humildemente admito sempre o ter encarado com prudente relutância.
“O deserto é como o esqueleto do ser, frugal, rarificado, austero, absolutamente bom para nada.” (1)
Tinha apontado religiosamente esta frase no bloco de notas antes de mergulhar no inevitável. “Absolutamente bom para nada”, pois. Mas há sempre uma primeira vez e devo confessar que tive sorte, muita sorte. Não é por acaso que as associações entre as areias e os mares são recorrentes. No “mar” de areia, o oásis é uma “ilha” e foi por aí mesmo que comecei. Pelo fragmento de deserto que é o seu contrário, o que não foi feito pela mãe Natureza mas pelo esforço dos homens. Habituámo-nos, todos, a imaginar os oásis como pequenos lagos arredondados protegidos por palmeiras. Devem existir oásis assim, mas não conheço nenhum. O da minha primeira vez foi uma preguiça estendida ao longo de trezentos quilómetros, entre maciços montanhosos. Nem redondo nem palmar. Apenas deslumbrante. Permitam, então, que vos conte.
Partimos de Aden, no Sul do Iémen, em dois Toyotas. Rumámos na direcção do Oriente. A estrada comportava-se bem, seguindo paralela à costa, até começar a desaparecer diante dos nossos olhos, submersa por ventos de areia que insistiam em mergulhar no Índico. Perto de um porto abandonado, imitámo-las. Creio que o fizemos como viemos ao mundo, ante o olhar complacente e distraído de uns quantos camelos. Refrescados, retomámos a rota, agora para Nordeste, em direcção das montanhas. Os jipes subiram durante uma boa hora. Tínhamos a estrada e a paisagem só para nós, quando um deles começou a ficar, a pouco e pouco, para trás. Naquela montanha careca e pedregosa, sem vivalma, o atrasado quase não subia e o dianteiro prometia vertigens na descida, o que viria a acontecer quando os seus travões se decidiram por uma greve de zelo. Lembrei-me logo de outra frase de bolso, que parecia feita de encomenda para a situação:
“Na cidade, a aventura é um evento excepcional num cenário normal; no deserto, é um acontecimento normal num fundo excepcional.” (2)
Numa curva larga da ascensão, o condutor da frente encostou e decidiu esperar pelos atrasados. Enquanto não chegavam, abriu a sua porta, desceu pela encosta umas dezenas de metros, procurou uma pedra lisa e em cima dela colocou uma lata de Coca-Cola. Depois regressou ao jipe e dele retirou a sua kalaschnikov e ainda uma pistola de fabrico soviético que guardava no porta-luvas. Acto contínuo, entregou-ma. Será que quer um duelo ao sol? Cogitei comigo mesmo. Não, apenas queria divertir-se à nossa custa. Em rigor, à minha custa. Tinha acabado de lhe colocar umas questões incómodas sobre a poligamia entre os árabes e agora era a sua vez.
Num lugar de nenhures, um tipo não se arma em pacifista. Oferece o peito ao destino, respira fundo e pede secretamente ao Altíssimo que o ajude. Ele deve ter-me inspirado porque ao primeiro tiro a lata voou com graça pelo ar. Inchado, passeei ao vento a minha altivez, tomada de empréstimo a Peter O’Toole em Lawrence da Arábia. Os árabes da expedição devem ter apreciado o estilo porque, a partir daí, me trataram como um senhor. Estava apto a entrar no deserto e a enfrentar o desconhecido.
(1) Edward Abbey, in Désert Solitaire, 1968, citado em Désirs de Desert; Autrement, hors série, 2000.
(2) Alain Laurent, in Désirs de Desert, pág. 22; Autrement, 2000.
Os sorrisos falsos provocam muito mais dores nos músculos faciais do que os verdadeiros.
Por questões de justiça e equidade, leis exigem progressões de carreira e aumentos salariais no sector público, independentemente da evolução da economia.
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A economia não cresce o suficiente e as receitas do Estado deixam de cobrir as despesas.
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O Estado aumenta impostos e taxas.
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A economia definha; empresas fecham e o desemprego aumenta.
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No limiar da bancarrota, o Estado corta salários aos seus funcionários.
Vivam as boas intenções.
Para proteger os mais fracos, leis proíbem o aumento de rendas e dificultam o despejo de inquilinos.
