como sobreviver submerso.
Domingo, 26 de Março de 2017
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Amarante, 2013.



publicado por José António Abreu às 20:41
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Sexta-feira, 24 de Março de 2017
Música recente (81)

 

Depeche Mode, álbum Spirit.

 

A criação foge muitas vezes ao controlo dos criadores. No mês passado, Richard Spencer, norte-americano conotado com posições neo-nazis, classificou os Depeche Mode como «a banda oficial da alt-right», afirmando que a música dos ingleses contém uma «ambiguidade» que sugere a existência de «elementos «fascistas». Por pouco recomendável que o homem possa ser (foi a primeira vez que ouvi falar nele), as suas palavras merecem análise: da mesma forma que a música de Wagner, grandiloquente e ao serviço de visões de uma sociedade idílica e pura, se adequou como uma luva à mentalidade de Hitler, não é de excluir que o carácter sincopado, militarizado, da música dos Depeche Mode tenha o mesmo efeito em Spencer e noutros indivíduos com ideias similares. (E, já agora, a imagem dos elementos da banda, construída nos anos 80 com a ajuda do fotógrafo Anton Corbijn, também pode ter alguma coisa a ver com o assunto.) Há, no entanto, uma diferença importante: se sabemos que Wagner, falecido antes do nascimento de Hitler, ansiava por uma sociedade mais «pura» e tinha reservas quanto ao papel dos judeus na sociedade alemã, dificilmente os Depeche Mode poderiam ter sido mais claros na resposta às afirmações de Spencer: «He's a cunt», declarou o vocalista Dave Gahan. A situação torna-se particularmente irónica quando se ouve Spirit, o álbum lançado na passada sexta-feira. Nunca os Depeche Mode foram tão abertamente políticos e raramente mostraram tanta insatisfação. Pode até dizer-se que entram no campo apenas aparentemente oposto ao de Spencer: o do populismo de esquerda. A música é óptima (Spirit será o melhor álbum deles em muitos anos), mas não me parece descabido perguntar se, na ânsia do protesto, conterá mesmo alguns elementos totalitários. Afinal, os extremos tocam-se.


publicado por José António Abreu às 12:22
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Quinta-feira, 23 de Março de 2017
Diário semifictício de insignificâncias (23)

Assisto na televisão às reportagens sobre mais um atentado. Há corpos no chão, um herói improvável e inglório, a estupefacção do costume, não obstante a falta de novidade. Por entre cuidados de linguagem (a jornalista da CNN esforça-se por tentar saber se o que permite às autoridades falarem em terrorismo é a origem ou a religião do atacante sem usar termos como «árabe» ou «muçulmano»), reporta-se que o número de mortos e feridos é provisório. A informação permite manter aquela expectativa doentia em que se deseja simultaneamente o menor e o maior número possível. Pergunto-me o que diferenciará tragédias grandes de tragédias pequenas. O número de mortos? As circunstâncias? O nível de incongruência ou de crueldade? Mas talvez essa seja a forma errada de classificar as tragédias. Talvez seja mais exacto - e mais fácil - dividi-las em tragédias públicas e tragédias íntimas. As primeiras estão cheias das segundas, mas raramente lhes fazem jus: o espectáculo e a cacofonia (ainda que baseada nas melhores intenções) nunca o permitem.

Mudo para o Eurosport.



publicado por José António Abreu às 23:16
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Claramente, ninguém informou Dijsselbloem sobre as reformas levadas a cabo nos últimos anos
Em relação ao passado, ele até pode ter razão. Mas, por favor, alguém lhe diga que o Elefante Branco fechou e o Pérola Negra já não é o que era.


publicado por José António Abreu às 08:28
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Terça-feira, 21 de Março de 2017
Música recente (80)

 

Jay Som, álbum Everybody Works.

