como sobreviver submerso.
Sábado, 21 de Novembro de 2009
A mi pesar
Gonzalo Torrente Ballester escreveu a frase no livro Filomeno, A Mi Pesar, atribuindo-a a um diplomata português. Usou-a para exemplificar a capacidade que os portugueses demonstram para contornar os assuntos complicados. Eu dedico-a ao juiz de instrução criminal de Aveiro que investiga o caso Face Oculta: «Vossa excelência tem razão, mas não a tem toda, e a pouca que tem não lhe serve de nada.»
Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Triângulo
Saio do centro comercial Cidade do Porto pela porta rotativa que dá para o lado do mercado do Bom Sucesso. O meu cérebro não regista um grupo de adolescentes amontoados do lado direito, alguns sentados no muro, outros em pé. Quando começo a descer os degraus ouço uma voz feminina proclamar: «A Teresa devia dizer ao espelho todas as manhãs: ‘Que gaja gira!’ Não achas, Pedro?» Paro. Olho, tentando não dar nas vistas (apercebo-me de imediato que o risco de ser notado é reduzido: ninguém presta atenção às pessoas que passam). Tento atribuir identidades. Não é difícil. O trio que me interessa encontra-se ligeiramente à parte, mais próximo de mim do que os restantes. A rapariga que falou está sentada no muro. Como os outros, não parece ter mais de dezasseis ou dezassete anos. Tem cabelo castanho-escuro caído sobre a testa, veste calças de ganga rasgadas e pousa o braço direito numa pequena mochila pousada no muro ao seu lado. É atraente, num género ligeiramente anódino. Sorri. Um sorriso aberto, onde se nota apenas uma ligeira sugestão de malícia. Teresa deve ser uma ruiva que está em pé, quase de costas para mim. Vejo-lhe o cabelo encaracolado (será ruiva natural?) mas mal lhe descortino as feições. A postura e a forma como levanta as mãos num protesto mostram que não achou piada à afirmação da colega. Mas, do pouco que vejo, a outra tem razão. Teresa não é alta nem particularmente esbelta mas parece atraente (também é verdade que, talvez por serem tão raras por cá, tenho um fraquinho por ruivas). As calças de ganga que lhe moldam as ancas e as botas com cano alto por fora das calças dão-lhe um toque de sexualidade quiçá ligeiramente excessivo numa rapariga tão nova. Pedro também está em pé. Encontra-se quase de frente para mim mas a visão que tenho dele é parcial; o corpo da Teresa interpõe-se entre nós. É magro e tem borbulhas na cara. Parece ser ainda mais novo do que elas mas provavelmente tem a mesma idade. Sorri, surpreendido e hesitante, e talvez (é-me difícil garantir) core um tudo-nada. Acaba por dizer, erguendo as mãos enquanto encolhe ligeiramente os ombros e abana a cabeça em todas as direcções, num esforço excessivo para mostrar entusiasmo: «Claro.» E o seu olhar vagueia de Teresa (a quem não descortino uma reacção) para a rapariga que fez a pergunta. No rosto desta o sorriso é agora ligeiramente rígido. Mas alarga-se novamente quando diz para Teresa: «Estás a ver? Ele também acha.» Eu próprio reprimo um sorriso e recomeço a caminhar. Vou-me perguntando como funcionará aquele triângulo. Qual a motivação para a pergunta da rapariga sentada no muro? Por qual delas é que ele se sentirá realmente atraído? Estará Teresa realmente interessada nele ou apenas a ser usada pela amiga? Ou estarão ambas a brincar com o interesse dele? É provavelmente consequência da idade (da minha idade) mas, numa época em que a facilidade e a inconsequência das relações sexuais parecem ter tornado anacrónicas as velhas e hesitantes tácticas de sondagem e aproximação, é reconfortante constatar que alguns adolescentes ainda praticam pequenos jogos ingénuos.
Estamos assim
É
este o país que criámos. Fomos assistindo passivamente enquanto seres ignóbeis assumiam cargos decisivos. Até aplaudimos alguns. É por isso que talvez também seja
este o país que merecemos.
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Respeitinho
É difícil aceitar que políticos como Sócrates apelem ao optimismo e espírito de iniciativa dos portugueses quando tudo o que fazem vai no sentido de impor dependência e conformismo.
(E o mesmo se passa com muitos gestores na relação com os subordinados.)
Tudo o que temos de fazer
Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Poder
She hated saying yes. She was of those people for whom yes is always an admission of guilt or failure. No was power.
Mão no bolso
Conta que, quando o director o começava a chatear, metia a mão direita no bolso das calças, deixava o dedo médio esticado e encolhia os restantes quatro. Nos primeiros tempos tinha de se esforçar para manter uma expressão impassível mas depois fazia-o tão bem que o idiota que tinha à frente até pensava que ele concordava com o que estava a ouvir.
Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Noite dos The Divine Comedy: 2
Porque, em certas alturas, um bocadinho de optimismo sabe bem.
Noite dos The Divine Comedy: 1
Música para respirar fundo antes de adormecer.
Com o Douro por cenário: 9