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Sem rentabilidade, os senhorios deixam de fazer obras nos prédios.
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Os prédios degradam-se.
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Os mais fracos vivem cada vez em piores condições.
Vivam as boas intenções.
Porque os direitos adquiridos devem ser intocáveis numa sociedade que se respeita, leis proíbem cortes nas pensões.
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Factores como o aumento do desemprego e da esperança média de vida desequilibram as contas do sistema de segurança social.
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O Estado sobe a idade da reforma e corta radicalmente nas pensões dos futuros beneficiários.
Vivam as boas intenções.
Sendo pouco todo o cuidado quando se trata dos direitos dos cidadãos, leis garantem mil e uma salvaguardas no sistema de Justiça.
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A complexidade torna-se gigantesca e a resolução dos processos demora eternidades.
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O sistema acaba dominado por quem tem dinheiro para contratar advogados que aprenderam a usá-lo a seu favor.
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O cidadão comum treme perante a hipótese de se ver envolvido num processo e desiste de tentar ver reconhecidos direitos que, em teoria, possui.
Vivam as boas intenções.
E por aí fora, da educação aos «estímulos» à economia. Nota final: que uma das leis em causa seja a Constituição só torna praticamente impossível efectuar correcções de trajecto.
– Depois de ti nunca mais tive um namorado ou um amante que amasse o meu corpo tanto como tu o amaste.
– Tiveste namorados?
Lá estava eu de novo, com a mesma conversa. Esquece os namorados. Mas não conseguia.
– Tiveste, Consuela?
– Tive, mas não muitos.
– Dormiste regularmente com homens?
– Não. Numa base regular, não.
– Como era o teu emprego? Não houve ninguém no teu emprego que se apaixonasse por ti?
– Apaixonavam-se todos.
– Eu compreendo isso. Mas, e depois? Eram todos homossexuais? Não conheceste homens heterossexuais?
– Conheço, conheci, mas não prestavam.
– Não prestavam porquê?
– Masturbam-se apenas no meu corpo.
Philip Roth, O Animal Moribundo.
Edição D. Quixote, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.
Passo, no Cais de Gaia, por uma mulher segurando um telemóvel no ar, a câmara apontada à outra margem (não, não iria obter uma foto igual à que ilustra este texto, tirada às oito e tal de uma manhã de Outubro em que a cidade parecia não querer acordar). Algo não corre bem e ela começa a bater repetidamente no ecrã com a ponta do indicador direito. Suspira. Lamenta-se: «No me entiendo.» Afasto-me a pensar que é suposto o espanhol comum ter um amor-próprio tão grande quanto o do José Mourinho em dia de especial auto-satisfação e que, todavia, em situação idêntica qualquer português diria «Não entendo», acrescentando depois «esta»... hmmm, digamos «treta», que afinal isto nasce de uma cena ocorrida no Porto, onde toda a gente tem extremo cuidado em evitar o uso de terminologia que possa ferir susceptibilidades alheias. «Não entendo» admite tanto a falha própria (o telefone até é fácil de operar mas eu não o entendo) como a falha do equipamento (ou esta... hmmm, treta se passou ou então é absurdamente confusa). E todos sabemos em que versão pensa mais depressa um português (ainda que seja portuense). Mas «no me entiendo» centra a falha na pessoa. É a mim próprio que eu não entendo. É como dizer: hombre (ou, neste caso, mujer), qé isto diebe ser muy fácil (el materiale tiene siempre razón) e io é que soy tapadito (ou, neste caso, tapadita). O que nos obriga a considerar uma hipótese chocante: a de os espanhóis estarem tão à vontade para se questionarem por falhas que muitas vezes, analisada bem a questão, nem lhes podem ser imputadas que até integraram essa possibilidade na sintaxe das suas frases. No fundo, talvez este seja o melhor tipo de amor-próprio: ter segurança suficiente para considerar primeiro, sem dramatismos, a hipótese de falha própria. Mas, caramba, se isto não condiz connosco, que ou fugimos às responsabilidades ou, caso tal não seja possível, nos mortificamos como filipino em Sexta-Feira Santa, também não condiz com os espanhóis, pois não? Decididamente, no me entiendo.
Adenda: não me venham com... hmmm, tretas acerca do meu castelhano, que ele é perfeito.