 

Há quem lhe chame bedroom pop, mas o primeiro álbum verdadeiro da californiana Melina Duterte (Turn Into, de 2016, era constituído por demos, embora bastante polidas) vai muito para além de rótulos fáceis. E, de qualquer modo, o quarto é frequentemente o local onde as pessoas meditam acerca da vida. Em especial durante a juventude.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 19 de Março de 2017
Com o Douro por cenário: 81

Blogue_douro23_2017.jpg

 

Porto / Vila Nova de Gaia, 2017.



publicado por José António Abreu às 20:11
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Sexta-feira, 17 de Março de 2017
Música recente (79)

 

Valerie June, álbum The Order of Time.

 

Depois de um fantástico segundo álbum de Rhiannon Giddens, um também excelente segundo trabalho de Valerie June. É um pouco como se, em tempo de divisões político-sociais, a música com raízes na tradição (e ainda que alguns temas de The Order of Time derivem para a pop) fizesse questão de, por um lado, lembrar erros do passado que são também alertas para o futuro, e, por outro, apelar à reconquista de um sentido de comunidade e de destino partilhado. These are the songs you sing, in the search for the grass that's green, canta June em Long Lonely Road. É assim há muito, assim continuará a ser.
 



publicado por José António Abreu às 12:22
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Terça-feira, 14 de Março de 2017
Música recente (78)

 

The Shins, álbum Heartworms.

 

Após o seu trabalho com Danger Mouse nos Broken Bells e a saída dos restantes elementos fundadores da banda, James Mercer tem vindo a alargar o espectro da sonoridade dos The Shins. Este álbum volta a incluir canções naquela linha pop/rock de bandas como os 10.000 Maniacs, mas também visita áreas como o psicadelismo e a new wave. E ainda há a nostalgia do tema abaixo.

 



publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 12 de Março de 2017
Imagens recolhidas pelas ruas: 261

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Coimbra, 2017.



publicado por José António Abreu às 20:31
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Sexta-feira, 10 de Março de 2017
Façam apps, não automóveis
2014: Facebook compra WhatsApp por 19 mil milhões de dólares.
2016: Microsoft compra LinkedIn por 26,2 mil milhões de dólares.
2016: Nissan compra 34% da Mitsubishi Motors por 2,2 mil milhões de dólares.
2017: Grupo PSA (Peugeot, Citroën, DS) compra a totalidade do braço europeu da GM (Opel e Vauxhall) por 2,3 mil milhões de dólares.

 

Note-se a diferença de valores. Num mundo de relações online, de expectativas e impaciências desmesuradas, de taxas de juro negativas, de dinheiro nascido da concessão de crédito, talvez seja natural que os bens tangíveis percam importância e que a riqueza (a global como a dos famigerados ricos-que-continuam-a-enriquecer) seja cada vez mais virtual - e volátil. A própria inflação transferiu-se dos bens transaccionáveis para as bolsas e, dentro destas, em especial para as empresas que poucos ou nenhuns bens físicos produzem. Compare-se a evolução dos principais índices bolsistas com a evolução da economia dos respectivos países e o resultado só pode suscitar preocupação. Que percentagem da riqueza mundial se perderia hoje com um - bastante provável, de resto - crash bolsista? Quanto dinheiro desapareceria com a assumpção da incapacidade de pagamento de tantas dívidas gigantescas, públicas como privadas?

 

Mas este mundo também tornou a riqueza mais acessível às pessoas com as ideias certas e a coragem de as levar por diante. No fim de contas, fazer uma app custa muito menos do que projectar, construir e comercializar um automóvel. Talvez este facto explique em parte a insatisfação (a raiva, mesmo) que grassa nos países ocidentais (e utilizo o termo de forma abrangente, não geográfica). Por muitos defeitos e distorções que existam, por muitas ameaças que se perspectivem, nunca ao longo da história das sociedades organizadas (e hierarquizadas) as oportunidades perdidas o foram por motivos tão auto-atribuíveis.



publicado por José António Abreu às 17:47
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Música recente (77)

 

Laura Marling, álbum Semper Femina.

