como sobreviver submerso.
Sábado, 28 de Janeiro de 2012
Imagens recolhidas pelas ruas: 60
Porto.


publicado por jaa às 17:41
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Para quem pensa não gostar de ballet (mas os restantes também podem ver)
 
 
Uma impagável paródia ao adágio da rosa, de A Bela Adormecida. Alice's Adventures in Wonderland, com coreografia de Christopher Wheeldon, música de Joby Talbot e cenografia e figurinos de Bob Crawley, foi uma aposta arriscada do Royal Ballet (onde já não era criada uma obra de longa duração desde 1995) no ano passado. Resultou em cheio (crítica no The Guardian). Disponível em DVD e Blu-ray.
A Rainha de Copas é Zenaida Yanowsky.



Sábado, 21 de Janeiro de 2012
Paisagens bucólicas: 33
Rio Alva, concelho de Oliveira do Hospital.



Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Diferenciação

«He gave me an article about the exteriorization of the self. It's pretty self-explanatory. You see it everywhere. People advertise what they are, young people especially, by signage, essencially. People advertise what they are, their affiliations. They wear tee shirts with messages instead of plain, like we wore. They wear violent personal ornaments and tattoos. The idea is that when people dressed more or less all the same, within the same middle-class spectrum, you demonstrated who you were in the things you revealed when you talked to people, what you read, what you knew. Now nobody knows anything different than the next guy. It's all music and media boilerplate on the inside. So therefore why not get wondrously overmuscled or put metal studs in your eyelids? This I've seen. This article calls it a panic over differentiation. And it´s true. Well.»

Norman Rush, Mortals.

Edição Jonathan Cape.

 

Estamos preguiçosos e a diferenciação por elementos físicos e visíveis não exige grande trabalho, ao contrário da diferenciação pelos conhecimentos. Proporciona também – ponto tornado crucial – uma gratificação mais rápida: a diferença é imediatamente visível aos olhos dos outros (daqueles que se deseja impressionar, renegar ou provocar). Poder-se-ia pensar que esta diferenciação por elementos superficiais tenderia a revelar-se uma experiência vazia. Talvez em alguns casos o seja: há muitos exemplos onde a felicidade não parece abundar e, pelo contrário, a pertença a uma determinada tribo (ou, hoje em dia é preciso ser simpático, a um determindado grupo) parece gerar mais agressividade do que satisfação. Mas a verdade é que isto pode ser parte do prazer ao configurar um, digamos, statement raivoso. Para a maioria, os principais problemas são mesmo de ordem prática (a pele tem uma superfície finita onde colocar tatuagens ou piercings, os estilos de roupa e de penteado começam a estar todos vistos) e a frustração só nasce com a diluição da diferença por efeito de contágio. Afinal, poucas tribos conseguem permanecer fora do mainstream durante muito tempo. (Que nos imitem é primeiro uma coisa boa, depois uma coisa má.) Curioso é que, numa cultura que mantém cada vez mais relações por computador e telemóvel, esta diferenciação pode nem sequer ter efeitos para o exterior, ficando confinada a pequenas fotografias inseridas num perfil. Não importa. Cada vez mais, a realidade é construída no interior da cabeça: a internet permite que se vogue na comunidade certa, os jornais são ignorados, a televisão vai pelo mesmo caminho (e, seja como for, não é experiência menos vazia nem menos superficial), a verdade cinge-se ao imediato. E a sensação de diferença – e de pertença – dura enquanto dura. Normalmente pouco. Ou, no mínimo, bastante menos do que as tatuagens.

 

Felizmente, para verdadeira e sempre renovada diferenciação, existem os gadgets.




Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Cães e gatos pela cidade: 22



Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
QSERTY

Há erros que se percebe imediatamente serem erros de digitação. Por exemplo, quando a ordem de duas letras surge torcada. Mas há outros em que se fica na dúvida e, quase sempre, o culpado é o teclado. Afinal, quem decidiu colocar o 'v' ao lado do 'b'? "Bitória" será erro de digitação ou regionalismo? E "Biba o Porto"? (A cidade, filhos, a cidade.) Carregar duas bezes seguidas na tecla errada já seria coincidência a mais, não acham? E quem decidiu pôr o 's' juntinho ao 'z'? "Condusir" será erro de digitação ou um cazo grabe de falta de domínio da língua portugueza? Já o 'm' junto ao 'n' só pode levar àqueles erros em que se fica sem saber se a pessoa escreveu "enbalagem" por erro ou por ignorâmcia. Outro exenplo: o 't' por cima do 'g'. No site d'A Vola, "tolo de Hulk" será uma apreciação pouco avonatória sobre o abamçado do Porto ou apenaz referêmcia a um golo marcado por ele? Mas o 'p' jumto ao 'l' pode dar aso a confuzões ainda mais traves. Inaginem um daquelez cartases do PC ou da CTTP con a fraze "A luta continua" em que alguém houvesse acergado na letra errada. A confusão que geraria no parlanemto. E nos vlogues, claro: os ataques noz de direita, as defezas nos de ezquerda, a esleculação em godos acerca de que miniztra (ou mimistro) seria bizada.

 

Cometer erros é humano. Mas izto de uzarmis um tecpado feifo por e pata amglo-sazónicos potemxia o sey apadeci,ento. En ezpexial ze a fagta de jeyto nãi ahudwr.

 

 

 


P.S.: o corrector ortográfico do Sapo acaba de dar o 'tilt'.


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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
Álvaro Santos Pereira

Poucas coisas nos incomodam tanto como o voluntarismo.



publicado por jaa às 13:44
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
E que ******* é uma cítara, afinal?

No dia seguinte estávamos no quarto do Seb olhando o «Rubber Soul». Ninguém disse nada durante muito tempo. Estávamos sentados, debruçados sobre o disco, mudos, zangados, exactamente como o John, o George, o Ringo e o Paul se debruçavam sobre nós, fitando-nos duramente.

Não nos reconhecíamos.

– E como é? – perguntou Seb em voz baixa.

– Ainda não ouvi.

Olharam para mim e acenaram as cabeças, eu tinha corrigido a traição do Help. Retirei cuidadosamente o disco da capa, Seb colocou-o no novo gira-discos, Gerard, premiu on e a agulha elevou-se, sozinha, aterrando na primeira faixa, suavemente, como uma pena.

Ficámos a ouvir o disco o resto de serão, tocando-o vezes sem conta, os nossos ouvidos conchas enormes e nós deitados no fundo do mar, ouvindo, ouvindo, tentando interiorizar as músicas. Gunnar apontou desesperado para uma fotografia do John numa floresta de pinheiros enquanto ouvíamos o Norwegian Wood sem entender nada.

– Floresta norueguesa! – agoniou. – Floresta norueguesa! E que caralho é uma cítara, afinal?

Lars Saabye Christensen, Beatles.

Edição Cavalo de Ferro (2005), tradução de Kristian Amby.

 

Todos nos lembramos de, em criança, desejar ardentemente uma coisa (um disco, um brinquedo, uma peça de roupa) e dos dias ou semanas que lhe dedicámos depois de a obter. Nas décadas de sessenta, setenta ou oitenta (Beatles trata da adolescência de quatro rapazes na Oslo dos anos sessenta e do fervor com que acompanhavam cada novo álbum dos Beatles), a maioria das pessoas não tinha dinheiro para comprar muitos presentes aos filhos, o que transformava cada compra num evento. Cada presente era fruído durante longo tempo, a menos que se partisse ou fosse passível de ser facilmente desmontado. Entretanto, o nível de vida médio subiu (em tempos de crise, tendemos a esquecer-nos) e  as crianças começaram a receber ofertas mais regularmente. Os próprios adultos, que se permitiam indulgências com ainda maior parcimónia do que aquela com que presenteavam os filhos, passaram a um nível de auto-indulgência incomensuravelmente superior. Ainda bem, claro. Nada tenho contra poder aceder-se a mais coisas. Mas assalta-me a sensação de que algo se perdeu. Cada nova aquisição deixou de ter a importância que tinha. A fartura (ainda que quase sempre relativa) leva a que poucas coisas sejam hoje fruídas com o nível de intensidade que mereciam. No que me diz respeito, já não me lembro da última vez que ouvi um álbum com a atenção que dediquei a The Joshua Tree ou andei tanto tempo acompanhado por uma canção como nos tempos de True Faith. Talvez por alturas de OK Computer, certamente que não na última década. Continuo a ouvir imensa música, até mais do que por alturas da minha adolescência, quando o dinheiro de que dispunha para a comprar era muito limitado, e continuo a procurar música nova, mas reduzi o grau de profundidade com que a ouço. E o mesmo acontece noutras áreas (na literatura, um pouco menos). A quantidade substituiu não a qualidade dos itens mas a da sua fruição; substituiu a profundidade da análise.