P.S.: Conhecem aquele pesadelo clássico dos anos 70 em que, sendo-se filho da Dolly Parton, se era alimentado a biberão?
Em entrevista ao Diário Económico, a Ministra da Agricultura admitiu que a nova lei das rendas poderia ser mais ambiciosa se a Constituição o permitisse (ver aqui, a partir dos 39'30''). Confessou também as dificuldades sentidas para explicar aos elementos da troika não se poder ir mais longe sem arriscar um chumbo por parte do tribunal constitucional. Talvez o governo pudesse, ainda assim, ter feito mais, talvez não. Pouco importa – o ponto fulcral não se prende com uma lei específica, por importante que seja. O que nos devia preocupar é a hipótese de a Constituição estar a funcionar não apenas como garantia de direitos inalienáveis mas também como garantia de empobrecimento colectivo – ajudando a tornar, numa ironia que, não fosse trágica, seria deliciosa, cada vez mais difícil o cumprimento das suas próprias exigências. Infelizmente, pouco há a fazer. Necessitado de provar que ainda é de esquerda e de aproveitar todas as áreas que não constem do memorando de entendimento para fazer oposição, dificilmente o Partido Socialista aprovará uma revisão digna desse nome.
Devia ser fácil esconder as opiniões quando tão pouca gente está interessada nelas.
Para a maior parte das pessoas, o mundo só tem dois sítios: o sítio onde elas vivem e a televisão.
Don DeLillo, Ruído Branco.
Edição Sextante, tradução de Rui Wahnon.
O livro é dos anos 80. Agora devíamos acrescentar a internet, claro.
Reunião com cerca de vinte participantes. Quando começa já estou farto porque, com perfeita pontualidade britânica aplicada aos típicos atrasos nacionais, a hora marcada passou há vinte minutos. Seguem-se cento e cinquenta de discussões requentadas, apartes idiotas e piadas frouxas, mais ou menos sem ordem, mais ou menos sem objectivo. Assuntos importantes são despachados para canto e assuntos irrelevantes são discutidos até à exaustão. Não estou admirado: é sempre assim. Caio num torpor estupidificante. Os meus movimentos ficam mais lentos, a vista embacia-se-me, nos ouvidos ressoa-me a cacofonia que vai pela sala e no meu cérebro os neurónios suicidam-se um após outro. A sério: consigo ouvir o estalido que acompanha cada morte. Plop, plop, plop. Alguns finam-se discretamente, outros soltam gritinhos agudos em que detecto mais raiva do que desespero. Extinguem-se milhares durante aquelas duas horas e meia. E é sempre assim. Sei que estou perdido e até sei quanto tempo me resta. Projecções feitas numa época em que ainda possuía capacidade para as fazer indicam que, nada mudando, em nove anos atingirei o nível de raciocínio de um pedaço de xisto de dimensões médias.
A posição do PS: fechar centros de saúde no interior do país era um acto de boa gestão; fechar uma maternidade em Lisboa é um crime de lesa-majestade.
A posição de muita gente que protesta: sim, o governo deve cortar nos gastos; não, não deve fechar uma estrutura redundante.
