como sobreviver submerso.
Terça-feira, 27 de Setembro de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (15)
Tenho de escrever sobre o início de um livro e o final de outro. Ando dois dias a pensar no assunto, depois encolho os ombros e tomo uma decisão. O livro com o início, comprado e lido durante a universidade, está a duzentos qulómetros, em casa dos meus pais (tem lógica: os pais são sempre o início). O outro encontra-se aqui, a cerca de dois metros. Quase ouço uma voz dizendo: O final está muito mais próximo do que o início.

Desde há uns tempos, não consigo evitar sentir que há uma força irónica e malévola que aproveita toda e qualquer oportunidade para reforçar o meu pessimismo.



publicado por José António Abreu às 23:07
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Música recente (30)

 

 Daughter, álbum Not to Disappear.

 

O poder estranhamente animador da melancolia. Ou talvez - porque a música, como as outras artes, é sempre a dois - o poder estranhamento animador da melancolia partilhada.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 25 de Setembro de 2016
Gosto mais de praias desertas: 26

Blogue_praias5_Lavadores2008.jpg

 

Lavadores, 2008 (em jeito de adeus ao Verão).



publicado por José António Abreu às 20:56
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Sábado, 24 de Setembro de 2016
Dos malefícios da arte (ou: O inferno deve suportar-se sem paliativos)

Lenine, o protótipo do ditador do século XX, tinha autores e compositores favoritos mas era um materialista demasiado rigoroso para se preocupar muito com a arte. Tinha pouca paciência para a avant-garde e uma vez irritou-se quando futuristas pintaram as árvores dos jardins Aleksandrovsky com as cores do Primeiro de Maio. Considerava a música um placebo burguês que escondia os sofrimentos da humanidade. Em conversa com Maxim Gorky, elogiou o poder de Beethoven, mas acrescentou: «Não posso ouvir música com muita frequência. Afecta os nervos, faz sentir vontade de dizer coisas estupidamente simpáticas e de afagar a cabeça das pessoas que conseguiram criar tamanha beleza, mesmo vivendo neste inferno.»

Alex Ross, The Rest is Noise: Listening to the Twentieth Century.

Edição Picador. Tradução minha.

 

(E agora dêem-me licença; vou assistir aos concertos das Noites Ritual, nos jardins do Palácio de Cristal.)


publicado por José António Abreu às 21:11
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016
Música recente (29)

 

Cristina Branco, álbum Menina.

 

Há quase três anos e meio escrevi o que ainda considero essencial dizer sobre a minha relação com a música de Cristina Branco. Em Menina, ela arrisca de novo, conferindo ao fado uma leveza, uma faceta de alegria ou, pelo menos, de recomeço, que, sem o deixar tombar no kitsch, está longe de ser comum.


publicado por José António Abreu às 12:22
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (14)

Parece que cá trabalha há anos mas só agora reparei nela. Como é possível?

Nem alta nem particularmente escultural, exsuda sexo. Tem uma pele que parece resultar do cruzamento entre um manequim de plástico (daqueles das montras) e uma mulher verdadeira. Uma pele que, à distância, parece tão lisa como uma bola de bilhar e reflectir a luz da mesma forma (vou resistir a introduzir aqui trocadilhos envolvendo tacadas). Usa calças justas e blusas finas que tombam a direito penduradas nas mamas (coisa estranha: o contorno do soutien surge de forma discreta através do tecido mas os mamilos parecem querer furá-lo). O cabelo é preto, a boca larga, as maçãs do rosto bem definidas. E depois há os olhos. De um castanho perfeitamente normal, são enormes e muito redondos.

Q. disse-me que ela emagreceu bastante nos últimos tempos. Estará aqui a explicação para não ter registado antes a sua existência. Ainda assim, a distracção envergonha-me. Interrogo-me como terá conseguido emagrecer e, mais importante, sair do processo de emagrecimento com uma pele tão lisa e com uma pose tão sexual. Não creio que uma banda gástrica tenha este efeito. Talvez um pacto com o diabo. Fausto com curvas. Um Dorian Gray feminino.