 

Exagero? Talvez. Saudosismo? Também é provável. Afinal, como Pedro Mexia afirmava numa crónica sobre homens adultos coleccionadores de cromos incluída em Nada de Melancolia, as pessoas da idade dele (o que – bof – me inclui) estão viciadas em nostalgia. Mas ainda assim não resisto a continuar. As experiências são hoje não exactamente menos intensas (pelo menos, não para as crianças) mas acima de tudo mais efémeras. E não por culpa daquilo que as gera: é verdade que o efeito de novidade diminuiu (poucas coisas novas são verdadeiramente novas) mas, ainda assim, continuam a ser disponibilizadas diariamente excelentes obras em quase todos os campos que se entenda analisar. O problema reside nos consumidores. Requer-se novidade constante mas cada nova dose produz efeito durante menos tempo. A música, consumida em temas individuais e não em álbuns – a noção de obra parece também estar a desvanecer-se – é amontoada aos milhares de faixas em leitores portáteis e computadores. Os filmes, colagens de efeitos especiais concebidas para animar adolescentes durante duas horas, são esquecidos logo após o início do genérico final (com honrosas excepções, a que poucos ligam). Talvez os jogos de vídeo ainda consigam prender miúdos (e graúdos) durante algumas semanas mas já não têm o carácter quase mítico de há quinze ou vinte anos e também eles têm vindo a tornar-se mais «acessíveis» (mais fáceis, mais curtos, mais iguais entre si). E esta tendência está longe de se confinar aos bens culturais. Após seis meses de uso, um telemóvel já desagrada. Um carro é substituído ao fim de três ou quatro anos. Na moda, as cores «certas» mudam de estação para estação, a cintura das calças e das saias sobre ou desce uns centímetros todos os anos, a ponta dos sapatos femininos muda de redonda para quadrada para bicuda e depois volta a redonda em períodos cada vez mais curtos. A ânsia da «novidade» é gigantesca, o tédio espreita a cada esquina e poucas pessoas sabem gerir a insatisfação. Felicidade passou a significar acesso contínuo a entretenimento de acesso rápido e posse dos mais recentes bens materiais. E, claro, também ela é cada vez mais efémera.

 

Como isto começou e vai acabar com um excerto em que o assunto é música, talvez não seja descabido referir que a situação pode ter sido agravada pelo facto de muitas coisas terem deixado de ser pagas. Poucas pessoas – pouquíssimos jovens, certamente – pagam hoje a música que ouvem. E o mesmo se começa a passar com os filmes, os jogos, os livros – tudo o que é passível de download. Não pagar leva a amontoar mais coisas: inevitavelmente, quanto mais não seja por falta de tempo, a muitas quase não se presta atenção e mesmo as restantes sofrem por não serem apreciadas com calma. Talvez pior: o hábito de não pagar leva à perda de noção do valor dessas coisas. A distorções curiosas como, por exemplo, muita gente se recusar a pagar doze ou quinze euros por um álbum musical (ou menos, em sites como a Amazon, o iTunes ou o Zune), algo a que está associado um trabalho de meses ou anos, mas estar disponível para pagar os mesmos quinze euros por uma t-shirt feita na China com a fotografia da banda a que se nega o pagamento da música estampada no peito. A facilidade com que se obtêm coisas que ainda há uma vintena de anos custavam dinheiro, para as quais era necessário poupar, deprecia-as. Faz com que se consumam e ponham de lado mais depressa. E parece também fazer aumentar a predisposição para aceitar que tudo pode ser obtido de graça. Afinal, se é possível obter as canções, por que não o leitor de mp3, o telemóvel ou o computador onde as ouvir – ou a t-shirt? Como se viu há uns meses em Londres, não são dúvidas morais que impedem muitas pessoas de entrar numa Fnac e sair de lá com iPads debaixo do braço. São questões de oportunidade. Paradoxal mas quiçá inevitavelmente, os bens materiais vêm-se tornando cada vez mais importantes mas também cada vez menos eficazes na incessante busca da felicidade.

 

E a melancolia (desculpa lá, Mexia, mas como evitar uma pitadazinha?) surge da percepção de que, afinal, descobrir coisas – descobrir mesmo, mergulhando nelas, saboreando-as, analisando-as, dando-lhes tempo, permitindo que nos interroguem, usando-as para descobrir outras coisas – continua a ser das melhores experiências que se podem ter na vida.

 

Seb estava dentro do altifalante à procura da cítara, tinha de ser algo muito estranho. Mas Ola estava satisfeito com o What goes on, tinha agarrado num par de lápis com que batucava, franca melhoria. Eu achei o Michelle delicodoce, mas o Girl era o máximo, fazia-me sentir todo amargo e quente. O Nowhere Man passou-nos totalmente ao lado, e por cima. Gunnar estava quase no choro, o suor brotava-lhe da testa e a boca estava escancarada e vazia.

– Mas afinal o qu’ é que a-a-aconteceu? – murmurava Ola.

A porta abriu-se abruptamente e lá estava o pai de Seb, o comandante, cara tisnada e a camisa dobrada e arregaçada mostrando os pêlos que transbordavam no peito e nos braços, como musgo negro.

– Olaré. Que carantonhas!

– Olha, pai – disse Seb. – O qu’ é uma cítara?

Entrou para o meio do quarto e plantou bem os pés no chão, como se estivesse no mar alto.

– Cítara. Vou contar-vos, pois. Uma vez chegámos a Bombaim com petróleo. E o nosso cozinheiro era indiano. Trabalhava como um herói, não pensem que se come pouco a bordo de um navio. E o indiano, ‘tão a ver, os indianos não comem carne, porque acham que a qualquer momento os antepassados podem aparecer por aí como vacas, ou gafanhotos, e por isso não comem carne. Mas o nosso indiano tinha de preparar carne todos os dias, e ‘tão a ver como devia ser, pra ele, todos os dias a pensar que estava a preparar o avô. Mas mesmo assim nunca havia barulho com ele.

Seb pigarreou.

– Oh pai. O qu’ é uma cítara?

– Calma. Não havia barulho com este menino, não, ou antes, havia uma barulheira dos diabos, porque ele tocava cítara, todas as noites. Era o consolo dele. Um instrumento enorme. Pelo menos cem cordas. Soa a mulheres maldispostas.

– Como que uma guitarra indiana? – perguntou-lhe Seb.

– Isso mesmo. Gosto em vê-los, rapazes.

E o comandante desapareceu. Pusemos de novo o Norwegian Wood.

Ena. Índia?

 

Imagem retirada daqui (os Beatles e as suas guitarras).



Sábado, 14 de Janeiro de 2012
A coisas pequeninas são sempre tão giras: 6



Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
Alguém sabe?

Estou a precisar de um avental novo. Devo ir aos saldos ou consigo-o de borla se me inscrever na Maçonaria?




Maçonaria, Facebook e Wikileaks
Por Pedro Mexia.


publicado por jaa às 19:46
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Momentos surreais que me fazem pensar que nem tudo está perdido

Rotunda da Boavista, há cerca de uma hora. Um Ford Focus encontra-se parado na faixa interior, junto ao passeio. Lá dentro, um casal de idade. O homem, sentado atrás do volante, tem o braço esquerdo de fora, tão estendido quanto lhe é possível. Agarra pelos fundos um saco plástico que começa a sacudir. Caem bocados de pão no piso empedrado. De imediato, alguns pombos surgem junto ao carro. O trânsito não é intenso e os outros condutores vão-se desviando. Ninguém apita.


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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Suponho que a ideia será protestar contra o domínio do grande capital no ensino do inglês
Rua de Passos Manuel, Porto.



Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Então não havia de gostar...
 
 
Para a Ana, como prova de que gosto do Peter Gabriel. Dois temas da Secret World Tour, de 1993. Come Talk to Me, a abertura do concerto (é o que se chama abrir em grande), e Blood of Eden, ambos do álbum Us, ambos em dueto com Paula Cole (no álbum, o dueto era com Sinead O'Connor – e havia também um apoio vocal de Daniel Lanois, produtor extraordinaire e autor de For the Beauty of Wynona, um dos álbuns que mais ouvi na primeira metade da década de noventa).
 


publicado por jaa às 21:39
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O peso certo da construção civil
A propósito de um despedimento colectivo na Soares da Costa, estas declarações do presidente do Sindicato da Construção de Portugal avisando que o Ministro Álvaro Santos Pereira está a «autorizar a despedir quando deveria mas é relançar o sector» e que «poderá se tornar o coveiro do sector» são deliciosas de miopia. Eu percebo que o senhor tenha de defender os interesses dos seus associados mas conviria ainda assim explicar-lhe duas coisas. A primeira é que nenhum Ministro tem o poder de alterar a realidade por decreto. Incrivelmente, parecemos continuar a acreditar que basta uma assinatura ministerial et voilá. Os trabalhadores ficam e a empresa em questão segue, próspera e feliz (mas não com lucros elevados que isso seria ofensivo). A segunda coisa que conviria explicar a este senhor e a muitos outros senhores (e senhoras) que por aí andam é que nas últimas duas décadas o sector da construção civil cresceu muito mais do que deveria ter crescido, mercê de obras públicas que iam levar-nos à riqueza e acabaram por ajudar a levar-nos ao abismo, e de um sector imobiliário em overdrive que, ajudado por autarquias sequiosas de receitas, gerou milhares de espaços devolutos. É pena que não se tenha apostado na requalificação urbana (por exemplo: uma lei da rendas adequada, associada a um programa de venda a baixo preço de imóveis públicos degradados, com uma obrigação associada de requalificação dos mesmos por parte do comprador, poderia ter ajudado a criar cidades muito menos vazias e degradadas) mas, neste momento, com tanta oferta disponível, nem isso terá razão de ser. O sector da construção civil vai perder peso, sim. É inevitável e duro para quem nele trabalha mas nunca devia ter engordado tanto.


publicado por jaa às 13:19
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A dias

As mulheres sempre acusaram os homens de, após algum tempo de relação, tenderem a tratá-las como empregadas domésticas. Para não variar, estão apenas parcialmente correctas: é verdade que, passada a fase dos arroubos de romantismo, o que os homens desejam mesmo é uma mulher a dias. Mas não para lhes limpar a casa (bom, isso também, se puder ser); uma mulher a dias no sentido de estar presente durante umas horas três ou quatro dias por semana, com horário e serviço nocturnos incluídos, e que depois os deixe em paz. No fundo, o mesmo que imensas mulheres desejam dos homens.




Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
De olhos em bico
Em princípio, estou-me nas tintas para a composição dos órgãos sociais de uma empresa privada. Mas não se essa empresa for a EDP. Por quatro razões:

- Estamos num país em que nenhuma empresa privada de grandes dimensões pode agir independentemente do Estado;

- O sector da energia tem graves deficiências de concorrência e não é provável que, mantendo ligações entre o Estado e a empresa quase monopolista, elas sejam combatidas;

- Como a troika tem avisado, há contratos referentes a compensações tarifárias que deveriam ser renegociados. A menos que Catroga, Cardona et al sejam uma lança em África – ou melhor, na China –, as coisas não ficam mais fáceis;

- Por causa da crise, das medidas de austeridade que impôs (e irá continuar a impor) e do discurso que fez desde muito antes da campanha eleitoral, este governo destrói gravemente a sua credibilidade de cada vez que algo deste género ocorre (relembre-se que, no Verão passado, já houvera a Caixa Geral de Depósitos). Por causa da crise, o país precisa mesmo de um governo em que possa confiar.



publicado por jaa às 08:43
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012
Extravasamento

Há – ou (e isto diz tanto sobre mim) desconfio que haja – quem me considere introvertido. E também quem me considere extrovertido. Se introversão é interiorizar e não exprimir, os primeiros estão enganados. Se extroversão é manifestar abertamente tudo o que se sente, os segundos também. A melhor forma de me descrever talvez seja dizendo que sou extrovertido para dentro. Com frequência, isso nota-se de fora.


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Sábado, 7 de Janeiro de 2012
Imagens recolhidas pelas ruas: 59

Ribeira, Porto.



publicado por jaa às 21:53
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Consoantes mudas ou ainda o acordo ortográfico

É uma cobardia atacar os que são demasiado fracos para se conseguirem fazer ouvir.




Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
E dura e dura...

Como é que uma pessoa pode ser optimista se o ano da maior crise económica das últimas décadas, para além de ter menos feriados para todos e menos salário para alguns, taxas mais elevadas nos serviços públicos e bilhetes mais caros nos transportes públicos, ainda é bissexto?


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Frei Tomás e a mudança para o Red Light District
Luís: há a questão das lições de moral, é verdade – mas, no fundo, o acto será assim tão diferente do que qualquer pessoa realiza ao encher o depósito do carro em Espanha ou comprar livros e jogos em sites de outros países da UE? Portugal está longe de ter uma fiscalidade concorrencial, mesmo dentro da União Europeia, e já Durão o sabia nos tempos do «choque fiscal». O problema é que o Estado não apenas não consegue prescindir de parte dos impostos que cobra como os tem aumentado. Inevitavelmente, cada pessoa, rica ou pobre, tende a «defender-se» como pode (embora muitas continuem a exigir milagres ao Estado). No caso vertente, talvez nem haja contradição entre o acto e as palavras – não me lembro se Soares dos Santos alguma vez defendeu os aumentos de impostos ou a limitação à circulação de capitais dentro da UE. Mas, seja como for, somos todos (ou, vá, quase todos) liberais quando se trata de salvaguardar o nosso dinheiro.



Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Dentada na maçã
A imagem da Apple como empresa «boa» e de Steve Jobs como personificação do empresário/gestor ideal confunde-me há anos. E confunde-me ainda mais a aparente simpatia da esquerda por uma e outro. Não se trata apenas do facto dos produtos serem caros e operarem em sistemas tão ou mais fechados que os da concorrência (desde logo, que os da «maléfica» Microsoft). Não se trata somente do mau génio de Jobs que, noutra empresa qualquer, o teria transformado num «patrão» prepotente. Não é também apenas o modo como, sempre que tiveram oportunidade (de novo, numa estratégia igualzinha à da Microsoft dos velhos tempos), Jobs e a Apple impuseram pela força da quota de mercado as regras que melhor lhes convinham (vide distribuição de receitas no iTunes). Tudo isto já seria suficiente, com outra empresa, com outro gestor. Mas há também os factores mencionados neste texto de Rui Passos Rocha, n'A Douta Ignorância. Por alguma razão, o conceito de exploração capitalista não se aplica à maçã.


publicado por jaa às 19:31
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Domingo, 1 de Janeiro de 2012
Resolução de ano novo ou o filme que mais vezes não vi
Em Julho de 2007, Rogério Casanova escrevia no mais-morto-que-comatoso Pastoral Portuguesa: Ainda não li Falling Man, e posso assegurar que se trata de uma não-leitura compulsiva. Aliás, é um dos livros que mais vezes não li nos últimos tempos. Desde que a encomenda da Amazon chegou já o devo não ter lido umas seis ou sete vezes, sempre com um enorme prazer. Casanova, sportinguista frágil como qualquer outro de nós (qualquer outro de nós, sportinguistas, entenda-se), tentava proteger-se da desilusão que seria comprovar a existência de mais um DeLillo abaixo das suas – dele, Casanova, que as suas, leitor, nem consigo imaginar – expectativas. Eu, que li Falling Man e, apesar de não o classificar entre os melhores DeLillo (experimentem Ruído Branco), fiquei convencido de que não teria usado melhor o meu tempo lendo qualquer coisa alinhavada pelo José Rodrigues dos Santos, experimento reacção similar com A Estrada. Não o livro de Cormac McCarthy mas o filme baseado no livro de Cormac McCarthy. Permitam-me que explique.

 

Li o livro, na versão original, ainda antes de McCarthy se tornar conhecido por, afinal, não só aceitar dar entrevistas como dar entrevistas à Oprah. Num understatement incontornável (o inglês é para que possam comprovar que eu seria mesmo capaz de ler o livro no original), posso dizer-vos que ADOREI o livro. Adorei-o a ponto de não me envergonhar de usar maiúsculas ao escrever que o adorei. Li-o, reli-o, fiz-lhe festinhas. E depois soube que, lá pela Hollywood do Michael Bay, tinham decidido fazer um filme baseado nele. Ora eu também gosto de filmes. Gosto tanto, aliás, que gosto até mesmo dos que foram rodados antes de Deus inventar as cores ou a fala humana (num àparte, deixem-me confessar sempre ter achado estranho que Deus tivesse inventado a música de piano antes de dar voz às pessoas mas suponho que isso só demonstra que os Seus desígnios – de Deus, não seus, leitor, nem do Casanova, por muito divino que tanto você como ele se possam considerar – são mesmo insondáveis, conforme alguém, num filme sonoro qualquer – A Vida de Brian? –, terá exclamado um dia). Mas a notícia apavorou-me tanto como qualquer aparição do Ministro das Finanças na televisão. Filmar A Estrada? Como? Onde? Por quem? Mais importante: porquê? A minha reacção imediata foi prometer a mim mesmo que não o veria antes do momento em que obtivesse a certeza absoluta de não sair desiludido ou a Alzheimer me tivesse atacado o suficiente para eu não me recordar do livro. Fui apanhando notícias sobre o filme aqui e ali (Viggo Mortensen, até que não era mal pensado; John Hillcoat, melhor ainda) e, quando o trailer saiu, espreitei. Recuei, horrorizado. E depois não só não vi o filme como dei cabo dos dentes ao rangê-los de cada vez que passava junto a um cinema exibindo o cartaz. Sobrevivi a essas semanas difíceis (mesmo você, caro leitor, que não me conhece, terá de admitir que sou mais resistente do que pareço), A Estrada, o filme, lá acabou por sair de exibição e eu passei uns meses de paz e alegria.

 

E depois saiu o DVD. E depois o DVD entrou em promoção. E depois eu não resisti e comprei o DVD (por acaso foi o Blu-ray, que não quero não apreciar A Estrada só por faltar definição ao apocalipse). E isso foi há cerca de um ano e eu ainda não vi A Estrada. Não o vi em Janeiro e em Fevereiro e em Março de 2011. Tornei a não vê-lo em Abril e em Maio e em Junho. No Verão não o vi várias vezes. E fiz questão de voltar a não vê-lo no Outono e no início do Inverno. Tenho-o aqui ao meu lado enquanto escrevo isto. A capa mostra o Viggo a proteger o miúdo com o braço direito, o revólver na mão esquerda; na parte inferior, o selo de qualidade Selecção Oficial do Festival de Veneza 2009 – a melhor recomendação possível, se considerarmos apenas festivais de cinema ocorridos em cidades banhadas pelas águas do Adriático. Atrás, na ficha técnica, a indicação realizado por John Hillcoat – e eu adorei (em minúsculas) A Proposta (cujo argumento, já agora, foi escrito por um senhor chamado Nick Cave). Mas nem assim. Quase um ano e eu ainda estou para enfiar o disco no leitor (que também está aqui, a meros três metros, por baixo do televisor). Chateia-me, esta incapacidade. Consolo-me um pouco pensando que mais vale tê-lo comprado demasiado cedo do que ser obrigado a fazê-lo depois do fim do euro. Foi um investimento, digo-me. Tal como no caso de outros filmes e séries que, por falta de tempo, ainda não vi. Ou no dos livros. Em vez de mandar os poucos euros que tenho para uma conta na Suíça, converto-os em entretenimento para usufruto futuro. Tem lógica, não? Infelizmente, quando o assunto é A Estrada, nem assim me consigo convencer.