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
Kate e um amigo meu

A inclusão de Aerial na lista que João Távora vem fazendo no Corta-Fitas lembrou-me como, em finais de 1993 ou inícios de 1994, um rapaz de vinte e poucos anos decidiu escrever um conto no qual um rapaz apenas um pouco mais velho (talvez perto dos trinta) elaborava uma carta à mulher de quem decidira separar-se, lembrando a sua vida até ao momento. A carta (e a vida) era pontuada por excertos de letras das canções de Kate Bush. Tanto quanto sei, ele nunca entendeu por que escreveu o conto ou, mais ainda, por que escolheu as letras dos temas de Bush. Consigo pensar num par de hipóteses – talvez por Kate ser uma mulher idiossincrática e inacessível, aparentemente tão afastada da normalidade dele (e do homem e da mulher do conto) quanto perto do seu ideal (muito, muito fantasioso) de mulher; talvez apenas pelo facto de apreciar tanto as letras das canções que se sentiu impelido a construir algo em torno delas – mas, fosse qual fosse o factor que o motivou, o que interessa agora é ter passado horas transcrevendo excertos das letras dos folhetos dos CDs para um caderno, escolhendo depois os mais adequados para cada fase do conto ou – quando não havia outra solução – moldando o conto ao material disponível.
Tenho um exemplar. Começa assim:
When you left the door was (slamming)
You paused in the doorway
As though a thought stole you away.
I watch the world pull you away.
(...)
Woman, let me in
Let me bring the memories
Woman, let me in
Let me bring in the Devil Dreams
Está acabado. Já não tenho dúvidas. Aqueles momentos de indecisão – mistura de ilusão expectante por ainda ser capaz de ter esperança, de sonhar que ainda é possível que tudo se componha, e de nojo pela falta de coragem para assumir que acabou –, esses momentos não voltarão. Estou determinado a que assim seja. Não quero reentrar no ciclo que vimos repetindo há meses – se calhar, menos abertamente, há anos. Talvez desde o início.
«És incapaz de amar alguém real!» Atiraste-me a acusação à cara ontem à noite, depois de duas horas de silêncio acusatório, em que tentei simultaneamente perceber do que era acusado e reflectir para ti a hostilidade que me atiravas. Sempre em silêncio, ou quase. Devemos ter trocado no máximo uma dúzia de frases, curtas e discretamente assassinas. Depois sim, mais tarde discutimos. Outra das nossas trocas de queixas e acusações feitas com frieza e ironia selvagem. É curioso como raramente berramos, partimos louça, atiramos objectos. Comentei-o uma vez. Disseste que não sou suficientemente emocional para esse tipo de atitudes. «O Sr. Autocontrolo...» Já não se pode sofrer em silêncio.
Não sou capaz de amar alguém real? A acusação feriu-me bastante mais do que as habituais tiradas cáusticas com que me costumavas presentear. Não havia o mínimo cinismo na acusação. Era tão pensada, tão sentida, tão definitiva, que não fui capaz de reagir. Percebeste perfeitamente o efeito que as tuas palavras tiveram. Não teres sentido necessidade de dizer mais é prova suficiente.
Relembrei aquela curta frase inúmeras vezes nas poucas horas que decorreram desde então. Com ultraje, primeiro. Eu tinha-te amado. Verdadeiramente. Talvez ainda amasse. Com dúvida, depois. Não tinham existido tantos e tantos pormenores em ti e no teu comportamento que, mesmo antes do casamento, eu fora afastando como irrelevantes? Seriam afinal importantes – cruciais, até? Com a triste certeza, enfim, de que tinhas razão nessa acusação parcial implícita dentro da tua acusação geral. Se tu és aquilo que vejo hoje, passados quase dez anos desde que nos conhecemos, então eu nunca te amei, de facto. Limitei-me a amar a imagem que me mostraste ou que eu imaginei – vai dar no mesmo e essa dúvida não é campo para acusações. Os pormenores que pareceram irrelevantes durante anos assumiram a sua exacta medida (muito ou pouco racional, não importa) pela primeira vez. A medida exclusiva. A medida que nos exclui um do outro.
E então? Se não te amei verdadeiramente, quem é que eu amei?
When I was a child
Running in the night
Afraid of what might be
Hiding in the dark
Hiding in the street
And of what was following me
Ouvi um incontável número de vezes o meu pai queixar-se, num tom de voz onde a desilusão se misturava com uma raiva nascida do desespero, que eu não era normal. «Está sempre metido em casa, encafuado no quarto, a ler e a ouvir música. Que raio de vida é essa?» A minha mãe calava-se ou dizia que eu era um bom rapaz, sem problemas na escola, à excepção dos comentários demasiado retraído; pouco comunicativo; não participa que vinham com regularidade ao lado das notas nas folhas de final de período escolar. Isso não satisfazia o meu pai. Se, até aos doze ou treze anos, a minha maneira de ser não o incomodou muito, a partir daí, sempre que tentava levar-me a sair de casa para jantares com os amigos (dele; eu não tinha amigos) ou integrado em excursões ao campo ou à praia, e eu dizia que não queria ir, ele ficava desesperado. Do meu quarto, ouvia-o queixar-se à minha mãe enquanto, no leitor de cassetes, ela cantava.
She knows that I've been doing something wrong
But she won't say anything.
She thinks that I was with my friends yesterday
But she won't mind me lying
Mmh, because: —
Mother stands for comfort
Mother will hide the murderer.
Ela parecia estar sempre a cantar, no meu quarto. Especialmente por volta dos meus catorze ou quinze anos (há uma dúzia, portanto). Isso fazia desesperar a minha mãe. «A música que tu ouves! Não podes ouvir música normal, como toda a gente?» Mas eu não era normal – não era o que me estavam sempre a dizer? E aquela era a música que eu gostava de ouvir. O presente que mais agradecia ao meu pai e que mais me levava a amá-lo, mesmo nas alturas em que ele parecia ter vergonha de possuir um filho como eu (ainda por cima, único), era o rádio com leitor de cassetes que me oferecera no meu décimo terceiro aniversário. Um rádio grande, estéreo, com um único deck, de uma qualidade que nesses anos eu tomava como sendo alta-fidelidade. Mas alta-fidelidade era a minha. Ao rádio e a ela. A minha mãe outra vez: «Ainda se ao menos tivesse uma voz bonita! Mas é horrível, esganiçada!» Eu dizia: «Não é nada. Ouve-a com atenção! E tenta percebê-la.» Esforço inútil. Até porque a minha mãe nunca falou ou percebeu inglês. Eu, pelo contrário, escolhera-o logo no quinto ano como língua estrangeira principal. E, por volta dos quinze anos, desenrascava-me já bastante bem.
Era pois com o espírito confuso que ela me defendia dos ataques plenos de angústia do meu pai. A minha auto-exclusão da sociedade, dos ritos próprios dos jovens da minha idade, faziam com que estivesse mais tempo em casa junto dela e isso era bom. Mas o meu comportamento e os meus gostos causavam-lhe a mais profunda das confusões.
Ouve, dizia eu. Não percebo, respondia ela.
I see the people working and see it working for them,
And so I want to join in, but I find it hurts me.
(...)
I want the answers quickly, but I don't have no energy,
I hold a cup of wisdom but there is nothing within
O meu pai era infeliz porque eu não era como ele. A minha mãe era infeliz porque não percebia se devia desejar que eu fosse diferente quando, sendo assim, até estava tão perto dela. Eu era infeliz porque — porque me sentia só.
O conto (uma diatribe banal e incoerente, onde se mistura o quão reconfortante pode ser o refúgio na arte com os malefícios de comparar a realidade com mundos e pessoas ideais, inexistentes fora da imaginação) prossegue até regressar ao momento da ruptura do casamento, terminando com as letras de Kate Bush sobrepondo-se a tudo o resto.
Last night, in the sky,
Such a bright light.
My radar send me danger
But my instincts tell me to
Keep breathing
Estou a ouvi-la de novo. E confesso que me conforta muito mais do que estas incoerentes linhas que escrevi por não saber de que outra forma lidar com os meus sentimentos. A sua voz pacifica-me, permite que me reconcilie comigo próprio (o ponto em que, passados os primeiros tempos, falhaste mais clamorosamente). A música acaricia-me, no seu ritmo sincopado e erótico. Quase consigo ouvir a minha mãe queixando-se de ser pouco melódica...
Take away the love and the anger
And a little piece of hope holding us together
Looking for a moment that'll never happen
Living in the gap between past and future
Take away the stone and the timber
And a little piece of rope won't tie us together
Se lesses o que escrevi achá-lo-ias ridículo. Não foi assim, dirias. Tu nunca me amaste assim, dirias. Tudo o que escreveste não passa de uma fantasia. É nisso que és bom: a inventar fantasias. A lidar com a realidade és péssimo, dirias. Nenhum emprego te satisfaz, ninguém corresponde às tuas expectativas. Serás sempre um frustrado, dirias. Frio. Insensível.
Não sou frio. Não sou insensível.
That cloud, that cloud — looks like Ireland,
C'mon and blow it a kiss now.
But quick 'coz it's changing in the Big Sky
It's changing in the Big Sky now
We're looking at the Big Sky.
You never understood me
You never really tried.
E ainda acredito que tu me amaste.
You don't want to hurt me
But see how deep the bullet lies
Unaware I'm tearing you asunder
Ooh there is thunder in our hearts
Is there so much hate for the ones we love
A música... Ela... Tão mais... palpável.
It's alright I'll come 'round when you're not in
And I'll pick up all my things
Everything I have I bought with you
But that's alright too
It's just everything I do
We did together
And there's a little piece of you
In whatever
Precisarei de dizer mais? Talvez mais isto: se não te amei (e recuso a conclusão a que cheguei antes: os pormenores foram apenas pormenores, sem qualquer importância), nunca amei alguém real, de facto, com a possível excepção da minha mãe. Achas esta confissão digna de pena? Mas quantas pessoas alguma vez amaram? Tu?
Não me faças rir.
In the ice, splitting, splitting sound,
Silver heels spitting, spitting snow
There's something moving under
Under the ice,
Moving under ice — through water
Trying to get out of the cold water
"It's me"
Something, someone — help them
"It's me"
O rapaz que escreveu o conto – um bom amigo meu, apesar dos embaraços frequentes que me causa – está hoje muito diferente. Acha ele. E eu, mas só às vezes.
De como as preocupações ambientais estão a ajudar a tornar o ambiente irrespirável
O Estado totalitário vai
chegando com a desculpa do ambiente. Quanto é que ainda vamos ter de pagar pelo dióxido de carbono que lançamos para a atmosfera ao respirar?
Domingo, 15 de Novembro de 2009
Despedida
Despede-se com «beijinhos grandes». Acho bonito e até adequado. As despedidas são frequentemente paradoxos emocionais.
Sábado, 14 de Novembro de 2009
Imagens recolhidas pelas ruas: 20

Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
O silêncio
Os homens são especialistas no não-dito. As mulheres não param de os lembrar (e acusar) disso. Há uma explicação: eles aprenderam há muito que as palavras os metem em tantos sarilhos como o silêncio. Talvez mais. Em especial quando o cansaço da relação já é indisfarçável, todas as palavras parecem erradas. Mas os homens aprenderam que o silêncio é preferível noutros ambientes, não apenas na relação com as mulheres. Na política, a gestão do discurso é essencial. Quem fala muito é pouco ouvido e contradiz-se (ou parece contradizer-se) mais. Sucedem-se os «tabus». Nas empresas, os que dizem o que pensam arriscam a acusação de falta de espírito de equipa enquanto os que mantêm o silêncio são tomados como leais. Os homens são seres simples, com reacções tipicamente pavlovianas. Por isso, como cães a que se ralha, aprenderam a triste arte do refúgio no silêncio. (Mais tarde, precisamente como os cães que, apesar das humilhações, se imaginam lobos, fantasiam tudo o que deviam ter dito.) Diz-se – uma ideia muito masculina – que quem cala, consente. É mentira: quem cala tem medo de discordar ou já não se dá ao trabalho de o fazer.
Crime para além da possibilidade de perdão

Esqueçam tudo. A corrupção, as escutas, as manobras. Há crimes muito mais graves. Ao início desta tarde, na rotunda da Boavista, circulava um Aston Martin kitado. A sério (até esfreguei os olhos de incredulidade): tinha o capot pintado de vermelho e a traseira bastante modificada. Se descubro o futebolista responsável por aquilo sou capaz de não conseguir evitar fazer justiça pelas minhas próprias mãos. Não percebi se a matrícula era portuguesa ou estrangeira. Podia ser um turista espanhol. Mas não interessa: posso muito bem dar um enxerto de porrada em futebolistas de outros países. Ou pelo menos tentar.
(Agora hesito. Parece-me que não pode ter sido verdade. É demasiado inacreditável, não é? Se calhar, sonhei. Ou terá sido uma ilusão de óptica. Já uma vez pensei estar a cruzar-me com o Antóbio Lobo Xavier e pensei: «Uau, é tão baixote!». O que é ridículo. Ele deve ter uma estatura normal. Se calhar é melhor ignorarem este post.)
(A foto foi pescada aqui.)
Culpados e inocentes
A polícia inglesa
arquivou o caso Freeport. Não terá descoberto provas suficientes de corrupção para formular acusações. Muito bem. É provável que em breve as autoridades portuguesas façam o mesmo. Em princípio, nada a apontar. O problema é que, com a justiça portuguesa no estado em que se encontra, arquivamentos já não significam inocência. Apenas
– precisamente – falta de provas (ou provas inadmissíveis). De onde resulta que a suspeição permanece. Sobre os culpados e sobre os inocentes. Os primeiros, embora finjam o contrário, não se importam (safaram-se ainda assim), os segundos não mereciam o estigma. Por cá, «justiça» é um conceito de dicionário.
Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Testemunho

Eu? Não tive hipótese. Não sou político nem administrador de um banco nem dirigente desportivo nem tenho o telefone de pessoas importantes. Resultado: apanharam-me. Estou preso há tantos anos que quase já não me lembro da vida fora daqui. Ainda hoje não sei de que fui acusado e ninguém ligou quando tentei dizer que não fizera nada de mal. Durante uns tempos protestei. Ameacei recorrer para instâncias superiores mas não me prestaram atenção: parece que não preencho certos critérios indispensáveis para o meu caso poder ser apreciado. Pelo menos sinto-me bem no fato prisional: é bonito e acho que condiz com a minha personalidade.
Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
A rapariga com a tatuagem do dragão

Li finalmente Os Homens que Odeiam as Mulheres, primeiro volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson. (Na realidade li The Girl with the Dragon Tattoo, uma vez que comprei a versão para o Kindle.) É um bom livro mas parece-me estar longe de merecer a atenção (e devoção) de que vem sendo alvo. Um aviso prévio: tentarei não revelar demasiados pormenores da trama mas quem ainda não o leu e pense fazê-lo deve fique por aqui.
Tenho de começar por admitir um erro de percepção. A partir de tudo o que lera sobre o livro imaginara um enredo caleidoscópico, carregado de suspense e de acção. Encontrei um policial quase clássico. Nada contra. Registo apenas a ligeira surpresa que senti.
1. O enredo
Há duas histórias que têm pontos de ligação mas não estão propriamente interligadas. O livro começa com Mikael Blomqvist, jornalista financeiro, editor da revista Millennium, sendo condenado por difamação. A pessoa sobre quem escreveu – o financeiro Hans-Erik Wennerström – é-nos apresentada desde o início como alguém sem escrúpulos que irá tentar levar a revista à falência. Mas, durante a maior parte do livro, Wennerström vai ter um papel secundário. Será a família Wanger, que lidera outro grupo económico, e os esqueletos nos seus armários, que ocupará a maior parte do tempo de Blomqvist e da sua aliada Lisbeth Salander, jovem pouco sociável, forçada por lei a manter um tutor que lhe administre o dinheiro e verifique que ela não se mete em sarilhos, hacker exímia, piercings na cara, tatuagens dispersas pelo corpo. O «caso Wanger» é bastante interessante. Mas convenhamos que, numa lógica de livro policial, onde as personagens mais odiosas raramente são os assassinos, há apenas duas ou três pessoas que poderiam ser as culpadas. E uma delas é mulher, o que, num livro claramente feminista, torna altamente improvável que o seja. As mulheres podem não ser perfeitas, podem ter fechado os olhos a certas coisas, mas os vilões são os homens. Isso é claro ao longo de todo o livro. Assim sendo, qualquer leitor regular de policiais não ficará surpreendido com a identidade do criminoso nem com o que realmente sucedeu a Harriet Vanger.
O «caso Wennerström» é – lamento escrevê-lo – fraquíssimo. Em primeiro lugar, Wennerström é uma personagem distante e indistinta. Isto podia servir para aumentar a sua aura ameaçadora mas apenas o torna pouco credível. Wennerström nunca surge como um oponente verdadeiramente maligno. Depois, as últimas dezenas de páginas do livro são uma espécie de libelo contra as grandes corporações. Blomqvist, apoiado em informação obtida por Salander, vinga-se e denuncia os excessos do capitalismo. Apesar do simplismo como tudo acontece (excepção feita a uma jogada arriscada, solitária e altamente improvável de Salander), tudo seria mais fácil de aceitar se Wennerström não fosse excessivamente culpado. De crimes financeiros ao tráfico de armas, passando pela inevitável violência contra as mulheres, Wennerström (uma figura secundária ao longo do livro e que, repito, nunca conhecemos) parece estar relacionado com quase todas as actividades ilícitas do planeta. Enquanto lia, eu esperava que surgisse a menção ao 11 de Setembro. Na sofreguidão da escrita talvez Larsson se tenha esquecido.
2. O estilo
Pouco há a dizer. Larsson era um escritor apenas razoável. Muito melhor quando deixava a acção explicar os acontecimentos do que quando colocava as personagens (ou o narrador) a tentar justificá-los. Dois exemplos:
- As páginas que se seguem à descoberta do culpado são excelentes. Plenas de tensão, de susto, de horror. Quando, mais tarde, Blomqvist e Salander falam sobre as motivações por trás dos crimes, a força esvai-se. Larsson não devia ter tentado explicar a maldade. Para o conseguir sem cair no lugar comum precisaria de ser melhor escritor.
- Em certos pontos da narrativa Larsson não resistiu a dar ao leitor «injecções de conhecimento». No início do Capítulo 12, depois de Salander ter sido molestada sexualmente, Larsson, cheio de boas intenções, explica como ela poderia ter agido, o que a polícia teria feito, as provas que teriam sido recolhidas e segue depois para uma descrição do funcionamento do sistema legal sueco no que à custódia de pessoas diz respeito. Talvez fosse a costela de jornalista de Larsson a vir à tona. Mas um escritor tem de conseguir introduzir a informação de modo mais subtil.
Há ainda um aspecto (quase anedótico) que me parece digno de menção: Larsson, como bom opositor das grandes corporações, coloca Blomqvist e Salander a trabalhar em portáteis da Apple. Como se a Apple não fosse ela própria uma grande corporação, com produtos mais caros do que a concorrência e sistemas operativos totalmente fechados. Não interessa, claro. Tudo é imagem e mesmo os jornalistas anti-capitalismo caem nos truques do (e alimentam o) sistema que denunciam.
3. As personagens
De forma geral, as personagens masculinas são mal conseguidas. Os homens são simpáticos ou canalhas, dedicados ou desinteressados, honestos ou patifes. Pouco mais. Mesmo Blomqvist tem pouca espessura.
De forma geral, as personagens femininas são bem conseguidas. Duas ou três são mesmo excelentes. Torna-se evidente que Larsson estava mais interessado nelas. E, em Lisbeth Salander, criou uma personagem memorável. Não é fácil consegui-lo, num género que já viu quase tudo: cocainómanos, padres, velhotas simpáticas, lordes altivos, misóginos cultivadores de orquídeas, vigaristas com sentido de justiça, detectives xenófobos, detectives homossexuais, idosos em cadeira de rodas. Salander é o ponto mais forte do livro. É também um anzol: para os muitos homens que não conseguem deixar de sentir que poderiam ser amigos e protectores de alguém assim (quase todos estão errados) e para as mulheres, que, mesmo não tendo tatuagens ou piercings, conseguem entender Lisbeth perfeitamente. Ainda que os livros valessem apenas por Salander (e, apesar de tudo, valem mais) Larsson já teria deixado algo memorável.
Tenho o segundo volume no Kindle. Lê-lo-ei um destes dias mas confesso ter menos pressa do que esperava. E agora vou desligar o computador porque, se há coisa que fica clara ao ler o livro, é que a net é um sítio perigoso.
Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Da perenidade das primeiras impressões
A quantidade de gente que acredita que as outras pessoas são apenas aquilo que lhes pareceu serem nos primeiros minutos de contacto é assombrosa e assustadora.
Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
A esmola alemã
Aproveitando um
dia em que falar da Alemanha e dos Alemães é inevitável talvez seja bom recordar que, há já mais de vinte anos (desde antes da queda do muro), os alemães (entre outros) nos suportam a incompetência, o desperdício e a corrupção. Até quando? E teremos o descaramento de nos sentirmos injustiçados quando eles fecharem a torneira?
(Por causa do euro talvez não nos deixem cair mas apenas empobrecer lentamente.)
Preto-e-branco a cores
É-me difícil pensar no muro de Berlim sem deixar a ficção sobrepor-se à realidade. É-me também difícil pensar em Berlim a cores. Mesmo antes do muro, Berlim era a cidade do «anjo azul»: Marlene, em glorioso preto-e-branco. Depois passou a ser a cidade de Alec Leamas, George Smiley e Harry Palmer. É verdade que Smiley, interpretado pelo fabuloso Alec Guiness, já nos surgiu a cores, na série de TV dos anos oitenta. Ainda assim. Na minha cabeça, Berlim (e o muro) continua a ser um cenário a preto-e-branco. Fascinante mas opressivo. Com controlos de passagem, feixes de luz varrendo as zonas de transição, homens de sobretudo nas sombras. Preto-e-branco como um sonho desconfortável. E não deve acontecer apenas comigo: alguma razão terá levado Wim Wenders a optar pelo preto-e-branco para parte do sublime As Asas do Desejo ou Steven Soderbergh a optar por um preto-e-branco fortemente contrastado para O Bom Alemão.
Todavia, ao visitar-se Berlim hoje o preto-e-branco afigura-se incompreensível. Berlim é uma cidade colorida, moderna, cosmopolita. Outros debaterão as questões políticas e económicas, as feridas mal saradas, os saudosismos deslocados. A mim impressiona-me o modo como a cidade assumiu o passado para dar um salto em direcção ao futuro. Por vezes de forma polémica: fosse eu Berlinense (e, desde Kennedy, não o somos todos um pouco?), teria provavelmente combatido algumas das opções tomadas. No fim de contas, colocar uma cúpula de vidro no Reichstag em vez de reconstruir a abóbada de acordo com as características originais é, se analisada friamente, uma opção que não pode deixar de repugnar. Todavia, perante a obra, não consigo deixar de pensar que a decisão faz sentido: não renegando o passado, escolhe-se – porque ele foi doloroso – olhar para o futuro. Há poucos meses escrevi sobre o assunto aqui e, na verdade, nada tenho agora a acrescentar.
Ou talvez só mais uma coisa, entrando afinal no campo político. Outras pessoas olham para Berlim e recordam ficção. Outras ficções, mortíferas, que não deviam ter saído do plano ficcional. As mesmas que essas pessoas lembram quando olham para Praga ou para Moscovo ou que ainda vêem em Pyongyang. Esta manhã na TSF Jerónimo de Sousa falava de «outros muros», de «forças progressistas» que incluem o PCP, de como, vinte anos depois da queda do muro, «o mundo está pior». O mundo nunca estará «bem» mas, independentemente do que possa ainda acontecer e porque a liberdade é um valor inegociável e o medo uma realidade inaceitável, ficou melhor no dia em que o muro de Berlim caiu.