 

O título vem da Eneida: varium et mutabile semper femina (qualquer coisa como as mulheres são inconstantes e caprichosas). Marling vira o sentido da frase do avesso e transforma a presumível inconstância feminina em capacidade de adaptação. Não sei o que Virgílio pensaria, mas estou convencido de que Mozart e Lorenzo Da Ponte (cuja ópera Così fan Tutte parte de uma premissa similar à exposta na Eneida) achariam piada. Bem como a este vídeo.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Quinta-feira, 9 de Março de 2017
O odor dos animais ferozes
O que se passou ontem no Parlamento revela muito sobre a incapacidade deste PS debater os assuntos. Quando questionado, ataca, procurando desviar as atenções. Não aceita críticas, venham elas de organismos independentes como o Conselho da Finanças Públicas, venham de deputados cujo mandato inclui precisamente o escrutínio da acção governativa. Nem nos piores momentos da estadia da Troika em Portugal, com a oposição nas ruas, Passos Coelho reagiu como Costa o tem feito.
 

Mas já vimos este filme. As passagens de Sócrates pela Assembleia seguiam o mesmo guião. E, na verdade, não surpreende que ele continue a seu aplicado: Costa, Galamba, César, Ferro, Nuno Santos foram apoiantes entusiásticos de Sócrates e, como ele, parecem outorgar-se o direito de ocupar um plano acima daquele onde se movimentam todos os outros - e de todas as regras. Enrobustecido pelas necessidades da gerinçonça mas, na verdade, intrínseco, o jacobinismo deste PS é gritante. Adicionem-se-lhe factores como a fragilidade das contas públicas, o «optimismo» comprado com medidas demagógicas, a complacência da União Europeia, e depressa o odor a 2009 se torna indisfarçável.



publicado por José António Abreu às 10:27
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Terça-feira, 7 de Março de 2017
A berlineta azul

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Jean-Luc Thérier no Rali de Portugal (TAP) de 1973.

 

 

Creio que foi em 1973, mas pode ter sido em 1972. Do local, recordo-me bem: uma encosta da Serra do Açor, por cima da povoação de Folques, a meia dúzia de quilómetros de Arganil. Hoje a estrada encontra-se asfaltada, na altura era em terra batida. Dependendo do ano, eu tinha quatro anos e meio ou três anos e meio. Estava em pé no cimo de uma barreira, com o meu pai de um lado e a minha mãe do outro. Trata-se, aliás, de uma das memórias mais antigas que tenho dos meus pais. Devo-a à pequena berlineta azul que saiu em derrapagem de uma curva quase em frente, percorreu de nariz no ar as poucas dezenas de metros até à curva em que nos encontrávamos, descreveu-a, fez a seguinte, mais fechada, com a traseira a deslizar, e seguiu encosta abaixo, dançando de curva para curva. Fiquei extasiado. Seguiram-se outros carros espectaculares, entre os quais um par de Porsches 911, mas a minha devoção fora garantida pela berlineta azul. De tal modo que, tendo nas décadas seguintes visto muitos outros carros de ralis (do Fiat 131 Abarth ao Mitsubishi Lancer Evolution, passando pelo belíssimo Lancia 037 e pelos brutais Audi Sport Quattro S1 e Peugeot 205 Turbo 16), não somente nas estradas de Arganil mas também nas da Lousã e nas de Fafe, nenhum deles alguma vez conseguiu destroná-la do topo das minhas preferências.