 

E é por isso que decidi fazer do visionamento de A Estrada, o filme, a minha resolução de ano novo. Antes de 2012 acabar, eu hei-de ver este filme.

 

Não me parece que seja hoje. Mas tenho tempo. O ano até é bissexto.



publicado por jaa às 15:06
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Sábado, 31 de Dezembro de 2011
Não, não, ignorem o post anterior! Este é que é a sério.

 

So I thought I'd learned my lesson
But I secretly expected
A choir at the shore
And confetti through the fall night air

I'll make a living telling people what they want to hear
It's not a killing, but it's enough to keep the cobwebs clear

Cause it's not a perfect plan
It's not a perfect plan
But it's the one we've got

It's not a perfect plan
But it's the one we've got

Cause I make a living telling people what they want to hear
But I tell ya, it's gonna be a champagne year

 

Letra de St. Vincent (Annie Erin Clark)

 

A sério: vai ser um ano fantástico! Bom 2012.



publicado por jaa às 16:47
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2012
 
I've got a bad feeling and it's not going away
I've got a baaaaaad feeling (baad feeling)
I've got a baaaaaad feeling and it's not going awaaaaaaay!


publicado por jaa às 16:46
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Imagens recolhidas pela ruas: 58
Porto.


publicado por jaa às 16:40
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Houellebecq por uma personagem de Houellebecq (com sexo oral)

A palavra paixão atravessou repentinamente o espírito de Jed, e viu-se de súbito dez anos antes, no seu último fim-de-semana com Olga. Estavam no terraço do château de Vault-de-Lugny, no domingo de Pentecostes. O terraço dava para o imenso parque cujas árvores eram agitadas por uma leve brisa. Caía a noite, a temperatura era de uma amenidade ideal. Olga parecia mergulhada na contemplação da sua mousse de lavagante, havia pelo menos um minuto que não dizia nada, quando ergueu a cabeça, o olhou de frente nos olhos e lhe perguntou:

– Saberás tu, no fundo, porque é que agradas às mulheres?

Ele mastigou uma resposta indistinta.

– Porque tu agradas às mulheres – insistiu Olga. – Suponho que já tiveste ocasião de o verificar. És o que se pode dizer bonito mas não é isso, a beleza é quase um pormenor. Não, é outra coisa…

– Diz-me qual.

– É muito simples: é porque tens um olhar intenso. Um olhar apaixonado. E é isso, acima de tudo, que as mulheres procuram. Se conseguem ler uma energia, uma paixão, no olhar de um homem, então acham-no sedutor.

Deixando-o a meditar sobre esta conclusão, bebeu um gole de Mersault, saboreou a sua entrada.

– Como é evidente… – disse um pouco mais tarde com uma leve tristeza –, quando essa paixão não se dirige a elas, mas a uma obra artística, elas são incapazes de dar por isso… enfim, ao princípio.

Dez anos mais tarde, ao encarar Houellebecq, Jed tomava consciência de que havia no olhar dele, também no dele, uma paixão, algo de alucinado até. Ele devia ter suscitado paixões amorosas, porventura violentas. Sim, considerando tudo o que sabia acerca das mulheres, parecia provável que algumas delas se tivessem tomado de amores por aquele destroço torturado que agora balançava à sua frente enquanto devorava fatias de pâté caseiro, que se tornara manifestamente indiferente a tudo o que podia parecer-se com uma relação amorosa, e provavelmente também a qualquer relação humana.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Jed Martin é artista plástico. Tem uma relação complicada com a caldeira do seu apartamento, janta uma vez por ano com o pai, um arquitecto que ganha muito dinheiro a fazer projectos de estâncias turísticas, ama uma mulher deslumbrante que também o ama mas, de forma quase passiva, evita o compromisso. Fica conhecido com uma série de trabalhos em que, segundo o crítico do Le Monde, adopta o ponto de vista de um Deus comparticipante, ao lado do homem, na (re)construção do mundo. Mais prosaicamente, trata-se de fotografias de mapas Michelin. Atinge a fama e a fortuna com duas séries de pinturas mostrando «profissões-tipo». Na «série dos ofícios simples», vêem-se artesãos, na das «composições de empresa», vultos como Bill Gates e Steve Jobs conversando em casa deste, ou Ferdinand Piëch visitando a fábrica da Bugatti. Para o catálogo da exposição sobre as profissões-tipo, Jed pede um texto ao famoso mas recluso escritor Michel Houellebecq. Depois ainda há um crime violento, um detective envelhecido e uma Europa que definha nas primeiras décadas do século XXI (Houellebecq é capaz de ser melhor a prever o futuro do que muitos economistas).

 

O Mapa e o Território é um Houellebecq com o desencanto de sempre, com referências à decadência do corpo, à incapacidade de manter relações afectivas prolongadas, à vacuidade que tomou de assalto a vida diária, ao primado do dinheiro e do show-off, mas mais suave, mais irónico do que as suas obras anteriores. É um livro em que Houellebecq tira um prazer evidente de se inserir na trama e de se descrever com todos as idiossincrasias de que é acusado. É também um livro que não inclui uma única cena de sexo (sacrilégio, em especial quando Houellebecq tem livros em que pareceu defender ser o sexo o único acto que ainda tem significado) e em que a única menção explícita a sexo, remetendo para a Tailândia de Plataforma, é feita em registo nostálgico: No entanto, elas chupam sem preservativo, bem bom… – resmungou ainda vagamente, como se recordasse um sonho defunto, o autor de As Partículas Elementares. Poderia ser a confirmação de que a idade não perdoa (um tema tão caro a Houellebecq) mas é antes uma partida, uma maneira de fintar as expectativas do leitor. Sim, por incrível que pareça sou mesmo eu, o gajo que metia sexo em cada página, parece dizer-nos o francês, nesta passagem como de cada vez que, referindo-se a si mesmo, usa a formulação o autor de (disse o autor de As Partículas Elementares; perguntou o autor de La Poursuite du Bonheur; concordou o autor de Plataforma). É verdade: podíamos duvidar.

 

Mas talvez mais surpreendente do que a inexistência de sexo seja o facto de as personagens, ainda que por vezes ridículas, exsudarem calor humano. A mulher por quem Jed se apaixona, o pai com quem janta todos os Natais, num ritual parte obrigação parte prazer, o galerista que lhe expõe as obras, a especialista em marketing que lhas promove, o polícia que adia tanto quanto lhe é possível o momento de enfrentar o cadáver do assassinado, até a fauna que rodeia o mundo da arte e da comunicação social – todos são apresentados com uma ironia benigna substituindo o cinismo e a acidez frequentes no passado. De uma forma ou de outra, parece admitir Houellebecq, por tentarmos de mais ou por tentarmos de menos, somos todos ridículos – mas talvez não execráveis.

 

Como seria de esperar (nenhum bom escritor se apresentaria num livro sem garantir um mínimo de distanciamento irónico), ninguém surge mais ridículo do que Michel Houellebecq. Mas também ninguém suscita tanta empatia. (Já era tempo.) Até as raras passagens em que Houellebecq não resiste a usar os olhos de Jed Martin para nos dizer que existe – ou existiu – um ser de rara argúcia e sexualmente atraente por baixo do Houellebecq que nos apresenta, como a transcrita acima, confundindo ainda mais os planos entre Houellebecq-escritor e Houellebecq-personagem, acabam por ajudar a aproximá-lo do leitor. Percebemos a necessidade. É humana – e muito masculina, pormenor não despiciendo quando falamos do autor de obras como As Partículas Elementares e Plataforma.

 

Ao contrário do que sucede noutros livros, aqui também não existem grandes considerações sobre o ser humano, sobre as suas falhas e incapacidades, sobre o seu declínio biológico. Tudo isto está no livro, claro, que as obsessões de Houellebecq não desapareceram nem desaparecerão, mas encontram-se abordadas de um modo mais leve, mais resignado, como se Houellebecq tivesse decidido encolher os ombros, parar de pensar tanto (o verdadeiro problema do ser humano é, evidentemente, pensar) e dizer: se não me percebem quando sou directo e brutal, vão-se lixar; já me estou nas tintas e até aprendi a rir-me às vossas custas.

 

A verdade é que este novo distanciamento resulta. O livro é bom. Porém, causou um problema aos intelectuais franceses. Sem tiradas polémicas sobre o papel do sexo, a decadência humana ou a estupidez de certas religiões para criticar, tiveram de contentar-se em acusar Houellebecq de plagiar a página da Wikipedia sobre a mosca doméstica. Houellebecq admitiu imediatamente que sim senhor, retirara a informação da Wikipedia e passou a incluir no fim do livro um agradecimento a essa enciclopédia online (a edição portuguesa inclui-o). A intelligentsia gaulesa permaneceu tão perplexa que, na dúvida, depois de anos a zurzi-lo, lhe atribuiu o Goncourt.