Em cima do muro, preto-e-branco e cor.
Domingo, 8 de Novembro de 2009
Sorriso sabedor
Ainda alguém um dia me há-de conseguir explicar por que razão os nórdicos têm tanta tendência para os extremos musicais: a pop suave e delicada e o heavy metal. Como as condições atmosféricas são mais propícias a sossego e almofadas do que a berros e headbanging, fiquemo-nos pela pop, neste caso com balanço jazzístico. Dia 1 de Dezembro, na Casa da Música.
Sábado, 7 de Novembro de 2009
Paisagens bucólicas: 4

Rio Minho. Foto tirada de Caminha.
Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Apologia do mau tempo

Não desgosto do tempo cinzento. Nuvens baixas e carregadas, neblina, frio, vento, chuva, neve. Condições assim combinam comigo. Ou melhor: proporcionam-me uma imagem mais calorosa de mim mesmo. Fazem com que me sinta um ponto de calor perdido numa Natureza fria e hostil. E isso é agradável. Ridículo, talvez. Ligeiramente egotista. Mas agradável. Eu contra o Inverno. Molhando-me. Avançando contra o vento. Combatendo o frio nas mãos, nas orelhas e na ponta do nariz. Fintando as gripes e as constipações ou batalhando-as energicamente (bom, talvez «energicamente» seja um exagero). O tempo frio e chuvoso combina comigo porque me mostra que sou melhor do que pensava. Quentinho e acolhedor. Pelo contrário, o tempo quente não me faz sentir fresco. No Verão, eu cedo à malevolência da Natureza (temperaturas elevadas são malévolas; veja-se a habitual representação do Inferno). Transpiro, bufo, fico inerte. Quando arranjo forças para abanar uma revista à frente da cara sinto-me ridiculamente pusilânime. Como outros gestos, não passa de uma admissão de derrota. No Inverno, não. Esfrego as mãos com energia e convicção. Aqueço-as com o bafo quente que me sai dos pulmões (soprar-lhes, no Verão, é como tentar apagar um incêndio florestal com uma garrafa de quarto de litro mal cheia de água morna). Corro para evitar a chuva (no Verão, tento nem sequer me mover). Praguejo convictamente (no Verão, quando tenho forças para dizer alguma coisa, saem-me queixinhas irritantes). Sinto-me bem enfiado num sofá a ver um filme ou a ler um livro (no Verão, o próprio conceito de «sofá» é agressivo). O tempo frio é estimulante. Bom, talvez isto seja outro exagero: não o será sempre e não o será para todas as pessoas. Mas, pelo menos, é mais estimulante do que o tempo quente. O cérebro humano não tem ventoinhas suficientes para arrefecer o processador quando estão quarenta graus à sombra. Frita. Estoira. Bum! Mas aguenta bem o frio (se estiver mesmo muito frio pode entrar em modo de hibernação mas a maior parte das pessoas nem nota a diferença).
É verdade que prefiro que não haja chuva (excepto quando estou deitado ouvindo-a bater na janela; duvido que haja alguém, mesmo o mais feroz opositor do Inverno, que não goste de estar na cama a ouvi-la). A chuva, como o excesso de calor, é um acto pouco subtil da Natureza. Repare-se como ambos nos deixam encharcados (ainda assim, antes uma boa molha que o corpo liquefazendo-se em transpiração). Já o vento, mesmo forte, é-me simpático. Há irreverência no vento. Estraga-nos a compostura e isso é quase sempre positivo. O vento está-se nas tintas para os penteados arquitectónicos de certas senhoras ou para os guarda-chuvas de arqueado punho em madeira de alguns cavalheiros. Enfrentar o vento é como aquelas lutas bem-humoradas entre amigos. Às vezes exagera-se e a coisa descamba nuns murros a sério mas, geralmente, tudo se mantém dentro dos limiares do divertimento. E depois há o nevoeiro. Desagradável quando se conduz mas – e isto talvez seja demodé mas que se lixe (a aproximação do Inverno quase fez sair um impropério mais colorido) – tão incrivelmente romântico. Uma capa de mistério caída sobre paisagens conhecidas. Um detonador de melancolia benigna (quem é que consegue ser melancólico enquanto transpira e procura respirar debaixo de um Sol monótono?). Quando, há anos, fui a Londres fiquei desiludido por não apanhar pelo menos uns minutos de nevoeiro (retrospectivamente, talvez não tivesse sido boa ideia ir lá no início do Verão mas as estações do ano não podem servir de desculpa a uma cidade que se preze: há tradições – mais que não seja, literárias e cinematográficas – que, uma vez implantadas, merecem respeito.) Mesmo cá, exijo nevoeiro de vez em quando. O nevoeiro é uma mensagem da Natureza. Um pedido para que façamos introspecção. Sem grande sucesso porque, como todos sabemos, o ser humano deixou de prestar atenção à Natureza.
Podia ainda escrever sobre a neve, sobre a ondulação marítima, sobre as trovoadas (evitaria sempre o granizo, que é novamente uma manifestação demasiado agressiva e sem pinga de humor ou de poesia), mas não vale a pena alongar-me demasiado (mesmo em dias frios como os que aí vêm poucas pessoas lêem posts longos). No Inverno, a Natureza mostra que tem tomates (tomates metafóricos, sendo ela feminina) e pergunta-nos se também os temos. (Pelos comentários que ouço, parece que não.) E depois há coisa mais bonita do que a luz do Sol furando as nuvens, atravessando uma atmosfera limpa pela chuva, aplicando uma demão de verniz brilhante nos edifícios, nas estradas, nos automóveis e até nas pessoas? Um – e há muito que desliguei o detector de imagens forçadas – sorriso de parabéns da Natureza pelo estoicismo demonstrado. Mostremo-nos à altura.
Nota: este post adquire o sentido pleno ao ser lido com os dois últimos andamentos da Sexta Sinfonia de Beethoven em fundo.
Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Já que parece estar na moda discutir a Bíblia (ou: o pecado original masculino)
No Jardim do Éden, Eva ofereceu uma maçã a Adão e arcou com as culpas do pecado original. Tudo teria sido tão diferente se, apercebendo-se de que Eva tinha vontade de fruta, Adão se tivesse antecipado, oferecendo-lhe, digamos, uma banana.
Imagens recolhidas pelas ruas: 19

Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Movimentos inúteis
É como alguém que estivesse parado no deserto e de repente mudasse de lugar com grande rapidez. Compreende? A velocidade não importa porque a paisagem continua a ser a mesma.
Ernesto Sabato, em O Túnel. Edição Relógio d'Água, tradução de Francisco Vale.
Há dias em que tento não me mover ou mover-me muito devagar. Apreciar a paisagem, mesmo que não seja atraente. Ouvir. Calar. Respirar fundo. Sorrir. Porque é verdade: raramente ela muda após movimentos precipitados. Mas não me é fácil fazê-lo: deve ser necessário um grau de concentração (ou talvez de desilusão) que ainda não consegui atingir.
Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
O carreiro
Sou leitor regular (não diário mas quase) do jornal Público. Há um par de anos, quando o excelso, impoluto e visionário licenciado em engenharia que nos lidera começou a atacá-lo (verbalmente e excluindo-o das campanhas publicitárias de organismos estatais), passei a comprá-lo ainda mais amiúde: quando o poder é arrogante, mais necessárias se tornam as vozes dos que não se deixaram comprar ou ofuscar. Nos últimos meses, o Público terá cometido erros. Ter-se-á deixado usar pelos interesses (e pela falta de jeito para intrigas) do PSD e do Presidente da República. É possível que sim. Mas prefiro, de longe, um jornal que comete erros mas investiga e noticia os inúmeros casos dúbios (e «dúbio» é um eufemismo tão grande que até tenho vergonha do o escrever) da política portuguesa do que outro, que finge ser sério e isento quando mais não é do que uma versão circunspecta do Acção Socialista.
A saída de José Manuel Fernandes era inevitável. Nada em Portugal subsiste sem o beneplácito do Estado. Trata-se quase de um milagre – agradeça-se ao feitio «antes quebrar que torcer» da família Azevedo – que o Público tenha aguentado durante tanto tempo. Como no caso da TVI, isso acabou. No primeiro editorial da nova direcção perpassa algum nojo pelo passado recente. Anuncia-se uma nova etapa. Menciona-se o fundador Vicente Jorge Silva (ainda por cima para referir as críticas que ele – um ex-deputado socialista – fez recentemente ao jornal) mas evitam-se referências a José Manuel Fernandes. Não surpreende: afastamo-nos tão rapidamente quanto podemos dos que caíram em desgraça. No mundo animal, o instinto de sobrevivência tende a prevalecer sobre todos os outros. Discordei muitas vezes de José Manuel Fernandes. Considero que cometeu erros grosseiros. Mas escrevia o que pensava. Hoje, não sei (ainda?) o que é o Público. O pormenor dos editoriais passarem a não ser assinados é menor mas significativo. Escrevia alguém algures que na maioria dos países não é habitual os editoriais serem assinados. Outra pessoa ironizava com a coincidência de muitos dos que se insurgem contra o facto lerem a The Economist, onde também não são. A verdade é que a The Economist tem uma linha editorial clara. Toma posição em todas as questões importantes. Como é de resto tradição no mundo anglo-saxónico. (Mas não só: alguém tem dúvidas quanto ao alinhamento do El País ou do El Mundo?) Em Portugal, nação de pessoas cinzentas, comprometidas e cobardes, nenhum meio de comunicação se atreve a fazê-lo (excepto – quão ridículo se pode ser? – quando a política em debate é a norte-americana). A «neutralidade» (um conceito absurdo e maligno) é um mantra na comunicação social, o «respeitinho» a regra que ninguém se atreve a questionar. Com a previsível entrada do Público no carreiro dos órgãos de comunicação bem-comportados (outro eufemismo), este «ninguém» está cada vez mais pequeno.
Com o Douro por cenário: 8

