como sobreviver submerso.
Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
Preso por ter cão...
A SIC Notícias abriu o noticiário das dez da noite informando que o Benfica ganhava ao Sporting por três a um. Comentei: «O Sporting ainda vai dar a volta ao resultado.» Obtive risos sardónicos como resposta. Não vale a pena. Sou frequentemente acusado de ser pessimista mas gozam comigo quando tento ser optimista.
Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
Ideal para namorados?
Livraria Leitura, Centro Comercial Cidade do Porto, hoje pela hora de almoço. Entre os livros enfeitados com fitas, laçarotes e quejandos em honra do dia dos namorados (mais uma data em que se tornou obrigatório comprar e dar presentes) encontra-se O Que Sabemos do Amor, de Raymond Carver, na nova edição da Quetzal. Fiquei parado a sorrir durante um par de segundos. (Cada um diverte-se como pode.) Ou quem colocou o livro em destaque nunca leu Carver e se limitou a considerar que, com aquele título, devia ser uma coisa na linha de Nicholas Sparks, ou está a visar casais cujos membros já não se suportam e fazem questão de o dar a entender mesmo quando hipocritamente oferecem prendas um ao outro, ou tem um plano diabólico para deixar verdadeiros apaixonados pensando que talvez seja melhor viverem sozinhos.
(Podem ler um dos contos do livro no Antologia do Esquecimento, na versão da antiga edição da Teorema, que tinha por título De que Falamos Quando Falamos de Amor. Segundo o blogue da Quetzal, existem diferenças significativas entre as duas versões.)
Todos pela liberdade
Medo e produtividade
No meu departamento, há seis pessoas que têm medo de mim, e uma pequena secretária que tem medo de todos nós. Tenho uma outra pessoa a trabalhar para mim que não tem medo de ninguém, nem sequer de mim, e eu despedi-la-ia rapidamente, mas tenho medo dela.
Joseph Heller, Pânico (Something Happened no original)
Edição D. Quixote, Tradução de J. Teixeira de Aguilar
Raramente se admite que é o medo que faz funcionar as empresas. Mal, mas faz. O medo das represálias. O medo de perder o emprego. O medo das capacidades alheias. O medo de ser acusado de falta de espírito de equipa. O medo de falhar e ser exposto como uma fraude. É o medo que leva subordinados a calar o que gostariam de dizer. É o medo que leva chefias a promover quem não contesta, mesmo que em detrimento da competência. O medo origina uma variante do princípio de Dilbert: os funcionários mais incompetentes são promovidos porque são os menos capazes de colocar a nu a incompetência de quem os promove. Se ninguém o tiver enunciado antes, chamem-lhe o «princípio de jaa» (soa melhor em inglês).
Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
Informação
No conto de Roald Dahl A Fine Son, publicado pela primeira vez em 1959 na revista Playboy, assistimos ao desespero de uma mulher que, tendo perdido três filhos nos últimos dezoito meses, não acredita que o bebé recém-nascido (a história começa logo após o parto) consiga sobreviver. Acompanhamos as tentativas do médico para salvar a criança e as garantias que dá à mãe de que a criança se encontra bem. Em poucas páginas ficamos a saber que a família se mudou recentemente para a terra onde estão e que Alois, o pai do bebé, é um homem rígido e autoritário. Quando, finalmente, tudo parece acabar bem, Dahl fecha o conto com o médico mostrando o bebé ao pai, que trata por «Herr Hitler», e com a mãe rezando para que a criança sobreviva. Estivemos durante vários minutos, primeiro sem qualquer hesitação, depois já desconfiando que algo não era tão claro como parecia, a torcer pela sobrevivência de Adolf Hitler.
É normal. Há alturas em que temos falta de informação para que as nossas decisões sejam fundamentadas. Há assuntos e momentos em que, mesmo na posse de toda a informação, não nos é fácil decidir: seríamos capazes de matar o bebé Adolf se uma máquina do tempo nos transportasse para junto do seu berço? Mas, quando a informação disponível já é mais do que suficiente para podermos fazer um juízo claro, insistir que as questões de forma (que merecem atenção mas, em grande medida e como aqui se escreve, só existem porque deixámos o sistema degradar-se a um ponto em que parecem não existir outras vias) são mais importantes do que as de conteúdo é pactuar com a falta de vergonha que os factos demonstram. Que tudo isto aconteça num momento em que o futuro do país está na balança é assustador. Mas, ainda assim, Sócrates não tem condições para continuar a ser Primeiro-Ministro nem Pinto Monteiro para ser Procurador da República. Ou já deixámos sequer de pretender que Portugal é um país minimamente decente.
P.S.: Antes que almas demasiado sensíveis peguem no acessório e não no essencial, informo que não estou a comparar os actos de Sócrates com os de Hitler. A menção do conto de Dahl serve apenas para demonstrar como podemos ser enganados se não dispusermos de informação adequada.
Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
Cliché

Hesito há semanas em colocar uma foto de Veneza na série das Paisagens Bucólicas. A verdade é que é provavelmente impossível tirar em Veneza uma fotografia que não seja um cliché. Como, aliás, em muitos outros locais. Por que continuamos então a tirá-las? Sim, queremos provar que, como milhões de outras pessoas antes de nós, estivemos lá. Mas não é apenas isso. Como demonstram aqueles escritores, músicos, cineastas (actividades a que, ao contrário da fotografia, poucos acedem) que enchem as obras de clichés e são incapazes de o admitir, um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché.
Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
Problema
Uma das consequências dos acontecimentos dos últimos dias é que mesmo os críticos de longa data de Sócrates, dos seus métodos e dos seus governos parecem agora anjinhos optimistas.
Imagens recolhidas pelas ruas: 26
Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
Erro de percepção

Às vezes pareço irritado mas estou apenas a bocejar (ou seja, a combater o enfado).