Mas os olhos, caramba. É como se estivesse constantemente a ver algo arrebatador. (Quão perturbante deve ser para os homens com quem trabalha; poucas coisas atraem mais um homem do que uma mulher bela, olhando-o fascinada). Ou então (imagino-lhe as ânsias, ao passar junto a montras de pastelarias) como se a fome lhos tivesse vindo paulatinamente a esbugalhar.



publicado por José António Abreu às 19:47
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016
Curtis Hanson

 

O realizador Curtis Hanson morreu ontem, em Los Angeles. Nas notícias sobre o acontecimento, a comunicação social destacou dois filmes: L.A. Confidential, uma excelente adaptação do terceiro volume do Quarteto de LA, de James Ellroy, e 8 Mile, famoso acima de tudo pela participação de Eminem. Gostaria de acrescentar um terceiro: Wonder Boys, lançado no ano 2000, com Michael Douglas, Tobey Maguire, Frances McDormand, Robert Downey Jr. e Katie Holmes. Um dos meus filmes preferidos sobre as vicissitudes da vida e dos esforços para a compreender ou, pelo menos, ordenar, através da escrita.

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publicado por José António Abreu às 22:54
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Take 3881

De modo a justificar os sucessivos aumentos, argumenta-se muitas vezes que o nível de impostos em Portugal não se encontra acima da média da União Europeia. Na defesa do tamanho do Estado, refere-se frequentemente que em França ou nos países nórdicos ele é maior. Agora que a «geringonça» manifestou intenção de taxar ainda mais o património imobiliário, surgem exemplos de países mais ricos do que Portugal que fazem algo similar.

Honestamente, torna-se cansativo estar sempre a repeti-lo: da mesma forma que Moçambique não pode ter o nível de impostos e de despesa pública de Portugal, Portugal nem sequer deveria estar perto da média europeia em qualquer destes indicadores. O crescimento do sector público e a correspondente subida da taxação só ocorrem de forma saudável quando a Economia tem capacidade para suportar o esforço. E não se trata de uma questão ideológica - de liberalismo versus socialismo ou social-democracia. Eu prefiro um Estado pequeno, concentrado no essencial, porque acho que isso aumenta o grau de liberdade dos cidadãos, ajuda a aumentar a competitividade do país e facilita a correcção de desequilíbrios. Acredito também que, no cenário actual de globalização e envelhecimento populacional, raríssimos países conseguirão manter níveis de despesa pública acima de 50% do PIB. Mas, na fase em que Portugal se encontra, as minhas preferências e convicções importam pouco. Sei que, aos olhos de pessoas como Mariana Mortágua, o pragmatismo é uma aberração, mas acima de tudo é preciso efectuar um trajecto, sem saltar etapas. Subam-se os impostos e aumente-se o tamanho do Estado depois de criar condições para tal. Agora (desde há muitos anos, na realidade), é preciso captar investimento. Ser mais competitivo do que outros países. Sabemos todos que é impossível (e indesejável) consegui-lo apenas com base nos salários baixos. Sabemos todos que Portugal apresenta desvantagens, até mesmo em relação a vários países europeus com níveis similares de desenvolvimento e de produtividade, na localização geográfica, na burocracia, no sistema de Justiça, nas qualificações, no nível de corrupção. (Em alguns destes pontos registaram-se avanços, mas não de forma decisiva nem tal vai acontecer a curto ou médio prazo.) Resta a fiscalidade. Não podemos taxar como se fôssemos a Alemanha, a Holanda ou a Dinamarca, nem estar constantemente a mudar as regras.
E, por favor, abandonem-se ilusões de que há muito onde ir buscar dinheiro. Não há. Pior: num país periférico e irrelevante como Portugal, esta via fará com que haja cada vez menos.


publicado por José António Abreu às 09:15
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2016
Música recente (28)

 

Liima, álbum ii.

 

ii é o primeiro álbum dos Liima, que não são do Peru, mas do norte da Europa. Trata-se de uma colaboração entre os dinamarqueses Efterklang e o percussionista finlandês Tatu Ronkko, desenvolvida entre Berlim, Helsínquia, Istambul e uma ilha obscura no Atlântico chamada Madeira (e depois gravada na capital alemã, ao longo de três dias). A música, baseada em sintetizadores e percussão, é uma mistura de paranóia e de alegria. Inclui, de facto, alguns apontamentos de sonoridade andina e, comparada com o que os Efterklang fazem habitualmente, parece mais solta, por vezes quase improvisada. Numa consequência talvez inevitável, também se me afigura menos precisa e coesa.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016
A Sorbonne em Lisboa
José Sócrates é um dos convidados da universidade de Verão do PS Lisboa. Nada mais normal. Desde que não vá fazer algo relacionado com livros...