 

Adenda: Este post teve ontem uma espécie de primeira parte. Mas devo avisar que vale ainda menos o esforço – excepto para aqueles de vós que a sexo oral preferirem carneiros e porcos.



MMXII

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Vai ser o ano em que o euro pode acabar, pelo menos em alguns países. Vai ser o ano em que a economia europeia pode entrar em colapso. Vai ser o ano em que o «projecto europeu» pode sofrer um abrupto desvio de percurso. O ano em que ódios e nacionalismos podem regressar em força. O ano em que a contestação social se pode transformar em revolta. O ano em que, já abertamente, se vão culpar outros por falhas próprias.

 

Em Portugal, temos muitas decisões a tomar. A mais importante é decidir se queremos continuar a prosseguir o esforço de consolidação dentro do euro, se o preferimos fazer fora dele (e, eventualmente, da União Europeia). É uma questão que se colocará insistentemente. Seja qual for a nossa decisão, sejam quais forem as consequências, não vale a pena culpar outros pelos nossos actos. Ninguém nos obrigou a aderir à União Europeia. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro à taxa cambial a que aderimos (o orgulho que foi, lembram-se?). Ninguém nos obrigou a gastar os fundos comunitários (2% do PIB por ano) em projectos sem retorno. Ninguém nos obrigou a escolher a via da irresponsabilidade orçamental (sim, outros o fizeram: problema deles). Ninguém nos obrigou a ignorar os múltiplos avisos (passaram há dias dez anos sobre o dia em que um Primeiro-Ministro socialista falou no «pântano»; não apenas o ignorámos como crucificámos o Primeiro-Ministro seguinte por utilizar a expressão «tanga»). Ninguém nos obrigou a, em 2008/2009, injectar fundos públicos na economia como se tivéssemos uma dívida pública de 20% e viéssemos de anos de excedentes orçamentais (antes que alguém fale no BPN, foi um erro mas também uma gota de água). Ninguém nos obrigou a tentar criar regimes de protecção social tão fortes como os dos mais ricos países europeus, em metade do tempo que eles demoraram a fazê-lo e perante uma demografia totalmente diferente (mais: perante sinais de que eles também já não os conseguiam suportar). Ninguém nos obrigou a nada. Chegámos a esta situação por opções nossas. E vamos sair dela, melhor ou pior, com opções nossas. Com ou sem troika. Dentro ou fora do euro. Numa Europa politicamente mais unida ou mais separada. Os outros (a Grécia, a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos) farão o que entenderem – não podemos controlar isso. Nem deveríamos poder, ainda que tal nos permitisse escolher a via menos dolorosa para nós – eles, que também cometeram erros e também correm riscos, têm direito às suas opções. Resta-nos alertá-los para as consequências e defender os nossos interesses. Escolher, a cada momento, o que entendermos ser melhor para nós. Ou, infelizmente, menos mau. Sem ilusões (ainda não estamos fartos delas?) mas também sem decisões precipitadas.

 

Que 2012  vai ser um ano difícil é uma evidência e, por muito que o tenhamos tentado no passado, não vale a pena negar evidências. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Saibamos – nós e os restantes europeus – usá-lo bem.



publicado por jaa às 13:00
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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Houellebecq por Houellebecq (com carneiros e porcos)

– Vai reconhecer a casa com facilidade, é o relvado mais mal conservado das redondezas – dissera-lhe Houellebecq. – E talvez de toda a Irlanda – acrescentara.

Na ocasião julgara tratar-se de um exagero, mas a vegetação atingia efectivamente alturas fenomenais. Jed seguiu por um caminho empedrado que serpenteava por uma dezena de metros entre os maciços de cardos e de silvas, até à plataforma alcatroada onde estava estacionado um SUV Lexus RX350. Como era de esperar, Houellebecq escolhera a opção bungalow: era um grande edifício branco e novo, com telhados de ardósia – realmente uma casa perfeitamente banal, exceptuando o estado repugnante do relvado.

Tocou, esperou uns trinta segundos e o autor de As Partículas Elementares veio abrir, de pantufas, vestindo umas calças de bombazina e um confortável casaco de trazer por casa, de lã crua. Fitou Jed longamente, pensativamente, e depois dirigiu o olhar para o relvada numa meditação melancólica que parecia ser-lhe habitual.

– Não sei usar uma máquina de cortar relva – concluiu. – Tenho medo de cortar os dedos nas lâminas, parece que é frequente isso acontecer. Podia comprar um carneiro, mas não gosto deles. Não há nada mais foleiro que um carneiro.

Jed seguiu por umas salas de chão de pedra, vazia de móveis, aqui e além com algumas caixas de cartão das mudanças. As paredes eram forradas de papel pintado, liso, branco sujo; o chão estava coberto por uma ligeira película de poeira. A casa era muito ampla, devia ter pelo menos uns cinco quartos; não estava muito quente, não mais que dezasseis graus; Jed teve a intuição de que todos os quartos, com excepção daquele onde Houellebecq dormia, deviam estar vazios.

– Acabou de se instalar aqui?

– Pois foi. Enfim, há três anos.

(...)

– Gosta de enchidos? – perguntou o escritor.

– Sim… Digamos que não tenho nada contra.

– Vou fazer café.

Levantou-se com vivacidade e regressou uns dez minutos depois com duas chávenas e e uma cafeteira italiana.

– Não tenho leite nem açúcar – anunciou.

– Não faz mal. Eu não tomo.

O café era bom. O silêncio prolongou-se, absoluto, durante dois ou três minutos.

– Eu gostava muito de enchidos – disse por fim Houellebecq –, mas decidi passar sem eles. É que, sabe, eu acho que devia ser proibido ao homem matar porcos. Disse-lhe todo o mal que pensava dos carneiros; e persisto na minha opinião. Até os méritos da vaca, e neste ponto estou em desacordo com o meu amigo Benoît Duteurtre, me parecem ser exageradamente exaltados. Mas o porco é um animal admirável, inteligente, sensível, capaz de dedicar um afecto sincero e exclusivo ao dono. E realmente a sua inteligência é surpreendente, nem sequer se lhes conhecem os exactos limites. Sabe que já foi possível ensiná-los a dominar as operações simples? Enfim, pelo menos a adição, e acho que a subtracção em certos indivíduos muito dotados. Estará o homem no direito de sacrificar um animal capaz de atingir as bases da aritmética? Francamente, acho que não.

 

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Já não me lembro em que publicação li, há cerca de dez anos, uma entrevista a Michel Houellebecq. Na altura ele vivia realmente na Irlanda (depois mudou-se para Espanha, onde não sei se permanece) e as fotos que ilustravam o artigo eram tal qual como se apresenta a Jed Martin, a personagem principal do seu novo livro. Há muitos anos que Houellebecq, o escritor, se transformou numa personagem e ele sabe-o. Raramente os seus livros foram lidos pelo que pretendiam dizer e ele sabe-o. Chegou a referi-lo em entrevistas, explicando que as críticas negativas o chateavam acima de tudo por, centrando-se nele próprio – e, no fundo, muito mais na personagem Houellebecq do que nele próprio – e nas componentes de choque que os livros incluíam – misantropia, sexo, niilismo –, passarem ao lado daquilo que os livros efectivamente procuravam transmitir. Claro que boa parte da responsabilidade por as coisas se passarem assim era dele, nunca avesso a desencadear uma polémica. Mas é verdade que, se os livros continham sexo, uma razoável dose de niilismo e muito mais do que simples vestígios de misantropia, continham também um desamparo raivoso, implacável, pouco dado a contemporizações, e uma aparente falta de afecto que era muito mais um queixume (reaccionário, no limite) sobre a evolução das relações humanas, sobre a incapacidade destas se manterem significativas (L'amour non partagé est une hémorragie, queixava-se a personagem principal de La Possibilité d'une Île) do que verdadeiro ódio à humanidade ou vontade de chocar os leitores e conseguir publicidade (embora esta estivesse presente, que Houellebecq é demasiado cerebral para não levar todas as vertentes em consideração). A premissa do seu primeiro romance, Extensão do Domínio da Luta (1994; edição portuguesa pela Quasi em 2006) diz tudo sobre a posição dele e explica perfeitamente o que se seguiu: os afectos e a sexualidade, condicionados de tantas maneiras no passado, jogam-se hoje num mercado aberto, capitalista, no qual há vencedores e perdedores, a frieza dos factores de competitividade (dinheiro, beleza, poder) se sobrepõe a tudo o resto, o tédio e a decadência do corpo constituem os principais inimigos e os bens materiais se revelam tão importantes (e tão pouco importantes) como os relacionamentos (a referência à Lexus, no excerto que transcrevi acima, como dezenas de outras às mais variadas marcas espalhadas pelos seus livros, é tudo menos acidental). Concorde-se ou não, ache-se que sempre foi assim ou não (mas não foi; pense-se, por exemplo, em como as crenças religiosas, os casamentos arranjados, os estreitos limites geográficos em que as pessoas se moviam, a falta de tempo livre e a inexistência de alternativas lúdicas às proporcionadas pelo casamento tornavam as relações – e as expectativas em torno das relações – bastante diferentes) a visão de Houellebecq é de que o ser humano, uma construção biológica que começa a morrer logo após atingir a idade adulta, encontrando-se cada vez menos capaz de verdadeiro afecto (deseja-o mas tem dificuldades em consegui-lo e não sabe como mantê-lo), o substitui por consumo (de sexo, de gadgets, de aparências, de ideias sem significado real). Em Plataforma (2001 em França; 2002, pela Bertrand, em Portugal), as ideias de consumo e de mercado eram tão evidentes (as personagens principais dedicavam-se a explorar uma empresa de turismo sexual) que talvez fossem demasiado óbvias para bem do livro. E em A Possibilidade de Uma Ilha (2005; 2006 em Portugal, pela D. Quixote), Houellebecq criou mesmo, num par de clones vivendo no quarto milénio, versões «melhoradas» do ser humano, menos expostas ao declínio físico e aos problemas dos afectos. Note-se que ele já abordara os temas da clonagem e da manipulação genética, enquanto hipóteses de solução para os defeitos humanos, em As Partículas Elementares (1998; Temas e Debates, 1999) e que terão existido declarações suas segundo as quais essas tecnologias lhe são simpáticas. Isto seria tudo menos estranho, considerando que é o ser humano tout court que parece deprimi-lo para além de qualquer hipótese de redenção, se não existissem nos seus livros sinais em contrário. Por exemplo, Daniel25, vigésimo quarto descendente de Daniel1, o humano original de A Possibilidade de Uma Ilha, confessa: Ma propre vie pourtant, j'y pense souvent, est bien loin d'être celle qu'il aurait aimé vivre. «Il» é Daniel1, o humano do presente. Ou seja, mesmo com manipulação genética, o humano do futuro não será o que gostaríamos que fosse; a ciência não é a panaceia e Houellebecq sabe-o. Pelo que as declarações a favor da clonagem talvez não passassem de pose, de uma mistura de sinceridade (última esperança, malgré tout?) com estratégia de marketing (o maior problema com Houellebecq é mesmo conseguir separá-lo da personagem Houellebecq). Seja como for, independentemente do que ele vai dizendo (ou do que se vai dizendo que ele disse), parece inegável que, por muito desencanto e raiva que o ser humano actual lhe suscite, Houellebecq não consegue inventar-lhe uma alternativa válida. E, no fundo, resigna-se a admiti-lo em cada livro.