Inconsciência
Estou quase sempre deitado, prestes a adormecer ou ainda mal acordado, quando me surgem ideias para os melhores posts. Como sou demasiado preguiçoso para me levantar esqueço-as sempre, tendo depois que me contentar com os limites muito mais apertados do meu cérebro desperto.
Leio que não é incomum isto suceder. É à beira da morte que nos sentimos mais vivos, é no limiar da inconsciência que ficamos mais lúcidos. Mas, neste último caso, haverá certamente excepções. Ou então os nossos governantes já teriam conseguido içar Portugal ao topo do desenvolvimento e da riqueza.
(E daí talvez a contradição não exista: é possível encontrar abundantes indícios de que eles cruzaram o limiar da inconsciência há já muito tempo.)
Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
Duas categorias
Noventa por cento (apesar de tudo, há que fazer um esforço para ser optimista) dos empresários e gestores portugueses enquadram-se em duas categorias: os que se fizeram pelas próprias mãos e não sabem evoluir, e os que se fizeram em excelentes escolas de gestão e não sabem lidar com a realidade.
Optimismo
As agências de rating falharam porque foram optimistas. Há uma data de gente que as acusa disso e lhes exige que agora sejam optimistas.
Nota: parece que Pacheco Pereira escreveu algo parecido; no entanto, a minha formulação tem mais piada.
Estudos simples vs. estudos complexos
Os estudos do governo e da RAVE são, evidentemente, muito mais completos do que este pequeno estudo comparativo
, singelo e repleto de bom-senso, duas características que, como sabemos, nunca conduzem a grandes resultados.
Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
Insultos para maiores de quarenta dirigirem a menores de vinte
O cabelo branco tem uma certa distinção enquanto isso é apenas um ridículo e pouco ecológico desperdício de gel.
Podes saber utilizar um iPhone mas tens que pensar dois minutos para responder quantos são sete vezes oito.
Consegues escrever mensagens sms mais depressa do que eu mas pelo menos as minhas vão em português.
Não estou no Facebook porque ainda sei falar sem necessitar de um teclado; e porque encontraria lá muita gente como tu.
Posso já não ter a força que tive mas ainda tenho mais inteligência do que tu alguma vez terás.
O queixume que me ouves emitir ao levantar-me e ao sentar-me é uma tentativa de te dar a entender o idiota que és; obviamente, passa-te ao lado.
Isto não é calvície, é depilação natural e, ao contrário da que tu fazes, executada nas zonas certas.
Pára lá com a histeria à volta dos jogos de vídeo; eu já jogava Doom quando tu ainda procuravas aprender a usar o bacio.
Nasci na época do Eusébio, tu nasceste na época do Futre; consegues perceber a diferença?
Seu ignorante: todas as bandas actuais soam a bandas de há vinte, trinta ou quarenta anos.
Sim, quando nasci a televisão era a preto e branco mas tinha os monólogos do Vitorino Nemésio enquanto agora tem os do Professor Marcelo; desculpa, não conheces nem um nem outro, pois não?
Distingues bem a roupa de marca da restante mas tens dúvidas quanto ao aspecto de uma ovelha.
Simpatizas com a esquerda radical-chic mas desconfias que Che Guevara foi uma criação da Coca-Cola e não sabes quem foi Lev Trotsky. (Exactamente, um escritor ou pintor russo que viveu há mais de quinhentos anos.)
A minha preocupação ao terminar os estudos era arranjar um bom emprego, a tua vai ser arranjar um emprego; e olha que há uma certa justiça nisto.
O valor da minha reforma vai ser ridiculamente baixo mas vou ter o prazer de saber que és tu quem a está a pagar; e que nem sequer terás direito a uma.
Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
Com o Douro por cenário: 14
Sorriso
Na livraria Almedina do ArrábidaShopping, um homem com sessenta e muitos anos de idade lia em pé junto a uma estante o livro Portugal, Que Futuro?, de Medina Carreira e Eduardo Dâmaso. Fazia-o com um ligeiro sorriso nos lábios. Fiquei a olhar para ele durante algum tempo, tentando decifrar aquele sorriso (das coisas mais versáteis e úteis que possuímos, o sorriso). Havia nele uma componente de preocupação, outra de distanciamento, talvez mesmo de sarcasmo. Podia ser um sorriso de pose: uma forma de não se comprometer com o conteúdo do livro perante quem o rodeava (gente irritante como eu, que repara no que os outros estão a ler). Mas também podia ser um sorriso de escárnio dirigido às teses de Medina Carreira. Ou um sorriso de quem já viveu e passou o bastante para ter perdido ilusões e até se permitir agora extrair algum gozo da aproximação da catástrofe (como se pensasse: «É bem feito»). Desisti antes de chegar a qualquer conclusão. Ele ficou lá, a sorrir para o livro.
Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
Proximidade

Este post é uma espécie de antítese deste outro. Torna-se mais fácil manter a vontade de esmagar (ou, no mínimo, de ignorar) os seres que nos irritam (incluindo os humanos) assegurando alguma distância deles. A proximidade revela fragilidades e gera empatia.
(E agora vou matar um mosquito – não, não é o da foto, mas ainda que fosse – que anda aqui a chatear-me.)
Facebook
Até nos amigos passámos a dar mais importância à quantidade do que à qualidade. E também no campo da amizade impera hoje o espírito da competição (o prazer que dá ter mais «amigos» que o parceiro do lado) e do interesse (afinal, se não tivermos «amigos», quem é que nos vai dar presentes para expandirmos a nossa Farmville?).