Aliás, peço desculpa, fui demasiado genérico. No caso de Sócrates, há muitas coisas relacionadas com livros que seriam aceitáveis. Apenas apresentar um, pouco edificante e escrito por um amigo, talvez não o fosse. A menos que o amigo fosse Carlos Santos Silva. Nesse caso, toda a gente entenderia.



publicado por José António Abreu às 12:56
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Diário semifictício de insignificâncias (13)

Num episódio da segunda temporada da série Friends, uma mulher atraente (papel interpretado por - ele há coincidências - uma igualmente atraente Brooke Shields) interessa-se por Joey, tomando-o pela personagem do médico que ele desempenha numa série televisiva. (É obviamente pela possibilidade de exegeses tão profundas como esta - ele é um actor numa série televisiva dentro de uma série televisiva - que eu gosto de Friends, não pelo estilo de humor, relativamente standard.) Como a mulher é atraente (repito: igualzinha à Brooke Shields), Joey mantém a ilusão durante uns tempos e depois, perante a acumulação de problemas, despacha-a, confessando não ser o médico da TV mas o irmão gémeo deste, numa fascinante transliteração - ou qualquer coisa assim - do idioma típico de um determinado estilo de série televisiva para o interior de outro estilo de série televisiva.

Pensei em tudo isto (sim, até nas partes da exegese e da transliteração) na Feira do Livro, em frente ao stand da Tinta-da-China (fraquinho, sem os lançamentos mais recentes), quando um rapaz magro, de vinte e tal anos, usando óculos de lentes grossas e movendo-se de modo furtivo, respondeu em sobressalto a uma questão banal do funcionário: «Quer mesmo esse exemplar ou posso tirar outro daqui da prateleira?» E pensei nisto porque o rapaz me pareceu outra personagem de outra série televisiva: Silicon Valley, da HBO. Numa atitude similar à da mulher de Friends, estive quase a abordá-lo para lhe perguntar o que anda a fazer no Porto - e para lhe pedir o número de telefone de Monica, a adorável semi-nerd da série.

Um pouco mais a série sério, os nerds enternecem-me. Em parte, isto acontece porque terei sido um, numa versão que conjugava a década de 1980, a inexistência de computadores e uma cidade pequena do interior de Portugal (até me arrepiei). Aliás, provavelmente ainda sou, agora numa versão de meia idade, relação de amor-ódio com o smartphone e carradas de cepticismo. Porém, a ligação umbilical não explica tudo. Os nerds (os genuínos, não os imitadores de pacotillha que, por fenómeno de moda, adoptam o estilo de forma irónica - ide à merda mais a vossa presunção oca) são emanações puras de tudo o que faz dos humanos, humanos: predomínio da actividade cerebral sobre a actividade física, hiper-consciência de si mesmos, capacidade de sobreviver, de prosperar (não por acaso, a maioria dos multimilionários recentes são nerds), e, na maioria dos casos, de acasalar (admito que deve ser mais fácil depois de prosperar), não obstante as tremendas desvantagens físicas e comportamentais. Os nerds são o exacto oposto dos elementos das claques de futebol. Haverá algo digno de mais respeito?

Mas independentemente da opinião que se tenha deles (de nós), considerando que a ficção televisiva resulta quase sempre da destilação ao essencial - muitas vezes ao ponto da caricatura - de um amplo e até paradoxal conjunto de traços, é estranho encontrar na vida real exemplares tão aparentemente decalcados dela como aquele rapaz. Ao conseguir ser simultaneamente mais concreto e mais extravagante do que qualquer personagem ficcional, ele leva-me a pensar (por que diabos não vou antes tentar fazer flexões?) que não é verdade ser a realidade mais estranha do que a ficção. Por exemplo: na vida real, a forma como Joey resolve o seu problema dificilmente teria êxito. No limite, a realidade consegue ser tão estranha quanto a ficção, mas é muito mais tridimensional e interactiva (se eu falasse com o rapaz, provavelmente ele reagiria), para além de ter um potencial superior para gerar consequências efectivas (há poucas pessoas como a coitada da Brooke Shields). É isto que dá origem ao suplemento de estranheza.

Ou qualquer coisa assim.