Passaram nove meses e o governo perde gás. O discurso permanece globalmente correcto e Passos incomensuravelmente mais suportável do que o flâneur aspirante a filósofo que nos conduziu à bancarrota. Mas surgem actos que lembram os métodos do referido indivíduo (anunciar de mansinho decisões polémicas nas vésperas da Páscoa? Really?) e, pior, as medidas fundamentais não aparecem ou aparecem diluídas. Algumas medidas foram tomadas sem perda de tempo. As que, podendo ser impopulares, dependiam de um pedaço de papel e não colocavam em risco modelos instalados. Por exemplo, a redução de salários na função pública, o aumento generalizado de taxas e impostos e o corte de feriados. Ou algumas que conseguiram aumentar ainda mais os constrangimentos do cidadão na sua relação com o Estado, como os mil e um comprovativos necessários para se receber apoio social ou – coisa menor mas reveladora – a obrigatoriedade de ter não só uma caixa de correio electrónico mas uma caixa de correio electrónico específica para lidar com as Finanças. Não me opus nem oponho a várias delas. Na situação em que nos encontrávamos (e, mais especificamente, em que o Estado se encontrava), eram inevitáveis. Com ou sem Troika, sendo que sem ela os cortes teriam sido muito superiores. A promessa, contudo, era de fazer mais – e, em vários casos, diferente. A promessa era de aumentar a liberdade dos cidadãos e de reduzir significativamente o peso do Estado na economia, de modo a não precisar de extrair dela tantos recursos. E esta é uma área onde os actos concretos demoram a surgir. Existem excepções, como a lei das rendas, que introduz ajustes moderados mas no sentido correcto, mas parece existir ainda mais inércia. Na Educação, se algumas alterações também são globalmente positivas, o modelo permanece inalterado, avesso à liberdade de escolha dos pais e à concorrência entre escolas. Na Economia, o Ministro, por vontade própria ou imposição superior, parece incapaz de renegociar os contratos das PPP e das compensações aos produtores de energia e, se fala amiúde na reforma das empresas públicas de transportes, pouco se sabe do que realmente lá se passa (excepto que – e até admito que seja bom sinal – ocorre pelo menos uma greve por mês). A Ministra da Justiça vai emitindo declarações interessantes sobre a reforma do sistema de Justiça mas, por enquanto, nenhuma alteração de fundo ocorreu. A RTP continua pública, a receber milhões de euros do contribuinte, e o modelo de privatização anunciado só não é ilógico se, mais do que poupar dinheiro, for intenção do governo manter acesso directo à (para não escrever «controlo sobre a») informação – caso em que será apenas errado. A reforma do poder local, que nunca foi particularmente ambiciosa, vem sofrendo diluições. O processo de fusão e extinção de institutos e outras entidades públicas de utilidade duvidosa gera inúmeras dúvidas, desde logo a de saber se está mesmo a ocorrer (exemplo: a Parpública era para extinguir mas parece que já não é). Para piorar as coisas, nas últimas semanas as excepções multiplicaram-se: os militares não vão ter a progressão de carreira congelada, há empresas em que os cortes salariais não se aplicam e certos gestores públicos podem afinal ganhar mais do que o Primeiro-Ministro (havendo ou não lógica em algumas excepções, elas revelam quem tem e quem não tem poder, para além de que muitas seriam desnecessárias ou melhor aceites se as empresas cujos trabalhadores – ou gestores – delas beneficiam já estivessem privatizadas ou perto disso).
Enfim, chega. É um lugar-comum: as reformas fazem-se nos primeiros tempos de mandato ou já não se fazem. Começa a parecer que muitas não se farão. Que o governo cai no erro de esperar que tudo acabe por correr bem sem ter de alterar os modelos instalados. Entretanto, os resultados da execução orçamental, não sendo catastróficos, são preocupantes. Pode acontecer que Passos Coelho e Vítor Gaspar tenham razão e novas medidas de austeridade se revelem desnecessárias. Mas, apesar dos sinais vindos da Troika de que o objectivo para o défice poderá ser revisto em alta (o que, constituindo um alívio, também significa que o Estado irá contrair mais dívida), tanto um como outro deviam evitar promessas – e os trabalhadores do sector privado começar a prever o cenário de também eles acabarem sem subsídio de Natal. Escrevi-o tantas vezes que já me enjoa fazê-lo: a curto prazo é inevitável que empobreçamos. Nem o meritório comportamento das exportações (ah, cambada de empresários inúteis) permite evitá-lo. Resta saber quando poderemos recomeçar a crescer e quão adaptado à realidade será o modelo de Estado existente nessa altura. Com pouco mais do que alterações cosméticas, dificilmente a recuperação será rápida ou o crescimento duradouro (que clamor pela reposição de tudo o que foi cortado – e por compensações pelo facto de o ter sido – se ouvirá logo que pareça haver dinheiro para tal). A tarefa deste governo era difícil, sem dúvida, e há pontos positivos a registar. Mas é necessário mais. Infelizmente, tudo indica que as inércias, as incapacidades e os interesses permanecem demasiado fortes – e o Estado irreformável.