 

Assim sendo, a pequena surpresa que constituiu O Mapa e o Território, editado no ano passado em França e há umas semanas por cá, advém de verificar quão perto da superfície se encontra enterrada essa incapacidade. Mas isso fica para amanhã. A menos que a preguiça, o tédio ou o desânimo me vençam – sou apenas humano.



publicado por jaa às 17:01
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
As coisas pequeninas são sempre tão giras: 5



Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
Pórticos

Noite do dia 25, A25. É a primeira vez que a percorro quase na totalidade desde a introdução das portagens. O identificador da Via Verde, sendo dos mais recentes, apita a cada passagem por um pórtico. Onze vezes entre a Guarda e Albergaria. Não venho com sono mas penso que, apesar de ser um tudo-nada irritante, o ruído ajuda a manter os condutores acordados. Depois, numa revelação súbita que quase me faz acelerar a fundo, percebo que o principal motivo para a existência do apito não é a segurança rodoviária, antes um exagerado sentido de decoro. Sim, decoro. Precupação com a manutenção da decência. Reparem: umas dezenas de metros antes de cada pórtico um tipo vê a placa com os preços. Dedica-se então a somar de cabeça este novo valor ao dos pórticos anteriores e, precisamente quando está a começar a emitir uma série de interjeições ou a mandar uma data de gente bem conhecida para um sítio que é uma parte da anatomia masculina, piiiiiiiiiiiiiiiiiii.




Já na China, a justiça é super-expedita
Lá por terem comprado 21% da EDP não devemos deixar de criticar coisas como esta: Chen Xi, opositor do regime chinês, preso no passado dia 29 de Novembro, foi hoje condenado a dez anos de prisão. Há três dias, outro crítico do regime, Chen Wei, havia sido condenado a nove.


publicado por jaa às 20:06
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Ah bom, enforcada seria justo!
E pensar que ainda há quem acuse o sistema judicial iraniano de não ser justo nem compassivo ao tratar de casos de adultério feminino...


publicado por jaa às 16:55
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Domingo, 25 de Dezembro de 2011
Primeiro balanço

«Então, a noite de Natal foi boa?»

«O normal. Mas o meu Pai Natal não passou.»

«A sério? Começamos bem…»

«Pois.»

«O que é que lhe aconteceu?»

«Morreu. Ataque cardíaco ontem ao fim da tarde. Não fomos avisados.»

«Caraças. Enfim, menos mal. Sempre é uma boa razão. Mas é uma merda que o plano de contingência não tenha funcionado.»

«Não fomos avisados. Tínhamos uns tipos novos prontos para avançar.»

«Não funcionou. Não fomos avisados, não funcionou. Bom, vamos lá. Qual é a taxa, este ano?»

«Setenta e oito vírgula sete por cento.»

«Merda, é menos que o ano passado. Estamos a falhar mais.»

«O pessoal é cada vez pior. E também é verdade que lhes aumentámos o número de casas.»

«Foda-se, antes até tinham tempo para ir para ter sexo com as mães depois de deixarem os presentes aos filhos. Não estamos em tempo disso.»

«Aumentava a natalidade…»

«Não é essa a nossa função. Mostra lá os números.»

«Das residências previstas cobrimos setenta e oito vírgula três por cento, como te disse. Para já, temos um vírgula oito por cento de presentes entregues incorrectamente.»

«Alguns casos graves?»

«Coisas de miúdas entregues a rapazes, um sistema de jogos com óculos 3D entregue a um miúdo cego, trinta e seis pares de luvas oferecidos a crianças sem mãos e, pior (mas acontece todos os anos), dois mil cento e dois pares de meias deixados a miúdos sem pernas. Globalmente, não é mau.»

«Pois, suponho que não.»

«O pior…»

«Sim?»

«Parece que houve confusão com dois lotes de brinquedos.»

«Pronto, lá vamos nós. Então?

«Num dos casos é mais ou menos o costume: anjinhos que vinham com cruzes suásticas e acabámos por deixar seguir.»

«Merda. E o outro?»

«Tudo indica que oferecemos vibradores e outros brinquedos sexuais a uns milhares de miúdas que ainda nem dez anos têm.»

«Estás a gozar.»

«As caixas vinham misturadas com as dos brinquedos de cozinha.»

«Merda. Merda, merda, merda. A fazer asneiras destas como é que podemos esperar manter os patrocínios? A Coca-Cola detesta confusões, pá. Ainda por cima, não é a primeira vez. Lembras-te do ano em que decidiram oferecer às miúdas uma boneca com as cores e o logótipo deles, para as levar a beber tanta Coca-Cola como os rapazes e que alguém decidiu escrever nas caixas para os mercados hispânicos – bem gostava de descobrir o filho da puta mas a verdade é que também não reparámos antes de as distribuirmos – Cocaína, la Heroína de Coca-Cola? Nem sei como escapámos de um processo. Será que não é propositado, pá? A Pepsi ou os islâmicos….»

«Desta vez não me parece. Foi só porque as caixas vinham misturadas e ninguém percebeu que king size battery operated vibrating dildo não se referia a uma varinha mágica.»

«Varinha mágica… pelo amor de Deus. Bom, pode ser que as mães até fiquem satisfeitas e não nos chateiem muito. E o resto?»

«O resto correu bem. Tirando o facto de termos perdido mais Pais Natais.»

«Diz-me.»

«Treze caíram do trenó em pleno voo, vinte e seis morreram asfixiados em lareiras acesas, quatro foram mortos pelas renas (aparentemente revoltando-se na sequência de maus tratos – é capaz de haver um caso com contornos sexuais), sete foram atropelados por aviões, um foi atropelado por um comboio, seis…»

«Um comboio

«Sabes como eles às vezes cedem aos pedidos das renas e pousam em cima dos vagões para que elas descansem um pouco entre zonas de distribuição? Aliás, temos quase sempre uns acidentes devido a túneis. Este ano foram, hmmm, quarenta e nove, mas só oito resultaram em morte do Pai Natal.»

«Oito. Impressionante..»

«Não é muito, considerando a nossa abrangência geográfica. Pelo menos foi melhor do que no ano passado.»

«Ok, está bem, mas e o atropelado?»

«Foi em Portugal. Os comboios estavam parados por causa de uma greve e o gajo decidiu seguir pelos trilhos. Pelos vistos, a adesão não era de cem por cento.»

«Filhos da puta dos latinos, nunca levam as coisas a sério. Continua.»

«Seis despenharam-se por causa de tempestades, três acertaram em campanários e similares, catorze foram mortos a tiro (cinco dos quais no Texas) e ainda não temos informação de cento e dois.»

«O nosso prémio do seguro vai disparar.»

«Não são piores resultados do que no ano passado.»

«E o trabalho que foi conseguir a renovação no ano passado… Mas enfim, estamos cá para isso, não é? E acidentes não mortais?»

«Er, bom, o panorama não é melhor. No total, temos quase cinco mil acidentes. A maioria são coisas ligeiras como fracturas de dedos e braços na sequência de quedas, queimaduras tanto por causa das lareiras como por causa do frio (há pelo menos um Pai Natal que vai perder o nariz) e entorses ao descer do trenó. Mas também há situações mais graves como traumatismos cranianos, fracturas expostas e dois casos previsíveis de paraplegia.»