O rapaz levou um exemplar (retirado da prateleira) de Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens. Fica mais uma vez demonstrado o elevado grau de inteligência dos nerds. Algo que eu já sabia - ainda que de forma instintiva - na década de 1980.



publicado por José António Abreu às 00:41
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Domingo, 18 de Setembro de 2016
Imagens recolhidas pelas ruas: 251

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Matosinhos, 2016.



publicado por José António Abreu às 19:23
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016
Música recente (27)

 

Grouplove, álbum Big Mess.

 

Depois do tom elegíaco do álbum de Nick Cave e atendendo a que o Verão ainda nem sequer acabou, acho que se justifica um momento de pop alegre e despretensiosa.

 

(Nota a ter em conta, porém: em 2011, estes mesmos Grouplove lançaram um álbum intitulado Never Trust a Happy Song.)



publicado por José António Abreu às 12:22
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A verdadeira espiral recessiva

Mas quem decide o que é um “pobre” ou um “rico”? É o poder político que decide o que somos. Amanhã, um apartamento de 150 mil euros na Amadora pode bem tornar-se, para fins fiscais, um “palacete de luxo”. Basta as finanças precisarem. E talvez precisem. A propriedade nas grandes fortunas é complexa. Os maiores investidores imobiliários vão retrair-se. Não é por isso improvável que o fisco, para arranjar receita, ainda tenha de descer mais uns degraus na escala patrimonial. Nesta roleta russa fiscal, a pistola está apontada à cabeça de todos.

O governo vive para a meta do défice, de que depende o financiamento europeu. Se o Estado gasta mais e a economia não gera mais receita, há que recorrer à “justiça fiscal”. Mas quanto mais impostos o governo aumenta, menos a economia cresce, e mais impostos precisa de aumentar. É assim a espiral recessiva por via fiscal. E o que vai acontecer à classe média, com esta carga tributária, quando o petróleo se tornar mais caro e os juros subirem? Sob este regime fiscal, Portugal pode estar a caminhar para uma despromoção social maciça, sem paralelo na nossa história. Noutros países, a classes médias podem estar a morrer; aqui, vão ser assassinadas.

Rui Ramos, no Observador.

 

A verdadeira espiral recessiva ocorre quando os sectores menos produtivos de uma sociedade são privilegiados em detrimento dos sectores produtivos, conduzindo os segundos a uma asfixia que faz cair investimento e receitas fiscais. É em grande medida por isto que, durante a governação PSD/CDS, a espiral recessiva (tantas vezes anunciada) nunca chegou a acontecer: por entre a voracidade fiscal que também caracterizou esse governo, houve uma mensagem coerente, que levou à retoma do investimento, e uma aposta clara - teimosa, até - nos sectores capazes de fazer entrar dinheiro no país. Hoje, o discurso varia consoante o momento e o local, e a aposta é na protecção (em parte ilusória, certamente temporária) dos sectores menos produtivos, à custa do crescimento económico. Se o BCE continuar a ajudar, Portugal poderá manter taxas de crescimento ligeiramente positivas durante alguns anos. Mas as sementes da recessão estão a ser plantadas com um entusiasmo suicidário.



publicado por José António Abreu às 11:15
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Dúvida ingénua

E os partidos políticos? Vão ser obrigados a pagar o novo imposto ou, como sucede no IMI, ficarão isentos? Em especial o PCP, o mais rico de todos, com os seus 15 milhões de euros em património imobiliário?



publicado por José António Abreu às 08:43
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016
Incentivos ao investimento
Na entrevista à CNBC, o ministro das Finanças não se limitou a afirmar que a sua principal missão é evitar um novo resgate. Também garantiu que o governo aposta na captação de investimento. Sabemos todos que, no que respeita ao passado, isto é mentira. Tirando expulsá-los fisicamente do país (lá chegaremos, numa fase mais avançada do glorioso trajecto para o Chavismo), a «geringonça» fez tudo o que podia para alienar os investidores: reverteu privatizações e concessões, anulou reformas fiscais, aumentou o poder dos sindicatos, atacou instituições privadas. Que Centeno conseguisse dizer que o governo incentiva o investimento sem esboçar sequer um sorriso (logo ele) é prova de que, não obstante o lapso ocasional, já vai conseguindo comportar-se como um político (não é elogio). Ou então não estava a mentir; estava a referir-se ao futuro. O governo iria a partir de agora fazer todos os esforços para captar investimento.
Não. Apesar das garantias do ministro lá no estrangeiro, o ataque aos investidores vai continuar. Possui o apartamento onde reside e mais um par deles, comprados e/ou herdados ao longo da vida? Paga IRS sobre os rendas que recebe e IMI sobre o valor patrimonial de cada um? Gasta regularmente milhares de euros a mantê-los em condições adequadas? Não chega. Apostou em bens que não mudam de sítio, merece ser alvo de mais um imposto. Ou então venda-os (acredite em mim: a prazo, um prejuízo moderado revelar-se-á um lucro) e emigre.