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
Estrada para a alegria
Por que será que, quando ouço Conor Oberst (que entretanto deixou para trás os Bright Eyes, até por estes nunca terem sido outra coisa senão ele mesmo), cantar «I could have been a famous singer if I had someone else’s voice but failures always sounded better» me surge um sorriso melancólico (às vezes apenas mental) e acho que sei exactamente o que ele quer dizer?
Nota: vale mesmo a pena ler a letra toda.
Domingo, 1 de Novembro de 2009
Dos malefícios da poesia
Neste excerto de 2666 que Henrique Bento Fialho (que diz não acreditar no destino mas escreve como se estivesse a afogar-se nele) colocou no Antologia do Esquecimento, Bolaño refere um dos papéis tradicionais da poesia: estimulante sexual. O uso da lírica nas conquistas amorosas é amplamente referido na história da literatura (talvez de forma excessiva e, amiúde, caricatural mas isso não é muito importante agora). Há quem descubra outras utilizações e detecte outras consequências. Em Os Testamentos Traídos,(1) Kundera escreveu: «Depois de 1948, ao longo dos anos da revolução comunista no meu país natal, compreendi o papel eminente que desempenha a cegueira lírica no tempo do Terror que, para mim, era a época em que “o poeta reinava ao lado do carrasco” (A Vida Não É Aqui). Pensei então em Maiakovski; para a Revolução Russa, o seu génio fora tão indispensável como a polícia de Dzerjinski. Lirismo, liricização, discurso lírico, entusiasmo lírico fazem parte integrante daquilo a que se chama o mundo totalitário; esse mundo não é o gulag; é o gulag cujos muros exteriores estão atapetados de versos e diante dos quais se dança.» Depois de, na juventude, também ter escrito poesia alinhada com o regime comunista, Kundera tentou sempre evitar o entusiasmo (e o sentimentalismo) excessivo. A Vida Não é Aqui, mencionado acima, é todo ele um libelo contra os perigos do lirismo: o jovem poeta Jaromil (um alter-ego de Kundera?), inebriado pela revolução Checa de 1948 (em grande medida, por influência de poetas e pintores vanguardistas), tem atitudes (p. ex., forçar a namorada a denunciar o irmão que tenciona fugir do país) para as quais arranja justificações que só fazem sentido à luz desse inebriamento. Para Kundera, não há compromissos no lirismo. Como Jaromil explica à namorada: «O amor quer dizer tudo ou nada. O amor é total ou não é amor. Eu estou deste lado e ele está do outro. Tu tens de estar comigo e não num sítio qualquer a meio caminho entre nós.»(2) Noutro ponto do livro, Kundera escreve: «A poesia é um território onde toda a afirmação se torna verdade. O poeta disse ontem: a vida é inútil como uma lágrima, hoje diz: a vida é alegre como riso, e tem razão nos dois casos. Diz hoje: tudo acaba e se afunda no silêncio, dirá amanhã: nada acaba e tudo ressoa eternamente, ambas as coisas são verdade. O poeta não precisa de provar nada; a única prova reside na intensidade da sua emoção.»
Com a sua tendência para a análise e para a racionalidade não é de estranhar que Kundera se tenha afastado progressivamente do romance (e o romance de Kundera foi desde início – o fabuloso A Brincadeira – um romance analítico, que conquista o leitor pelo poder da revelação e da compreensão) em direcção ao ensaio. Nem que, depois de ver A Insustentável Leveza do Ser adaptado ao cinema (com resultados bastante razoáveis, diga-se), tenha feito um esforço consciente para escrever livros impossíveis de filmar.
Como Kundera, Bolaño mergulhou na poesia ainda muito jovem. (Será a juventude crucial para que seja possível alguém apaixonar-se cegamente pela poesia, como parece sê-lo para que se abracem entusiasticamente ideiais revolucionários?) Mas, enquanto Kundera viveu uma ditadura de esquerda, Bolaño fugiu de uma ditadura de direita. E, porque o lirismo e a utopia estão muito mais próximos da esquerda do que da direita, a crença na salvação pela poesia (o que procuram os «realistas viscerais» em Os Detectives Selvagens senão uma forma de substituir a realidade existente, mesquinha e prosaica, por uma nova, nascida da arte e da utopia?) pareceu viver nele durante anos. A poesia enquanto literatura mas também a poesia enquanto revolução política (Bolaño foi Trotskista, tendo mantido contactos com organizações como a Frente Farabundo Martí, de El Salvador). Mas talvez também ele tenha percebido que as consequências do lirismo, do entusiasmo excessivo, podem ser nefastas. Afinal, acabou a escrever prosa, assombrado por visões do Mal e do papel que a Arte desempenha nas suas manifestações.
(1) Edições Asa, 1993, tradução de Miguel Serras Pereira.
(2) Edições D. Quixote, 1990 (1ª edição), tradução de Miguel Serras Pereira.
Sábado, 31 de Outubro de 2009
Os homens preferem não falar de certas coisas
É sabido mas ainda assim apeteceu-me escrevê-lo, entrando nos territórios do Pedro Lomba, até por discordar parcialmente do que ele escreveu aqui (e que vi primeiro transcrito pela Margarida, aqui). A amizade feminina faz-se de palavras e de troca de informação. As mulheres sabem tudo da vida umas das outras. O que acontece, o que sentem, de quem é a culpa (dos homens, dos filhos, de outras mulheres). A amizade masculina vive tanto de palavras como de silêncios. De cumplicidade que não exige troca de informação. As discussões são sobre futebol, carros e mulheres mas, neste caso, raramente sobre as mulheres com quem são casados. Para os homens, mesmo os bons amigos, as confidências são um embaraço. São algo a enfrentar com um trejeito de compreensão, uma palmada nas costas e frases como «É pá, nem sei o que te diga» ou «Esquece isso, anda experimentar o meu carro novo». Os homens não querem verdadeiramente saber detalhes e não precisam de compreender as razões dos amigos para os apoiarem.
É por isso que considero a frase «desta vez mete-te na vida dele; faz perguntas; as pessoas gostam que lhes façam perguntas» só parcialmente verdadeira. Perguntas sobre os interesses comuns, sim. Toda a gente gosta de falar acerca do que aprecia e gosta de saber que outras pessoas estão interessadas nos mesmos assuntos (e, mais ainda, em ouvi-las). Assuntos íntimos, dolorosos, embaraçosos: os homens preferem não os discutir (ou fazem-no apenas com amigos muito, muito especiais, que a maioria nem sequer tem). Mas uma das vantagens da amizade sobre as relações amorosas é poder fazer-se essa opção.
Gosto mais de praias desertas: 4

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
Generalização abusiva
A mente analítica, direccionada, formalista (por vezes roçando o autismo) dos homens permite-lhes manter, quando se dedicam a escrever sobre emoções, um controlo e uma clareza que, com frequência, faltam às mulheres. Não por acaso, mesmo nas últimas décadas, de maior equilíbrio entre os sexos, há mais grandes escritores do sexo masculino do que do feminino. Sendo homem, gostaria de acrescentar que estou consciente de que a primeira frase é uma generalização (na realidade, três, ou, atendendo ao «com frequência», talvez duas e meia) e de que as generalizações são sempre injustas para alguém (por exemplo, para a Agustina Bessa-Luís, que fez 87 anos no passado dia 15 sem que eu o tivesse assinalado).
Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Astérix: celebração e lamento

Astérix faz hoje cinquenta anos. Para ser sincero, nunca me pareceu ter menos. Não comprei qualquer dos livros saídos depois da morte de Goscinny e já não leio os que tenho há muitos anos mas o simples nome é suficiente para me suscitar um sorriso ao lembrar as gargalhadas da juventude. Para celebrar o aniversário há um novo álbum que parece não ser mau. Mas leio que, de há uns tempos a esta parte, alguns dos nomes originais foram «aportuguesados». E não de forma subtil. Assuranceturix passou a Cacofonix e – custa-me até escrevê-lo – o chefe Abraracourcix a Matasétix. A noção do ridículo anda pelas ruas da amargura e a tendência para eliminar qualquer possibilidade de mistério e estranheza (no fundo, de uso do cérebro) continua em alta. Transformámos os irredutíveis e orgulhosos gauleses em personagens de Os Malucos do Riso.

(Imagens retiradas do site oficial.)
Coelho saltitante
Ontem, na entrevista ao programa Negócios da Semana, da SIC Notícias, Pedro Passos Coelho defendeu que o Estado tem de reduzir os gastos (não disse como) e que os funcionários públicos têm de ser aumentados em 2010 porque não têm culpa de que o Estado não tenha ainda reduzido os gastos. Sou só eu a ver aqui uma – como direi? – contradição? Passos Coelho afirmou ainda que o sector privado é livre de fazer o que entender. Claro que sim. Exige-se-lhe apenas (mas Passos Coelho não o disse nem o pensa porque tem uma visão liberal da economia) que continue a pagar a conta.
Indecisão
A ideia de publicar um novo post esbarra-me na vontade de ser recebido pela fotografia do anterior ao entrar no blogue.
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Aviso tardio

«Se estais inocente, não me lereis; se estais corrompido, ler-me-eis sem quaisquer consequências.»
Diderot, in Jacques, O Fatalista.
Edição Tinta-da-China, tradução de Pedro Tamen.
Aceitam-se apenas os corrompidos. Se está inocente, é favor procurar outro blogue.
(Nota: A foto foi acrescentada já depois do post ser publicado. Diderot, que era um malandreco, certamente aprovaria e, tendo-a recolhido para este outro post, seria um crime desperdiçá-la.)
Os gráficos dos chefes

Os chefes gostam de gráficos. (Também gostam de tabelas mas gostam mais de gráficos.) A realidade só é real quando expressa em gráfico. Não vale a pena avisar um chefe de algo. Enquanto um gráfico não lhe transmitir a informação, ele não acreditará ou, pelo menos, nada fará. E quando o gráfico lhe mostrar que tem de agir, ele fá-lo-á porque o gráfico não lhe parece bem. Não tem a curva certa. Na verdade, a realidade por trás da curva é quase irrelevante. Por exemplo, quebras nas vendas são chatas não por gerarem menos receitas mas por inverterem a curva ideal que – aprendem os chefes nas melhores escolas de gestão ou por osmose logo que assumem cargos de chefia – os gráficos de vendas devem ter. Alguns, e não tão poucos assim, sentem certamente uma enorme vontade de pedir aos subordinados que lhes invertam as curvas desagradáveis de certos gráficos, após o que tudo ficaria bem outra vez. Quem não é chefe e tiver que escolher entre fazer algo importante para a empresa ou um gráfico para o chefe, não deve hesitar porque ele nunca terá dúvidas acerca das prioridades: o gráfico terá sempre precedência. Nas empresas modernas, os gráficos são a coisa mais bonita que existe.
(Gráfico retirado daqui. E eu gosto mais de laranjas.)
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Too busy to blog