Reveladas nessoutro momento seminal do hip-hop deste princípio de década chamado Black Up, dos Shabazz Palaces, as THEESatisfaction são tão hip-hop quanto são soul ou jazz. Ocupam um território onde antes já foram avistados os Floetry ou por onde Erykah Badu e Ursula Rucker por vezes ainda param para abastecer, mas a verdade é que não são nada disto. […] Stasia e Catherine permitem-se igualmente ir a um experimentalismo claustrofóbico que mais facilmente associaríamos à troca de ideias dos Anti-Pop Consortium com o pianista Matthew Ship (God, Enchantruss), ao mesmo tempo que se percebem nas entrelinhas Q-Tip, os De La Soul ou os Handsome Boy Modeling School.
Da crítica de Gonçalo Frota a awE naturalE, das THEESatisfaction, no Ípsilon de Sexta-Feira passada. Cinco estrelas.
Dr John encontrou em Dan Auerbach, dos Black Keys, o parceiro no crime perfeito. Não porque este lhe tenha mostrado um novo caminho ou promovido uma modernização (expressa pavorosa) da música do homem que nos deu Gris Gris e que se moldou enquanto personificação do espírito musical dopado, assombrado, miscigenado de blues e funk, de jazz e Mardi-Gras de Nova Orleães. […] A banda reunida por Auerbach não dá tréguas. […] São aqueles metais (senhores, aqueles metais!) que emergem das profundezas de um sonho africano (etíope como Mulatu Astakte?, nigeriano como Fela Kuti?) para transformar Dr John no nosso soberano incontestado.
Da crítica de Mário Lopes a Locked Down, de Dr John, no Ípsilon de Sexta-Feira passada. Cinco estrelas.
O arranque, The Whip Hand, é uma das melhores peças da sua discografia, colocando-nos na inimaginável pista do que poderiam ser os N.E.R.D. se a sua fórmula de R&B/funk mais rock tivesse nascido na cabeça destes dois e não nas de Chad Hugo e Pharrell Williams.
Da crítica de Gonçalo Frota a Noctourniquet, dos Mars Volta, no Ípsilon de Sexta-Feira passada. Três estrelas.
Camp é hip hop pós Kanye West, ou melhor, é hip hop à Kanye West. […] Camp ouve-se sem sobressaltos e com curiosidade. Porque Childish tem bom flow e porque vemos nele algo como que a versão hi-tech de Tyler The Creator. […] Mas Camp, por outro lado, tem um grande contra si. Kanye West. O Kanye West do hip hop sintético de 808 & Heartbeat. […] Uma sombra da qual Childish Gambino não se liberta.
Da crítica de Mário Lopes a Camp, de Childish Gambino, no Ípsilon de Sexta-Feira passada. Três estrelas.
Cada um destes elementos podia estar no museu, há tanto tempo que as subespécies a que pertencem foram reconhecidas e etiquetadas. Mas posto sob esta ordem, com esta reverberação nas guitarras e este timbre de voz, quase parece que é novo. […] Com uma variante: é possível que apreciemos mais quando essa repetição não se esgota na simples emulação, quando há um miligrama não de originalidade mas sim de individualidade. […] E que tem atrás de si uma banda que percorre todos os truques da cartilha R&B parecendo estar sempre a descobri-los pela primeira vez. […] A soul conhece isto desde os tempos em que os pretos eram só pretos e a mulata não era a tal. […] os truques estão aqui todos […] Parece pouco, né?
Da crítica de João Bonifácio a Girls & Boys, dos Alabama Shakes, no Ípsilon de Sexta-Feira passada. Quatro estrelas e meia.
Havia um sexto álbum em análise mas era de música clássica.
Jesus ressuscitou mas não ficou cá por baixo.
A viragem interessa sobretudo a Hollande, que se antecipou ao líder conservador, apresentando, na quarta-feira, 35 propostas que pretende cumprir no primeiro ano de mandato. "Os franceses querem decisões rápidas e concretas", disse o candidato socialista, comprometendo-se a rever a reforma das pensões aprovada por Sarkozy, a bloquear o aumento do preço dos combustíveis, a apoiar a criação de 150 mil postos de trabalho e a aprovar uma reforma fiscal, criando um taxa de 75 por cento para os rendimentos superiores a um milhão de euros.
No Público de hoje.
1. A esquerda continua sem perceber as regras da matemática.
2. A avaliar pelas sondagens, os eleitores continuam a gostar de promessas vãs.
3. Por que raio é que os socialistas prometem sempre 150 mil empregos?
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