 

Adenda: É comovente verificar como Bloco e PCP se digladiam na reivindicação da paternidade do novo imposto. E como o PCP, sentindo-se ultrapassado, exige mais.


publicado por José António Abreu às 19:38
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (12)

Pausa para café. Invariavelmente, discute-se o tempo. As previsões, com destaque para o sempre crucial fim-de-semana, mas também as condições do momento, sujeitas a interpretações, gradações e comparações («ainda está sol mas já está mais frio», «o vento aumentou», «ontem de manhã estava nevoeiro mas hoje apanhei chuva na VCI»). No fundo, nada de novo; comentários normais, repetidos ao longo dos séculos, desde que se substitua «VCI» por «Via Ápia» ou por outra via mais apropriada. Arriscando uma nota de pomposidade (ninguém lê esta treta), diria mesmo que é natural: as condições climatéricas marcam o tempo e o tempo marca a vida.

Mas depois, claro, saca-se do aparelho responsável pelo que talvez seja a mais revolucionária evolução da mais tradicional das conversas desde que alguém olhou para o horizonte, lambeu a ponta do dedo, espetou-o no ar e disse: «Não há vento; o céu está cor-de-laranja; amanhã não chove.» O aparelho que enfiou um meteorologista no bolso (ou na mala) de cada pessoa. Que consegue fazer muitas sentirem-se meteorologistas.

Nenhuma discussão sobre o estado do tempo fica hoje completa sem se compararem as previsões de várias apps de smartphone.



publicado por José António Abreu às 21:35
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É provável que já saísse mais barato pedir ao FMI
Portugal coloca o mínimo de dívida que se propunha colocar, a taxas cerca de 20% mais elevadas do que nas últimas emissões.


publicado por José António Abreu às 11:35
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (11)

Por mais que leia e ouça acerca do assunto, por mais que tente variar, sinto sempre que estou a usar o método errado para escovar os dentes.



publicado por José António Abreu às 22:32
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Música recente (26)

 

 

Nick Cave & The Bad Seeds, álbum Skeleton Tree.

 

No ano passado, um dos filhos de Nick Cave morreu ao cair de um penhasco em Brighton. Apesar de vários temas incluídos em Skeleton Tree serem anteriores ao acontecimento, ele marca todo o álbum, talvez o mais intenso e pessoal da carreira de Cave.

 

(Não resisti a incluir vídeos de dois temas, um mais agreste, o outro - bom, o outro será apenas a mais tocante balada que Cave já escreveu e interpretou.)



publicado por José António Abreu às 12:22
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016
Mas afinal existe esse risco?
Centeno: Evitar novo resgate “é a minha principal tarefa".

Há momentos que separam os técnicos (por moldáveis que sejam) dos políticos. Mário Centeno poderia ter dito que falar de um novo resgate não faz sentido. Que a economia está bem e vai melhorar ainda mais; que o país se encontra no caminho certo; que, «virada a página da austeridade», Portugal é agora - e não antes - um caso de sucesso. António Costa tê-lo-ia feito, com a displicência a que tantos chamam «optimismo». Centeno fez diferente. Aceitou a hipótese como credível. E isto diz tudo sobre o que realmente pensa - ou, no mínimo, sobre os medos que o assaltam.

 

(Note-se que lampejos de sinceridade como este não o desculpam: destroçado o cenário no qual baseou a sua acção, continua no governo a fingir que tudo vai bem. Lampejos como este demonstram apenas que a maior diferença entre técnicos e políticos nos momentos em que se torna necessário manter uma ficção é - como também vimos no tempo de Sócrates e Teixeira dos Santos - a consistência.)



publicado por José António Abreu às 15:58
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Domingo, 11 de Setembro de 2016
Imagens recolhidas pelas ruas: 250

Blogue_ruas79_Braga2016.jpg

 

Braga, 2016.



publicado por José António Abreu às 20:04
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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016
Música recente (25)

 

Kevin Morby, álbum Singing Saw.