Não resisti, claro. Justificação racional: índice de aproveitamento do espaço bastante atractivo para quem está prestes a deixar de jantar sentado a uma mesa por tê-las todas cobertas com livros de papel. Justificação realista: pura curiosidade. O que seria de um homem sem a tendência para os gadgets? Mas atenção: não gosto de quaisquer gadgets. Têm que me permitir desenvolver os meus interesses. Gosto de computadores, de televisores, de aparelhos de som, de máquinas fotográficas. Dão-me informação, prazer e/ou, dentro de limites que têm mais a ver comigo do que com os aparelhos em questão, permitem-me ser criativo. Estou-me nas tintas para telemóveis. (Sim, eu sei que o Jorge Colombo faz capas lindíssimas para a The New Yorker com um iPhone mas eu só consigo usar os telemóveis para coisas prosaicas e por isso não lhes ligo nenhuma; mais: irrita-me quem liga.) Estou-me razoavelmente nas tintas para relógios. (Alguns são belíssimos e têm mecanismos fascinantes mas não me expandem os horizontes, antes me prendem a compromissos; não uso relógio de pulso há mais de dez anos – para quê, se tenho um no telemóvel?) E depois, claro, tenho aquela incapacidade genética associada ao cromossoma Y para apreciar ou entender aparelhos como máquinas de lavar e os seus programas para roupa delicada. (Se nem sequer sei separar roupa escura de roupa clara: afinal, t-shirts pretas podem ou não ser lavadas juntamente com t-shirts brancas? E se forem cinzentas? Estou perfeitamente convencido de que os fabricantes de equipamento de linha branca contratam apenas engenheiras ou, vá lá, homens particularmente em contacto com o seu lado feminino. Ou vão dizer-me que é por acaso que a Whirlpool arranjou uma tecnologia qualquer chamada «sexto sentido»? A que homem é que ela se aplica?)
Mas estou a divagar outra vez. E, ainda por cima, não disponho de tempo para isto. Tenho de ir às compras (uma actividade que não me desagrada desde que possa comprar coisas que me interessam; sapatos, tenho três pares). Felizmente a Amazon está aberta toda a noite. Hmmmm, os poemas completos da Emily Dickinson por três dólares e quarenta e quatro...
P.S. (crítica rápida): Como dá para ver, os screen savers são belíssimos. E o aparelho funciona bem, apesar do tom de cinzento do ecrã ser mais escuro do que eu esperava. Contudo, o ponto mais irritante é que, por questões de direitos, muitos livros estão apenas disponíveis para o mercado americano. Boooooo...
Auto-retrato
Na sequência do post anterior, o tipo de retrato a que o meu cérebro acha piada. Entretém-se a descontar uns quantos centímetros no comprimento das minhas pernas e, ainda assim, tem vertigens de tão alto que se sente.

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Espelho meu
Nos corredores de acesso às casas de banho do MarShopping há uns espelhos que deformam o que reflectem. Um rapaz, baixote e gorducho, com cabelo à escovinha e ar tristonho, entretinha-se a dar passos para a frente e para trás, para a direita e para a esquerda, analisando, sem um indício de emoção no rosto, a figura que os espelhos lhe devolviam. Perguntei-me se tentaria encontrar a perspectiva mais incongruente (mas então por que não se lhe vislumbrava um sorriso?) ou aquela que o tornasse mais alto e magro. Tive vontade de parar e ficar a observá-lo mas passei por trás dele, em passo rápido e sem olhar para o espelho. Não por recear ver-me horrivelmente deformado. O meu cérebro (um ditador ultra-analítico) está tão consciente de que aqueles espelhos alteram o aspecto das pessoas que temia muito mais deparar-se com um tipo esbelto, atraente e exsudando confiança. Por isso não me deixou olhar. Quanto ao rapaz, lá ficou, talvez à espera que a namorada regressasse da casa de banho, talvez a tentar descobrir quantas alterações seriam necessárias para atingir a aparência do Cristiano Ronaldo. (Muitas.)
Domingo, 25 de Outubro de 2009
Professor Marcelo, cartoons e ser conhecido pelo primeiro nome
Estive a ver o programa do Professor Marcelo. Enquanto ele perorava entusiasmado sobre coisas certamente muito importantes eu pensava que ser conhecido pelo primeiro nome é algo que poucos humanos conseguem. Ser identificado pelo apelido já é alguma coisa mas existem abundantes exemplos de gente que o conseguiu: Cavaco, Sócrates, Guterres, Soares, Eanes, Sampaio, Futre, Figo, Saramago, Cesariny. Impor o primeiro nome é raríssimo. Por cá, para além do Marcelo só me recordo do Herman e, prova de que, sendo difícil, pode suceder mesmo com nomes próprios banais, d’O Zé (sendo que, neste caso, o artigo faz toda a diferença). Conseguir ser conhecido por um único nome, mesmo que seja o apelido, é transformar o nome em alcunha. É criar um nome artístico, como «Elvis», «Madonna» ou «Bono» (os músicos parecem ter uma queda particular para nomes com uma única palavra), sem mudar o nome que efectivamente se tem.
Mas ser conhecido pelo primeiro nome é verdadeiramente especial. É atingir o estatuto de cartoon. Repare-se: Mickey, Minnie, Donald, Pluto, Porky, Bugs, Ratatouille, Heidi, Popeye, Astérix. Poucas personagens da banda desenhada ou do cinema de animação precisam de um apelido. Quando muito, que seja especificado o tipo de animal que são (rato, pato, coelho), presumivelmente para afastar eventuais dúvidas decorrentes da imprecisão ou da excessiva criatividade do traço do desenhador. Este cuidado é dispensável nos seres humanos (mesmo o Professor Marcelo parece indubitavelmente humano*). Porém, há cartoons que vão mais longe do que algum humano pode sonhar, dispensando totalmente um nome. A Pantera Cor-de-Rosa consegue ser identificada pela cor (o Blue Man Group é um esforço meritório no mesmo sentido mas não identifica verdadeiramente humanos, antes os cartoons que eles representam), o Professor Pardal é apenas um título académico e uma espécie de pássaro, e o Diabo da Tasmânia atinge a proeza de ser único tendo um nome que designa toda a sua espécie.
Apesar de o ter escrito no primeiro parágrafo, apercebo-me agora que impor o primeiro nome não é assim tão raro. Na música (onde, já o vimos, muita gente é conhecida por um único nome), mais especificamente no subgénero pimba, a utilização do primeiro nome é comum. Emanuel, Ágata, Romana, Toy, Clemente, Micaela. Claro que muitos destes são nomes artísticos e não nomes verdadeiros. Ainda assim, demonstram que há qualquer coisa de popularucho no uso isolado do primeiro nome. O «Herman». «O Zé». Talvez por isso, Marcelo, como tantos e tantos cartoons fizeram com a designação da espécie a que pertencem, tenha tido o cuidado de arranjar e impor o «Professor». Nem ele nem o Professor Pardal gostariam certamente que os considerássemos pimba.
* Quando muito, o Professor Marcelo poderá ser confundido com um novo passo na evolução do ser humano, um homo sapiens sapiens sapiens.
Sábado, 24 de Outubro de 2009
Paisagens bucólicas: 3

Ilha de Skye, Escócia.
Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Planeta Oscar Wao