Todos em uníssono
Nenhuma surpresa. É mais uma campanha, certamente. Quando é que, nos jornais, nas rádios e nas televisões se encontrarão apenas verdadeiros jornalistas, aqueles capazes de ver ou, pelo menos, de noticiar sem distorção a brilhante e incontroversa obra do nosso Primeiro-Ministro e do seu séquito de yes-men (não é um insulto mas um elogio), apesar de nem todas as auto-estradas previstas parecerem ir já ser construídas, do TGV ser afinal discutível, do défice estar 60% acima do valor que o governo garantia ser fiável (mas apenas porque o governo assim o decidiu), do endividamento ir continuar a subir, da antes intocável política de educação estar a sofrer desvios, do sistema de justiça continuar de rastos, etc, etc, etc? O que interessa tudo isto? Não sejamos mesquinhos (por amor de Deus, pare-se com as análises racionais). Todos em uníssono, incluindo jornalistas: Ave Sócrates, morituri te salutant.
Domingo, 31 de Janeiro de 2010
Perfeição

Tive um professor de matemática que desenhava no quadro circunferências perfeitas sem auxílio do compasso. É bom que um professor consiga fazer algo de que os alunos são incapazes. Obriga-os, mesmo contrariados, a admirá-lo um pouco (saber mais do que eles não tem o mesmo efeito). Quanto às circunferências, sei que eram perfeitas porque um dia duvidei que o fossem em voz alta (creio já ter admitido dificuldades em deixar de dizer o que penso). Ele pegou no giz e, em dois movimentos fulminantes (traçava primeiro a metade direita, depois a esquerda), desenhou uma no quadro. A seguir obrigou-me a ir buscar o compasso e a verificar, perante uma turma de miúdos expectantes e desejosos de poder gozar alguém (mas preferindo que esse alguém fosse eu, porque o poderiam fazer imediata e abertamente), a perfeição do seu trabalho. O giz na ponta do compasso limitou-se a seguir cobardemente o traço branco que já se encontrava no quadro. A filha da mãe da circunferência era mesmo perfeita. Os meus colegas riram-se (o professor também), mandaram bocas (o professor não, mas revelou grande complacência para com a algazarra instalada) e gozaram comigo durante todo o resto do dia.
Usei várias vezes «perfeita» e «perfeição» ao longo do texto porque ainda é naquela circunferência – e em Aston Martins e em algumas mulheres – que penso quando imagino a perfeição. E mantenho até hoje sentimentos contraditórios em relação a pessoas que fazem coisas difíceis sem esforço aparente: admiro-as por o conseguirem mas apetece-me dar-lhes um pontapé no traseiro e ordenar-lhes que se limitem a ser humanas.
(A foto é do Estoril Open de 2008.)
Sábado, 30 de Janeiro de 2010
Paisagens bucólicas: 9
Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Escrever
For whom am I writing this? For myself? I think not. I have no picture of myself reading it over at a later time, later time having become problematical. For some stranger, in the future, after I’m dead? I have no such ambitions, or no such hope.
Perhaps I write for no one. Perhaps for the same person children are writing for, when they scrawl their names in the snow.
Margaret Atwood, The Blind Assassin.
E nós, escrevinhadores de blogues? Para quem escrevemos? O «porquê» é mais fácil: inconsciência, tentativa de amenizar a insignificância e a mesquinhez da vida, receio do envelhecimento, da morte e do esquecimento. Tudo boas razões. Atwood outra vez, no mesmo livro:
Why is it we want so badly to memorialize ourselves? Even while we’re still alive. We wish to assert our existence, like dogs peeing on fire hydrants. We put on display our framed photographs, our parchment diplomas, our silver-plated cups; we monogram our linen, we carve our name on trees, we scrawl them on washroom walls. It’s all the same impulse. What do we hope from it? Applause, envy, respect? Or simply attention, of any kind we can get?
At the very least we want a witness. We can’t stand the idea of our own voices falling silent finally, like a radio running down.
Talvez possamos voltar agora ao «para quem». Escrevemos para quem quer que aceite testemunhar. Para pessoas que, não nos conhecendo, avaliarão apenas aquilo que lhes dissermos. Um blogue é uma oportunidade para mostrar quem achamos poder ser – mas receamos não ser. Para mostrar que temos capacidades e opiniões. Para, ao abordar pormenores da vida pessoal, reinterpretar o passado e, não mudando um único facto, reescrever o presente. Para, sem mentir, ficcionar a verdade, permitindo-nos a sensação de ser um autor mas também uma personagem (ou seja, o criador e a criatura), sensação que nos eleva temporariamente (e ilusoriamente) à companhia dos autores que idolatramos (não será por acaso que lhes «roubamos» tanto: frases, poemas, canções) e das personagens que nos apaixonam. Escrever – escrever em blogues – é, como animais urinando na base das árvores, marcar um território. É dizer, mesmo quando não falamos de nós, «isto sou eu e valho a pena». Precisamos de quem acredite nisso. É para encontrar pessoas que acreditem que mantemos blogues (ou, na verdade, fazemos tantas outras coisas). Porque, se elas surgirem, talvez nós também acreditemos.
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Estratagema
Afirma: não me incomoda que os outros (essa entidade apenas teoricamente abstracta) pensem mal de mim porque dificilmente conseguirão pensar de mim pior do que eu penso deles.
(E, no entanto, tenta ser simpático para toda a gente.)
Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Sai um orçamento curto para o país do canto

É preciso ver as coisas de forma positiva: a nossa extrema-direita não consegue impor-se; a nossa extrema-esquerda faz muito barulho mas já não passa daí; o nosso sistema judicial assegura que banqueiros e políticos que poderiam estar inocentes não acabam na prisão; o nosso sistema educativo evita que as pessoas tenham conhecimentos suficientes para se assustarem com os números da economia; a nossa incoerente política externa dá-nos uma razoável garantia de que não seremos alvo de actos de terrorismo; o nosso desejo de que falem de nós levou-nos a organizar um campeonato da Europa de futebol mas não um campeonato do Mundo, que teria exigido a construção de mais estádios inúteis; usámos inadvertidamente a estratégia certa para dar o prémio Nobel da literatura a um escritor português; termos um regime ditatorial e arcaico evitou que tivéssemos de lutar na segunda guerra mundial; as nossas ambições imperiais (aquelas do «mapa cor-de-rosa») foram prontamente travadas pelos nossos amigos ingleses, fazendo de Robert Mugabe um problema alheio; fomos invadidos pela Espanha e pela França mas nunca invadimos nenhum país europeu, acto que nos teria metido em sérios problemas; no tratado de Tordesilhas ficámos com a parte do mundo mais pequena mas em que não era preciso massacrar muitos indígenas.
A nossa incompetência é frequentemente algo que acabamos por agradecer.
Desabafo
Sugestionado talvez pelo friozinho cortante da última noite, o Ministro das Finanças anunciou o congelamento de salários na Função Pública, uma medida que as empresas privadas certamente acompanharão com aumentos muito moderados (se existentes) dos seus próprios funcionários. Era inevitável, claro. Não é sequer uma decisão passível de grandes críticas. Mas não deixa de ser um bocado chato para todos os que, fora ou (suponho que também) dentro da função pública, alertam há anos para os efeitos de políticas governamentais dirigistas, geradoras de despesa e sugadoras de impostos verem-se mais uma vez prejudicados pelas opções alheias, sempre tão cristalinamente certas apesar dos resultados sempre tão fantasticamente errados. Sei que é demagogia mas não podiam os que têm votado nesta gente pagar da crise um pouquinho mais do que os restantes? Digamos, cortarem-lhes meio por cento no salário em vez de lho congelarem? É que pagar por igual pode ser democrático mas não é nada simpático.
Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Novos significados
Ouvir o tema dos Arcade Fire (versão ao vivo,
aqui) é agora uma experiência diferente. E ver imagens de um país quase normal também.
Enamoramento
Eu e o meu cérebro
Já estou na idade em que me dão brancas com frequência. Tento aceder a um ficheiro que tenho a certeza estar algures no meu (reconhecidamente desorganizado) cérebro e fico a sorrir com ar de cretino e a emitir durante uma infinidade de segundos o som que o meu pai fazia (não descarto a possibilidade de ser uma característica genética) quando eu lhe colocava perguntas sobre sexo. (Desconfio, porém, que ele sabia as respostas.) Reconheço finalmente que não me lembro, finjo que não era importante e disfarço tão bem quanto posso (ou seja, mal) a sensação de que toda a gente me deve estar a achar um idiota presunçoso. (Não é exagero: a sensação baseia-se no facto de já duas ou três pessoas me terem chamado idiota presunçoso, uma acusação que me teria destroçado se eu não fosse efectivamente um idiota presunçoso.)
Este declínio da minha memória preocupa-me. Artigos de revistas e de sites médicos, já para não mencionar o médico da Oprah, aconselham a exercitar o cérebro. Passo então a vida tentando lembrar-me de coisas de que já me esqueci. Não é tão fácil como parece porque uma pessoa precisa de se lembrar de que conhece a informação mas também de que não se lembra dela. Ou então acontece algo parecido com isto:
Eu: «Como que chamava o cão do Tintin?»
O meu cérebro: «Milou» e, desdenhoso, acrescenta: «Achas que não me lembrava de uma coisa tão fácil, grande parvalhão?»
O meu cérebro é claramente um aluno mal comportado e eu hesito entre apaparicá-lo e ser duro com ele. Quando tenho uma branca, devo sussurrar-lhe «Vá lá, tu sabes isto», ou berrar-lhe «Polpa informe e nojenta, como é possível que não saibas algo tão óbvio?» Nenhum dos métodos parece conduzir a grandes resultados: ignora-me com sobranceria no primeiro caso, fecha-se agressivamente no segundo. Não o controlo. Pelo contrário, tenho com frequência a sensação de que é ele a controlar-me. Pensa no que quer (sim, já sei que os calções que a Venus Williams está a usar no Open da Austrália, por serem de cor similar à da pele dela, fazem com que pareça estar nua por baixo da saia… E daí? Passa à frente, não é preciso estar sempre a pensar nisso), acusa-me do que bem entende (gordo, moi?), causa-me efeitos fisiológicos inconvenientes (err, corar, por exemplo), tudo com a maior das impunidades. E, por muita piada que tenha achado à cena da trepanação no Hannibal (perturbo-o quando o forço a pensar nela), não sou capaz de o retirar e deixar em casa, como tanta gente parece conseguir fazer. O melhor que consigo é que, por vezes, ele se cale quando estou mesmo cansado. Percebo então como deve ser bom conseguir viver sem cérebro. Especialmente num país como este.
(Fotografia – filho da mãe, conseguiu forçar-me a colocá-la no post – retirada daqui.)
Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Ideia patusca
Grassa por aqui uma ideia patusca segundo a qual os economistas que recomendam contenção da despesa e se opõem aos grandes investimentos públicos são os que nos conduziram à actual situação de dificuldade, por terem aplicado essas receitas nas suas passagens por governos do passado. É uma divertida inversão da realidade. Em primeiro lugar, os economistas, os políticos e até os empresários que defendem as políticas do actual governo também não nasceram ontem para as vidas pública e política. Nem anteontem. Creio que nem mesmo na semana passada. Ou seja, também têm um longo (vai para quinze anos com um interregno inferior a três) currículo de falhanços. Depois, e mais importante, os tais economistas que agora pedem contenção nunca a implementaram durante as suas passagens pelos vários governos. Afinal, quando é que, no Portugal do pós-25 de Abril, se fizeram análises cuidadosas da relação custo/benefício dos projectos de investimento? Com uma possível excepçãozita durante o governo do bloco central, por absoluta falta de dinheiro, quando é que não se apostou nas grandes obras públicas e no crescimento da despesa? A verdade é que, seja porque então pensavam de maneira diferente, seja porque não tiveram força para impor as suas posições (ou abandonar o governo, como fez – honra lhe seja prestada – Campos e Cunha), esses economistas sempre seguiram políticas que conduziram ao aumento da despesa e do endividamento. Terão atenuantes (há um quarto de século, o país necessitava mesmo de infra-estruturas) mas é esta contradição que pode (e talvez deva) ser usada contra eles, não a pretensão de que foram as políticas que hoje defendem as culpadas da crise. É, aliás, um contra-senso: como poderiam políticas de contenção levar a um endividamento monstruoso? Mas percebe-se que tentar fazer passar esta tão patusca ideia dá muito jeito para evitar discutir seriamente os assuntos.
Domingo, 24 de Janeiro de 2010
Cães e gatos pela cidade: 4
Sábado, 23 de Janeiro de 2010
Sábados
Dez da noite. Quando olho para trás e vejo que um Sábado, o dia da semana que quase toda a gente prefere, foi passado na mais completa, absoluta, estupidificante e viciadora inactividade (de tal forma que agora estou tão lento que preciso de vários minutos para me lembrar de palavras com mais de cinco letras), fico na dúvida se desperdicei um pedacinho da vida, se o aproveitei em pleno. E pergunto-me se as pessoas gostam dos Sábados porque quase todas optariam pela segunda hipótese.
(Uff, acabei. Vou publicar isto imedia... já.)
Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
Hobby

Percorremos as ruas sem ver as pessoas. Delineamos trajectórias pelos passeios de modo a contorná-las. Irritamo-nos quando elas, parecendo não se aperceber da nossa presença, bloqueiam a trajectória que definíramos. Mostramo-nos apressados e olhamos em frente quando passamos por pedintes ou por adolescentes fazendo inquéritos. Se assistimos a uma discussão ou a um acidente de automóvel, recusamos intervir ou ser testemunhas. Não queremos «envolver-nos» nos problemas alheios. Somos o nosso mundo, ameaçado por todos os lados pelos seus próprios problemas.
Na maior parte do tempo não sou excepção. Mas sou-o quando caminho pelas ruas com uma máquina fotográfica na mão ou pendurada ao pescoço. Em grande medida, aprecio a fotografia de rua porque ela me força a olhar para as pessoas. Mesmo que, hoje em dia, muitas não gostem que reparem nelas (excepto se for a televisão a fazê-lo, suponho; toda a gente parece desejar aparecer na televisão). A primeira reacção é, cada vez mais, de desagrado. Até certo ponto, percebo-a: quando um desconhecido nos aponta uma câmara a pergunta que surge é, inevitavelmente, «por quê eu?». Algo de peculiar se deve ter para nos quererem fotografar. Mas não. Não é a diferença que desejo fotografar. Pelo contrário. É o factor mais comum a toda a gente: a humanidade. O cenário, o enquadramento, a cor ou os jogos de luz e de sombra são apenas formas de a realçar.
Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Pergunta para Pedro Lomba
É uma pergunta simples a que, na realidade, qualquer pessoa pode responder e não apenas Pedro Lomba (de resto, pouco prolífico nos últimos tempos): pode uma relação de amizade sobreviver (e mais do que isso, sobreviver intacta) quando um dos amigos se torna superior hierárquico do outro? Quando questões como gestão das expectativas, avaliação de desempenho, aumentos salariais, prazos, enganos, objectivos, horários, desmotivação se misturam com os (normalmente partilhados) interesses de sempre? A minha resposta? A minha resposta está implícita no facto de fazer a pergunta.
Glicémia
Por causa da saga Twilight, os vampiros estão na moda. Confesso que prefiro imaginá-los à antiga. Mais velhos, menos bonitos, torturados sim mas também indubitavelmente perversos, mordendo pescoços com um gosto que se sobrepõe a qualquer consideração de ordem moral. Com um erotismo bordejando o sadismo. Maldade por falta de opção mas também pelo prazer da transgressão. Destino e vocação. Max Schrek e Béla Lugosi, teatrais e a preto e branco (penso invariavelmente primeiro em filmes a preto e branco quando penso em filmes de vampiros); Christopher Lee, cadavérico e silencioso (em Prince of Darkness não diz uma única frase); Gary Oldman, excessivo e numa orgia de cor.
E assaltam-me dúvidas, perguntas que sei serem ridículas mas gostaria tanto de ver respondidas. Como, por exemplo, se um vampiro prefere o sangue doce de um diabético quando tem vontade de uma sobremesa.
Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Condições de trabalho
«Estou farto disto.»
Na voz dele não existe cumplicidade, apenas desabafo. Sou apanhado de surpresa. A que propósito vem aquilo? Até há dez minutos nunca nos tínhamos visto. Nem sabemos o nome um do outro. Sinto uma ligeira irritação. Por que me terá escolhido para confidente e por que decidiu colocar-me na posição de ter que dizer algo, eu que nada tenho a ver com a empresa?
«Há pior», digo, e depois sinto-me envergonhado pela frouxidão da resposta.
«Há pior?», repete, em tom agressivo. Olha-me frente, como que para verificar quem diabo sou eu afinal. «O ambiente é péssimo. Não se pode confiar em ninguém. Tratam-nos pior do que a cães. Já trabalhei na ... e não tinha nada a ver. Trabalhava nos fornos, era mais difícil mas as pessoas eram porreiras. Tinha um chefe espectacular.»
«Por que é que saiu?»