 

A berlineta azul era um Alpine Renault A110 e nascera da paixão do francês Jean Redelé pela competição automóvel. Natural de Dieppe, filho do dono de uma oficina, concessionário Renault, Redelé começou por preparar e pilotar Renaults 4CV (o famoso «Joaninha») em provas como o rali de Monte Carlo e as Mil Milhas. Em 1955, com a apresentação do A106, ainda sob a base do Renault 4CV, fez nascer a marca «Alpine», nome inspirado pelos resultados que conseguira nos troços dos Alpes. Em 1957 surgiu o A108, baseado no Renault Dauphine, e em 1962 o A110, que utilizava a base do Renault 8. A primeira versão do A110 estava equipada com um motor de apenas 956 cm3 debitando 55 CV (SAE). Ao longo dos anos, as versões disponíveis para compra iriam ver a cilindrada subir até aos 1647 cm3 e a potência até aos 140 CV (na versão de 1605 cm3) enquanto as versões de competição chegariam aos 1860 cm3 e aos 190 CV. Como no Porsche 911, a tracção era feita às rodas traseiras e o motor estava posicionado atrás do eixo motriz. Extremamente leve, o A110 era difícil de controlar no limite. Contudo, nas mãos de pilotos como Bernard Darniche, Jean Pierre Nicolas e Jean-Luc Thérier, ganhou inúmeros ralis, entre os quais o de Portugal, em duas ocasiões: 1971 (Nicolas) e 1973 (Thérier). (Pepita de informação acessória: Michele Mouton, muito mais associada aos anos 80 e à Audi, começou a carreira num A110.) Em 1974, o surgimento do Lancia Stratos, concebido especificamente para a competição e equipado com motor central de origem Ferrari com 260 CV, marcou o final do seu período de glória. Totalmente propriedade da Renault desde 1973, a Alpine viria ainda a ganhar as 24 Horas de Le Mans em 1978, com o protótipo A442B, mas a crise do petróleo e erros de gestão no posicionamento da marca (nem o A310, lançado em 1971, ainda com Redelé à frente da empresa, nem o GTA, lançado em 1984 e apostando numa imagem mais cosmopolita, tiveram sucesso) levaram ao seu desaparecimento.

 

Até hoje. No Salão de Genebra, a Renault acaba de oficializar o renascimento da Alpine, através da apresentação do novo A110. É um pouco maior do que o original (todos os carros têm vindo a crescer) e possui agora o motor em posição central. Ainda assim, muito ADN é partilhado: a tracção traseira, o peso reduzido (1100 Kg), as dimensões compactas (4,18 m de comprimento, 1,25 m de altura), o motor de cilindrada relativamente baixa, com potência muito razoável (um novo 1.8 l de injecção directa com 252 CV). O preço? Em terras gaulesas, entre 55 mil e 60 mil euros. Os 1955 exemplares da «primeira edição» (1955 porque - voltem ao parágrafo anterior - a Alpine nasceu nesse ano) estão já todos vendidos.

 

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 O clássico e o recém-nascido.

  

Há quem ambicione possuir Ferraris e Aston Martins. Mais modesto, eu contentar-me-ia com um A110. E não, este texto não reflecte uma crise de meia idade (acabei de explicar o que a Alpine representa para mim desde os  tempos em que ainda desconhecia onde ficavam os Alpes) nem consiste em publicidade encapotada (não tenho qualquer ligação à Renault). Trata-se apenas de expressar a minha alegria pelo renascimento da marca. Não posso, contudo, deixar de aproveitar a oportunidade para enviar uma nota ao Partido Socialista. Em troca de um montante entre os 55 mil e os 60 mil euros, estou disposto a assinar textos de apoio à geringonça. Aceito usar o nome «Abrantes» (afinal, é só mudar a terminação) ou até mesmo «Pipoca». Entrem em contacto, OK? 

 

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publicado por José António Abreu às 17:08
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Música recente (76)

 

 Nice as Fuck, álbum Nice as Fuck.

 

Jenny Lewis, expoente da pop leve mas de bom gosto, Erika Forster, das electrónicas e atmosféricas Au Revoir Simone, e Tennessee Thomas, da banda de rock alternativo The Like, juntaram-se para um projecto ligeiramente inconsistente (muitos temas parecem esboços), mas com alguma piada.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 5 de Março de 2017
Imagens recolhidas pelas ruas: 260

Blogue_ruas53_Porto2016.jpg

 

Porto, 2016.



publicado por José António Abreu às 20:16
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Sexta-feira, 3 de Março de 2017
Música recente (75)

 

Honeyblood, álbum Babes Never Die.