Não sei se em alguma das muitas críticas escritas nos últimos meses acerca de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao alguém usou o trocadilho. Se ninguém o fez, foi por pudor de ser tão óbvio. Eu não o tenho. Uau.
À primeira vista, a história de Oscar não é assim tão extraordinária. É apenas um miúdo bestialmente gordo, com uma atracção tão grande por raparigas quanto a repulsa que elas sentem por ele, apaixonado por banda desenhada de ficção científica, fantasia e super-heróis (existirá alguma rapariga algures no planeta que aprecie rapazes interessados em banda desenhada de super-heróis?), que vai passar a sua breve vida entre a República Dominicana e os Estados Unidos. Porquê a República Dominicana? Porque Oscar é dominicano. E isso faz toda a diferença. Desde logo, um dominicano que não tem jeito para conquistar raparigas é visto como uma verdadeira aberração pelos outros dominicanos, familiares de Oscar incluídos. Depois, a história da família de Oscar – e, por conseguinte, a dele – parece decorrer sob o signo do fukú, «a maldição e a condenação do Novo Mundo». Numa espécie de pecado original, «acredita-se que a chegada dos Espanhóis a Hispaniola* soltou o fukú no mundo, e temos todos estado enterrados na merda desde essa altura». A história da República Dominicana abunda com exemplos de fukú mas as gerações imediatamente anteriores à de Oscar tiveram de enfrentar um período em que ele se mostrou particularmente activo: a ditadura militar de Leónidas Trujillo, «El Jefe, o Ladrão de Gado Falhado e o Cara de Cu». (Mario Vargas Llosa abordou o período no excelente e sufocante A Festa do Chibo mas o narrador de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao acha que ele foi magnânimo, pelo menos no que respeita a uma das personagens ligadas ao regime.) Na verdade, «ninguém sabe se Trujillo era um servidor da maldição ou o seu mestre, um seu agente ou o seu chefe, mas era evidente que ele e ela tinham um qualquer tipo de entendimento, que havia um empate entre os dois». E é no ambiente do Trujillismo, com o fukú à solta no país, que a história da família de Oscar é contada, em capítulos intercalados com os que contam a história do próprio Oscar. Porque, apesar de Trujillo já estar morto quando Beli, a mãe de Oscar, é forçada a trocar a República Dominicana pelos Estados Unidos e durante toda a vida de Oscar, tudo tem a ver com uma mentalidade que Trujillo encarnava na perfeição: a dos homens «machos» (tão mais «machos» quanto o poder que possuem e os capangas que têm à disposição), violentos, que não aceitam afrontas, reais ou imaginadas. É num mundo assim que todas as histórias se desenrolam. A do avô de Oscar, um médico bem instalado na vida que arrisca tudo na tentativa de proteger a filha mais velha da cobiça de Trujillo. A da mãe de Oscar, uma rapariga atraente («pulposa» talvez fosse mais visual e mais correcto) que se envolve com o homem errado. E a do próprio Oscar, provavelmente o dominicano menos de acordo com esta ideia de «macho» que já pisou Hispaniola. A parte «assombrosa» da vida de Oscar está precisamente nesta incongruência e no desafio (consciente, teimoso) que, na parte final do livro, faz ao fukú, em nome de algo que julgara impossível durante tantos anos. Adivinhem quem vence.
Junot Díaz é dominicano e andou onze anos a escrever o livro. Considerando toda violência que incluiu (os campos de cana de açúcar nunca mais serão vistos da mesma maneira), poderia ter escrito um livro sério, pesado, deprimente. A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao é tudo menos isso. É um livro escrito num estilo leve e irónico, onde a tragédia se cruza com a hilariedade. Onde a violência é encarada com a naturalidade de um traço familiar, inato e inevitável. Como a melancolia portuguesa, a rigidez britânica ou o espalhafato italiano.
E, porque mais vale acabar com um sorriso, um excerto que relata os esforços do companheiro de quarto de Oscar na universidade para conseguir que Oscar emagreça (um companheiro contrariado, que, como bom dominicano, está a ajudar Oscar apenas por lhe querer conquistar a irmã): «Não consigo mentir: das primeiras vezes, quase me parti a rir vendo-o a bufar, todo chateado, pela George Street abaixo, aqueles joelhos negros como carvão todos a tremerem. Mantendo a cabeça baixa para não ter de ouvir ou ver todas aquelas reacções. Habitualmente, apenas algumas casquinadas e algum extraviado bucha. A melhor que ouvi? Olha, mamã, aquele tipo está a levar o seu planeta a dar uma corrida.» O planeta Oscar Wao. Onde vivem todos os rapazes gordos, tímidos e desajeitados, todas as pessoas que os gozam e maltratam, mas também todas aquelas que eles amariam com devoção se lhes fosse dada oportunidade.
* Ilha que compreende a República Dominicana e o Haiti. O livro é muito claro sobre o «carinho» que os dominicanos sentem pelos haitianos. Trujillo destestava-os e, em 1938, ordenou um ataque fronteiriço que terá morto entre 20 mil e 30 mil haitianos. Como é sabido, o Haiti responderia à ditadura dominicana com uma quase tão «simpática», liderada por «Papa Doc» Duvalier. (Esta nota tem uma finalidade: A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao está cheio de notas de rodapé neste estilo. Só que com mais piada.)
A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz.
Porto Editora, tradução de Victor Cabral.
Movimentações militares
A1, zona de Leiria, cerca das quatro da tarde. Uma longa coluna militar deslocava-se para Norte. O semblante dos rapazes sentados nos camiões era pesado. Cansaço, provavelmente. Mas podia também ser apreensão: talvez os militares estejam a tentar afastar-se tanto quanto lhes for possível de Santos Silva, o novo Ministro da Defesa.
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Pessoas de quem não gostamos
Há pessoas com quem não nos apetece estar. Não lhes temos ódio ou qualquer outro sentimento «forte». Há apenas algo que nos retrai e afasta delas. Consideramo-las frívolas, ou tagarelas, ou demasiado carentes. Mas por vezes, depois de, contrariados, termos passado algum tempo com elas (num almoço ou num jantar, num encontro fortuito na rua ou num café, numa reunião familiar) surpreendemo-nos ao chegar à conclusão de que não custou tanto como receávamos e até de que apreciámos aqueles momentos. Reconhecemo-lo com uma vergonha ligeira, pela injustiça que cometemos mas também pela cedência a que somos forçados: não é agradável que pessoas de quem decidíramos não gostar nos mostrem que não tínhamos razões válidas para o fazer. E, por isso, continuamos a não ter vontade de estar com elas.
Imagens recolhidas pelas ruas: 18

Definições politicamente incorrectas (versão séc. XIX)
Para rematar o assunto Saramago (a sério; é desta), não resisto a acrescentar mais umas quantas definições do velho e cínico (mas já lá vamos) Ambrose Bierce, um dos mais célebres desaparecidos da história da literatura (e do jornalismo), que aos setenta e um anos ainda tinha energia para ir espreitar a revolução mexicana mas já não para (provavelmente) se desviar de uma bala. Crentes de qualquer religião sem poder de encaixe e sentido de humor é favor absterem-se; a sério; por favor.
Escrevinhador, n. Um escritor profissional com opiniões contrárias às nossas.
Escrituras, n.pl. Os livros sagrados da nossa santa religião, que se distinguem dos escritos falsos e profanos em que se baseiam todos os outros credos.
Fé, n. Crença, não baseada em provas, no que é contado por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo.
Idólatra, n. Indivíduo que professa uma religião na qual não acreditamos, com um sistema simbólico diferente do nosso. Uma pessoa que dá mais importância a uma imagem num pedestal do que a uma imagem numa moeda.
Igreja, n. Um sítio no qual o padre adora Deus e as mulheres adoram o padre.
Padre, n. Um cavalheiro que afirma conhecer o caminho mais rápido na estrada para o Paraíso, querendo aí cobrar portagem.
Religião, n. Uma filha da Esperança e do Medo, que explica à Ignorância a natureza do Desconhecido.
Rezar, v. Pedir a abolição das regras do universo, em benefício de um único requerente, confessadamente indigno.
Como prometido:
Cínico, n. Um malandro cuja visão deficiente lhe apresenta as coisas como elas são, não como deviam ser. Daí o costume, entre os Cítios, de arrancar um olho ao cínico para melhorar a sua visão.
E, para rematar (mas vale a pena comprar o livro; é deliciosamente divertido e, ainda por cima, belíssimo), uma das muitas de que gosto particularmente e que, andando por estes dias a escrever tão pouco sobre política (alguém colocou o país em «pausa»?), dedico aos nossos queridos governantes:
Dissimular, v.i. Vestir uma camisa lavada por cima do carácter.
Ambrose Bierce, in «Dicionário do Diabo».
Edição Tinta-da-China, tradução de Rui Lopes.