Tem um trejeito de nojo. «Caí na asneira de dizer à médica que tenho asma. Ela proibiu-me de trabalhar naquele sector. Mandaram-me embora quando o contrato acabou.»
Olho em volta. Há partículas no ar, no pavimento e, apesar de estar ali há menos de um quarto de hora, na minha roupa. Pergunto: «E pode trabalhar aqui?»
A resposta é imediata e definitiva: «Aqui não disse nada.»
2006
Ao pensar na Feist lembrei-me de um dos meus temas preferidos de 2006 e, por conseguinte, da década zero zero.
1, 2, 3, 4
1. O vídeo oficial, para pessoas que gostem de cor.
2. Ao vivo no Letterman, para pessoas que gostem de coros. (Qualquer mulher fica automaticamente mais atraente tocando guitarra?)
3. Versão Rua Sésamo, para crianças e adultos que não o sejam demasiado.
4. A letra, para relembrar ilusões (e encantos pouco reconhecidos) da adolescência.
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
Da selectividade da memória: as obras públicas
A discussão sobre as obras públicas tem várias vertentes. A que encerra uma desonestidade mais gritante é aquela em que se comparam as posições actuais e passadas dos intervenientes políticos e se pretende que partidos e pessoas que defenderam obras públicas nas décadas de oitenta e noventa do século passado (nomeadamente, PSD e Cavaco Silva) não têm autoridade moral para adoptar agora uma posição crítica das mesmas.
Comecemos isto pela actualidade. Em finais de 2008 Portugal tinha 2860 km de auto-estradas. Dois anos antes, os quilómetros de auto-estrada já representavam 2,3% do total de vias. Apenas Espanha e Luxemburgo tinham percentagens superiores na UE a 25 (e, atendendo à sua dimensão e nível de riqueza, o Luxemburgo não é relevante para a discussão). A média na UE era de 1,2%. Portugal tinha 17 km de auto-estrada por cem mil habitantes enquanto a UE tinha uma média de 13. Por cá, existiam 20 km de auto-estrada por 1000 quilómetros quadrados enquanto na UE a média era de 15. Ainda mais interessante: Portugal era o segundo país do mundo – repito: do mundo – com mais quilómetros de auto-estrada por milhão de dólares do PIB. Apenas o Canadá se encontrava à nossa frente.
Recuemos um quarto de século. No início de 1985, ano em que Cavaco chegou ao poder, a rede de auto-estradas tinha 158 km. Repito: 1-5-8 km. A A1 não ligava Lisboa a Porto porque lhe faltava quase metade (ficou completa apenas em 1991). A A2 não existia (foi concluída em 2002). A A3 (Porto - Valença) não existia (ficou completa em 1998). A A4 (Porto - Amarante) não existia. A A8 (Lisboa - Leiria) não existia como, naturalmente, não existiam os seus prolongamentos A17 e A29. A A9 (CREL) não existia. A A20 (Via de Cintura Interna) não existia (o anel foi fechado em 2007). A A22 (Via do Infante) não existia (é de 2003). A A23 (Torres Novas - Guarda) não existia. A A25 (Aveiro - Vilar Formoso) não existia (é de 2006) e o famigerado IP5, que substituiu, tinha 12 km inaugurados em 1983 (ficou concluído somente em 1990). Não existiam também a A7, a A10, a A11, a A12, a A13, a A14, a A15, a A19, a A21, a A24, a A27, A28, a A30, a A31, a A41, a A42, a A47 e mais algumas que, por terem poucos quilómetros ou ainda serem conhecidas por IPs ou ICs, vou deixar de fora. Mais há mais. A ponte Vasco da Gama, em Lisboa, não existia (foi aberta ao público em 1998). A ponte do Freixo, no Porto, não existia (foi inaugurada em 1995). A ponte Rainha Santa Isabel (ou Europa), em Coimbra, não existia (é de 2004). O Eixo Norte-Sul não existia (as obras começaram em 1993 e terminaram em 2007). O Alfa Pendular não existia (a primeira viagem foi em 1999). A travessia ferroviária na ponte 25 de Abril não existia (também foi inaugurada em 1999). A Estação do Oriente não existia (é, claro, de 1998). O Metro do Porto não existia (a primeira linha foi inaugurada em 2003). O aeroporto do Porto não existia na forma que hoje conhecemos (o terminal actual é de 2005). O Centro Cultural de Belém não existia (o último módulo construído é de 1993). O Museu de Serralves não existia (inauguração em 1999). A Casa da Música não existia (foi inaugurada em 2005).
Chega?
Pode-se ou não considerar o investimento em obras públicas uma forma correcta de sair da crise. Pode-se ou não ver o nível de endividamento nacional como preocupante e condicionador das decisões a tomar neste campo. Pode-se ou não achar que os (ou alguns dos) projectos em discussão actualmente são despropositados e prejudiciais. O que não tem qualquer lógica é considerar que a situação actual é idêntica à que existia em 1985 e que quem optou então por determinadas soluções deve apoiá-las agora.
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
Outros comprimidos
José Sócrates para Ana Jorge: «Quando é que vamos ter anticépticos disponíveis nas farmácias?»
Totoloto
Todos queremos ter pessoas principais. E suplementares.
(Consegui-las será mais do que sorte mas é importante ir a jogo.)