 

Esteve em Paredes de Coura há um par de semanas. Os anos sessenta e setenta - de Bob Dylan a Lou Reed, passando por Leonard Cohen - andam por aqui. E, talvez por alguma iconografia religiosa, também me lembra os EUA de Flannery O'Connor.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (10)

Caminhava pelo passeio, esforçando-me por ouvir o que me diziam pelo telefone por sobre o ruído do trânsito. Uma rapariga estendeu-me uma prancheta com a mão esquerda e uma esferográfica com a direita. Tentei passar-lhe ao lado. Ela moveu-se no mesmo sentido que eu. Desviei-me mais um pouco e contornei-a, ignorando o seu trejeito de desagrado. Depois de desligar o telefone, reflecti que poderia ao menos ter visto qual a finalidade da petição. Mas logo a seguir mudei de ideias. Sou homem; não faço multitasking.



publicado por José António Abreu às 21:17
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016
Da dependência como estratégia política

O governo e a sua maioria parlamentar todos os dias maldizem a UE, mas dependem totalmente da Comissão Europeia e do BCE, e nada fazem para diminuir essa dependência. É este o mecanismo da dependência em Portugal: quanto maior a dependência da população em relação ao Estado, maior a dependência do Estado em relação às instituições europeias.

(...)

Não é possível imaginar a liberdade política sem cidadãos independentes e uma sociedade civil forte. Mas o açambarcamento de recursos pelo Estado reduziu a independência da classe média a um ideal sem futuro. Só os juros e o petróleo baratos compensam, por enquanto, o assalto fiscal. Se acrescentarmos a isso o enfraquecimento das grandes instituições tradicionalmente autónomas (Forças Armadas, Universidade, Igreja), ou a descapitalização das empresas, a conclusão é óbvia: o único freio e contrapeso dos governos em Portugal já não está dentro do país, mas fora. Só a Comissão Europeia e o BCE, na medida em que condicionam o financiamento do Estado, limitam neste momento o poder governamental sobre uma sociedade cada vez mais envelhecida, empobrecida e dependente. E é por isso que tudo isto, tanto como um problema económico, é um problema político.

Rui Ramos, no Observador.

 

É por isto que o PCP acaba por ser o membro mais honesto da «geringonça»: não esconde a aversão à União Europeia e ao euro. Os comunistas sabem que a utilização da dependência como estratégia política funciona durante pouco tempo num sistema em que não se controla a impressão de dinheiro e no qual as crises de financiamento obrigam a cortes de rendimento que a inflação não disfarça, bem como à venda de empresas públicas a grupos privados (para mais, quase sempre estrangeiros, dado os nacionais irem ficando sem capacidade financeira). A União Europeia é pois um travão ao caminho para a sociedade integralmente subjugada aos interesses do Estado que os comunistas desejam, ignorando estoicamente nunca ter sido possível implementá-la em grande escala e com sucesso em lugar algum, e também que todas as tentativas realizadas levaram à pobreza e à opressão (mas os pobres são menos exigentes e mais fáceis de controlar por qualquer Estado).

Já o PS e a facção que controla o BE pretendem algo ligeiramente diferente: uma sociedade de dependentes, sim, mas com ilusões de cosmopolitismo que exigem um nível de vida razoável. (No PS muita gente sabe que o modelo do PCP é uma aberração e no Bloco, paradigma da esquerda 'intelectual' e caviar, predomina a retórica - e, sendo caridoso, o voluntarismo - sobre qualquer modelo real.) Para conseguir - ou, mais precisamente, para manter - esta sociedade de dependentes do Estado apenas moderadamente infelizes, socialistas e bloquistas dispõem-se a suportar actos de subserviência regulares perante os parceiros da União Europeia, aceitando reprimendas e jurando intenções de mudança que nunca concretizam na totalidade. (O BE tem aqui uma vantagem competitiva: estando - ao contrário do Syriza - fora do governo, até pode manter o discurso enquanto engole pequenos sapos.) Claro que ciclicamente a situação fica insustentável - o dinheiro acaba e é necessário tomar medidas duras em troca de mais. Mas é nestes momentos que os partidos de centro-direita (cuja existência o PCP tolera mal) revelam a sua utilidade. Num país de dependentes do Estado, serão sempre - e apenas - a brigada de limpeza. PS e BE sabem-no. Quanto ao PCP, neste tema muito menos hipócrita, espera a sua grande oportunidade - a saída de Portugal da União Europeia.



publicado por José António Abreu às 16:59
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2016
Música recente (24)

 

The Divine Comedy, álbum Foreverland.