 

Apenas o segundo álbum e, com a substituição de um único elemento, metade da banda já é nova. (Se tiverem dificuldades, podem usar a equação 0,5xN=1, em que N é o número total de elementos.) A vocalista e guitarrista Stina Marie Claire Tweeddale mantém-se (uma excelente notícia porque Stina Marie Claire Tweeddale é um nome espectacular), mas na bateria encontra-se agora Cat Myers (também não deixa de ser um nome catita). O álbum será um pouco mais refinado do que o anterior, circunstância com pontos positivos (é mais refinado) e negativos (é mais refinado), mas os riffs estilo-grunge e a atitude permanecem.

 

(Quem achar o vídeo interessante e nunca tiver visto o filme Under the Skin, por favor trate de arranjar forma de o fazer.)

 

(A água na Escócia há-de estar fria...)



publicado por José António Abreu às 12:22
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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017
Música recente (74)

 

Rhiannon Giddens, álbum Freedom Highway.

 

Giddens já passou por vários projectos. Este é o seu segundo álbum a solo. O primeiro, lançado em 2015, tinha o número mínimo de originais para não poder ser classificado com exclusivamente de versões. Desta feita, nove dos doze temas são originais, mas alguns parecem tão genuínos que é como se pudessem ter sido compostos em meados do século XIX e cantados em torno de fogueiras no Texas ou em plantações de algodão no Louisiana. Há aqui uma preocupação com a história dos Estados Unidos, com as lutas, os sacrifícios e a violência que ela incluiu. A canção At the Purchaser's Option, no vídeo acima, é inspirada num anúncio verdadeiro, no qual uma escrava de 22 anos é oferecida para venda, ficando à consideração do comprador a inclusão no negócio da sua filha de nove meses. Outros temas estabelecem relações com os tempos actuais, através das letras mas também da música, que inclui espirituais negros, blues, folk, country, toques de jazz, até mesmo hip-hop. Estranho mas acessível, tradicional mas desafiante, duro mas inspirador, atrevo-me a afirmar, após somente um par de audições, que vai constituir um dos meus álbuns do ano.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017
O «êxito» nacional - rapidinhas

O crescimento.

Ficou abaixo do que o PS prometera. Ficou abaixo do que, segundo o PS, teria sido com um governo PSD-CDS. Ficou abaixo do que foi em 2015. Ficou acima das previsões mais pessimistas.

 

A dívida.

A resolução do Banif foi precipitada para 2015. A recapitalização da Caixa foi adiada para 2017. Ainda assim, subiu em termos absolutos e talvez em percentagem do PIB.

 

A austeridade.

Foi transferida dos salários para os equipamentos e para o material, dos funcionários públicos para a generalidade dos cidadãos, desapareceu dos noticiários e, por conseguinte, terminou.

 

Os juros.

«Para o infinito e mais além», anunciaria Buzz Lightyear.

 

O investimento.

Foi aplicado em publicidade institucional.

 

A transparência e a ética republicana.

Completamente garantidas pela inviolabilidade das mensagens sms.

 

O PCP e o Bloco.

Desta vez são cúmplices.

 

O presidente.

O indivíduo deslumbrado que tenta parecer um gajo porreiro, emite opinião sobre tudo, inventa factos e distribui facadinhas nas costas. Que melhor representante do país se poderia arranjar?

 

O défice.

Com ou sem o perdão fiscal, o congelamento do investimento, a venda dos F-16, as cativações, a reavaliação de activos, o atraso nos pagamentos a fornecedores?

 

«O défice mais baixo da democracia portuguesa.»