Domingo, 17 de Janeiro de 2010
Imagens recolhidas pelas ruas: 25
Sábado, 16 de Janeiro de 2010
Comprimidos
Tinha onze anos quando uma professora avisou o meu pai de que eu ia ter problemas na vida. «O rapaz até é inteligente», explicou-lhe, «mas tem o hábito de dizer o que pensa.» Na face do meu pai, o sorriso de deferência ficou congelado num esgar. Não me lembro da resposta que deu mas terá sido algo no género de «tem razão, este miúdo... não sei a quem saiu» (conversas complicadas, ainda por cima com estranhos do sexo feminino, sempre o assustaram), e fugiu tão depressa quanto pôde, arrastando-me com ele. Em casa, contou o que se passara à minha mãe e ficaram os dois a olhar para mim durante um instante, como que avaliando o que poderiam fazer para me extraírem aquele terrível hábito. Pôr-me de castigo? Ter uma «conversa» comigo, apesar de estarmos ainda numa época em que não se falava dos pais terem conversas com os filhos? Ir à farmácia tentar arranjar comprimidos que combatessem a doença? E, se eu tinha aquele problema, seria culpa deles? Teriam feito alguma coisa mal? Acabaram por me pedir para não ser «assim»; para não dizer tudo o que me viesse à cabeça. Mas o miúdo de onze anos que eu era ainda não percebia os benefícios de silenciar opiniões ou discordâncias e eles tiveram que ir repetindo o pedido ao longo dos anos seguintes, com a esperança de que eu acabaria por ouvi-los a abandoná-los progressivamente e a preocupação com as possíveis consequências do insucesso dos seus esforços sempre a aumentar. Porque, apesar de Salazar estar morto há mais tempo do que eu estava vivo, do 25 de Abril ter ocorrido há vários anos, e de Portugal caminhar para uma adesão à «Europa», os meus pais sabiam que continuavam a existir boas razões para o aviso da professora e só queriam o melhor para o filho. E eu, agora que já passei a idade que o meu pai tinha quando a professora o avisou e tenho sensivelmente a idade que ela tinha, também já estou convencido. Mas continuo à procura dos comprimidos certos para corrigir o problema.
Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Insensibilidade
Receio estar a ficar insensível a catástrofes. À contagem de mortos nas catástrofes. Cem mortos (já se pode considerar uma catástrofe?). Mil mortos. Cem mil mortos. É-me praticamente indiferente. Questão de zeros. Não pretendo diminuir a importância do que sucedeu no Haiti. Foi e está a ser horrível. Mas uma catástrofe, quando distante, é hoje e antes de mais um número com efeito de choque: «Jesus, parece que há cem mil mortos!», «Não, afinal é meio milhão!» E acompanhamos as frases com um frémito de horror, sendo que há uma componente de fascínio e outra de alívio na nossa voz. Fascínio pela dimensão da tragédia, alívio por ter acontecido lá longe. Actualmente, as catástrofes naturais expressam-se em números que se comparam para saber se a última foi mais ou menos mortífera do que a anterior. Como o número de mortos nas estradas por altura do Natal ou da Páscoa. Oito, dez, doze: qual a diferença para quem está defronte do televisor?
A morte já só impressiona em histórias individuais. Com pormenores que revelem o sofrimento de quem morreu ou de quem sobreviveu. É por isso que as televisões procuram casos específicos. Dizem-nos «meio milhão de mortos» mas vão à procura de casos concretos para que possamos sentir a dor. Dos pais das crianças que morreram, da mulher com um braço ao peito, do miúdo que ficou sozinho no mundo. Todavia, ao fazê-lo causam-nos (não, nada de generalizar: causam-me) uma outra sensação: a de estar assistindo a algo forçado, encenado, o episódio de um reality show. (O mal que a proliferação de reality shows fez à nossa capacidade de encarar a realidade de forma espontânea…) E surgem então vontades contraditórias: a de continuar a ver, em fascínio mórbido, e a de desligar o televisor, em negação.
A verdade é que a televisão, com as suas exigências de encenação, de novidade e de narração, é um filtro demasiado poderoso para que a autenticidade da dor subsista incólume. Vejo um homem com um penso cobrindo-lhe parte da cara, gente deitada nas ruas, edifícios em escombros, pessoas descarregando material de camiões, militares marchando para dentro de aviões, e sinto-me estranhamente anestesiado. Nestes tempos de sobrecarga sensorial, a única forma que me resta de sentir emoções é recorrer ao cérebro. À imaginação. (É o trabalho da imaginação que faz com as fotografias funcionem melhor do que a televisão.) Porque o que me incomoda está por trás das evidências – é o sofrimento e, no caso dos mortos, o sofrimento que precedeu as mortes. Há poucos dias vieram a público notícias da morte por frio de vários idosos que viviam sozinhos. Não mil nem dez mil: nove. Um número tão pouco impressionante que os jornais se sentiram forçados a salientar que tinham ocorrido num período de doze horas. Estas nove mortes incomodaram-me tanto ou mais que as mortes do terramoto no Haiti. E não por estarmos a falar de portugueses. (Desagrada-me, aliás, o comportamento recorrente dos meios de comunicação, realçando ad nauseam a inexistência de portugueses feridos em catástrofes ocorridas no estrangeiro, no que é quase uma insinuação de que – bastava um – podia ter sido pior.) Estas nove mortes incomodaram-me porque teria sido possível fazer algo para evitá-las (não resultaram de um imprevisível desastre natural) e especialmente porque aconteceram na sequência de um longo processo de sofrimento físico e psicológico. Dor. Solidão. Incapacidade. Frio. Desespero. São factores como estes – é pensar em factores como estes – que tornam a ideia da morte difícil de suportar. Daí que, quando penso no Haiti, não seja o número de mortos que me faz estremecer mas aquilo por que os vivos estão a passar. E, antes de quaisquer outros, os vivos-ainda-não-mortos (ou talvez os mortos-ainda-vivos), presos nos escombros com pernas e braços partidos, esvaindo-se em sangue, tentando suportar a dor e a noção de que vão morrer. Depois os que, não estando soterrados, estão feridos, sem que exista capacidade de socorro adequada. Finalmente, aqueles que, durante os próximos dias ou semanas, enfrentarão a fome, a sede, as doenças, os surtos de violência. Pensar na agonia – individual, mesmo quando multiplicada por milhares de casos – ainda tem (não sei se por muito, se por pouco tempo) força suficiente para me perturbar. A morte, não. A diferença entre mil ou cem mil mortos é estranhamente nublosa: um pouco como comparar dois filmes de acção com orçamentos totalmente díspares – o tamanho das explosões é diferente mas o filme nem por isso. E talvez a nebulosidade da distinção permita compreender como tantos regimes puderam e podem causar milhões de mortos: depois de se começar, as vítimas cessam de ser indivíduos e o seu número deixa de ser relevante.