«Foda-se.»

«Pois. E, já no campo das doenças, ainda temos umas centenas de gripes e pelo menos trinta pneumonias.»

«Mais nada?»

«Há os desaparecidos mas já te falei deles. Cento e dois, até ao momento em que saí lá de baixo.»

«Alguns casos especiais?»

«A maioria será desvio de material, como de costume. Vamos descobri-los para aí no Rio de Janeiro, tentando vender barretes de lã e Ferreros Rocher na praia de Ipanema. Mas desconfiamos que pelo menos vinte foram presos. Faziam a distribuição em países de maioria não-cristã: Irão, Iémen, Sudão…»

«Então podes acrescentá-los às vítimas mortais.»

«Talvez não. Já temos trocado alguns.»

«Eu sei. Custa-nos um balúrdio em assinaturas da Hustler. E as renas?»

«Cerca de onze mil baixas. Mais dois por cento que no ano passado.»

«Se o Greenpeace sabe, estamos fodidos. Bom, mais alguma coisa?»

«Nada de… Desculpa, é o meu. Deixei-o ligado para o caso de chegarem informações importantes.»

«Atende.»

«Sim?... Eu mesmo… Diga… Não! Mas… OK, deixe lá. Obrigado.»

«O que foi agora?»

«Podemos ter um problema diplomático.»

«Conta.»

«Um dos desaparecidos…»

«Sim?»

«Passou-se. Está no topo do minarete da mesquita de Meca a gritar ‘ho-ho-ho’.»

«Merda.»

«E não é tudo.»

«Então?»

«Além de ‘ho-ho-ho’, grita ‘chamem-me Maomé’.»

«Merda, merda.»

«E…»

«Ainda há mais?»

«Tirando as barbas e o barrete, está nu.»

«Merda, merda, merda.»

«E...»

«Foda-se, ainda há mais?»

«Está a beber uma Coca-Cola



publicado por jaa às 15:48
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Sábado, 24 de Dezembro de 2011
Imagens recolhidas pelas ruas: 57
Vila Nova de Tázem, concelho de Gouveia. Como foto não é grande coisa mas acaba por ser irresistível para alguém que detesta Pais Natais pendurados em varandas. Mais importante, serve para vos desejar um Feliz Natal.
 
(Estou a ficar soft, pá.)


publicado por jaa às 18:25
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
Os miúdos dos blogues (não, eu não)

Eram miúdos, sabes? Crianças dotadas como todos os adultos, mas sempre crianças. Mantinham um blogue diário, faziam-no a meias com uma certa ideia de cómico e, em simultâneo, propriedade crítica, inteligente, irónica. Umas vezes era o governo, outras vezes os comentadores na televisão; satirizavam com precisão, eram acutilantes e certeiros. Contavam com uma legião de seguidores que potenciavam os respectivos egos, por assim dizer.

Só agora é que consigo alcançar a dimensão da infantilidade das nossas vidas, das nossas opções.

Patrícia Reis, Por Este Mundo Acima.

Edição D. Quixote, 2011.



publicado por jaa às 09:18
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
EDP

Bom sinal, o dado pelo governo ao escolher a Three Gorges como vencedora do processo de privatização dos 21,35% da EDP. Já é tempo de, em Portugal, se usarem apenas critérios financeiros nestes processos (ou não se vende ou vende-se pela maior oferta). Para mais, na situação em que nos encontramos qualquer escolha garantindo uma receita inferior seria incompreensível. O governo teve sorte num aspecto: a proposta da Three Gorges era claramente a mais forte, o que, para além de forçar o PS a declarar-se de acordo com a decisão, deverá permitir evitar irritações excessivas dos derrotados e dos líderes dos países dos derrotados. Mas o governo também terá tido azar: uma proposta vitoriosa da alemã E.On permitiria obter ganhos políticos superiores a nível europeu (uma Alemanha com interesses múltiplos em Portugal talvez fosse mais renitente em expulsar-nos do euro ou mesmo em obrigar-nos a implementar medidas demasiado gravosas para a economia) e, dentro de alguns meses, a provável vitória de outra empresa chinesa no processo  de privatização da REN não constituiria problema. Porém, caso a E.On vencesse, dificilmente chineses e brasileiros (com Dilma à cabeça) acreditariam que a decisão fora tomada apenas por critérios financeiros. E, quanto à REN, cada coisa de sua vez. Para já, ignorando o detalhe da China estar longe de ser uma democracia (não gosto da ideia, confesso, mas, falidos e com tanto capital de outros países não democráticos – de Angola, por exemplo – já a circular por aí, valerá a pena inventar pruridos?), o governo fez bem.

 

Nota: a Secretária de Estado Maria Luís Albuquerque merece uma menção. É directa, clara e credível. Já o tinha demonstrado antes, julgo que na sequência do processo de privatização do BPN, voltou a fazê-lo hoje.



publicado por jaa às 21:52
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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Das formas e cores: 12


publicado por jaa às 16:51
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O frio, o frio...

Ouço as pessoas à minha volta e penso que devia gravá-las. Estou certo de que conseguiria obter excelentes obras vanguardistas, à la Stockausen ou Ligeti. Sinfonia de Tosses e Concerto para Pigarreio e Dois Espirros, por exemplo.

 

(Eu estou bem, obrigado, que tenho bebido muito sumo de laranja.)



publicado por jaa às 13:41
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011
Perdidos e achados

Perdi-o durante umas horas, como vai sendo cada vez mais frequente. Começo até a desconfiar que não sou eu a perdê-lo mas ele a fugir-me. Que gosta cada vez menos de mim e vai em busca de melhores ares. Desta feita, encontrei-o encolhido num beco, tremendo de frio e desânimo. Mas não estava só. Havia lá mais dúzia e meia, todos com aspecto de terem sido abandonados ou mesmo escorraçados. Alguns eram corpulentos, a maioria tinha porte reduzido. Em comum, o desânimo e a subnutrição evidentes. Tem sido uma razia, nestes tempos de crise. As pessoas recusam-nos, abandonam-nos ou tratam-nos tão mal que eles fogem (são entes sensíveis, necessitados de atenção regular e incapazes de sobreviver pelos seus próprios meios). Tive pena deles e trouxe-os comigo mas receio ser incapaz de os alimentar. Procurei-lhes identificação, esperando poder devolvê-los aos respectivos donos, mas apenas num dos mais enfezados descobri uma chapinha com as iniciais 'VG'. Enviei de imediato uma mensagem para o Ministério das Finanças e aguardo resposta. Enquanto escrevo isto, encontram-se no meu quarto. A menos que – o silêncio parece-me excessivo – tenham fugido outra vez, provavelmente liderados pelo meu que, após umas manifestações de prazer por estar de novo em casa, andava fora e dentro com ar cabisbaixo... Não. Fui espreitar e ainda lá estão. Menos mal. Enfim, se algum leitor deste post tiver perdido o seu sentido de humor e o desejar de volta, é favor descrevê-lo que eu tento perceber se é um dos que encontrei. Obrigado.


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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Com o Douro por cenário: 39



Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011
Ingenuidade e perversão

Em Lolita, Nabokov colocou o professor Humbert Humbert a suspirar: Eu, pelo meu lado, era tão ingénuo como só um pervertido pode ser. Trata-se de uma frase que tantas vezes me parece não fazer qualquer sentido quantas as que me surge cristalinamente óbvia. Esta incapacidade para manter uma posição perturba-me – não por poder expor insuficiências nas minhas capacidades de interpretação do mundo e dos seus coloridos habitantes mas por me fazer recear que, nas ocasiões em que lhe nego o sentido, esteja precisamente a demonstrar uma insuperável ingenuidade.




Bairro do Aleixo
Apanhado nas comunicações após implosão da Torre 5: «Ensaio correu bem. Podemos avançar para o resto do país.»



Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Do salto para a piscina a chanceler alemã, passando por "We All Live in a Yellow Submarine"
Angela Merkel, no Domadora de Camaleões. Seja-se apoiante ou opositor, convém conhecê-la.


publicado por jaa às 22:55
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Da estabilidade

O Pedro Correia realça as diferenças entre Portugal e Espanha no que respeita ao número de governos e primeiros-ministros que cada país teve desde 1977, ano da restauração da democracia em Espanha, e considera que a nossa instabilidade (12 primeiros-ministros contra 6, por exemplo) nos prejudicou. Em princípio, concordo com ele. Parece-me evidente que mudanças frequentes de governo levam, entre outras coisas, a alterações sucessivas de prioridades, a adiamento de reformas, a «dança» de cadeiras nos mais diversos níveis do sector público, à gestão contínua de ciclos eleitorais – tudo elementos que prejudicam o crescimento sustentado da economia. O meu problema com esta tese (com a qual, repito, em princípio concordo) está na realidade portuguesa. Vejamos.

 

Em Portugal, tivemos um período de aproximadamente dez anos (grosso modo, 1975-1985) em que a mudança de governos e primeiros-ministros foi absurdamente elevada, de tal modo que nenhum governo chegou aos três anos de duração. Porém, desde 1985 a situação alterou-se significativamente, tendo apenas seis pessoas ocupado o lugar de primeiro-ministro (Aníbal Cavaco Silva, António Guterres, José Manuel Durão Barroso, Pedro Santana Lopes, José Sócrates, Pedro Passos Coelho), o que dá uma média de três anos e meio por primeiro-ministro. Se retirarmos o episódio Santana Lopes, a média sobe para cerca de 4 anos. E se retirarmos Passos Coelho, chegado ao poder há seis meses e em relação ao qual não é possível conhecer o tempo de permanência no cargo, a média aproxima-se dos cinco anos (4,75 se fizermos a conta a dezanove anos). Ainda pouco? Talvez, mas de forma nenhuma um resultado escandalosamente baixo e que, na minha opinião, torna difícil poder apontar-se a instabilidade política como factor crucial no percurso do país em direcção ao abismo.