Onde é que já ouvi isto?


publicado por José António Abreu às 09:44
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017
Paisagens bucólicas: 88

Blogue_paisagem51_Candal_SLousã_2017.jpg

 

Candal, Serra da Lousã, 2017.



publicado por José António Abreu às 19:31
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017
Música recente (73)

 

Ty Segall, álbum Ty Segall.

 

Um dos comentários a este vídeo no Youtube é cruel: «dad music». Seja. Apreciar rock de garagem estará fora de moda, mas estar fora de moda pode ser uma maneira de combater as tendências para a uniformidade.



publicado por José António Abreu às 12:22
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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017
Música recente (72)

 

The Invisible, álbum Patience.

 

Os Invisible são Dave Okumu, produtor do primeiro álbum de Jessie Ware, guitarrista da malograda Amy Winehouse, e Tom Herbert e Leo Taylor, colaboradores habituais de Adele. A música que fazem evita a velocidade e a grandiloquência; trata-se de pop electrónica, mas num registo contemplativo e melancólico. Alguns dos melhores temas do álbum incluem convidadas (Anna Calvi, por exemplo).



publicado por José António Abreu às 12:08
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017
Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo
 

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi), lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

 

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.



publicado por José António Abreu às 11:01
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
Imagens recolhidas pelas ruas: 259

Blogue_ruas57_VNGaia2005.jpg

 

Vila Nova de Gaia, 2005.



publicado por José António Abreu às 19:11
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017
Música recente (71)

 

Osso Vaidoso, álbum Miopia.

 

Ana Deus e Alexandre Soares num segundo álbum de sonoridade mais «suja», assente em letras de gente como Jorge Luis Borges, Natália Correia, Nicolau Tolentino, Rainer Maria Rilke e Sá de Miranda.

 



publicado por José António Abreu às 12:22
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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017
Os Estados Unidos trumpistas também têm pontos positivos...
Playboy volta a ter fotografias de mulheres nuas.


publicado por José António Abreu às 14:16
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Música recente (70)

 

Minor Victories, álbum Minor Victories.

 

Um projecto só possível nos tempos actuais. Rachel Goswell, dos Slowdive, Stuart Braithwaite, dos Mogway, e Justin Lockey, dos Editors, trabalharam à distância e nunca gravaram todos no mesmo local. O resultado mistura a tendência pop de Lockey com a guitarra densa de Braithwaite. A voz de Goswell acrescenta o toque de leveza e fragilidade.

 

(Sempre me pareceu que o planeta seria destruído por um gato - o de Blofeld, por exemplo. Ou então por um humano com cabelo alaranjado.)



publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2017
Imagens recolhidas pelas ruas: 258

Blogue_grafismo23_CadeiaRelação2009.jpg

 

Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia da Relação), Porto, 2009.



publicado por José António Abreu às 19:50
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017
Música recente (69)

 

Señoritas, álbum Acho Que É Meu Dever Não Gostar.

 

Sandra Baptista e Maria Antónia Mendes, ex-Naifa (Sandra também ex-Sitiados), num conjunto de canções despidas, à base de acordeão, guitarra, baixo e tarola, gravadas em casa de Sandra. A perspectiva é madura e feminina, a sonoridade faz pensar em tangos e nas bandas sonoras mais famosas de Ennio Morricone.

 



publicado por José António Abreu às 12:22
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017
Música recente (68)

 

Elbow, álbum Little Fictions.

 

Há qualquer coisa na voz de Guy Garvey que anima a alma. Ainda por cima, neste álbum ele está apaixonado.

 

 

We protect our little fictions
When we bow to fear
Little wilderness mementos
But there's only you and me here
Fire breathing
Hold tight
Waiting for the original miracle

(...)

Life is the original miracle
(...)
Love is the original miracle

(no tema que dá título ao álbum)



publicado por José António Abreu às 12:22
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2017
As coisas pequeninas são sempre tão giras: 18

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2009.



publicado por José António Abreu às 20:58
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