É por tudo isto que tenho medo de estar a ficar insensível à contagem de mortos em catástrofes De não lamentar ou me horrorizar tanto quanto devia. Mas o facto de o terramoto no Haiti ter causado a morte a milhares de pessoas (e há uma diferença entre dizer «milhares de mortos» ou «milhares de pessoas mortas»; murmurem-no e verifiquem) e de tantas outras estarem em dificuldades consegue ainda suscitar-me raiva e incompreensão. Carlos Barbosa de Oliveira escreveu-o aqui: parece que há povos (como também há pessoas) que nunca chegam a ter uma hipótese.
Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
Liberalismo luso-africano
«There was a Commissioner down in Mafikeng, over the border into South Africa, and he would come up the road and speak to the chiefs. He would say: ‘You do this; you do that thing.’ And the chiefs all obeyed him because they knew that if they did not he would have them deposed. But some of them were clever, and while the British said ‘You do this’, they would say ‘Yes, yes, sir, I will do that’ and all the time, behind their back, they did the other thing or they just pretended to do something. So for many years, nothing at all happened. It was a good system of government, because most people want nothing to happen. That is the problem with governments these days. They want to do things all the time; they are always very busy thinking of what things they can do next. That is not what people want. People want to be left alone to look after their cattle.»
Alexander McCall Smith, The No.1 Ladies Detective Agency
Já não temos gado mas ainda temos a mentalidade. Mais interessante é isto também poder ser lido como uma defesa do liberalismo. Pelo que vai-se a ver e os portugueses são liberais. Mas – descansem os espíritos mais excitáveis – de forma nenhuma «neo». Professamos uma variante imobilista do liberalismo.
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
Com o Douro por cenário: 13
Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
20%
O electricista é baixo, tem cerca de sessenta anos e veste um volumoso casaco de bombazina com forro em pele. Há dias explicou-me que não aceita trabalhos ao fim da tarde porque tem de ir buscar os netos à escola. Agora, depois de me olhar de través, pergunta-me se quero recibo. «Nunca sei quem tenho à frente», diz, «mas a minha experiência é que o pessoal que trabalha nas finanças é o que menos quer recibos.» Sorrio, tentando estabelecer uma relação de cumplicidade. Não resulta. Ele mantém-se impassível. Não trabalhando nas finanças e sendo estúpido, digo-lhe que é com recibo. Limita-se a encolher os ombros quase imperceptivelmente, como que para me fazer saber que já nada o surpreende ou impressiona, e a dizer que vai buscá-los ao carro.
Solidão entre nós
A minha primeira hipótese foi pessimista: «a solidão entre nós é aí onde estás» porque eu acho que não me movi: continuo aqui, onde antes a solidão não existia. Mas tu, que já aqui estiveste, mudaste de sítio, criando um obstáculo (ou talvez um vácuo) entre nós.
Mas, desconhecendo a canção, posso permitir-me todas as ousadias e descortinar uma hipótese optimista: o meu amor por ti faz-me ter consciência de mim – das minhas fraquezas e incapacidades. A solidão podia então ser o sítio onde estou mas eu sei que não estou sozinho: tu estás comigo. Só que o meu amor (a minha vontade de conseguir que também não estejas só) é de tal ordem, e as minhas incapacidades tão evidentes, que sinto nunca conseguir chegar verdadeiramente aí, onde tu estás. Mesmo sabendo que estás perto.
(Nota: este pode bem ser o meu post mais descabido de sempre, por variadíssimas razões que se tornam irrelevantes perante uma única: o incrível atrevimento de me permitir elaborar sobre um texto do Pedro Mexia. Pedindo desde já as devidas desculpas, em minha defesa apenas posso alegar que os dois parágrafos acima só existem porque o post original me deixou a pensar no assunto.)
Devaneio com (ou por causa da) chuva
Nove menos um quarto da manhã. Chove. A luz é fraca, cinzenta, mortiça. Os faróis dos automóveis, os candeeiros públicos e os painéis publicitários nas paragens de autocarro (tristonhos, apesar das raparigas e rapazes sorridentes), são as poucas e quase inglórias fontes de luz. Não apetece chamar «dia» a isto. Dentro de edifícios, olhando para o exterior a partir de compartimentos bem iluminados (e especialmente nos que possuem amplas superfícies vidradas), tem-se uma sensação estranha: é quase como estar num laboratório ou talvez sob os focos de uma exposição. A melancolia destes dias não me é totalmente desagradável (depois de sair da chuva, admito). Mas desconfio que para a maioria dos portugueses, adeptos do Sol e do «bom tempo», seja quase como viver numa deprimente realidade alternativa. Ainda assim, talvez alguém devesse avaliar a produtividade nacional nestas alturas. Em nenhumas outras temos condições tão próximas das dos países nórdicos.
Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
Se as pudéssemos exportar, fazia sentido
Ontem, durante o noticiário de um canal televisivo, passava em rodapé a informação de que o Primeiro-Ministro considera fundamental o aumento das exportações. Ao mesmo tempo, um repórter explicava que Sócrates fora a Ansião anunciar o investimento em estradas.
Gostava de ter escrito algo mais profundo mas saiu-me apenas isto
Não acredito no Além mas provo assiduamente a existência do Aquém.