 

A carreira de Neil Hannon enquanto The Divine Comedy tem variado entre o estilo crooner e a pop irónica, passando por um mal compreendido mas sublime Regeneration (2001), onde arriscou uma sonoridade mais 'suja' (o falhanço comercial do álbum foi lamentável não apenas porque é excelente mas porque terá feito Hannon retrair-se e abandonar experiências radicais). Lançado na sexta-feira passada, ainda não tive tempo para ouvir Foreverland com a atenção que certamente merece. Mas qualquer álbum de Neil Hannon, por muito derivativo que seja, me é imprescindível - até os dois que fez sob o nome The Duckworth Lewis Method, em colaboração com Doug Walsh, dos Pugwash, inteiramente dedicados a esse desporto estranho: o cricket.

 

(Sticky Wickets, um dos álbuns dos The Duckworth Lewis Method, tem uma das minhas capas de discos favoritas - nada condizente com a célebre fleuma britânica.)


publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 4 de Setembro de 2016
Paisagens bucólicas: 75

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Perto da Guarda, 2016.



publicado por José António Abreu às 21:14
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016
Música recente (23)

 

Róisin Murphy, álbum Take Her Up to Monto.

 

Há uma meia dúzia anos, vi Róisin na Sala 2 da Casa da Música. Pareceu-me existir nela uma tendência excessiva para o perfeccionismo, denotada por lampejos de irritação quando as coisas não corriam como desejava (por exemplo, com a qualidade do som ou com a fluidez na colocação e retirada de casacos e outras vestimentas). A sonoridade do álbum Hairless Toys, de 2015, deu-me ideia de alguém que amadurecera um pouco. Este novo álbum confirma a sensação. Talvez haja na música um pouco menos de energia e imediatismo, mas também há uma tendência nítida para fugir ao óbvio.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2016
Diário semifictício de insignificâncias (9)

Para Agosto, o trânsito tem andado mauzito. Bastante melhor do que noutros meses, mas mauzito. Talvez menos portuenses tenham ido para fora do que em anos anteriores. Ou quiçá o acréscimo de viaturas se deva exclusivamente aos turistas espanhóis. Ou se calhar muita gente anda a gastar combustível para ajudar as contas públicas. Ou então o fumo dos incêndios e o calor excessivo das primeiras semanas do mês deixaram o meu pessimismo numa fase particularmente aguda, que me leva a ver mais carros do que em anos anteriores.

Realisticamente (se um optimista é um pessimista mal informado, um realista é um pessimista capaz de fazer escolhas), inclino-me para uma conjugação das hipóteses 1, 2 e 4 - as reportagens televisivas mostram praias algarvias cheias, circulam nas ruas muitas matrículas espanholas, e eu não posso estar bem quando também me parece andarem por aí menos mulheres atraentes em trajes de Verão de que noutros anos. Mas, seja a verdade qual for, sinto falta de uma cidade calma, em modo de pausa. Turistas nos passeios e nas esplanadas não me incomodam; fazem-me sentir num destino de férias e até conferem cosmopolitismo à minha decisão de aqui permanecer. Mas, por algum motivo, o trânsito arruína a sensação de que a cidade é uma espécie de cenário megalómano, feito exclusivamente para mim e para meia dúzia de outros residentes tão esclarecidos como eu - pessoas disponíveis para a cidade nesta altura do ano por saberem que é agora que ela atinge o grau máximo de disponibilidade.

Por outro lado (diabos levem esta necessidade de manter os pés no chão, dispensada com estonteante leveza pelos optimistas), «esclarecido» pode não ser o termo mais correcto para designar quem fica a trabalhar em Agosto.



publicado por José António Abreu às 21:44
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Música recente (22)

 

Ry X, álbum Dawn.

 

Um manto de nevoeiro sobre um oceano de melancolia, perfurado por raios de sol e sirenes de navio. (Que os deuses da escrita me perdoem a imagem.) Pacificante e até estranhamente uplifting.



publicado por José António Abreu às 12:22
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