 

E se a matemática pode deixar dúvidas constate-se como, neste quarto de século, não foi por falta de poder formal para implementar reformas que estas ficaram por fazer. Bem ou mal, Cavaco ainda executou algumas (na realidade, bem e mal, dependendo das que considerarmos) mas Guterres (que, não tendo maioria, sempre viu os orçamentos aprovados) nunca teve coragem para avançar com elas e fugiu alertando para o pântano, Durão sofreu ataques de todos os lados assim que começou a falar delas e fugiu para o cargo dourado de Bruxelas e Sócrates (que gozou de uns inusitados dois anos de estado de graça), após algumas promessas iniciais, escolheu o caminho da demagogia e da negação da realidade. Para nenhum destes primeiros-ministros a questão da estabilidade foi crucial. Três tinham maiorias parlamentares, o quarto tinha condições para arriscar muito mais (e caiu por decisão própria, relembre-se, passam amanhã dez anos, nos quais fizemos questão de ignorar raivosamente todos os avisos).

 

Mais: a realidade portuguesa também já mostrou que os governos ou fazem as reformas logo no início dos mandatos ou já não as fazem. Cavaco reformou pouco na segunda maioria absoluta. Guterres nunca reformou. Durão não reformou de imediato, foi trucidado por lobbies e opinion makers e também já não reformou. Sócrates esboçou algumas reformas nos primeiros tempos e depois avançou para o delírio. Isto sucede porque há interesses instalados (partidários e corporativos) mas também porque os portugueses detestam a mudança, em especial quando tem riscos ou consequências pouco simpáticas a curto prazo. Dar tempo a que a resistência à mudança se organize é um erro que terá menos a ver com a falta de estabilidade dos governos do que com a incapacidade destes para governar bem (para governar efectivamente, no fundo). Desde logo, é confrangedora a falta de preparação que muitos revelam ao tomar posse. (Como é possível que todos se mostrem surpreendidos com a situação encontrada? Por que continuam os partidos da oposição a recusar-se a organizar gabinetes-sombra? Por que parecem os partidos da oposição ter dificuldade em obter dados sobre mil e uma situações? O que está errado no sistema de estatísticas oficiais para que nem eles nem o governo possuam elementos concretos sobre outras tantas?) Mas sejam quais forem os motivos que levam os governos a adiar e depois a esquecer as reformas, a verdade é que estas não ocorrem após os primeiros tempos. E assim, no limite e de forma não totalmente irónica, pode até dizer-se que a estabilidade dos governos acaba por se revelar negativa – quanto mais duram, mais aumenta a probabilidade de nada ser feito e mais se adia nova hipótese de alguma coisa ser feita.

(Nota acessória: é por isso fundamental que o actual, que continua com um discurso globalmente correcto, não adie durante mais tempo as reformas que se comprometeu a fazer.)

 

Parece-me também que mais importante para o percurso do país do que governos (mais) duradouros teria sido (e ainda é) a estabilidade nas posições dos partidos e a capacidade destes em realizar entendimentos. Os partidos do arco governativo (os outros contam pouco, uma vez que se auto-excluem de quaisquer soluções moderadas) não podem (enfim, não deviam) inverter as suas posições sobre um mesmo assunto consoante estão no governo ou na oposição. Isso permitiria obter acordos sobre algumas das áreas a reformar, levando a que nem tudo fosse posto em causa após uma mudança governativa. A demagogia e os interesses têm-no impedido, não a instabilidade política.

 

Pelo que não me parece que, seja qual for o ponto a partir do qual analisemos a questão, a falta de estabilidade governativa tenha a) sido assim tão real (desde 1985, note-se) e b) desempenhado um papel assim tão significativo no descalabro português. Pelo contrário: sinto até dificuldade em afastar a ideia de que a teimosia decorrente de governos com demasiado poder durante demasiado tempo foi muito mais relevante. A frase de Lord Acton é conhecida: o poder tende a corromper, o poder absoluto corrompe absolutamente. Num país com gente pouco interessada nas opiniões alheias, sem instituições verdadeiramente capazes de agir como contrapeso e em que tudo depende do governo, o poder corrompe depressa e a tendência para a teimosia e para o abuso é enorme. Sucedeu assim nos anos de Cavaco, sucedeu assim nos anos de Guterres (talvez um pouco menos, por uma questão de estilo pessoal e porque não existia nem maioria absoluta nem, até à última fase, crise económica), sucedeu assim (com elevação a um altíssimo expoente) nos anos de Sócrates. Ou seja: as putativas vantagens da estabilidade foram parcial ou totalmente aniquiladas pelo facto de vários governos se terem aproveitado dela para ignorar avisos e implementar políticas suicidárias.

 

E pronto, já chega. É mais ou menos por isto que, se em abstracto concordo com o Pedro, em concreto talvez não.

 

Imagem retirada daqui.


publicado por jaa às 17:01
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Procurando terminologia adequada aos tempos actuais
abjecção (èç)

(latim abjectio, -onis, abatimento, desânimo, supressão)

s. f.
Estado de excessiva baixeza moral.
 
O meu problema é a forma pouco esclarecedora como o Priberam define «excessiva».
 
A propósito disto. Depois do chefe ter dado o pontapé de saída, lá a partir de Paris, eles começam a revelar-se. As contorções de Zorrinho, em directo no noticiário das 8 horas da TSF, foram tão patéticas que quase me inspiraram compaixão. Quase.


publicado por jaa às 08:44
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011
Duas piadas acabadinhas de inventar a que só pessoas de má índole acharão graça

Encolhido num vão de escadas, respirando com dificuldade, tossindo sangue, o sem-abrigo mete a mão no bolso e soma o valor da meia dúzia de moedas que de lá retira. Depois olha para o filho de seis anos que treme de frio abraçado a um escanzelado cão sarnento e murmura: «Só espero que o Passos Coelho permaneça firme e não aceite a sugestão do Cavaco para reintroduzir o imposto sobre sucessões.»

 

Um político, o administrador de um instituto público e um consultor de imagem conversam enquanto atravessam um jardim. Na cabeça de um cão deitado na relva, uma pulga resmunga para uma carraça: «Detesto parasitas.»


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publicado por jaa às 08:42
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
A força e a estupidez
Por duas vezes durante o século XX os alemães usaram a força. Da primeira vez, para além de inveja dos impérios alheios, tinham medo da Rússia e jogaram na antecipação. Da segunda tinham sede de vingança e um psicopata na chefia do governo. Mas quem usa a força e perde fica mal visto (ganhando, é raro). Agora os alemães têm grande parte da Europa subjugada. Não porque tenham usado a força. Não por impulsos expansionistas. Não por serem liderados por um psicopata (embora haja quem esteja perto de o afirmar). Os alemães têm grande parte da Europa subjugada porque fizeram algo mais do que suficiente perante países como os do Sul: mantiveram um módico de inteligência e determinação. Souberam fazer contas, potenciar (ou – e já não é pouco – evitar prejudicar) as exportações numa economia globalizada, manter-se dentro de limites não escandalosos de défice e de dívida (pelo menos, não escandalosos para uma economia com o potencial de recuperação da deles e que teve de pagar a reunificação)*. Deve ser por isso que tantos alemães ainda não perceberam qual foi o seu erro, porque são acusados de insensibilidade e de destruírem o «projecto europeu», eles que até tiveram dos menores aumentos salariais na Europa nos últimos quinze anos. E deve ser por isso que nos dói tanto. Eles subjugaram-nos (desta feita quase sem o desejarem) usando a nossa estupidez. Seria mais fácil de encaixar se tivessem usado a força.

 

Evidentemente, a ironia é que nem com todas as suas cautelas eles vão escapar incólumes. Ou pagam (mais salvaguarda, menos salvaguarda que qualquer Sócrates versão 2.0 ou Zapatero versão 2.0 ou Berlusconi versão 2.0 ignorará olimpicamente), aceitando desse modo submeter-se à lógica de sempre dos países do Sul (prioridades erradas, indisciplina orçamental, desvalorização, inflação), ou, por incrível que pareça, serão vistos como o país que, pela terceira vez em cem anos, destruiu a Europa. E isto mostra que talvez não tenham sido afinal assim tão inteligentes. Já dizia a minha avó, morta e enterrada sem uma dívida ainda nem se falava do euro: devemos dar-nos bem com toda a gente mas é preciso saber quem se mete em casa. Eis o vosso erro, alemães.

 


* Tem algum interesse (bom, eu acho) constatar como, na sequência da crise do subprime, Merkel, essa megera incompetente, conseguiu manter o défice em valores similares aos que Schröder tinha autorizado, sem subprime, antes de ela chegar ao poder (os socialistas, os socialistas...). Já agora, comparar com os nossos dados (segundo creio, o termo técnico é «descalabro completo»).



Auxiliar de interpretação para a foto anterior



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